Thursday, May 31, 2007

TOQUE DE LETRA







Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo e site Alagoas 24 horas)

PRIMEIRO TROPEÇO FORA DE CASA

A Ponte Preta sofreu, terça-feira, seu primeiro tropeço no Campeonato Brasileiro da Série B, ao perder para o CRB, no Estádio Rei Pelé, de Maceió, por 1 a 0. Embora a derrota tenha sido conseqüência de um gol que classifico de “acidental”, o time não repetiu as razoáveis atuações anteriores, notadamente nos segundos tempos, e voltou de Alagoas com um resultado desfavorável, mas que não é nenhuma tragédia. O jogo foi igual, monótono, chato até. A equipe alagoana é fraca, em termos técnicos e limitou-se a se defender e contra-atacar. Denis, que havia sido o grande destaque pontepretano nos três primeiros confrontos, praticamente foi mero espectador, em especial no segundo tempo. A Ponte Preta, porém, não soube sair da marcação adversária e quase não chutou a gol. E quem não chuta... Mais uma vez, a dupla Beto e Roger deixou muito a desejar e foi de uma inoperância a toda a prova. Os alas até que foram bem, mas seus cruzamentos encontraram, invariavelmente, a zaga adversária muito bem postada. Acho normais essas oscilações da equipe, levando em conta a falta de entrosamento. Ainda há jogadores chegando e Andrezinho sequer estreou. Os próximos quatro adversários da Ponte são paulistas e acredito que o time tem tudo para disparar na tabela e consolidar uma classificação no grupo dos quatro. Muita água ainda vai rolar até novembro. E põe muita nisso.

DEFESA EFICIENTE

A Ponte Preta contou com uma defesa das mais eficientes, ontem, no Rio de Janeiro. Calma, leitor, não estou enganado. Sei que o time não jogou ontem e muito menos na Cidade Maravilhosa, que, aliás, não tem representante algum na Série B. Refiro-me à defesa do advogado Gustavo Cavalcante na 3ª Comissão Disciplinar do STJD, no julgamento do atacante Roger, do técnico Nelsinho Baptista (também expulso na partida contra o Gama) e do próprio clube, por não haver pago, naquela oportunidade, a taxa de arbitragem. Como se nota, aquele jogo, embora vencido na raça pela Macaca, tinha tudo para trazer resultados desastrosos para a Macaca. Tinha. Felizmente, graças à competência da nossa defesa, não trouxe. O atleta, por exemplo, corria o risco de pegar uma suspensão de 180 a 540 dias, por suposta agressão ao auxiliar de linha. Pegou, somente, quatro jogos, um dos quais já cumpriu. E Nelsinho e a própria Ponte Preta foram simplesmente absolvidos das acusações que lhes foram feitas pelo árbitro. É um fato a ser ressaltado, pois é uma raridade o clube sair tão bem na justiça desportiva. Por isso, é algo a ser comemorado como se fosse uma vitória em campo. Ufa! Espantamos as aves de mau agouro que rondavam o Majestoso.

PROSSEGUE A NOVELA

A novela da contratação de um (ou dois atacantes), para suprir a ausência de Finazzi, prossegue pelos lados do Majestoso. O nome de Ricardinho pode ser descartado, já que foi emprestado para um clube da Ásia. A vinda de Alex Terra, por seu turno, está na dependência de liberação do atleta por parte do Fluminense, dono do seu passe. Entre a Ponte Preta e o jogador, está tudo acertado. Mas o desafio do Tiãozinho (e demais diretores) é o de trazer para o Moisés Lucarelli o centro-avante que seria o ideal para o time no Campeonato Brasileiro: Otacílio Neto. As chances de sucesso nas negociações aumentaram depois que o Corinthians desistiu de levar o bom atacante para o Parque São Jorge. O Noroeste quer alguma compensação financeira para liberá-lo, mas acredito num acordo. Não há, destaque-se, jogadores com as características que precisamos sobrando no mercado. Pelo contrário. Vários clubes, considerados “bichos-papões” da Série A, não têm atacantes natos e estão tendo que se virar com meias. Posso me equivocar, mas acredito que o centro-avante titular da Ponte Preta, na seqüência da Série B, será, mesmo, o Otacílio Neto. É mera questão de palpite, de “feeling”, de intuição.

CANHOTINHA DE OURO

Está chegando ao Moisés Lucarelli aquele armador criativo, canhoto, que chama a responsabilidade do jogo e, além de tudo, é ótimo cobrador de faltas. Trata-se de Marcinho Guerreiro (não confundir com o volantão que defendeu o Palmeiras e que foi negociado com um clube do exterior), cujo passe pertence ao Cruzeiro, mas que defendeu, até recentemente, o Vila Nova, de Nova Lima, Minas Gerais. Potencial o garoto tem. Caso jogue o que de fato sabe, em pouco tempo cairá no gosto da torcida e ganhará a camisa de titular. Com a vinda de Marcinho, passaremos a contar com três excelentes cobradores de faltas (o que há muito não tínhamos): ele e os alas Júlio César e Andrezinho. Como pontepretano apaixonado que sou (e nunca escondi isso de ninguém), dou as boas-vindas (e desejo toda a sorte do mundo) ao jovem atleta, que tem tudo para se destacar com a gloriosa camisa alvinegra e nos dar muitas alegrias. Amém!!!

PREVALECEU A RAÇA DO GRÊMIO

Mesmo sem jogar uma partida brilhante, em termos técnicos, o Grêmio Porto-alegrense deu, ontem, um importante passo para chegar às finais da Copa Libertadores da América, ao derrotar o Santos, no Estádio Olímpico, por 2 a 0. “Então a fatura está liquidada?”, perguntará o leitor. Eu diria: “quase”. Os comandados de Wanderley Luxemburgo terão, na próxima quarta-feira, na Vila Belmiro, o desafio de construir um placar igual ao de ontem, para levar a decisão para os penais, ou fazer três gols e não sofrer nenhum para eliminar o tricolor gaúcho e conquistar a tão sonhada vaga. Tarefa difícil? Sem dúvida! Impossível? De jeito algum! O Grêmio não é nenhum timão, desses difíceis de serem batidos. É verdade que tem uma garra impressionante e uma defesa bastante sólida. Ademais, o Santos, de uns tempos a esta parte, desde o final do Campeonato Paulista, vem mostrando uma fragilidade ofensiva de causar preocupação à sua enorme torcida. Mas em futebol, tudo pode acontecer. Quem se classificar, irá enfrentar, na finalíssima, ou o Boca Juniors, ou o Deportivo Cucuta, da Colômbia. Uma pedreira, sem dúvida, qualquer que seja o adversário.

PASSO DE GIGANTE

O jovem time do Figueirense, comandado pelo polêmico, mas competente Mário Sérgio (que um dia vestiu a gloriosa camisa da Ponte Preta, recorde-se), deu um passo de gigante, ontem, no Maracanã, para o maior feito da sua história, a conquista da Copa do Brasil, ao empatar com o Fluminense, por 1 a 1. No jogo da volta, basta, apenas, não tomar nenhum gol, para levantar a taça e partir para o abraço. Mesmo que não tenha êxito, só o fato de chegar tão longe na competição é motivo de comemoração da sua torcida. O Figueirense deu vexame no recente Campeonato Catarinense. Sua diretoria não teve dúvidas: reformulou o plantel, dando chances a jogadores jovens e voluntariosos. Para comandá-los, trouxe uma “raposa” (no bom sentido) do futebol brasileiro: Mário Sérgio Pontes de Paiva. Foi um casamento perfeito e feliz. Quem assistiu o jogo de ontem, pôde ver um Figueirense concentrado, com uma obediência tática incomum, que por pouco, muito pouco, saiu com a vitória do Rio de Janeiro. Fiquei impressionado com o time catarinense e não será nenhuma surpresa se confirmar, na próxima quarta-feira, o título, em Florianópolis, com uma excelente vitória. Mas não está nada decidido. Bastará um simples 1 a 0 para o tricolor carioca levar a taça para o Rio.

RESPINGOS...

· Paulo César Carpegiani, aos poucos, vai impondo a sua filosofia de jogo no Corinthians. O alvinegro do Parque São Jorge ainda não levou um único gol no Campeonato Brasileiro. Recorde-se que a Seleção Paraguaia, sob o comando desse bom treinador, sofreu apenas um gol (diante da campeã França), na Copa do Mundo de 1998, quando conquistou um honroso e histórico 4º lugar.
· Dunga, técnico da Seleção Brasileira, e Kaká, o principal jogador do mundo na atualidade, trocaram farpas, ontem, em Londres, sobre o pedido do atleta de ser dispensado da Copa América.
· O Palmeiras ficará um tempão sem o seu principal astro, Valdívia, que vai servir à seleção chilena na Copa América. Como será que o técnico Caio Junior vai se virar sem o craque do time? Sem dúvida, é um indigesto pepino a descascar.
· O ataque do São Paulo há já um bom tempo não funciona. Dagoberto, a grande esperança ofensiva tricolor, cisca, cisca, mas de útil não tem produzido nada.
· Fiquem de olho no Botafogo. Pelo que apresentou, até aqui, o time comandado por Cuca desponta como sério candidato à conquista do Campeonato Brasileiro deste ano, embora ainda seja muito cedo para prognósticos do tipo.

* E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


Há uma tendência de considerarmos as instituições mais importantes do que os indivíduos. Tolice! O que conta, sempre, e em qualquer circunstância, é o talento, o trabalho e a capacidade das pessoas. O sociólogo Ronald Nairn fez essa constatação, numa entrevista nos anos 70, quando afirmou: “A riqueza é criação de indivíduos. A imaginação, inteligência, criatividade, habilidade e energia são atributos humanos, não atributos institucionais. As instituições, sobretudo os governos, não criam riqueza, mas podem auxiliar, criando condições nas quais os indivíduos possam ter liberdade de desenvolver seu talento. As instituições devem servir ao homem. Em vez disso, elas chefiam e destroem”. Ainda há quem considere que as pessoas devem abrir mão de sua individualidade em favor de um Estado, de um governo ou de alguma instituição. Trata-se de aberrante equívoco. Daí as distorções que subsistem em todas as partes do mundo.

Arte e comunicação


Pedro J. Bondaczuk



A primeira manifestação de criatividade do homem, ainda nas cavernas, foi através da pintura. Rústica, evidentemente, primária, sem técnica ou instrumental, mas imortal. Essa arte original, primitiva, mas que sobreviveu a milênios, chegando até nós, tinha a função primordial de comunicar à comunidade, à família e à tribo as descobertas do artista, suas crenças, seus terrores, suas alegrias e suas emoções.

Pode-se dizer que essa foi a primeira linguagem criada pelo Homo Sapiens, tão logo se deu conta de que pensava, assim que descobriu que seus semelhantes faziam o mesmo e percebeu (ou intuiu) que era possível estabelecer um intercâmbio de conhecimentos e sensações. Todos os alfabetos do mundo surgiram da corruptela de desenhos de objetos, de animais, de acidentes geográficos etc.

Não é errado, portanto, afirmar que a pintura foi a primeira língua humana. Nem todos, evidentemente, tinham ou têm esse talento. Não é por acaso que o pensador francês, Edgar Morin, caracteriza a cultura como "um corpo complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os instintos, orientam as emoções". E a maioria não é culta.

Estas considerações vêm a propósito da exposição a que compareci, no início da década de 90, do artista plástico Nilton Fontanini, realizada no primeiro andar da agência central da Caixa Econômica Federal, na Avenida Francisco Glicério, 1480, em Campinas.

O expositor exercitou, em sua plenitude, o significado maior da criação artística. Não se limitou a "copiar" a natureza, o que ademais seria um exercício inútil, já que o homem, por mais hábil e talentoso que seja, jamais chegará à perfeição do natural, do espontâneo, do vivo. Criou um mundo particular e procurou tornar o espectador seu cúmplice nessa obra de criação. O que, convenhamos, conseguiu. Eu, pelo menos, saí da exposição fascinado com a criatividade do artista.

Os trabalhos de Fontanini destinam-se mais à alma do que aos sentidos. O receptor de sua comunicação é desafiado a participar da criação da obra. São peças feitas mais para "sentir", do que para apreciar ou pensar.

O próprio Fontanini, no convite distribuído à imprensa para a exposição, na oportunidade, definiu o que na sua visão significa o ato de criar. Dizia: "Elaboração de emoções. Sentimentos, estímulos externos e vibração interior. Ordenada pelo intelecto, regida pela intuição, a obra de arte deve portar, conter em si, a condensação de todos esses elementos, traduzidos na linguagem plástica, e oferecê-los ao espectador. Eis aí a criação". Cada um de nós tem a sua própria definição a respeito, que se resume, em linhas gerais, nesta mesma visão do artista.

Muita gente deixa de freqüentar esse tipo de mostra sob a argumentação de que não entende nada de pintura, escultura etc. Isto ocorre porque essas pessoas têm uma visão equivocada da produção artística. A obra de arte não é para ser somente apreciada, passivamente, sem atentar para os detalhes. Deve ser, sobretudo, "sentida". Precisa despertar alguma emoção no expectador, alguma reminiscência, algum desejo, alguma crítica, alguma reação.

Além do prazer estético que nos dão, as peças são um ótimo investimento, com rentabilidade garantida. Trata-se de um mercado que jamais entra em crise e está em permanente expansão. Muitas vezes, deixa-se de adquirir um quadro, uma gravura ou uma escultura, de determinado artista, sob o pretexto de que se trata de um desconhecido, mesmo que artística e esteticamente sejam perfeitos. Passados alguns anos, todavia, em geral se percebe o erro em que se incorreu.

O holandês Vincent Van Gogh, por exemplo, vendeu, em vida, uma única tela, adquirida, por sinal, por seu irmão, que o fez para estimular o mestre. Hoje, quanto valem suas obras? Não menos do que US$ 10 milhões cada! As obras de arte têm essa característica. Aumentam de valor à medida que envelhecem. Não sei que fim levou Nilton Fontanini. Espero que tenha obtido a projeção que o seu talento permite. Neste mundo tão competitivo das artes, nem sempre são os melhores que permanecem.

Wednesday, May 30, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O que passou não é para ser lamentado, mas para ser aproveitado como roteiro para alcançarmos os objetivos que traçamos na vida. Todos, mesmo que não nos dermos conta, temos alguma meta a atingir, não importa de que natureza. Os erros cometidos não devem ser desprezados. Precisam servir como lições, para que não os venhamos a repetir. E os acertos? Estes têm que ser tomados como exemplos de conduta que nos ajudem a trilhar o caminho do sucesso. Machado de Assis escreveu, no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte e perece como o outro, mas o tempo subsiste”. É uma oportunidade a mais que a vida nos dá para a correção de rumos, quando for o caso, ou para mantê-lo, se estivermos no caminho correto. Conheço pessoas que se perdem no passado e que, com isso, se esquecem de viver.

Guardiões da tradição


Pedro J. Bondaczuk



As pessoas têm uma visão equivocada dos membros das academias de letras, não apenas da Campinense, mas de qualquer uma. Pensam que se trata de um clube de velhinhos, que se reúne para permitir que seus componentes joguem conversa fora, acompanhando o bate-papo com cházinhos e torradas. Não é nada disso, é claro!

Outros, deslumbrados com a importância social e especialmente cultural dos seus integrantes, entendem que é um conjunto de "deuses" que consomem "ambrósia" em profusão durante suas reuniões, sem outras preocupações que não sejam as belas letras. "Afinal, não são imortais?!", argumentam.

A Academia, é verdade, enche (e deve encher) de orgulho os que conseguem ser guindados a ela por seus pares. Ninguém obtém ali alguma cadeira por mera simpatia, por riqueza ou posição social que ocupe. Consegue apenas por mérito. A eleição é conseqüência natural de muito e consistente trabalho intelectual e até de um certo consenso nos meios culturais da cidade quanto ao seu valor.

Porém, mais do que honraria, é missão. Implica em responsabilidade. Pressupõe continuidade de produção intelectual – poesia, romance, conto, crônica, teatro, ensaio ou seja que gênero for – por todos os dias da vida, até o momento de "ficar encantado", que é como Guimarães Rosa qualifica o momento da morte de um escritor.

O acadêmico só se torna imortal na medida em que imortalize a cultura de seu tempo e de sua comunidade. Porque a Academia é, acima de tudo e de qualquer coisa, a guardiã das tradições da cidade (ou do Estado ou do País, dependendo da sua natureza e abrangência).

Tuesday, May 29, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Por mais banal e pobre que pareça ser nossa vida, podemos fazer dela uma obra de arte, original e única, que perpetue nossa memória. Compete-nos pelo menos tentar empreender essa empreitada, com persistência, com perseverança, com autodisciplina e com seriedade. Mesmo que não tenhamos sucesso nessa tentativa, teremos, pelo menos, vivido com dignidade, dando um sentido lógico à nossa aparentemente ilógica trajetória pelo mundo. O escritor Jorge Luís Borges escreveu: “Devemos fazer com que as circunstâncias miseráveis de nossa vida se tornem coisas eternas ou em vias de eternidade”. Como? Escrevendo um livro, compondo uma sinfonia, pintando um quadro, gerando e educando um filho ou, simplesmente, vivendo cada dia com a máxima intensidade como se fosse o nosso último.

A magia do teatro


Pedro J. Bondaczuk



O teatro tem, para mim – e certamente para milhões de pessoas ao redor do mundo e ao longo do tempo – um toque de magia e de transcendência inigualáveis, que as outras artes não têm. Foi, sem dúvida, o primeiro sistema de comunicação em massa criado pelo homem, na Grécia antiga, e o único a ser testado e aprovado pelo tempo. Foi através dele que heróis e vilões foram exaltados (no primeiro caso) e execrados (no segundo), se tornando mitos.

Sua riqueza maior está no fato de ter múltiplas funções simultâneas. Além de divertir, instrui, informa e induz os espectadores à reflexão. É o gerador das demais artes cênicas que lhe sucederam, como o cinema e a telenovela, sem que perdesse terreno para eles. Os três convivem, hoje, harmonicamente, mostrando a força do teatro, apesar de tantas pessoas preverem, em épocas e situações diferentes, sua extinção. Estavam, evidentemente, erradas.

Estas considerações vêm a propósito de duas peças, de naturezas distintas, que foram exibidas em outubro de 1995: uma em Campinas e a outra em São Paulo. A primeira foi "Símbolo de uma Resistência", sob a direção de Benê de Moraes e Marquinhos Simplício.

Trata-se de uma apologia a Zumbi, o herói negro, no ano do tricentenário de seu nascimento. Baseia-se em um poema magistral de Solano Trindade, infelizmente pouco conhecido. Trouxe ao público, portanto, com grande oportunidade, a qualidade de um excelente texto e a performance de atores de muita garra. Foi encenada no teatro da Vila Padre Anchieta, em Campinas.

A outra peça tinha caráter menos restritivo e mais universalista. Foi "Hombre de la Esquina Rosada", baseada em um conto do mesmo nome do escritor argentino Jorge Luís Borges. Quem conhece a obra desse mago das palavras, sabe da sua complexidade. Exemplo? Sua fixação pelos labirintos. Seus livros não são daqueles que se possam somente correr os olhos para entender o que o autor pretendeu dizer.

É preciso penetrar em sua mente, acompanhar o seu raciocínio ágil, sonhar com ele, reinterpretar a realidade que retrata, refletir. Levar ao palco o que Borges escreveu e tornar seus textos compreensíveis a platéias heterogêneas exige competência, disciplina e criatividade. E foi isso o que o grupo portenho El Angel fez. Sua diretora, Mônica Vicao, informou que "a peça discute o pensamento borgiano pela questão metafísica do tempo, a covardia e a valentia". A apresentação fez parte do Quinto Festival Internacional de Artes Cênicas, levado a efeito no teatro Sesc Anchieta, em São Paulo.

Como se nota, por dois caminhos distintos, o que se discutiu foi a essência do homem e o seu comportamento face à vida. Para aceitarmos as diferenças que nossos semelhantes têm em relação a nós, é indispensável o conhecimento mútuo. Ou seja, a identificação dessas dessemelhanças e as suas razões.

O geneticista Albert Jacquard observa que "a nossa riqueza coletiva é constituída por nossa diversidade, 'o outro', indivíduo ou sociedade, é precioso para nós na medida em que é diferente de nós". Saint-Exupery escreveu a mesma coisa, só que de forma mais simples. Afirmou: "Se difiro de ti, longe de te fazer mal, torno-te maior". E torna mesmo, embora relutemos em admitir. Há milênios o teatro discute essa e tantas outras questões, num papel, sobretudo, educativo, em sentido maior, que desempenha de maneira inigualável.

Quantas lições nos foram deixadas por Ésquilo, Xenofontes, Aristófanes, Moliére, Bernard Shaw, Shakespeare, Albee, Beckett, Schiller, Calderón de la Barca, Cocteau, Gil Vicente, Gogol, Ibsen, Ionesco, Bertold Brecht e milhares e milhares de outros autores que nos legaram a essência da sua sabedoria, para que nos tornássemos um pouco mais sábios e mais hábeis no trato com nossos semelhantes!

E, principalmente, por atores e atrizes, que emprestaram suas mentes, seus corpos e suas emoções, para viverem as alheias e transmitirem princípios eternos, gerações após gerações! É esta perenidade, essa força, essa mágica transformação de um indivíduo em dez, em cem, em mil, que me fascina tanto no teatro.

Monday, May 28, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Quanto mais amplo for o leque dos nossos interesses, mais úteis poderemos ser para nós mesmos e para os que nos cercam. Afinal, como diz o conhecido ditado, “o saber não ocupa lugar”. Somos dotados de múltiplos talentos, embora nem sempre tenhamos consciência disso. Cabe-nos descobri-los e desenvolvê-los, com leitura, estudo, autodisciplina e, principalmente, exercício. Fernando Pessoa já recomendava: “Sê plural como o universo”. Nossa curiosidade deve ser insaciável, pois ela é o caminho para a sabedoria. Por que sermos sambas de uma nota só, se podemos ser polifônicas sinfonias, variadas, interessantes e, sobretudo, harmoniosas?

Como Cabral falava


Pedro J. Bondaczuk


A pronúncia das palavras da língua portuguesa, atualmente no Brasil, por incrível que possa parecer, é semelhante à usada nos tempos do descobrimento do País, em fins do século XV e início do XVI em Portugal. Enquanto na metrópole, contudo, ela sofreu enormes modificações, por influência principalmente do galego, aqui conservou as características básicas de então. As formas de pronunciar as palavras tornaram-se tão diferentes, nos dois países, a ponto do português falado em cada um deles não parecer ser o mesmo idioma, embora, evidentemente, o seja.
Os vários termos utilizados, tanto pelo povo, quanto pelos intelectuais e eruditos, tiveram grandes transformações, no que diz respeito à grafia e ao significado, nesses mais de 500 anos de existência do Brasil. Várias reformas ortográficas foram feitas em nosso país apenas no século passado (referimo-nos, obviamente, ao XX, recém terminado).
Uma infinidade de expressões caiu em desuso. Outras, embora constem ainda de dicionários (mais como meras curiosidades do que propriamente como recursos de comunicação escrita ou oral), foram substituídas por formas populares. Afinal, é o povo (e não os gramáticos) que faz a língua.
Palavras nasceram, palavras morreram, palavras se transformaram, de acordo com a evolução das ciências e das artes (basta ver a enxurrada de neologismos incorporada ao idioma pelo desenvolvimento da informática) e com as gírias criadas pelas pessoas comuns, em seus relacionamentos.
Mas no que se refere, especificamente, à maneira de pronunciar, tudo está, no Brasil, exatamente como nos tempos de Pedro Álvares Cabral. Por exemplo, os portugueses quinhentistas não "comiam" o "e" da palavra "pessoa", como fazem os de hoje, que pronunciam "p'ssoa" ou "p'daço".
Muitas das expressões lusitanas desse período sobreviveram, especialmente no interior brasileiro. Podem ser citadas como exemplos, nesse caso, "despois" (em vez de depois), "alevantar" (em vez de levantar), "ajuntar" (em vez de juntar) e "té" (em vez de até), entre tantas e tantas e tantas outras das quais não nos recordamos agora.
Outra característica que a língua falada no Brasil conservou, e que os lusitanos de hoje não têm mais, é a pronúncia de "i" e "u" no final das palavras terminadas em "e" e "o". Quando dizemos o nome "Henrique", não percebemos, mas o pronunciamos "Henriqui". O mesmo ocorre com "sapato", que expressamos oralmente "sapatu", "tomate", que dizemos "tumati", e vai por aí afora. Essa forma de pronúncia, no entanto, já era usada em Portugal em 1500 (embora não mais o seja na atualidade).
Algumas expressões extintas entre os portugueses, há séculos, sobrevivem no Brasil e estão em uso corrente. Assim, os contemporâneos de Cabral diziam que "fulano progride a olhos vistos", ou "beltrano está em uma autêntica roda viva". Nós ainda nos expressamos assim. Em Portugal não se fala mais dessa forma.
Como se vê, e ao contrário do que a maioria pensa, as colônias foram mais conservadoras do que a metrópole quanto à pronúncia. Essa diferenciação, no Brasil e em Portugal, vem de algum tempo e se fazia notar na época em que Antonio Vieira pregava seus inspirados sermões no Maranhão, no século XVII.
As pronúncias diferentes do mesmo idioma levaram o padre a afirmar com bom-humor: "A língua portuguesa tem avesso e direito. O direito é como nós falamos e o avesso como a falam os naturais". Estes, no entanto, poderiam inverter a equação e assegurar exatamente o contrário do culto e criativo sacerdote.
Em relação à língua portuguesa no Brasil, todavia, o que causa maior espanto, dada a extensão quase continental do território nacional, foi a conservação da unidade lingüística. Trata-se de verdadeiro "milagre" e é, provavelmente, um dos fatores fundamentais para a manutenção da nossa coesão nacional. É certo que o carioca, por exemplo, fala bem diferente do amazonense e este do gaúcho, e assim por diante. Mas todos eles se entendem e se comunicam, sem necessidade de intérpretes. A Índia, no entanto, bem menor do que o nosso país em termos territoriais (quase a metade), tem mais de um mil idiomas e dialetos, muito diferentes um do outro. A mesma coisa verifica-se na Rússia, na China, na Indonésia, etc.etc.etc. Ponto para nós...

Sunday, May 27, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Muitas vezes usamos, como pretexto para justificar maus atos e maus pensamentos, nossa incapacidade para resistir às tentações. Se o mal nos tenta, no entanto, é porque não achamos que ele seja isso. É porque estamos predispostos a ele por acharmos que seja prazeroso. É porque, no íntimo, achamos que se trate de bem e, portanto, fonte legítima de satisfação. Concordo com George Bernard Shaw quando afirma: “Nunca resisto a tentações porque descobri que coisas que são ruins para mim não me tentam”. Não precisamos experimentar o que não presta, o que nos degrada, o que nos traz riscos ou conseqüências danosas, físicas e/ou morais, para saber que se trata de um mal. Quem precisa, pois, fugir de tentações, tem que rever, com urgência, os seus valores e prioridades.

Século de contrastes


Pedro J. Bondaczuk


O século 20 – embora seja prematuro fazer um balanço definitivo do seu transcurso – foi caracterizado por extremos. Contou com o pior e com o melhor da história humana. Teve terríveis assassinos, como Adolf Hitler (responsável pelo Holocausto), Joseph Stalin (culpado da morte de mais de 20 milhões de camponeses soviéticos), Mao Tse-Tung (a quem se atribuem atrocidades que só agora chegam a público), Pol Pot (genocida de mais de dois milhões de cambojanos), entre outros; e santos com a dimensão de Mohandas Karamanchand "Mahatma" Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King e João Paulo II.

Teve ditadores que se perpetuaram no poder (Kim Il-Sung, Fidel Castro, Augusto Pinochet, Saddam Hussein, Hafez Al-Assad etc.) e notáveis democratas (Franklin D. Roosevelt, Winston Churchill, Nelson Mandela etc.). Além disso, contou com avanços inimagináveis da ciência e da tecnologia, para o bem e para o mal. Como por exemplo, as magníficas naves do Projeto Apolo, que levaram o homem à Lua. Ou a que desceu um artefato, dirigível a partir da Terra, no planeta Marte (o robozinho "Sojourner"). Ou as duas Voyagers, a Magalhães, a Galileu etc. A corrida espacial, no entanto, despendeu preciosos recursos, que poderiam ser investidos em avanços sociais. Ainda assim, pode ser considerada como o uso positivo da ciência no engrandecimento humano.

O mesmo não ocorreu com a utilização do avião nas guerras, o que teria levado o seu inventor, Alberto Santos Dumont, ao suicídio. Ou com a fabricação de armas químicas, bacteriológicas e atômicas, todas capazes de eliminar a vida no Planeta em questão de horas, ou quiçá minutos. E tende a ocorrer se não houver critério na manipulação genética, notadamente na clonagem de seres humanos.

A medicina evoluiu como nunca antes. Alguns desses "milagres" biológicos foram as descobertas da penicilina e de outros antibióticos para combater infecções até recentemente letais. Ou o desenvolvimento de vacinas contra a pólio, o sarampo e a varíola (esta eliminada virtualmente da face da Terra) entre outras. Ou os avanços no tratamento do câncer e de outras doenças mortais, da assepsia, das técnicas cirúrgicas, dos transplantes de órgãos e das peripécias da engenharia genética (como os bebês de proveta) e que já pode impedir que crianças nasçam com genes de determinadas deficiências, os modificando ainda no útero materno e poupando sofrimentos inúteis a muitas pessoas.

Em contrapartida, o século 20 teve terríveis epidemias, como a da gripe espanhola, em 1919, que deixou mais de 20 milhões de mortos; de peste bubônica; de febre amarela; do cólera etc. Sem falar do surgimento de novos e letais vírus, notadamente os do ebola, do hantavírus e principalmente da Aids, contra os quais a medicina ainda pouco pode fazer e cuja prevenção em massa é impossível, pela ausência de agentes imunizantes.

A humanidade conviveu, nesses cem anos, com o êxtase e o terror, ambos caminhando lado a lado. Competições esportivas de âmbito mundial foram organizadas e mantidas, dada a facilidade criada pela popularização e evolução dos transportes aéreos, que diminuíram distâncias e reduziram custos. Entre estas estão a Copa do Mundo de Futebol, os campeonatos mundiais de praticamente todas as modalidades e a seqüência dos ideais olímpicos do Barão de Coubertin, os Jogos Olímpicos da era moderna, iniciados em 1896.

Esse mesmo "encolhimento do mundo", transformado em "aldeia global", propiciado pelo rádio, pelos satélites e pela telefonia celular, possibilitou intercâmbios artísticos e culturais. Os progressos na indústria gráfica, por sua vez, multiplicaram livros, revistas e jornais aos bilhões, em todos os idiomas conhecidos. E os recursos da informática e da tecnologia da comunicação aumentaram as possibilidades de se informar, a custos bastante acessíveis às pessoas de renda mediana.

Mas o século testemunhou, também, duas terríveis guerras mundiais, além de mais de duas centenas de conflitos regionais e uma quantidade considerável de golpes e revoluções, que deixaram, numa estimativa conservadora, mais de cem milhões de mortos. Em várias ocasiões a humanidade esteve na iminência de extinção, face à ameaça de um impensável conflito nuclear. Talvez o maior "milagre" desses últimos 100 anos tenha sido, portanto, o da sobrevivência, diante de tantos perigos a que a vida esteve exposta.

O meio ambiente terrestre, por sua vez, nunca sofreu tantas agressões quanto neste período. Várias espécies, animais e vegetais, extinguiram-se e outras tantas estão ameaçadas de extinção. O clima no Planeta vem sofrendo perigosas alterações e o aquecimento da Terra ameaça as calotas polares e grandes geleiras que, se derretidas, farão desaparecer do mapa cidades e até países.

Quais teriam sido as pestes do século? As guerras? As depredações ambientais? A Aids? As armas nucleares? Os genocidas e ditadores? A insegurança política? Frei Beto, no artigo "Sexo, Aids e a morte por ignorância", publicado em 21 de abril de 1996 no jornal "O Globo", acha que a primazia não cabe a nenhum dos flagelos acima citados.

"A Aids, detectada em 1981, está longe de ser a peste do século", enfatizou. O título fica para a fome, que mata mais pessoas no mundo, sobretudo crianças, do que qualquer outro fator", acrescentou. E frei Beto pondera: "...A fome não merece tanta atenção como a Aids. Não existe uma fundação Elizabeth Taylor contra a fome com número de telefone na lista de Beverly Hills, como o 472.7778 da `Elizabeth Taylor Aids Foundation'. A razão é tão simples quanto cruel: a fome só mata pobres. A Aids ameaça a todos, sem distinção de classe, de raça, de sexo ou de idade. Já não há grupos de risco".

Contudo, pior do que a fome, é o comportamento que a provoca. E este é a verdadeira "peste do século", que é preciso erradicar, para garantir a sobrevivência humana por uma série de milênios a mais, e sempre evoluindo, rumo à absoluta racionalidade. Aliás, não se trata somente de "um" mau comportamento ou sentimento. São vários, correlatos, como o preconceito, o egoísmo, o desamor e a desmedida cobiça, entre outros, que ameaçam a humanidade – agora dotada de um poder de destruição ímpar, como nunca antes teve – de extinção.

(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio Popular, em 3 de fevereiro de 1997)

Saturday, May 26, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Creio que pouca coisa seja mais opressiva e torturante do que a solidão, embora esta seja, muitas vezes, preferível a certas companhias, que nos são sumamente nocivas. O bom é estarmos sempre acompanhados de pessoas que amamos, ou às quais estejamos ligados por fortes laços de amizade (que é uma forma sofisticada de amor) ou daquelas que têm alguma coisa a nos acrescentar (a nos ensinar, ou a aprender conosco) ou as que se mostram dispostas a nos hipotecar solidariedade quando mais precisamos. Estes são os tipos de companhia que buscamos, por nos trazerem segurança e satisfação. Morris West observou, através de um dos personagens do seu romance “A Salamandra”: “O inferno não é mais que um lugar escuro e silencioso. A condenação eterna significa estar trancado nesse lugar...sozinho”. Falta de luz (não só no sentido literal, físico, mas no espiritual) e solidão são, portanto, duas terríveis formas de torturas.

Brinquedo


Pedro J. Bondaczuk

Imaturo, não passo de um menino grande,
de uma singular, estranhíssima figura,
transparente, sem disfarces e sem segredo.
E, como criança que sou, vivo à procura
de fantasias, de um original brinquedo.

Dia após dia banho a alma de ternura
no lago azul e translúcido dos seus olhos
serena, preciosa, dulcíssima amada.

Sacio, todavia renovo, desejos
em seu corpo, alabastrino e escultural,
refugiado na calidez dos seus braços.

Teço múltiplas, magníficas fantasias
ao redor dos lindos, rosados dois biquinhos
dos seus seios, dois primores de perfeição,

Entretanto eu não sei
--- e às vezes eu tenho medo
de que jamais saberei –
se você é meu amor
ou se eu sou seu brinquedo!!

(Poema composto em São Caetano do Sul, em 14 de agosto de 1964).

Friday, May 25, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Embora não me interesse por finanças e veja no dinheiro apenas uma forma (que já existia quando nasci), de prover meu sustento, não tenho nenhum rancor e nada de pessoal contra quem se apega a ele. Tenho, isto sim, pena de quem dedica o melhor de seus esforços para um objetivo tão pífio, a ponto de “se esquecer de viver”. Mas não posso deixar de dar razão a Henry Thoreau, quando escreve, num ensaio: “Se um homem gasta a metade de cada dia a passear pelas florestas simplesmente por gostar delas, arrisca-se a ser considerado um preguiçoso; mas se ele gasta o dia inteiro como especulador, devastando a floresta e provocando a calvície precoce da terra, aí então ele ganhará a admiração de seus concidadãos como pessoa ativa e empreendedora”. O que é mais importante para o presente e para o futuro humano: a floresta, ou as transitórias obras de quem se julga “empreendedor” e é, na verdade, “devastador”?

O Mito da Caverna - IV


Pedro J. Bondaczuk

(Continuação)

Função do filósofo

O filósofo, para Platão, era aquele que havia atingido a plenitude do conhecimento. Por essa razão, tinha um papel preponderante na vida da cidade ideal. A ele caberia a tarefa de instruir e orientar as pessoas, para que subissem em direção ao sol da realidade. Eles é que teriam que libertar os que estavam atados em frente à entrada da caverna, os ajudar a acostumar a vista à luz natural e impedir que retroagissem às trevas.
Os filósofos, após sua ascensão aos planos elevados do mundo superior, tinham a obrigação moral de regressar ao convívio dos ignorantes, para esclarecê-los e guiá-los. Cabia-lhes o papel tanto de mestres, quanto de guias, com a cautela de também não regredirem à ignorância, por falta de prática da sabedoria. Competia-lhes proteger os mais frágeis, além de formar as classes políticas e dirigentes da cidade, para que nunca exorbitassem do seu poder e nem jamais se omitissem das suas obrigações.

(Matéria Especial, publicada na página 51, do Correio Popular, em 9 de outubro de 1988).

Thursday, May 24, 2007

TOQUE DE LETRA







Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo)

SEGUNDO TEMPO SOBERBO

A Ponte Preta fez um segundo tempo soberbo, terça-feira, contra o Fortaleza, no Moisés Lucarelli, e o resultado não poderia ser diferente do que foi. Ou seja, vitória da Macaca, por 2 a 0, o que ficou barato para o adversário cearense. O time não somente venceu, mas convenceu plenamente (e até entusiasmou) a pequena, mas vibrante torcida, que desafiou o mau tempo, o frio e o dia inadequado para o jogo e apoiou a equipe do início ao fim. Quem compareceu, certamente, não está arrependido. E nem poderia estar. Afinal, pôde ver um segundo tempo primoroso, soberbo, quase perfeito da Ponte, como há muito não acontecia, que aliou técnica e raça. Jogasse assim os 90 minutos e, certamente, sairia de campo com uma história goleada sobre o bom time do Fortaleza. A Macaca começou a partida nervosa, mal-colocada, errando passes em profusão e preocupando os torcedores. Foi aí que brilhou a estrela do garoto Denis, que faço questão de chamar de “Muralha”, que fez pelo menos três defesas incríveis, dessas de entusiasmar o mais frio e sóbrio dos espectadores e incendiar a equipe. E incendiou, mesmo. Trata-se de um goleiro que sai muito bem do gol, tem reflexos acima do normal e um senso de colocação perfeito. Posso estar enganado, mas algo me diz que um dia Denis será titular da Seleção Brasileira, seguindo as trajetórias de um Waldir Perez e, principalmente, de um Carlão Ganso, por sinal, o seu treinador. Exagero? Pago para ver!

REFORÇO DE PESO

A Ponte Preta apresentou, terça-feira, à imprensa e à torcida, antes do jogo contra o Fortaleza, um reforço de peso para a seqüência do Campeonato Brasileiro da Série B, cujo objetivo, claro, é o acesso para a elite, se possível com o título. Trata-se de Andrezinho, eleito o melhor ala-esquerda do recém-findo Campeonato Paulista, em defesa do Bragantino. Foi o “happy end” de uma longa novela, que se arrastou por mais de um mês. Subitamente, a Ponte Preta, que estava carente nessa posição, passa a contar com dois excelentes jogadores. Afinal, Alex Silva, procedente do Guaratinguetá, teve uma atuação soberba, notadamente no segundo tempo, na vitória pontepretana sobre o Fortaleza por 2 a 0, tendo, inclusive, feito um belíssimo gol. Andrezinho é ambidestro e atua, com a mesma desenvoltura, tanto na esquerda, quanto na direita, onde o titular Júlio César foi um dos destaques do jogo de terça-feira. A contratação foi um presentão para o presidente Sérgio Carnielli, que aniversariou na véspera, mas, sobretudo, o foi para a torcida. Que venham mais desses “presentes”.

AINDA FALTA UM ATACANTE

Com a contratação de Andrezinho, fica faltando, agora, apenas um atacante (o ideal seriam dois) para a Ponte Preta ter um plantel competitivo, com possibilidades de conquistar não somente o acesso para a elite do futebol brasileiro, mas até o título do Campeonato Brasileiro da Série B. O garoto Beto até que tem mostrado virtudes, mas ainda é muito verde para tamanha responsabilidade. A diretoria pontepretana garantiu que ainda não desistiu de Otacílio Neto, cuja vinda se tornou mais difícil depois que o Corinthians entrou no circuito. Manifestou interesse no jogador, mas não fez nenhuma proposta concreta por ele. E findou por desistir da contratação, prejudicando tanto o atleta, quanto a Ponte Preta. Quem sabe o Noroeste e o atacante baixem suas pedidas e viabilizem, dessa forma, sua vinda ao Moisés Lucarelli. Outro nome que ganha força é o de Ricardinho, do Palmeiras, que disputou o último Campeonato Gaúcho pelo Grêmio. É uma boa pedida. Afinal, a Ponte é especialista em recuperar jogadores em má-fase (fez isso com Weldom, Kahê, Ticão, Tuto e outros tantos, que estão brilhando no País e Exterior). Basta que o atleta venha motivado e disposto a mostrar seu futebol que, certamente, vai vingar no Majestoso.

MEIO DE CAMPO CRIATIVO

Outra das grandes virtudes do atual time da Ponte Preta é o seu quadrado de meio do campo. Nelsinho não gosta de volantes “brucutus” e os dois atuais titulares pontepretanos não são assim. Pingo e João Marcos são excelentes marcadores, virtude que se exige de quem joga nessa posição, mas vão muito além disso. Os dois têm excelente passe, facilidade de sair jogando e arrematam muito bem a gol. Tanto que Pingo, por exemplo, já fez cinco gols com a camisa da Ponte, entre os quais o que garantiu a vitória sobre o Gama, na estréia da Macaca no Campeonato Brasileiro da Série B. Tanto ele, quanto João Marcos – que raramente aparece para a torcida, mas que é um verdadeiro motorzinho do time – têm características de meias-armadores. E o reserva Ale não fica atrás. Quanto aos meias de armação, Heverton e Michael, dispensam apresentação. São criativos, arrematam bem a gol, driblam com muita facilidade e dão inúmeras opções aos atacantes. A Ponte Preta, portanto, está muito bem servida na chamada “zona do raciocínio”.

DEU GRÊMIO, NA RAÇA

O Grêmio Porto-alegrense confirmou a sua tradição de time copeiro e de “rei” das façanhas impossíveis. Arrancou, ontem, sua classificação para as semi-finais da Copa Libertadores da América, num Estádio Olímpico superlotado, na base da raça e da superação, diante do enjoado Defensor do Uruguai, quando muita gente já não acreditava mais nessa possibilidade. Precisava fazer um placar de 2 a 0, para levar a decisão para os pênaltis, e fez. E na cobrança de penalidades, fez a lição de casa e não errou nenhuma. Já os uruguaios...desperdiçaram duas e deram adeus à competição. Resultado? O tricolor gaúcho já é, na pior das hipóteses, um dos quatro melhores times das Américas, com possibilidades de repetir o feito do ano passado do arqui-rival Internacional. E pensar que há apenas dois anos, o Grêmio amargava uma Série B, em crise e endividado até o pescoço! Convenhamos, não se trata de nenhum super-time. Não conta com qualquer destaque, qualquer super-craque em seu plantel, já que a sua maior revelação, o volante Lucas, está praticamente negociado com o exterior. Mas o Grêmio tem uma raça de causar inveja aos grandes clubes do eixo Rio-São Paulo. E isso faz a diferença.

DEU SANTOS, COM SOFRIMENTO

O Santos sofreu para derrotar o time misto do América do México, que vendeu caro a sua derrota, mas conseguiu seu objetivo de se classificar para as semi-finais da Copa Libertadores da América. Desde a era Pelé que o time da Vila Belmiro não chegava tão longe na competição. E parte considerável do mérito, convenhamos, deve ao seu treinador, Wanderley Luxemburgo. Sempre que elogio o trabalho desse polêmico técnico, as pessoas torcem o nariz. Há inegável preconceito de parte considerável da imprensa, notadamente a paulistana, não tanto em relação ao seu trabalho, mas à sua pessoa. Tremenda bobagem! Ao cronista esportivo compete analisar sua atuação e limitar-se a ela. Competência, convenhamos, não falta a Wanderley Luxemburgo. Pelo contrário! Está aí a sua vitoriosa carreira, para ninguém botar defeito. Ontem, quando o Santos perdia por 1 a 0 e tudo indicava que “a vaca estava indo para o brejo”, o técnico fez uma modificação que alterou o panorama do jogo. Tirou o ala direita Alessandro, que não jogava bem, deslocou Maldonado para a posição e colocou Pedrinho no seu lugar. Com isso, incendiou o jogo e não tardou para o Santos virar o placar e arrancar a classificação. Esse, sim, é um treinador que decide!

RESPINGOS...

· A diretoria, a torcida e os jogadores do Botafogo tentam crucificar a auxiliar de linha, a belíssima e competente Ana Paula, por sua desclassificação na Copa do Brasil. É choro de perdedor. O verdadeiro responsável pelo “desastre” é o goleiro Júlio César, que engoliu um frango do tamanho do Maracanã.
· O Figueirense, que mesmo perdendo por 3 a 1 para o Botafogo, se classificou para a final da Copa do Brasil, pode se tornar o segundo time catarinense a disputar uma Libertadores da América. O primeiro foi o Criciúma, de Luiz Felipe Scolari.
· Absurdo esse regulamento da Libertadores da América, que obriga Grêmio e Santos a se enfrentarem nas semi-finais. Fico pasmo com o fato dos clubes terem aceitado essa aberração antes do início da competição.
· Renato Gaúcho faz história no comando técnico do Fluminense. Classificou um time que deu vexame no Campeonato Carioca para a final da Copa do Brasil.
· O Corinthians virou uma sucursal do Bragantino. Depois de contratar Felipe, Zelão e Everton Santos, agora trouxe o zagueiro Kadu e o volante Moradei. E vem por aí a volta de Fábio Luciano.

* E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


São inúmeras as páginas da internet que exploram o lado doentio e vicioso da sexualidade, como a pornografia e a pedofilia. Milhões de outras disseminam toda espécie de preconceito, ou fazem apologia de vários tipos de crime, seduzindo, via de regra, os imaturos e despreparados. A rede mundial seria perniciosa? Não! Ela é apenas um instrumento que, se mal utilizado, pode, de fato, trazer enormes transtornos. Claro que o sucesso da internet se prende, exatamente, à sua absoluta liberdade, à total ausência de censura. Nem todos, no entanto, têm discernimento para distinguir o bem do mal, o útil do pernicioso, o saudável do que se constitui em abjetas taras. De uns tempos para cá, celerados, ladrões, escroques vêm tentando infectar nossos computadores com vírus. São criminosos, mesmo que façam isso por “brincadeira”. Uma hora serão descobertos e punidos, após serem devidamente processados por causar danos ao patrimônio alheio. Não perdem por esperar.

O Mito da Caverna - III


Pedro J. Bondaczuk

(Continuação)

Extremos condenáveis

Mesmo no plano das idéias, Platão condenava os extremos. Afirmava que nem os que não têm educação (ou seja, os que jamais viram a luz do sol fora da caverna) e nem os demasiadamente educados (os que nunca estiveram atados à frente da entrada da gruta) seriam bons servidores da sua cidade ideal.
Os primeiros não o seriam por falta de objetivos pelos quais pudessem pautar sua conduta. Sua realidade não era mais do que um conjunto de sombras, de reflexos, de distorções. Para eles, portanto, a acomodação era a melhor estratégia. Pelo menos, ela envolveria menos esforços.
Os demasiadamente educados, por sua vez, julgar-se-iam “superiores e bem-aventurados”. Achariam que tinham galgado o próprio cimo do Olimpo. Não seria de se estranhar se achassem que tinham certa espécie de parceria com os deuses. Por essa razão, não se sentiriam motivados para agir.
Se o leitor observar com atenção, verá que é exatamente o que ocorre ao nosso redor, no nosso cotidiano. Uma determinada pessoa, por exemplo, dedica-se com muito afinco aos estudos. No princípio, está cheia de ideais nobres em relação à humanidade e não mede sacrifícios para atingir sua meta. Sonha em salvar o mundo, não por interesse pessoal, por fama, fortuna ou poder, mas somente por idealismo.
Todavia, à medida em que galga os degraus que o aproximam da meta e mais se distancia da massa inculta, abre mão dos objetivos primitivos. Elitiza-se e traça novas metas, absolutamente individuais. Descer ao nível da maioria, obviamente, nem lhe passa pela cabeça. O estágio que atingiu é muito superior ao dessa massa inculta. O recurso seria trazer o máximo possível dessas pessoas ao patamar de conhecimentos que conquistou. Contudo, nesta altura, sua motivação original já se esvaiu e seu ideal de salvar o mundo virou fumaça. E sua visão da realidade enche-o, na verdade, apenas de um imenso tédio.
Na opinião de Platão, existia, para além do plano dos fenômenos palpáveis, visíveis, audíveis, palatáveis e cheiráveis, ou seja, o dos sentidos, um outro mundo. Seria um planeta de realidades constituídas dos mesmos atributos dos conceitos que existem em nosso mundo interior, mas não no físico. E estas seriam as nossas “idéias”.
Elas não seriam apenas meras formas abstratas do pensamento. Seriam realidades objetivas e com o atributo da eternidade. As coisas terrenas não passariam de meras cópias, eivadas de imperfeições e, sobretudo, passageiras das idéias.

(Continua)

Wednesday, May 23, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A rede mundial de computadores é, consensualmente, um dos maiores avanços, em termos de comunicação, de todos os tempos. Até aí, eu não disse nada de novo. Trata-se do óbvio. Pode-se dizer, porém, que esse poderoso instrumento de veiculação de texto, som e imagens é um microcosmo da humanidade. Ou seja, abriga, em seus bilhões de portais, páginas, blogs etc. o melhor e o pior da espécie humana. Uma coisa difícil, se não impossível de evitar, porém, são os tais “vírus” de computador. Além de trazer enormes prejuízos, por danificarem o equipamento, produzem monumentais contratempos a quem, como eu por exemplo, tem, nessas maravilhosas máquinas, imprescindível ferramenta de trabalho. De uns tempos para cá, celerados, bandidos, escroques vêm tentando infectar nossos computadores com vírus. São criminosos, mesmo que façam isso por “brincadeira”. Uma hora serão descobertos e punidos, após serem devidamente processados por causar danos ao patrimônio alheio. Não perdem por esperar.

O Mito da Caverna - II


Pedro J. Bondaczuk

(Continuação)

Conceito e realidade

O Mito da Caverna e, por extensão, toda a filosofia platônica, toma como ponto de partida o “conceito”. O professor Theobaldo Miranda Santos, em seu “Manual de Filosofia”, destaca que este era o verdadeiro objeto da ciência para Sócrates, o mestre de Platão, cujas lições ele ouviu por dez anos. Mas, ao contrário do mestre, relacionou-o com a realidade.
O conceito, por exemplo, pode ser distorcido, como no caso das sombras vistas pelos que estavam amarrados à frente da entrada da caverna. Esses prisioneiros da ignorância, confiando apenas nos sentidos, achavam, até, que as vozes que ouviam eram provenientes dessas ilusões de ótica, que achavam que eram reais.
A realidade só poderia ser vista à luz do sol, fora da gruta, e após a vista ter se acostumado à luminosidade, vencido o ofuscamento decorrente do tempo passado em trevas. Mas se esses homens, libertados da caverna, já ambientados à luz solar, voltassem ao estado anterior, ou seja, à escuridão, em pouco tempo voltariam a pensar como antes. Regrediriam na identificação da realidade.
Platão ressaltou que “os ofuscamentos físicos, assim como os morais, são de duas formas: daqueles que saem das trevas para a luz e dos que da luz revertem às trevas”. Ou seja, recaem na ignorância, por falta de exercício da recém-adquirida nova visão da sabedoria. Quem já contemplou a visão divina, por exemplo, não quer (compreensivelmente) voltar a se ocupar das coisas humanas, com suas feiúras de caráter e horrendas distorções.

(Continua)

Tuesday, May 22, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Uma das minhas maiores satisfações, físicas e espirituais, é o contato com a natureza. É, por exemplo, um passeio despreocupado por um bosque, com todos os sentidos alertas, usufruindo do aroma das flores, do canto dos pássaros, do frescor da sombra e do sabor exótico dos frutos silvestres. Ou é a caminhada preguiçosa e sem rumo por um jardim florido, com a explosão de cores, em cada canteiro, ao meu redor. Essa é a minha fonte de inspiração. Claro que aquilo que tenho para expressar está em mim, adormecido, pronto para ser despertado. E é a beleza o despertador da minha sensibilidade. Concordo com Le Corbusier quando diz: “A poesia está no coração dos homens; por isso, é preciso se abrir para as alegrias da natureza”. Temos que cuidar dela! Somos suas partes integrantes. Sem ela, ou com ela devastada, certamente não sobreviveremos. Morreremos de inanição, física e espiritual: de beleza.

O Mito da Caverna - I


Pedro J. Bondaczuk


As pessoas comuns, que não se destacam por altos dotes de inteligência e sólida cultura, têm, dada a educação formal que recebem (no lar e, principalmente na escola), altamente deficiente, apenas uma pálida e distorcida noção do que se entende por “realidade”. Conhecem apenas seus reflexos e jamais sua extensão.
Era assim no passado remoto, quando o conhecimento adquirido era passado, de uma geração a outra, somente de forma oral, já que não existia ainda o alfabeto e, por conseqüência, a escrita. E continua da mesma forma, pelo menos para a maioria, a despeito do magnífico aparato de comunicação que temos ao nosso dispor.
Entre vários conceitos, por exemplo, a concepção que o homem contemporâneo tem do bem é eivada de distorções e de equívocos. Mais equivocada ainda, fundada em mitos e em contradições, é a sua idéia de divindade. Ou seja, do conceito do suprassumo da perfeição.
A educação formal que se ministra (que na verdade não passa de mero adestramento), salvo raras e honrosas exceções, equivale a se amarrar uma pessoa na entrada de uma gruta escura, sem que ela possa se mover para lado algum, por onde penetra, por uma pequena fenda, tênue raio de sol que, refletido nos objetos, e nos que passam pelo local, projeta sombras nas paredes. Essa imagem resume o célebre “Mito da Caverna”, do filósofo grego Platão, exposto no livro sexto de “A República”.
A totalidade das religiões apresenta o conceito da divindade (ou de divindades, no caso das politeístas), de forma primária, parcial e distorcida. O homem projeta em Deus suas próprias imperfeições, fraquezas e paixões. Ele é figurado, com uma variação ou outra que não O diferencia tanto, como um Ser que premia os bons e castiga os maus. Ou seja, como uma entidade sujeita a suborno, mediante oferendas, velas, orações interesseiras, variados rituais e promessas vagas, em troca de perdão e, sobretudo, de proteção.
O bem supremo, todavia, certamente não é nada disso. O conhecimento pleno é impossível de ser atingido, dada sua extensão e dadas as limitações humanas, embora a sabedoria possa, até certo ponto, ser conseguida. Esta, no entanto, se faz inútil, se desacompanhada de ações.
A tendência de quem “conseguiu enxergar a luz” (e não apenas seus reflexos) é utilizar o conhecimento adquirido em proveito próprio, e nunca a de compartilhar o que aprendeu. Tende a esquecer os que permaneceram atados à frente da entrada da caverna, tendo diante de si apenas sombras de sabedoria.
Platão ressaltou que a virtude dessa ciência da realidade “tanto pode ser um bem inefável, quanto um mal”. Os maus também podem alcançar a agudeza do conhecimento, com a mesma competência dos bons, contudo, desperdiçam essa luz em atos mesquinhos e projetos reprováveis.


(Continua)

Monday, May 21, 2007

TOQUE DE LETRA











Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo, Gazeta Press e Maurício Val/VIPCOMM)

PRÊMIO À DETERMINAÇÃO

Quem assistiu, sexta-feira, só primeiro tempo do jogo da Ponte Preta contra o Paulista, no Estádio Jaime Cintra, em Jundiaí e não ficou sabendo do resultado final, certamente achou que a Macaca levou uma contundente goleada, tal a apatia do time nos 45 minutos iniciais. Todavia, na etapa final, a torcida pontepretana viu uma equipe diferente, com garra, criatividade e muita vontade de vencer. Resultado? A Veterana arrancou heróico empate, por 2 a 2, que para as circunstâncias, ou seja, para quem encerrou o primeiro tempo perdendo por 2 a 0 (e não jogando nada), teve o sabor de uma vitória. O garoto Michael, mais uma vez, entrou muito bem no time. E logo no seu primeiro lance, sofreu o pênalti, que foi o ponto de partida da reação da Macaca. Outro que jogou muito bem foi o meia Heverton, que havia decepcionado na estréia, contra o Gama, e foi para o banco de reservas. Quando entrou, ditou o ritmo da Ponte e foi premiado com um gol de bela feitura. Apesar do bom resultado, espero que a equipe tenha aprendido a lição. O jogo tem 90 minutos, mais os descontos determinados pelo árbitro, e em momento algum os jogadores podem relaxar ou perder a concentração. Gostei, todavia, do poder de reação do time. Valeu, Macaquinha!!!

ADVERSÁRIO ENJOADO

O próximo adversário da Ponte Preta, amanhã, na abertura da terceira rodada do Campeonato Brasileiro da Série B, é o Fortaleza, no Estádio Moisés Lucarelli. Embora seja extremamente cedo para qualquer prognóstico, o campeão cearense, agora sob o comando de Marco Aurélio Moreira, é apontado, quase que por consenso, como um dos candidatos ao acesso e ao título da competição. Trata-se, pois, de um adversário enjoado, perigoso, chato, o único dos 20 clubes da Série B que venceu seus dois jogos: 3 a 1 contra a Portuguesa e 2 a 1 contra o CRB, em plena Maceió. Nos confrontos entre ambos, a Ponte não tem levado muita vantagem, embora em 2004 tenha escapado do rebaixamento com uma memorável vitória, por 2 a 0, exatamente contra esse Fortaleza. A Macaca ressente-se da ausência de um matador. Embora ainda seja muito cedo para qualquer avaliação, Beto não parece o substituto ideal para Finazzi que, na sua curta passagem por Campinas, certamente vai deixar muita saudade na torcida pontepretana. Roger volta à equipe, mas este pode ser seu último jogo com a camisa da Macaca. Se for, tomara que se despeça com uma partida memorável e, claro, com uma boa vitória da Ponte.

EM BUSCA DE UM MATADOR

Ainda nem terminou a “novela” envolvendo o ala esquerda Andrezinho, que fez um excelente Campeonato Paulista pelo Bragantino, mas cujo passe pertence ao São Paulo, e eis que uma nova já se esboça pelos lados do Majestoso. Soube, de boa fonte, que a Ponte Preta está interessada na contratação do atacante Ricardinho, do Palmeiras, que disputou o Campeonato Gaúcho pelo Grêmio. Trata-se de um bom jogador, mas nada de excepcional. Eu prefiro, por exemplo, Otacílio Neto, que não vem mais, já que o seu destino é o Parque São Jorge. Falou-se muito na vinda da Alex Terra e cogitou-se, também, na vinda de Chumbinho, mas ambas as negociações parecem emperradas. Ricardinho tem a vantagem da experiência. Trata-se de um jogador rodado, com boa presença de área, mas se contunde muito. E “chinelinho” é a última coisa que a Ponte Preta precisa nesse momento. Se vier motivado, com vontade de jogar e de aproveitar a boa vitrine para mostrar seu futebol, será boa contratação (caso seja, de fato, contratado, claro). Caso contrário... É melhor esquecer.

A MODA DO “MISTÃO”

Virou moda os times que disputam, simultaneamente, duas competições, priorizarem uma delas e disputarem jogos, pela que não foi priorizada, com times reservas. São os casos do Santos, do Grêmio, do Figueirense, do Brasiliense e do Fluminense, que disputaram seus últimos jogos do Campeonato Brasileiro com a turminha do banco. Os dois primeiros, estão empenhados na Copa Libertadores da América e os três últimos, na Copa do Brasil. Nenhum deles se deu bem. O Santos, por exemplo, foi goleado, na estréia, pelo Sport Recife, por 4 a 1 e sábado foi surpreendido, em plena Vila Belmiro, pelo limitado América de Natal, para o qual perdeu, por 3 a 2. O Grêmio, que na primeira rodada foi goleado pelo Paraná, por 3 a 0, aprendeu a lição e pôs os titulares em campo na vitória de ontem, sobre o Fluminense (que jogou com um mistão) no Olímpico, por 2 a 0. O Brasiliense, na Série B, foi goleado, em Florianópolis, pelo Avaí, por 4 a 2. E, finalmente, o Figueirense, que havia sido massacrado, em casa, na estréia, pelo Atlético Paranaense, por 6 a 3, escapou, ontem, no Parque Antártica, de um novo vexame, embora tenha perdido para o Palmeiras, por 2 a 1. Os pontos que estes times estão perdendo no Campeonato Brasileiro, com certeza, farão muita falta mais para a frente. Mas então...não vai adiantar nada a choradeira.

RODADA SEM SURPRESAS

A rodada deste final de semana, pelo Campeonato Brasileiro da Série A, a rigor, não apresentou nenhuma surpresa. Nem mesmo a vitória convincente do Corinthians, em pleno Mineirão, por 3 a 0, sobre o Cruzeiro, foi surpreendente, dada a fragilidade do atual plantel do clube mineiro. Quem se reabilitou em alto estilo foi o Flamengo, que derrotou o Goiás, no Estádio Serra Dourada, por 3 a 1. O Botafogo confirmou seu favoritismo, no Maracanã, e venceu o Atlético Mineiro, por 2 a 1. O mesmo se pode dizer sobre a vitória do Vasco, sobre o Sport Recife, em São Januário, por 3 a 1, mas que se tornou histórica, por causa do polêmico e tão esperado milésimo gol de Romário. O São Paulo, que carece de poder ofensivo, teve um resultado previsível e perdeu para o razoável Náutico por 1 a 0, no Estádio dos Aflitos, de Recife, superlotado de torcedores. A derrota do Internacional, na Arena da Baixada de Curitiba, por 2 a 1, para o Atlético Paranaense, convenhamos, também não foi nenhuma surpresa ou aberração. Na minha avaliação, deu a lógica em todos os jogos.

RESPEITO COM O ÍDOLO

É lamentável a postura de determinada parcela da imprensa esportiva – notadamente a paulista – em relação ao milésimo gol de Romário, cifra completada ontem, contra o Sport Recife, num Estádio de São Januário lotado. A polêmica ganhou força depois de duas reportagens, uma da revista Lance e outra da Folha de S. Paulo, em que os autores garantem que o Baixinho ainda terá que assinalar mais 82 gols para atingir a marca histórica. Será? O que credencia os repórteres em questão a afirmarem, com tanta convicção, que sua contagem é que é a correta, e não a do “rei da área”? É muito mais fácil, e verossímil, eles terem se enganado, do que Romário. Todavia, um bando de bobos alegres prefere acreditar nesses jornalistas. Tentam ridicularizar quem fez tanto pelo futebol brasileiro (recorde-se que o atleta foi o grande responsável pela conquista da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, que o Brasil apenas disputou, é mister frisar, por causa dos dois gols do Baixinho, no Maracanã, contra o Uruguai, pelas eliminatórias, quando nosso selecionado esteve a pique de, pela primeira vez na história, ficar fora de um Mundial) sem a menor cerimônia. Depois de Pelé, o Baixinho foi, é e sempre será o segundo maior goleador de todos os tempos no mundo. E isso com mil gols (que acredito, piamente, que de fato tenham sido alcançados) ou sem eles. Êta gente derrotista e invejosa!!!

RESPINGOS...

· O meia Everton Santos, ex-Bragantino, já é o grande destaque do novo time do Corinthians. Salvo engano, no final da temporada (ou até mesmo muito antes dele), estará “batendo asas”, para jogar no exterior. Confiram depois.
· Por falar em Corinthians, outro jogador, vindo do Bragantino, começa a conquistar o coração da torcida. Trata-se do goleiro Felipe, que tem tudo para reprisar a vitoriosa trajetória do Dida.
· E a Ferrinha, que já chegou a correr, até, o risco de ser extinta, após sucessivos rebaixamentos, começa uma espetacular reação. Ontem, garantiu o acesso à Série A-2 do Campeonato Paulista. Parabéns à comunidade araraquarense!
· Quem continua marcando passo é o tradicional XV de Piracicaba. Nadou, nadou e morreu na praia. Vai permanecer mais um ano na Série A-3.
· O chileno Valdívia, cuja contratação chegou a ser ridicularizada pela fraca imprensa esportiva paulistana, está “arrebentando” no Palmeiras. Já é ídolo, merecidamente, da torcida palmeirense.

* E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


Todos temos, em maior ou menor medida, uma fome insaciável de saber. Todavia, quase sempre esbarramos em nossas limitações, reais ou (na maioria das vezes) imaginárias, que não nos permitem acesso ao máximo do conhecimento. Temos, no entanto, uma faculdade ilimitada, que supre, com vantagens, a nossa incapacidade de aprender: a imaginação. Esta não tem limites e compensa, de forma quase sempre vantajosa, essa nossa dificuldade, que tanto nos frustra. Monteiro Lobato, no livro “Serões da Dona Benta”, observa: “Se a nossa inteligência é limitada e de todos os lados dá de encontro a barreiras, temos o consolo de montar no cavalo da imaginação e galopar pelo infinito”. Maravilhosa possibilidade! Façamos, pois, sempre, sempre e sempre, esse mágico galope, sem receios e nem restrições. Agindo assim, desenvolveremos, certamente, algo muito mais precioso do que o conhecimento: a criatividade!

O gelo e o fogo


Pedro J. Bondaczuk


O desenvolvimento de uma personalidade sadia, integrada e sobretudo voltada para o mundo, e não para o interior das pessoas, é uma das tarefas principais do ser humano durante sua existência. Pode parecer até um paradoxo esse empenho, já que cada indivíduo que nasce é único, sem qualquer similar no passado e no futuro. Podem surgir sósias, há identidade de características biológicas em gêmeos univitelinos, no entanto não existem e nem existirão duas pessoas exatamente iguais. Cada uma delas é única, é original, é um mundo, é um universo complexo e não desvendável em sua totalidade.
Todavia, há comportamentos padrões que massificam, descaracterizam, nulificam o indivíduo. Daí ele ter de desenvolver o seu distintivo, a sua marca pessoal que se convencionou chamar de "personalidade". Haveria, porém, como determinar tipos, como o ideal e o pernicioso? Temos, por exemplo, a questão da genialidade, que nunca foi bem entendida. O gênio, em geral, é incompreendido pelos seus contemporâneos. Alguns chegam a ser confundidos com loucos, posto que os comportamentos se assemelham na medida em que ambos diferem daquele convencionado como sendo o normal.
Sua marca fica impressa na obra que deixa, que resiste à efemeridade e se perpetua, na maioria das vezes, muitos anos após a sua morte. Caso típico é o do pintor holandês Vincent Van Gogh. Fernando Pessoa, ele próprio um intelectual genial, hoje reconhecido por todos como desses raros talentos marcantes, que surgem apenas de quando em quando, escreveu a respeito: "O gênio é a insanidade tornada sã pela diluição do abstrato, como um veneno convertido em remédio mediante mistura. Seu produto próprio é a novidade abstrata – isto é, uma novidade que, no fundo, se conforma com as leis gerais da inteligência humana e não com as leis particulares da doença mental. A essência do gênio é a inadaptação ao ambiente; é por isso que o gênio (a menos que seja acompanhado de talento de espírito) é em geral incompreendido pelo seu ambiente; e eu digo 'em geral' e não 'universalmente' porque muito depende do ambiente. Não é a mesma coisa ser um gênio na antiga Grécia e na moderna Europa ou no mundo moderno".
Existe alguma forma do indivíduo moldar sua personalidade ou esta é produto da educação e do meio em que ele vive e, portanto, mera fatalidade? As opiniões a respeito divergem. Muitos educadores entendem que a moldagem é possível e a vontade tem um papel determinante nessa tarefa. Outros, por sua vez, acham que não. O pensador Balmes chegou a apresentar uma fórmula para essa construção de uma identidade positiva: "A verdadeira personalidade deve ter cabeça de gelo, coração de fogo e braços de ferro".
E qual seria o significado disso? Simples. É indispensável que se tenha frieza na tomada de decisões, paixão na busca da implantação dos ideais e força para pôr em prática aquilo que o indivíduo realmente acredita ser o melhor. A serenidade no decidir somente existirá caso a pessoa possua um núcleo sólido de convicções, testadas pelo tempo, e não um mero elenco de fantasias, elucubrações delirantes ou utopias.
O ex-presidente do Banco Mundial, e que também foi secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara, expressou, num seminário realizado em Jackson, no Estado do Mississippi, em fevereiro de 1967, a fórmula certa para tornar isso possível: "As decisões vitais, tanto em matéria de estratégia de empresa, quanto de estratégia política, devem promanar, forçosamente, do que está na cabeça”.
E isto vale, mais do que nunca, para a vida pessoal de cada um. Todavia, McNamara acrescentou: "Mas a maneira racional, para o homem, de tomar a sua decisão, depende diretamente do trabalho de esclarecimento que se tenha realizado para colocar diante dele as diferentes opções, entre as quais terá de escolher. A gerência, se for boa, organiza a empresa e a sociedade de maneira que esse processo se desenvolva apropriadamente. É o processo pelo qual os homens podem, o mais eficientemente possível, exercer a sua razão, sua capacidade de criação, suas iniciativas e responsabilidades".
Toda decisão errada, tomada com a "cabeça quente", tende a produzir resultados às vezes catastróficos. Em determinadas situações, inclusive, pode conduzir as pessoas à própria morte. Por exemplo, o motorista de um carro, numa estrada, se resolve ultrapassar na contramão outro veículo sem que tenha absoluta segurança de que em sentido contrário não está vindo nenhum outro, corre o risco de provocar uma colisão fatal.
Há situações em que os rumos equivocados podem ser modificados. Ainda assim, a pessoa que houver decidido errado sofrerá perda: de tempo, que é o mais precioso capital que este ser mortal, que é o homem, possui. Só quem sabe decidir, pesando os prós e os contras, e ainda assim com rapidez, é confiável. Essa capacidade é a matéria-prima dos autênticos líderes, um dos pontos que distinguem os gênios dos mortais comuns.

Sunday, May 20, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A principal característica dos bons escritores é a sua capacidade de observação. Ou seja, é o talento, desenvolvido com a prática e a disciplina, para captar todas as nuances da realidade e fazer delas matérias-primas de suas obras (poesia, conto, romance, crônica, não importa), conferindo-lhes a desejável verossimilhança. Claro que deve dominar o idioma (exigência básica e até primária), além de ser emérito comunicador, sobretudo claro e inteligível, se possível para qualquer pessoa, mesmo que esta não tenha qualquer cultura. Quem escreve complicado é porque não tem, de fato, o que dizer. Paulo Mendes Campos constatou: “O escritor, ao contrário da caneta-tinteiro, carrega-se devagar e se esvazia depressa”. Ou seja, despende muito mais tempo na observação, de tudo e de todos que o cercam, do que na redação dos seus textos, que fluem espontâneos e inteligíveis, sem maiores esforços.

Quando a doença é incurável?


Pedro J. Bondaczuk


A eutanásia, há muitos anos, (poderíamos dizer até séculos) vem sendo objeto de discussões em várias partes do mundo. Trata-se da chamada "morte piedosa" dada às pessoas doentes com moléstias consideradas incuráveis e que estejam sendo vítimas de grandes sofrimentos. A tendência da maioria é rejeitar, como sendo até "hedionda", essa idéia. Afinal, a função dos médicos sempre foi, é e deve ser a de salvar vidas. A de curar enfermidades e minorar sofrimentos. A de lutar com todas as suas forças e com as armas de que dispõem contra a morte, a sua grande adversária. Mas o tema, volta e meia, retorna à baila, tanto nas revistas especializadas de Medicina, quanto na opinião pública internacional.

Do ponto de vista ético, a simples menção dessa prática chega a ser imoral. Afinal, nenhum ser humano tem, nem deve ter, o poder de decidir quando alguém deverá morrer. Principalmente em se tratando de um doente que, por estar nessas condições, desperta a piedade geral. Os que defendem a eutanásia argumentam que através dela a pessoa poderá se livrar de seus terríveis tormentos, nem sempre suportáveis com resignação.

Além disso, ela aliviaria as tensões naturais dos parentes quanto ao estado do seu ente querido. Sua aplicação seria feita por métodos indolores e rápidos. Há, também, os que defendem que o doente seja consultado se quer ou não continuar vivendo (como se em sua aflição ele tivesse condições de decidir algo de tamanha gravidade com a serenidade requerida).

Os que se opõem à chamada "morte piedosa" contra-argumentam com a rapidez dos avanços da Medicina. Moléstias hoje consideradas incuráveis poderão ter cura no dia seguinte ao da "execução" do doente. Muitos tipos de câncer, por exemplo, que levavam inexoravelmente ao desenlace fatal, hoje já são curáveis ou controláveis.

Transplantes cardíacos, anos atrás, não passavam de meras experiências médicas. Hoje, centenas de pessoas têm corações alheios pulsando em seus peitos e levam vidas produtivas e verdadeiramente adaptadas às suas peculiares condições. A pergunta que os médicos se fazem amiúde é: "Quando um paciente deve ser dado como desenganado?". Isto é muito relativo.

Há relatos na literatura médica de recuperações consideradas "miraculosas", embora elas não sejam a regra, mas raríssimas exceções. E se após aplicar a eutanásia numa pessoa, uma posterior autópsia revelar que o profissional que a atendia se equivocou no diagnóstico ou até no tratamento? Como se vê, esta é uma questão para muita reflexão, por envolver a coisa mais preciosa que existe no universo: a vida e, em especial, a humana.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 22 de dezembro de 1988)

Saturday, May 19, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O mundo está carente de líderes, aqueles autênticos, naturais e, sobretudo, providenciais, que abram mão dos interesses pessoais e de tolas mesquinharias, como riqueza e poder, em favor das grandes causas. Carece de estadistas, que tenham serenidade e clarividência na condução dos povos. Abundam, isto sim, populistas, vazios, demagogos, sem mensagens e sem ideais, aventureiros que querem apenas se dar bem, às custas da miséria de milhões. Karl Krause tem uma observação bastante lúcida a respeito: “Em outros tempos, os cenários e decorações eram feitos de papelão e os atores eram autênticos. Hoje, os cenários e decorações são, fora de qualquer dúvida, reais, e os atores são feitos de papelão”. Daí esse panorama lamentável, que observamos por toda a parte, de egoísmo, miséria, violência e corrupção. Que tal abraçarmos as grandes bandeiras de luta, os elevados ideais de paz, justiça e igualdade e justificarmos nossa passagem pelo mundo!

Meu eco através do tempo


Pedro J. Bondaczuk

Ecos, tênues ecos dos meus agudos apelos
e súplicas, e rogos e lamentos,
perdidos entre outonais meses de abril.

Tentativa, inútil,
de fugir do Tempo,
da sua fúria deletéria,
da inexorável degeneração.
De deter o curso da Terra,
de reter o sol em seu eixo,
de paralisar calendários e relógios.

Inútil faina, vã lamentação!
Incontrolável marcha das horas!
Incontida torrente de fel e cal!

Carrasco dos ideais e sonhos,
feitor da ditadora morte:
ele, sempre ele, insensível Tempo!

Ecos...Num pátio, perdido nos anos,
soam risos cristalinos e inocentes
do feliz menino que um dia fui.

Nas ásperas pedras de perdida rua
de pacata, fantasmagórica cidade,
um gato preto busca companhia.
E, em surdina, o som soturno e irritante
dos meus incertos e trôpegos passos,
cambaleantes, desarmônicos, sem ritmo,
ecoam, sombrios, murmúrios de angústia,
nas paredes sujas de mofados becos.

Calidoscópio confuso de lembranças...
Rostos que o Tempo, feroz, deformou.
Sombras furtivas de queridos finados.
Recordações, confusas, dos meus oito anos.
Ecos...Contínuos e soturnos ecos
do que já fui e do que jamais serei...

(Poema composto em São Caetano do Sul, em 6 de agosto de 1964).

Friday, May 18, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A dúvida inibe as ações, suprime a confiança e faz com que se fracasse nas empreitadas nas quais se tenha tudo para ser bem-sucedido. Claro que não defendo que sejamos inocentes, crédulos, sem senso crítico ou de realidade. Proponho, sim, que tenhamos convicções firmes, fundamentadas no conhecimento, na informação e na razão. O filósofo Will Durant, em seu clássico “Filosofia da Vida”, observa: “A fé é coisa mais natural que a dúvida – e mais fácil. A dúvida inibe e contrai; a fé expande, melhora o apetite e a circulação do sangue; todos os cépticos digerem mal. Daí o otimismo, forma de fé, ser mais espontâneo e espalhado que o pessimismo, forma da dúvida”. Só não se pode confundir otimismo com alienação, com fuga da realidade. Quem tem fé não acha que tudo no mundo é perfeito (sabe que não é), mas acredita que as boas ações conseguem melhorar, e muito, o que é injusto, desumano e corrompido.

Genial, criativo e rebelde - V


Pedro J. Bondaczuk

(Continuação)

MAU ALUNO DE MATEMÁTICA

Albert Einstein foi gênio na mais completa acepção do termo, naquela conotação criada pela gíria do povo e posteriormente consagrada pelos dicionaristas: a de detentor de altíssimo grau, de capacidade mental criadora em qualquer sentido; de indivíduo de extraordinária potência intelectual.

Não se limitou a atuar em uma ou duas disciplinas, mas participou ativamente até mesmo da política, área que em geral causa horror e repulsa aos cientistas. Exerceu-a, contudo, no âmbito mais grandioso da atividade, sem defender meros interesses pessoais e privilégios descabidos ou exercer qualquer espécie de militância, de caráter ideológico. Via as coisas do alto, sem preconceitos e sem dogmatismo, com amplitude ilimitada.

Sobre a criação de um Estado judeu na Palestina, por exemplo, Einstein foi um precursor. Já em 1929 escrevia ao pioneiro sionista e amigo particular Chaim Herzog, um dos “pais” de Israel: “Se formos incapazes de achar um caminho para uma cooperação honesta e tratados honestos com os árabes, então não teremos aprendido nada durante nossos dois mil anos de sofrimentos e mereceremos tudo o que nos vier”.

Parece que nesse sentido, porém, os israelenses não aprenderam muita coisa (ou quase nada). O Oriente Médio continua sendo o grande “foco infeccioso” de intolerância e de incompreensão”, eterno problema para os que acreditam na paz e na cooperação internacional. Décadas antes dos acontecimentos atuais, o gênio já havia detectado esse perigo e previsto que isto poderia acontecer.

Dizem que Albert Einstein, em seus tempos de escola, não foi aluno dos mais brilhantes. Afirmam, até mesmo, que a disciplina em que encontrava maiores dificuldades de aprendizado era, justamente, a Matemática, que viria a se transformar na sua ferramenta para criar suas revolucionárias teorias.

Caso isso seja mesmo um fato e não apenas mais uma das tantas lendas que são criadas em torno de pessoas famosas, nos enseja uma conclusão pertinente a estas considerações. Ou seja, que a genialidade não tem época para se manifestar e jamais prescinde de fatores como esforço, autodisciplina e motivação, entre tantos outros.

A impressão que a biografia de Albert Einstein nos deixa é a de que ele foi, sobretudo, um homem feliz e plenamente realizado. De um indivíduo que, embora gozando de sólido e incomparável prestígio mundial, não via mal algum em brincar, de vez em quando, com os fotógrafos, e até de fazer caretas para câmeras indiscretas, conforme registra a maioria das fotos do notável físico divulgadas por jornais e revistas.

Foi o próprio cientista que escreveu, no livro “Como Vejo o Mundo”: “Aquele que considera a sua vida e a dos outros sem qualquer sentido, é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”. Talvez a chave da genialidade, ou da maior ou menor inteligência, esteja na postura que se adota face à realidade e não no tamanho da massa cerebral, ou na quantidade maior ou menor de neurônios ou de células gliais.

Talvez seja a consciência do papel que cada um tem a desempenhar no Planeta. Talvez se encontre na satisfação de realizar alguma obra, não importa seu tamanho ou duração, e sempre da melhor maneira que ela puder ser feita. Talvez resida na participação ativa (jamais como mero e indefeso espectador) nos acontecimentos, atuando de modo a modificar, ou pelo menos atenuar, os atos que possam trazer prejuízos aos outros e melhorando, sempre que possível, os que beneficiem à coletividade.

Quem sabe, agindo assim, a maioria de nós não se surpreenderá com o próprio potencial, muitas vezes anestesiado por um frio e insensato pessimismo, quando não por bovina resignação. Talvez até cheguemos a topar com a mesma perplexidade revelada por Albert Einstein, quando constatou: “O que há de incompreensível no mundo é ele ser compreensível”.

FIM

(Matéria publicada na página 27, Especial, do Correio Popular, em 12 de dezembro de 1985).

Thursday, May 17, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A omissão é a mais perniciosa das atitudes, pois o omisso se torna um peso morto e inútil para a família, para a comunidade, para o país e para a humanidade. Chega a ser pior do que quem age em sentido destrutivo, pois contra este a sociedade tem defesa, baseada nas instituições e na lei. O humanista e filósofo alemão Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz de 1952, afirmou a esse respeito: “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade”. Ou seja, pelas que nada fazem para melhorar a vida da comunidade, mesmo que estejam sendo prejudicadas e ameaçadas. São as que esperam que os outros façam tudo por elas, sem moverem uma só palha por qualquer causa.

Genial, criativo e rebelde - IV


Pedro J. Bondaczuk

(Continuação)

TRAJETÓRIA DE EINSTEIN

Pessoas mal informadas poderiam perguntar: “Afinal, quem foi e o que fez de tão importante esse tal de Albert Einstein, para ser classificado de gênio”? Outros, de cultura apenas enciclopédica, poderiam confundir o físico com um outro alemão, como ele, de sobrenome igual (embora sem nenhum parentesco), cujo prenome era Alfred e que também se naturalizou norte-americano.

Referimo-nos ao musicólogo, nascido em München em 1880, que morreu na década de 50, nos Estados Unidos, cuja vida e obra tiveram pouca repercussão internacional. Alfred destacou-se como autor de livros sobre os mestres da música. Suas obras mais conhecidas são: “O Mafrigal Italiano” (em três volumes), “Mozart, seu Caráter e sua Obra” e “Shubert, um Retrato Musical”.

Embora o nome desse outro Einstein conste em todas as boas enciclopédias, ninguém jamais cogitou da possibilidade dele ser gênio. E provavelmente não o foi. Quando morreu, na cidade de El Cerrito, na Califórnia, em 1952, sua morte quase não causou repercussão, nem mesmo no campo da música.

Já Albert revolucionou a Física, tornando-se mais importante, inclusive, do que Isaac Newton. Desenvolveu a “Teoria da Relatividade” e deu outras tantas contribuições para o desenvolvimento da ciência, inclusive na matemática. Foi um homem engajado, politicamente, além de ferrenho pacifista.

É interessante destacar, em sua biografia, o fato de Albert Einstein ter assumido três cidadanias diferentes ao longo da vida. Em 1898, por exemplo, ele, que era alemão de nascimento – nasceu na cidade de Ulm, em 1879 – naturalizou-se suíço. Em 1933, quando o nazismo começava a mostrar a sua face odiosa, na Alemanha (para onde havia retornado em 1913), emigrou para os Estados Unidos, assumindo a cidadania norte-americana sete anos depois, em 1940.

Albert Einstein formou-se em 1896, aos 17 anos, no Instituto Politécnico de Zurique, na Suíça. Assumiu, pouco depois, o comando do Departamento Nacional de Patentes desse país. O cargo proporcionou-lhe, entre outras coisas, tempo para empreender os primeiros estudos que o levariam a desenvolver sua revolucionária teoria.

Em 1905, pesquisou o movimento browniano e o efeito fotoelétrico, tendo aplicado, neste caso, a hipótese quântica, teoria desenvolvida por Max Planck, para fundamentar suas pesquisas. Foi nesse período que Einstein lançou os fundamentos da sua futura “Teoria da Relatividade”, ao concluir que a luz podia ser decomposta em ínfimos corpúsculos, os “fotons”, que por sua vez apresentam um “quantum” de energia.

Em 1913, o físico regressa à Alemanha, em plena efervescência política, no ano que antecedeu ao início da Primeira Guerra Mundial. Aceitou convite para lecionar no Instituto Kaiser Wilhelm, de Berlim, onde seu gênio se revelou e floresceu. Em 1921, Albert Einstein foi indicado e conquistou, com toda a justiça, o cobiçado Prêmio Nobel de Física.

Albert Einstein, porém, embora físico, não se enquadrava no estereótipo do cientista, supostamente desligado da realidade social e política do seu tempo. Pelo contrário. Deixou claro, em quase todos os livros que escreveu, que tinha singular fascínio por sua condição humana. O mistério que mais o intrigava era o da vida, que assegurava amar acima de tudo.

Einstein participou ativamente de movimentos políticos, especialmente os em defesa dos direitos humanos, numa época em que a questão não despertava a consciência de ninguém. Era um pacifista convicto e ardoroso defensor da causa sionista.

Durante o período de caça às bruxas do macartismo, nos Estados Unidos, na década de 1950, quando muitos artistas e intelectuais norte-americanos foram presos ou tiveram as carreiras comprometidas por suas pretensas idéias esquerdistas, o físico não se omitiu, como fizeram (comodamente) vários outros cientistas e homens públicos. Denunciou, de forma incansável, a violação dos direitos humanos dos perseguidos, pela imprensa, em artigos, conferências, palestras e por todos os meios ao seu alcance.

Quando em 1933 o nazismo emergiu na Alemanha, Einstein não teve dúvidas em largar tudo o que tinha, em abandonar suas pesquisas no seu país natal e em interromper uma brilhante carreira acadêmica para emigrar. Foi, até, uma questão de prudência. Afinal, era de uma família judia e o ditador Adolf Hitler nutria ódio particular aos judeus, os quais tentaria exterminar no que ficou conhecido como “Holocausto”.

Na verdade, o cientista considerava-se cidadão do mundo, antes de ser alemão. Primeiro, fixou residência na França. Posteriormente, morou na Bélgica e na Inglaterra para, finalmente, encontrar o local que julgava ideal para viver: os Estados Unidos. Emigrou para esse país numa situação invejável, privilegiada, com emprego garantido no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, instituição à qual permaneceu vinculado para o resto da vida.

(Continua)