Wednesday, February 29, 2012










O homem, quando aplica os dotes de sua inteligência em uma obra construtiva e quando atua em equipe, opera verdadeiras maravilhas. Penetra, por exemplo, no coração de um átomo e decompõe essa porção infinitesimal de matéria em partículas cada vez menores e complexas, desvendando, no plano microscópico, os segredos do universo. Interfere no código genético e dessa maneira impede doenças congênitas, ou cria novos animais e plantas, consertando falhas da própria natureza que o gerou. Troca, num seu semelhante, o coração e outros órgãos, permitindo que ele viva, produtivamente, muitos anos mais do que viveria caso não fizesse essa providencial intervenção. Aventura-se no espaço infinito e revela mistérios que seus ancestrais sequer atinavam que existissem. Pena que, via de regra, salvo honrosas exceções, os baixos instintos prevaleçam sobre a razão, tornando o mundo, em vez do Paraíso que poderia ser, em um penoso vale de lágrimas.

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Reino da vil moeda

Pedro J. Bondaczuk

Al oro y al rojo sangre (dito espanhol)

Abomino todos os avarentos
zumbis, insensatos escravos
da riqueza, da vil moeda.

Fortunas feitas de sangue
dos excluídos da Terra,
que justificam a miséria,
a infâmia, o crime e a guerra.

Abomino o reino da libra,
do dólar, do franco e da lira
que só ensejam corrupção.
É um reino falso, de mentira,
da falácia da globalização.

Abomino o império doentio
das ilusões de papel,
dos avaros, agiotas sem brio
que instalam o inferno no céu.

É império de homens sem alma,
do selvagem, letal capitalismo,
sem fé, esperança e sem calma,
feito de desgraças e cinismo.

Ouro! Ouro! Clamam, roucos,
com olhares homicidas,
os infelizes, os loucos
filhos bastardos de Midas!


(Poema composto em 11 de dezembro de 1963 em São Caetano do Sul).

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Universo das letras

Pedro J. Bondaczuk

Quantos livros uma pessoa, digamos, “normal” consegue ler ao longo da vida? Quais? Há algum critério na escolha dessas leituras? Baseado no quê? E o sujeito erudito, o tal “rato de biblioteca”, qual a performance média de leitura que consegue ter? São questões que não têm (admito), lá muita importância (a rigor não têm nenhuma), cujas respostas não nos acrescentariam nada, mas que não deixam de suscitar reflexões. Não deixa de ser um debate interessante, sobretudo num espaço como este, dedicado exclusivamente à literatura.
Claro que, baseado no que é rotineiro por aqui, em que nada é debatido e cuja média diária de comentários aos textos postados gira, com muito favor, em torno de três por dia e que não mais do que cinco pessoas (isso em casos excepcionais) participam, posso afirmar que tal debate jamais irá ocorrer. Uma pena.
Temos ao nosso dispor uma ferramenta imbatível de interação. Todavia... as pessoas, por uma série de razões, não estão afeitas a diálogos. Fogem das trocas de idéias. Muitos até mesmo confundem debates, mesmo que de temas, digamos, “inofensivos”, como “embates”. Ou seja, como renhidas disputas que não podem perder. Há, até, quem apele para a ignorância e leve a questão para o terreno irracional da briga. Uma pena!
Mas vamos aos tais “raciocínios” que propus. Em texto anterior, levantei a hipótese de um desses leitores “exagerados” (embora nunca considere a leitura como exagero em nenhuma circunstância) ler dois livros por dia. Não conheço ninguém que consiga essa façanha nos 365 dias de um ano. Mesmo assim, se eventualmente houver quem logre essa performance, terá lido, num ano, 730 obras (não importa se literárias ou técnicas). Parece pouco, não é mesmo? Mas já é uma enormidade!
Suponhamos que esse “rato de biblioteca” seja pontual nesse desafio, com pontualidade de fazer inveja ao mais perfeito relógio existente, digamos, “atômico”. Ou seja, suponhamos que não falhe um só dia do ano nessa tarefa. E exageremos um pouquinho mais. Suponhamos que esse “maníaco” faça isso dos 14 aos 80 anos, sem nenhuma falha. Serão 66 anos consecutivos lendo dois livros por dia. Claro que isso é humanamente impossível. Essa pessoa não poderia fazer mais nada – nem estudar, nem trabalhar, nem ter lazer ou vida familiar ou social etc. – nesse longuíssimo período. Vamos supor, todavia, que consiga isso. Sabem quantos livros terá lido, então? Terão passado sob seus olhos 48.180 obras completas.
É muito? Nem tanto! Afinal, terá dedicado 66 anos da sua vida (e supondo que nunca tenha ficado doente, ou entediado, ou exausto etc.) apenas à leitura. Bem, reduzamos um pouco mais essa atividade, embora nem assim a hipótese se torne sequer minimamente verossímil, ou seja, factível. Digamos que o nosso fanático e resistente “rato de biblioteca” leia um livro por dia. Ao cabo de um ano, terá lido, claro, 365. E em 66 anos, quantos serão? Bem, neste caso, terá “devorado” 24.090 livros. Ninguém, ouso afirmar, rigorosamente ninguém tem essa capacidade, essa disponibilidade de tempo, essa disposição e essa disciplina.
Bem, prossigamos em nosso raciocínio, buscando nos aproximar pelo menos um pouco de um potencial factível. Digamos que o nosso compulsivo leitor (e põe compulsivo nisso!) leia um livro por semana. Essa, aliás, é a minha média. Mas seria por 66 anos? De jeito nenhum! Mesmo tendo na leitura meu lazer predileto, há períodos (muito curtos por sinal) em que leio até mais do que isso. Há, no entanto, vários outros em que meu índice de leitura (e no caso refiro-me apenas a livros, sem contar jornais, revistas ou documentos do meu trabalho) se aproxima do zero.
Suponhamos, no entanto, que o nosso “rato de biblioteca” consiga ler um livro por semana, por 66 anos. Sabem quanto terá lido nesse período? Já fizeram o cálculo? O número será bastante baixo, ou seja, de 3,432 obras. Essa cifra é menor do que meu acervo pessoal, em minha caótica e bagunçada biblioteca. Tenho exatos 4.026 volumes, espalhados por vários cômodos da casa. Quantos deles já li? Muitos! Mas nem de longe me aproximei da cifra de 3,432. Duvido que consiga me aproximar razoavelmente dela enquanto viver. Mas... nunca se sabe.
E quais livros são tão fundamentais que uma pessoa razoavelmente culta não pode deixar de ler, sob pena da sua cultura e erudição serem questionadas? Quem pode determinar isso, sem cometer injustiças? Afinal, há alguém que já tenha lido “todas” as obras publicadas e que, por isso, tenha podido avaliar a importância de cada uma delas para as recomendar aos outros? A tarefa, como comprovei, é tão rigorosamente impossível, que a simples pergunta soa como tola, absurda, maluca como a mais rigorosa insanidade.
Vocês já pensaram quantos livros existem no mundo, hoje, desde os da mais remota antiguidade, que conseguiram sobreviver ao tempo e à destruição, até os lançados, digamos, hoje, em badaladas noites de autógrafos? É possível apurar essa cifra? Com exatidão, claro que não!. Mas dá para se ter uma idéia, posto que com muitíssima inexatidão.
O site de buscas “Google”, ferramenta que hoje já se tornou quase indispensável a quem precise fazer pesquisa, tentou fazer esse tipo de levantamento. Apurou que, até 9 de agosto de 2010, havia, em todo o mundo, em bibliotecas públicas e particulares, 129.864.880 livros diferentes. Lógico, claro, óbvio que essa cifra é apenas aproximada, impossível de beirar a exatidão. Afinal, quando a pesquisa sequer havia sido concluída, milhares de novos livros foram lançados em diversas partes do mundo. Como se vê, é um “universo” de letras que, se não é infinito, é como aquela proposição matemática que estudamos em limites e derivadas: “delta tende ao infinito”.
Dá para perceber quanta preciosidade deixaremos de ler ao longo da vida, por mais que o desejemos saborear esses primores da inteligência, por absoluta impossibilidade material, de tempo? Afinal, se lêssemos dois livros por dia, ao longo de 66 anos ininterruptos, leríamos, apenas, 48.180. Uma ninharia diante dos mais de 130 milhões (e põe mais nisso!) de obras que existem. E caso esse número fosse cifra (forçando a barra) “factível” de ler, teríamos lido, em toda a vida, no máximo, no máximo, e assim mesmo exagerando o número, 3.432 volumes!!! Com todo o respeito devido, pois, aos clássicos, e aos gênios de literatura de todos os tempos, como recomendar, em tom dogmático, o que um leitor erudito não pode deixar de ler algum dia? Baseados no quê?


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Tuesday, February 28, 2012










Por qualquer parâmetro que se meça, não há um único fato que permita se classificar uma etnia como superior a outra, naquilo que as pessoas têm de fundamental: a sua capacidade de pensar. E essa verdade tão simples, cristalina e óbvia, parece ser de grande complexidade para cidadãos que se julgam muito inteligentes. Afinal, quem é superior a quem e por que? Somos seres transitórios e efêmeros e é loucura querermos nos igualar à divindade, julgando-nos mais fortes, ou mais belos, ou mais sábios ou qualquer outra coisa em que nos julguemos superiores aos nossos semelhantes. Devemos, isto sim, buscar ser os mais bondosos, os mais piedosos, os mais caridosos e os mais solidários. Aí, sim, reside um importante diferencial.

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Direito de crer


Pedro J. Bondaczuk


O presidente soviético, Mikhail Gorbachev, entre outras homenagens que vai recer em Washington, cidade à qual chegou ontem à noite, para a reunião de cúpula com seu colega George Bush, será agraciado com um prêmio muito especial e bastante oportuno. É o de “Homem da História”.
Realmente, pela sua corajosa ação política, desafiando riscos de toda espécie, esse estadista modificou, da noite para o dia, não apenas o mapa político europeu, mas as expectativas do mundo em relação ao futuro. Hoje, mercê de seu empenho, a guerra nuclear, embora não seja uma ameaça completamente afastada, já não é algo que pareça iminente.
A cada novo contato de Gorbachev com os líderes do Ocidente e do Oriente, a cada ousada nova iniciativa que toma no campo do desarmamento, esse perigo fica bem mais distante, para alívio geral.
Entre as mudanças que fez em seu país e nos territórios outrora considerados “feudos” soviéticos, está uma nem sempre mencionada, mas nem por isso menos importante. O líder do Cremlin devolveu aos moradores de uma vasta região o direito de crença. A possibilidade dos cidadãos exercitarem sua religião, sem que isso venha a ser considerado delituoso, como ocorria até a sua ascensão ao poder.
Hoje, igrejas das mais variadas denominações religiosas espalham-se por todo o território da União Soviética. É verdade que essa concessão teve um sentido prático, pelo menos em relação à população islâmica que habita a superpotência do Leste. E ela não é nada desprezível, chegando aos 50 milhões de fiéis.
Sua predisposição em respeitar a consciência alheia valeu-lhe, no início do ano passado, um providencial elogio. Foi o do aiatolá Ruhollah Khomeini, que inclusive sugeriu a Gorbachev que se convertesse ao islamismo.
Tal inesperado apoio rendeu dividendos um ano depois. Em fevereiro passado, quando o Azerbaijão, predominantemente muçulmano, se sublevou, não encontrou o respaldo que esperava do Irã. Nem a pátria dos aiatolás, portanto, desejou criar mais embaraços ao estadista soviético, às voltas com tantos problemas para resolver em decorrência de ter tido a coragem de deflagrar o mais amplo processo pacífico de mudanças deste século.
Por isso, nada mais justo que ele seja o primeiro ganhador do prêmio “Homem da História”, instituído pela Fundação Apelo à Consciência, uma organização ecumênica, voltada à promoção da liberdade religiosa no mundo.

(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 31 de maio de 1990).

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Talento e mudanças

Pedro J. Bondaczuk

Administrar uma organização, não importa qual, de sorte a torná-la bem-sucedida e fazer com que atinja seus objetivos com segurança, e com o menor custo possível, é uma arte. Muitos assumem o papel de administradores. Poucos, no entanto, atingem o grau de excelência, por uma série de razões. A principal, a meu ver, é que não têm talento para a tarefa. Não sabem liderar grupos e muito menos extrair de cada um de seus membros o que têm de melhor. Não têm sensibilidade. Não entendem as pessoas, além de terem visão distorcida do conceito de “autoridade”, confundindo-o com “autoritarismo”.
O bom administrador é o que sempre tem em mente que tudo muda constantemente (o que, embora óbvio, nem todos, diria que raros, se dão conta). Caso administre uma empresa (industrial e/ou comercial), por exemplo, deve estar atento às mudanças que ocorrem a todo o momento no mercado, que é sempre dinâmico. Estas acontecem, não raro, subitamente, sem o menor aviso. Determinado produto que tenha, em dado momento, grande aceitação, dependendo de sua natureza, precisa ser melhorado ainda mais, sob o risco da concorrência fazê-lo e de ser preterido, não raro abruptamente, pelo do concorrente. Nada é bom o suficiente a ponto de não poder ser melhorado. Sempre pode.
Quem comanda pessoas precisa ser um tanto quanto psicólogo. Tem que “entender” seus comandados, conhecer suas virtudes e fraquezas, saber qual seu verdadeiro potencial e quais suas vulnerabilidades e, com sabedoria e muito tato, extrair o que cada qual tem de melhor. Caso haja no grupo quem destoe, que não dê o rendimento que dele se espera, mesmo após receber todas as oportunidades para tal, deve ser imediatamente trocado.
O bom administrador é justo e coerente. Não personaliza os relacionamentos, mantendo-os, sempre, no estrito âmbito profissional. Não premia e nem pune ninguém com base em critérios meramente pessoais, de simpatia ou de antipatia. É racional. Tem em mente sempre o sucesso do grupo e não o próprio. Afinal, se este for bem-sucedido, o êxito será também, ou principalmente “seu”, como seu comandante.
O administrador dotado de talento é o que não somente detecta com grande antecedência as mudanças em andamento – o que requer conhecimento de causa e muita sensibilidade – mas o que se mostra apto a ter o seu controle. Ou seja, que tem a capacidade de orientá-la no rumo que lhe seja favorável. É a tais “comandantes” que Michael J. Kami chama de “intrapreneurs”, em seu livro “Um... Dois... Três... Ação!! Momento de Decisão” (Editora McGraw Hill).
Esses administradores (ou mesmo funcionários subalternos de cargos chaves) talentosos são tão raros, que recebem designações especiais, características, no âmbito das grandes corporações. Em algumas (como na IBM, por exemplo), são conhecidos como “Meninos de Ouro”. Em outras, são apelidados de “Gorilas”, por causa de sua “uma tonelada de aptidões excepcionais”. E vai por aí afora. São pessoas raras, por isso precisam ser valorizadas e estimuladas a darem o seu melhor rendimento.
As grandes e bem-sucedidas empresas, que adotam métodos modernos e racionais de administração – e que por isso nunca perdem o passo das mudanças, detectando previamente as tendências e investindo seguramente nelas – já se conscientizaram que não podem manter a efetividade sem essas “jóias raras”.
Michael J. Kami, valendo-se do método socrático, ou seja, mediante perguntas pertinentes, indica um caminho para que as organizações que não dão a devida atenção aos seus talentos internos, “castrando-os” literalmente, ou até mesmo demitindo-os por razões de somenos, não cometam esse erro de avaliação que, não raro, equivale ao suicídio empresarial.
Três questões se destacam:
1ª) A empresa fornece treinamento especializado ao pessoal da Administração?
2ª ) A empresa dispõe de um programa que forneça motivação individual aos seus administradores?
3ª) A empresa proporciona oportunidades reais de rápido progresso?
Caso a resposta a essas três perguntas seja negativa, a “luz vermelha”, de alerta, certamente estará acesa. Os métodos de administração estarão errados já a partir da própria base. Dificilmente essas empresas – apenas por improvável acaso – contarão em seus quadros com esses talentos capazes de detectar e comandar as mudanças em andamento.
Há as que sequer percebem o quanto é importante contar com “intrapreneurs”. Há, também, as que têm em seus quadros vários deles, mas os mantêm sob freios. Nos dois casos, são empresas fadadas a marcarem passo e a operarem no vermelho. É o que via de regra acontece. No longo prazo (às vezes nem isso), correm o risco de se tornarem obsoletas e inviáveis. Não raro, acabam, até, indo à falência.
Mas há, em contrapartida, empresas que avançaram muito nesse aspecto e que, por isso, contam com funcionários talentosos, aplicados, motivados e que colocam seu imenso talento a seu serviço. Não por acaso, são as que ocupam a liderança em seus respectivos ramos de atividade.
Kami alerta, no entanto: “Constitui erro grave procurar criar um grupo homogêneo de personalidades e comportamentos similares na tentativa de conseguir um funcionamento harmônico da empresa. O resultado será uma plácida mediocridade, pois seus funcionários realmente talentosos não tolerarão um ambiente desse tipo. Irão embora”. Talento é coisa rara e não pode ser desperdiçado por nenhuma razão. Tenha isso em mente, e sempre.


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Monday, February 27, 2012










A discriminação, qualquer que seja a forma em que ela se apresente, é sempre uma atitude estúpida, irracional e sobretudo perigosa. Não existe um parâmetro para medir os seres humanos, em sua importância, a não ser sua mortalidade. E nesse aspecto, todos se igualam: reis, príncipes, presidentes, generais, milionários e mendigos. Ainda não apareceu esse que conseguisse sobreviver ao tempo e aos desgastes naturais dos anos. E muito menos à morte. Entretanto, existem focos, que se reacendem de quando em vez, dessa infecção do espírito. Pessoas passam, então, a ser discriminadas, ou pela cor de sua pele, ou pelo seu país de origem, ou pelo credo que professam, ou pelos costumes que adotam, ou pelo sexo, ou até por algum eventual defeito físico. Essas erupções discriminatórias já foram causas de inúmeras desgraças no mundo. Compete-nos agir no sentido de extirpar essa perigosa erva daninha dos corações das pessoas.

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Anote e Confira


O BEM AMADO

O programa “O Bem Amado”, da Rede Globo, originado de uma novela de igual nome de Dias Gomes, sempre se caracterizou por críticas sutis, através dos personagens da incrível cidadezinha de Sucupira, a tudo o que há de ruim no comportamento dos políticos brasileiros. Mas não com aquele tom até dogmático, geralmente usado quando se deseja assinalar mazelas e corrupções, mas numa linguagem, e com atitudes características do nosso povo. Hoje o seriado, sem dúvida nenhuma uma das melhores coisas que já foram criadas em TV, chega ao seu final. Mas de uma maneira apoteótica e atual. Extingue-se com dignidade. Mostra a estranha distribuição de presentes ocorrida em Sucupira, nas proximidades da época em que o Colégio Eleitoral deve se reunir para a eleição do presidente da República. Ou seja, denuncia, na sua maneira bem-humorada e sutil, até na hora da própria morte, o que há de errado, de deprimente e de condenável neste país. O telespectador, portanto, não pode perder este último programa histórico, inserido na Sexta Super de hoje. Rede Globo, canal 12, às 22h25.

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 22, “TEVÊ”, do Correio Popular, em 9 de novembro de 1984).

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A maldição de Ondina

Pedro J. Bondaczuk

A África – provável “berço” da espécie humana, de onde ela teria se irradiado para o resto do mundo – que abrigou notáveis civilizações e teve pujantes culturas, quando o homem da Europa ainda sequer havia deixado a caverna primitiva, luta para se reconstruir, praticamente partindo do zero.
Cerca de cinco séculos de brutal e predatório colonialismo deixaram o continente em estado de terra arrasada. Suas riquezas foram drenadas por quem não tinha direito algum a elas. Suas florestas foram devastadas. Sua fauna quase desapareceu, caçada por pessoas de olho em peles ou em marfim ou, simplesmente, por “esporte”. E, para culminar suas desgraças, muitos de seus povos foram escravizados e obrigados a gerar riquezas aos escravizadores, notadamente nas Américas – Brasil, Caribe, Estados Unidos etc.
Sempre fui fascinado por tudo o que se refira a esse continente, principalmente ao seu glorioso passado. Li livros e mais livros sobre a África, escritos ou não por africanos, e dos mais variados gêneros e temas. E meu fascínio não cessou. Pelo contrário, continua crescendo, mais e mais, à medida em que o tempo passa e que obtenho mais informações a respeito.
Um dos meus sonhos recorrentes sempre foi o de conhecer de perto sua realidade “in loco”. Foi (e é, pois continua mais vivo do que nunca) o de visitar alguns dos atuais países africanos, na impossibilidade de conhecê-los todos. Nunca me foi possível concretizar esse imenso desejo, por uma série de razões, das quais, a menor, é a econômica (embora também presente).
Não irei reproduzir o estado de caos que caracteriza o continente, que sofre cíclicos períodos de fome que ceifam milhões de pessoas, guerras civis intermináveis e selvagens, doenças de toda a sorte, das mais simples e já erradicadas na maior parte do mundo a novas e complexas epidemias, como a do ebola, por exemplo e vai por aí afora. As tais “potências” mundiais têm uma dívida impossível de ser paga por milênios e não mais só por séculos, tão grande que é, com a África e com seus povos.
Por todas essas razões – e, também (e principalmente), por suas qualidades literárias – é que recomendo a você, leitor inteligente e bem informado, que compre, leia, comente e divulgue o recém-lançado “romance-metáfora” (como seu próprio autor o qualifica) “A maldição de Ondina”, do escritor português, radicado há seis anos em Moçambique, Antonio Cabrita (lançamento conjunto da Editora Letra Selvagem e Livraria Martins Fontes). Recomendo que preste especial atenção aos excelentes prefácio e posfácio escritos, respectivamente, por Maurício Melo Junior e Adelto Gonçalves.
A história se passa em território moçambicano, com suas várias etnias, problemas, carências, costumes que nos parecem exóticos e com toda a exótica e fascinante cor local, só possível de ser captada a quem viva lá e seja, sobretudo, arguto observador. Seu jovem autor (nascido em 16 de janeiro de 1959) é um desses talentos precoces, que cedo se impõem e conquistam, exclusivamente por méritos pessoais, seu espaço no complicado e competitivo mundo literário.
Antonio Cabrita milita no jornalismo, como crítico literário e de cinema da publicação “Expresso”, de Maputo. É editor das edições “Iman” e diretor da revista “Construções Portuárias”. E, claro, é escritor de inegáveis dotes estilísticos, autor de vários contos e de argumentos para o cinema. Publicou seu primeiro livro, de poesias, “Oblíqua visão dum cristal num gomo de laranja ou perene o sangue que arrebata os anjos vingadores”, em 1979, quando tinha, apenas, 20 anos de idade. Parte considerável da sua já vasta obra poética está reunida em “Arte negra”, publicado em 2008 pela Editora Fenda.
E por que “A maldição de Ondina”! é classificado como romance-metáfora? Porque o é de fato. Tudo no livro é metafórico. E já a partir do próprio título. “A maldição de Ondina”, também conhecida nos círculos médicos como “Síndrome de Ondine”, é o nome de uma doença relativamente rara que acomete algumas pessoas. Caracteriza-se por uma hipoventilação alveolar primária. Ou seja, é uma deficiência pulmonar, genética, em que os mecanismos de respiração involuntária não funcionam adequadamente. Seus portadores podem morrer (e em geral morrem) dormindo, por falta de ar. Por isso, evitam ao máximo de dormir, numa espécie de insônia autoprotetora.
E o que essa enfermidade tem a ver com o livro e, sobretudo, com a África? Tem tudo! No release distribuído pela Letra Selvagem está a melhor explicação para o título do romance: Trata-se da “situação de um país subjugado a seus fantasmas, o qual, à maneira dos golfinhos (mamíferos que sofrem a ‘maldição’ de não poderem jamais dormir profundamente, já que para sobreviver necessitam vir à tona de cinco em cinco minutos para respirar), não pode esquecer o passado, essa assombração que vai aonde quer que se vá”.
Antonio Cabrita escreve sobre o que entende, Sobre o que observa (e vive) dia a dia, há já seis anos, Ele é português “legítimo”, nascido no Pragal, freguesia do Conselho de Almada, cidade do distrito de Setúbal, localizada às entrada do Rio Tejo, em frente a Lisboa. Fascinado pelo que ouvia dizer da África, notadamente sobre a ex-colônia de Portugal, Moçambique, resolveu, um dia, ir para lá e conferir tudo pessoalmente. Foi, viu, gostou e... ficou.
No posfácio do livro de Cabrita, Adelto Gonçalves escreve o seguinte a propósito da África e principalmente sobre a ex-colônia portuguesa (opinião com a qual concordo apenas em parte, pois discordo quando traça analogia com o Brasil): “A África é o que é hoje. E ponto final. Entrecruzamento de raças e etnias, suas mazelas – a miséria de muitos povos, a falta de perspectivas para muitos, a opressão de uma classe sobre outras – são iguais às de todos os homens que vivem na Terra – uns mais, outros menos. Uma espécie de Brasil nenhum pouco às avessas. Se aqui o partido que se dizia de esquerda e defendia os oprimidos chegou ao poder pelas vias da democracia chamada burguesa e, naturalmente, não o quer largar, ainda que tenha de recorrer a meios inconfessáveis, ao estilo das antigas máfias napolitanas, lá o partido dos oprimidos, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), alcançou o poder pela força das armas, depois de ter, primeiro, colocado o colonialismo para correr e, em seguida, em meio a anos de contendas e mortandades, destruído pelos fuzis adversários que tinham os mesmos objetivos”.
Oxalá a África, finalmente, reencontre seu caminho. E que jamais volte a ser presa inerme de quem quer que seja, reconstruindo sua vida e cultura sob bases muito diversas das existentes em outras tantas partes do mundo pseudo-globalizado, na verdade, neo-colonizado, caracterizadas pela solidariedade e justiça social. Um dia conseguirá exorcizar os fantasmas desse passado dramático, sem esquecê-lo (o que é impossível) mas extraindo lições para um futuro próspero e radioso. Esta é minha crença e esperança.


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Sunday, February 26, 2012










Há, neste momento, milhares de crianças driblando carros, nos cruzamentos das grandes avenidas, com uma flanela nas mãos ou carregando limões, chocolates, frutas ou balas para vender, à cata de alguns trocados. Algumas sequer sabem onde estão, drogadas com cola de sapateiro, quando não outros tóxicos mais fortes. Há quem esteja à espreita dos incautos, ou indefesos, para lhes surrupiar a carteira. Estes, em geral, estão a soldo de marginais adultos, que os exploram. Abordo problemas, como este, não por ser pessimista, mas porque acredito que só pessoas conscientes e bem-informadas são capazes de atuar com eficiência na realidade e mudar o que está errado. O tratamento de qualquer doença começa pelo rigoroso diagnóstico. Cá para nós: que terrível é a infância do abandono, do desamor, da ausência de perspectivas e de dignidade! Como fechar os olhos e escrever bem-humorado sobre isso?!!

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Vinte anos de golpes e de morticínios


Pedro J. Bondaczuk


O ex-chefe guerrilheiro Yoweri Musaveni, líder do Exército de Resistência Nacional, tomou posse, ontem, na presidência de Uganda, tornando-se o novo governante desse pobre e violento país africano (sem saída para o mar), em 24 anos de independência. Culmina, dessa maneira, com duas décadas de golpes e cinco de uma selvagem guerra civil, responsável por genocídios monumentais, cujas proporções verdadeiras dificilmente o mundo vai conhecer.
O chefe rebelde assume o cargo com a legitimação de suas armas. Afinal, foi a poder delas, sem contar com grande ajuda externa, que conseguiu impor a vontade da sua tribo, uma das maiores dessa República de 17 milhões de habitantes e que, desde a independência, estava, estranhamente, segregada da vida política, à totalidade dos ugandenses.
Ao prestar, ontem, juramento constitucional, em Kampala, cidade que tomou em combate, no sábado, recebeu um país esfacelado, ferido e saqueado. Um Estado virtualmente sem Forças Armadas, cujos soldados chegaram ao ponto de debandar frente ao avanço da guerrilha, não sem antes cometer toda a sorte de barbaridades contra a indefesa população civil, saqueando, violentando e trucidando cidadãos inocentes, que só querem ter o direito de exercer sua cidadania.
Anteontem, numa reunião com diplomatas credenciados na capital ugandense, Musaveni tranqüilizou os seus aliados ocidentais. Garantiu que seu regime não será marxista. Que vai restabelecer em pouco tempo a democracia e convocar, em breve, eleições presidenciais. O que chamou a atenção do crítico, todavia, foi esse termo vago. “Breve” tanto pode ser um prazo de alguns meses, como de muitos anos. Depende de quem mede esse tempo.
O grande problema ugandense, que sempre serviu de entrave ao desenvolvimento do país, foi o seu insuperável desarranjo institucional. Seu território, por obra e graça (ou seria desgraça?) do colonizador inglês, foi repartido entre tribos antagônicas e inconciliáveis, na época em que ainda era colônia.
Obtida a independência, a situação só conseguiu piorar. E piorou demais. No território de Uganda estava incluído um reino semi-autônomo, civilização africana bastante antiga, chamado Buganda. Assim que os ingleses se retiraram da ex-colônia, impuseram, para presidir a nova República formada, justamente o rei desse território, Mutesa II. Exatamente quem tinha todos os motivos possíveis para sabotar o regime republicano, por ter nascido e sido criado num sistema monárquico.
Só podia dar no que deu. Em pouco tempo foi deposto, deflagrando uma sucessão medonha de golpes, contragolpes e “revoluções salvadoras”, movidos por pessoas sem nenhuma noção quanto ao significado de uma gestão nacional, que durou 20 anos.
Aliás, Uganda, em virtude da grande quantidade de tribos que abriga, com línguas, religiões e costumes diferentes, nunca teve um genuíno sentimento de nacionalidade. Em agosto do ano passado, pouco após o general Tito Lutwa Okello ter assumido o governo, depois do general Basílio Olara Okello (que não é seu parente) ter derrubado, pela terceira vez, o presidente Milton Obote, foram descobertas numerosas valas comuns, onde estavam sepultadas milhares de pessoas, mortas sem nenhuma defesa.
O assassinato político tornou-se uma dolorosa rotina nesse país, fruto desse antagonismo tribal. E o povo nunca teve condições de fazer nada a não ser se submeter a tamanho horror e buscar se adaptar da melhor forma possível a ele, mesmo com a vida em permanente risco, suspensa, apenas, por um fio.
Quem sabe, agora, Musaveni, que sentiu na própria carne a dor da perseguição política e da clandestinidade compulsória, consiga entender os ugandenses. Quem sabe promova, finalmente, a conciliação nacional e inicie um processo autêntico de integração, sem levar em conta nenhuma distinção tribal.
Se conseguir essa façanha, certamente passará para a história como autêntico pai da pátria. Em caso contrário, não terá, sequer, tempo de esquentar a cadeira presidencial.

(
Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 30 de janeiro de 1986)

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As várias fases da utopia

Pedro J. Bondaczuk


Com vistas a um estudo racional das utopias, podemos dividi-las, grosso modo, nas seguintes fases (embora não com estrito rigor):

Antiga

Etapa que vai desde a Antigüidade grega (com a República, de Platão, e a minuciosa descrição da suposta civilização – e posterior catástrofe – da Atlântida, continente que teria afundado no oceano, também descrita pelo mesmo filósofo) passando pela Idade Média, e que termina quando da invenção da palavra que a designa, por Thomas Morus, em 1516.

Pode-se incluir, nessa classificação, o chamado “milenarismo” dos cristãos primitivos. Como o próprio termo sugere, esse ideal centralizava-se na promessa do advento de Jesus Cristo, que daria início a um reinado de mil anos de paz, felicidade e harmonia na Terra, em que as doenças e a própria morte deixariam de existir, de acordo com a corrente milenarista, que se contrapunha, aliás, aos que acreditavam no Apocalipse.

Vários movimentos com essas características proliferaram ao longo de praticamente toda a Idade Média. A Igreja Católica combateu-os, a ferro e fogo, classificando-os de heresias, até exterminá-los por completo. O Apocalipse, atribuído ao apóstolo João, que o teria escrito na Ilha de Patmos, na Grécia, profetiza o fim do mundo na ocasião da volta de Jesus.

Este voltaria ao nosso mundo com todo o poder e glória – ao contrário do que ocorreu em sua primeira passagem pela Terra, quando nasceu frágil, pobre e humilde em uma estrebaria de Belém –, para um Juízo Final e definitivo, em que julgaria os vivos e os mortos (que, então, ressuscitariam). Puniria os que violaram os princípios cristãos e premiaria, em contrapartida, os que persistiram na virtude e na prática do bem, vencendo, dessa forma, em definitivo, as forças do mal.

Cristo salvaria, na ocasião dessa segunda vinda, os justos (com o aval da sua morte na cruz), que seriam levados para junto de Deus e se tornariam eternos, imortais. Em contrapartida, imputaria a segunda morte, a definitiva e irrevogável, no lago de fogo e enxofre, aos ímpios, aos fornicadores, aos tiranos etc.

Surgiram, também, outros relatos, mais amenos e humorados, nesse período da Idade Média, como o do país da Coconha, que projeta, numa Europa assolada pela peste e pela fome, uma terra de fartura, de saúde, de descanso e, principalmente, de comida. Nessa sociedade maravilhosa, haveria deliciosos alimentos e guloseimas com abundância inesgotável, e para todos. O homem não precisaria trabalhar para garantir o sustento. Poderia, dessa forma, reintegrar-se à natureza e se livrar do que é encarado como uma praga divina em diversas religiões: o trabalho.

É mister ressaltar que, a rigor, o Éden bíblico se constitui, também, numa forma de utopia. É comparado, muitas vezes, por alguns utopistas, às novas terras descobertas por Portugal e Espanha, nos séculos XV e XVI, especialmente o Brasil, onde os indígenas andavam (muitos ainda andam) nus, sem sentirem vergonha da nudez, assim como Adão e Eva antes de comerem o fruto proibido. E onde o calor e a vegetação luxuriante dos trópicos lembravam a fartura prometida na Bíblia, que dificilmente se pode alcançar no clima seco e severo do Oriente Médio, ou no intenso frio da Europa.

O escritor Mário Donato, num longo ensaio que publicou, em abril de 1983, no suplemento “Leitura”, do Diário Oficial do Estado de São Paulo, intitulado “Utopia e o sonho azul da Colônia Cecília”, enfatizou o ideal da ordem como o ponto de convergência de todos os utopistas. Estes variaram, apenas, e em detalhes, quanto à forma como esta seria imposta e assegurada às respectivas sociedades que idealizaram. Donato contesta, portanto, a afirmação – no seu entender equivocada – de muitos analistas, que viam conotações anarquistas nesses movimentos utópicos. E comprova, fartamente, sua contestação.

Escreve, em determinado trecho do citado ensaio: "Uma utopia? Que é uma utopia no consenso atual? Algo de paradisíaco e de inefável. Tão bom, que se faz inexeqüível". E prossegue: “Ora, as utopias inventadas pelos homens, desde que o mundo é mundo, não correspondem ao ideal dos que entendem, erradamente, o anarquismo. Com exceção do Jardim do Éden, onde viveram Adão e Eva em nudez, sem pecado e sem trabalhar e nem sofrer (o que, aliás, durou pouco), todas as utopias foram sempre rigorosamente organizadas, pois os seus criadores, criticando as sociedades em que viviam, elaboraram outras, em que o principal era a ordem, a ausência do imprevisto e o interesse coletivo sobrepujando o individual. Até a Canaã dos hebreus, onde os escritores bíblicos dizem que manavam leite e mel, tinha um Deus vigilante e ciumento, leis, sacerdotes, chefes, trabalhadores e soldados. Não era uma anarquia, embora tenha sido apontada como símbolo de um paraíso na Terra".

Literária

Nessa fase, foi produzido um grande número de obras de ficção, geralmente apresentando países com formas sociais, costumes e/ou governos ideais. Entre tantas dessas sociedades supostamente perfeitas, criadas pela mente de escritores imaginativos, podemos destacar as três que se tornaram mais célebres:
1.) “De optimo republicae statu deque nova insula Utopia”, uma espécie de romance filosófico, de Thomas Morus, em que o autor relata as condições de vida de uma ilha desconhecida, descoberta pelo navegador português Rafael Hitlodeu. Nessa sociedade, haviam sido abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa. As crianças eram educadas para considerar o ouro como coisa desprezível, usado, por exemplo, para fabricar urinóis. O metal só era acumulado para pagar os vizinhos mercenários. Os habitantes da ilha trabalhavam menos horas e apreciavam o que faziam. Morus enfatiza que era pelo fato dos trabalhadores da Inglaterra terem de sustentar uma imensa corja de vagabundos, como nobres, cortesãos e abades ociosos, que a jornada de trabalho se tornava demasiado longa nesse país.
2.) “Nova Atlântida”, de Francis Bacon. O filósofo imagina uma ilha onde se organizou um sistema destinado ao apoio e proteção à técnica. De acordo com seu relato, um rei famoso e sábio haveria criado, em remoto passado, uma “ordem ou sociedade” que chamou de a “Casa de Salomão”. Esse centro de pesquisa era dedicado, principalmente, ao “estudo das obras e criaturas de Deus”. Bacon ensaia uma interessante descrição do objetivo desta Casa, que bem poderia passar como uma tentativa de definir a técnica: “O objeto de nossa fundação é o conhecimento das causas, segredos e noções das coisas e o engrandecimento dos limites da mente humana, para a realização de todas as coisas possíveis”. A ordem ocupava um lugar preeminente na vida da sociedade da Nova Atlântida, com uma hierarquia interna, conformada, aparentemente, por sacerdotes cristãos.
3.) “Cittá del Sole” (“A Cidade do Sol”) de Tommaso Campanella. O rebelde monge dominicano calabrês imaginou um modelo utópico da sociedade que, progressivamente, se estenderia a toda a Terra. Nessa Cidade do Sol, que não era propriamente uma República, nem uma monarquia, nem oligarquia, reinava uma comunidade de bens. Esse Estado, onde floresciam todas as virtudes, não devia a sua perfeição, nem autoridade, ao rei, nem ao governo do povo, nem à sua oligarquia, mas única e tão-somente à ciência.

Socialista

Essa fase foi dominada por figuras de grande destaque, entre os teóricos socialistas, como Graccus Babeuf, Claude-Henri Du Rouvroy (Conde de Saint-Simon), Charles Fourier, Victor Considérant, Weiling, Robert Owen, Pierre-Josep Proudhon, Étienne Cabet, William Kina, Gustav Landauer e H. G. Wells, entre outros.

Todavia, enquanto esses expoentes teóricos do socialismo forjavam suas teorias sobre uma sociedade que tivesse essas características, em pleno sertão baiano, castigado por periódicas secas, terra assolada pela ignorância e pela miséria, ocorreu, na prática, a instalação de um grupamento de características marcadamente socialistas, posto que de curta duração e que terminou em tragédia.

Refiro-me ao arraial de Belo Monte, conhecido pelas pessoas de fora como “Canudos”, por causa da existência, na região, de plantas denominadas “canudos-de-pito”, que cresciam junto ao Rio Vaza-Barris. Seu mentor foi uma figura polêmica, encarada pela maioria dos historiadores como um louco fanático religioso, ignorante e que exploraria a ignorância, a superstição e o desespero da miserável população do Nordeste brasileiro em fins do século XIX.

Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, congregou, naquela localidade, cerca de 30 mil pessoas, sob a sua liderança espiritual e moral. Para os padrões de hoje, não era tanta gente assim. Mas devemos situar os fatos no devido contexto histórico. E, em termos relativos, tratava-se de uma multidão considerável. Basta dizer que Canudos, à época da sua destruição, era o segundo maior núcleo populacional da então Província da Bahia, com população apenas inferior à da capital, Salvador, que então tinha 200 mil habitantes.

Concordo com o geofísico Ruy Bruno Bacelar, um dos maiores especialistas neste ainda obscuro e mal-explicado episódio da História do Brasil, quando rebate a afirmação de que Antônio Maciel teria sido um fanático ignorante. Em entrevista publicada em maio de 1991 pela revista “Raízes da Bahia”, ponderou: “O Conselheiro falava e escrevia latim. Tinha uma cultura razoável para a época. Deixou pelo menos dois livros escritos”.

Há quem conteste, e até ridicularize, a afirmação que a sociedade que Antônio Mendes Maciel implantou em Belo Monte tivesse características socialistas. Bacelar rebate esses críticos e justifica sua tese: “Conselheiro estabeleceu uma comunidade de natureza socialista, baseada nos anseios das massas camponesas, mas influenciado, também, pelas idéias do cristianismo primitivo e, possivelmente, pela ‘utopia’ de Thomas Morus. Então era um sistema socialista em plena caatinga nordestina. Enquanto isso, publicava-se, na França, pela primeira vez, a obra-prima de Marx, ‘O Capital’, que o Conselheiro jamais ouvira falar”.

Não é notável?! Sem dúvida! Bacelar esclarece que o tipo de cristianismo praticado em Canudos não era exatamente nos moldes dos ensinamentos da Igreja Católica, embora não conflitassem, em sua essência, com estes. Assemelhava-se, no seu entender, ao dos essênios, antes da crença cristã haver sido contaminada, notadamente em Roma, por práticas pagãs, como, por exemplo, a adoração de imagens e de ícones. Tanto que nas procissões diárias de Belo Monte, estas nunca estavam presentes. Os fiéis carregavam, então, apenas o símbolo máximo do cristianismo: uma cruz.

Bacelar acrescenta, para justificar a afirmação de que Canudos se tratava de uma sociedade marcadamente socialista: “Ali não havia pobres, todos trabalhavam para a comunidade na medida de suas forças. Não havia assaltantes, fome, desemprego, prostituição, jogo ou explorados e exploradores. Não tinha prefeitura, autoridade, polícia ou eleição. Se tudo isso representa socialismo, então pode-se dizer que o movimento de Antônio Conselheiro foi socialista”.

É importante reproduzir o fecho da entrevista de Ruy Bacelar, quando ele menciona o que o Brasil perdeu ao matar no nascedouro essa utopia de justiça e igualdade que estava sendo implantada no sertão baiano: “O maior mérito do Conselheiro está em ter mostrado a perigosa e insidiosa presença do inimigo interno. A Guerra de Canudos serviu para nos mostrar que o inimigo que o brasileiro tem que levar a sério está aqui no Brasil. Canudos é um não imortal a todas as tiranias e sistemas políticos corruptos. E um não a todas as repúblicas degeneradas de ontem e de hoje. Canudos é um não ao Brasil de hoje, é o movimento histórico mais importante de nossa história, e Antônio Conselheiro é o maior vulto desta história. Estamos precisando do espírito do Conselheiro para combater aqueles que tentam tirar a nossa liberdade. Portanto, a minha conclusão é que a Guerra de Canudos foi uma guerra contra o socialismo, contra um homem que afirmava: ‘a terra é de todos’”.


Maturidade teórica

Esta última fase das utopias veio com os trabalhos de intelectuais como Ernst Bloch, Roger Duveau, Karl Manheim, Laurent Mucchielli, Raymond Ruyer, Jerzy Szachi, Martin Buber, Pierre Furter, o educador brasileiro Paulo Freire e muitos outros.

Ressalte-se que, em 1880, quando Friedrich Engels publicou o seu livro “Do socialismo utópico ao socialismo científico”, os utópicos passaram a constituir um grupo definido, pelo menos para os marxistas. Até então, isso não ocorria.

Hoje, aceita-se que foi H. G. Wells quem, em 1905, com o livro “A moderna utopia”, deu à palavra seu sentido moderno e positivo. Outras obras que seguiram pelo mesmo caminho e que, por isso, merecem menção, são: “Geist der Utopie” (O espírito da utopia) de Ernst Bloch, 1923; A utopia e as utopias – Raymond Ruyer – 1950; Ideologia e utopia – Karl Manheim – 1960; O mito da cidade ideal – Laurent Mucchielli – 1960 e Sociologia da utopia – Roger Duveau – 1961.

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Saturday, February 25, 2012










Sou jornalista e cronista, com décadas de experiência. Dizem que a crônica deve ser sempre bem-humorada. Mas não consigo sorrir diante do quadro trágico de miserabilidade e abandono em meu país. O Brasil conta com milhões de excluídos da cidadania, que não batalham para concretizar grandes sonhos ou mesmo por uma vida modesta. Lutam, tão-somente, pela sobrevivência. Abordo problemas não por ser pessimista, mas porque acredito que só pessoas conscientes e bem-informadas são capazes de atuar com eficiência na realidade e mudar o que está errado. Afinal, o tratamento de qualquer doença começa pelo diagnóstico correto. Enquanto crianças coradas e sadias passeiam seus ingênuos sonhos debaixo da minha janela, há milhares e milhares de outras perambulando, maltrapilhas e famintas, sem eira e nem beira, sem passado, presente ou futuro, pelas ruas das grandes cidades. Lamentável!

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Borrões amarelos

Pedro J. Bondaczuk

A noite agoniza, estertora,
desfalece e desmaia
e mancha, imprudente,
de borrões amarelos,
seu manto acolhedor.

Amanhece.
Esmaecem febris,
vãs ilusões,
na antevisão, grotesca,
de diurnos afazeres,
de ócios e elucubrações.

Despertam os formigueiros,
agitadas cidades,
como num rufar de tambor,
confusa debandada.
Em busca do quê?
Em busca de nada!

Um boêmio errante,
ébrio e loquaz,
palrando
tartamudeante
com sombras,
passos incertos
de marinheiro sem nau,
segue invectivando cães
á procura de algo,
que sequer atina...

Amanhece.
Há chamas no mar,
algaravia nos bosques,
pássaros a cantar.
Amanhece...
e a vida não pode parar.


(Poema composto em Campinas, em 25 de agosto de 1965).

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Origem do conceito de utopia


Pedro J. Bondaczuk


A palavra "utopia" significava, em grego, "não existe tal lugar". É formada pelo prefixo “U”, que nesse idioma significa “não” (ou seja, exprime a idéia de negação), e por “topia”, que quer dizer “lugar”. Da junção desses dois termos originou-se, pois, “não-lugar”. Ou seja, o local “em que não estamos agora”. Embora a palavra seja formada por duas expressões gregas, curiosamente, não existia, com essa conotação, nesse idioma. Foi criada, na verdade, pelo inglês Tomas Morus.

Em sua obra “Direito e Utopia”, o eminente jurista João Batista Herkenhoff confirma essa origem européia da expressão. Destaca que a palavra deriva, de fato, do grego (embora sem ser grega), e que significa: “que não existe em nenhum lugar”. Pondera, todavia, que esse conceito não pode e nem deve ser confundido com o de mito, do qual, na verdade, é o oposto. Ou seja, enfatiza que se trata da “representação daquilo que não existe ainda, mas que poderá existir se o homem lutar para a sua concretização”. E continua dizendo que esse ideal é a consciência antecipadora do amanhã. “O mito ilude o homem e retarda a história. A utopia alimenta o projeto de luta e faz a história”, destaca o jurista. Herkenhoff vê, dessa forma, no pensamento utópico, o “grande motor das revoluções”.

Caso aceitemos essas ponderações (e não há porque não aceitar), “utopia significa não-lugar ou lugar onde a vida seria melhor. É a esperança de realizar sonhos de justiça e liberdade social e, simultaneamente, de alcançar plena e autônoma realização pessoal. A eterna utopia, portanto, é realizar a identidade existente entre o eu e nós”, conclui Herkenhoff.

Atualmente, a palavra tem outra conotação, embora se assemelhe bastante à original. É utilizada no sentido de "idealização", de busca de algo de tal sorte elevado, que é impossível de ser alcançado. No entanto, atrevo-me a emprestar ao termo um significado diferente, totalmente novo: o de meta de perfeição humana a ser buscada de forma persistente e até teimosa, não por um único indivíduo, ou por um só grupo de homens esclarecidos e iluminados ou de um único tempo, mas por milhões, quiçá bilhões de pessoas, através de sucessivas gerações.

O ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, que em alguns de seus textos é extremamente cáustico na defesa das liberdades individuais, escreveu, no livro “Desobedecendo”: "Se você construiu castelos no ar, não terá desperdiçado seu trabalho, pois no alto é onde devem estar. Agora, coloque fundações embaixo deles". Ou seja, enfatizou que, por maiores e mais arrojados que sejam nossos ideais, estes não podem se limitar a meras elucubrações, sob pena de desperdício de tempo. Para que gerem os efeitos desejáveis, devemos agir (nos limites de nossas forças e de nossa capacidade intelectual), sem tréguas ou esmorecimento, para torná-los concretos.

A tentativa de construir um mundo melhor, onde preponderem a solidariedade, o amor e a justiça, deve ser, pois, o objetivo máximo, constante, permanente, obsessivo até de sucessivas gerações, sempre em sentido evolutivo, de tal sorte que a humanidade caminhe – ora a passos lentos, ora de maneira acelerada, de acordo com as circunstâncias de momento – rumo à razão absoluta. Que marche em direção a uma sociedade harmoniosa e consensual, onde não haja oprimidos e nem opressores; nababos nem miseráveis e na qual não existam indivíduos mergulhados na absoluta ignorância, sem sequer dominar a leitura, como ocorre hoje. Estima-se que haja no mundo, em pleno século XXI, um bilhão de analfabetos, a maioria dos quais, mulheres, o que é uma aberração.

A palavra “utopia” foi cunhada, pela primeira vez, em dezembro de 1516, por Thomas Morus. Trata-se de um dos mais notáveis e controvertidos humanistas, íntimo de Erasmo de Rotterdã (que o celebrou, inclusive, no seu "Moriae Encomium" ou "Elogio da Loucura"). Tanto que foi beatificado em 1886 e canonizado por Pio XI em 1935. A força de suas idéias foi de tal sorte que, embora santo da Igreja Católica, tem uma estátua em plena Moscou, erigida por autoridades comunistas, portanto atéias, da extinta União Soviética.

Seu livro “De optimo republicae statu deque nova insula Utopia”, que gerou tanta polêmica naquele início do século XVI, quando foi publicado – e não somente na Inglaterra ou na Europa, mas em todos os círculos intelectuais de então – segue mais atual do que nunca. É lido, estudado e debatido por críticos literários, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos etc., das mais diversas escolas e tendências, mundo afora, que ora defendem, ora buscam ridicularizar suas propostas para uma sociedade ideal. Constitui-se em marco na história da utopia.

Destaco, todavia, um aspecto importante nessa minha ligeira análise do tema. Na Antigüidade, como veremos na seqüência, havia um conceito utópico bem definido, mas não existia a palavra que o caracterizasse. Já na fase das utopias literárias, havia o termo, mas elas não eram consideradas um movimento, nem mesmo pelos seus detratores, por seus inimigos, por aqueles que as combatiam, ferrenhamente, as considerando como um conjunto de heresias. Não passavam, segundo seus adversários, no máximo, de meras formas de se escrever ficção, se tanto.

O homem, único ser racional conhecido – é possível e até provável que na imensidão do universo, com quatrilhões ou mais de mundos, em uma infinidade de galáxias e sistemas estelares, haja outros, até mais inteligentes e perfeitos – é capaz, no meu entender, de concretizar qualquer sonho ou ideal, por mais inexeqüível que pareça. Pode edificar qualquer utopia que engendre, desde que o queira, de fato. O Homo Sapiens, devo ressaltar em seu favor, é um ser ainda muito novo, se comparado, já não direi ao tempo universal, mas à mera idade da Terra.

A propósito da existência ou não de vida em outras partes do cosmo, abro um parêntese para expor a instigante a opinião de Arthur Clarke, autor de "2001, uma Odisséia no Espaço" e "Laranja Mecânica", entre outras obras de ficção científica, a esse respeito. Ela foi exposta em um extenso artigo, intitulado "O futuro do mundo das comunicações", estampado no Suplemento Literário do jornal "O Estado de São Paulo", em 3 de setembro de 1978.

Diz o escritor: "Se décadas e séculos se passarem, sem qualquer indício de que há vida inteligente alhures no universo, os efeitos a longo prazo sobre a filosofia humana serão profundos – e talvez desastrosos. É melhor termos vizinhos que não gostamos, do que estarmos absolutamente sozinhos, porque a solidão cósmica poderia indicar uma conclusão muito deprimente – que a inteligência assinala o fim da evolução. Não. Não acredito nisso". Também não creio!

Recorde-se que os primeiros hominídeos, com lampejos, posto que primitivíssimos, de inteligência, datam de pouco mais de 50 mil anos, de acordo com as mais recentes conclusões dos pesquisadores. Ou seja, é um quase nada em relação aos quatro bilhões de anos de existência do Planeta. A espécie surgiu, por exemplo, pelo menos sessenta e cinco milhões de anos após a extinção das grandes bestas, dentre as quais as que mais fantasias despertam nas pessoas são os dinossauros. É provável que se estes não se extinguissem, o Homo Sapiens não tivesse a mínima possibilidade de existir. Mas existe! E que salto magnífico essa criatura deu, das cavernas às viagens espaciais! No entanto, ainda está engatinhando no que diz respeito ao autoconhecimento, ao domínio dos seus instintos, ao relacionamento com os indivíduos da própria espécie e das demais que o cercam.

Desde a invenção da escrita, milhares de textos foram deixados à posteridade, sobre uma suposta e desejável "Idade de Ouro", quando os homens teriam vivido em inocência, o vício da cupidez ainda não havia criado as odiosas divisões de classe e a humanidade seria harmoniosa e feliz. Provavelmente, os autores, das mais diversas épocas, lugares e costumes, expressaram somente o seu ideal, a utopia das utopias.

A partir da Renascença, com o advento da era das grandes navegações, circularam lendas a propósito da existência de um lugar de plena felicidade. Seria uma ilha, perdida em vastidões oceânicas e isolada do mundo, para evitar o contágio das pseudocivilizações existentes, mormente as européias e asiáticas. Foi à procura desse hipotético paraíso que Cristóvão Colombo aportou na América, julgando estar na Ásia, próximo à procurada "ilha das especiarias".

O espanhol Cabeza de Vaca situou esse edênico local no coração da América do Sul, nos altiplanos andinos, provavelmente nos arredores do Lago Titicaca, no Peru ou no centro da Colômbia. Fernão de Magalhães circunavegou o Planeta e julgou ter descoberto a "ilha de ouro" nas Filipinas, onde morreu em combate com os nativos locais. Mungo Park e Richard Burton entenderam que esse paraíso existisse no interior da África e empreenderam, em vão, exaustiva jornada por vastas extensões desse continente, que lhes exauriu a saúde e abreviou a vida. Vitus Behring procurou esse lendário lugar no Extremo Norte da Terra, sem encontrá-lo. Encontrou foi a morte, mas descobriu a passagem entre a Ásia e a América.

Essa "ilha de ouro" não existe. Ainda está por ser construída por pessoas de larga visão e de boa vontade. Sua localização não vai estar em algum minúsculo pedaço de terra do Pacífico Sul, do Atlântico Norte ou de qualquer outro dos mares da Terra. Será neste próprio e bizarro planeta azul, em sua totalidade, assim que seus habitantes reciclarem suas prioridades e se derem conta da estupidez de acumular bugigangas, como fazem desde que tiveram o primeiro lampejo de consciência.

Embora seja óbvio que deste mundo não levamos coisa alguma, tão logo a morte – fatalidade biológica que atinge indistintamente o humilde e o poderoso, o sábio e o néscio, o rico e o miserável – nivele a todos, mas ao contrário deixamos atos e fatos e gestos de amor, o ideal das últimas gerações tem sido apenas o de juntar coisas, em geral inúteis. E isso precisa mudar. Utopia? Talvez! Todavia, factível. Ou não?!

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Friday, February 24, 2012










O Brasil é o país de contrastes extremos. Olhando pela janela do meu gabinete de trabalho e vendo as brincadeiras despreocupadas das crianças na rua de casa – umas empinando papagaios, outras andando de bicicleta, outras, ainda, correndo atrás de uma bola, talvez sonhando em ser um Romário ou, quem sabe, até mesmo um Pelé – fico imaginando quantos desses pequenos sonhadores conseguirão transformar em realidade os seus sonhos. Esses meninos e meninas que vejo, por sinal, são uns privilegiados, por mais humildes que possam ser suas famílias. Têm infância! O mesmo não se pode dizer de milhões de brasileirinhos abandonados nas ruas das grandes cidades, expostos a toda a sorte de perigos e de vícios, sem nenhuma perspectiva de futuro. Raros passam dos 16 anos de idade. Morrem, precocemente, vítimas da violência, única realidade que conhecem do berço à tumba. Lamentável! Mas, ainda, é a triste realidade nacional.

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Colapso das Rodovias


Pedro J. Bondaczuk


O presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso, terá enormes dificuldades para detalhar as prioridades do seu governo, após tantos anos de crise e de políticas no mínimo desastradas, para não dizer inaptas. O setor de saúde, por exemplo, é um dos que terão de merecer atenção muito especial, diante do caos que se verifica, em especial nos hospitais públicos. O de educação, nem se diga! Está uma calamidade e é fundamental na luta contra a violência e a degradação social. O de segurança, igualmente, é essencial e requer medidas sólidas, e não apenas as providências tópicas e emergenciais, adotadas até aqui.

Tudo é prioridade, num país que, em muitos aspectos, andou para trás nos últimos anos. Mas um setor que não foi muito mencionado durante a campanha presidencial, e que precisa de atenção urgente, é o de transportes, especialmente o rodoviário, que foi a opção nacional --- inadequada, por sinal, quando se leva em conta que o Brasil não é auto-suficiente na produção de petróleo ---, responsável pelo trânsito de pessoas e escoamento das riquezas geradas nas várias regiões. A malha viária brasileira, em especial a federal, está em petição de miséria.

Isto acarreta, além da perda de milhares de vidas a cada ano, em decorrência de acidentes, prejuízos materiais enormes. Na semana passada, em reunião realizada em Foz do Iguaçu, o presidente da Associação Brasileira dos Departamentos Estaduais de Estradas de Rodagem, Luiz Gonzaga Rodrigues Lopes, alertou que as nossas rodovias vão entrar em colapso, no prazo de três anos. Portanto, dentro do mandato de Fernando Henrique.

Quatro mil quilômetros por ano deveriam ser restaurados. Todavia, em média, as restaurações, nos últimos tempos, mal chegaram a mil.

O problema é a falta de recursos (malbaratados em obras fantasmas, superfaturadas e que acabam abandonadas). O custo, para cada quilômetro restaurado, com melhorias, é de US$ 155 mil. É alto, não se tem como negar. Mas é um investimento que terá que ser feito, sob pena de uma paralisia no País.

As estradas brasileiras, projetadas em sua grande maioria nas décadas de 60 e 70, já não comportam o fluxo da frota nacional, estimada em 20 milhões de veículos. Caso não se faça nada a esse respeito, certamente a tão sonhada retomada do desenvolvimento ficará para as "calendas". Haja dinheiro para tantas prioridades!

(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio Popular, em 29 de novembro de 1994).


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Idéias utópicas

Pedro J. Bondaczuk

As várias formas de organização comunitária, desde tempos remotíssimos, quando os homens ainda viviam em cavernas e davam os primeiros passos rumo ao que se convencionou chamar de “civilização”, jamais foram, obviamente, satisfatórias para todos. Caracterizaram-se, invariavelmente, pela prevalência do mais forte, do mais “esperto” e do mais ágil, em detrimento da maioria, que não contava com essas características. A História dos povos – é fácil de se comprovar, à mais ligeira análise –, não passa de mera sucessão de violências, de injustiças, de crueldades de toda a sorte, de patifarias e de corrupção, com raros lampejos de grandeza, de transcendência, de lucidez e de solidariedade.

Esse estado de coisas perpetuou-se e desembocou no mundo atual, com seu desfile cotidiano de horrores, a que temos acesso, diariamente, através dos meios de comunicação (quando não somos as vítimas indefesas desses comportamentos agressivos, injustos e excludentes). Por isso, as pessoas idealistas e bem-informadas, que cultivam valores – aqueles testados e comprovados pelo tempo, que asseguram um mínimo de civilização às mais diversas comunidades –, não se conformam com o que vêem, lêem, ouvem e testemunham ao seu redor, quando não sentem tudo isso na própria carne. E nem poderiam se conformar. A vida não é, e não pode ser, apenas isso que se vê!

Estes inconformados sonham, isto sim, com sociedades ideais, em que imperem a ordem – que seja natural e consensual e nunca imposta à força – a solidariedade, a beleza, a alegria e a proteção dos mais fracos. Ou seja, que idealizam um inefável e perpétuo império da justiça e do bem, que nunca existiu em nenhum tempo e lugar.

São ideais utópicos, sem dúvida, a maioria restrita ao campo da mera fantasia. Algumas idéias nesse sentido, todavia, são perfeitamente viáveis e factíveis. Desde que, claro, sejam bem-divulgadas e defendidas com sabedoria, pertinácia e lucidez por líderes esclarecidos, preparados e comunicativos, que contem com raro poder de convencimento para dobrar até o mais empedernido dos céticos.

Ao contrário do que se pensa, eles existem, e até em número considerável, posto que estejam se omitindo, por várias razões, do seu papel de condutores de povos. São estas idéias que me proponho a analisar, a priori, antes de abordar as utopias mais populares e conhecidas, que atravessaram décadas, séculos, milênios até e chegaram até nós, não raro de forma truncada e/ou distorcida. Via de regra, rimos delas, e as tratamos como coisas “exóticas”, criadas por excêntricos. por malucos ou por desocupados. Evidentemente, não são.

Utilizarei, como fio-condutor dessas considerações, o esclarecedor ensaio do professor Luiz Gonzaga Teixeira, divulgado na internet, intitulado “Utopia, uma cartilha”. O autor, filósofo e sociólogo, é um utopista convicto, que não se limita a teorizar sobre o assunto, mas promove a organização de várias comunidades alternativas. Dedica-se há muitos anos a esse ideal de mudança (para melhor) da sociedade, escrevendo inúmeros textos a respeito e publicando vários livros (entre os quais, “Utopia e Marx”). Procura, sobretudo, construir a teoria da utopia com base em contribuições de clássicos como Pierre Joseph Proudhon e Martin Buber, entre outros.

O professor Luiz Gonzaga Teixeira nos ensina que “algumas pessoas vivem totalmente mergulhadas na sua vida, preocupadas com coisas criadas pelo seu sistema para volvê-las, alegrá-las, angustiá-las. Chamamos essas pessoas de tópicas, isto é, presas no lugar, no nível da situação”. São os que se conformam com o que aí está, ou por concordarem com o sistema, ou por mero conformismo ou, o que é mais freqüente, por comodismo.

Por uma razão ou outra, que não cabe aqui analisar, os que se comportam dessa maneira são a maioria. Foram condicionados, desde crianças, a esse comportamento, pela educação que receberam dos pais e/ou mestres. Ou melhor, foram “adestrados” para encarar o mundo dessa maneira, respeitando hierarquias e abrindo mão da própria vontade, liberdade e anseios ou, pelo menos, de considerável parcela deles.

“Digamos que essa pessoa se conforme com as possibilidades oferecidas, que viva aquém do horizonte oferecido por sua cultura e pelo seu sistema”, prossegue Teixeira. Afinal, é o que invariavelmente acontece com esse tipo de indivíduo. Conforma-se em viver aquém da sua possibilidade, dissolve-se na massa e se despersonaliza. Não raro, essas pessoas até são relativamente cultas, têm razoável senso crítico, mas carecem de iniciativa. Não são condutoras, mas conduzidas. Embora achem que um dia devam ocorrer mudanças, torcem para que estas não ocorram enquanto viverem, pois, no íntimo, as temem.

“Mas nem todas as pessoas são assim. Algumas são mais inquietas, acham que algumas coisas estão escondidas, que deve ser possível ir além do horizonte oferecido, tentam colocar o pescoço da sua situação. Essas são as pessoas utópicas”, acrescenta o professor. “Quer dizer, são ‘u-não’, elas negam a sua situação, o seu topos. As pessoas tópicas, então, ficam dentro da situação, vivem aquém do horizonte. E as pessoas utópicas negam a situação, procuram ir além do horizonte”, completa Luiz Gonzaga Teixeira.
Ocorre que não há consenso sobre a natureza, abrangência e profundidade das mudanças necessárias para a criação de uma sociedade que pelo menos se aproxime da ideal. Há, por exemplo, os que propõem a anulação de todos os princípios e comportamentos que caracterizam as mais diversas comunidades existentes, locais, regionais ou nacionais, e que se comece tudo de novo, do “zero”, o que, claro, raia o impossível.

Teixeira, porém, pondera em seu ensaio: “Algumas questões são praticamente obrigatórias para quem toma essa atitude (de inconformismo e de procura por se ir além do horizonte). Por exemplo: ‘Como é ou como funciona esse lugar que buscamos?’. ‘Como chegar lá, qual é a técnica necessária para chegar lá?’. ‘Baseados em que valores, em que, vamos agir e vamos construir esse outro lugar?’. ‘Quando começa a luta ou a construção, é uma obra grandiosa ou é uma porção de coisinhas que podem ser começadas imediatamente?’”.

As várias utopias já propostas (e as que ainda, certamente, vão se propor) não objetivam mudar, apenas, a sociedade. Têm por escopo, sobretudo, a mudança “da vida”, quer a de cada indivíduo, quer a social e comportamental. O leitor pode ponderar: “as religiões e as ideologias não têm, também, essas mesmas propostas?”. De fato, têm. Mas cada uma delas restringe-se, apenas, ao seu próprio âmbito. A Utopia, por seu turno, leva em consideração tanto o indivíduo, quanto o grupo.

Luiz Gonzaga Teixeira pondera a propósito: “Para mudar a vida é preciso levar em conta que a vida social tem três níveis: a) Individual; b) Das relações entre as pessoas e c) O nível político-econômico. Nisso a Utopia difere, por exemplo, das religiões e do marxismo”. E prossegue: “As religiões, em geral, atuam só sobre o nível primeiro, o individual. As religiões acreditam que os outros níveis dependem desse primeiro: que basta mudar o indivíduo, o coração, para que as relações e a sociedade também mudem. Além disso, de nada adiantam as mudanças de qualquer tipo se o coração das pessoas não mudar. A Utopia, embora insista na importância dessas mudanças dentro das pessoas, no afeto, na mentalidade, educação etc., não acredita que baste isso, nem que isso baste para atingir os outros níveis, nem que todo o problema seja só esse. Já o marxismo (e algumas outras ideologias), pelo contrário, acredita que os dois primeiros níveis dependem do último, que as pessoas, por dentro, e as relações entre as pessoas, dependem do todo social, da política e da economia. A Utopia discorda disso também, ainda mais profundamente. Nenhum dos três níveis é mais importante”. Voltarei, certamente, a este fascinante assunto.

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