Monday, June 26, 2017

O ESCRITOR FAZ EXTRAPOLAÇÕES, MAS NÃO “PROFETIZA”
O escritor, desde que seja atento ao que ocorre ao seu redor e, por extensão, no mundo, tem condições de fazer extrapolações, com razoável margem de acerto, de tal sorte que sejam interpretadas pelos afoitos e desavisados como “profecias”. Que me perdoem os crédulos, mas a mínima lógica sugere a impossibilidade de haver profetas de fato. Discordem quanto quiserem, mas... Ninguém tem condições de prever, e muito menos com absoluto rigor, com 100% de exatidão, o que não aconteceu. Isso é mito. O que alguns fazem são extrapolações. Reúnem dados precisos sobre o que aconteceu e, mediante raciocínio lógico, extrapolam o que “pode” acontecer. Às vezes acertam e outras tantas (a maioria?) não. Quando erram, ninguém sequer se lembra. Agora responda-me, sem pestanejar, você sabe (ou se lembra) quem fez estas afirmações (algumas bastante ousadas)?: “A maioria das pessoas está ligada a um tempo anterior, mas você deve estar vivo em nosso próprio tempo”.Hoje, o tirano governa não pelo cassetete e pelo punho; mas, disfarçado em pesquisador de mercado, ele conduz seu rebanho pelos caminhos da utilidade e do conforto”.Para o homem primitivo, a noção de espaço era um mistério incontrolável. Para o homem da era tecnológica é o tempo que tem esse papel”. “Os anúncios são a arte das cavernas do século XX”. “O rock and roll é a maior renovação artística desde Homero”. Tudo isso foi dito, ou mais propriamente escrito, por Herbert Marshall McLuhan
@@@@@@@

Livros que recomendo:
Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com
Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Águas de presságio” – Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
A sétima caverna” – Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br
Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
Acariciando esperanças” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
O que comprar:
Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.
Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.
Como comprar:
Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria:
Edição impressa:
1. Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.
2. Livraria Saraiva.
3. Cia. Dos Livros.
4. Amazon
Edição em e-book:
  1. Editora Barauna
  2. Buscapé
  3. Extra
  4. Travessa
  5. Folhashop
  6. Shopping uol

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
URSS estabelece novo vínculo


Pedro J. Bondaczuk


A União Soviética, a partir de terça-feira, quando nove líderes de Repúblicas vão se reunir no Salão Santa Catarina do Cremlin, junto com o presidente Mikhail Gorbachev, para a assinatura do novo Tratado de União, vai entrar numa outra etapa das transformações que se verificam no país. Novas regras vão reger as relações entre o poder central e os regionais, que passam a contar com relativa autonomia para a administração de suas riquezas e carências, conflitos e aspirações.

O acordo culmina com cerca de um ano de duras negociações, onde nem sempre prevaleceu a camaradagem. Muito pelo contrário. As Repúblicas tiveram no atual presidente da Rússia, Bóris Yeltsin, um eficaz advogado dos seus interesses, daí terem obtido mais liberdade administrativa do que a princípio poderiam supor.

Resta saber se o novo tipo de federação instituído vai funcionar ou não. Se a fórmula é fruto de madura reflexão ou apenas uma reforma ditada pelo desespero, em decorrência da atual crise, que coloca a URSS à beira do abismo e da desagregação.

O Tratado de União não deixa de ser importante vitória política para Gorbachev, pois consegue preservar mais de 90% do território nacional. As seis Repúblicas rebeldes que se recusaram a aderir ao pacto --- Lituânia, Letônia, Estônia, Armênia, Geórgia e Moldávia --- representam pouco mais que 8% da área total do país.

Ainda não ficou claro qual o tratamento a ser dispensado aos nacionalistas. A concessão de independência a eles, como tais povos reivindicam --- alguns a poder de armas, como são os casos de georgianos e armênios --- certamente não está prevista. Mas lituanos, estonianos e letões já agem como se seus Estados fossem nações independentes.

Políticos soviéticos insinuaram, nos últimos dias, que os secessionistas serão tratados como "estrangeiros", pelo menos em termos de relações econômicas. O que comprarem das Repúblicas signatárias do tratado, por exemplo, terá que ser pago ao preço do mercado internacional e em moedas fortes. Todavia, em termos políticos e de defesa, não terão o tratamento de estranhos. Deduz-se que seu "status" será algo parecido com o de meras "colônias".

O cientista político francês, Jean-Fraçois Revel, sempre se mostrou céptico em relação às reformas encabeçadas por Gorbachev. Atribui-as ao desespero e não a um planejamento consciente e maduro. Numa entrevista sua, publicada em 1990, ponderou: "Uma mudança não merece este nome senão se ela resulta de análises e decisões que procedem e prevêem as crises --- ao menos as crises fatais. Coloca-se em funcionamento uma reforma de modo, em parte, voluntário, desde que ainda se dispõe de faculdade de optar entre várias soluções. A reforma desvia-se da catástrofe; ela não é uma reforma se a acompanha. Escorregar num precipício e tentar se agarrar à parede não poderia ser definido como a aplicação de um programa de reformas. Na maioria das vezes é o malogro e o declínio que, num Estado ou numa empresa, levam à consciência de que a reforma é oportuna. Mas, sob risco de ineficácia, deve-se intervir muito rapidamente para que o sistema, ao mesmo tempo em que se corrija, mantenha-se de pé, o que é a definição mesma de reforma. Boas resoluções tomadas após o malogro não se adequam a esta definição".

Em que caso o novo Tratado de União se inclui? Vai ser uma saudável descentralização, permitindo que cada problema ganhe sua devida dimensão ou se constituirá, como o primeiro-ministro soviético, Valentin Pavlov, advertiu nesta semana, numa entrevista, num "vazio de poder"?

Se for neste último caso, a União Soviética tende a reproduzir, e a médio prazo, em dimensões muitíssimo maiores, o sangrento conflito étnico que estraçalha o que já foi um dia a Iugoslávia. Para o bem da população desse país e do mundo --- pois ninguém pode ignorar a importância da URSS em termos de paz e de equilíbrio nas relações internacionais --- espera-se que o novo federacionismo se constitua em algo absolutamente revolucionário e inovador.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 17 de agosto de 1991).



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
Desenho sem borracha

Pedro J. Bondaczuk

A nossa vida é balizada por determinados acontecimentos externos, que nada têm a ver diretamente conosco e isso ocorre, principalmente, quando eles coincidem com momentos pessoais, positivos ou negativos, que se fixam em nossa lembrança. À nossa revelia, incorporam-se, de vez, a nossas biografias, mesmo que estas jamais venham a ser escritas. Caso o sejam, tais fatos são, invariavelmente, lembrados por nossos biógrafos e associados àqueles episódios que nos dizem respeito diretamente.

Por exemplo, não consigo dissociar a destruição das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ocorrida em 11 de setembro de 2001, de uma ocorrência pessoal muito sofrida e angustiante. Uma semana antes desse incrível atentado, eu havia sofrido um acidente doméstico dos mais bestas. Tive uma queda, que resultou na “trinca” da cabeça do fêmur da perna esquerda.

Como, na oportunidade, eu já não era tão novinho assim, a aflição (minha e da família) era imensa. Permaneci dois dias internado em um hospital aqui de Campinas. Os médicos queriam fazer uma operação, para colocar parafusos no osso fraturado e assim garantir sua consolidação. Contudo, eu havia tido acesso às radiografias. E estas mostravam que a trinca era muito discreta, quase que apenas um imperceptível “risquinho” na cabeça do fêmur. Opus-me, portanto, veementemente, a tal cirurgia.

Fizeram-me assinar um termo de responsabilidade (o que fiz, sem susto ou hesitação) e liberaram-me para voltar para casa. Eu teria que permanecer por algumas semanas com peso no pé, para que o osso ficasse no lugar correto e pudesse se consolidar sem problemas.

Avesso a medicamentos, suportei a dor “a seco”. E garanto que não era das mais pequenas. No dia do atentado, eu estava com a TV a cabo ligada, logo de manhã (embora não costume, e nem possa, assistir televisão nesse período), pois na noite anterior, o então prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, havia sido assassinado, num caso que até hoje carece de explicações plausíveis.

A todo o momento a TV trazia flashes do velório e das investigações policiais. De repente, surgiu na telinha a imagem de um avião de passageiros chocando-se, espetacularmente, contra uma das torres gêmeas do World Trade Center. Pensei, distraído, que se tratasse de trailler de um desses tantos filmes de catástrofe, dos quais a imaginação dos produtores de Hollywood é fartíssima. Não tardou, porém, para que percebesse que a ocorrência era real.

Minutos depois, um segundo avião chocou-se com a torre que havia ficado intacta no primeiro choque. O coração veio parar na minha boca. Fui tomado de horror com o que estava acontecendo e com as notícias complementares dando conta de que o Pentágono também havia sido parcialmente destruído e de que uma nova aeronave se dirigia a Washington, provavelmente para arrasar a Casa Branca.

O trauma completou-se quando as duas torres gêmeas vieram abaixo, num turbilhão de poeira e de fumaça, como se fossem frágil castelo de cartas. Desde então, associo, em meu subconsciente, até automaticamente, os dois fatos: a dor que sentia no momento em decorrência da fratura e o desmoronamento do World Trade Center.

Recuperei-me por completo do acidente sem que ficasse nenhuma seqüela. Mas sempre que penso num desses dois fatos, o outro vem, imediatamente, à memória. Embora sem a mínima relação um com o outro, ambos ficaram, para sempre, associados um ao outro em minha lembrança.

Felizmente, esse tipo de associação também ocorre com eventos positivos. Por exemplo, recebi o sim, da minha primeira namorada (oficial), à minha proposta de namoro, no dia exato da inauguração de Brasília, ou seja, em 21 de abril de 1960. O fato (para mim, na época, dos mais auspiciosos), ocorreu na Fonte Sônia, em Valinhos, onde a escola em que estudava fazia piquenique nesse tão aprazível local. A declaração (e o conseqüente sim) ocorreram no interior de um barco, no qual ambos navegávamos, numa espécie de lago artificial ali existente. Romântico, não é mesmo?

O evento completou, em 2010, meio século, assim como este momento marcante em minha vida. Ambas as ocorrências estão indelevelmente associadas em minhas lembranças, sem ter, contudo, a mínima relação uma com a outra.

Brasília, aliás, tem importância muito especial para mim. Meu saudoso pai, que era mestre de obras, participou da epopeia que foi a sua construção. Há, pois, muito da participação dos Bondaczuk na sua existência. Sinto que a cidade é um pouco minha também (embora, claro, não o seja).

Pensando em tudo isso, concluo, como fez Millôr Fernandes (êta sujeitinho inteligente!): “Viver é desenhar sem borracha”. E não é?!! É verdade que não podemos apagar os erros que cometemos, os sofrimentos que tivemos, os fracassos que nos abateram etc. Em contrapartida, porém, ninguém pode, igualmente, suprimir, como num passe de maligna mágica, as experiências gratificantes e inesquecíveis pelas quais passamos, que se tornam nosso mais precioso patrimônio pessoal enquanto tivermos um sopro que seja de vida.



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Sunday, June 25, 2017

CONHECEMOS A FUNDO NOSSOS “AMIGOS ESPIRITUAIS”
Conhecemos bem nossos “amigos espirituais” (mesmo que não haja reciprocidade), talvez melhor, até, do que seus mais chegados parentes. Consideramo-los “amigos”, no sentido mais estrito de amizade, mesmo que jamais, por alguma razão, não nos refiramos a eles dessa maneira. Afinal, o que vem a ser amizade? Não é a identidade de ideias, sentimentos e emoções? Não é a existência de interesses comuns? Pois então, todos esses escritores que tanto aprecio e venero são, rigorosamente, amigos, mesmo que não nos conheçamos pessoalmente e que não haja reciprocidade da parte deles. Desconfio que se as circunstâncias nos aproximassem, e possibilitassem convivência física, material, constante, tête-a-tête, esse sentimento seria recíproco. É tudo isso que expus, com tamanha emoção (até visceralmente), mas pouca razão, o que sinto, por exemplo, pelo mexicano Octávio Paz. Claro que jamais o vi cara a cara, mesmo que ele tenha estado em inúmeras ocasiões no Brasil. Oportunidades para esse encontro não faltaram e ele só não ocorreu em decorrência das circunstâncias. Sempre elas... E jamais ocorrerá, já que este poeta, ensaísta, diplomata e tradutor, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1990, morreu, e há um bom tempo, em 19 de abril de 1998. Sua morte, todavia, não alterou para pior nem um reles milímetro do meu sentimento de “amizade espiritual” por ele. Desconfio que até o aprofundou.


@@@@@@@


Livros que recomendo:
Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com
Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Águas de presságio” – Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
A sétima caverna” – Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br
Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
Acariciando esperanças” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
O que comprar:
Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.
Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.
Como comprar:
Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria:
Edição impressa:
1. Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.
2. Livraria Saraiva.
3. Cia. Dos Livros.
4. Amazon
Edição em e-book:
  1. Editora Barauna
  2. Buscapé
  3. Extra
  4. Travessa
  5. Folhashop
  6. Shopping uol

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Hora da limpeza



Pedro J. Bondaczuk


As revelações do economista José Carlos Alves dos Santos acerca do esquema de propinas e de fraudes montado por uma quadrilha de escroques para desviar verbas do Orçamento da União equivaleram, pela sordidez das ações denunciadas, à abertura de um bueiro.

Subitamente, o ar ficou impregnado de mau cheiro, de odor nauseabundo de podridão. Foi a gota de água que faltava – ou espera-se que tenha sido – de uma sucessão interminável de escândalos que vieram a lume nos últimos dez anos.

Foram tantos os casos, como os de falências fraudulentas de instituições que operavam com cadernetas de poupança, de roubos à Previdência, de subornos de ministros, de tráfico desavergonhado de influência etc., que seria necessário um alentado volume, da espessura de uma lista telefônica, para rememorar todos.

Mas o atual, pela quantidade de políticos envolvidos e pelos cargos que estes exercem ou exerciam é, sem dúvida nenhuma, como assinalou o historiador Francisco Iglesias, “o mais grave da história do País em todos os tempos”. Um aspecto positivo disso tudo é a maneira como os formadores de opinião pública estão encarando a questão.

Os vários editoriais e artigos publicados nos últimos dias destacaram a rara oportunidade de se proceder a uma moralização nos nossos costumes. A Comissão Parlamentar de Inquérito (instalada sob um certo clima de ceticismo), para apurar as falcatruas, vem agindo rapidamente, de maneira segura, firme, mas ponderada. Nota-se uma preocupação dos seus membros, mormente do relator da CPI, deputado Roberto Magalhães, e do presidente, senador Jarbas Passarinho (saudável, por sinal) de distinguir entre imoralidade e ilegalidade dos atos praticados pelos que manipularam o Orçamento da União. Tentam delimitar a sutil diferença entre a ilegitimidade e a ilicitude.

Convenhamos, não é justo, e muito menos inteligente, generalizar a corrupção. Afirmar que todos os políticos são “farinhas do mesmo saco”, que não há mais salvação para o Brasil, que cada um deve agir apenas em seu próprio interesse, como se apregoa amiúde, além de não ser prático, não é construtivo. Tal pessimismo é um veneno que conduz facilmente ao derrotismo. Reflete um desencanto em relação às instituições, quando a atitude racional seria agir, mediante pressões, protestos e todos os instrumentos lícitos de exercício da cidadania, para seu aperfeiçoamento.

Alguns editoriais, como o do dia 28 passado, de “O Estado de S. Paulo”, ressaltam, inclusive, um aspecto favorável desse novo escândalo. O da tendência de ele favorecer a política econômica que o ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, pretende implantar.

O argumento, sólido por sinal, é que a onda de moralização que varre o Congresso vai contribuir para a redução do déficit público. Em última análise, irá beneficiar o ataque direto às verdadeiras causas da inflação, brecando, num primeiro instante, a sua aceleração para, a seguir, forçar as taxas para baixo.

O importante é que o Congresso se conscientize de que, para adquirir a credibilidade perdida (alguns garantem que nunca a teve), tem a obrigação de ir fundo na apuração das denúncias. E, principalmente, que tudo não se restrinja apenas à investigação. Esta deve vir, necessariamente, acompanhada da respectiva punição dos culpados.

Concordamos, plenamente, com o professor Iglesias quando ele afirma: “Fatos importantes deverão acontecer em breve no País, com uma mudança radical nos costumes políticos e nas penalidades aplicadas aos criminosos de colarinho branco”. Até porque, como observa o antropólogo Roberto da Matta, “é preciso entender que a sociedade brasileira não é um recipiente vazio e que seu povo reage a tudo o que vem de fora e de cima”.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de outubro de 1993)



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

O sucesso e o risco



Pedro J. Bondaczuk


As pessoas – pelo menos as que conheço, pessoalmente ou através dos meios de comunicação, como televisão, rádio, jornais, revistas e livros – tendem a apostar no catastrofismo, no negativismo, no lado obscuro e perverso da alma. Tanto que através dos séculos se espera o "fim do mundo", mediante algum cataclismo determinado por eventual "castigo divino" (como se houvesse um Deus iracundo e vingativo disposto a castigar seus filhos), ou vindo do espaço, ou provocado pelo próprio homem. A história da humanidade é uma sucessão interminável de guerras, tiranias, corrupção e barbárie, como se o ser humano soubesse somente praticar o mal. Mas isso está longe da verdade. Ou pelo menos de toda ela.

Também tivemos, através dos tempos, os santos, os altruístas, os abnegados e os puros de coração. E temo-los ainda no nosso convívio ou ao nosso redor. Estes, porém, não atraem ninguém. Há quem os ache uns "chatos", pois com a simples presença "esfregam" no rosto da maioria suas deficiências, fraquezas, covardias, transgressões e imoralidades. As pessoas, consciente ou inconscientemente, assumem sua maldade latente, daí viverem procurando nos outros o mesmo sentimento.

Mas seria o mundo "valhacouto de canalhas", como somos forçados a crer desde que tomamos consciência da realidade? A vida não teria mesmo sentido? Seria uma experiência aleatória? Estaríamos vivos apenas por acaso, sem nenhum objetivo maior senão o de simplesmente viver, por um prazo nunca conhecido, e depois se extinguir, sem deixar rastros ou vestígios? Recuso-me a crer em tudo isso. Muitas vezes, por ter uma visão positiva da realidade e alimentar e disseminar esperanças, sou criticado como sendo um intelectual alienado. Como se isso fosse ainda possível com tanta sujeira lançada pelos meios de comunicação em nosso colo, todos os dias!

Não há como negar que a vida implica em permanente risco. Não somente os inerentes à nossa fragilidade face ao mundo que nos cerca, mas principalmente os do convívio com nossos semelhantes. Ninguém está a salvo, por exemplo, de ser atacado e morto por algum dos tantos malucos, enrustidos ou ostensivos, a qualquer momento ou em qualquer lugar. Tanto aqueles com os quais cruzamos fortuitamente, quanto alguns que podem até conviver conosco, no trabalho, no lazer, na escola e às vezes até debaixo do nosso teto. Quase que diariamente, podemos ver, ou tomamos ciência, de vários exemplos desse tipo, em que pessoas são assassinadas por acaso, por se envolverem em alguma briga tola ou apenas por estarem perto de algum desequilibrado, que sem esta ou mais aquela, lhes suprime a vida.

Mas se estamos expostos a perigos, temos, também, diante de nós, inúmeras oportunidades à espera que as identifiquemos e nos apropriemos delas. Os pessimistas, na verdade, são os medrosos, os que se recusam a assumir responsabilidades pelo próprio futuro. Esse negativismo é uma forma de lançar a culpa pelos próprios fracassos sobre ombros alheios e de justificar a inércia. Charlotte Joko Beck diz mais ou menos isto, neste trecho do livro "Sempre Zen":

"Quando achamos nossa vida desagradável ou insatisfatória, tentamos nos livrar desse incômodo por meio de vários mecanismos de escape sutis. Com tais tentativas, estamos tratando nossa vida como se houvesse um mim e uma vida fora de mim. Enquanto tratarmos nossa vida dessa forma, faremos com que todos os nossos esforços se dirijam ao encontro de algo ou de alguém que cuide de nossa vida por nós. Podemos procurar amante, um mestre, uma religião, um centro – algum lugar, alguém ou alguma coisa que resolva nossa dificuldade por nós. Enquanto tivermos nossa vida desse modo dualista estaremos nos enganando e acreditando que não é preciso pagar preço algum por uma vida realizada. Todos partilhamos essa desilusão em graus variáveis; e isso só nos leva a uma vida de torturas".

Cansei de receber telefonemas de pessoas fracassadas condenando o meu otimismo com indisfarçável rancor e atribuindo-o a uma suposta existência despreocupada e protegida. Dizem-me que não sei o que é o sofrimento, que devo ser "filhinho de papai" e outras bobagens do tipo. Óbvio que quem tira essas conclusões, baseado apenas no que escrevo, não sabe nada a meu respeito. Tenho cultura, é verdade. Mas tive que pagar um preço altíssimo por ela, abrindo mão de repouso, lazer e de uma série de regalias e satisfações simples, a que o mais humilde dos humildes tem acesso.

Algo que pouca gente sabe é que sou paraplégico e tive que fazer um esforço sobreumano para conseguir simplesmente andar, e de muletas, contrariando todas as previsões médicas. E dá para se imaginar o que espera alguém que tenha qualquer deficiência física neste País, que é a sociedade mais injusta e preconceituosa do mundo, de acordo com estatísticas internacionais confiáveis. As circunstâncias da minha vida, em vez de me tornarem amargo, fazem-me ser um sujeito feliz. Paguei um preço para conquistar alguns dos meus sonhos e me dei bem. E, além disso, se chorar trouxesse alguma vantagem, eu estaria disposto a inundar o Planeta com minhas lágrimas. Como não traz...



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Saturday, June 24, 2017

AMIGOS ESPIRITUAIS” TENDEM A SER “IMORTAIS”
Em muitos casos (talvez na maioria), minhas “amizades espirituais” nem poderiam contar com a devida correspondência. Por que? Porque essas pessoas que consideramos amigas (e ainda por cima, íntimas) já morreram. E esse sentimento de intimidade e fraternidade é tão intenso e profundo, que nem a morte é empecilho para que essas amizades se preservem e se mantenham tão sólidas como quando começaram.. Ela é intemporal. E independe de qualquer fator objetivo. Ou seja, permanece intacta além da vida. Mesmo depois de falecidos, esses escritores (que, no meu caso, constituem a imensa maioria desses “amigos espirituais”) permanecem vivos, vivíssimos em nossa memória e em nossas emoções. Seus espíritos ficam retidos nas páginas dos livros que escreveram, nas entrevistas que deram a jornais e revistas e, ultimamente, nos textos que, em vida, postaram na internet, em múltiplos sites e/ou blogs.
***


CHAMA DA GENIALIDADE DOS AMIGOS ESPIRITUAIS ESTÁ SEMPRE PRESENTE
A chama de genialidade dos “amigos espirituais” nos acompanha, como anjos da guarda, como espíritos tutelares, ao longo da nossa jornada pelo mundo. É possível, se não provável, que se um dia cruzarmos com um desses nossos ídolos intelectuais vivos, que tanto prezamos, em uma rua qualquer de alguma cidade, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Recife ou, no meu caso, Campinas, passemos, um pelo outro, com absoluta indiferença. Talvez nem nos reconheçamos. Não descarto que isso já tenha ocorrido algum dia comigo. É possível e até provável. Nossa identidade, reitero, não é física. É intelectual. Vou mais longe: é espiritual.

@@@@@@@


Livros que recomendo:
Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com
Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Águas de presságio” – Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
A sétima caverna” – Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br
Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
Acariciando esperanças” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
O que comprar:
Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.
Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.
Como comprar:
Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria:
Edição impressa:
1. Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.
2. Livraria Saraiva.
3. Cia. Dos Livros.
4. Amazon
Edição em e-book:
  1. Editora Barauna
  2. Buscapé
  3. Extra
  4. Travessa
  5. Folhashop
  6. Shopping uol

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Recessão e hiperinflação


Pedro J. Bondaczuk


A inflação ameaça subir, outra vez, para um novo patamar, projetado pelo mercado para 26% em setembro e admitido pelo governo em 24%, com estimativas de acumular no ano algo em torno de 600%, depois dos 475% em 1991. Índices tão elevados caracterizariam uma hiperinflação ou não? É a pergunta, um tanto acadêmica, que se faz freqüentemente.

De acordo com o informe "Crescimento e investimento na América Latina", elaborado pelo Departamento de Pesquisas Econômicas do Morgan Guaranty Trust Company, dos Estados Unidos, divulgado em meados do mês passado, sim. Todavia, economistas tupiniquins asseguram que não. Dizem que para caracterizar um surto hiperinflacionário, são necessários índices mensais em torno de 50% ou mais.

O que importa, entretanto, é o castigo que uma inflação dessa dimensão representa para a maioria da população brasileira, em especial para o assalariado e, pior ainda, para quem não tem salário algum por não dispor de emprego.

E para que tem valido todo o aperto determinado pela atual política econômica se tanto sacrifício não serviu nem mesmo para trazer o custo de vida para níveis "mais civilizados", algo em torno de 9% ao mês, o que, em termos anuais, nos países do Primeiro Mundo é tido como trágico?

A recessão purgativa do ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, seria o remédio adequado para uma sociedade que perdeu toda a década passada, em termos de desenvolvimento, e que se mantém em marcha a ré no início da atual?

Economistas conceituados, alguns ganhadores de Prêmio Nobel, como é o caso de Milton Friedman, descartam medidas recessivas de seu receituário para combater a inflação. Ou, quando muito, recomendam-nas quando o surto inflacionário é provocado por demanda aquecida --- que não é o caso brasileiro --- e assim mesmo por tempo bastante limitado, de no máximo 90 dias.

O Brasil, contudo, está com a economia parada há praticamente dois anos. Outro aspecto a destacar é que os países de Primeiro Mundo que se valeram desse recurso extremo, desse choque heterodoxo brutal, dispõem de mecanismos de proteção social adequados.

Seus desempregados contam com seguro desemprego decente, que lhes provê um padrão de vida quase igual ao que contavam quando na ativa. Isto é possível em virtude da recessão ser por tempo limitado. E no Brasil, o que ocorre?

Há trabalhadores sem emprego há mais de um ano, sobrevivendo não se sabe como. Inúmeras famílias, até há pouco tempo tidas como de classe média baixa, hoje vivem em favelas ou até nos desvãos de viadutos --- em Campinas mesmo há uma nestas condições --- por não ter como pagar um aluguel.

O pior de tudo é que a equipe econômica, cantada e decantada em verso e prosa, insiste neste expediente suicida, indiferente ao padecimento de tantos brasileiros, que não têm sequer a esperança de um fim previsível para seus tormentos.

Será que essas pessoas irão recuperar, num passe de mágica, o tempo que estão deixando de viver para apenas vegetar? Suas vidas, como se fossem produções de Hollywood ou gravações de vídeo, terão "replay", que lhes possibilite consertar erros ou refazer o enredo, ou estão irremediavelmente comprometidas? A resposta, de tão óbvia, dispensa registro. Isto é o que os tecnocratas deveriam pensar ao tomarem suas decisões, mas não pensam.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 4 de setembro de 1992).



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Hábito que faz o monge



Pedro J. Bondaczuk



O hábito não faz o monge”, diz conhecido dito popular, citado e repetido amiúde, quando se quer ilustrar o quanto as aparências costumam enganar quem está habituado a tirar conclusões apressadas sobre os semelhantes, baseado, apenas, no que vê. E, em certa medida, todos nós, uma vez ou outra, agimos dessa maneira. Medimos a capacidade, e até a “respeitabilidade” (quando não a projeção profissional e/ou social) de uma pessoa, apenas pela forma como ela se veste.

Fazemos, por conseqüência, juízos apressados (quando não ridículos), baseando-nos, somente, no aspecto exterior de alguém, naquilo que é passivo de ser disfarçado, ou imitado. Há, inclusive, quem faça desse comportamento uma espécie de regra (e não são poucos). E, claro, cometem equívocos monumentais. E como se enganam!

Albert Einstein, por exemplo, tido e havido como desleixado, no que diz respeito à forma de se trajar, e de se apresentar socialmente (quem nunca viu a imagem do famoso cientista, com os cabelos compridos e desgrenhados, mostrando a língua, como que a debochar dos que se apegam somente às aparências?) jamais seria recebido no círculo social de quem se utiliza desse parâmetro (tão comum, porém mesquinho) de avaliação.

No entanto... foi um dos maiores gênios que o mundo já produziu em todos os tempos, respeitado e admirado não exatamente por sua “elegância” (que não tinha), mas pela força do seu raciocínio e pelo uso continuado e racional do seu cérebro privilegiado. Inúmeros outros casos, como esse, poderiam ser mencionados, para mostrar o quanto essa maneira de julgar o próximo é enganosa, quando não ridícula e principalmente preconceituosa.

A forma de se trajar, porém, é uma espécie de “cartão de visitas” nos nossos relacionamentos do dia a dia. Principalmente nos contatos com os que nos são desconhecidos. E isso vale tanto no plano profissional (os anúncios de oferta de emprego, invariavelmente, exigem que o candidato tenha “boa aparência”), quanto no social e, às vezes (e não tão raro assim), até no afetivo.

O modo de nos vestirmos tende a determinar, por conseguinte, (salvo raras exceções), a forma com que seremos recebidos (e tratados), por exemplo, em um escritório, em um banco, em uma repartição, em um estabelecimento comercial, em uma casa de família, etc. Isto, se nos receberem, é claro.

Se estivermos com uma roupa puída, ou desbotada, ou amassada, ou que revele qualquer espécie de desleixo, de desalinho ou de deselegância, podemos estar certos de que a recepção que nos será tributada (se conseguirmos ser recebidos, convém reiterar) será, no mínimo, arrogante, quando não hostil. O traje, portanto, ao contrário do que reza o mencionado clichê, “faz o monge”. Hoje, raros jornais e revistas que se prezam não têm editorias de Moda. Isso requer profissionais especializados, que saibam o que dizem e que entendam, de fato, do riscado. E que aliem, a esse conhecimento, sensibilidade e bom-gosto.

Reitero: infelizmente, o “hábito faz o monge”. E como faz! Isto, apesar de todos os esforços, notadamente dos jovens, para “desmoralizar” esse tipo de comportamento, que só leva em conta a aparência exterior, aqueles sinais visíveis de riqueza ou de pobreza, facilmente disfarçáveis e escamoteáveis, sem atentar para aquilo que a pessoa de fato é.

Por paradoxal que possa parecer, a moda conseguiu – notadamente a partir da segunda metade do século passado – transformar, até, a “deselegância” em padrão de “elegância”. Cooptou, dessa maneira, a rebeldia da juventude em relação à aparência (cabelos e barba compridos) e ao traje, de movimentos como os dos “beatniks”, “hippies” e “punks”, entre outros.

Calças jeans, e ainda por cima puídas, por exemplo, que eram vestes características de pessoas não apenas mal vestidas, mas miseráveis (quando não indigentes), são ostentadas, hoje em dia, com orgulho, como sendo “sumamente elegantes”, por rapazes e moças de classe média e até de famílias abastadas, sem que quase ninguém mais repare e nem estranhe.

Deixamos, para reflexão dos leitores, o seguinte trecho do romance “Dedo nos Lábios”, de Afonso Schmidt, editado no início dos anos 60 pelo Clube do Livro, pela pertinência e como ilustração do assunto aqui tratado: “Que seria da grandeza dos reis, da glória dos marechais, da santidade dos papas e da austeridade dos juizes sem a roupa que cobre as misérias do corpo? A roupa começou pela tanga e pelo cocar, não foi feita para resguardar do frio, mas para impor o domínio de alguns homens sobre os demais”. E não foi?. Portanto, apesar das tantas mudanças verificadas no comportamento das pessoas, (não sei se feliz ou infelizmente) “o traje ainda faz monge”...o que contradiz o tão propalado clichê.



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk