Sunday, May 31, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Deixamos, via de regra, de conquistar nossos ideais não porque lhes falte legitimidade (que quase nunca falta), mas por sermos inconstantes e desistirmos dessa longa corrida tão logo surjam os primeiros obstáculos. Claro que são poucos os que sequer admitem essa tibieza e falta de disciplina. É nisso, porém, que os verdadeiros heróis se distinguem dos que não são: são centrados, determinados, inflexíveis e não se desviam nunca dos objetivos traçados. Constância é a palavra-chave dos vencedores, seja qual for o desafio que encarem. O filósofo Ralph Waldo Emerson fez a seguinte constatação a propósito no livro “Considerations by the way”: “A corrida é longa, e o ideal, legítimo, mas os homens são inconstantes e incertos. O herói é aquele imovelmente centrado. A principal diferença entre as pessoas parece ser a de que um homem é capaz de se sujeitar a obrigações das quais podemos depender – é obrigável – ; e outro não é”.
Desejo-lhe excelente fim de semana, de amor e de paz.

DIRETO DO ARQUIVO


Malásia tem ingredientes para uma guerra civil


Pedro J. Bondaczuk


A Malásia, a exemplo de tantos Estados nacionais criados artificialmente, frutos da divisão aleatória do mundo pelos colonizadores, é uma colcha de retalhos étnica. Três grupos, porém, se destacam, compondo 92% dos seus pouco menos de 16 milhões de habitantes: os malaios (48%), os chineses (33%) e os indianos (11%).

O poder, desde a formação dessa federação, em 1957 (reformulada em 1966), está nas mãos dos nativos da Península, tidos no passado como terríveis guerreiros, que deram à Ásia os mais sanguinários e temíveis piratas que o continente já teve. Desde 1948, guerrilheiros comunistas lutam em busca do poder, embora em 1960 eles tivessem recebido um "xeque-mate" em suas pretensões, numa batalha decisiva, em que foram derrotados.

Se o domínio político é da etnia majoritária, o econômico não pertence a ela. Os descendentes dos imigrantes procedentes da China ocupam, virtualmente, todos os setores-chaves da economia da Malásia, por sinal, bastante próspera. Afinal, o país tem uma renda per capita anual de cerca de US$ 1.700 (pouca coisa abaixo da brasileira), um Produto Interno Bruto superior a US$ 25,5 bilhões, para uma dívida externa insignificante, de US$ 1,25 bilhão. É, também, o maior produtor mundial de óleos vegetais e de estanho, além de possuir refinarias, plantações de borracha e outras riquezas mais. Quase tudo em mãos dos chineses.

O atual primeiro-ministro, Mahatir Mohamad, quer reverter exatamente isso. Além do poder político, deseja também o domínio econômico para os "bumiputras", que é como a etnia majoritária é conhecida por ali. O outro lado, evidentemente, deseja tudo aos contrário. Quer fazer valer a força do seu extraordinário tino comercial para render dividendos em termos de conquista de posições de relevo na direção do país. O premier, no entanto, sofreu, recentemente, duros golpes em seu empenho. A Malásia é uma monarquia cujo trono é rotativo. A cada cinco anos, um novo rei é eleito, entre os sultões de seus nove sultanatos.

Na última escolha, feita em 1984, venceu o de Jahore, Tunku Mahmud Iskander ibn al-Marum. Acontece que ele é dos tais que não se contentam com o papel meramente protocolar do seu cargo. Deseja reinar absolutamente e vem avançando, desde então, em parcelas de poder do primeiro-ministro.

A oposição, dominada por chineses e indianos, está unida. Perfaz, portanto, 44% da população. Está aí um belo ingrediente para uma guerra civil, que mais cedo ou mais tarde, fatalmente, vai acabar acontecendo na Península Malaia. Não há como conciliar interesses tão antagônicos.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 29 de outubro de 1987).

Saturday, May 30, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A consciência é uma espécie de espelho, ao qual recorremos, com freqüência, apenas quando nos consideramos “belos”. Ou seja, quando achamos que somos nobres, justos e bondosos. Em caso contrário... evitamo-la. E quando sentimos algum remorso, que é um dos aspectos da consciência, buscamos logo nos livrar dele, calando sua voz por todos os meios que conhecemos. Deveríamos, contudo, consultá-la diariamente, como fazemos, aliás, com os espelhos de verdade. Machado de Assis fez uma constatação bastante interessante a esse propósito, no romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Escreveu a respeito: “Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá uma certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consciência é a mesma coisa; remira-se, amiúde, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda”. E ele não está certo?

Soneto à doce amada - XXIV


Pedro J. Bondaczuk

Você partiu. Meus versos cessaram.
Já nem consigo escrever sequer.
Poemas e poemas restaram
esquecidos num canto qualquer.

Você partiu. Negou-me o perdão.
Desconsiderou meus sentimentos.
Matou-me o encanto, a inspiração
e a lembrança daqueles momentos

ímpares e de intensa magia
que protagonizamos um dia,
ébrios de ilusões e de esperança.

Volta! Devolva-me a confiança,
sonhos inocentes de criança,
beleza, encantamento e poesia!!

(Soneto composto em São Caetano do Sul, em 7 de outubro de 1963)

Friday, May 29, 2009

REFLEXÂO DO DIA


O filósofo Blaisé Pascal condena o divertimento, que classifica de “maior das nossas misérias”. Da minha parte, entendo que, desde que moderado, ele é não somente válido, como necessário. Trata-se de uma pausa em nossa luta para construir uma vida exemplar e produtiva, que justifique, principalmente, nossa existência e nos marque na memória da nossa e das futuras gerações. Há, é claro, os que exageram. Despendem todo o tempo de que dispõem em diversões muitas vezes tolas e que sequer divertem tanto assim, em detrimento da evolução material, mental e, sobretudo espiritual. O eminente filósofo escreveu o seguinte, a respeito, em seu livro “Pensamentos”: “A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e, contudo, é a maior das nossas misérias. Porque é isto que nos impede, principalmente, de pensar em nós, e que nos faz perder, insensivelmente. Sem isso, estaríamos no tédio, e este tédio nos levaria a procurar um meio mais sólido de sair dele. Mas o divertimento distrai-nos e faz-nos chegar, insensivelmente, à morte”.

Enigmas sem decifração


Pedro J. Bondaczuk

O amor entre um homem e uma mulher é um enigma indecifrável que, quanto mais procuramos decifrar, mais e mais nos emaranhamos em milhares de novas dúvidas e infinitas indagações. O que ele é, afinal? Qual a sua natureza? O que define sua origem? Qual a sua duração? Enigmas! Múltiplos e intrincados enigmas a desafiarem nossa capacidade de racionalização.
O amor, em resumo, é meramente atração sexual entre pessoas de sexos opostos? Muitos entendem que, no final das contas, é isso mesmo. Evidentemente que não é (ou, pelo menos, não é “apenas” isso), embora esse fator seja relevante para aproximar dois seres humanos que se amem. Posso ser atraído sexualmente por uma fêmea esplendorosa e, após saciar meu instintivo desejo, não sentir mais nada, absolutamente nada por ela, a não ser profunda indiferença (e vice-versa).
É, então, identidade de pensamentos, sentimentos e vontades? Estes fatores podem, de fato, estar presentes num relacionamento amoroso (e é desejável que estejam). Contudo não o definem e nem o caracterizam. Há muitas, muitíssimas pessoas que pensam da mesma maneira, sentem o que outras sentem, têm os mesmos planos e ideais e, no entanto, não se amam. O oposto, igualmente, é verdadeiro.
Ademais, é impossível saber com certeza, com absoluta e total segurança, o que alguém do seu lado realmente pensa, sente ou deseja. Essa pessoa pode, perfeitamente, dizer uma coisa e pensar, sentir e desejar outra completamente diferente. Como saber se está dizendo a verdade? Não há como.
Um casal vive, às vezes, anos e anos sob o mesmo teto, compartilha seus corpos, festeja bodas de prata, de ouro e de diamante, constrói uma vida em comum, gera e educa filhos, é presenteado com um punhado de netos, reúne considerável patrimônio material em parceria e, no entanto... não se conhece. Amiúde, um se surpreende com atitudes inesperadas do outro, para o bem ou para o mal.
Qual a razão de nos apaixonarmos por determinada pessoa e não por outra qualquer, das bilhões do sexo oposto que há mundo afora, não raro mais belas, melhores dotadas de inteligência e cultura, de comportamento mais exemplar e repletas de virtudes em muito maior quantidade do que a que escolhemos? Existe algum motivo especial? Deve existir, mas qual? Mistério! Insondável mistério!
Conclui-se, pois, que o amor não é para ser racionalizado, mas vivido plenamente, com o êxtase e o sofrimento que produz, enquanto durar. E dura para sempre? Depende o que essa palavra “sempre” signifique para cada um.
Há casos em que sua existência se limita a um único dia, se tanto, que nos parece uma eternidade pelas sensações e lembranças que produz. E que permanece em nossa memória intenso, vivo e verdadeiro enquanto vivermos. Há outros que vão até além do túmulo e perduram por anos e mais anos após a extinção física da pessoa amada. Como se vê, só há enigmas nessa questão. Complexos, profundos e indecifráveis enigmas.
O escritor português Casimiro Brito escreveu, a propósito, no livro “Arte da Respiração”, estas palavras que vêm a calhar nestas descompromissadas considerações: “Amar-te é decifrar humildemente um enigma que não tem decifração porque a todo o momento as águas passam e bebê-las e banhar-me nelas é bom e não há mais nada”.
É isto o que você tem que fazer, caso tenha o supremo privilégio de ter um amor: gozá-lo em sua plenitude e esplendor, a cada segundo (pois é eterno... enquanto dura). Esqueça as racionalizações. Não tente decifrar um enigma que não tem decifração. Não queira saber sua origem, natureza, finalidade ou duração. Viva-o com o máximo de intensidade que puder.
“Beba e banhe-se” nas suas águas e verá o quanto isso é bom. Acredite que “não há mais nada”, mesmo que haja, não importa. O amanhã? Bem, esqueça do amanhã, que, ademais, você pode sequer ter.
Futuro? Não se preocupe com ele. O amor é intemporal. Faz seu próprio tempo. Preenche todas as fases da sua vida, embora se realize no presente, que é o que você tem nas mãos, o seu patrimônio e a sua riqueza, que por isso precisa valorizar. Sobretudo, ame. Ame profunda e irrestritamente, sem reservas, temores ou preocupações.

Thursday, May 28, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A imaginação, se ou quando bem-utilizada, nos é altamente benigna. Serve-nos de consolo por aquilo que não conseguimos (e que não podemos) ser, permitindo-nos apelar para outras características ao nosso alcance, que compensem nossas fraquezas e nos valorizem. Ademais, nos possibilita que venhamos a desenvolver senso de humor. Que, em vez de nos afligirmos com nossas trapalhadas e deficiências, possamos rir delas, sem qualquer complexo ou constrangimento. Apenas pessoas que confiam no que são (e no que podem), sabem rir dos próprios defeitos e tropeços. Em contrapartida, as que buscam dissimular suas evidentes falhas, dando a entender que se tratam de virtudes, caem no ridículo, sem que sequer se apercebam. São destituídas de imaginação, ou não usá-la de forma adequada e, por isso, sofrem em dobro: pelo que não são e pelo que são. Albert Camus escreveu, num de seus romances: “A imaginação oferece às pessoas consolação por aquilo que não podem ser e humor por aquilo que efetivamente são”. Desenvolvamo-la e utilizemo-la, portanto, a nosso favor.

Formalidade do ensinar


Pedro J. Bondaczuk

O ato de ensinar, seja lá o que for, para outras pessoas, requer uma série de virtudes de quem se propõe a assumir essa missão. Entre estas, destacam-se a paciência, a perseverança, o otimismo, o bom-senso e amor, muito amor pelo que se faz. Há, porém, quem consiga ensinar sem contar com nenhuma dessas características? Há, embora essa ausência comprometa a eficácia.
Todavia, há uma formalidade sem a qual ninguém consegue transmitir nada (nem informações, nem conhecimentos, nem conceitos, nem experiências etc.) para ninguém. Para ensinar os outros é preciso, antes de tudo, “saber”. “Óbvio!”, dirão alguns, sem sequer refletir ou pestanejar. A questão deveria ser encarada, de fato, com essa obviedade. Mas não é.
Há muita gente por aí tentando ensinar os outros sem que sequer saiba plenamente a respeito do que se propõe a transmitir. Há muitos professores despreparados, sem ter cursado, sequer, os quatro primeiros anos do Ensino Básico, lecionando, por este Brasil afora, para suprir a ausência de mestres qualificados.
Convenhamos, a remuneração paga a quem assume essa missão fundamental em qualquer sociedade é um escândalo. Não motiva ninguém a seguir a carreira do Magistério e nem a se preparar adequadamente para essa função, quando já está em seu exercício. Interesses outros,. de políticos despreparados, que não um ensino de qualidade, notadamente nas escolas públicas, destinadas à população de baixa renda, prevalecem e redundam na “deformação”, em vez da formação, de parte considerável das futuras gerações.
Infelizmente, há muita gente tentando ensinar o que não sabe, ou que sabe apenas superficialmente (o que, às vezes, é pior do que não saber por completo) num arremedo de educação. Tais professores “fingem” que ensinam e seus alunos, em contrapartida, “fingem” que aprendem. Trata-se de um processo em que todos perdem, principalmente o País.
Faço estas observações com a experiência de quem já se propôs a ensinar (e, de fato, ensinou) a uma centena de jovens, a princípio não muito interessados em aprender. Esta época de aprendizado (pelo menos do básico) coincide com a fase mais difícil da vida de qualquer pessoa: a da rebeldia (geralmente sem causa) e da auto-suficiência, ditadas, exclusivamente, pela falta de maturidade.
Os alunos (salvo exceções) são adolescentes, em várias fases da adolescência, que atravessam um período de transformações físicas e não entendem sequer o que se passa em seus próprios corpos, quanto mais no mundo. É aí que o mestre tem que se mostrar melhor preparado, para ensinar não somente os itens do currículo da matéria que leciona, mas as regras básicas do comportamento, que irão prevalecer na seqüência da vida de seus pupilos.
Tem que estar preparado para responder a todas as perguntas, referentes ou não ao objeto de estudo. Nos tempos de faculdade, para poder custear meu curso, restou-me, apenas, como opção, colher as migalhas pagas pelas instituições de ensino aos seus mestres. Sem querer me engrandecer e nem exaltar meus supostos méritos, porém, posso afirmar que jamais fui confrontado por alguma pergunta que não soubesse responder.
Foi o período mais trabalhoso da minha vida. Além de ter que estudar as matérias do curso que fazia na faculdade, tinha que fazer isso em dobro na preparação das aulas que teria que ministrar. Foi, porém, a época em que mais aprendi. Jamais cheguei diante da classe sem saber a fundo o que pretendia transmitir.
O desafio maior que enfrentei foi o de conquistar a confiança dos meus pupilos. Foi o de mostrar, antes e acima de tudo, a relevância da matéria que estava lecionando para as suas vidas. Parece fácil, não é verdade? Tentem, porém, por um único dia que seja, para descobrirem o tamanho do desafio que isso implica.
Até hoje ainda não sei se tinha (ou se tenho) vocação para o Magistério. Contudo, minha classe foi, de toda a escola, a de menor índice de reprovação. E isso ocorreu não porque eu eventualmente fizesse vistas grossas aos supostamente parcos conhecimentos dos meus alunos. Pelo contrário, eu era tido e havido como o professor mais rigoroso e parcimonioso na atribuição de notas de toda a escola.
O que consegui foi a empatia dos adolescentes. Foi prender sua atenção, não com gritos, expulsões de classe, ameaças ou demorados e cansativos sermões, como os professores fazem, via de regra, para impor e manter a disciplina. Isso foi possível graças, unicamente, à credibilidade que conquistei.
E como logrei essa façanha? Da única forma que jovens na tenra idade se convencem: mostrando-lhes que “sabia” o que me propunha a ensinar. Esse é, pois, o caminho (creio que único) para assegurar a qualidade de ensino, que ainda deixa tanto a desejar em nosso País.

Wednesday, May 27, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A exata percepção de todas as informações que recebemos (não importa por quais meios) – de tudo o que fazemos, do que nos fazem e, enfim, do que nos acontece ao longo da vida e se constitui no nosso acervo de experiências pessoais – e a sua conseqüente fixação na memória, é o que se convencionou chamar de consciência. A maioria das pessoas não sabe o que fazer com a maior parte do que aprende. Determinados indivíduos, por exemplo, cometem, sempre e sempre, os mesmos erros e afrontam, claro, as mesmas conseqüências, sem que se decidam a mudar de atitude. São incapazes de perceber que agindo dessa forma não chegarão a lugar algum. Sabem o que é certo mas não o praticam. São experientes, no entanto, não são conscientes. Quanto mais conseguirmos transformar um vasto cabedal de experiência em consciência, e usá-lo em nosso proveito, mais chances teremos de evitar aborrecimentos inúteis e desnecessários e de evoluir na vida, sem sustos ou sobressaltos. A constatação é do escritor francês, André Malraux, que escreveu, num de seus tantos ensaios, em forma de indagação (cuja resposta nos é, sobretudo, óbvia): “O que pode um homem fazer de melhor de sua vida que transformar em consciência a mais ampla experiência possível?”

Tudo é oblíquo


Pedro J. Bondaczuk

O comportamento social das pessoas, em relação aos semelhantes, pouco ou nada mudou, ao sabor dos séculos. Prevalecem hoje, como ocorria há quatrocentos anos, os critérios de nascimento e de condição econômica na forma de avaliação e, principalmente, de tratamento dos indivíduos, em detrimento dos que tiveram origem obscura ou que jamais tivessem, como se diz popularmente, “ sequer um gato para puxar pelo rabo”. Essa constatação levou o gênio de Stratford-upon-Avon, William Shakespeare, a concluir, em uma de suas peças: “tudo é oblíquo”.
Você não trata, por exemplo, um político, digamos, um deputado federal, da mesma forma que o Seu Mané, do botequim da esquina, mesmo que seja público e notório que o primeiro seja um rematado corrupto, um ratão de esgoto, que drena para o seu bolso dinheiro indevido, que deveria servir para melhorar a vida dos cidadãos que ele representa e o segundo um cidadão honesto, rigoroso cumpridor dos deveres, bom pai de família, um sujeito religioso e, sobretudo, virtuoso.
Deixamo-nos levar (salvo exceções), até inconscientemente, por aparências, pelo “nome”, pelo cargo que determinada pessoa ocupa para determinar a forma como a devemos tratar. Nesse aspecto, portanto, todos somos um tanto hipócritas e consagramos um costume injusto e, no mínimo, inadequado, que se tornou tradição, quando deveria ser modificado. O ideal é que a transparência prevalecesse em nossos julgamentos e, sobretudo, na forma de tratarmos os outros. Não é, óbvio, o que ocorre.
Shakespeare expressou, a esse propósito, pela boca de um de seus personagens: “Dois gêmeos nascem da mesma matriz; doure-se um deles, o melhor aquinhoado desprezará o outro. Eleve-se o mendigo, seja rebaixado o senhor: ao nobre unir-se-á um desdém hereditário, ao mendigo, uma dignidade nativa. A comida engorda o animal emagrecido pela fome. Quem ousará, quem ousará levantar-se em sua lealdade de alma e dizer: 'Este homem é um adulador'? Se ele o é, todos também o seriam; pois cada lance da escada social é exaltado pelo que o antecedeu: o salafrário sábio prosterna-se diante do imbecil empanturrado de ouro”.
Portanto, o bardo de Stratford-upon-Avon tem ou não razão ao assegurar que “tudo é oblíquo”? Qual seria a sua reação, se vivesse nos dias de hoje e constatasse que nada mudou, em termos de comportamento social e de avaliação das pessoas, em relação ao que ocorria na Inglaterra do século XVI (e provavelmente no restante da Europa e, por extensão, no mundo todo)?
Querem um critério mais estúpido do que esse, o da “linhagem”, da origem, da família em que se nasceu? Quem pode assegurar, com absoluta certeza, que seu pai é, realmente, o que consta em sua certidão de nascimento? Quem pode jurar sobre a Bíblia que é filho “legítimo” e não fruto de uma relação extraconjugal? Talvez aquele que tenha como atestado um teste de DNA. Todavia, nem este é 100% infalível! E, ademais, isso importa? No quê? Tolice. Pura tolice. Mas é um dos critérios que prevalecem para que uns se considerem superiores a outros.
Quanto à ocupação que se exerce, se trata de algo até mais idiota do que a questão do nascimento. Ninguém é eterno e muito menos insubstituível. Hoje o sujeito ocupa um cargo que lhe dá certa soma de poder e amanhã poderá ser demitido, ficar doente ou morrer. E toda aquela empáfia anterior irá por água abaixo.
Já nem comento tanto a questão da fortuna, posto que esta é instabilíssima. Conheço muita gente que recentemente nadava em dinheiro e que hoje está atolada até o pescoço em dívidas, fugindo dos credores e tentando achar uma forma de garantir o jantar do dia.
Shakespeare, pois, tem ou não razão, ao constatar que “cada lance da escada social é exaltado pelo que o antecedeu: o salafrário sábio prosterna-se diante do imbecil empanturrado de ouro”? Os critérios para medir o valor de uma pessoa não poderiam e nem deveriam ser estes. Isto é para lá de óbvio, mas esse comportamento estúpido, de bajulação explícita, estranhamente, permanece imutável em pleno século XXI, no terceiro milênio da Era Cristã.
O compositor carioca, Billy Blanco, fez uma tirada genial, na letra do samba “A banca do distinto” (consagrado na voz de Dóris Monteiro), em que diz, em determinado trecho: “A vaidade é assim, põe o bobo no alto/e retira a escada/mas fica por perto esperando sentada/mais cedo ou mais tarde/ele acaba no chão./Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco, afinal/todo mundo é igual quando a vida termina/com terra em cima e na horizontal”. E não é o que acontece?!!! Tem razão, portanto, o bardo Shakespeare: tudo, de fato, é oblíquo! E até demais para o meu gosto!

Tuesday, May 26, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Tudo o que vemos, ouvimos, apalpamos, cheiramos e degustamos nos causa algum efeito no espírito, alguma sensação, boa ou ruim, que nem sempre conseguimos apreender com exatidão e reproduzir, com a maior fidelidade possível, nas obras que criamos. Esse é o grande desafio do artista na produção da sua arte. Ou seja, é a capacidade de fazer com que as pessoas que a irão apreciar não se limitem a ver e ouvir o que criaram, mas que “sintam” os mesmos efeitos que o artista sentiu, que o levaram a produzir seu poema, canção, pintura, escultura etc. Caso não consiga transmiti-los, sua obra poderá até ser agradável aos olhos (ou aos ouvidos, no caso da música), mas não empolgará ninguém. Honoré Balzac escreveu o seguinte, a propósito, no conto “Obra-prima ignorada”: “Temos de apreender o espírito e a alma, a fisionomia das coisas e dos seres. Os efeitos! Os efeitos! Nem o pintor, nem o poeta, nem o escultor devem separar o efeito da causa, que invencivelmente estão um no outro. A verdadeira luta está aí!”.

Virtude e felicidade


Pedro J. Bondaczuk

O hábito da prática da virtude e uma extensa lista de valores – aqueles que tiveram sua eficácia e verdade testadas (e comprovadas) pelo tempo, como bondade, justiça, solidariedade, fé etc. – são os maiores legados que podemos deixar aos filhos após a nossa morte.
Isso, todavia, apenas é possível mediante uma educação eficaz, ministrada com irrestrito amor, baseada, sobretudo, em exemplos, muito mais do que em meras palavras. Estas, via de regra, entram por um ouvido, saem pelo outro e perdem-se no ar. Raramente contam com alguma eficácia.
Bens materiais os filhos conseguirão sozinhos, caso sejam instruídos nas regras corretas de conduta e bom-comportamento. Saberão, por exemplo, dar valor ao trabalho, dedicando-se àquilo que de fato gostam, o que multiplicará sua eficiência. Terão consciência da importância de se honrar compromissos e de respeitar os direitos alheios. Descobrirão o valor do pensamento positivo, da autodisciplina, da atitude construtiva, da alegria e do bom-humor (mesmo que as circunstâncias não lhes sejam favoráveis).
A arma essencial dos pais que realmente se preocupam com o futuro da sua descendência é o diálogo: aberto, franco, amigável, sincero, permanente e sem temas tabus. Não me refiro, óbvio, a cansativos monólogos, a cínicas “lições de moral” meramente retóricas e sem conteúdo, à postura de sabe-tudo face aos filhos. Esse tipo de atitude é ineficaz, inócuo, cansativo e com ele ninguém consegue prender a atenção de uma criança e, muito menos, de um adolescente com mínimo de inteligência. Agindo assim, você só conseguirá perder a credibilidade e jamais terá livre acesso ao coração do seu filho.
Baseie sua vida na irrestrita e absoluta verdade. Não caia na tentação de contar mentiras, mesmo aquelas pequeninas e aparentemente inofensivas. E quando contar uma história a seu filho, explique-lhe, antes, que se trata de fantasia, que é mera manifestação de criatividade de quem a inventou, que é uma grande metáfora e não expressão da realidade.
Não lhe incuta na cabeça imagens e símbolos que mais tarde ele descobrirá que não são verdadeiros, como fadas, duendes, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa etc.etc.etc. criados por alguém como você, mas sem nenhuma finalidade educativa, ao contrário do que se busca, amiúde, dar a entender. Explique-lhe (se souber) sua origem e finalidade. Se desconhecer essas informações, busque-as. Elas são bastante acessíveis. Em geral, os objetivos dessas fantasias são meramente comercias. Não faça dele uma pessoa supersticiosa, crédula, sem senso crítico.
Nunca, em circunstância alguma, minta para o seu filho e ensine-o a também jamais fazê-lo. Para tanto, porém, você não pode ser excessivamente severo em relação aos seus erros. Lembre-se de quantas bobagens você cometeu quando era moço.
Saiba corrigi-lo, e corrija sempre, mas sem traumatizá-lo e sem aquelas intermináveis e chatas lengas-lengas, sem “lições de moral”, mostrando-lhe compreensão e, sobretudo, irrestrito amor. Não seja ditatorial e nem assuma postura de dono da verdade.
Tudo isso, caso você aja dessa forma, criará um elo indestrutível entre vocês. Você será seu confidente, possivelmente o único, mas se não for o exclusivo, será o que ele terá maior confiança, sem que precise buscar outro qualquer alhures.
Esse conjunto de atitudes sequer é novo, original ou revolucionário. É ditado pelo bom-senso. O poeta romano Virgílio escreveu, nas célebres “Geórgicas”, a esse propósito: “Filho, lego-te a virtude, a pena que não mente. Outros ensinar-te-ão a felicidade”.
Você não sabe como tornar o seu filho feliz? Ninguém sabe! Não há nenhuma receita prévia e infalível para isso. Dê-lhe virtudes. Dê-lhe princípios. Dê-lhe valores. Dê-lhe autoconfiança e mostre-lhe o caminho.
A ele, somente a ele e a mais ninguém, competirá a decisão de segui-lo ou não. Você nada poderá fazer a respeito. Ademais, caso prevaleça a lógica, um dia você morrerá e seu filho não poderá mais contar com seus conselhos, exemplos e orientações. Ensine-o a andar com as próprias pernas Faça dele, sobretudo, um ser humano de valor: verdadeiro, sensível, autêntico, altruísta, solidário e participativo.
Fazendo a sua parte, a probabilidade maior é que seu filho encontre a felicidade por si só. Afinal, estará habilitado a conquistá-la. Estará predisposto a ser feliz. Lutará por esta condição. Porquanto, a felicidade não está em determinada pessoa, coisa ou lugar. É um estado de espírito, mera predisposição íntima, pessoal e intransferível, que cada pessoa pode ou não desenvolver.

Monday, May 25, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A auto-aceitação é um dos fatores fundamentais para que nos sintamos felizes. Devemos nos aceitar como somos e, para que isso se torne possível, temos que levar uma vida simples e ordenada, conhecendo os nossos limites e somente nutrindo sonhos e ambições que estejam ao nosso alcance. Muitos convivem com culpas imaginárias e vivem em perpétuo sobressalto. Se realmente prejudicamos alguém, o caminho mais sábio é o da reparação da falta. Caso não seja possível repará-la, o melhor que se faz é ter a humildade de pedir perdão ao ofendido. Os verdadeiros culpados nunca se julgam como tal, por terem a consciência embotada. Paul Valéry constata: “O homem feliz é aquele que ao despertar se reencontra com prazer e se reconhece como aquele que gosta de ser”. Como se vê, é uma receita simples, ao alcance de todos, que não implica em nenhuma complexidade e independe da ação alheia. Que tal experimentarmos agir assim?

Quando se sabe


Pedro J. Bondaczuk

A arrogância, além de se constituir, em alguns casos, em grave distorção do caráter, é, via de regra, sério obstáculo ao nosso crescimento mental, moral, intelectual e, sobretudo, espiritual. Não me refiro à conotação, até positiva, que Aurélio Buarque de Holanda dá à palavra, em seu célebre dicionário, ou seja, “atitude altaneira”, “altivez”, “orgulho”, mas ao sentido negativo que também menciona, o da “insolência”. Nem quero tratar, igualmente, daquele comportamento arrogante eventual, não rotineiro, que de vez em quando nos acomete e que todos temos em algum momento da vida.
A arrogância a que me refiro é a habitual. É a do sujeito que se julga auto-suficiente. É aquela do indivíduo que se acha onisciente, como se fosse Deus, que menospreza todas as outras pessoas, as considerando tolas e medíocres. Há muitos destes por aí, arrotando falsa cultura, a de almanaque, e que assumem postura de “sábios”, a despeito de serem carentes de sabedoria.
Pior é quando o sujeito “acha que sabe” alguma coisa, sem de fato saber, e que sai por aí dizendo os mais estapafúrdios disparates, que até uma criança recém-alfabetizada percebe que se trata de imensa bobagem. E pior ainda é quando tenta impor esse falso conhecimento, constrangendo interlocutores. Já tratei, tempos atrás, desse caso, ao abordar a questão do constrangimento.
É justo, válido e lícito que nos orgulhemos do que sabemos. Se adotarmos a postura do “você sabe determinado assunto, mas também sei”, não há nada de errado. Trata-se de mera e inocente constatação. Claro, se de fato soubermos do que está sendo tratado. O que é distorcido e descamba para a arrogância explícita é a afirmação (ou pior ainda, a convicção”): “eu sei e ninguém mais sabe”. É um juízo de valor baseado apenas numa presunção, ostensivamente falsa.
Pessoas que agem assim, vão ainda mais longe em seu atrevimento. Desmerecem o que não conhecem. Afirmam que se trata de “conhecimento inútil”, mesmo que sua utilidade seja consensual e ostensiva. Não têm a humildade de admitir seu desconhecimento. Por isso, óbvio, não se empenham em aprender. Consideram esse aprendizado desnecessário. Têm, por si próprias, uma adoração doentia, que descamba para a idolatria. E mesmo em relação ao que de fato sabem, agem de maneira pedante, humilhando os outros, embora esta não seja sua real intenção. São “viciadas” em arrogância.
O escritor e poeta Johann Wolfgang Goethe, clássico não somente da literatura alemã, mas de todo o mundo, constatou: “O que sabemos, sabemo-lo afinal para nós mesmos. Se falo com alguém daquilo que julgo saber, acontece que imediatamente ele supõe saber o assunto melhor do que eu, e sou obrigado a regressar a mim mesmo com o meu saber. O que sei bem, sei-o apenas para mim”.
O sujeito arrogante, contudo, não pensa assim. Acha que o acúmulo de conhecimentos é uma competição em que deva chegar sempre em primeiro lugar. Não busca aprender, apenas, o que lhe seja útil e prático, mas o que lhe pareça insólito e que, por isso, nenhuma outra pessoa se dará o trabalho de buscar conhecer.
Goethe escreveu mais: “No fundo só se sabe quando se sabe pouco. À medida que cresce o saber, cresce, igualmente, a dúvida”. Sinto inenarrável prazer em aprender tudo o que possa, sem me ater sequer ao critério da utilidade. Faço-o, porém, para ter esclarecimento pessoal e jamais para competir com quem quer que seja e muito menos para me exibir, como um mico de circo. Jamais tive a pretensão de me transformar num “poço de sabedoria” e se tivesse, estou seguro de que teria imensa frustração.
Ademais, procuro transmitir tudo o que aprendo a outras pessoas que queiram aprender, já que sou mortal e de nada vai me adiantar meu vasto acervo de conhecimentos face à morte. Se não passar tudo isso adiante, terá sido absolutamente inútil o tempo despendido nesse aprendizado. Afinal, meu cérebro irá apodrecer com o resto do meu corpo quando eu disser adeus ao mundo.
O sábio, pois, não é aquele que ostenta a maior quantidade de informações. Para nos informarmos razoavelmente, nas horas de precisão, basta que consultemos uma boa enciclopédia, sem precisar abarrotar a memória com nomes, datas, fórmulas etc. O grande princípio de sabedoria é saber o que fazer com o que se aprendeu, não importa o quanto. E, sobretudo, dar o devido valor a quem nos instruiu, já que o saber não nasce sozinho, por geração espontânea, em nosso cérebro: é posto ali por alguém.

Sunday, May 24, 2009

REFLEXÂO DO DIA


O amor é um sentimento misterioso que traz, consigo, outras tantas emoções contraditórias, como euforia e depressão, êxtase e sofrimento, exaltação e ciúmes, tudo isso simultaneamente e ao mesmo tempo. Proporciona-nos o máximo de satisfações e pungentes sofrimentos quando distantes da pessoa amada. . Há quem o compare à febre, à perda de autocontrole e, principalmente, ao delírio. Doce delírio! E, ainda assim, é a mais desejável e sublime experiência que podemos ter. O escritor francês, Guy de Maupassant, no conto “A morta”, assim se expressou a propósito desse sentimento: “Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece”. Não é assim que os amantes se sentem quando distantes um do outro?

DIRETO DO ARQUIVO


Crise favorece Khadafy

Pedro J. Bondaczuk

O presidente norte-americano Ronald Reagan, embora desejoso de dar uma boa lição no coronel líbio Muammar Khadafy (e por extensão, em todos aqueles que apoiam ou incentivam grupos terroristas), acabou agindo de forma diametralmente oposta na presente crise envolvendo o Norte da África. Ao concentrar 40 navios de guerra da Sexta Frota do seu país nas costas da Líbia, chamou toda a atenção mundial para o incidente. Afinal, tudo levava a crer que ali estava em andamento o prólogo de um desembarque militar em grande escala. Criou tensões, despertou nervosas expectativas e deflagrou apoios e condenações.

No final das contas, certamente aconselhado por gente do ramo, Reagan concluiu que uma medida de força, naquele momento, além de ineficaz, seria igualmente desastrosa do ponto de vista político (teoricamente a sua especialidade). Por isso, recuou.

Mas pelos seus padrões de conduta, não poderia deixar seu desafeto sem chumbo. Precisava, bem ao estilo hollywoodiano, aplicar algum corretivo no vilão da história, no presente caso, o tagarela coronel líbio. Afinal, era esse o desfecho dos filmes de faroeste, que tanto aprecia e conhece. O mocinho pune o bandido e tudo termina bem. Só que na vida real, as coisas raramente se passam assim.

Reagan, frustrado na tentativa de fazer uma demonstração de seu poderio militar à atenta e tensa platéia mundial, optou por uma solução menos traumática. Resolveu aplicar à Líbia o manjado expediente do boicote econômico, igualzinho ao que fez com a Nicarágua. Só que Khadafy não é Daniel Ortega. É bem mais matreiro e escolado e sabe como ninguém onde pisa. Nem a Líbia é um país falido e miserável como a Nicarágua. Vai daí... Em resumo, o presidente norte-americano fez muito barulho para pouca chuva.

No balanço final de todo o incidente, chega-se à conclusão que o lucro acabou ficando todo para aquele que teoricamente deveria ser o punido. Em primeiro lugar, se o líder líbio já gozava de grande prestígio junto às hostes mais extremadas do Oriente Médio e adjacências, este certamente cresceu muito mais após o desafio que fez `maior das superpotências. Afinal, escapou ileso. Em segundo, assumindo perante a opinião pública o papel de vítima, conquistou simpatias insuspeitadas e agrupou em torno de si praticamente todo o mundo árabe. Nem os sauditas deixaram de emprestar o seu apoio à Líbia.

Finalmente, do ponto de vista econômico, única punição que Khadafy teoricamente sofreu, o prejuízo acabará se reduzindo a migalhas, que serão fartamente compensadas com novos parceiros comerciais. Para chegar a resultados tão desastrosos, a Casa Branca só teria a ganhar se tivesse evitado de dar tanta corda ao líder líbio.

Se o presidente Reagan tinha intenções reais de punir a Líbia, que o fizesse, mas em silêncio, sem tamanha propaganda. Como agiu, inclusive, no caso dos seqüestradores do transatlântico italiano Achille Lauro, em 10 de outubro passado. Fazendo o estardalhaço que fez, o presidente norte-americano abriu preciosos espaços na mídia mundial ao seu desafeto. Alguém já parou para contar quantos centímetros de jornal e de revista e quanto tempo de rádio e de televisão Khadafy conseguiu com o incidente? Imaginem se tivesse que pagar toda essa publicidade! Sairia uma fortuna!

Reagan, não há como negar, caiu direitinho na armadilha do coronel líbio e acabou fazendo exatamente aquilo que ele mais gosta. Armou-se um circo mundial, onde o "guru" ideológico da Líbia reinou como um perfeito "clown" político. Barulho, todos sabem, é com esse fanático beduíno. O leitor, certamente, deve estar bem lembrado do quanto ele agitou, em abril e maio de 1984, quando dois de seus aviões, carregados com armas destinadas à Nicarágua (que Khadafy jurava que eram "remédios"), foram retidos em nosso País. Imaginem agora, que a platéia é consideravelmente maior!

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 9 de janeiro de 1986)

Saturday, May 23, 2009

REFLEXÂO DO DIA


O amor, pelo menos em sua fase inicial, aquela que mais nos marca e que nos deixa lembranças preciosas e inesquecíveis, mesmo quando se acaba, é uma espécie de perpétua infância. Retomamos aquela ingenuidade inicial de meninos que com o tempo deixamos pelos caminhos da vida. Até as expressões que utilizamos durante o namoro são inocentes, carinhosas e um tanto quanto infantis. Não por acaso, o amor é representado pela figura de uma criança, Eros (ou Cupido), garoto brincalhão que se diverte a lançar flechas nos corações dos incautos. Pena que, com o tempo, essa inocência seja substituída por outras características, nem sempre as mais desejáveis, que às vezes maculam e até destroem os relacionamentos amorosos. O poeta romano Propércio, nascido em 47 AC, na cidade de Assis, constatou a propósito: “Aquele que primeiro representou o amor nas feições de uma criança, esse foi admirável artista, porque foi também o primeiro a sentir que a vida dos amantes é infância perpétua”.

Soneto à doce amada - XXIII


Pedro J. Bondaczuk

Onde está você, minha doce amada?
Procuro-a nas ruas da cidade,
angustiado, morrendo de saudade.
A noite flui. Desponta a madrugada.

O céu clareia, pouca gente vê.
Vislumbro-a, você me olha também.
Sigo-a, ansioso como ninguém:
Nova decepção...não era você!!

Procuro-a em meio à multidão,
que apenas acentua a solidão,
esta saudade intensa e incontida,

esta incômoda e vaga sensação.
Resoluto, não desisto da lida:
hei de buscá-la, mesmo além da vida!

(Soneto composto em Campinas, em 7 de maio de 1971).

Friday, May 22, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Os critérios que nos levam a nos apaixonar por alguém são, via de regra, equivocados, ou pelo menos imperfeitos, daí nos decepcionarmos tão amiúde no amor. A maioria ama pela beleza física de certas pessoas, artifício de que a natureza nos dotou para assegurar a perpetuação da espécie, sem atentar para outras virtudes delas. Só que o tempo não perdoa ninguém. Um dia a amada perde o viço da juventude e não se torna mais tão atrativa aos olhos. Caso não haja o ingrediente da amizade, da camaradagem e da cumplicidade entre o casal, sobrevém a mútua frustração e não tarda para o relacionamento se desfazer. Há quem se apaixone por ter admiração por alguém, sem atentar para os seus defeitos. Quando os descobre... A melhor receita de amor, porém, é esta, dada por Madre Teresa de Calcutá: “Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação”.

Mensagem de amor a João Vitor


Pedro J. Bondaczuk

A vida, com suas incontáveis (e insondáveis) circunstâncias, premiou-me, de novo, neste dia 20 de maio de 2009: trouxe ao mundo João Vitor, meu segundo (e já querido) neto, que vem se juntar ao Pedro Luiz, o primeiro, nesta cadeia, já razoavelmente grande, de afetos, que é a minha família.
Meu coração de avô é grande o suficiente para abrigar não apenas mais duas pessoas (como agora), mas tantas quantas vierem (se vierem) num futuro próximo, enquanto estiver vivo. Que venham, pois. Mas saudáveis, equilibradas, produtivas e felizes. Saberei amá-las com a mesma intensidade, a todas, não importa se mais duas, cinco, dez ou mil.
O amor realiza (sempre) o verdadeiro milagre da multiplicação. Não de peixes ou de pães, como um dia fez, nos descampados da Galiléia, o Mestre dos Mestres, mas de afetos. É um enorme e infinito poço sem fundo. Quanto mais o doamos, mais amplo e mais profundo ele se torna. Nunca diminui um tantinho que seja, mas sempre, sempre e sempre aumenta, em uma progressão sem fim. E amor, pequenino João Vitor, é o que mais tenho para lhe dar.
Claro que sonho em lhe transmitir os princípios e valores que me norteiam e sempre nortearam meus passos, muitos incutidos por meus pais, outros tantos colhidos aqui e ali nos nem sempre suaves caminhos da vida. Não sei (ainda), o quanto e o quê você herdou de mim, geneticamente. Mas sei que herdou inúmeras características que tenho.
Quais delas irão compor sua personalidade – que nunca terá similar e será sempre única – será, por muitos anos (talvez para sempre), mistério insondável para mim. Espero, porém, que sejam as melhores. Rogo a Deus que sejam a irrestrita solidariedade que me move, o espírito de luta que sempre alimentei, o pensamento positivo que me mobiliza ao sucesso (mesmo quando este se afigura impossível) e, sobretudo, a capacidade de amar: pessoas, princípios, causas, ideais e, acima de tudo, a vida.
Conto com você, pequenino, (e com o seu primo Pedro) para dar seqüência à minha obra e não permitir que ela reste não somente inacabada, mas defeituosa, deformada e esquecida. Temo, contudo, que ela nunca se acabe. Que deixemos, um dia, a vida com a maior parte dos nossos projetos e sonhos a realizar.
Que vocês, meus queridos netos, sejam generosos comigo e me mantenham vivo na memória, transmitindo o que sou e fui, quero e quis, sonho e sonhei, faço e fiz à sua descendência, que espero seja numerosa e feliz. E que esta faça o mesmo, por gerações e gerações. Sei que, objetivamente, não mereço essa consideração. Mas conto hoje, e contarei sempre, com a generosidade do seu afeto.
Não sei o que você vai pensar quando, daqui a quinze ou vinte anos, ler estas linhas desconexas, atropeladas, mas repletas de emoção, escritas com lágrimas de fé, esperança e felicidade nos olhos. Não se pode exigir racionalidade numa hora destas, nem de um velho e rabugento escritor como eu, acostumado a lidar com sentimentos e emoções (mas alheios, é verdade).
Faço, neste instante em que me vejo atropelado pela emoção, minhas as palavras do poeta romano Virgílio, que escreveu, nas célebres “Geórgicas”: “Filho, lego-te a virtude, a pena que não mente. Outros ensinar-te-ão a felicidade”.
Não sei como torná-lo feliz. Ninguém sabe! Não há nenhuma receita prévia e infalível para isso. Ofereço-lhe, contudo, virtudes. Oferto-lhe princípios. Deixo-lhe, por herança, valores. Quero transmitir-lhe autoconfiança e mostrar-lhe o caminho do belo, do justo e do bom..
Compete a você, somente a você e a mais ninguém, a decisão de segui-lo ou não. Querido João Vitor, você chega, hoje, a um mundo estranho, fascinante e perigoso para iniciar uma caminhada cuja duração todos desconhecemos. Herda problemas e mais problemas, que se agravam crescentemente, por falta de soluções, deixados por nossa incompetência e descuido.
Que um dia, porém, pequenino, você possa olhar para trás, com tranqüilidade e paz, ciente de que fez o seu melhor, e dizer: “não me arrependo de nada. Os caminhos que trilhei foram os melhores e me conduziram ao sucesso”.
Que, sobretudo, você não precise reparar em calendários, relógios e sequer nas estações do ano. O escritor russo, Anton Tchekov, escreveu: “Quando as pessoas são felizes, não reparam se é inverno ou verão”. Que esse seja, portanto, seu destino. O da absoluta, irrestrita e interminável felicidade. Sinta-se bem-vindo, meu pequenino e querido João Vitor!!!

Thursday, May 21, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Somos (e nem seria preciso lembrar essa óbvia realidade), seres sumamente frágeis, efêmeros, mortais e passageiros. Nossa vida é tão curta, que sequer temos tempo de nos localizar em um universo imenso, provavelmente infinito, cheio de mistérios e grandeza, em perpétua mutação. Tudo muda, a cada segundo, ao nosso redor. Por isso, tudo acaba um dia: os planetas, as estrelas, as constelações e as galáxias. É possível, por exemplo, que a Via Láctea – onde se situa o nosso sol e, por conseqüência, a Terra – tenha em seu centro um buraco negro, aspirando para o seu interior, de forma contínua e inflexível, matéria, energia e até a própria luz. Se for um fato, é questão de tempo para que nossa galáxia, com tudo o que nela há, seja destruída, deixe de existir e que, em seu lugar, reste, somente, minúsculo concentrado, de peso absurdamente elevado. Daí ser impossível deixar de dar razão ao escritor Charles Ramuz, quando afirma: “É por tudo ter de acabar que tudo é tão belo”.

Somos como a lua


Pedro J. Bondaczuk

O escritor norte-americano Samuel Clemens – que se celebrizou com o pseudônimo literário de Mark Twain e se tornou clássico juvenil com seus romances “As aventuras de Tom Sawyer“, “As aventuras de Hucleberry Finn” e “O príncipe e o mendigo”, entre outros – afirmou, certa feita: “Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém”.
E somos parecidos com o satélite natural da Terra não somente neste aspecto (posto que de forma metafórica, claro), mas em tantos outros. Um deles é o que se refere às fases. A exemplo da lua, também as temos na vida. Umas, são mais brilhantes, outras bem menos, com a diferença de que, cada uma delas é definitiva. Tão logo passe, não volta jamais.
Do nascimento ao início da maturidade, atravessamos a fase da Lua Nova. Somos dotados de vigor e entusiasmo e partimos para o mundo com ousadia e volúpia, certos de que nada e ninguém nos deterão na busca e conquista dos nossos ideais. Nosso brilho, então, é intenso, que se reflete em nossos olhos, ardentes de paixão: por um amor, por uma causa, por uma esperança etc.
Claro que me refiro, no caso, às pessoas positivas, valorosas, vencedoras. Há quem já nasça sob o estigma dos derrotados. Há quem envelheça precocemente, ou por equívocos pessoais, ou por educação deficiente ou por força de inúmeras circunstâncias, muitas das quais escapam ao seu controle. Há quem sequer justifique o fato de estar no mundo, quem se torne peso morto para si e parasita para a sociedade. Infeliz de quem ostenta essa terrível condição! Temo que a maioria da população mundial se enquadre nela.
Como se trata de metáfora, posso alterar a ordem das fases da lua ao meu bel-prazer. E é o que farei. Reitero, porém, para deixar bem claro, que me refiro, nestas comparações, apenas às pessoas vitoriosas, àquelas que costumo classificar de “gigantes da espécie”, que não cultivam, e por isso não acumulam, grilos e nem apostam na infelicidade. São poucas, eu sei, infelizmente. Todos poderíamos (e deveríamos) ser assim.
A fase seguinte é a do Quarto-Crescente. É a da maturidade, quando crescemos física e espiritualmente (e materialmente, por que não?). Definimos uma profissão, constituímos família, geramos descendentes, educamo-los e lhes transmitimos os valores que nos norteiam e mobilizam. Somos produtivos, respeitados, adorados até (se fizermos por merecer essa adoração). Aliamos à paixão da juventude a experiência da maturidade. É quando mostramos ao mundo a que viemos e nos consolidamos no coração e nas mentes dos nossos contemporâneos.
Mas não conseguimos nunca alterar o inexorável ciclo da natureza. Chega sempre o momento em que nossas forças começam a declinar. É a fase do Quarto-Minguante. A experiência que acumulamos, porém, nos permite cortar caminhos, descobrir atalhos e nos manter competitivos, posto que com energias crescentemente minguantes (por paradoxal que essa expressão pareça). Ou seja, diminuem constantemente, às vezes em questão de meses, outras de meras semanas, dias ou horas.
Se soubemos cultivar relacionamentos, porém, se fizemos por merecer, face nossos atos e realizações, esta fase pode ser das mais agradáveis. Torna-se o período da colheita do que semeamos, a época em que vemos os filhos trilharem os caminhos do bem, da justiça e do sucesso sob a nossa segura orientação, a da chegada dos netos, a do reconhecimento dos nossos méritos e ações.
Finalmente, entramos na fase da Lua Cheia. E ela pode ser repleta de gostosas lembranças e de sublimes recordações. Mas só o será se as soubemos cultivar. É uma espécie de retorno à infância, sem as responsabilidades que tínhamos quando meninos, de estudar, aprender, e nos preparar para a vida. É verdade que nosso corpo dará sinais crescentes de decadência. Não há como evitar (embora isso possa ser retardado com hábitos saudáveis e muita prudência).
Mas se tivermos o espírito forte e se conservarmos o amor pela vida, nada impedirá de continuarmos sendo úteis, produtivos e imbuídos de fé até nosso derradeiro suspiro, até nosso último dia sobre a face da Terra, não importa quando ocorra. A sensação que nos restará, olhando para trás, fazendo um retrospecto de nossa trajetória, será a de paz, aquela que acompanha os que têm certeza do dever cumprido. Poderá ser, também, a de euforia, dos que estão convictos de deixar um legado indestrutível para as futuras gerações e que, por isso, gozam do justo júbilo dos vitoriosos.
Voltando a Mark Twain, de fato todos temos um lado escuro na alma, o qual nos negamos a exibir a quem quer que seja. Alguns, todavia, por mais que procurem dissimular, não conseguem. Têm essa “escuridão” moral tão acentuada, que não a podem esconder, por mais que tentem. Ela permanece, o tempo todo, estampada em suas faces. Falta-lhes o brilho da fé, o foco da esperança, a fogo da paixão e a centelha do amor que ofusquem esse seu lado sombrio das vistas alheias. Estes, infelizmente, já nasceram com o estigma dos derrotados!

Wednesday, May 20, 2009

REFLEXÂO DO DIA


O amor á beleza não faz de ninguém, automaticamente, um artista. Todos nós amamos o que entendemos que seja o belo que, na verdade, não resiste à mais superficial análise para revelar suas inúmeras imperfeições. Isso, contudo, não se trata de arte, porém de mero gosto. A beleza que as pessoas comuns amam, é a virtual, a aparente, a superficial, a que logo fenece, murcha, se decompõe e revela toda sua efemeridade. O artista, porém, é dotado de certo talento interdito à maioria. Alguns consideram, até, essa característica que possui como maldição, pois faz dele um eterno insatisfeito, sempre em busca do impossível: do perfeito, do irretocável, do verdadeiro e do sublime. O pouco de beleza que consegue criar, todavia, lhe dá esse status, mais raro do que se pensa, que poucos mortais conseguem obter. O que cria, pode até despertar admiração nos que apreciam sua obra. Mas jamais satisfaz o artista, esse perpétuo obcecado pela beleza.

Talento e empenho


Talento e empenho

Pedro J. Bondaczuk

O talento, ou seja, aquela aptidão especial que algumas pessoas têm para determinadas artes, ou tarefas, ou para certos tipos de trabalho, é algo inato ou pode vir a ser desenvolvido com o tempo, com aplicação, disciplina e genuíno interesse? Essa é uma discussão que se arrasta por séculos, sem que ninguém chegue a uma conclusão incontestável.
Minha opinião de leigo, mas de alguém dotado de alguma experiência, pelos tantos anos já vividos, é que as duas correntes têm lá a sua dose de razão. Há pessoas que já nascem talentosas – ou para a música, ou para a pintura, ou para a literatura – e manifestam, inclusive, essa vocação de maneira precoce. Amadeus Wolfgang Mozart, por exemplo, aos quatro anos de idade já compunha peças musicais de fazer inveja a compositores sessentões.
Todavia, apenas essa aptidão natural não basta para fazer de quem quer que seja um artista consagrado, um cientista criativo ou um trabalhador altamente produtivo. Requer-se estudo, treinamento, disciplina, constância, capacidade de observação e, sobretudo, amor, muito amor por aquilo que se faz. Sem isso, em questão de dias, qualquer talento em potencial desaparece e resulta em coisa nenhuma.
No outro extremo tomemos alguém que não conte com vocação especial para coisíssima alguma. Todavia, se essa pessoa se interessar por determinada atividade, se procurar aprender tudo o que diga respeito a ela, se for observadora, disciplinada, determinada e praticá-la exaustivamente, sempre buscando performance melhor, em determinado ponto de suas tentativas (caso não desanime antes, claro) haverá de compor magnífica sinfonia (se sua paixão for a música), pintar uma tela de fazer inveja a Vermeer (se for pintura), esculpir uma estátua que rivalize com o David de Michelângelo, escrever um poema que não fique nada a dever a Victor Hugo e assim por diante.
Caso seu interesse seja pela ciência, desvendará mistérios tidos como insondáveis a exemplo de Copérnico, descobrirá como curar doenças consideradas incuráveis como fez Louis Pasteur, criará vacinas que erradicarão terríveis moléstias da face da Terra como Albert Sabin, formulará princípios que expliquem o macro e o micro universo tal qual a Teoria da Relatividade de Albert Einstein e assim por diante. Mas a condição sine qua non para que isso aconteça é que ame, ame louca e profundamente, sem a mínima restrição, a atividade a que dedicará sua vida.
Talento é ponto de partida e não reta de chegada das grandes realizações. O Mestre dos Mestres deixou isso claro, claríssimo na inigualável parábola a respeito que nos legou. Quem enterrar suas aptidões, por medo de fracasso, as perderá inexoravelmente. Nenhuma obra que realmente valha a pena nasce espontaneamente, e já prontinha, na cabeça de quem quer que seja, por mais talentosa que essa pessoa possa ser. É sempre fruto de trabalho, de muito trabalho, além de disciplina, inteligência, vontade e infinito amor. Em contrapartida, os que buscarem desenvolver aptidões com dedicação e método e contarem com as características que citei, haverão de adquirir outras tantas, com as quais sequer atinavam. É pura questão de lógica.
Raros são os que não conhecem algum indivíduo tido e havido como extremamente talentoso, mas que fracassou fragorosamente na vida, dada sua indolência e falta de amor ao trabalho. Há muita gente assim mundo afora: fracassada, ressentida, despeitada, viciada até, lançando, invariavelmente, a culpa de seus fracassos nos outros, quando estes resultaram, exclusivamente, da sua arrogância e, principalmente, da sua inércia.
O escritor Máximo Gorky deixou isso bastante claro em sua “Carta aos jovens escritores”, ao constatar, do alto da sua vasta experiência: “O talento desenvolve-se no amor que pomos no que fazemos. Talvez até a essência da arte seja o amor pelo que se faz, o amor pelo próprio trabalho”.
Muitos, certamente, irão discordar das minhas colocações e é bom que assim aconteça. Mas discordem com argumentos, sólidos e inquestionáveis, contudo jamais com impropérios e ataques pessoais, modo de ação dos medíocres e dogmáticos. Toda discussão em alto nível traz algum tipo de esclarecimento, mesmo que não se trate do definitivo.
O principal conselho que posso oferecer aos aspirantes a escritores (atividade pela qual sou apaixonado e que polariza toda a minha atenção na maior parte do meu tempo), mas que vale para quem aspire o sucesso em outras artes (ou em ciência) é que ame sem restrições o que faz. Se não lhe for possível dedicar esse amor irrestrito, escolha, pois, alguma coisa de que realmente venha a gostar de fazer. E esqueça essa história de talento.
Leia, pesquise, observe, pratique, exponha, aceite críticas pertinentes, ignore as impertinentes e siga em frente. Estou certo de que lerei, um dia, seus livros, com empatia e satisfação, todos alçados à condição de best-sellers. Você será um vencedor! Por isso, reitero: Siga sempre em frente, sem vacilar!

Tuesday, May 19, 2009

REFLEXÂO DO DIA


O belo é o suprassumo da perfeição. É algo sem mácula, sem defeitos, sem nada a que se possa fazer a mínima restrição. Daí eu considerar que a verdadeira beleza, em toda a sua glória, majestade e esplendor, é atributo exclusivo de Deus. Nós, humanos, temos que nos contentar com seus reflexos, em menor ou maior intensidade, não importa. É por essa razão que a imaginação é essencial para captarmos o belo e tentarmos reproduzir, com o máximo de autenticidade e veracidade, com o talento que eventualmente contarmos, em versos, imagens e sons. O artista batalha a vida toda em busca desse pálido reflexo de beleza e, na maior parte das vezes, se frustra. Louis Bonald fez a seguinte constatação a respeito: “O belo é o superlativo de todos os superlativos da sensação, do afeto e do pensamento”. Daí, portanto, a beleza suprema ser interdita a nós humanos. É, como tudo o que é perfeito, atribuição e característica exclusivas de Deus.

A moléstia da indiferença


Pedro J. Bondaczuk

As pessoas dinâmicas, ativas, inteligentes e que sabem qual é o seu papel na vida, e mais do que isso, que procuram exercê-lo com talento e entusiasmo, têm sempre alguma causa (em geral muitas) que abraçam e buscam executar.
É certo que muitas vezes equivocam-se (todos estamos sujeitos a equívocos), mas têm coragem de admitir seus erros, mudar seus rumos e assumir posições, mesmo que se trate de “remar contra a maré”. Nunca se omitem, em circunstância alguma, porque se importam com os outros, mesmo que seja para os odiar. Quando amam alguém ou alguma coisa, tornam-se irresistíveis, fortes e, virtualmente, invencíveis.
No outro extremo há aquelas pessoas que classifico de “invertebradas”. São as que não têm causas pelas quais lutar, ideais a defender, caminhos a percorrer e vivem num marasmo estonteante, adorando o próprio umbigo, agindo como se fossem o centro do mundo, sem deveres e nem tarefas.
Para estas, tanto importa que chova ou faça sol. Não tem importância se imperem a justiça e a solidariedade no mundo ou se prevaleça a lei das selvas, a do mais forte subjugando o mais fraco. Não amam e nem odeiam. Não fazem o bem nem o mal. Não beneficiam e nem prejudicam. Não fazem nada, pois não acreditam no que quer que seja. São indiferentes.
Assumem esta postura covarde e negativa por se recusarem a refletir. São, em geral, pessoas criadas em lares em que nunca houve falta de nada. Mimadas, desde crianças, tiveram todos os desejos e fantasias satisfeitos. Mal-educadas, não tiveram que lutar pelo pão que comem, pela roupa que vestem ou pela casa em que moram.
Há muitas pessoas assim, mundo afora, vegetando como parasitas, ocupando o espaço de um outro alguém que poderia ser mais útil e produtivo, limitando-se a contribuir para a superpopulação do mundo, sem a contrapartida da produção do que quer que seja: produtos, idéias, sentimentos, valores etc. Conheço muita gente assim e não sei se tenho pena ou desprezo por elas.
Mesmo que aparentem “vender” saúde, são doentes. Não necessariamente do corpo, mas da alma. Se essa “doença” tem cura ou não, não sei. Temo que não. Mas essa é a pior das enfermidades que pode acometer qualquer pessoa. Quem padece desse mal, pouco se lhe dá que alguém o ame ou deixe de amar. Em nada se importa com críticas ou até com o ódio alheio. Não tem uma espinha dorsal que lhe permita ficar de pé e caminhar com as próprias pernas, rumo a algum objetivo, mesmo que pífio ou equivocado. É ou não é um invertebrado moral? Sem dúvida!
Fénelon constatou, num de seus tantos escritos: “Entre todas as moléstias da alma, a mais grave é a indiferença”. E esse teólogo católico, poeta e escritor francês, cujo nome de batismo era François de Salignac de La Mothe, tinha conhecimento de causa para chegar a essa conclusão. Tratava-se de um rebelde em seu tempo. Suas idéias liberais sobre política e educação eram contrárias às da Igreja e do Estado daquela época.
Defendia, antes e acima de tudo, os fracos e oprimidos. Propunha que todas as pessoas, fossem quais fossem suas condições econômicas e sua classe social, tivessem todo o direito à educação universal e de qualidade, único caminho, no seu entender (e no meu) para seu progresso e dignidade. Fénelon, contudo, sempre esbarrou na barreira (às vezes intransponível) do comodismo, do “laissez-faire” e, principalmente, da perversa e olímpica indiferença dos poderosos e dos imbecis.
Portanto, leitor amigo, ame com toda a sua alma, mesmo que esse amor venha a lhe trazer sofrimentos (e muitas vezes trará, com certeza). Abrace uma causa, posto que esta lhe pareça ínfima ou, então, grande demais para ser bem-sucedida. Trace um ideal em seu caminho e persiga-o sem-cessar, embora tudo venha a indicar que se trate de algo irrealizável e superior às suas forças. E, sobretudo, se importe: com a família, com os amigos, com os estranhos, com seu bairro, sua cidade, seu país, com o mundo.
Isso é viver! É participar, amar, odiar, se alegrar, decepcionar-se, cair, levantar e prosseguir. Tenha garra! Tenha sangue nas veias! Tenha uma espinha dorsal que o sustente e mantenha ereto, quando todos estiverem de joelhos!
Livre-se do egoísmo idiota, do tédio dos desocupados, da descrença dos imbecis, da lamúria dos fracassados e, sobretudo, dessa terrível moléstia do espírito, que pode ser incurável e arruinar por completo a sua vida: a indiferença!

Monday, May 18, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A imaginação exerce papel preponderante – diria, decisivo – na definição do conceito de beleza. Como diligente escultora, desbasta as imperfeições das formas de pessoas e coisas, tornando-as simétricas, bem-proporcionadas e com aparência de perfeitas, quando de fato não o são. Há uma certa confusão entre o que é belo ou, simplesmente, bonito, elegante, suntuoso, gracioso e atraente. Não se tratam de palavras sinônimas, mas de nomeações de conceitos bem diferentes entre si, embora possam parecer iguais. O artista, todavia, sabe fazer bem essa distinção. Vive correndo a vida toda atrás dessa coisa arredia e sutil, que é a beleza, para perpetuá-la em versos, imagens ou sons. O filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson constatou o seguinte, a esse propósito: “As coisas podem ser bonitas, elegantes, suntuosas, graciosas, atraentes, mas enquanto não falam à imaginação não são belas”. E não são mesmo.

Vidas semelhantes


Pedro J. Bondaczuk

O medo é um mecanismo de defesa de que a natureza nos dotou para nos defendermos de perigos. Trata-se, pois, de algo normal e saudável, desde que, claro, não seja imotivado. Muitos temem riscos somente imaginários e levam vidas de horror e sofrimentos, perseguidos por monstros e fantasmas que existem apenas em suas cabeças. Outros tantos, também em decorrência de desvios psicológicos, embotam esse sinal de alerta, anulam-no e, via de regra, perdem deixam, prematuramente, de viver, por confundirem coragem com temeridade.
Somos verdadeiras ilhas cercados de medos por todos os lados. E não é para menos. Estamos num mundo estranho, estranhíssimo, embora à nossa feição, que não passa de pontinho tão pequeno no céu a ponto de ser, virtualmente, invisível. Trata-se de minúscula, de nanopartícula de um universo tão grandioso, que suas reais dimensões não cabem jamais em nosso entendimento. Por mais que o superdimensionemos em nossa mente, ele será sempre maior, muito maior.
Ademais, perigos existem a todo o momento e em todos os lugares, do nascimento à morte. O primeiro choro que damos, tão logo vemos (pela primeira vez) a luz do mundo, provavelmente é de medo. Entramos em um ambiente até então desconhecido, e que, instintivamente, nos aparenta ser hostil e sumamente perigoso, após uma permanência de nove meses no conforto e segurança do útero materno. Se tememos o nascimento, maior temor, ainda, nos desperta a morte que, a despeito de ser realidade comum a todos seres vivos, não a entendemos e nem aceitamos, o que nos desperta enorme terror.
O medo, no entanto, vicia. Quando o sentimos, nossas glândulas suprarrenais derramam, na corrente sanguínea, uma carga imensa de determinado hormônio, a adrenalina, que nos incita, instintivamente, à reação. E esta pode ser ou de fuga ou de enfrentamento àquilo que representa (ou achamos que represente) risco à nossa integridade. Isso, na forma natural.
Todavia, o que vêm a ser os esportes radicais se não desafios aos nossos medos? Passa pela cabeça de alguém que quando um sujeito pula de uma plataforma no abismo, tendo como proteção apenas uma asa delta ou um paraglaide, não sinta o mínimo receio de se espatifar cem metros ou mais abaixo, no solo? Claro que sentem. E não apenas medo, mas intenso terror. Isso origina, porém, uma intensa descarga de adrenalina que causa nesse esportista euforia indescritível.
O mesmo vale para quem pratica body-jump, ou surfa em ondas gigantes, de até vinte metros ou mais nos mares do Sul, notadamente na costa do Hawaí, ou faz outro esporte qualquer, que envolva perigo de quedas, quase sempre fatais. Quem age assim, porém, não é, como muitos acham, suicida em potencial. Não quer se matar, mas viver com intensidade.
Tem plena noção dos riscos que corre, mas é rigorosamente treinado para superá-los. Claro que está sempre sujeito aos imprevistos, a acidentes, a erros de cálculo que lhe causem principalmente a morte. Segurança absoluta, porém, não existe. Todos enfrentamos riscos, de todos os tamanhos e proporções, a todo o momento, até quando estamos dormindo, no aconchego aparentemente seguríssimo do nosso quarto.
O que estas pessoas são é viciadas em medo. Ou, para sermos mais precisos, no seu subproduto, fabricado pelo nosso corpo: a adrenalina. Não vivem sem ela. Sentem-se entediadas e infelizes quando em segurança (que é sempre relativa). Todos levamos vidas, se não iguais (a igualdade não existe), pelo menos semelhantes. A dita “civilização”, porém, está embotando nossos instintos e tornando-nos mais tíbios, mais acomodados e por consequência menos dinâmicos.
Henry David Thoreau, no memorável ensaio “Walden”, traz à baila a questão do chamado “calor vital”. Nosso corpo é, literalmente, uma máquina a vapor. O oxigênio que inspiramos, “queima” os nutrientes, que a corrente sanguínea transporta, proporcionando força para os músculos movimentarem nosso corpo. O organismo humano, para ser normal, tem que ter temperatura interna de 35 graus Celsius, nem a mais e nem a menos. Se passar disso, estaremos com febre. Se for inferior a essa cifra, sofreremos hipotermia.
O próprio organismo, originalmente, dispunha de mecanismos para impedir que esse calor crescesse ou diminuísse. Desde que o homem descobriu o fogo, porém, e aprendeu a fazer roupas e a construir casas, esse mecanismo regulador de temperatura natural se desregulou. Passou a depender, cada vez mais, desses auxílios externos, para manter o calor vital. Os selvagens, porém, mantêm, ainda, essa regulagem quase que intacta. Andam nus, em temperaturas baixíssimas, e ainda assim seus corpos não sofrem de hipotermia. Nós, civilizados, nas mesmas condições, morreremos.
O romancista sul-africano, Stuart Cloete, constata, a propósito desse nosso amolecimento físico, mental e espiritual causado pelo que chamamos de “civilização”, no livro “Balada Africana”: “Procuramos apenas conforto, coisa que nada mais é do que uma almofada entre o homem e a realidade. Não temos crenças. Tanto Deus, como o diabo, são agora considerados mitos. Com eles, lá se foi até a idéia do bem e do mal. Vivendo em cidades de aço e concreto, comendo alimentos industrializados, nós tentamos erguer-nos acima da natureza, e passamos a considerar-nos, de certo modo, superiores às leis que governam a vida. Um homem não é mais vivo, nem menos vivo, do que um gerânio no seu vaso, sobre o peitoril da janela; ou do que um elefante, nas florestas da África”.
E por que fazemos tudo isso? Para aumentar nossa pretensa segurança. Ou, em última instância, para fugirmos do medo, quando o mais sábio e sensato seria agir como os praticantes de esportes radicais (embora sem tanta radicalidade), ou seja, “domá-lo” e fazer dele nosso aliado para uma vida mais intensa e dinâmica.

Sunday, May 17, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A beleza é um conceito bastante controvertido e em raros aspectos é consensual. Apresenta-se, basicamente, de duas formas: virtual e conceitual. A primeira é aquela efêmera, fugaz, passageira, que se transforma com o tempo e perde o seu encanto e viço. É o caso da beleza física, de uma pessoa, uma flor, um animal, não importa. Dura por somente alguns anos, quando não dias ou meras horas, e depois se decompõe, se corrompe, envelhece, murcha e desaparece. Já a conceitual, embora difícil de definir, tem o caráter de permanência. Impregna-se em nosso espírito e basta fecharmos os olhos para podermos vislumbrar seus reflexos. Mas é esquiva, caprichosa e escorregadia. Honoré de Balzac escreveu o seguinte sobre ela, no conto “Obra-prima ignorada”: “A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la, enlaça-la firmemente para obrigá-la a render-se”.

DIRETO DO ARQUIVO


Sonho de liberdade vira pesadelo


Pedro J. Bondaczuk


A Libéria, pequeno país da África Ocidental, vive um terrível drama, ao cabo de quase oito meses de uma sangrenta guerra civil, que está perto da sua culminância com o ataque rebelde à sua capital, Monróvia, cidade de cerca de 500 mil habitantes, e que vive momentos de caos e de incerteza, como ademais a nação inteira.

Todos os ministros do presidente Samuel Doe, que assumiu o poder em 12 de abril de 1980, mediante um golpe de Estado, já abandonaram o território liberiano. O mesmo aconteceu com o comandante do Exército, deixando soldados enlouquecidos e muito bem armados sem nenhum comando ou qualquer disciplina.

O povo está passando fome, tendo que comer raízes e folhas de árvores para não morrer. Ainda assim, bebês e pessoas idosas não estão conseguindo escapar da morte por inanição. Triste situação para um país que nasceu sob o signo da liberdade (daí dever o seu próprio nome). Que foi criado por pacifistas tão apaixonados, que compraram o território onde se situa a República, em 1822, para que os escravos libertos dos Estados Unidos pudessem ter uma pátria onde vivessem em paz e harmonia com os vizinhos sem se indispor contra ninguém.

A Libéria obteve a independência em 27 de julho de 1824, e seu primeiro presidente foi um mestiço, nascido no Estado norte-americano da Virgínia, que batizou a capital com o nome de James Monroe: Monróvia.

Quando em abril de 1980 o então sargento Samuel Kanyon Doe, logo após o golpe de Estado que comandou, mandou executar o presidente deposto, William Tolbert, nós comentamos que chegaria também o seu dia de ter de sair pela porta dos fundos do palácio presidencial.

Ele não teve o mínimo senso de humanidade para com o adversário vencido. Não o prendeu, nem o julgou, sequer com a pantomima de julgamento que os ditadores como ele costumam encenar. Simplesmente colocou o veterano político, que estava no governo há nove anos (conduzido pela vontade do povo nas urnas) à frente de um pelotão de fuzilamento, com os olhos vendados, num arrabalde de Monróvia e deu cabo de sua vida, num frio e rancoroso assassinato.

Agora, Doe está tendo o dissabor de ver os parasitas que por tanto tempo viveram à sua sombra, privando da sua confiança, “abandonando o navio”, prestes a naufragar. Caso não fuja da Libéria, certamente seu ex-aliado, e hoje principal inimigo, Charles Taylor, comandante dos rebeldes, lhe dará o mesmo destino que ele deu a Tolbert. Tudo leva a crer, portanto, que a “pátria da liberdade” plantada na África por sonhadores norte-americanos, ex-escravos, vai continuar sendo ainda por algum tempo (só Deus sabe quanto) o autêntico “umbral do inferno”.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 6 de julho de 1990).

Saturday, May 16, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Se houvesse a mínima possibilidade de renascer, mas exatamente como sou, e de viver de novo, posto que sob circunstâncias diversas, o tanto que já vivi, mas sem perder os conhecimentos e a experiência que já tenho, eu daria, antes de tudo, maior valor aos relacionamentos: às amizades e, sobretudo, ao amor. Em contrapartida, não me preocuparia tanto com realizações pessoais, preocupação que, às vezes, até se torna obsessão. Buscaria amar, mais e mais, a vida, em cada uma das suas manifestações, e não perderia tanto tempo com vaidades, ostentações, futilidades e picuinhas.. Provavelmente, viveria como o poeta norte-americano Philip Levine descreve, nestes magníficos versos: “Deixe-me recomeçar como um grãozinho/de poeira apanhado nos ventos noturnos/deslizando para o mar.../Uma pequenina criança sábia que desta vez vai amar/sua vida, porque ela é diferente de todas as outras”.

Soneto à doce amada - XXII


Pedro J. Bondaczuk

Doce amada, como se transforma
nossa vida! O mundo, o destino,
futuro, projetos e o que atino
que seja minha máxima norma,

meu ideal, que se mostra um nada!
Já não sou peregrino perdido,
viajante insone, combalido,
gaivota solitária, cansada!

Minha andança adquiriu um rumo,
são confiantes, seguros, meus passos
e viáveis os encargos que assumo.

Já livrei-me dos traiçoeiros traços
da descrença. Com alinho, aprumo,
abrigo-me, feliz, em seus braços!

(Soneto composto em Campinas, em 7 de abril de 1971).

Friday, May 15, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Conversei com vários marginais – tidos e havidos como bandidos irrecuperáveis, sanguinárias e impiedosas feras humanas – e senti, em todos eles, sem nenhuma exceção (posto que em intensidades diversas) que seu sonho na vida (para eles fantasioso e irrealizável) era o de serem amados e admirados por alguém (não importa quem), embora nenhum admitisse culpa por seus atos horrendos e criminosos. John Steinbeck escreveu: “Na incerteza, estou convencido de que, por baixo de suas camadas superiores de fragilidade, os homens querem ser bons e querem ser amados. Na verdade, a maioria dos vícios é uma tentativa de atalho para o amor. Quando um homem morre, não importa qual tenha sido seu talento, influência e gênio, sua vida foi um fracasso se morreu sem amor; sua morte é um frio horror”. Também estou convicto disso, pelas observações que pude fazer. São exatas? Não tenho a menor condição de assegurar, pois minhas conclusões baseiam-se só na intuição.

Partilha de alegrias


Pedro J. Bondaczuk

A imensa maioria das pessoas, não importa em que época tenha vivido e nem sua condição social (e, portanto, material), tem o estranho hábito de apostar no que é negativo. Observe, por exemplo, as conversas numa roda de amigos. Você notará, com a maior facilidade, que os assuntos tratados, mesmo os mais triviais, para não dizer banais, são, invariavelmente, todos de críticas, intrigas, fofocas e maledicências.
Ou, então, são de notícias ruins, dando conta de tragédias, de violência e de crise. É certo que os meios de comunicação contribuem, demais, para essa postura. E esse não é sequer, como se pensa, fenômeno exclusivo do nosso tempo. A leitura de jornais e de livros do passado, não importa se recente ou muito remoto, por exemplo, mostram que sempre foi assim.
Partilhamos com os outros tristezas, mágoas, queixas, frustrações e uma infinidade de coisas negativas, na vã esperança de recebermos ajuda para amainar, senão eliminar nossas aflições. Não eliminamos. Pelo contrário, subconscientemente, alimentamos nossas angústias, multiplicando-as exponencialmente.
Ocorre que nosso interlocutor convive, amiúde, com os mesmíssimos problemas que nós e espera, por sua vez, que o ajudemos, da mesma forma que esperamos a sua ajuda. É o típico caso, portanto, de um cego tentando guiar outro cego. Esse tipo de conversa não passa, pois, de mera perda de tempo, o que, em vez de nos ajudar, vai nos complicar ainda mais, posto que nem sempre percebamos isso.
Há um tipo de partilha, porém, que tem um benéfico e bem-vindo efeito multiplicador e que, na verdade, é o antídoto que tanto procuramos para anular os efeitos dos venenos da alma. É o de alegrias. É o do bom-humor. É o do otimismo, da crença que todos os males são passageiros e que o amanhã pode (se assim quisermos) ser muito melhor do que o aflitivo presente.
Dizem, os pessimistas, não sem uma certa dose de razão, que “nada é tão ruim que não possa piorar”. Mas os otimistas igualmente estão certos ao inverterem essa premissa para “nada é tão bom que não possa se tornar melhor”. Qual das duas afirmações você prefere? Se for a primeira, está na hora de mudar seus referenciais. Ou, em casos extremos, de procurar, com urgência, ajuda de algum especialista.
Da minha parte, opto pela segunda colocação. Aprendi, ao longo dos anos, depois de apanhar muito da vida, que o pensamento positivo me predispõe a vitórias inacreditáveis. E quando sobrevêm os fracassos, seus efeitos são minorados pela sólida crença numa reversão de expectativas no amanhã.
Sempre que me sinto tentado a pensar no negativo, lembro da personagem Scarlet O’Hara, do clássico de Hollywood, “O vento levou”, que diante da catástrofe pela qual passava, em decorrência da guerra civil norte-americana, não se perdia em lamúrias e nem cogitava em se matar. Cerrava os dentes, e exclamava, cheia de confiança e de energia: “Amanhã será outro dia!”.
Está aí magnífico lema para nossas vidas. Que tal você enquadrar essas palavras, em letras garrafais, e colocá-las em um lugar bem visível do seu gabinete de trabalho? Com o tempo, elas serão gravadas em seu subconsciente e você haverá de encarar os fatos, próprios ou alheios, na devida perspectiva. Deixará de ser triste, mal-humorado e infeliz, e portanto desagradável aos que o cercam e até a você mesmo.
É isso, leitor amigo, “amanhã será outro dia!”. Experimente partilhar com os outros seu bom-humor, otimismo, esperanças, fé e, sobretudo, alegrias. Em um primeiro momento, é verdade, você corre o risco de ser encarado como alienado. Mas, esteja certo, as pessoas não irão se afastar de você, como se tivesse alguma doença grave e contagiosa. Sua atitude, aos poucos, irá ter efeito multiplicador. Transformará, sem que estes se apercebam, a de seus interlocutores.
O dramaturgo dinamarquês, Henrik Ibsen, declarou, em uma de suas peças, pela boca de um dos seus personagens: “Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante um certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada por duas pessoas”. Busque, apenas, a companhia de quem esteja disposto a fazer essa partilha ou a aceitá-la, caso seja você o partilhador.
Nada, absolutamente nada é tão bom que não possa melhorar. Esta tem que ser a sua crença, nos momentos favoráveis e, sobretudo, nos aziagos. Isto é o que você deve partilhar com as pessoas que ama e mesmo com as que detesta. Haja o que houver, aconteça o que acontecer, “amanhã será outro dia”. E pode (por que não?) ser o da sua maior vitória na vida, caso acredite, de fato, que o seja e se predisponha para tal.

Thursday, May 14, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Mandam a prudência e a sabedoria que aproveitemos, ao máximo, o momento presente (que é certeza), sem deixar o gozo das coisas boas que a vida nos proporciona para um amanhã incerto e assustador. Amores, amizades, projetos, realizações e, principalmente, a felicidade são (e sempre devem ser) urgentes, prioritários e, sobretudo, inadiáveis. Fernando Pessoa foi à raiz desse comportamento, para explicar a razão de adiarmos sempre o que deve ser imediato, ao escrever, em um de seus ensaios: “O futuro é sempre belo, porque ele viaja na barquinha da esperança, cujas velas dilata aquela brisa inebriante, que é a fantasia”. Só que a realidade é implacável, dura, cruel, feita, apenas, de concretude. Sejamos, portanto, sábios e prudentes. Vivamos plenamente o aqui e o agora, sem adiar nossas satisfações e projetos para algum remoto e incerto amanhã, que sequer sabemos se de fato teremos. Pois a vida (pelo menos esta, material), não comporta reprises.

Reduzido a pó


Pedro J. Bondaczuk

A morte assusta todas pessoas, embora em graus variáveis, pelo tanto de mistério que encerra. Alguns nem pensam nela e deixam que chegue sem ansiedades e nem temores. Outros, ficam apavorados só em pensar a respeito. Eu fico, confesso, e muito. Se me fosse facultada a vida eterna, a receberia de muitíssimo bom grado, a despeito das dores, decepções, angústias e tristezas pelas quais tivesse que passar. Certamente passaria ou, quem sabe, ainda passarei.
Ninguém tem noção exata do que se sente nesse momento fatal, quando a morte põe fim à nossa tão rápida e fugaz passagem pelo mundo. Cada qual se limita, à sua maneira, a imaginar como ele é. Há quem tenha fé e creia numa vida espiritual e consciente, melhor do que esta. Outros tantos, porém, entendem que se trata da absoluta extinção, do corpo e do espírito, e que só sobreviverão obras – materiais ou imateriais – que eventualmente deixarmos. Da minha parte, ora penso de um jeito, ora de outro, sem nunca me definir. Certezas? Não tenho nenhuma.
Pensar na morte é reflexão incômoda, dolorosa e atemorizadora, sem dúvida, mas que deve ser feita com serenidade e maturidade. Afinal, dela ninguém nunca escapou e jamais escapará. É a grande niveladora das pessoas. Atinge tanto o humilde quanto o poderoso; tanto o néscio quanto o sábio; tanto o miserável quanto o milionário. O escritor Graham Greene escreveu a respeito: “Todos chegamos um dia como a água e nos vamos como o vento”. E não é o que acontece?!
James W. Kennedy dizia, com muita sabedoria, que “o que realmente importa é o que acontece em nós, e não a nós”. É esta integridade de espírito, esta riqueza interior, esta personalidade e confiança no nosso talento e nas nossas ações que devemos cultivar, para nos servir nos anos mais difíceis da existência.
Estas têm que ser as armas ao nosso dispor para quando nossos músculos já não obedecerem com prontidão as ordens emanadas pelo cérebro. Para quando nossos olhos não enxergarem com a mesma acuidade da juventude, para quando nossos ouvidos já não captarem os sons com a mesma nitidez dos bons tempos e quando o nosso raciocínio levar um tempo enorme para “esquentar”.
Envelheçamos, sim, pois esta é uma fatalidade biológica. Mas o façamos com picardia e, sobretudo, com dignidade, mesmo que isso nos custe um esforço sobre-humano. É mister que se destaque que nossas dúvidas, princípios e esperanças não são exclusivos, mas foram, serão e são compartilhados por milhões, quiçá bilhões, de pessoas ao redor do mundo através dos tempos.
Todos, reitero, somos vítimas da efemeridade. Todos, sem nenhuma exceção, trazemos em nós, em nossos corpos, em nossas vidas, mesmo que pareçam grandiosas aos olhos alheios, as mesmas dúvidas, os mesmos defeitos, as mesmas misérias e as mesmas covardias que tanto nos envergonham, além do estigma da extinção. Afinal, "no tempo não há lugar para o homem..."
Passado, presente e futuro são uma só coisa, um "único rio", cujas origens e destino estão no infinito. Ninguém sabe de onde suas "águas" vêm e nem para onde vão. Por isso, até hoje não sei com certeza se devemos comemorar ou lamentar, por exemplo, um aniversário. Pelo sim e pelo não, prefiro seguir a tradição e celebrá-los. Fico em dúvida, porém, se devemos considerar uma vitória o fato de havermos sobrevivido a mais um ano ou nos preocupar com a inexorável proximidade da morte.
Minha intuição, e somente ela, leva-me a ficar com a primeira das alternativas. É menos dramática e menos dolorosa. Afinal, o que é a vida e o que é a morte? Tudo, aos nossos olhos, envelhece e um dia vira pó: pessoas, coisas, cidades, pensamentos, sentimentos etc. Devemos, porém, atentar que tudo, também, se renova, às vezes para melhor, outras para pior, mas fica sempre novo. É a inflexível lei da vida.
O romancista sul-africano, Stuart Cloete, constatou no livro “Balada Africana”: “Ao redor de nós, há vozes que nos chamam. A voz do filme, a voz do rádio, da televisão, da imprensa e da propaganda – e nenhuma delas faz sentido. Não há imagem. Há apenas confusão; e, esmagado entre a pedra de moer de uma economia que se desmorona (e que fica por cima), e os mecanismos de fuga (que ficam por baixo) de uma indústria de diversões que surgiu brotando do desesperado desejo do homem no sentido de fugir de si próprio e ir para o reino da fantasia, o espírito humano está sendo reduzido a pó”.
Não raro, todavia, a decadência está, apenas, em nosso interior, por enxergarmos tudo com lentes desfocadas. Temos é que acertar o foco se aspirarmos a felicidade (eu, pelo menos, aspiro). Se as lentes forem escuras, veremos tudo sombrio e sem luz. Usemos as naturais, para enxergarmos melhor e mais longe.
Mauro Sampaio esclarece tudo o que eu quis dizer (e não fui tão hábil), neste profundo poema, intitulado “Cidade Velha”: “Cidade velha, ou o velho está dentro de mim/a imaginar o fim de tudo/sem, entender que o fim na verdade sou eu?!//Estes sulcos na rua/estes cães tão magros e imundos,/não seriam muito mais meus conhecidos/do que penso que o são?/Estes sulcos, já não os vi no meu espelho?/Estes cães, não os trago na alma?”.
Perspectiva. Tudo é, portanto, questão de perspectiva, de ângulo, de foco com que nos encaramos, e ao próximo e a tudo o que nos rodeia. E claro, também, ao tempo, ao espaço, ao universo, ao passado, ao presente, ao futuro, à vida e, sobretudo, à morte. Perspectiva. Questão de perspectiva.

Wednesday, May 13, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Muita gente é mais conhecida por apelidos – que recebe na escola, no trabalho, no clube ou seja onde for – do que da forma como foi registrada em cartório. Quando não são ofensivos, estes demonstram afeição e intimidade por parte dos que os impõem. Não raro, contudo, a intenção é mesmo a de constranger, quando não humilhar, o apelidado, tornando-o motivo de riso e zombaria dos basbaques. E quanto mais este se rebela, mais o apelido pega. Se, porém, uma pessoa é mais conhecida por um apelido, do que pelo nome, é porque, em geral, este é inadequado. Não condiz com a personalidade e o jeito de ser e de se comportar do nomeado. John Steibeck escreveu, a respeito, no romance “A Leste do Éden”: “Os nomes são um grande mistério. Jamais pude saber se o nome é moldado pela criança ou se a criança muda para se ajustar ao nome. Mas uma coisa se pode ter certeza: sempre que um ser humano tem um apelido, é prova de que o nome que lhe deram estava errado”.