Friday, June 23, 2017

ESCRITORES, MESMO DE PASSADO REMOTO, PODEM SER NOSSOS “AMIGOS”
Vocês já atentaram para o fato de que consideramos determinados escritores – pela identidade que temos com suas ideias, por ideais pelos quais lutam e por sua postura face à vida – amigos, mesmo que jamais tenhamos nos visto, conversado e que sequer eles saibam, ou mesmo desconfiem, da nossa existência? Familiarizamo-nos de tal sorte com eles, que é como se freqüentassem nossa casa, conhecessem nossos gostos e pensamentos, soubessem de nossos problemas e ambições, nos aconselhassem quando conselhos se fizessem necessários, nos repreendessem (com doçura) quando tivéssemos que ser repreendidos e satisfizessem, enfim, todas as necessidades psicológicas, tudo o que esperamos de uma legítima, sólida e intimíssima amizade. Muitos morreram há muito tempo, mas seu legado permanece mais vivo do que nunca. Cito, entre essas figuras, Jorge Luís Borges, por exemplo. Com base nesse parâmetro, no da identidade de ideias, posso afirmar, com rigorosa segurança, que tenho mais, bem mais de um milhar de amigos desse tipo. Põe milhar nisso!!!!

***



MINHA LISTA DE “ESCRITORES AMIGOS” AUMENTA TODOS OS DIAS
A cada dia, acrescento mais e mais escritores a esse círculo de amizade, com pessoas que jamais vi cara a cara, que não sabem da minha existência, mas que são meus amigos de fato. E esses acréscimos ocorrem sem que eu abra mão de um único dos que já tenho. É um processo de permanente adesão no qual toda a vantagem é minha. Enriqueço minha vida, torno-me um pouco (ou muito, sei lá) mais sábio, sem que retribua esses ganhos em idêntica medida. Esse raciocínio vale, observo, não apenas para escritores. Tenho essas “amizades espirituais” também com atletas, cantores, músicos, artistas plásticos ou, simplesmente, com correspondentes da internet, como vocês. Pena que não haja reciprocidade. Ou seja, que todo esse pessoal não me considere, também, amigo (embora haja, posto que raras, exceções).

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Transição acidentada


Pedro J. Bondaczuk


A extinção da União Soviética vai completar um ano, para alívio de muitos e desgosto de outros tantos que acreditavam ser possível a utopia de uma sociedade sem classes pregada pelos marxistas, embora nunca concretizada em ações, nos próximos dias.

Foi no Natal do ano passado que o mundo se surpreendeu com a renúncia forçada do homem que fez, pelas vias pacíficas, a maior transformação política deste conturbado século: Mikhail Sergeievich Gorbachev. Nessa data histórica, a bandeira da foice e do martelo foi dramaticamente arriada do mastro do Cremlin, dando lugar à tricolor da República da Rússia.

Bóris Yeltsin assumiu o governo, com plenos poderes, prometendo implementar rápidas reformas em seu país, para que o inverno de 1992 não tivesse as mesmas dificuldades do de 1991. Ganhou uma espécie de carta branca do Parlamento, que lhe permitia decidir sozinho nas questões essenciais, sem precisar consultar ninguém.

Passado um ano, o panorama, principalmente econômico, não é nada animador. A inflação permanece em disparada, para desespero da população russa, que também se vê às voltas com um fantasma que não conhecia nos tempos do comunismo: o desemprego.

O processo de privatização, por outro lado, arrasta-se em ritmo letárgico, assim como outras reformas necessárias para uma economia de pleno mercado. Somados aos problemas econômicos, gravíssimos por sinal, persistem os conflitos étnicos, nesse vasto território que se estende do Pacífico aos Montes Urais.

O agravamento da crise tem como efeito o aumento do descontentamento popular. Manifestações de protesto sucedem-se e muitos já estão arrependidos de optarem por Yeltsin, em detrimento de Gorbachev.

Não se pode negar os méritos do presidente russo, até porque não é tarefa das mais fáceis gerir qualquer transição, quanto mais esta de um sistema totalmente estatizado para o capitalismo clássico. Ele tem firmeza de propósitos, energia e aquilo que popularmente se chama de "jogo de cintura".

Perde-se, todavia, num populismo exacerbado, além de apresentar certos cacoetes ditatoriais. Nesta semana, Yeltsin vai enfrentar uma grande batalha confrontando-se com um órgão um tanto estranho: um Parlamento herdado dos tempos soviéticos.

A maioria conservadora do Legislativo movimenta-se no sentido de retirar do presidente os poderes absolutos que lhe outorgou. Caso isto se concretize, a guerra de influência entre o Executivo e o Parlamento, que vai se arrastando há meses, certamente vai se agravar.

Por exemplo, Yeltsin nomeou, em junho, em caráter provisório, o ultra-reformista Yegor Gaidar, de apenas 36 anos, para primeiro-ministro e este nunca teve a nomeação confirmada pelo voto. Os conservadores simplesmente detestam o jovem premier, mas não podem fazer nada contra ele. Não, pelo menos, enquanto os plenos poderes concedidos a Yeltsin perdurarem.

Enquanto os políticos se digladiam, a economia segue muito doente e, o que é pior, o novo inverno se aproxima, cheio de ameaças para o sofrido povo russo. Reformas, como as prometidas pelo temperamental governante, não se fazem a toque de caixa e nem somente mediante boas intenções. Aliás, como diz o adágio popular, de bem intencionados o inferno está repleto.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 2 de dezembro de 1992).



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Bisbilhotices e literatices

Pedro J. Bondaczuk

O povo, em sua natural e rude sabedoria, consagrou uma afirmação segundo a qual um homem apenas se realiza após plantar uma árvore, gerar um filho e escrever um livro. A crer neste critério, posso considerar-me uma pessoa realizada. E considero-me, embora não especificamente pelo cumprimento dessas três “façanhas”.

No primeiro caso, trata-se de valorizar a natureza, de respeitar o planeta em que vivemos (possivelmente o único com condições para isso pelo menos em nossa galáxia) e de tornar a vida se não mais viável (e, plantando árvores, em vez de cortá-las, a tornamos, de fato), pelo menos mais agradável. Sou do time, portanto, do “Viva o verde!”. Orgulho-me disso. E mais, tento convencer o máximo de pessoas que posso a fazerem o mesmo.

Plantei poucas árvores, é verdade, umas três ou quatro se tanto, ao longo da vida. Mas cumpri plenamente essa tarefa. Quanto à segunda... gerei não um, mas quatro filhos. Talvez haja exagerado na dose, se levar em conta a superpopulação da Terra. Mas foi o instinto que me levou a agir assim. O que fazer?

Ademais, não abriria mão, em circunstância alguma, de nenhum deles, se fosse instado a fazer isso. Todos são catalisadores do meu amor pela espécie de que faço parte e me são, portanto (não especificamente por este motivo, mas porque os amo) de suma importância. E agora tenho o privilégio de viver a glória de ser avô. Só quem já é, sabe o que isso significa.

Finalmente, a terceira grande tarefa, desses “Trabalhos de Hércules”, também foi cumprida, e bem cumprida. Como no caso dos filhos, não escrevi apenas um livro, mas vinte, dos quais quatro publicados. Para muitos, são estes (os que vieram a público) os que contam. Pois aí estão.

Como se vê, sou um “bisbilhoteiro” de marca maior (todos escritores são). Observei, atentamente, por anos e mais anos, pensamentos, sentimentos, ações e contradições alheios e deles fiz o fulcro da minha obra literária. Claro que não me limitei a bisbilhotar os outros. Fiz o mesmo comigo mesmo.

Ademais, não sou lá muito diferente dos outros (talvez nem um pouco). O ser humano sempre foi, é e será, enquanto eu for vivo e conservar a lucidez, a minha constante, perpétua e compulsiva preocupação. Por que? William Shakespeare escreveu certa feita (e já comentei isso “n” vezes) que “nada é mais interessante para o homem do que o próprio homem”. Está respondido.

É com pessoas iguais a mim (e com algumas superiores e outras tantas inferiores a este compulsivo amante de literatura, que a constrói no cotidiano e cujos detratores dizem não passar de “literatices”) que convivo desde que me conheço por gente. Amei e amo a tantas delas. Odiei e odeio a várias outras. Competi e compito com muitas. Ajudei e ajudo outras tantas. Fui ajudado (e espero continuar sendo) por diversas. E assim toquei e vou tocando a minha vidinha comum, enquanto Deus quiser.

Mas é importante escrever? É! Mas quem não tem esse talento conta com outras aptidões (para as artes, por exemplo, ou para o artesanato, ou a manufatura, ou o comércio, ou a lavoura etc.), por isso não precisa se preocupar. Basta que faça bem aquilo que saiba fazer. O que o mundo não admite é a ociosidade, a omissão, a exploração alheia e o perpétuo “laissez faire”. Reitero o que tenho escrito e repetido vezes sem conta: a espaçonave Terra não comporta passageiros. Todos somos tripulantes.

O escritor Robert Musil afirmou em determinado texto (não me lembro qual): “É mais importante escrever um livro do que governar um império... e mais difícil também”. Exagero? Nem tanto. Comandar pessoas tem lá as suas dificuldades, mas não deve ser tão ruim. Se fosse, não haveria tanta gente disputando, nem sempre de forma leal e justa, o poder. Ademais, nem o pior dos tiranos consegue governar sozinho. Conta com um séqüito imenso de ministros, assessores, funcionários, generais e quejandos.

Escrever, todavia... É tarefa solitária. Pode ser comparado à alegoria bíblica de Jacó lutando por toda uma noite com o anjo, no Val de Jaboc, para ser abençoado por ele. Nós, escritores, não lutamos, apenas, por míseras doze horas, até que amanheça. Fazemo-lo por anos e mais anos a fio. E muitas vezes nossa luta é vã, pois não conseguimos ser abençoados pelo esquivo anjo da inspiração.

Achando que fazemos Literatura, perpetramos, na verdade, caricata literatice. Ninguém vem nos avisar previamente que, buscando a glória, estamos, na verdade, nos expondo ao ridículo. E nem um gênio benfazejo nos cochicha ao ouvido que aquelas páginas que rasgamos com fúria, por acharmos que se tratavam de “porcaria”, eram, na verdade, o suprassumo da perfeição, do qual nos descartamos tão precipitadamente. Ironia das ironias...



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Thursday, June 22, 2017

EXISTE A POSSIBILIDADE DO MUNDO ACABAR?
Existe a possibilidade do mundo acabar? Existe! Não em uma data específica e que seja previsível. Isto pode ocorrer tanto hoje, quanto em alguns milhões ou bilhões de anos. E o que me dá a certeza dessa possibilidade de extinção? A lógica. Todos os dias competentes e esforçados astrônomos observam explosões de estrelas, ocorridas há milhões, quiçá bilhões de anos e que, dada a inconcebivelmente imensa dimensão do universo, só agora a visão desses cataclísmicos acontecimentos é detectada por seus cada vez mais potentes telescópios, mesmo com a luz percorrendo 300 mil quilômetros por segundo. Ora, se isso ocorre alhures, com tamanha freqüência e há tanto tempo, por que o nosso sol – e, por conseqüência, seu séquito de planetas – escaparia desse destino? Não escapará. Só que ninguém pode prever quando isso irá ocorrer. E muito menos com exatidão. Isso é para lá de ilógico. Se alguma suposta profecia nesse sentido, por um desses absurdíssimos acasos, se confirmar, ninguém irá criticar, claro, estas minhas sensatas contestações, pois não restarão nada e ninguém para tal contestação. Muitíssimo menos existirá este texto. A possibilidade concreta disso ocorrer, todavia... beira ao zero absoluto.


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O acaso escreve a História



Pedro J. Bondaczuk


A Histórias, em geral, é escrita com as tintas do acaso. Acontecimentos aparentemente banais findam por detonar momentos decisivos, tendentes a transformar a realidade. Foi o que ocorreu no Brasil, por exemplo, em 16 de agosto passado, com a chamada “guerra das cores”.

Um erro de avaliação do então presidente Fernando Collor (de triste memória para o País) gerou o fato novo que faltava para determinar o seu afastamento. Sinalizou para os políticos, em especial para os que mantêm posições ambíguas, para os fisiologistas, para os oportunistas e para os que atuam na vida pública não com o sentido que deveriam atuar, que é o da busca do bem comum, mas de forma demagógica, sempre de olho nas próximas eleições, que a população repudiava os atos criminosos (para não falar das atitudes histriônicas) do então governante.

O incidente surgiu de um desafio. As mazelas e as falcatruas do governo estavam, na oportunidade, sendo investigadas por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e as provas da culpabilidade de Collor acumulavam-se em profusão. Surgiam, aqui e ali, posto que timidamente, os primeiros ensaios para um até então impensável pedido de impeachment.

Foi quando o presidente, num pronunciamento pela televisão, teve a infeliz (para ele e feliz para o Brasil) ideia de propor que todos os que o apoiassem vestissem, no dia 16 de agosto, um domingo, roupas verdes ou amarelas, ou enfeitassem seus carros, lojas e janelas e sacadas das casas, com as cores da bandeira nacional.

Resultado? É escusado repetir. Todos, certamente, lembram-se do que aconteceu. Subitamente, o País como que se cobriu de negro, para expressar sua indignação, desencanto e vergonha acerca do que acontecia em Brasília.

A partir daí, cresceu, incontrolavelmente, a onda de protestos populares contra Collor, espontâneos ou induzidos, não importa. Jovens, até então indiferentes e desencantados com a política, foram a ruas e praças para exigir o afastamento da quadrilha que havia se instalado no Palácio do Planalto. Sem ter, certamente, consciência disso, os chamados “caras-pintadas” escreveram, ou ajudaram a escrever, um episódio dramático e talvez decisivo da nossa História. Resgataram o verdadeiro sentido da cidadania.

A partir de então, os fatos se desencadearam. Pouco mais de um mês depois, a Câmara dos Deputados votava o afastamento do presidente e autorizava o Senado a iniciar o processo de impeachment. Trata-se de acontecimentos tão próximos de nós, tão “ontem”, e no entanto parecem estar já tão distantes!

Qual a lição que se pode extrair disso tudo? Várias. Uma delas é a de que a paciência dos cidadãos, por mais dóceis, pacatos ou indiferentes que sejam, tem limites. Mas a reflexão maior que deveria ser feita a partir desses dramáticos episódios é a sugerida pelo cineasta Cacá Diegues, num artigo publicado no caderno “Ideias”, do “Jornal do Brasil”, em 26 de setembro de 1992, a antevéspera do impeachment: “Talvez terminemos por compreender que essa monstruosa corrupção oficial é apenas a filha mais gorda do mito brasileiro da ginga e da bossa, do elogio do macunaísmo acima de todas as leis. Um mito que, estimulado até por alguns dos nossos melhores intelectuais, nos transforma num campo de provas para uma civilização em que os valores sejam menos importantes que os resultados”. Tomara que a lição tenha servido para alguma coisa.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de setembro de 1993)


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Sem medo da vida




Pedro J. Bondaczuk


Todas as coisas, na vida, como já dizia Eclesiastes, têm o seu tempo certo. Inclusive as que escapam à nossa competência, como o nascer e o morrer... É necessário que tenhamos uma postura de permanente participação, sempre, a cada momento, enquanto tenhamos um sopro vital, por menor que seja, e nunca se restringir à mera contemplação. Individualmente, não somos nada.

Poucos animais na natureza são, fisicamente, mais dependentes do que o homem. Mas nenhum opera as maravilhas de que ele é capaz, quando se prepara adequadamente e quando manifesta sua vontade e suas aptidões através de atos. É tolice esse mito da juventude, de que esta seja a fase mais criativa e produtiva da vida.

Até se explica essa postura, que não foi, de forma alguma, imposta pelos jovens. Ocorre que em certa fase da vida brasileira, a taxa de natalidade por aqui era muito elevada. O País era um dos que tinham o maior contingente mundial de pessoas entre zero e 21 anos, que chegou a representar, em determinado período, de 70% a 75% do total da população. Os homens de negócio viram nesse mercado enorme um bom filão para auferir grandes lucros. E com razão. Do resto, a propaganda e a publicidade se encarregaram..."Business", como diriam os norte-americanos...

Com isso, criaram-se modas e modismos voltados exclusivamente, ou quase, para essa faixa de brasileiros. Ocorre que esses jovens cresceram, amadureceram e inverteram o perfil etário do Brasil. Hoje, o patamar dos idosos é o que mais cresce. E crescerá muito mais nos anos vindouros. Logo, estejam certos, a indústria e o comércio vão atentar para esse fenômeno. E toda a propaganda e publicidade estarão voltadas (e a inversão já está começando) para os cidadãos de maduros para velhos, que eufemisticamente são chamados de integrantes da "3ª idade".

Assim é a vida. Cada fase dela tem suas vantagens e desvantagens. E mesmo que não tivesse, o controle do processo de envelhecimento não está em mãos humanas. É um ciclo biológico inevitável. De nada adiante se rebelar contra ele.

O Marquês de Maricá, conhecido por seus aforismos, citados em profusão nos antigos almanaques de laboratórios – hoje desaparecidos – tem um que fala a esse respeito. Diz: "Os velhos ruminam o pretérito, os moços antecipam e devoram o futuro". Tanto um, quanto o outro, estão errados. Ambos deveriam viver o aqui e o agora na sua plenitude. Ruminar o passado não o traz de volta e é, portanto, perda de tempo, que poderia ser melhor utilizado para coisas úteis, como por exemplo, para construir, a cada dia, um novo instante de felicidade. Antecipar o que é meramente potencial, por sua vez, é uma forma de apressar a velhice.

Um fruto, por mais saboroso que seja, só é saudável e próprio para o consumo quando está no ponto certo. Verde, amarra a boca. Podre... Assim também é a vida. E, igualmente, o que se entende por poder. Para que não seja simples miragem, este precisa de um período de maturação. O escritor, principalmente, deve ser sempre atemporal. Não pode, sob pena de fracassar, voltar suas mensagens apenas para pessoas de sua própria faixa etária. Tem que escrever para todo o tipo de leitor. Quanto maior a quantidade, tanto melhor. Terá mais "poder" para a difusão de idéias. Deve, sobretudo, compreender o comportamento dos indivíduos em cada etapa de sua vida, e nas variadas formas existentes, para incorporar em seus personagens e dessa forma dar-lhes verossimilhança. E em que parâmetro se basear? Na observação e, sobretudo, na memória. Deve recorrer à lembrança de como se comportava em cada idade pela qual passou.

Honoré de Balzac, profundo conhecedor da alma, sentenciou: "Todo poder humano é um misto de paciência e tempo". Claro que a juventude é fascinante, quando quem está nela tem as condições ideais de saúde, ambiente e educação. Quando conta com uma família esclarecida, que lhe balize o caminho a seguir. Mas é repleta de armadilhas e sobressaltos. É cheia de espinhos e sofrimentos, de perplexidade e de abandono quando não se tem nada disso. Os meninos de rua brasileiros (e de outras partes carentes do mundo) que o digam... Guimarães Rosa escreveu: "...Juventude? É uma maravilha. A juventude é quase tudo. É a humanidade, é a esperança recomeçando". De fato, é tudo isso. Mas para a burguesia. Para as classes alta e média. Generalizar essa "maravilha" não passa de alienação.

Mas seja qual for a nossa idade ou nossa condição social, a postura que tivermos face à vida vai contar muito para nosso sucesso ou fracasso, para nossa alegria ou tristeza, para nossa vitória ou frustração. Essa é uma tarefa solitária que apenas nós mesmos poderemos exercer. De pouca valia têm os conselhos, se não nos conscientizarmos daquilo que é o melhor para nós. Egon Krenz, um dos últimos líderes da extinta Alemanha Oriental, em pronunciamento que fez em 18 de janeiro de 1989, disse uma coisa muito importante a esse respeito. Observou: "Precisamos reconhecer os sinais do tempo e reagir, do contrário seremos punidos pela vida. Só correm perigo os que temem a vida". Não a temamos, portanto. Livremo-nos desse risco. Bebamos desse cálice milagroso até a derradeira gota...


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Wednesday, June 21, 2017

NÃO CONFUNDIR “PREVISÕES” COM “EXTRAPOLAÇÕES”
Qualquer pessoa minimamente sensata sabe, por mais burra que seja, que se pular de uma ponte para o abismo, sem nada que a antepare, irá se esborrachar no chão. Ou que, se puser a mão no fogo, sofrerá graves queimaduras. E vai por aí afora. Para que isso se tratasse de uma “previsão”, e não apenas de um temor ou de algo ditado pela experiência, teria que acontecer exatamente como previsto. Ou seja, teria que ser inevitável. E, neste caso, o sujeito sofreria duas vezes: ao prever o acidente do qual não poderia escapar e tão logo este ocorresse. Portanto, é muito bom que não se possa saber antes o que irá ocorrer mais adiante. Coisas diferentes (mas não muito) são as extrapolações. Mesmo estas, vêm acompanhadas de uma série de condições, de muitos “ses”. Se porventura você tiver dados rigorosamente exatos em mãos, poderá, em determinadas circunstâncias (e exclusivamente naquelas), “prever”, com razoável margem potencial de acerto, que irá ocorrer um resultado “x”. Isto “se”... Se nenhum fator for alterado, por exemplo. Ou se os dados estiverem mesmo rigorosamente corretos. Ou se as circunstâncias forem as adequadas, e vai por aí afora. O resultado, portanto, é relativo, na dependência das circunstâncias (sempre elas!).

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Recessão à vista


Pedro J. Bondaczuk


O brasileiro tem hiatos (curtíssimos) de tranqüilidade, entre uma crise e outra. Ora é a falta de capitais para financiar obras como a construção de Brasília que nos atormenta, ora é a disparada inflacionária penalizando os mais pobres, ora são os desacertos das contas públicas. O cidadão está sempre na corda-bamba, vivendo contínuos momentos críticos, ansioso pelo dia de amanhã, envelhecendo precocemente e exposto a enfartes, sem ousar sequer sonhar com um futuro de médio prazo. Quando a crise não é interna (o que é raro), vem do Exterior, como a atual.

O governo anunciou, no dia 28 de outubro passado, outro elenco de medidas para fazer a "mágica" de economizar (leia-se "extrair da sociedade") a "bagatela" de US$ 28 bilhões. Ou seja, promete transformar o déficit projetado para 1999 de US$ 11 bilhões em superávit de US$ 17 bilhões! Para tanto, eleva impostos (a CPMF e a Cofins), penaliza o funcionalismo público (com sobretaxa para a Previdência) e "promete" cortar despesas. Promessa, aliás, feita também quando da edição do chamado "Pacote 51", com 51 medidas, anunciado em outubro do ano passado, quando da crise da Ásia, e que acabou não dando em nada. O que garante que desta vez será para valer?

No entanto, o maior complicador da nossa economia, os juros alucinantes de 49,75% ao mês, é mantido, com uma vaga promessa de redução no correr do próximo ano e para o patamar (ainda proibitivo e surrealista) de 20%. Ou seja, penaliza-se a sociedade, amplia-se de forma catastrófica a imensa dívida social, para satisfazer a desmedida ganância do capital especulativo internacional, incentivando os especuladores a continuarem drenando o nosso sangue --- em uma transfusão às avessas, do "doente" para o suposto "doador" --- ofertando lucros imensos, às custas do sacrifício de 163 milhões de brasileiros (25 milhões dos quais mergulhados na absoluta miséria). Ressalte-se que os juros absorvem 9% do Produto Interno Bruto anual do País, paralisa as atividades econômicas e mergulha o Brasil em uma severa recessão, com todos os ônus que essa paralisia traz para os brasileiros, como desemprego crescente, queda no consumo e na produção, inadimplência em massa, concordatas, falências, fome, violência, etc. Será que algum dia deixaremos de conviver com crises?

(Artigo divulgado na revista eletrônica "Barão Virtual", na Internet, na segunda semana de janeiro de 1999)


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O mais democrático dos sentimentos

Pedro J. Bondaczuk

A vaidade é, digamos, o “mais democrático” dos nossos sentimentos. Não conheço uma única pessoa que não se sinta vaidosa por algum motivo: pela suposta beleza, pela inteligência, pela cultura, pela esperteza e até, por paradoxal que pareça, pela sua alegada modéstia, etc.etc.etc. Milhares de etceteras.... É verdade que muitos exageram na dose e, como tudo o que é demais, caem em ridículo, mesmo que não se apercebam. Entendo que, se não for exagerada, trata-se de um “pecadilho” menor, tolerável, digamos, de um pecado venial que nem merece tanta condenação. Afinal, quem somos nós para julgar a vaidade alheia? Ela também é chamada, a meu ver impropriamente, de “orgulho, ostentação, presunção, futilidade, algo sem valor, soberba ou amor próprio”.

E no que ela consiste? No fundo, no fundo não passa do profundo desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Quem nunca pretendeu isso?Da minha parte, não nego, esse é um empenho constante. O indivíduo vaidoso (diria, todos nós) cria (às vezes com fundamento, mas nem sempre) uma imagem pessoal exclusivamente para transmiti-la aos outros. A finalidade é, logicamente, a de ser admirado e invejado.

A escritora inglesa do século XVIII, Jane Austen, observa o seguinte sobre esse sentimento: “A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho relaciona-se mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós”. Concordo com a observação dessa mulher talentosa e inteligente, que tinha, como principal característica, a ironia que utilizava para descrever seus personagens. Por isso, não estranho o fato dela ser incluída entre os clássicos da Literatura da terra de William Shakespeare.

A mesma diferenciação feita por Jane Austen, posto que mais detalhada, podemos encontrar em um texto não tão conhecido de Fernando Pessoa, incluído no livro “Da literatura européia”. O original escritor dos heterônimos escreveu a propósito: “O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito; a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser — pois tal é a natureza humana — vaidoso sem ser orgulhoso. É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência do nosso mérito para os outros, sem a consciência do nosso próprio mérito”.

E Pessoa conclui assim sua arguta observação: “Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação”. E não é?! O (sem favor algum) mais completo estilista de língua portuguesa, padre Antonio Vieira, classifica a vaidade como um “vício” (o que, de fato, é). Compara-a, metaforicamente (ele que foi um mestre da metáfora) a um astuto pescador, sempre à espreita para enganar com sua isca um peixe, para assim pescá-lo. Disse, em um de seus tantos memoráveis sermões: “A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto, e que mais facilmente engana os homens”. E como engana!

A Literatura trata (e sempre tratou) extensamente desse tema. Afinal, trata-se, ao fim e ao cabo, de alguém escrevendo sobre alguém para outro alguém ler. E, como William Shakespeare observou, em certa ocasião: “Nenhum assunto interessa mais o homem do que o próprio homem”. Ouso afirmar que não existe nenhum livro, seja de que época ou de que gênero for, que não aborde a vaidade em algum de seus tantos aspectos, mesmo que indiretamente. E isso vale tanto para ficção quanto para não ficção. Para poesia ou prosa. Para Filosofia, Antropologia, Sociologia e vai por aí afora. Tratarei, oportunamente, de alguns livros e autores que trouxeram á baila esse polêmico e recorrente assunto.

Por hoje, encerro estas descompromissadas reflexões com este poema de Florbela Espanca intitulado (e não poderia deixar de ser) de “Vaidade”:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!”.



A vaidade, como se vê, é mesmo, sem dúvida, o “pescador astuto”, citado por Vieira, sempre à espreita, pronto para nos enganar e para nos fisgar como ingênuos peixes que somos....

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