Friday, April 28, 2017

LEITURA É, DE FATO, UM “ATO DE FÉ”


 Um judicioso (como tudo o que ele escreve) e generoso comentário do escritor Urariano Mota, feito há já algum tempo a determinado texto que escrevi, a propósito de leitura, merece considerações da minha parte, pelo tanto de verdade que contém. Aliás, por falar nesse brilhante “escriba” (permita-me chamá-lo, carinhosamente, dessa forma, caro mestre), aconselho que vocês comprem, leiam, recomendem e deem de presente os seus livros “Soledad no Recife”, “Os corações futuristas””O caso Dom Vital” e o recém-lançado “Dicionário amoroso do Recife”. Tenho absoluta certeza que vocês irão me agradecer por essa dica. Mas, voltando ao assunto, Urariano observou, no aludido comentário: “há um outro fenômeno na leitura talvez mais poderoso: é o que fica guardado lá no mais íntimo do espírito, e não nos demos conta”. É verdade. Determinados conceitos e até formas de expressão de nossos escritores favoritos são captados pelo subconsciente e, quando nos damos conta, emergem ao consciente, não raro literalmente. E por que isso acontece? Entendo que ocorra em virtude da afinidade que descobrimos ter com tais autores. Isso reforça ainda mais minha tese de que “leitura é ato de fé”.


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Livros que recomendo:

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Atitude justa, porém tardia



Pedro J. Bondaczuk



A União dos Escritores da União Soviética está reparando, embora bastante tardiamente (com quase 30 anos de atraso), uma das maiores injustiças que já cometeu, ditada, certamente, pela abjeta bajulação de seus membros e não por eventual falha de julgamento.

Está reabilitando o único escritor do país a conquistar um Prêmio Nobel de Literatura, Boris Pasternak, por seu delicioso romance “Doutor Jivago”. Até hoje, ninguém entendeu, no Ocidente, o que levou esse grupo de intelectuais a agir da maneira que agiu. Destilando seu ódio (possivelmente voltado contra si mesmo, contra sua imensa covardia face ao poder e aos poderosos) sobre um homem pacato, que amava sua pátria e que jamais, em momento algum, compreendeu a razão de ser considerado um dissidente político.

O romancista “comeu o pão que o diabo amassou” apenas por ser considerado genial além das fronteiras do território nacional. O Cremlin entendeu que o fato dele ser escolhido para o Nobel implicava, necessariamente, em alguma armadilha propagandística contra a União Soviética. Qual, não importava.

O regime desconfiava que ela existia, e pronto. Para “puxar o saco”dos vetustos senhores da cúpula do Partido Comunista, então comandados pelo campônio Nikita Kruschev, a União dos Escritores precisava se adiantar ao governo. Urgia que se punisse o companheiro, que ousara escrever uma obra capaz de despertar tamanho fascínio nos “burgueses” do Ocidente.

E o que fizeram, para realizar sua obra-prima de bajulação? Em primeiro lugar, expulsaram Pasternak da entidade, o que equivale dizer, fecharam as portas para que o romancista fosse publicado e, portanto, lido, em seu próprio país. A seguir, pediram a cassação da sua cidadania soviética, como se tivessem esse direito. E, por último, desejaram expulsar o romancista (um patriota que confessou, em pânico, em desespero, temendo perder o que mais amava: “Sair das fronteiras da minha pátria significa para mim a morte”) da própria União Soviética.

Felizmente, para o escritor, seus companheiros tiveram ao menos esse gesto de “piedade”. Deixaram-no9 continuar vivendo no país, que estava sendo tão injusto com ele, mas que ele amava tanto. O festejado Prêmio Nobel de Literatura no Ocidente era, em sua terra natal, autêntico paria. Um intelectual maldito, marcado, visado, do qual todos procuravam se afastar, como se fosse possuído de moléstia altamente contagiosa.

Mas seu romance “Doutor Jivago” sempre esteve despido de segundas intenções. É uma história viva, humana, impregnada do calor da autenticidade, escrita por alguém que tinha convicção do que escrevia. É uma obra embebida de ternura, de compaixão pelos defeitos e fraquezas humanos e principalmente de compreensão deles.

É claro que seu estilo levemente irônico serviu de pretexto para que aqueles que foram classificados por Alexander Soljenytsin de “maquiadores literários” exclamassem o seu “Eureka” russo. Para que descobrissem o que entendiam serem críticas veladas ao sistema soviético de governo e que por isso agradavam aos ocidentais.

Por causa dessa sua paranóia, privaram os cidadãos desse país, sabidamente amantes da boa literatura e entendedores de arte (os russos produziram centenas de gênios literários, em todos os tempos, isso não é segredo para ninguém), de uma obra humana, talentosa, verossímil e, sobretudo, carregada de patriotismo. Que geração infeliz foi essa que deixou que interesses mesquinhos lhe obliterassem a razão e o senso de avaliação!

Hoje, felizmente, Pasternak, que morreu em 1960, sozinho, amargurado e injustiçado pela sua gente, está sendo, finalmente, reconhecido. Afinal, graças ao trabalho de uns poucos que não se conformaram com a burrice cometida por um bando de burocratas travestidos de intelectuais, a verdade começa a ser restabelecida. E este é o único caminho para a literatura russa sobreviver. Pois, como disse com muita argúcia o dissidente Zamyatine: “...Se se esperar do escritor que ele seja um crente real e fiel, se não lhe for permitido ironizar, como Swift, ou rir de tudo, como Anatole France..., receio que a literatura russa só terá um futuro: o passado”.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 24 de fevereiro de 1987).


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Férrea dependência


Pedro J. Bondaczuk


O homem só, fora do seu grupo (quer familiar, quer social, político, ideológico etc.), é um dos animais mais frágeis e vulneráveis da natureza. Sua imensa força e inegável poder advêm do coletivo, da soma de várias capacidades individuais, a despeito da sua faculdade de raciocínio e compreensão, que o distingue dos demais seres vivos. Depende do que se pode chamar de “sistemas”, que se ligam uns aos outros para compor um todo, que é o conjunto de nações existentes no mundo e que se convencionou chamar de “humanidade”.

Há quem conteste essa dependência e cite o caso de náufragos, que vão parar em remotas ilhas desertas e conseguem sobreviver sozinhos, se adaptando a condições das mais adversas possíveis. Casos, contudo, como o de Robinson Crusoé (que alguns garantem que de fato existiu e que Daniel Defoe, portanto, se baseou num personagem real para escrever o seu clássico), ou do personagem do livro-reportagem de Gabriel Garcia Márquez, que sobreviveu por cerca de 180 dias em uma frágil balsa perdida nas águas do Caribe, são raros.

Ademais, essas pessoas permanecem isoladas por tempo relativamente curto, um ano ou dois se tanto, até serem resgatadas, por isso conseguem sobreviver (quando conseguem). Se não fossem, todavia, encontradas e reconduzidas à “civilização”, quanto tempo sobreviveriam, sem enlouquecer? Quantos meses demorariam para morrer de alguma doença banal (uma gripe, por exemplo), ou de anemia, por falta de assistência médica?

Não adianta argumentar. Gostemos ou não, dependemos de sistemas, com todas as injustiças e contradições que eles possam ter (e, sem dúvida, têm). Mas só os valorizamos quando, por alguma razão, perdemos o lugar em algum deles.

Se a perda for no social, por exemplo, corremos o risco de nos tornar marginais, de virarmos “sem-teto”, a quem ninguém dê guarida, socorro ou pelo menos atenção. É quando desejamos, desesperadamente, retornar à condição anterior à perda, às vezes (quase sempre) em vão.

Os rótulos variam, mas a sensação de impotência é sempre a mesma. Se a perda ocorre, por exemplo, no sistema político, tornamo-nos subversivos, com riscos de terminarmos à frente de um pelotão de fuzilamento ou de apodrecermos em alguma prisão. Se for no religioso, seremos considerados ateus, mesmo que creiamos piamente em Deus. E assim por diante.

Atentei para esse fato, porém, apenas após ler este trecho de Nathaniel Hawthorne, que a princípio analisei com desdém, mas que no final das contas tive que aceitar como a mais pura expressão da verdade, dadas as evidências: “Em meio à aparente confusão de nosso misterioso mundo, os indivíduos estão de tal forma perfeitamente ajustados a um sistema e os sistemas uns aos outros e todos a um todo que um homem, ao sair de um sistema por um momento, se expõe ao risco espantoso de perder seu lugar para sempre”.

E por que desdenhei, em princípio, dessa constatação? Por causa do histórico de vida de Hawthorne. É verdade que o autor de best-sellers como “A letra escarlate”, “Fanshave”, “Histórias narradas duas vezes” e “O fauno de mármore”, entre outras, é considerado o primeiro grande escritor da Literatura norte-americana, que deu ao mundo mentes notáveis e privilegiadas como Henry David Thoreau, Ernest Hemmingway, John Steinbeck, John dos Passos, Scot Fitzgerald, William Faulkner, Edgar Alan Poe, Walt Whitman, Ralph Waldo Emerson, Will Durand etc.etc.etc. Como se vê, não é pouca coisa. Além disso, ele é tido e havido como o maior contista já nascido nos Estados Unidos (o que, a meu ver, é contestável).

Se Hawthorne foi tudo isso, qual a razão de ficar com um pé atrás em relação à citada observação? O motivo é o seu engajamento. É a sua visão parcial e dogmática do mundo. É a rigidez com que avalia quem não pensa como ele. Afinal, esse escritor é considerado, até hoje, ícone do puritanismo. Portanto, com forma de encarar o mundo (e os homens) adstrita, exclusivamente, (se não fanaticamente) à sua linha de pensamento.

Ademais, na verdade, não afirmei que sua constatação era incorreta. Disse, apenas, que precisei meditar um pouco para concluir o quanto é verdadeira e pertinente. Nathaniel Hawthorne foi bisneto de um dos mais implacáveis juízes das feiticeiras de Salém (sua cidade natal), na Nova Inglaterra, episódio que a maioria dos norte-americanos não tem lá muito orgulho de recordar. Mas parece que ele tinha.

A conclusão a que chego é que o tão propalado livre-arbítrio não é tão livre quanto se pensa ou seria desejável. Estamos subjugados à férrea dependência advinda da nossa fragilidade individual. E isso derruba todos os postulados anarquistas, de uma vida sem regras, leis, normas ou quaisquer outras imposições que confiram ordem e rigor à vida em comunidade.


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Thursday, April 27, 2017

SUBMETER-SE À CRÍTICA, MESMO QUE INJUSTA, É SEMPRE SAUDÁVEL AO ESCRITOR

Muitos escritores de primeiríssima linha reproduziram a linguagem do povo em diálogos de personagens (quando isso se impunha, claro) em romances de grande sucesso. Mas fizeram-no com bom-senso, elegância e, sobretudo, pertinência. É isso o que lhe recomendo, caríssimo leitor. Pela pergunta do leitor que me consultou, sobre a validade ou não do uso da linguagem do povo em textos literários, concluo que se trata de aspirante a escritor. Deixo-lhe, pois, um recado. Mande-me seus textos, sem nenhum receio de eventuais prejuízos à sua imagem, pois prometo, caso sejam bons, publicá-los (como faço com todos os que me procuram) no blog que edito, o “Literário” e, em caso contrário, juro que não o exporei ao ridículo. Nunca expus ninguém. Se houver erros insanáveis para um editor, comprometo-me a analisá-los exclusivamente com você, em um e-mail particular. Ninguém saberá, a não ser nós dois, ok? Mas não tenha receio de se expor. Submeta-se à crítica, que é sempre saudável, mesmo quando injusta. Ela pode ser muito mais didática do que um montão de aulas teóricas de literatura. Ademais, ninguém é infalível e nem nasceu sabendo das coisas, não é mesmo?



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Ética e desprestígio



Pedro J. Bondaczuk



A crise política, causada pelas apurações da CPI sobre o caso PC Farias, que vinculam o presidente Fernando Collor ao tráfico de influência exercido pelo empresário alagoano, além de outras graves irregularidades, deteriorou, ainda mais, a imagem brasileira no Exterior.

A organização exemplar da recente Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a RIO-92, realizada em junho passado, no Rio de Janeiro, havia resgatado um pouco do abalado prestígio do Brasil em âmbito internacional. Logo a seguir, porém, veio a CPI, com revelações diárias de atos de corrupção de arrepiar os cabelos do mais pacato dos cidadãos. E o escândalo repercutiu negativamente através do mundo.

Toda vez que alguém retorna dos Estados Unidos ou de algum país da Europa ocidental, seus amigos tomam conhecimento, não sem certa pontinha de mágoa, do desprestígio de que gozamos lá fora. O brasileiro é tratado com reservas, quando não com pouco caso, na maior parte dos países, salvo raras e honrosas exceções.

Mas seríamos, por acaso, um povo tão mau caráter, mais para Macunaíma do que para Mahatma Gandhi? O brasileiro é mais corrupto, irresponsável, imaturo ou sabe-se lá mais o que do que os outros povos? Absolutamente não!

O tratamento que recebe no Exterior não condiz, em absoluto, com o que se dá aqui aos que procuram este país em busca de novas oportunidades, de refúgio de perseguições políticas ou por qualquer outra razão. O imigrante que desembarca no Brasil, em geral, é recebido de braços abertos.

Em pouco tempo, tem as mesmas oportunidades que os cidadãos daqui. Não é discriminado na busca de trabalho, nem socialmente ou sequer politicamente. Seus filhos adquirem automaticamente o direito à cidadania plena, o que ocorre em pouquíssimas outras partes do mundo.

Basta que se pegue a relação dos congressistas, ou de deputados de qualquer assembléia legislativa, para se perceber a ascensão política e social que os descendentes de estrangeiros apresentam entre nós.

No entanto, o mesmo está muito longe de se verificar com brasileiros no Exterior. É verdade que o lugar dessa gente que emigrou – a maioria dos que vão tentar a sorte lá fora é constituída por jovens – é aqui, na luta pela construção de uma nação justa, próspera, organizada e solidária. Nosso senso ético está longe de ser pior do que o dos outros ou de estar obliterado por um comportamento público nem sempre recomendável.

O cientista político Bolívar Lamounier ressaltou, com rara felicidade, num artigo publicado no Caderno de Sábado do Jornal da Tarde, da semana passada, a repulsa que os escândalos e atos de corrupção vêm despertando nos brasileiros.

Assinalou: “Se nos envergonhamos por atos e fatos que nos transcendem, pelos quais não temos nenhuma responsabilidade, e que nos causam a mais visceral repulsa, é porque temos ao mesmo tempo o sentimento de que formamos uma comunidade moral”.

Quem, internamente, procura generalizar o mau-caratismo de alguns celerados – e o caráter independe da nacionalidade, origem étnica ou cor – está prestando um enorme desserviço a si próprio e ao Brasil.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 21 de agosto de 1992).



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Atuação sem ensaio


Pedro J. Bondaczuk


Há pessoas que garantem que não se surpreendem com nada. Deveriam se surpreender. Se não estiverem mentindo, provavelmente não estão atentas ao que lhes ocorre, ou ao que se desenvolve ao seu redor. Afinal, por mais previsíveis que os acontecimentos sejam, sempre escondem surpresas (boas ou más). São elas que os marcam e os tornam especiais. Não há nenhum script previamente elaborado e definitivamente testado e aprovado, que comande nossas ações. Por mais planos que façamos, temos que sempre improvisar.

Mesmo as surpresas desagradáveis têm, lá, a sua utilidade. Servem-nos como lições, para sermos mais cautelosos e precavidos em nossas atitudes e comportamentos futuros. Os homens sábios e sensatos não lamentam erros e sofrimentos. Aprendem com eles e crescem com esse aprendizado. Só os fracos, os despreparados e os incautos perdem seu tempo com inúteis e vazias lamentações. A vida é toda ela constituída de surpresas. Daí ter tamanho encanto. Respeito, claro, quem não concorde comigo, mas mantenho a minha convicção. O que as pessoas precisam é ser educadas para a vida. Nem sempre (ou quase nunca) são.

Aqui, cabe uma importante observação. Muita gente confunde educação com mera instrução, com o aprendizado das primeiras letras, dos princípios da matemática, das regras do idioma e dos fundamentos da Geografia, História, Ciências etc. Quem pensa assim, está muito equivocado. As duas coisas são muito diferentes, distintas, ambas indispensáveis e complementares (ou, pelo menos, deveriam se complementar).

Educação é um processo contínuo, ininterrupto e que nunca tem fim. Vai do berço à tumba, do nascimento à morte. Enquanto vivermos, estaremos nos educando (ou deixando de nos educar, o que, quando ocorre – e acontece com desastrosa freqüência – é trágico para nós e para a civilização). Portanto, o processo educacional nunca termina com a obtenção de um diploma universitário, ou de uma pós-graduação, ou então de um doutorado. Em muitos casos, está, exatamente aí, a metade desse processo. A carência de educação é que causa, entre tantos outros equívocos e males, desavenças de toda a sorte, ditadas, sobretudo, pela intolerância. Temos que aprender, que ser treinados, que ser condicionados a não somente tolerar, mas a respeitar diferenças.

É possível e, sobretudo, desejável, a convivência pacífica e respeitosa de pessoas com pensamentos, sentimentos e conceitos antagônicos. Mas para que isso ocorra, é indispensável que haja tolerância mútua. Só é licito impormos nossas convicções aos outros mediante o convencimento, e com argumentos sólidos e indestrutíveis, jamais pela força ou coação.

Infelizmente, não é o que ocorre neste sofrido Planeta. Daí tanta violência, tantas guerras e arbitrariedades. Não é preciso ser sábio para concluir da impossibilidade de haver no mundo pensamentos absolutamente uniformes e consensuais. Ademais, ninguém pode afirmar, com certeza, ser detentor de verdades incontestáveis que tenham que ser impostas, a ferro e fogo, aos outros. Quem o fizer, estará sendo, apenas, arrogante, estúpido e arbitrário e sujeito, entre tantas outras conseqüências e reações, a cair em ridículo.

Pelo fato da vida ser, relativamente, tão curta e não comportar “reprises”, para emendarmos nossos erros, somos forçados a agir, na maior parte das vezes, por impulsos, em especial nos atos que tendem a determinar nosso futuro. A lei da física aqui também funciona. Ou seja, “a toda ação corresponde uma reação, do mesmo módulo, mas de sentido contrário”. Somos como atores, convocados, às pressas, para representar determinada tragédia (ou comédia), sem ter feito um único e reles ensaio, apenas com ligeira e apressada leitura do script.

Nunca saberemos, de fato, se a intuição que nos determinou seguir certo sentimento ou alguma idéia que nos parecesse, à primeira vista, “genial”, foi correta ou não. Não há tempo para essa verificação. Por isso, precisamos cuidar das nossas emoções e ações com carinho muito especial.

Milan Kundera adverte, no romance “A insustentável leveza do ser”: “O homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”. Daí, serem questionáveis todas nossas eventuais certezas. Atentemos para isso!


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Wednesday, April 26, 2017

QUANDO É CORRETO UTILIZAR A LINGUAGEM DO POVO EM TEXTO LITERÁRIO

Caso você esteja escrevendo um romance, em que algum de seus personagens (ou todos) seja um sujeito iletrado (analfabeto ou não, não importa) não irá convencer ninguém se o puser dialogando num português impecável, perfeito, castiço, de forma que nem mesmo o mais erudito dos eruditos utiliza no cotidiano. A história ficará inverossímil se o fizer. O necessário, porém, é ter cuidado para não exagerar na dose. É como certas bebidas alcoólicas: tomadas em pequenas doses, servem como aperitivo, mas se você tomar a garrafa toda... E, principalmente, não misture erros gramaticais seus, pessoais, com os dos personagens. Detecte-os, no processo de revisão, e corrija-os de imediato. Aliás, se o escritor for relaxado em seu linguajar, sequer encontrará editor que tope embarcar nessa canoa furada com ele (para não partilhar do ridículo). Seu livro nascerá “morto”, ou seja, permanecerá inédito, a menos que o banque do próprio bolso. E se o fizer, por um excesso de vaidade que o cegue ao ponto de perder a noção de autocrítica, certamente irá arcar com monumental prejuízo, por falta de leitores que se habilitem a comprar tamanha baboseira.


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Plano está minado


Pedro J. Bondaczuk


O Plano Collor vem despertando crescentes suspeitas de ser um barco que está fazendo água, a despeito de sucessivas declarações de seus mentores e gestores, a ministra Zélia Cardoso de Mello, o secretário de Política Econômica, Antonio Kandir, e o presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, de que tudo está correndo de acordo com o previsto.

Talvez fosse mais prudente e desejável, até por uma questão de tática, que eles fizessem menos declarações e mostrassem maiores resultados. Assim que o programa foi lançado, se apregoou aos quatro ventos que a inflação já era virtualmente coisa do passado. Afirmou-se que, em 100 dias, as taxas baixariam dos indecentes 84% de março para um patamar de um dígito, algo próximo a 10% mensais.

O período passou e a queda, embora fosse real, não alcançou a cifra pretendida. Posteriormente, na carta de intenções encaminhada ao Fundo Monetário Internacional, a equipe do presidente Collor estabeleceu a meta de 2,5% para os últimos três meses do ano.

Entretanto, em 2 de agosto passado, o presidente iraquiano Saddam Hussein, num gesto intempestivo, determinou a invasão e anexação do Kuwait, provocando um novo choque do petróleo. Na ocasião, nossas autoridades econômicas asseguraram que o impacto da crise do Golfo Pérsico sobre o plano de combate à inflação não seria muito grande.

Em fins de outubro, porém, a cantilena mudou. O novo surto inflacionário foi atribuído mais às estrepolias do truculento Saddam Hussein do que a eventuais subestimações de alguns fatores que não foram avaliados devidamente.

Para complicar, há duas autênticas "minas", armadilhas plantadas no caminho de uma vitória sobre a inflação, uma interna e outra externa. A local refere-se à não concessão de créditos no tempo certo para a agricultura, o que leva à previsão de uma safra menor do que a de anos anteriores. A externa, é a ausência de créditos para importações, determinada pelas dificuldades na renegociação da dívida externa.

A proposta brasileira, apresentada aos banqueiros, é inteligente e sensata. Os entendimentos, porém, não podem se desenrolar numa base de confrontação. É preciso que haja flexibilidade. As duas armadilhas são inflacionárias.

Talvez seja por essa razão que os gestores do plano econômico estejam, agora, prometendo a queda da inflação apenas para abril ou maio de 1991. Melhor seria, porém, se não fizessem mais nenhuma promessa e descessem da sua torre de marfim para o terreno da realidade, para a travessia da dura tormenta que se desenha no horizonte.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 13 de novembro de 1990).



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Fama ou reconhecimento?



Pedro J. Bondaczuk


"A fama é a soma de equívocos criados em torno de uma pessoa", escreveu, certa ocasião, o poeta austríaco, Rainer Marie Rilke. Absoluta verdade! Certamente, não foi esta a condição (ou seria recompensa?) que os intelectuais engajados na solução dos problemas do seu tempo buscaram (ou buscam) da sociedade. Almejam, isto sim, o "reconhecimento" das gerações futuras, pelo que fizeram e deixaram como patrimônio cultural. Nem sempre (ou quase nunca) conseguem.

Quantos intelectuais campineiros, que estiveram na "crista da onda" não faz muito tempo, quando ainda em atividade, não acabaram esquecidos, tão logo morreram?! E, pior, alguns, ainda vivos, sentem hoje o travo amargo do esquecimento e do descaso, como se nunca tivessem existido! Quem perde com tal omissão (ou desinformação), é a sociedade, que deixa de se valer da experiência e das luzes desses intelectuais brilhantes. Arte e cultura são atemporais. Talvez esse esquecimento seja fruto do preconceito, dessa obsessão pelo "moderno". Modernidade, aliás, na maioria das vezes confundida com modismo.

Sempre que possível (e oportuno), tentarei, neste espaço (e nos outros tantos que disponho), senão resgatar, pelo menos lembrar dos nossos bons escritores (e são tantos!). Uma das razões é de caráter prático: para usufruir suas boas idéias, sempre bem vindas nesta época de aridez mental. Outra (por que não dizer?), é egoística: fazer desse exercício de exegese uma espécie de "exemplo", na vã ilusão de que, algum dia, em algum jornal ou revista da cidade ou do País, determinado cronista generoso me retire do ostracismo, a que certamente também serei relegado.

Estas considerações vêm a propósito de um telefonema de um leitor, há já algum tempo, me perguntando o que achava da pessoa e da obra de Paranhos de Siqueira (falecido em 6 de maio de 1988). Não conheci esse intelectual pessoalmente. Nos vimos por aí, pela cidade, uma vez ou outra. Trocamos sinais de cabeça, à guisa de cumprimento, e nossas relações restringiram-se a isso. Nunca fomos apresentados formalmente. Sequer chegamos a conversar, mesmo que sobre banalidades. Desconheço se ele acompanhou minha trajetória pela imprensa de Campinas. Provavelmente não! À época em que Paranhos era um brilhante articulista do "Correio Popular" e do "Diário do Povo", eu estava ensaiando os primeiros passos como jornalista.

Acompanhei-o, no entanto, com grande interesse. Colecionei, avidamente, seus candentes artigos, nos quais me espelhei para escrever os meus. Tenho alguns dos seus livros, especialmente os de crônicas, como "Rosário de Lágrimas" (publicado em 1936, quando eu sequer havia nascido), "Horas Mortas" (de 1939) e o que reputo o melhor de todos, "Gente e Coisas da Minha Terra", de 1980. Este último, é um precioso documento, escrito com o texto leve e fluente do emérito cronista (aliás, sua característica), de um largo período da história recente da cidade.

Tenho um único livro de poesias de Paranhos de Siqueira, escritor que há tempos não tem sido citado uma só vez na imprensa campineira, como se sequer tivesse existido (meu Deus, como a nossa mídia é carente de memória!). Trata-se de "Antes que Anoiteça", coletânea de 95 sonetos, dos quais escolhi (a esmo) apenas dois, para apresentar ao leitor. O primeiro, intitula-se "Poetas Antigos". Diz:

"Passei a noite inteira lendo versos,
--- poesia antiga de sabor sem par,
em que palpitam vozes de universos
que nem a Morte conseguiu calar.

Guerra Junqueiro...--- artífice invulgar
de alexandrinos celestiais, tão tersos
que hão de sempre existir e perdurar
na comunhão dos séculos dispersos.

Bilac, o velho Alberto de Oliveira,
o Saturnino, o mestre dos 'Grupiaras',
--- dos grandes da poesia brasileira.

Valeu a pena ter ficado insone,
ébrio de gozo como as gemas raras
do simbolismo de Raul de Leoni..."

O segundo soneto que reproduzo é este "O Espelho":

"Entrei hoje em atrito decidido
com meu espelho de cristal vetusto.
Olhei-me nele, um tanto distraído,
e o diabo quase me matou de susto.

O danado queria, a todo custo,
sob a ilusão dos anos que hei vivido,
em vez do moço impávido e robusto,
mostrar-me um velho pela dor vencido.

E veio a bronca que nos pôs de mal.
Ele, afirmando que me foi leal,
e que o Tempo é que o físico dilui.

E eu, exigindo que ele me mostrasse,
no mesmo corpo, a mesma antiga face
do jovem desenvolto que já fui..."

Quem não conhece a obra (em prosa ou verso, não importa) de Paranhos de Siqueira, não sabe o que está perdendo. Trata-se de um intelectual que --- mais do que qualquer eventual e efêmera fama --- merece nosso eterno reconhecimento... E, sobretudo, nossa total gratidão!



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