Wednesday, January 03, 2018

Operação resgate da moral



Pedro J. Bondaczuk


O acontecimento marcante de outubro foi, sem dúvida nenhuma, a revelação do maior escândalo de corrupção da história brasileira, que veio à luz em virtude das denúncias feitas pelo economista José Carlos Alves dos Santos, sobre a existência de uma quadrilha de criminosos de colarinho branco, composta por deputados, senadores, ministros, ex-ministros e empreiteiras, para fraudar o Orçamento da União.

Fatos estarrecedores dos bastidores da política brasileira foram despejados aos borbotões pelos meios de comunicação, gerando revolta, desencanto e ceticismo acerca da punição dos culpados. O Congresso instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito e promete limpar a instituição de maus elementos, dos escroques, dos ladrões do povo, para conquistar credibilidade.

A crise, todavia, tem um aspecto positivo, na medida em que dá oportunidade a que se ponha um basta definitivo nessa onda de imoralidade e cinismo que há anos varre o País. O ex-secretário nacional de Política Econômica, Roberto Macedo (que é professor da Universidade de São Paulo, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e do Instituto Fernando Braudel de Economia Mundial), ressaltou, num artigo publicado em 28 de outubro no jornal “O Estado de S. Paulo”, o lado bom da coisa má.
Escreveu: “Albert Hirschman, mundialmente conhecido pela sua análise do processo de desenvolvimento econômico, nas suas aulas em Harvard costumava enfatizar que as crises e outros obstáculos, que se apresentam nesse processo, são frequentemente bênçãos disfarçadas, pois o esforço de superá-los pode colocar o país numa situação melhor”.

Tomara que ele tenha razão. Até porque, pior do que está é difícil de ficar (embora nossos homens públicos, os maus, evidentemente, sejam tão criativos que conseguem deteriorar ainda mais aquilo que já está podre). O crime dos envolvidos no “esquema do Orçamento”, ou seja, da quadrilha de escroques, é hediondo.

Um dos subterfúgios utilizados para embolsar enormes somas (em dólares) foi a manipulação de verbas destinadas a entidades sociais. Ou seja, os ladrões de casaca, sob o pretexto de fazer filantropia, praticaram a mais desavergonhada “pilantropia”. Ou seja, exercitaram a pilantragem explícita, às custas da desgraça de milhões de brasileiros.

Há quem apregoe que, diante desse escândalo, o melhor que se faria seria fechar o Congresso. Insensatos não nos faltam! Ora, se foi a democracia, a liberdade de imprensa, a ausência de censura que permitiram a revelação dessa e de outras falcatruas, como pregar o golpismo?!

O fechamento do Legislativo seria a implantação de uma ditadura! Será que os defensores do retrocesso político não se deram conta que os maiores roubos ocorreram quando os meios de comunicação precisavam se submeter à vigilância de censores para informar os cidadãos?

O indispensável é que a opinião pública exerça pressão sobre a CPI, para que ela apure a fundo todos os fatos. E, principalmente, que os envolvidos, não apenas nesse escândalo (mas principalmente eles), mas todos os demais que roubaram o erário, fraudaram o Tesouro e abusaram da boa fé da população, paguem pelos seus crimes. Esta crise pode, realmente, ser uma bênção se a sociedade brasileira aproveitá-la para uma completa regeneração de costumes.

O País tem uma oportunidade rara, raríssima, de redenção política. A chance não pode ser desperdiçada, sob pena da emergência de um caos social. Podemos sair da beira do abismo para escalar o cimo do Olimpo. Basta que haja honestidade e vontade de consertar.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, da Folha do Taquaral, em novembro de 1993)



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