Tuesday, April 25, 2017

QUANDO E COMO UTILIZAR A “LINGUAGEM DO POVO” EM TEXTOS LITERÁRIOS

Um leitor assíduo das minhas crônicas, tanto em jornais quanto no Facebook e nos vários sites e blogs da internet em que participo ativamente, questiona-me sobre a validade ou não do escritor se utilizar da “linguagem do povo”, aquela falada no dia a dia – sem preocupações com concordância, regência, conjugação correta de verbos, utilização de pronomes etc. – em textos literários. Minha resposta é a mesma que dei quando fui questionado sobre o uso de palavrões. Eu, particularmente, não gosto de usar e raramente me utilizo desse expediente. Todavia, em determinadas circunstâncias e ocasiões, isso não somente é válido, como até se impõe. Porém, o escritor deve deixar claro que é seu personagem que fala errado e não ele que não conhece português. Afinal, queira ou não, tenha ou não essa consciência, ele é o guardião por excelência do idioma. Tanto que, determinadas expressões que geram dúvidas nos gramáticos quanto à sua correção, são catalogadas pelos dicionaristas como válidas com base, muitas vezes, apenas no seu uso por escritores consagrados. Você pode observar isso, por exemplo, em algumas expressões no dicionário do mestre Aurélio.


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Realismo e acomodação


Pedro J. Bondaczuk


O líder soviético, e agora também presidente desse país, Mikhail Gorbachev, à medida em que o tempo passa, conquista, cada vez mais, a admiração e o respeito da comunidade internacional, por causa da sua postura séria, corajosa e sobretudo ousada. É verdade que em sua pátria não lhe faltam resistências. Aliás, ausências de visão histórica, de realismo político e até de patriotismo abundam em todas as sociedades.

Some-se a isso o tradicional comodismo do russo comum e não será difícil de entender a razão porque tanta gente se opõe à "perestroika" e à sua irmã gêmea, a "glasnost". Mas Gorbachev, nem por isso, entregou os pontos ou cedeu aos interesses dos burocratas. Muito pelo contrário. Com grande tirocínio, está procurando se cercar de gente jovem, brilhante, de sua inteira confiança e não comprometida com a geração do estalinismo e de seus hediondos crimes.

O discurso que o presidente fez, anteontem, a pessoas ligadas ao setor agrícola poderia ser colocado na boca de um papa João Paulo II, por exemplo, que lhe ficaria muito bem. O líder do Cremlin defendeu, entre outras coisas, a posse da terra pelos camponeses que nela trabalham. Isso não aconteceu nunca nesse país.

No tempo dos czares (os que conhecem a história russa sabem disso), o agricultor era uma espécie de "escravo" dos grandes latifundiários, que tinham sobre ele o direito, inclusive, de vida e morte. Este, por sinal, foi o principal estopim da Revolução de 1917, que no fim das contas, frustrou as esperanças dos humildes e os sonhos dos idealistas, que acreditavam ser possível a instituição de uma sociedade igualitária, absolutamente sem classes, onde imperasse a solidariedade. Hoje, pelo estado em que se encontram a União Soviética e a China, se percebe que tudo não passou de uma utopia. De algo bonito de ser dito, mas impossível de ser executado.

Gorbachev afirmou, em determinado trecho do seu discurso de anteontem, com todas as palavras, sem tirar e nem pôr: "Não há nada mais importante, hoje, que levar o homem de volta à terra como seu proprietário amadurecido". Diante dessa postura, dá para se entender a razão porque Ronald Reagan, que sempre nutriu uma desconfiança patológica pela URSS e por seus líderes, confiou no atual dirigente do Cremlin.

Claro, a pura e simples manifestação de uma intenção não faz, como num passe de mágica, que ela se torne em algo concreto. Mas se houver apoio do Ocidente, o "império do mal" (conforme classificação dada à União Soviética pelo presidente norte-americano em 1981), vai se transformar, de antagonista do modo de vida ocidental, num indispensável parceiro para a construção de um planeta melhor. Afinal, como disse o nosso Machado de Assis, "a esperança é a meninice do mundo" e é a última a morrer.


(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular em 14 de outubro de 1988)



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Ouse mostrar seu talento



Pedro J. Bondaczuk



A natureza dotou todas as pessoas (praticamente sem nenhuma exceção) de determinadas aptidões, de certo potencial produtivo, de um dom natural que precisa, no entanto, ser detectado, cultivado, aperfeiçoado, desenvolvido e exercitado, para poder produzir efeitos.

Uns têm facilidade, por exemplo, para trabalhos manuais, realizando maravilhas com as mãos, criando peças artesanais de surpreendente beleza e praticidade. Outros, têm ouvido para a música, ou para compor, ou para cantar, ou para executar um ou vários instrumentos. Há os que têm vocação para a literatura (poesia, conto, romance, teatro, ensaio), para as artes plásticas, para a economia e finanças, para a política, para o direito, para a medicina etc. Os dons são tantos quantos as pessoas que há no mundo.

Por mais humilde (e aparentemente bronco) que um indivíduo possa parecer, bem no fundo de sua mente, às vezes escondida nas profundezas do subconsciente, entre tantas idéias, tantos pensamentos e tantas emoções, ele possui alguma aptidão, por mínima que seja, que certamente não descobriu qual é, mas que está lá, à espera da descoberta, do cultivo e do desenvolvimento.

Raros, todavia, têm a felicidade de descobri-la(s) ainda na infância. Alguns fazem essa descoberta na juventude, desenvolvem esse potencial, batalham por seu sonho, ousam e findam por produzir obras marcantes, que sobrevivem ao tempo e ao espaço: à sua morte.

A maioria chega a essa constatação na maturidade, recupera o tempo perdido e luze. Existem, porém, os que deixam as verdadeiras vocações, aquilo que sabem fazer de melhor, para ser cultivado mais tarde, muito mais tarde, depois que constituem família, geram, criam, educam e encaminham os filhos e cumprem, portanto, o que entendem como sua “principal missão” no mundo. Muitos têm tempo para isso e aproveitam.

Outros são colhidos antes pela morte e deixam de concretizar seu verdadeiro potencial.

Há, é claro, os que nunca descobrem as verdadeiras aptidões, por uma série de motivos e de circunstâncias e que chegam à fase crítica de vida, quando deveriam colher os frutos do que semearam, sem ter qualquer colheita a fazer, a não ser a de cardos e de espinhos das decepções e das frustrações.

É a essa aptidão inata, a esse potencial a ser desenvolvido, que se denomina de “talento”. O significado dessa palavra, de acordo com o dicionário, é: “dom natural ou habilidade adquirida; inteligência excepcional”. Jesus Cristo, em sua passagem pelo mundo, legou à humanidade, entre tantos e sapientíssimos ensinamentos, uma das mais sublimes lições a esse respeito, através de memorável parábola.

Narrou que determinado senhor, tendo que viajar, deu uma quantia em dinheiro a três de seus servos (representada pela moeda romana de maior valor na época, o talento). Um recebeu três, outro duas e o terceiro apenas uma. Cada qual fez, com esse capital, o que achou melhor. O ousado, procurou multiplicá-lo. O tímido e inseguro, por seu turno, preferiu guardar o que havia ganhado, e de uma forma bastante peculiar e reveladora do seu caráter.

O primeiro dos servos aplicou seu dinheiro a juros. O segundo, emprestou-o, com a condição de receber dividendos desse empréstimo. O terceiro, porém, resolveu enterrar o que havia ganhado, para não correr o risco de perder esse capital ou de ser eventualmente roubado, já que seu senhor era extremamente severo nessas questões.

Quando o patrão regressou da viagem, exigiu a prestação de contas dos três servidores. O servo que aplicou o capital a juros pôde apresentar, como resultado, um lucro do dobro da quantia aplicada. Quem emprestou, teve resultado idêntico. Só não lucrou nada, no entanto, o que havia enterrado o seu talento. Desse, o senhor confiscou a única moeda que lhe havia dado, pois mostrou absoluta falta de iniciativa, o que ele não tolerava.

Assim somos nós. Alguns têm várias aptidões. Arriscam-se, expõem-se, fracassam às vezes, não raro sofrem frustrações, mas chegam, finalmente, ao sucesso, mesmo que por caminhos tortuosos. Adquirem, no meio da jornada, várias outras virtudes que não tinham no início. São vencedores!

Há os que não nascem com tantos dons assim, mas cultivam os que têm e também são bem-sucedidos. Todavia, a grande maioria das pessoas “enterra” o seu talento, joga o seu tempo fora, limita-se a procurar justificativas ou a apontar culpados para os fracassos que constroem com a própria inércia, covardia e medo de se expor e findam seus dias amargos, ressentidos e infelizes.

Nunca é tarde para descobrir, cultivar, desenvolver e expor suas aptidões. Estude, leia, raciocine, escreva, componha, toque algum instrumento, empenhe-se, trabalhe, planeje, sonhe, mas, sobretudo, viva! E execute! Tenha a idade que tiver (essa não é uma questão cronológica), aplique, com coragem e determinação, “o capital” que recebeu ao nascer. Não tenha medo de mostrar ao mundo o seu talento, seja ele qual for!



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Monday, April 24, 2017

APESAR DOS ERROS QUE COMETEU, VICTOR HUGO FOI REVERENCIADO POR MULTIDÕES



Ao lermos biografias de determinadas personalidades, obviamente vencedoras (caso contrário sequer seriam biografadas), somos tentados a achar que “todas” as circunstâncias de suas vidas, ou, pelo menos, a maior parte delas foram favoráveis. E que não tiveram que encarar essa infernal “gangorra”, que consome tempo e energia nos momentos de baixa. As coisas não são bem assim. Vejam o caso de Victor Hugo. É certo que no final da vida, gozou de amplo reconhecimento e inequívoca admiração dos franceses. Para que vocês tenham uma idéia do quanto isso tudo foi, basta dizer que sua morte causou profunda comoção na França. Seus restos mortais foram expostos, antes de serem sepultados no Panteon dos heróis da pátria, por um dia inteiro no famoso Arco do Triunfo, bem no centro de Paris, e foram homenageados e reverenciados por um número estimado de dois milhões de franceses!!! Quantas pessoas vocês conhecem que receberam tamanha reverência e carinho? Eu não conheço nenhuma. Contudo, sua vida também foi uma “gangorra” em que se alternaram sucessos e fracassos. Nem tudo o que ele fez foi correto, eficaz, louvável ou mesmo coerente. Hugo errou, e errou muito, quer na conduta pessoal, quer na atividade de escritor. Ou seja, foi humano, como todos nós, sujeito às mesmas tentações, vícios e contradições que nos afetam amiúde. Isso, todavia, não o deslustra. Pelo contrário, valoriza o que foi e o que fez.


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Oposição sistemática


Pedro J. Bondaczuk


O plano de ação do governo, anunciado com pompa e circunstância em 24 de abril passado, pelo presidente Itamar Franco, embora ainda não passe de mera carta de intenções, já que depende das aprovação do Congresso para os vários projetos de lei e medidas provisórias que o concretizem, à primeira vista parece lógico, consistente e viável.

Esbarra, todavia, num obstáculo enorme: a credibilidade. Há setores que – ou não confiam, de fato, ou usam a pretensa desconfiança sobre uma possibilidade futura de novos choques, congelamentos e confiscos como meros pretextos – continuam remarcando, preventivamente, seus preços. Por conseqüência, a inflação está em plena espiral ascendente e pode comprometer todo o projeto de retomada do crescimento. E o início da solução da crise voltará à estaca zero.

Aliás, este problema, o da falta de confiança, não é somente de Itamar. Praticamente todos os presidentes brasileiros, por este ou aquele motivo, em maior ou menor grau, enfrentaram resistências semelhantes aos seus programas e atos.

Getúlio Vargas enfrentou, no seu primeiro governo, férrea oposição, por ser ditador. No outro mandato, o conquistado nas urnas, foi acusado de corrupção, que seria de tal sorte, a ponto do Palácio do Catete (a sede governamental de então, no Rio de Janeiro) estar assentado sobre “um mar de lama”. De Juscelino, foi dito que auferia lucros pessoais fantásticos com a construção de Brasília.

Jânio Quadros, eleito por consagradora maioria, como a grande esperança de moralização do País, enfrentou, logo no início do mandato, tenaz oposição, por seu pretenso “autoritarismo”. Seu temperamento levou-o à renúncia, que não é tão inexplicável quanto sempre se procurou dar a entender.

João Goulart pagou pelo populismo, principalmente quando se propôs a empreender reformas que há muito se faziam necessárias e que acabaram por se transformar na pedra que o fez tropeçar e ser deposto.

Dos vários governos militares, é escusado relatar as razões da oposição que sofreram de parcelas significativas da população. José Sarney perdeu a credibilidade quando passou a barganhar o quinto ano de mandato, com a política do “é dando que se recebe”.

De Fernando Collor nem é bom falar sobre o que o levou a cair no descrédito. Sua gestão foi tão desastrosa, que foi como se o País houvesse sido atingido por algum cataclismo catastrófico, algum terremoto devastador, no máximo grau da Escala Richter.

O governo Itamar Franco assumiu em circunstâncias especialíssimas, sob promessas de cooperação por parte da classe política e dos setores mais representativos da sociedade. Enfrentou dificuldades terríveis para a composição do ministério, uma costura complicada de retalhos de peças as mais heterogêneas da esquerda à direita.

Nem bem chegou a tomar ciência sobre a quantas andavam as contas públicas, trocou o ministro da Fazenda, Gustavo Krause. Meses depois, o substituto deste, Paulo Haddad, também caiu em desgraça. O Orçamento da União, que deveria estar em vigor em 1º de janeiro, só foi sancionado na semana passada.

Apesar de tudo isso, Itamar cumpriu as promessas que fez de não recorrer a choques ou congelamentos. Não confiscou poupança de ninguém. Mesmo assim, não dispõe de nenhuma credibilidade. De duas, uma: ou não sabemos e nunca soubemos escolher presidentes, ou agimos como aquele nihilista espanhol da anedota, que perguntava: “Hay gobierno?”. E arrematava, a seguir: “Entonces, yo soy contra!”.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 7 de maio de 1993).



Simplificando o que parece complicado


Pedro J. Bondaczuk

A Filosofia é a raiz de todo o conhecimento humano. Não é nenhum exagero afirmar, pois, que se trata da “mãe de todas as ciências”. Semanticamente, em uma tradução literal do grego (idioma do qual a palavra se origina), significa “amor pelo saber”. E o filósofo, ou seja, quem a exercita, é, por conseqüência, o “amigo da sabedoria”, que é outra acepção desse mesmo termo. Bendita amizade! Não vejo nenhuma impropriedade em traduzir a palavra Filosofia como o “estudo da vida”. Sobretudo, da inteligente (posto que não apenas dela). Essa disciplina é prerrogativa, óbvio, do único ser vivo da natureza com capacidade de entendimento e de expressão verbal (oral e/ou escrita) do que entende.

Dizem que o golfinho tem certa “inteligência”, que vai além do mero instinto. Pode ser. Há quem garanta que esse estranho ser marinho conta, até mesmo, com linguagem própria, coerente, composta por em torno de uma centena de “palavras”. Não duvido. Mas esse ser supostamente inteligente “filosofa”? Ouso afirmar que não. Sua preocupação não vai além de ações instintivas como prover alimentação. Ou como a reprodução. Ou como a autopreservação física. Nunca vi, e nem soube que alguém tenha visto, algum golfinho “filosofando”. É uma prerrogativa exclusivamente humana. O objetivo da Filosofia é o estudo de tudo o que se relacione à vida, sobretudo a inteligente, tanto o concreto quanto o abstrato (sobretudo, este). Ou seja, o conhecimento, a verdade, os valores morais e estéticos, a mente e a linguagem.

Considero que todo ser humano, até mesmo o mais bronco dos broncos, é um “filósofo” em potencial. Afinal, mesmo que apenas intuitivamente (caso da imensa maioria), já se preocupou em algum momento da sua vida (ou ainda se preocupa), com questões tais como a verdade e a mentira, a moralidade e a imoralidade, o feio e o belo, a fonte do pensamento e a maneira de entender os outros e de se fazer entendido. O que atrapalha que o leigo se aprofunde nas grandes questões, a exemplo dos filósofos de ofício, são os jargões da “mãe de todas as ciências”. Não vejo a menor necessidade da sua criação e uso. O desafio magno dos especialistas da matéria é o de expressarem suas conclusões de maneira absolutamente inteligível, de sorte que todos, sem exceção, as entendam. Tive, por exemplo, imensa dificuldade de entender conceitos filosóficos que nem são tão complicados só por causa da profusão desses termos que, insisto, são prescindíveis.

Quando levanto essa questão com meus amigos filósofos, ouço, invariavelmente, deles, explicações a respeito que, a meu ver, nada explicam. Entendo que as grandes verdades da vida são simples e diretas. Não precisam de palavreado pomposo, restrito, esotérico até, para serem entendidas e expressadas. Se precisarem... são passivas de contestação. Não são, portanto, “verdades”, mesmo que tenham essa aparência. Por paradoxal que pareça, ser simples é sumamente complicado. É uma arte. Poucos, pouquíssimos conseguem a façanha de expor as grandes idéias com absoluta clareza e concisão. Ou seja, com simplicidade.

Um dos métodos filosóficos para apurar as verdades da vida que mais aprecio é o atribuído ao filósofo grego Sócrates. Ele pode ser dividido em duas partes. Na primeira, leva-se o interlocutor a duvidar do que “sabe” (ou pensa que sabe) sobre determinado assunto. Dessa forma, faz-se com que ele identifique as contradições de sua atual forma de pensar, baseadas, quase sempre, em valores e preconceitos sociais postos como dogmas. Em uma segunda etapa, leva-se o tal interlocutor a conhecer novos conceitos e a formar novas opiniões sobre o assunto em pauta a que chegue por si só, por pura dedução. Ou seja, ele é estimulado a pensar por si mesmo, e não mais com a “cabeça alheia”, como usualmente fazia. E tudo isso é feito mediante série de perguntas estratégicas, precisas, exatas, sem nenhuma espécie de ambiguidade. Gosto particularmente desse método porque ele me é familiar. Utilizo-o amiúde em minha profissão, o jornalismo, para chegar à verdade e depois levá-la ao conhecimento dos meus leitores. Esse processo foi batizado pelos filósofos de “maiêutica socrática”. Não seria, todavia, mais lógico nomeá-lo de “arte de perguntar”, que é o que ele de fato é? Pra que o jargão? Só para complicar e dar ares esotéricos para algo que é na essência muito simples? Ora, ora, ora...

Trazendo este tema, aparentemente tão complexo, para o campo que me é mais familiar, o da Literatura, dei de cara com este poema de Cecília Meirelles, num de seus tantos livros, que partilho com vocês, intitulado “Pergunto-te onde se acha a minha vida” que, mais do que poesia, é filosofia pura. É a maiêutica socrática aplicada, em forma de texto literário. Confiram:

Pergunto-te onde se acha a minha vida?
Em que dia fui eu?. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída?

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.

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Friday, April 21, 2017

A VIDA É COMO UMA ESPÉCIE DE “GANGORRA”
A vida é como uma “gangorra”. Em determinado momento nos joga para cima, quando então gozamos as benesses do sucesso, achando que este será duradouro. Raramente é. Quando menos esperamos (e nunca esperamos), de repente, num piscar de olhos, nos atira no fundo do poço. E nos vemos na necessidade de batalhar para encontrar alguma saída. Às vezes nos surge uma oportunidade providencial que, aproveitada, nos impulsiona, de novo, para o alto. Caso não a aproveitemos... O não aproveitamento dessa chance, que pode ou não ser a única, se juntará ao nosso elenco de aflições, com o arrependimento por não termos feito nada, agravando, assim, nossa penúria. Nem sempre as oportunidades surgidas são claras. Às vezes são, até, bastante obscuras e temos que nos arriscar. É possível que nos atiremos de cabeça, tentando agarrá-las e venhamos a nos dar mal. Se não tentarmos, todavia, jamais saberemos. Todos temos, em algum momento, a nossa hora decisiva, o instante fatal que pode determinar todo nosso futuro ou, até mesmo, se teremos algum. Há que se ter coragem nessas decisivas situações. E, claro, contar com a favorabilidade do acaso.


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Tempestades no horizonte


Pedro J. Bondaczuk


A política econômica do governo do presidente Fernando Collor começa a ser posta em questão pelos vários setores da sociedade diante da tendência crescente da inflação, a despeito da adoção do mais completo figurino de receita da escola monetarista para esse desarranjo da economia.

Previsões vêm sendo repetidas nos últimos dias, variando na graduação, que vão desde uma cautelosa preocupação, ao mais exacerbado catastrofismo. Volta-se a comentar o termo "estagflação", tão nosso conhecido de boa parte da década de 1980. Ou seja, inflação alta, acompanhada da estagnação econômica.

Não pode haver dobradinha mais perversa do que esta para um país como o nosso, onde o cidadão não conta com quase nenhuma segurança social.

Dentro do próprio governo, as opiniões acerca das dificuldades que estão para vir variam de grau. A ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, por exemplo, admite que a taxa inflacionária do corrente mês irá sofrer nova elevação, atribuída ainda ao choque do petróleo determinado pelo conflito no Golfo Pérsico. E ainda há quem defenda uma ação militar na região! Só mesmo um paranóico irresponsável conceberia uma guerra numa zona tão sensível como aquela.

Sem ela, o barril do óleo cru está custando, em média, US$ 34. Com ela e, principalmente, se os campos petrolíferos vierem a ser atingidos --- e tudo indica que serão --- o preço subirá às nuvens. Há quem preveja, inclusive, que chegue à fantástica cifra de US$ 100. Será uma tragédia para países como o Brasil, que dependem de importações do produto.

Zélia fez uma previsão nada cômoda para o futuro próximo, principalmente para os milhares de brasileiros que perderam seus empregos na esteira do Plano Collor. Afirmou ter certeza que janeiro será um mês "negro" para a economia.

Esta, por sinal, também é a opinião do secretário de Política Econômica, Antonio Kandir. Ele acha que no início de 1991 o País viverá o momento mais difícil e delicado na intensa luta para a estabilização de preços. Os dois principais agentes da escala produtiva sentem-se prejudicados pela atual política.

De um lado, estão os empresários, queixando-se das altas taxas de juros. De outro, os trabalhadores não conseguem esconder sua indignação por causa das perdas salariais. Mas por maiores que sejam as dificuldades desses dois grupos sociais, eles ainda são privilegiados se for comparada a sua situação com a de milhões de brasileiros que sentem, como eles, os efeitos da inflação e sequer têm uma fonte de renda que lhes permita comprar o que comer. Daí estarem aparecendo tantas dúvidas acerca da viabilidade do Plano Collor. Oxalá seus arquitetos estejam certos e os sacrifícios estejam chegando ao fim.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 8 de novembro de 1990).



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Novos líderes para novos tempos



Pedro J. Bondaczuk


A complexidade das relações sociais neste início de século e de milênio, gerando problemas que nossos pais e avós sequer atinavam em seu tempo, provoca a necessidade do surgimento de um novo tipo de liderança. Há alguns anos, por exemplo, poluição era algo desconhecido. O termo "ecologia" surgiu apenas na década de 70, quando as questões ambientais deixaram de ser assunto de meia dúzia de estudiosos, para freqüentar as manchetes da imprensa. A Aids foi mencionada, pela primeira vez, em 1983, (pelo menos com a ênfase que o assunto merece), fruto podre da permissividade e da irresponsabilidade de milhões.

Exige-se, hoje, dos líderes de qualquer espécie, além dos atributos tradicionais, como competência, coragem, maleabilidade e capacidade de diálogo e, principalmente, de decisão, outros que são característicos dos novos tempos. Como, por exemplo, alto grau de informação, nos mais variados campos do conhecimento humano. E, sobretudo, muita criatividade. Ou seja, uma capacidade aguçada de encontrar novas soluções a partir de velhos pressupostos. Para tanto, faz-se indispensável a existência de um conjunto de circunstâncias simultâneas.

Exige pessoas que tenham coragem de se livrar de tabus, de ignorar preconceitos, de contestar dogmas e que, sobretudo, contem com uma capacidade ímpar de convencimento. O momento presente é de transição. As ideologias que prevaleceram durante praticamente todo o século XX provaram ser inadequadas para garantir equilíbrio econômico, com justiça social, para os povos.

O século passado foi, sem dúvida alguma, o mais violento da história. Nesse período, a humanidade passou por duas sangrentas e catastróficas guerras mundiais (na segunda surgiu a bomba atômica), por uma infinidade de revoluções (a portuguesa de 1910; a mexicana, de 1911; a Bolchevique, de 1917; a iraniana, de 1978, apenas para citar algumas das principais), além de conflitos nacionais e regionais, longos, mortíferos, desastrosos, com milhões de vidas humanas desperdiçadas por nada.

O modelo de estadista que prevaleceu ao longo de todo o século XX mostrou, sobejamente, não ser adequado. A humanidade regrediu, em termos de relacionamento social, na proporção inversa dos avanços da ciência e da tecnologia e da riqueza mundial. Faltou (e falta, o que é pior) uma liderança adequada. Hoje, dois terços dos habitantes do Planeta vegetam e batalham, virtualmente sem perspectivas ou esperanças, para sustentar o um terço que tudo tem e tudo pode, sem que haja a mínima razão lógica para isso. Será que há pessoas que acreditam de verdade que ninguém vai tentar alterar esse perverso quadro com o pior possível de todos os expedientes: o da violência? Parece que sim! E essa atitude (até uma criança inocente sabe, se é que ainda exista), é o cúmulo da alienação.

Os líderes da nova geração precisam ter em mente o potencial de violência e de destruição existente nessa situação de desigualdade e de exploração do homem pelo homem. E, mais do que isso, têm a obrigação de encontrar soluções criativas para este problema, até aqui ignorado, quando não tratado meramente como simples tema acadêmico, sem o devido realismo.

Sepultada a Guerra Fria, que por quase 50 anos manteve a humanidade à beira da hecatombe nuclear, se torna urgente, urgentíssimo, imediato, premente neutralizar o risco muito maior do que o confronto temido, mas nunca concretizado, das antigas superpotências: o da "bomba da miséria"! Falar, hoje, em sociedades não-excludentes, em que imperem a racionalidade e a justiça social, soa como delirante utopia. E, no entanto, é o único caminho lógico para evitar conflitos de conseqüências imprevisíveis.


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