Tuesday, January 31, 2012










O fabulista francês, La Fontaine, escreveu: "Como é bom ter um amigo verdadeiro! Procura os nossos desejos no fundo do coração, poupando-nos o pudor de sermos nós a revelá-los". Mas não tenho um só, o que já seria uma façanha nestes tempos angustiosos e incertos de violência e de desamor. Nem somente dez, cem, mil. Tenho dezenas de milhares! Talvez mais! Cada um deles mais fiel, mais leal, mais prestativo e mais doce do que o outro! Pode haver generosidade maior do que estas amizades?! Claro que não! Minha gratidão, por conseqüência, só poderia ser proporcional! Muito obrigado pelo carinho e pelo prestígio, queridos amigos. Vários, nos últimos dias, anunciaram seu desligamento do Orkut. Espero que, nem por isso, deixem de ser meus amigos. Contatem-me por e-mail, que responderei, sempre, com o maior prazer. E contem sempre e sempre e sempre comigo, para o que der e vier.

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Espera-se bom senso

Pedro J. Bondaczuk

Os olhos e os corações dos povos do mundo, pelo menos das pessoas que têm a exata consciência do que a corrida armamentista nuclear representa de risco para toda a humanidade, estarão concentrados, hoje, na cidade suíça de Genebra. Ali, dois líderes, representando duas concepções antagônicas de vida, estarão tentando superar uma cordilheira de obstáculos e demonstrar, um ao outro, que embora tão diferentes em seus objetivos e métodos, podem conviver pacificamente, sem lançar mão da mútua agressão para solver suas pendências.

Enquanto Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev conseguem romper o gelo de seis tormentosos anos de um relacionamento deteriorado e apodrecido entre as superpotências, iniciados com a estúpida invasão soviética ao Afeganistão, determinada por um líder com "know-how" nesse expediente, o truculento Leonid Brezhnev, grupos poderosos, em Washington e Moscou, fazem o possível (e até o impossível) para levar ao fracasso essas negociações que hoje se iniciam. Que outra explicação haveria, por exemplo, para o vazamento, aos jornalistas, da carta do secretário de Defesa norte-americano, Casper Weinberger, escrita a seu presidente? Nessa mensagem, recorde-se, o colaborador de Reagan aconselha que ele não se deixe influenciar pelo magnetismo pessoal de seu interlocutor e não renove o acordo Salt-II, conseguido em 1979 e que, segundo os observadores ocidentais e orientais, embora não homologado pelos respectivos Parlamentos, foi respeitado pelas partes até aqui.

Como explicar, por outro lado, a intensa celeuma despertada pelos soviéticos em torno dessa troca normal de comunicações entre colaboradores de um mesmo governo pregando, por causa disso, um endurecimento por parte de Gorbachev? É evidente que um possível tratado para pôr fim à corrida armamentista (e quem sabe, para reduzir significativamente os arsenais já existentes) irá contrariar ambições de grupos poderosos, tanto nos Estados Unidos, quanto na União Soviética, embora com motivações diferentes.

A indústria de armamentos, e mais do que ela, a que versa especificamente sobre os de caráter nuclear, envolve importâncias gigantescas em dinheiro. Milhões de pessoas sobrevivem hoje às custas da fabricação de artefatos capazes de levar todos nós (e dez milênios de civilização) a um irremediável fim. É algo tão paradoxal quanto o próprio homem. São os dois instintos básicos do "homo sapiens", o tânico (de autodestruição) e o erótico (de preservação da espécie) aflorando em âmbito coletivo. Circulação e concentração de riquezas, por outro lado, implicam em poder. E os que conquistaram esse poderio às custas das distorções do relacionamento internacional, mesmo sabendo que o "equilíbrio do medo" é uma "roleta russa" capaz de nos exterminar a todos, aceitam o desafio. Mas envolvem nessa maluca aposta não apenas a si próprios --- o que, se fosse assim, até seria perdoável, embora não recomendável.

Arriscam, isto sim, bilhões de seres inocentes, a maioria dos quais sequer tem noção do grande risco a que o Planeta todo está exposto, apenas porque duas sociedades resolveram brincar de deuses. Decidir tomar em suas mãos o destino de um Planeta que não criaram, que ajudaram a tornar um pouco mais insuportável e que, num assomo de paranóia, pretendem destruir de vez.

É por isso que os olhares das pessoas de boa vontade estão voltados com tamanha ansiedade para Genebra. Essa é a razão porque os corações dos que amam a vida, a despeito do pesadelo em que muitos a buscam transformar, estão torcendo para que a razão, aquilo que distingue o homem das outras feras, prevaleça sobre o fanatismo ideológico e que Reagan e Gorbachev se deixem levar pelos seus mais sadios instintos. Os de sobrevivência, de vida grupal, de perpetuação da espécie e de solidariedade entre seres iguais. As ideologias, por mais obcecantes que sejam, não conseguem obscurecer no ser humano aquilo que ele possui de melhor, se houver uma vontade consciente por trás dele. E essa é a principal torcida dos que ambicionam, acima de qualquer outra coisa, a paz entre todas as nações. Que apenas prevaleça o bom senso e nada mais.

(Artigo publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 19 de novembro de 1985)

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Moral ou imoral? Natural

Pedro J. Bondaczuk

O assunto “sexo”, por muitos e muitos anos – até bem recentemente – foi tido e havido como tema tabu. Bastava que alguém mencionasse o assunto, mesmo que de passagem, e fosse em que contexto fosse, para ser de imediato reprovado pelos que o cercavam. A simples menção a esse ato natural, naturalíssimo, instintivo e essencial à vida (afinal, é a sua origem) era considerada “imoral”. Havia (e em alguns círculos ainda há) muita hipocrisia em torno do assunto. As pessoas poderiam “praticar” o sexo (só faltava proibir isso!), reservadamente, mas... ai de quem ousasse falar a respeito!
Em literatura o assunto era proibido. Proibidíssimo. Muitos livros (mas muitos mesmo) notáveis obras-primas da literatura mundial – hoje consagradas, pelo público, e consideradas clássicas – foram proibidos por décadas pelas autoridades, com prejuízos enormes para seus autores e para os editores que ousavam publicá-los. E os que não sofriam essa proibição oficial, chegavam às mãos de raríssimos leitores. Por que? Por falta de sanção, e da conseqüente autorização, de pais, de educadores, de líderes religiosos etc. O instintivo, o indispensável, o natural era tido e havido como vicioso, pecaminoso e, sobretudo, imoral.
Claro que o sexo sempre esteve presente em literatura, e em todos os gêneros, mas, e por muito tempo, era apenas insinuado, sugerido de forma sutil, mediante inúmeros artifícios, metáforas e eufemismos. Apenas não era “explicitado”. Sua prática ficava implícita nos enredos. E esse caráter de mistério, de algo proibido, excitava a imaginação, notadamente dos jovens e dos adolescentes, muito mais do que o mais pornográfico dos textos atuais. O tiro, portanto, saía pela culatra. Os livros proibidos eram os mais procurados. Pudera!
Ainda hoje há muita discussão, por exemplo, sobre o que é meramente erótico e o que é pornografia. Em ambos os casos, o escritor aborda o sexo em seus diversos aspectos, principalmente no da sua consumação, o ato sexual em si. O que os diferencia? No fundo, no fundo, nada! É somente questão semântica. Diria que o bom-gosto na linguagem empregada. E só.
Talvez a diferenciação do trato de uma transa em um texto classificado de erótico e em outro tido como pornográfico esteja nem tanto na forma metafórica e até lírica de se expressar de um e na expressão rude e desbocada de outro. Talvez esteja na forma de se tratar a mulher. No primeiro caso, ela é colocada como musa inspiradora e reverenciada como tal, como ser humano precioso e nobre que é. E no segundo, não passa de mero “pedaço de carne” que existe, apenas, para o prazer masculino. Mas até essa diferenciação é contestável.
Bem, esse assunto é extenso, complexo, fascinante e sumamente polêmico, com muitos aspectos a considerar, e pode render páginas e mais páginas sem que venha a se esgotar. Minha pretensão, porém, não é a de produzir um ensaio a propósito. Esta introdução, inusitadamente longa, é apenas para informar o leitor que um livro proibido na Inglaterra por 32 anos, considerado “pornográfico” e “imoral”, e que hoje é visto como obra-prima da literatura mundial, está sendo relançado no Brasil. Refiro-me ao romance “O amante de Lady Chatterley”, do poeta e prosador David Herbert Lawrence, mundialmente conhecido como D. H. Lawrence.
Trata-se de edição muito bem cuidada, a cargo da Companhia das Letras, com primorosa tradução de Sergio Flaksman e ainda mais valorizada por um ensaio a propósito da escritora Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2007.
Leiam-no, porque se trata de um romance que vale a pena ser lido. Mas não esperem descrições detalhadas de sexo explícito, porquanto irão se decepcionar. Lawrence trata, nesse livro lançado em 1920 (e cuja venda foi liberada na Inglaterra apenas em 1952), do relacionamento extraconjugal da principal personagem, Constance, com o empregado de sua mansão, Oliver, com delicadeza, lirismo, beleza e bom-gosto. Aí é que está seu principal mérito. Ou seja, tratar de um tema aparentemente escabroso, com serenidade, grandeza, beleza e bom-gosto.
Quem se escandalizou com esse livro (e muitos parecem ter se escandalizado com ele), talvez tivesse um enfarte se lesse a obra, por exemplo, de um Henry Miller, com sua trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, que, ademais, sequer pode ser classificada de pornográfica. Imaginem se eles lessem os romances de uma Adelaide Carraro! E se acessassem um dos milhares de sites especializados em pornografia, que existem em profusão, internet aforas!
Embora o enredo gire em torno de um adultério, no caso o da personagem Constance com o empregado Oliver, este era não somente do conhecimento do marido, como consentido por ele. Mais: sugerido e incentivado pelo suposto “traído”. Explico (tomando o devido cuidado de não revelar o desfecho, para não estragar sua surpresa, caro leitor). Constance Reid, bela mulher, jovem e cheia de vida, casa-se com o oficial inglês, Clifford Chaterlley. Todavia, mal o casal terminou a lua-de-mel, o soldado é chamado de volta ao quartel e enviado para um campo de batalha, pois na época estava no auge a Primeira Guerra Mundial.
O homem é gravemente ferido. Retorna inválido, não apenas sem poder andar, tendo que se valer de uma cadeira de rodas para se locomover, mas perde, também, as funções sexuais. Clifford, todavia, amava demais a esposa, sem egoísmo e sem reservas. Além do que, era homem refinado e compreensivo. Preocupado, pois, com a situação de sua jovem e fogosa mulher, não somente autoriza, como recomenda a Constance que encontre um amante. De início, ela se escandaliza com isso. Depois, premida pelo instinto, pelo intenso desejo, começa a cogitar dessa possibilidade. Até que, finalmente, se rende aos apelos da carne.
Mas não escolhe nenhum sujeito atlético, algum Adônis, belo e atraente. Longe disso. Oferece-se e seduz Oliver, “baixo, feio e rude, mas que tem, para ela, a força da natureza”. O amante escolhido é empregado da mansão e vive numa cabana da propriedade. Bem... mais do que isso não vou revelar. Comprem o livro, magistralmente escrito, para saberem o desfecho.

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Monday, January 30, 2012










Cornelius Castoriadis propõe, no lugar do capitalismo selvagem que impera no mundo, uma sociedade autônoma e soberana, que determine tanto o nível de consumo, quanto o de produção das sociedades nacionais. Em entrevista, há algum tempo, à "Folha de S. Paulo", destacou: "O mercado capitalista não é nem transparente, nem racional. Uma sociedade autônoma e soberana exige um mercado e uma moeda que não assumam a função de instrumentos de acumulação como ocorre hoje. O mercado, no entanto, também tem seus limites. Os gastos públicos e os investimentos do Estado não podem ser determinados pelo mercado, ao contrário do que prega a mistificação neoliberal dos 'Chicago Boys'". Está evidente que o neoliberalismo, apregoado aos quatro ventos como panacéia para todos os males sociais do mundo, está ultrapassado e gera concentração de renda em pouquíssimas mãos, de um lado, e desmedida ampliação da miséria, do outro.

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Anote e Confira


TRANSMISSÃO DE JOGOS

Transmissão direta de Los Angeles de cinco competições, sendo que três delas envolvendo equipes brasileiras. No período da tarde, às 14h50, você poderá conhecer a equipe de basquete masculina da China enfrentando o Canadá. Mas as grandes emoções estão, mesmo, reservadas para o período noturno, a partir das 22h20. Primeiro há um jogo de vôlei feminino com duas das maiores escolas desse esporte: Japão e Peru. A seguir, o basquete masculino do Brasil (que teve duas atuações decepcionantes, mas tem potencial para superar essa fase) enfrenta um dos favoritos à medalha, o forte quinteto da Itália. Mas as emoções não param aí. O aplicado “scratch” canarinho de Jair Picerni mede forças, no futebol, com a Alemanha Ocidental. E para encerrar essa jornada você terá a raçuda seleção de vôlei masculino do Brasil enfrentando a favorita à medalha de ouro, ou seja, a equipe dos EUA. Quanto ao canal, você tem quatro à sua escolha: TV Record, canal 6; Rede Globo, canal 12; Rede Bandeirantes, canal 13 e Rede Manchete, canal 15 em UHF.

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 22, “TEVÊ”, do Correio Popular, em 1º de agosto de 1984).

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Livro reabilita o Marquês de Sade

Pedro J. Bondaczuk


O marquês de Sade, ou Donatien Alphonse François, celebrizado como libertino, considerado um monstruoso psicopata e cujo nome foi usado para batizar uma psicopatia, o sadismo, "seria considerado um homem normal", caso vivesse nos dias de hoje. A tese é do escritor tunisiano Serge Bramly, autor do romance "O terror na alcova" (Editora Record), que gira em torno dos oito meses até aqui obscuros na vida desse personagem, ao mesmo tempo trágico e heróico, que desperta simultaneamente ira e piedade, por suas idéias e pela forma com que foi tratado, respectivamente. Trata-se do tempo em que permaneceu internado em Picpus, mistura de cárcere e de estalagem, onde alguns nobres foram instalados, às custas do Estado, à espera do momento de serem guilhotinados, no auge do Terror, em 1794, durante a Revolução Francesa.

Ao cabo da leitura do livro de Bramly fica no ar a pergunta: "Quem era mais desequilibrado, o marquês, cujo romance "Os cem dias de Sodoma" choca ainda hoje, (quando os horrores se tornaram banais), ou o regime que o puniu, que provocou na França um genocídio como poucos já perpetrados (comparável, guardadas as devidas proporções, ao Holocausto nazista, à carnificina do Khmer Vermelho no Camboja nos anos 70 ou à recente limpeza étnica na Bósnia)?". A história não tem sido justa com nenhum dos dois. Enquanto Sade é tido até hoje como um monstro, ele que não tirou vida alguma, a Revolução é citada como a fonte dos "Direitos Humanos", ela que violou o mais sagrado deles: o à vida.

Serge Bramly, em entrevista publicada em "O Globo", enfatiza que a "utilização do seu nome (o de Sade, para batizar o sadismo) é um pouco exagerada". Assegura que "no caso do termo sado-masoquista, ele seria muito mais 'maso' do que 'sado'. Enfatiza que "é importante ressaltar a diferença entre o que ele viveu e o que escreveu. O que viveu foram práticas sexuais relativamente banais. Já o que ele escreveu, isso sim, é sadismo. Para ele, se você não é capaz de exprimir as idéias mais monstruosas como dormir com a própria mãe, não é livre. A verdadeira liberdade de pensamento só acontece quando destruímos todas as barreiras. Nesse sentido, sua filosofia e sua moral são libertárias". A tese pode ser discutível, mas é válida.

Em suma, Sade permaneceu quase 46 anos de sua vida preso --- a primeira das prisões ocorreu ainda no reinado do rei Luís XVI, em 1768, acusado de haver flagelado uma mendiga e a última foi seu internamento no asilo de loucos de Charenton, onde morreu aos 74 anos de idade – exclusivamente por suas idéias. Nesse aspecto, pode ser comparado ao escritor franco-indiano Salman Rushdie, autor dos "Versículos Satânicos", punido pela "fathwa" (sentença de morte islâmica) ditada pelo líder supremo dos xiitas, o iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini.

A diferença é que os líderes da Revolução Francesa tinham o poder de matar o marquês. Estranha-se que não o tenham feito, quando se sabe que mandaram para a guilhotina artistas, filósofos e cientistas notáveis, sem nenhuma vinculação com a política e a monarquia, como foi o caso do químico Lavoisier. Quem o "protegia" nos altos escalões? E por que? É um mistério que nunca foi esclarecido. Bramly narra em seu livro, inclusive, que os encarregados de escolher os que seriam guilhotinados estiveram em Picpus para buscar Sade para execução. Seu nome era o nono da lista. Viram-no, mas fizeram de conta que não estava ali. E no relatório que tinham que apresentar aos seus superiores registraram, simplesmente, que este não foi encontrado.

O autor de "O terror na alcova" trabalhou no Brasil, como fotógrafo de moda, entre 1971 e 1973. Sobre essa experiência, confessa: "Naquela época, eu tinha interesse específico pelo ritual da macumba, o transe nos terreiros do Rio. Eu era casado com uma brasileira, com a qual tenho uma filha. Acabei fazendo um livro sobre macumba. Acho que, na época, Sade no Brasil era uma resposta à ditadura, um exemplo de liberdade". Embora seu livro se trate de um romance, Serge Bramly garante que se manteve rigorosamente fiel aos documentos referentes à vida do marquês e às suas idéias.

O número de pessoas guilhotinadas a mando dos líderes da Revolução Francesa, especialmente do temível Robespierre – chamado no livro de Serge Bramly de "O Incorruptível" – é desconhecido até os dias de hoje. A contagem das execuções sumárias, feitas após simulacros de julgamentos, baseados em acusações vagas, sem que os acusados tivessem respeitado seu sagrado direito de defesa, parou quando chegou aos vinte mil. Quantas foram, de fato, as vítimas? Cinqüenta mil? Setenta mil? Cem mil? Mais? Menos? Ninguém sabe. Talvez nunca se venha a saber.

Registros da época especulam que a intenção dos sanguinários revolucionários era a de executar dois milhões de franceses, para através dessa sangria, "purificar os humores" da pátria. Os revolucionários fizeram da guilhotina uma ferramenta "didática". Pretendiam impor-se pelo medo. Quando as pessoas acostumaram-se às execuções – o homem acostuma-se com tudo, até com o horror – estas foram tornadas mais chocantes e copiosas. O terror tinha que ser mantido a qualquer preço.

Robespierre acabou sendo vítima da própria loucura. Também foi guilhotinado, como muitos de seus desafetos ou a maioria inocente que morreu sem culpa e sem haver cometido qualquer delito. Quem foi mais monstruoso: Donatien, que expunha idéias repugnantes em seus livros, mas cujas práticas seriam consideradas inocentes e até normais (posto que exóticas e não convencionais) nos dias de hoje, ou o líder revolucionário, que mandou tanta gente para o patíbulo?

Serge Bramly, com base em documentos da época, faz o seguinte relato sobre as execuções, em determinado trecho do livro "O terror na alcova": "A maior parte daquele sangue escorre entre as tábuas separadas da plataforma. Certa tarde, como as execuções sucediam-se incessantemente e caíra uma tromba-d'água, o sangue derramado, misturado à chuva, formou uma imensa poça aos pés do cadafalso. O solo encharcado não absorvia mais nada e uma lama vermelha espalhou-se por toda a Place de la Révolution. Atraiu dezenas de cães vadios, que começaram a lamber o delicioso líquido... O sangue deixou-os bêbados e provocou entre eles uma briga feroz e generalizada".

E Bramly prossegue na narrativa: "Aqueles demônios chafurdavam nas poças, mordiam uns aos outros e fugiam, em meio a terríveis latidos, por entre as pernas dos espectadores apavorados. Durante muito tempo, foram vistos correndo pelas ruas, cobertos de um abjeto lodo avermelhado. Conforme uma testemunha, encontraram no dia seguinte marcas de sangue, do outro lado do Sena, inclusive na parte alta da Rue de Bourgogne". Este é um caso típico em que a realidade é muito mais chocante do que a mais delirante das ficções. Mesmo que esta seja a relatada pelo autor dos "Cento e vinte dias de Sodoma", "Justine" e "Filosofia de Alcova".

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Sunday, January 29, 2012











De acordo com Cornelius Castoriadis, um dos mais ácidos críticos do comunismo, "o capitalismo não resolveu os problemas mais básicos da humanidade". É possível, até, que os tenha colocado num beco sem saída. Teoricamente, o sistema é regido pelo mercado livre e por sua lei natural de oferta e procura. A ONU constatou que um terço da população mundial é de jovens de até 15 anos. Portanto, há necessidade premente de se arranjar ocupação para vários milhões desses indivíduos que anualmente atingem a idade de trabalhar. Há um desequilíbrio no mercado, com mais oferta de mão-de-obra do que procura. Nestas circunstâncias, os salários baixam. Como eles constituem a renda da maior parte da humanidade, o poder aquisitivo despenca, reduzindo o consumo. E para que os preços não se aviltem, a produção é igualmente diminuída. Com isso, o que cresce é apenas a miséria e a concentração de riquezas em poucas mãos.

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Mário Soares recupera prestígio


Pedro J. Bondaczuk


O eleitorado português, mais uma vez, deu uma demonstração de sabedoria política, nasx eleições presidenciais realizadas neste domingo, ao adiar para um segundo turno a escolha do primeiro presidente civil em seis décadas de sua história. Embora manifestasse uma clara preferência pelo candidato de centro-direita, Diogo Freitas do Amaral, apoiado pelo partido do atual primeiro-ministro, o Social Democrata Aníbal Cavaco da Silva, reservou para si próprio o direito de pensar mais um pouco.
Concedeu ao favorito 46,31% dos votos, cifra insuficiente para que ele fosse declarado o vencedor. Ponderando, dentro de 60 dias, entre apenas dois postulantes (e não mais entre os quatro que se apresentaram nesta rodada) as chances do eleitor fazer a melhor escolha aumentam bastante.
Com o resultado desta votação, o ex-primeiro-ministro socialista, Mário Soares, cuja carreira parecia estar num irreversível declínio, principalmente após a derrota de sua agremiação nas eleições parlamentares de outubro passado, ressurgiu praticamente das cinzas.
Após uma campanha caracterizada pelo ceticismo geral, inclusive de muitos de seus correligionários, e de um entusiasmo incomum de sua parte, eis que ele emerge das urnas com amplas possibilidades de cumprir o seu maior objetivo político: tornar-se o primeiro presidente civil de Portugal em seis décadas.
Até a semana passada, todas as pesquisas de opinião no país previam um novo vexame eleitoral de Mário Soares. Ele estava situado em 3º lugar nas preferências, abaixo de um dissidente do seu partido, Francisco Azenha, que contava, ainda, com o apoio do atual chefe de Estado, Antonio Ramalho Eanes.
Na sexta-feira passada, portanto a apenas 48 horas da votação, o candidato comunista Ângelo Veloso retirou-se da disputa. E convocou os seus eleitores a votarem em Azenha, numa clara manobra contra o ex-primeiro-ministro. Mas não são os joguinhos dos políticos e nem as suas manobras por baixo do pano, por mais hábeis que sejam, que decidem eleições.
O que conta, de fato, é a decisão do eleitor, naquele instante mágico em que ele fica sozinho com sua consciência na cabine indevassável. Nesse momento, ele é o grande soberano e faz valer, somente, a sua vontade. E foi o que aconteceu.
Doravante, as chances de Mário Soares, que até sexta-feira eram consideradas, virtualmente, nulas, crescem de tal maneira a ponto dele poder, inclusive, ser considerado o favorito no segundo turno. E explico porque.
Enquanto as forças conservadoras não apresentaram qualquer divisão nessa primeira fase, lançando um único candidato e obtendo, por conseqüência, o máximo rendimento da sua candidatura, as esquerdas entraram na disputa fragmentadas. Além de Francisco Azenha e de Ângelo Veloso, tinham a postulação da ex-primeira-ministra Maria de Lurdes Pintassilgo, que concorreu sem partido. E obteve parcela razoável do voto feminino, teoricamente destinada a Mário Soares.
Para o segundo turno, Freitas do Amaral continuará contando com o apoio da agremiação do premier Aníbal Cavaco da Silva. Mas não terá pela frente uma esquerda dividida. Nenhum analista político concebe que os dissidentes socialistas ou os comunistas de Álvaro Cunhal emprestem respaldo àqueles que têm um programa diametralmente oposto ao seu.
É evidente que uma eleição dessa natureza tem muito de lotérico. Muitas vezes, toda a lógica dos pactos e coalizões cai por terra quando as urnas começam a contar a sua verdade. Entretanto, mesmo que Mário Soares não logre recuperar o seu prestígio junto ao eleitorado, e que seja mandado por ele, compulsoriamente, para casa, para uma prematura aposentadoria política, não haverá de se retirar de cena melancolicamente.
Terá a chance, caso perca, de sair da vida pública com grandeza. A mesma que caracterizou toda a sua carreira de homem público desde os tempos em que amargou as agruras do exílio. Depois da volta por cima que deu, tudo o que vier, doravante, será lucro. E este poderá, até mesmo, ser total.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 28 de janeiro de 1986)


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Ainda riqueza e pobreza

Pedro J. Bondaczuk


O ex-chanceler argentino, Dante Caputo, observou, num discurso de abertura da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em 1988, que a humanidade jamais conseguirá viver em paz e harmonia enquanto houver um fosso profundo separando países ricos e pobres. Para ilustrar sua advertência, utilizou-se de uma imagem muito significativa. Disse que os passageiros de primeira classe de um transatlântico de luxo jamais poderão se sentir seguros se nos porões desse navio houver uma bomba prestes a explodir.

Argumentou, com lógica cartesiana, que se o artefato romper o casco da embarcação, com a explosão, esta, certamente, afundará, levando consigo, para o fundo do oceano, todos a bordo. Ou seja, tanto os passageiros de primeira classe, com sua empáfia e arrogância, quanto os de terceira, incluindo eventuais clandestinos que se escondam nos porões.

Esse é o perfil do mundo contemporâneo. Terminada a guerra fria, com o fim do comunismo no Leste europeu e, conseqüentemente, com o fim do antagonismo ideológico que colocou o mundo à beira da confrontação nuclear, não veio a tão sonhada e apregoada paz. Houve, apenas, uma troca de conflitos, o que é lamentável. A tal da globalização, em vez de dividir, de forma um pouquinho mais equânime, a riqueza coletiva mundial, concentrou-a, ainda mais, nas mãos das potências econômicas, em detrimento de países miseráveis, condenados à fome, ao atraso, à marginalidade, à ignorância, às epidemias e à conseqüente violência gerada pelo desespero.

Volto ao tema “riqueza e pobreza” atendendo solicitação de um dos meus leitores mais fiéis, que me acompanhou por mais quinze anos pelas páginas do jornal Correio Popular de Campinas, em que mantive, por uma década e meia, coluna diária de comentário de política internacional. Solicitou-me que abordasse o assunto não pelo enfoque individual, mas pelo coletivo, no de países. Claro que é impossível abordar assunto tão amplo, complexo e polêmico em algumas poucas linhas. Josué de Castro, por exemplo, escreveu, há 65 anos, todo um (memorável) livro, “Geografia da Fome” e abordou a questão da miséria “apenas” pelo aspecto da carência alimentar. E somente do Brasil. Imaginem o quanto seria preciso escrever para abordar só a fome no mundo!

A humanidade conta, neste início de século e de milênio, com uma quantidade de riqueza e de recursos tecnológicos como jamais contou em época alguma da história, a despeito de sucessivas crises econômicas internacionais. Sequer preciso citar dados estatísticos comprobatórios, já que qualquer pessoa medianamente informada e esclarecida poderá ter acesso a eles recorrendo ao “Google”. Há alimentos estocados, nos silos norte-americanos e das potências européias, suficientes para alimentar sobejamente cada indivíduo da Terra por um par de anos. Recordes de safras são batidos sucessivamente. Nos países desenvolvidos, as respectivas populações vêem-se às voltas com doenças causadas pela obesidade, ou seja, do excessivo consumo de comida, e não da fome.

E o que acontece nas comunidades nacionais paupérrimas, da África e da Ásia? Ocorre um fenômeno exatamente inverso. Milhões e milhões de pessoas morrem de inanição, ou estão condenadas a esse tipo de morte, caso não venham a ser socorridas a tempo. É, por exemplo, o que se verifica, atualmente, na região conhecida como “Chifre da África”, em especial a Somália, Quênia, Etiópia e Djibuti, onde 13,3 milhões de seres humanos, parte considerável dos quais crianças, não têm rigorosamente nada para comer. E as mortes se sucedem, configurando perversa tragédia, não inevitável, como cataclismos do tipo terremoto, furacão ou vulcão, mas “anti-natural”, posto que evitável e passiva de prevenção. Sinto-me mal, muito mal, apenas em abordar essa catástrofe. Mas não se trata de ficção, porém de fato palpávcel e comprovável, que depõe contra a tão propalada racionalidade do “homo sapiens” (ou “homo demens”, como o classificou Edgar Morin).

A tecnologia "encolheu" o mundo, reduzindo distâncias, aproximando povos, expandindo o conhecimento. As comunicações, os transportes, a eletrônica, a informática, a medicina etc. chegaram a um ponto de desenvolvimento tal, que a vida das pessoas teria tudo para ser extremamente fácil, agradável e feliz. E, sobretudo, longa. Teria... Mas não é. Nunca, em tempo algum, houve tanta miséria e desolação como agora. O ser humano se supera, a cada dia, em egoísmo, insensibilidade e alienação.

Os famintos do mundo são, na atualidade, em quantidade jamais imaginada pelo mais pessimista dos futurólogos. Além dos habitantes do “Chifre da África”, cuja situação é crítica, algumas centenas de milhões de pessoas mundo afora sofre em decorrência da fome e de suas seqüelas. Mais de 900 milhões de indivíduos são analfabetos. Um bilhão de pessoas não têm onde morar. Doenças de fácil prevenção, originadas da desnutrição e falta de higiene, ceifam multidões, em especial crianças. Epidemias e pandemias espalham-se Planeta afora. Enfermidades tidas como erradicadas (como a tuberculose) retornam com maior intensidade. Vírus até então desconhecidos, extremamente selvagens e letais, como o do Ebola, manifestam-se em paupérrimas comunidades africanas.

A humanidade foi dividida, aleatoriamente, em três mundos distintos e estanques, em termos de desenvolvimento econômico, social e cultural. Fala-se, ultimamente, de um quarto, o constituído por países absolutamente inviáveis, mas que existem e descem a ladeira da miserabilidade com rapidez estonteante nestes tempos de alta velocidade.

Josué de Castro, na introdução do seu livro “Geografia da Fome”, observou: “Interesses e preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado”. E isso ele escreveu em 1946! Esse panorama, hoje, é diferente? Não, não e não. O problema, por não ser resolvido, apenas se agravou, e muito.

A riqueza gerada por dois terços dos habitantes terrestres vai parar, invariavelmente, nas mãos do um terço restante, através da especulação financeira, apátrida e sem piedade, que se mundializou. E essa concentração de renda e recursos é cada vez maior, a despeito de planos, programas, promessas, juras, manifestações de intenções e conferências internacionais, que não passam de exercícios cínicos e inócuos de retórica.

O escritor D. H. Lawrence, célebre por seu romance "O Amante de Lady Chaterley", que teve sua obra censurada como "pornográfica" e "atentatória à moral" e que não viu o livro ser publicado na íntegra (o que ocorreria apenas após a sua morte), criticou os pressupostos baseados no "ter", em detrimento do "ser". Escreveu: "O que queremos é destruir nossas falsas, inorgânicas relações, especialmente com o dinheiro, e restabelecer nossa relação orgânica e viva com o cosmos, o Sol e a Terra, com a raça humana e com a nação e a família".

Imoral não é falar sobre sexo e erotismo. Imoral é deixar pessoas morrendo à míngua, enquanto temos mais do que precisamos e desperdiçamos. Qual a razão do patrimônio da humanidade – que são os recursos do Planeta – estar entregue a pessoas tão medíocres, sem princípios e sem idéias, que os vêm depredando de forma estúpida e sistemática? Sim, que me respondam a essa questão tão simples e objetiva... se alguém tiver resposta que se sustente!

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Saturday, January 28, 2012










O capitalismo selvagem que aí está é aberrativo e, caso não venha a se reciclar, tende a provocar convulsões sociais potencialmente incontroláveis. Cabe, mais uma vez, rediscutir a essência do conceito de Estado para redimensionar seu papel. Parece que as noções básicas a esse respeito se perderam no tempo. Foram ofuscadas pelas distorções e contradições dos que assumiram o papel de estadistas, mas sem muito talento para isso. Convém refletir sobre sua definição e uma das melhores é a do filósofo Thomas Hobbes: "Estado é uma multidão de homens unidos como uma pessoa por um poder comum, para a paz, defesa e vantagens comuns dos mesmos". Ou seja, conceitualmente, não se trata de um senhor, mas de servo de uma vontade consensual. Existe para servir, nunca para ser servido. Qual o Estado contemporâneo, todavia, que cumpre esse objetivo?

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Não entendo...

Pedro J. Bondaczuk



Não entendo...
o universo, o vácuo, o cosmos,
a arte, a filosofia, a vida, a morte,
o terrível, o sublime, o mal e o bem.

Duro, indevassável é meu entendimento
na interpretação do louco cotidiano,
incompreensão dos sentimentos gris,
das motivações, anseios e do sentimento.

Não entendo...
o comportamento cínico dos canalhas,
as vilanias, ostensivas ou camufladas,
a criminosa exploração do homem pelo homem,
o jogo social, viciado. Cartas marcadas!

Não entendo...,
a contaminação das fontes da poesia,
a corrupção dos sonhos e dos ideais,
a obsessão pelo juntar, amealhar e ter
o vicioso fascínio pela tirania e mesquinhez.

Quisera o império da justiça,
o signo escondido da verdade,
o delicadíssimo cristal do amor,
a suave luz da decência e da bondade.

Pois não entendo...
a razão desse mau comportamento,
da prevalência do baixo instinto animal.
Tanta dor, tanta mágoa, tanto sofrimento,
tamanho comprometimento com o mal!!!
Tanto néscio adulado, tanto pedante,
tanto pessimismo, tão crasso desalento!!!
Meu raciocínio é bruto diamante,
e se faz duro o meu entendimento.

(Poema composto em Campinas, em 4 de março de 1981).

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O vinho da vida

Pedro J. Bondaczuk

O que é literatura? Essa é uma pergunta recorrente, que me faço, amiúde, e que já respondi inúmeras vezes, sem que, todavia, nenhuma das minhas respostas, quaisquer das tantas definições que busquei dar, todas as caracterizações que procurei fazer, enfim, tudo o que disse e escrevi a propósito me convencesse. Sempre faltou alguma coisa. O que? Não sei. Se soubesse, preencheria a lacuna e nem pensaria mais a respeito.

Não faz muito, neste mesmo espaço, em uma de minhas tantas reflexões diárias (e põe tantas nisso!), indaguei: “A literatura tem alguma importância prática em nossa vida, ou não passa de mero passatempo (posto que muito agradável), uma espécie de refinado lazer?” E ponderei, antes mesmo de arriscar-me a dar uma resposta: “Sou suspeito (suspeitíssimo) para opinar, posto que vivo dela (da literatura, clarto). É o meio pelo qual obtenho meu sustento”.

Emendei, mais adiante, já que evito ficar em cima do muro e não temo em emitir opinião quando a tenho formada, mesmo que incompleta ou imperfeita: “Entendo, todavia, que a literatura é muito importante para a ‘fermentação’ de idéias, para o estudo do comportamento das pessoas e para nos indicar, sobretudo, o que não devemos fazer, caso tenhamos intenção de obter sucesso em nossas atividades e na convivência do dia a dia. Contudo, ela tem lá sua importância, mesmo que relativa. Nem é inútil, como acusam os que não sabem ou não gostam de ler, e nem essencial à vida, como pretendem os que a produzem”.

Para fundamentar essa opinião, citei o que escreveu a propósito o ensaísta escocês, Thomas Carlyle: “A literatura é o vinho da vida, mas não pode ser o seu alimento”. Claro que concordo com essa opinião. Caso não concordasse, sequer a citaria. Porquanto, a bebida, se tomada com moderação, nos dá prazer. Mas se ingerida em excesso... embriaga e não alimenta.

Não estou sozinho nessa busca de definição do “fazer literário” e de descobrir se tem ou não utilidade prática. E, se tiver, qual ela é? Separei dezenas de declarações a propósito, de escritores dos mais variados gêneros, épocas, países e tendências, embora não pretenda maçá-lo, caro leitor, com essa enxurrada de erudição. Cito, todavia, o que o argentino Ricardo Piglia pensa (ou não pensa, mas inquire) a respeito. Por que o escolhi, e não a outro qualquer? Por vários motivos. Um deles é que se trata de escritor da minha geração, meu contemporâneo. O outro (o principal deles) é que gosto do seu modo de escrever, do seu estilo, das suas idéias, da sua lucidez. E o outro, ainda, é que penso exatamente a mesma coisa acerca do que declarou.

Ricardo Piglia afirmou: “Para mim, a literatura é um espaço fraturado, onde circulam diferentes vozes, que são sociais. A literatura não está posta em nenhum lugar como uma essência; ela é um efeito. O que torna um texto literário? Questão complexa, à qual, paradoxalmente, o escritor é quem menos pode responder. Num certo sentido, um escritor escreve para saber o que é a literatura”. Pois é, escrevemos no afã de fazermos essa descoberta. Talvez, até, já a tenhamos feito e, contudo, não tenhamos certeza sobre nossas conclusões.

Ainda em referência ao meu texto, que citei anteriormente, ponderei, na oportunidade: “Se a literatura é importante na vida das pessoas (e estou absolutamente convicto que é), qual é seu verdadeiro papel no estudo dos seres vivos (principalmente dos humanos)? Para quê ela serve? Para divertir, ou para instruir, orientar, analisar e concluir?

Alguém pode, a esta altura, perguntar: ‘mas não temos a ciência para isso?’. Temos. Mas somente ela não basta. A vida não se restringe a leis naturais e imutáveis e nenhum ser vivo reage de forma absolutamente igual. Ela é sutil e não comporta análises mecânicas e genéricas. Para sua compreensão, são necessários exemplos, das várias formas de comportamento das pessoas. Ainda assim, somos incapazes de compreender em profundidade esse maravilhoso mistério, esse privilégio, essa magnífica aventura que é viver”.

E, mais uma vez, recorri a um nome ilustre para fundamentar o que afirmei. Dessa vez “convoquei”, para o papel de testemunha, o escritor, sociólogo e filósofo francês, Roland Barthes, que declarou a respeito: “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”. Pois é, e importa mesmo. E requer de quem a exerce não apenas rigor, correção (sobretudo na linguagem), mas, sobretudo, responsabilidade. Afinal, literatura não se faz oralmente, mas através da escrita.

Ponderemos. Se na conversação informal, naquela que utilizamos no dia-a-dia, no lar, no trabalho e em nossas relações sociais; a comum, trivial, corriqueira e na maioria das vezes eivada de incorreções vocabulares e gramaticais, e que quase nunca é policiada, temos enorme responsabilidade por tudo o que dizemos (embora sequer atinemos), dadas as conseqüências produzidas, muito mais importante se torna, é evidente, o que escrevemos, e como o fazemos. Nunca sabemos, por exemplo, em que mãos esses textos vão cair, qual o uso que deles será feito e, principalmente, por quem. Eles podem tanto nos engrandecer, como depor contra nós, quando não estivermos mais aqui, neste mundo (e provavelmente em nenhum outro) e, portanto, não pudermos nos defender ou justificar.

A tarefa da comunicação se complica, para muitos (e põe muito nisso!), quando feita através de texto. Implica, a priori, no conhecimento da grafia das palavras, das regras gramaticais, do significado exato de cada termo. A principal virtude de um bom redator, notadamente do escritor, é a clareza, seguida da concisão. É indispensável que se faça entendido.

Além disso, o que se escreve precisa ser interessante, tem que atrair o leitor, e prender a sua atenção. O comunicador (no nosso caso, o escritor) precisa, sobretudo, atentar para o essencial: o que vai comunicar e para quem. O que tem a dizer vai esclarecer os leitores, ajudar a formar uma opinião, servir de acréscimo ao seu acervo cultural, ou se trata, somente, de um conjunto de lugares-comuns, de um tosco rosário de críticas inconseqüentes, ou de um monótono desfiar de lamúrias neuróticas?

Caso não vá construir, ajudar ou orientar, o melhor é sequer escrever. A comunicação é importante demais para ser feita de forma desleixada, incompetente e desastrada. E Literatura é, antes e acima de tudo, a forma mais nobre e refinada de comunicação. É “o vinho da vida”, que dá prazer de fato a quem sabe apreciá-la, mas cujo consumo requer cautela, posto que “embriaga” e bagunça o tirocínio e a razão.



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Friday, January 27, 2012










O fracasso do comunismo, pelo menos na forma como foi praticado na extinta União Soviética e Leste europeu (e como é exercido na China, em Cuba, no Vietnã e Coréia do Norte, alguns de seus derradeiros redutos) e as gritantes distorções do capitalismo, como a manipulação dos consumidores, a existência de cartéis, monopólios e oligopólios e sua inaptidão para o atendimento de necessidades sociais mínimas, remetem o homem ao ponto zero na sua busca por um sistema ideal de Estado. Os que foram testados até aqui se revelaram inadequados. Foram os responsáveis pela perversa divisão entre grupos ínfimos, que compõem minúsculas ilhas de prosperidade, e vastíssimos continentes de miséria. Causaram tensões que redundaram das explosões demográficas e desembocaram nas guerras. John Le Carré disse, a respeito: "Agora que derrotamos o comunismo, vamos ter que nos voltar para a derrota do capitalismo". E vamos mesmo!

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Favelização das cidades


Pedro J. Bondaczuk


O processo de acelerada urbanização mundial é um dos graves problemas do nosso tempo, ao lado do tráfico e consumo de drogas, dos conflitos étnicos, da rápida degradação do meio ambiente e do estado pré-falimentar da ética, entre outros.

Estimativas das Nações Unidas dão conta de que, nos próximos cinco anos e meio, em 2000, cerca de 90 centros urbanos do mundo vão abrigar metade da população do Planeta. Ou seja, 3,2 bilhões de pessoas, já que se estima que a Terra terá, então, 6,4 bilhões. Nem é preciso ser urbanista para perceber que tamanha concentração de gente é nociva, irracional e até perigosa.

Há um aspecto prático a considerar: o da segurança. Não apenas no que se refere à contenção da criminalidade, que nessas megalópolis tende a se expandir crescentemente, mas até mesmo quanto à proteção dos moradores contra cataclismos, naturais ou provocados pelo homem.

Um terremoto numa cidade como São Paulo, Tóquio, Nova York ou Londres, apenas para citar algumas, produziria muito mais mortos do que se ocorresse numa região repleta de vilarejos. Mesmo que a soma dos habitantes fosse igual ou maior do que a da metrópole.

O Brasil não foge à regra mundial. Dotado do quinto maior território do mundo, o País, mesmo com seus 150 milhões de pessoas, é um enorme vazio. A população concentra-se, acotovela-se, disputa espaço e condições satisfatórias de vida em cerca de cem grandes e médias cidades. Oitenta e quatro por cento dos brasileiros vivem em zonas urbanas. Onde a racionalidade desse comportamento?

O que se observa, em decorrência dessa concentração populacional em uma centena de megalópolis, é a degradação desses aglomerados. E o fenômeno se verifica não apenas no Terceiro Mundo, mas em países que estão em estado privilegiado de desenvolvimento.

A queda do padrão de vida e o incremento da violência já são realidades em Paris, em Londres, em Roma, etc. Daí as Nações Unidas terem convocado, para junho de 1995, em Istambul, na Turquia, a 2ª Habitat, ou seja, Conferência Mundial sobre Assentamentos.

O tema (nem poderia ser outro), vai tentar projetar "O Futuro das Cidades", o que pode ser também o da espécie humana, caso não se comece já um movimento de dispersão populacional. O representante brasileiro nesse encontro, Jorge Wilheim, acentua: "A tendência, até o fim do milênio, é a favelização dos centros urbanos". Daí a necessidade de a opinião pública exigir providências para evitar a multiplicação dessas megalópolis. É uma questão até de sobrevivência.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 26 de maio de 1994).


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Riqueza e pobreza

Pedro J. Bondaczuk


As pessoas, em geral, apegam-se excessivamente às coisas. Esse tipo de observação é dos mais simples de se fazer: basta atentarmos não só para os que nos cercam, mas para a nossa própria atitude (salvo uma ou outra exceção). Esse tema, referente à riqueza e pobreza, à escandalosa opulência e ostentação e à escabrosa e agressiva miséria, é um dos mais abordados por pregadores de todas as religiões, por filósofos, por economistas, sociólogos, políticos e intelectuais de praticamente todas as disciplinas, ideologias e matizes, sem que haja sequer a mínima sombra de remota perspectiva de consenso. Também escrevi muito (e certamente ainda escreverei) a respeito, embora se trate de um assunto que me incomode, me enoje, me assuste e me faça descrer da racionalidade humana. O aprofundamento nesse tema, todavia, o seu tratamento indo fundo, às suas raízes, é, mesmo que não pareça, dos mais renitentes tabus.

Se você é pobre e aponta o dedo acusador para os sistemas que não apenas fazem vistas grossas, mas incentivam o escandaloso e absurdo acúmulo de riquezas em poucas e privilegiadas mãos, não tardarão a surgir vozes acusadoras, garantindo que sua posição, em defesa da justiça social, é fruto da sua inveja. Que, na verdade, você advoga em causa própria. Que, se fosse rico, não pensaria desse jeito e não defenderia nada disso. Pode até ser que tenham razão. Ou não.

Caso, no entanto, você seja afortunado – e nem precisa ser milionário, bilionário ou trilionário, mas ter fortuna razoável, que lhe garanta conforto e tranqüilidade e à sua família – e se defender teses redistributivas, é mais do que certo de que será desafiado da seguinte forma: “Se você está tão preocupado com a miséria e os miseráveis, por que não partilha os ‘seus’ bens com eles?”. Sim, por que não?

Intimamente, não há quem não esteja convencido que esse sistema concentrador de rendas e de recursos é perverso, insano, injusto e sem sentido. Todavia, tente mexer no “sagrado” princípio do direito de propriedade! Será imolado em praça pública, eliminado como se fosse uma peste que deva ser contida antes que se transforme em epidemia.

Quem tem, apega-se, apaixonadamente, a seu carro, à sua casa, a seu barco, a seus objetos de arte e, principalmente, àquilo que lhes possibilita adquirir todos esses objetos: o dinheiro. E, claro, tudo simultaneamente. Quem não tem nada disso, faz das tripas coração para ter esses bens, alçados em ideais supremos. Mais da metade do tempo de nossa vida gastamos na tentativa de conseguir “propriedades”, cuja posse vai determinar, sobretudo, nossa posição social, nosso “status”, a avaliação que os outros farão de nós. Pretextos não faltam para justificar essa atitude. Caso obtenhamos esses bens e tenhamos polpuda conta bancária, seremos vistos como empreendedores, como pessoas de elevada capacidade e bem-sucedidas, como vencedores, mesmo que para conseguir tudo isso tenhamos enganado, explorado, subjugado, humilhado e, em casos extremos, até matado milhares e milhares de pessoas.

Agimos como se da posse dessas propriedades dependesse a nossa sobrevivência. Não depende. Pelo menos, não de todas que nos empenhamos em conquistar. Ademais, o foco do problema não está nem mesmo nos bens em si, mas na sua “quantidade”. E na ação adotada para a sua obtenção. Precisamos de poucas, pouquíssimas coisas para viver. Para obter os objetos dos nossos desejos, contudo, não titubeamos em sacrificar valores que realmente importam: amor, amizades, solidariedade etc. Isto quando não transgredimos a moral ou as leis. Perdemos a grandeza com a perda da perspectiva.

Apesar de ser constatação óbvia, ao alcance do mais bronco dos mortais, muitos ainda se fazem de desentendidos e se esquecem que do mundo nada levamos. E nem viemos a ele para levar qualquer coisa, mas para deixar: idéias, obras, princípios e exemplos. Corre-se atrás de “riquezas” que não passam de quinquilharias e desperdiça-se um tempo enorme, precioso e irrecuperável, com o ato mesquinho de juntar, de acumular e de gozar de falsos e ilusórios prazeres sensoriais, em detrimento do essencial.

Viemos nus ao mundo e será dessa forma despojada que um dia o deixaremos. O profeta Maomé constata, com simplicidade e sabedoria: “A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz no mundo”. E isso não basta? Claro que sim! Pelo menos deveria bastar. Não somente é o bastante, como até sobeja. Afinal, só os atos de bondade nos garantem a única imortalidade possível: a da memória. O resto... são vidros, que confundimos com diamantes. Quantos, contudo, pensam dessa maneira? Ou melhor, quantos agem nesse sentido? Pensar nisso até que se pensa, mas... na hora de agir...

Porém, as coisas que tanto valorizamos, e que achamos que sem elas jamais seremos felizes, são enganadoras. Riqueza, por exemplo, ninguém possui de fato, já que tudo o que temos, no terreno material, tudo, rigorosamente tudo, é nosso transitoriamente. Ou seja, “nos pertence”, apenas, enquanto estivermos vivos. Ao morrermos, será do primeiro que se apossar desses bens (legal ou ilegalmente). Ou estou dizendo alguma inverdade? Ou alguém já levou para a sepultura tudo o que amealhou? E, mesmo que levasse (o que seria uma aberração), para o que lhe serviria?

Projetando o tema em um cenário mais amplo, coletivo, nacional e internacional, a mínima lógica nos indica que a maior riqueza que uma nação pode ter é o seu povo. E quanto mais esclarecido ele for, mais apto será para atuar em conjunto, num esforço concentrado, que é o único e árduo caminho do desenvolvimento. No panorama mundial, no do inter-países, não existem, por exemplo, as loterias que tornem povos inteiros ricos da noite para o dia, graças ao fator do acaso, num eventual golpe de sorte.

Não há quinas ou senas para nações. As sociedades nacionais fazem-se grandes, fortes e respeitadas pelo talento, pelo empenho e pela determinação de sua gente. E pelo tanto de justiça social que haja nessas sociedades. Este é o único meio para determinado povo se desenvolver. Não existem países poderosos com populações fracas, carentes, não instruídas, sem artes, ciências, tecnologias e culturas vigorosas, Caso existissem, a injustiça (pois haveria uma concentração de riquezas absurda nas mãos de uma minoria) seria tão aberrante, que em pouco tempo eles se dissolveriam no caos, na violência e na anarquia. Temos muitos exemplos de sociedades desse tipo, na África e na Ásia, em permanente estado de caos.

A absoluta maioria das pessoas vive sem saber por que e, principalmente, “para que”. Despende o melhor de sua capacidade e de suas energias, tanto físicas, quanto mentais e espirituais, em busca de miragens, de fantasias, de ilusões, ou seja, do que entendem como “riqueza”. Esta mensagem, divulgada há algum tempo pelo Greenpeace, na internet, deveria ser objeto de reflexão permanente, diária, de cada um de nós. Diz: “Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que dinheiro não se come”. Será preciso chegarmos a tanto para salvar nosso pobre Planeta, que pede socorro, sem que ninguém o ouça?! Se for, quando isso vier a acontecer (se vier), estejam certos: será tarde demais. Voltarei, certamente, ao assunto.

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Thursday, January 26, 2012







Por dentro da TV


FIM DO "BEM AMADO"

Depois de duas longas e bem sucedidas trajetórias (uma, como novela, e outra como seriado), o "Bem Amado" está mesmo chegando ao fim. No próximo programa, Odorico vai, finalmente, poder inaugurar o cemitério de Sucupira e o primeiro defunto já dá para imaginar quem será, não é mesmo? O prefeitão, depois de aprontar mil e uma trapalhadas, terminará nas mãos implacáveis do ex-cangaceiro Zeca Diabo. No ano passado, uma pressão exercida pelos telespectadores conseguiu salvar a série. Neste, entretanto, ninguém conseguirá impedir que ela saia do ar. A direção da Globo argumenta com os custos de "O Bem Amado", girando em torno de Cr$ 300 milhões por episódio. E como os tempos são de vacas magras...

GLÓRIA VIRANDO GAÚCHA

A convivência de Glória Pires com os gaúchos está começando a apresentar alguns resultados. A atriz está gravando em Porto Alegre a superprodução global "O Tempo e o Vento", baseada na obra de Érico Veríssimo, onde através da biografia de uma família é narrada a história do Rio Grande do Sul. Glória já está se acostumando ao típico chimarrão e até ganhou uma riquíssima cuia para tomar a bebida quando estiver no Rio. A atriz admitiu que está precisando prestar atenção redobrada durante as gravações do "Partido Alto", para evitar que sua personagem deixe passar um sotaque característico dos pampas. Mas nos intervalos, em conversas informais, ela não consegue evitar de achar tudo "muito trilegal, tchê!" Cuidado que isso pega que é uma "barbaridade".

AIZITA VOLTA À TV

Depois de um relativo tempo fora dos vídeos, Aizita Nascimento está retornando à televisão. Ela comanda o programa "Olho Mágico", na TV Gazeta, com aquela mesma bossa que sempre a caracterizou. É mais uma grande aquisição da emissora paulista, que conta atualmente com uma programação variada, para ninguém botar defeito.

MARÉ DE AZAR

Os artistas da Globo precisam mesmo se benzer antes de começar o seu trabalho. O que está acontecendo de acidentes com a turminha é algo até de assustar. Tirando alguns incidentes menores, como as queimaduras recebidas por alguns atores durante as gravações de "Vereda Tropical", já entraram no time dos engessados os seguintes artistas (dos que lembramos, é claro): José Lewgpy, Renato Aragão, Christina Mullins e Cláudia Raia. E na semana passada, por pouco o Roberto Battaglin ía engrossando esse rol. Ele caiu de sua moto e acabou ralando todo o braço. Apesar do susto, felizmente a coisa não passou só disso. Afinal, poderia ter sido pior.

DECADÊNCIA DE SILVANA

Nos próximos capítulos da novela "Vereda Tropical", a personagem Silvana (Lucélia Santos) vai ter toda a sua trajetória no enredo transformada. Além de perder a companhia de Luca (Mário Gomes), acabará indo parar numa boate da Boca do Lixo em São Paulo. Ali Silvana fará amizade com dois artistas da noite, personagens que serão vividos por Leina Krespi e Carlos Leite. Essas cenas, inclusive, deverão começar a ser gravadas nesta ou na próxima semana. A novela vai, portanto, sofrer uma reviravolta total.

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 22, editoria TEVÊ, do Correio Popular, em 23 de outubro de 1984).

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Incansável busca

Pedro J. Bondaczuk

O sucesso, seja no que for que fizermos (óbvio) será sempre bem-vindo. Sua obtenção é objetivo permanente em tudo o que fazemos. Ninguém entra em um empreendimento, seja de que natureza for – um negócio comercial, a busca de um amor, um relacionamento harmonioso e estável, a redação e publicação de um livro, etc. – para fracassar. Caso tenha a idéia de fracasso em mente, mesmo que remota, é melhor nem começar nada.
O sucesso é sinal de que fomos competentes, previdentes e aplicados em determinado empreendimento. Todavia, temos que ter em mente que ele não é duradouro (nada é). Todo êxito que obtivermos, por maior que seja, é apenas parcial. O sucesso completo e definitivo acontece (quando acontece), e quando ocorre é raramente, em casos, por exemplo, como o de Steve Jobs, cuja obra e vida são reconhecidas por quase todas as pessoas que o conheceram ou ouviram falar ou leram a seu respeito, como notáveis e úteis. Ou como as biografias e realizações de alguns outros gênios: Thomas Alva Edison, Albert Einstein, Isaac Newton e uns poucos outros.
Acho interessante o que escreveu a respeito o romancista italiano Alberto Moravia: “O sucesso é como um jantar pesado – cumpre comê-lo todo, digeri-lo, eliminá-lo. E depois se preparar para outro jantar”. Ou seja, depois de gozarmos a justa euforia do êxito, devemos colocar à nossa frente novos objetivos a conquistar e agir com a mesma competência, previdência e aplicação nesse novo empreendimento com que agimos no anterior. E isso a vida inteira.
A busca do sucesso pode ser comparada, metaforicamente, à jornada dos argonautas em busca do tosão de ouro. Esta é uma das sagas literárias de que mais gosto, pelo seu simbolismo. Comparo-a ao nosso empenho (quando o temos) em busca da concretização dos nossos ideais. Para que o leitor compreenda melhor meu raciocínio, fazem-se necessárias algumas explicações. O tosão de ouro, ou velo de ouro (chamado, ainda, de velino ou velocino, como esclarece a enciclopédia eletrônica Wikipédia), “é, na mitologia grega, a lã de ouro do carneiro alado Crisômalo”.
A jornada para o resgate dessa preciosidade é narrada por vários escritores, entre os quais Gustav Schwab, em seu excelente livro “Os Argonautas”. A Wikipédia esclarece, ainda, que Jasão e seus seguidores precisavam recuperar o velo, que fora perdido e estava pendurado num carvalho sagrado na Cólquida, ao sul das montanhas do Cáucaso, para que esse líder tribal assumisse o trono de Iolco, na Tessália. Essa lenda tão antiga, que já era muito popular nos tempos do poeta Homero, serve, a caráter, para ilustrar as dificuldades e obstáculos que tendem a aparecer em nosso caminho, em nossa busca pelo sucesso. E, reitero, por um êxito apenas parcial, já que o completo e definitivo só ocorre (quando ocorre) após nossa morte. E implica na soma de todas as vitórias que viermos a conquistar, das ínfimas às maiúsculas e soberbas.
O conceito de sucesso é bastante subjetivo e pode ter conotação específica para cada um de nós, dependendo da nossa personalidade, visão de vida e expectativas. O dinheiro, por exemplo, é parâmetro para a maioria. A pessoa simples, que passa por privações e que sequer é levada em conta, como se fosse mera sombra ou até menos, por não possuir bens, tem como meta, evidentemente, o ter, não o ser.

Não se entra aqui no mérito se essa ambição é válida ou não, se traz ou não felicidade. Mas, para um monge tibetano, por exemplo, ou para um ermitão do Oriente Médio, ou para qualquer outro indivíduo que se despoje de aspirações materiais, a acumulação de objetos, seja qual for o seu valor intrínseco, ou sua natureza, ou sua escassez, pouco ou nada significa. Para tais pessoas, juntar coisas não representa ser bem-sucedido. Provavelmente, significa o contrário. Para elas, o que conta é o autoconhecimento, a iluminação espiritual, a contemplação da natureza etc.

O leitor atento irá perceber que já tratei de tudo isso, em muitos textos anteriores, mas a reiteração desses conceitos só confirma minha convicção na sua pertinência e exatidão. Queremos sempre, é óbvio, ser bem-sucedidos em nossos empreendimentos, sejam de que natureza forem. Mas para alcançarmos o sucesso, é indispensável que tenhamos objetivos. Queremos ser bem-sucedidos no quê?
Os objetivos tanto podem ser a conquista de um amor, como afirmei acima, quanto o cultivo de uma profunda amizade; tanto a ascensão profissional ou social, quanto a glória, o poder, a fortuna e assim por diante. Mas não basta impor metas, se não estivermos preparados para chegar onde queremos. O sucesso requer disciplina, preparo e, sobretudo, persistência. Esses pré-requisitos são válidos para toda e qualquer empreitada. Antes de estabelecermos alguma meta, porém, é necessário que nos avaliemos com rigor, sem nos subestimarmos e nem superestimarmos, conhecendo bem até onde podemos evoluir (sempre podemos melhorar em alguma coisa). Afinal, o escritor Gustave Flaubert constata que “o sucesso é uma conseqüência e não um objetivo”. E ele está coberto de razão.
É voz corrente que o sucesso transforma para pior as pessoas. Que os bem-sucedidos se tornam arrogantes, prepotentes e indiferentes. Em alguns casos, isso, de fato, ocorre, mas está longe de ser a regra. É mera exceção. Quem age assim, é bem-sucedido por pouco tempo. Não tarda para que despenque da sua arrogância. Seu sucesso é parcial e transitório.
O fracassado, sim, é perigoso. Alimenta antagonismos, mágoas, ressentimentos e dese4jos de vingança. Busca derrubar todos que vê pela frente. Por isso, sou levado a concordar com Sommerset Maugham, quando constata: “A idéia de que o sucesso deteriora as pessoas, fazendo-as vaidosas, egoístas e complacentes consigo próprias é errônea. Ao contrário, para a maioria delas, torna-as modestas, tolerantes e gentis. O fracasso é que faz as pessoas cruéis e amargas”. Apostemos, pois, no sucesso e saibamos saboreá-lo, sempre, com humildade, tolerância e gentileza e, principalmente, sem acomodação.
O escritor William Faulkner, notoriamente um homem bem-sucedido na vida, como um dos maiores clássicos da literatura norte-americana e mundial, tinha uma tese bem peculiar acerca do sucesso. Afirmava que se tratava de um "matador" da criatividade, dessa ânsia de perfeição que todas as pessoas devem ter, seja qual for a sua atividade, até o último instante da existência. O italiano Alberto Morávia expressou a mesma idéia, de outra forma, como citei.
Estariam ambos com a razão? Os fracassados seriam os verdadeiros gênios das artes e das ciências? Seriam os chamados donos da verdade? Enxergariam aquilo que eventualmente ninguém mais vê? Claro que não! E nem os dois escritores fizeram qualquer apologia do fracasso. Ambos quiseram, apenas, alertar sobre a tendência que todos temos à acomodação, a "dormir sobre os louros" conquistados. Afinal, o satisfeito consigo próprio é, na verdade, um derrotado.


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Wednesday, January 25, 2012










O Brasil só tem um, e único, caminho para retomar a trilha do desenvolvimento auto-sustentado, com justiça social: apostar no homem. O País precisa investir, e muito, na educação, na formação de mão-de-obra qualificada, na produção de cientistas, pesquisadores, geradores de idéias e de invenções. Esse é o único recurso para os países carentes de capital, mesmo que tenham fartas reservas de matérias-primas. Por que não fazer do Brasil uma potência geradora de idéias? Que nosso povo é criativo, não resta muita dúvida. A educação precisa, até por uma questão de segurança nacional, ser prioridade máxima do País, e não continuar sendo alvo do descaso, da incompetência e do empirismo de tecnocratas. É indispensável tirar os milhões de jovens abandonados das ruas e lhes dar dignidade, com um sentido em suas vidas que não seja o apregoado hoje, o de um hedonismo insensato e vazio e que, ademais, eles jamais terão acesso.

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Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). –
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Lance fatal
(contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. –
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Autodefinição

Pedro J. Bondaczuk

Outro dia, um amigo,
desses taciturnos, calados,
que a tudo ouvem com paciência
--- jóias raras em meio às escórias –
pediu-me, num rompante,
insólito, em se tratando dele,
que definisse a vida.

Tracei-lhe a mais erudita
das exposições.
Falei, com empáfia, do mistério
metafísico da fecundação,
enquanto sorvíamos um chope
e nos julgávamos sábios.

Expus-lhe teorias complicadas,
cheio de pose e pedantismo,
do alto da minha súbita importância.

Falei-lhe de séculos de História,
sob meu caolho prisma maniqueísta,
de filosofias variadas,
mal-digeridas, de leituras apressadas,
acerca do princípio e do fim.

De repente, na rua,
bem em frente ao bar
onde vagabundamente
filosofávamos,
movidos mais a álcool
do que a conhecimento,
passou um cortejo fúnebre.

Um frio, de mal-estar,
pela incerteza
do último destino,
percorreu-nos a espinha.

Olhamo-nos, embaraçados,
e nos surpreendemos
ambos com o mesmo pensamento.

Como se combinados,
persignamo-nos, ao mesmo tempo,
sorrateira, mas respeitosamente,
não sem uma pontinha
de um atávico, ancestral medo
diante do mistério da morte.

E mudamos, tacitamente, de assunto.
Passamos a falar das mulheres,
do futebol e da inflação
diante da eloqüente definição
do fenômeno da vida
dada por ela mesma
através da imagem do antípoda.

(Poema composto em Campinas, em 3 de março de 1981).

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