Monday, October 31, 2016

QUAIS PAIXÕES SÃO “NORMAIS” E QUAIS NÃO SÃO?

Dia desses um leitor criticou-me duramente porque defendi, numa crônica, que em tudo o que fizermos, devemos colocar paixão, e não somente razão. Argumentou que as paixões são “sempre” destrutivas e perigosas, conclusão a que chegou não sei por qual caminho e baseado no quê. Sua argumentação foi muito pobre, diria, até mesmo infantil.  “Ah, mas determinadas paixões são anormais!”, dirão alguns, com ares doutos, como quem descobriu a pólvora. Muitas são mesmo, todavia, não “todas”.  Ademais, Octávio Paz observou, sobre essa questão de “normalidade”: “A natureza é singular, é uma fonte inexaurível de fenômenos. A normalidade é uma convenção social, não um fato da natureza. Uma convenção que muda com o passar dos séculos, dos climas, das raças, das civilizações”. Ao fim e ao cabo, o que é normal e o que não é? Trata-se de um conceito muito vago, passivo de discussões e de contestações. Até porque, como afirma Caetano Veloso, na letra de “Vaca profana”: “De perto ninguém é normal”. Ou é?      


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Riscos de um presidente fraco


Pedro J. Bondaczuk


O escândalo da venda secreta de armas para o Irã e da transferência ilegal de fundos para os rebeldes nicaragüenses pode ser que não derrube o presidente Ronald Reagan, como o Watergate fez, em 1973, com o também republicano Richard Nixon. Aliás, é até bastante provável que isso não venha a acontecer, de fato, embora o caso atual seja muito mais grave do que o de 14 anos atrás, por envolver questão de política externa.

Mas uma coisa, certamente, todo esse “affaire” vai provocar: o descrédito público do governante que chegou a bater recordes de popularidade há pouquíssimo tempo, graças aos seus raros dotes de exímio comunicador. Doravante, suas decisões, quando se referirem a assuntos de Exterior, certamente irão merecer maior vigilância por parte do Congresso.

Esta circunstância, de enfraquecimento do presidente, pode ter implicações mais sérias do que parecem à primeira vista. Principalmente no que diz respeito às negociações com a União Soviética a respeito de desarmamento nuclear.

Uma pergunta que os observadores estão fazendo a todo o momento, e que, certamente, o seu interlocutor soviético também fará (mesmo que seja a si próprio), na eventualidade de realmente sair uma terceira reunião de cúpula, prevista para Washington, ainda no corrente ano, entre os líderes das superpotências, é até que ponto Reagan terá poder para negociar. E firmar qualquer acordo, numa área de tamanha importância como a das armas atômicas, sem garantias de que ele será cumprido, é uma temeridade. É deixar uma bomba de tempo montada para explodir no momento em que ninguém esperar, deflagrando novas, perigosas e sucessivas crises entre Estados Unidos e União Soviética.

Que se deseje apurar até que ponto Reagan se envolveu na ajuda clandestina aos contras, é até compreensível, mas não de todo desejável, por mais estranho que isso possa parecer. O próximo ano irá marcar a eleição daquele que deverá suceder o presidente na Casa Branca. É mais do que lógico, portanto, que o Partido Democrata, virtualmente sem candidatos fortes, após a inesperada e intempestiva renúncia do ex-senador Gary Hart, procure erodir a imagem republicana perante o eleitorado.

Mas isso seria o melhor para os Estados Unidos? Seria desejável para o mundo livre? Seria o mais propício para a causa da paz mundial? É muito contestável que o seja. Que o presidente norte-americano está enfraquecido neste momento ficou mais do que evidente quando do ataque iraquiano à fragata “USS Stark”, acontecido no domingo à noite, no Golfo Pérsico. Não que alguém esperasse alguma reação intempestiva dele, como uma retaliação ao Iraque, por exemplo, que não traria benefícios a ninguém.

Mas Reagan ficou inibido de fazer uso até de um dispositivo que a própria Constituição de seu país lhe faculta, que é a chamada lei dos poderes de guerra, para auxiliar um dos seus maiores aliados na região, o Kuwait. Ao invés disso, preferiu consultar cuidadosamente o Congresso, para colocar a frota de petroleiros kuwaitiana sob a proteção da bandeira norte-americana. E se o incidente fosse com os russos?

Muitos outros sintomas de sua debilidade (que não cabe citar aqui) foram mostrados, nos últimos dias, por parte da Casa Branca, que se vê acossada, vigiada e na defensiva, por causa de algo que foi superdimensionado por ambas as partes.

Que organizações particulares de extrema-direita financiavam os contras durante o período de veto legal do Legislativo para isso, nunca foi novidade para ninguém. As agências cansaram-se de mandar despachos nesse sentido. É evidente que leis existem para serem cumpridas. E ainda mais por presidentes, que têm a obrigação sobressalente de as fazer cumprir!

O governo de Reagan errou, desde o início, em sua estratégia contra os sandinistas, fazendo deles heróis e unindo os nicaragüenses em torno de sua causa. E isso nunca foi novidade também. Mas erro maior cometem aqueles que acham que desprestigiando o Executivo norte-americano estarão dando alguma contribuição para a causa da paz mundial.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 22 de maio de 1987).


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Gula fatal


Pedro J. Bondaczuk

A natureza tem regras inflexíveis, gerais, válidas para absolutamente todos os seres vivos, que não podem ser burladas impunemente. Muitos até que tentam burlar. Contudo, quem se arrisca a passar por cima delas paga, invariavelmente, um preço, que não raro pode significar a perda prematura da vida. Nem tudo o que agrada os sentidos e nos dá prazer é saudável. Aliás, a maioria não é.

Lembro-me que um dos grandes sucessos de Roberto Carlos, nos anos 70, era uma canção cuja letra dizia, em determinado trecho: "...Porque tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda" (talvez não seja literalmente isso o que escreveu o letrista, mas o sentido é esse). Pessoas de hábitos austeros, com alimentação frugal, dedicadas ao trabalho e ao raciocínio, parecem viver mais. Pareciam... Agora, já há prova concreta, baseada em estudos sérios e meticulosos, de que não se trata apenas de impressão, mas de certeza.

Estas considerações vêm a propósito de uma notícia, publicada pela imprensa, há já quase uma década, dando conta de que pesquisadores norte-americanos descobriram o tão desejado "elixir da longa vida". E o que isso tem a ver com as regras da natureza, ou com os hábitos alimentares (saudáveis ou não) das pessoas? Tem tudo!

Essa "fonte da juventude", que Ponce de Leon acreditava ter descoberto na Flórida, e que centenas de aventureiros procuraram em vão pelo mundo afora, não se situa em qualquer lugar remoto e perdido do Planeta, como muitos pensavam (e ainda podem pensar). Está em nosso organismo, no âmago das nossas células. Trata-se da proteína que os cientistas batizaram de "Sir2", responsável pela longevidade dos animais. E, por conseqüência, dos homens... É essa maravilhosa substância que impede a superutilização dos genes e, com isso, evita que as pontas dos cromossomas se desgastem, os preservando da degradação. Com isso, aumentam o tempo de vida dos que a possuem.

Até aí, tudo bem. Ocorre que essa mágica proteína só está presente no organismo das pessoas que se submetem a "regimes drásticos de alimentação". Em outras palavras, daqueles que, no dizer dos nossos avós, "comem para viver e não vivem para comer". Bem que se diz que não é apenas o peixe que "morre pela boca". E não é mesmo. Hoje, esses dois grupos (os que ingerem alimentos em quantidade muito maior do que a necessária e os que vegetam em permanente inanição) equivalem-se em quantidade. "E como sabemos disso?", perguntará o leitor céptico, que seja dado à prática da glutonaria.  Mediante a divulgação, pela imprensa, também quase uma década atrás, de uma outra pesquisa, intitulada "A Epidemia Global da Má Nutrição", levada a efeito pelo Instituto Worldwatch dos Estados Unidos.

Os autores deste estudo concluíram que o número de pessoas desnutridas no mundo (famintas, na verdade), que na época era de 1,2 bilhão de indivíduos, era, por incrível coincidência, o mesmo que o de obesos (os que comem em demasia e alimentos inadequados). Portanto, fica claro que mais de um terço da humanidade, não sabem (ou não podem) comer direito. A proporção entre os dois grupos permanece, hoje, praticamente a mesma.

O primeiro grupo paga um preço intolerável pela gula do segundo. E este, por sua vez, paga o inflexível preço, cobrado pela natureza, pelos excessos que comete. Tudo, provavelmente, ficaria bem se ambos partilhassem os seus extremos. Ou seja, se os gulosos comessem menos e se a parte que deixassem de comer fosse destinada aos que não têm recursos para comprar a comida de que precisam. Essa possibilidade, contudo, não passa de utopia.

Os "regimes drásticos de alimentação", responsáveis pela existência no organismo da proteína da longevidade, não significam, evidentemente, a privação de alimentos. Caso significassem, os mais pobres entre os pobres da Terra teriam vidas longas, no mínimo centenárias, e não morreriam precocemente de doenças de fácil combate, que ceifam multidões, nos chamados Quarto e Terceiro Mundo. Alimentar-se bem é, portanto, questão de "qualidade", não de "quantidade".

No Brasil, a Worldwatch detectou, naquela oportunidade, que 36% da população já estava no time dos "gordinhos", ou seja, naquele grupo de risco, que precisava fechar, urgentemente (pelo menos um pouco mais), a boca, se não quisesse morrer de forma repentina e prematura. É a justa punição da natureza para aqueles que participam do indecente e absurdo processo de exclusão, que nos faz duvidar da existência de uma genuína civilização no mundo, nesta segunda década do terceiro milênio. Na África, por outro lado, há 150 milhões de crianças desnutridas, com seu desenvolvimento físico e mental seriamente comprometido, sob o risco de morrerem de inanição ou das seqüelas da subnutrição! O consolo está na conclusão de que dois terços da humanidade (a maioria, portanto) alimentam-se de forma adequada e saudável, pelo menos por enquanto. Tomara que os extremos finalmente se toquem. E que a fome, esse flagelo filho do egoísmo e da injustiça social, seja, um dia, banida da face da Terra... É improvável, mas tomara que aconteça. A natureza faz a sua parte para promover esse equilíbrio.  Falta o homem...


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Sunday, October 30, 2016

NÃO SOMOS ROBÔS PARA SERMOS “PROGRAMADOS”


As pessoas que se julgam extremamente racionais agem como se o animal humano fosse um robô, capaz de ser programado para reagir aos estímulos com atitudes absolutamente lógicas e controladas. Os indivíduos até que são treinados para isso, mediante o processo que se convencionou chamar de “educação”. Acabam, no entanto, traídos por suas emoções. Daí o conjunto de normas morais e de leis existentes no mundo ter sido impotente para acabar, ou sequer reduzir, a criminalidade, por exemplo. Pelo contrário. Apesar das punições serem cada vez mais severas, culminando com a pena de morte, os delitos crescem, por uma série de causas, entre as quais a impossibilidade de completo controle sobre as paixões. Temos componente animal que está acima da nossa vontade. Alguns conseguem dissimulá-la, escondê-la, mantê-la sob vigilância. Mas ela sempre estará lá, no fundo da consciência, ou, mais propriamente, da inconsciência. Em determinado momento, essa bomba-relógio pode explodir, à nossa revelia e ou causar estragos irreparáveis, se for uma compulsão para a violência e ódio, ou determinar magníficas criações, obras-primas de causar espanto e inveja, caso seja positiva.

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Surrealismo econômico



Pedro J. Bondaczuk


A economia brasileira é tão surrealista, que para entender o seu funcionamento ou, quem sabe, conseguir o seu conserto, seria o caso de ressuscitar o escritor checo Franz Kafka, e mesmo ele, com certeza, não saberia como agir diante desse imenso absurdo.

Desde 1982 – quando os cidadãos, estarrecidos, foram cientificados de que o apregoado “milagre econômico” nunca existiu, que o País (ou seus tecnocratas) optou por uma estratégia recessiva, mais branda ou mais severa, conforme as circunstâncias e o poderoso de plantão para combater a inflação – o povo vive um pesadelo sem fim.

Não contentes em deter o desenvolvimento, numa sociedade com crescimento populacional em torno de 2,5% anuais (nos últimos anos esta taxa regrediu para cerca de 1,9%), alguns “gênios” milagreiros foram mais longe em seu atrevimento. Transformaram o Brasil num imenso “laboratório” de testes, para experimentar suas teorias do tipo congelamento, confisco da poupança, tablitas e outras tantas maluquices, com as quais convivemos nos últimos onze e tormentosos anos.

O resultado, nem é preciso que ninguém o diga, todos sabem qual foi. Hoje, o Brasil é o recordista mundial de inflação, ao lado da desorganizada e atarantada Rússia, a despeito da dose cavalar de recessão que trabalhadores e empresários tiveram que suportar no ano passado.

Agora, manifestam-se tímidos e ainda vacilantes sintomas de reaquecimento econômico. Pelo menos o consumo volta a crescer, estimulado pelos saques da poupança ou pela desova das parcas economias do milagroso do brasileiro – o cidadão sim é que fez milagres, sobrevivendo com salários mais do que achatados, esmagados – embora de forma ainda intermitente.

Qual o resultado disso? A manifestação de um surto inflacionário de demanda. Trocando em miúdos, manifesta-se, neste momento, maior procura por determinados produtos, do que sua oferta. E os preços vão às nuvens. E nem poderia ser diferente depois do angustioso ano de 1992, inesquecível, pelo pior aspecto, para a maioria esmagadora dos cidadãos.

Ocorre que a lei natural de mercado é inflexível. Nesta, ninguém consegue atuar para distorcê-la. Nenhuma regra artificial a sobrepuja. Sempre que a oferta de determinados produtos ou serviços supera a demanda, os preços caem. E vice-versa.

E faz sentido essa subida das taxas que medem o custo de vida para um novo patamar, aí por volta dos 30% mensais. A indústria foi apanhada no contrapé, após um terribilíssimo ano de crise, quando investimentos foram adiados, unidades – quando não fábricas inteiras – foram desmobilizadas e a capacidade produtiva foi reduzida ao mínimo possível. Ou seja, a opção que nos é colocada é das mais perversas. Ou a economia permanece desaquecida, com suas terríveis seqüelas sociais, como desemprego, fome e miséria crescentes, ou se reaquece, com a ameaça de um subproduto tão perverso e indesejável como é a hiperinflação.

É ou não é um processo louco, surrealista, absurdissimamente absurdo?! O reaquecimento econômico, sem dúvida é, não somente desejável, como necessário. Mas o processo deve ser conduzido de forma sábia, inteligente, gradual e controlada. E, acima de tudo, é indispensável que os agentes produtivos se convençam de que as regras permanecerão imutáveis e que o nosso período de “cobaias” já ficou para sempre no passado. Teria o governo Itamar condições de dar essa segurança ao País? Se tiver, com todos os seus vacilos e sua inércia, passará para a história como o verdadeiro “salvador da pátria”.    

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 14 de abril de 1993)


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O tempo está em nós


  
Pedro J. Bondaczuk



A infância ocupa em nossas lembranças (pelo menos nas da maioria das pessoas) um lugar especial. Ganha projeção, adquire destaque, permanece indelével, mesmo que tenha sido amarga, dolorosa, abandonada e frustrante. Ao que se deve esse comportamento? Possivelmente, à fraqueza da memória. Para preencher um vazio de lembranças, inventa-se uma fantasia qualquer e passa-se a acreditar nela. Todos com quem converso, com maior ou menor ênfase, falam desse período como de uma era dourada em que eram "felizes e não sabiam". Do que temos saudade, na verdade, não é de fatos e acontecimentos específicos dessa fase, mas de nós mesmos. Da inocência perdida, dos sonhos deixados para trás, dos ideais esfacelados pelo caminho. Rubem Braga, o guru de todos os cronistas, tem uma passagem reveladora a respeito.

Afirma, em determinado trecho da crônica "O sino de ouro", publicada no livro "A Borboleta Amarela": "...Cada um de nós quando criança tem dentro da alma seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra e lama e podridão". É a isso que chamo de perda da inocência. Mas seria ruim essa transformação? Não seria mais seguro, prudente e racional pisar o solo da realidade, enfrentar cara-a-cara, de peito aberto, os perigos e as frustrações, correr atrás somente do que seja factível, desenvolver nosso potencial até seu real limite, sem extrapolar além das nossas possibilidades? Entendo que sim.

Particularmente, amo e valorizo toda a minha vida. Se fosse possível, gostaria de ser eterno, com todos os problemas que essa eternidade viesse eventualmente a trazer. Porém, tivesse que eleger determinada fase como a melhor, escolheria não a infância, mas a plena maturidade. Se não soube aproveitar determinadas oportunidades que apareceram nesse período, foi pela minha própria cegueira. Ademais, é preciso olhar sempre para a frente, mesmo sabendo que lá, em algum lugar do futuro (que pode ser o próximo segundo, quem sabe) está a nossa extinção. Mas pode estar, também, o sucesso, aquele êxito que perseguimos desde crianças e que, se obtido, nos tornará imortais no coração dos semelhantes. Pode estar o amor se ainda estiver ausente da nossa vida. Pode estar a felicidade identificável (pois na maioria das vezes somos felizes em determinados momentos ou períodos e não conseguimos nos dar conta disso).

Entre dar cordas à memória, em busca do que passou, e projetar um amanhã, que pode nem mesmo existir, prefiro, por uma questão de postura e formação, o segundo. O tempo é meu capital. Não posso desperdiçar nem um instante com lembranças inúteis. Quando não houver forma de fugir das recordações, que elas sejam usadas como matérias-primas de contos, crônicas ou poesias. Cyro dos Anjos escreve, no livro "Dois Romances": "Inútil tentativa de viajar o passado, penetrar no mundo que já morreu e que, ai de nós, se nos tornou interdito, desde que deixou de existir, como presente, e se arremessou para trás". Uso, sem dúvida, as experiências que adquiri. Mas para cumprir meu papel. Para deixar a obra a que me propus. Para evitar de repetir os mesmos erros que cometi. Para não tropeçar nos mesmos buracos e nem despencar nos mesmos abismos. Uso, sim, o que passou, principalmente a lembrança de quem já se foi, para fazer justiça com os que foram bons, gentis, amáveis e amigos, perpetuando alguns de seus atos e virtudes em textos.

André Maurois, em "Vozes da França", atribui essa aura de magia que conferimos à infância ao fato de nesse período não tomarmos ciência da real dimensão da maldade humana, por causa da proteção e abrigo que nossos pais nos garantem. Isto, contudo, podia ser verdade em seu país e em seu tempo e não no Brasil de 2016. Há meninos a dar com pau pelas ruas com dois, quatro, dez ou mais homicídios nas costas. Há  bandidos mirins muito mais escolados e experientes na arte de espoliar bens alheios do que assaltantes adultos, com várias penas cumpridas. Há crianças que são privadas da infância desde o nascimento, dada a fragilidade, a ignorância, a ingenuidade ou a irresponsabilidade de pais que não têm condições de cuidar sequer de si, quanto mais de pôr filhos no mundo. Será que elas vão encarar essa fase como "tempos mágicos"? Deixo para reflexão outra citação de Cyro dos Anjos: "Na verdade as coisas estão é no tempo e o tempo está é dentro de nós". Para não se extinguir comigo é que registro a sua passagem.


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Saturday, October 29, 2016

ONDE PODEMOS ENCONTRAR A FELICIDADE?

É exatamente assim que a felicidade funciona: basta imaginar alguma coisa, pessoa ou situação que nos satisfaçam e, naquele exato instante, nos sentiremos felizes. Sua extensão, porém, depende só de nós. Reitero o que já escrevi inúmeras vezes: a felicidade não é um objeto ou sequer condição especial. É um estado de espírito. Tanto pode ser obtida num palácio dourado, quanto em nosso quarto de solteiro, no fundo de uma masmorra infecta e insalubre ou na gélida Islândia. Basta que a requisitemos, que a procuremos onde sempre esteve, está e estará, ou seja, que a encontremos em nosso interior e que acreditemos que ela se faz presente. E, subitamente, ela, de fato, estará ali, conosco, viva e concreta. Sem complicações, sem esforços e sem frescura.. Simples assim.     


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URSS é de novo grande "laboratório" político


Pedro J. Bondaczuk


A decisão do Soviete Supremo da URSS de suspender as atividades do Partido Comunista em todo o país, até que seja devidamente apurado o grau de sua participação na frustrada tentativa de depor o presidente Mikhail Gorbachev, é o mais novo capítulo de um drama que está produzindo mudanças no mundo de tamanha amplitude que sequer é possível alguém fazer uma análise serena, objetiva e sobretudo confiável de suas conseqüências.

Esse novo episódio traz de volta a pergunta: o comunismo morreu? Para os líderes e ideólogos capitalistas, sim. Para os que adotam as idéias de Karl Marx como um dogma imutável e infalível, não. Para os que crêem que as duas ideologias dominantes neste século se constituem no verso e no reverso da mesma moeda, ele só está mudando e os extremos estão se encaminhando para se tocar.

Aliás, se esta última hipótese for verdadeira, a União Soviética pode estar se transformando num magnífico laboratório político. Nenhum lugar no mundo, atualmente, é mais adequado para essa fusão. O ideal, todavia, é que o novo sistema híbrido que surgisse, incorporasse o que há de melhor em cada ideologia. Existe o risco de ocorrer o contrário. De emergir um monstrengo disforme, com a insensibilidade social do capitalismo e a incompetência econômica do comunismo. E isso seria, evidentemente, trágico.

O antropólogo do estruturalismo, Claude Lévy Strauss, numa entrevista publicada pela revista "Visão" em 5 de maio de 1980, afirmou: "Por muitas razões, temo que o mundo de hoje por causa de sua densidade e complexidade, pelo número incrível de variáveis envolvidas, não possa mais ser apreendido pelo pensamento, ao menos de maneira totalmente abrangente. Como a maioria das pessoas, continuo reagindo aos acontecimentos, mas de forma epidérmica".

Ressalte-se que na época em que Strauss fez tais declarações, a realidade mundial era mais nítida e ainda assim o antropólogo a definiu como nebulosa. Imagine o leitor o que ele diria hoje, se estivesse vivo! Recorde-se que na década de 80, mais especificamente no seu início, a guerra fria estava em plena vigência e até ameaçava entrar em ebulição, após a invasão soviética ao Afeganistão, que havia ocorrido quase seis meses antes.

Os Estados Unidos viviam um período de campanha presidencial, com Ronald Reagan conquistando cada vez maior espaço. Cinqüenta e dois norte-americanos estavam retidos como reféns na embaixada de seu país em Teerã e o deposto xá do Irã fazia sua peregrinação pelo mundo, tentando escapar dos sicários do aiatolá Ruhollah Khomeini que o queriam matar.

Na União Soviética, a Olimpíada de Moscou estava para começar, com um boicote generalizado. Leonid Brezhnev ameaçava mundos e fundos e a corrida armamentista nuclear atingia o paroxismo. Embora crítica a situação, ela era pouco mutável, portanto, mais fácil de ser interpretada.

Hoje, todavia, tudo está mais confuso. Como será, por exemplo, a nova URSS? Haverá uma federação ou teremos uma porção de republiquetas terceiromundistas orbitando ao redor da Rússia? Qual será o destino do comunismo na China, em Cuba, na Coréia do Norte e no Vietnã? Também desaparecerá ou fará sua autocrítica, em busca de revanche contra o capitalismo?

Tentar responder essas questões agora é, no mínimo, pretender se expor ao ridículo, tão instável e cambiante é a situação. Por enquanto, as atenções estão concentradas nas mazelas cometidas pelos comunistas soviéticos. Revelações estarrecedoras certamente serão feitas assim que os confiscados arquivos do PC sejam devassados.

O reverso da Revolução de 1917 poderia ser caracterizado com os mesmos versos que Vladimir Mayakowski escreveu na década de 1920 para falar do "verso":

"Nos corações revolucionários a tempestade cessou
e toda a imundície da URSS surgiu de novo do lodo
E por trás das costas da URSS
insinuou-se o sorriso grotesco dos pequenos burgueses filisteus".


(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 31 de agosto de 1991).

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