Saturday, February 28, 2015

O fato de não termos inventado nada, mas apenas refletido sobre idéias alheias, elaboradas às vezes milênios antes do nosso nascimento, não invalida a filosofia, nem a incessante busca por conhecimentos, nem a pesquisa científica e nem, sobretudo, a Literatura (que, no meu caso, é a minha grande paixão). O que não podemos é ser arrogantes e presunçosos e nos acharmos “geniais”, por contarmos com um “tantinho” de inteligência. Temos que deixar de lado nossa propalada auto-suficiência e admitir que não passamos de anões e que nos parecemos gigantes, aos que nos observam, apenas por estarmos de pé nos ombros dos que na verdade o foram. Ou seja, dos nossos verdadeiramente inventivos, no entanto anônimos, antepassados. Se Goethe, reconhecidamente um gênio da Literatura mundial de todos os tempos, negava a mais remota possibilidade de ser “descobridor”, e, portanto, original, quem sou eu, que não conto com o mínimo resquício da sua genialidade, para me sentir minimamente inventivo?! Definitivamente, não sou!


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Caminho da moderação

  
Pedro J. Bondaczuk


A União Soviética contemporânea, da época que poderíamos denominar como sendo a do pós-comunismo, tem tantas correntes de pensamento quantas são as nacionalidades que compõem a Federação. Ou seja, virtualmente, mais de uma centena. Todas elas constituem potenciais embriões de partidos, à espera, apenas, da legalização do multipartidarismo no país.

Essas facções vão desde os monarquistas, que pregam a volta dos czares, a fanáticos religiosos, de todos os matizes e graus de fanatismo. Parece, portanto, que depois de uma letargia de sete décadas, o urso está despertando de sua hibernação e voltando a pensar, embora de maneira inquestionavelmente caótica.

Das múltiplas vertentes ideológicas que se apresentam, quatro merecem destaque. A primeira é a dos conservadores comunistas de linha-dura, que têm em Joseph Stalin ainda o seu paradigma. Embora essa corrente tenha inegável força, está, evidentemente, na contramão da história.

A segunda e a terceira correntes são constituídas por reformistas, mas em graus variáveis no que se refere à abrangência e profundidade das reformas. O grupo liderado pelo presidente russo, Boris Yeltsin, quer mudanças radicais, profundas, imediatas, sem se importar com as conseqüências. Isto, porém, se nos afigura impossível, pelo menos nas atuais circunstâncias e conduziria a União Soviética à desagregação, senão ao caos de uma guerra civil indescritível.

Já a corrente encabeçada por Mikhail Gorbachev (que, aliás, foi o grande detonador das mudanças na URSS e que, por isso mesmo, arca com os ônus de um Estado ineficiente e de dimensões inéditas em todos os tempos), evidentemente, sabe que é preciso mudar. Tanto é que os dois grandes projetos reformistas, quer econômicos, quer políticos e sociais, são de sua autoria: a perestroika e a glasnost.

Mas o presidente soviético defende que tudo se faça gradualmente, passo a passo, já que pessoas, evidentemente, não são números estatísticos e serão elas que irão arcar com as conseqüências das reformas. Os soviéticos que ainda o combatem não se deram conta do humanismo com que seu líder máximo vem agindo.

Finalmente, no extremo oposto dos conservadores estão os radicais. Estes defendem o fim, puro e simples, do comunismo. Querem que o gigante euro-asiático volte a ter a mesma conformação geográfica e política de antes de 1917. Só que se esquecem de dizer à população como as coisas eram, de fato, então.

Omitem a informação de que, enquanto uma reduzidíssima elite esbanjava comida, em festas intermináveis, reunindo todo o jet-set internacional, milhões e milhões de cidadãos vegetavam na mais abjeta miséria. Milhares morriam de fome e, quando sequer pensavam em protestar, eram reprimidos e massacrados pela truculenta polícia czarista.

A história registra isso. Basta consultar esses registros. Nenhum soviético de bom-senso aceita isso de novo. De todos os caminhos propostos para a União Soviética, o Ocidente apóia o escolhido por Gorbachev. Nem é preciso ser nenhum perito em política para se enxergar que a alternativa apontada por ele é a única prudente, senão possível. O resto? Bem, o resto não passa de mero aventureirismo de quem apenas busca projeção pessoal e notoriedade.    

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 20 de junho de 1990).


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A importância das pequenas coisas

Pedro J. Bondaczuk

As pequenas coisas, volta e meia, tendem a ser as mais importantes, embora nem sempre venhamos a nos dar conta dessa importância. E não somente as diminutas. Também (ou p0rincipalmente), as microscópicas, as invisíveis a olho nu ou mesmo com o uso de aparelhos óticos que não sejam ultra-potentes. Entram, aí, não só objetos ou seres vivos, mas também acontecimentos e ações (nossas e alheias). Muitas vezes fazemos algo aparentemente trivial, de forma mecânica, automática, casual, sem atentar para conseqüências, por julgarmos que não haverá nenhuma. E... de repente, esse ato supostamente inocente e comezinho altera nossa vida para sempre, para melhor ou para pior. Vou mais longe. Afirmo que as pequenas coisas, as ínfimas, as microscópicas e as invisíveis a olho nu podem se tornar não só importantes, mas decisivas. Algumas têm potencial, até, de nos destruir. E, mais do que isso, podem extinguir toda uma espécie, no caso a nossa, a humana. Exagero? Não!

Estão, neste caso, dois agentes tão minúsculos que, até não faz muito, tinham a existência até mesmo ignorada: o átomo e os vírus. O primeiro, âmago da matéria, era até intuído por sábios da Grécia Antiga. Mas se limitava ao terreno da especulação, das teorias, da mera abstração de filósofos que raciocinavam para muito além das aparências. Todavia, o homem do século XX conheceu, horrorizado, seu poder de destruição. Os sobreviventes de Hiroshima e de Nagasaki que o digam. E o potencial catastrófico do átomo não está nem mesmo na sua integralidade, mas em algo consideravelmente menor: em seu núcleo (daí a energia gerada ser denominada de “nuclear”), muitíssimo menos visível por suas dimensões absurdamente pequenas. Esse potencial, tão imenso a ponto de gerar calor mais intenso do que o de alguns pares de sóis do tamanho do nosso, se faz concreto de duas formas: fissão e fusão. No primeiro caso, o núcleo é dividido (grosso modo), liberando energia. No segundo, é aumentado mediante acréscimo de nova partícula, com resultado mais ou menos parecido.        

No caso dos vírus, guardadas as devidas proporções, há, também, monstruoso potencial destrutivo da vida (e não somente a humana). Ao contrário do átomo, até o final do século XIX os mais doutos e geniais cientistas sequer desconfiavam de sua existência, embora eles viessem agindo, causando doenças mortais, suponho, desde o surgimento do homem. Nem me refiro a outras espécies vivas. Para que o leitor tenha uma idéia, basta recordar que uma bactéria (e olhem que estas são, proporcionalmente, muito maiores que os vírus), a “yersinia pestis”, aniquilou pelo menos o mesmo tanto de pessoas, na Europa, que a Segunda Guerra Mundial. Deixou 75 milhões de mortos! Proporcionalmente, porém, a catástrofe teve dimensões de hecatombe. Eliminou três quartos da população européia de então!!! Um quarto a mais que matasse, e o homem simplesmente desapareceria do continente europeu. E olhem que as bactérias são não só muito maiores do que os vírus, como potencialmente menos letais.

Inúmeras delas são até inofensivas ao ser humano. Há  muitas que nos são benéficas e indispensáveis para o bom funcionamento do nosso organismo. Já os vírus... Não se pode confiar neles. A pandemia que mencionei foi a da chamada peste negra, que varreu a Europa, no início do século XIV. Só não eliminou o homem, não apenas do continente europeu, mas da face da Terra, por puríssimo acaso. Não havia, na época, Medicina que merecesse esse nome. O que havia era um misto de curandeirismo com certo empirismo, que às vezes até funcionava, mas que na maioria dos casos era inútil e vão. As mortes, que ocorriam em nove de cada dez doentes, eram atribuídas não às doenças, hoje facilmente tratáveis e de rápida cura, mas a castigos divinos. Ademais, não havia a mínima noção de higiene e da sua necessidade. Vai daí...

A “yersinia pestis” era transmitida ao homem através de pulgas (Xenopsylla Cheopis) que se alimentavam do sangue de ratos pretos (Ratus Ratus) antes de os trocarem pelas pessoas ao seu redor. E esses roedores nunca faltaram (e não faltam ainda hoje), dada a rapidez de sua reprodução. Mesmo nos tempos atuais, com todos os recursos sanitários, de higiene, existentes, a população mundial desses prolíficos animais é estimada, pela Organização Mundial de Saúde, em vinte exemplares para cada ser humano. É só fazer as contas. Multipliquem 7,2 bilhões de habitantes do Planeta por vinte. Os ratos são, hoje, portanto, no mínimo, 144 bilhões (se não errei na multiplicação). E a OMS admite que esse número pode ser muitíssimo maior. Desconfio que seja. Imaginem no século XIV, com a absoluta falta de higiene que existia!

Hoje, a maior ameaça, ou uma das maiores ameaças à nossa sobrevivência está em vírus, como os da família Filoviridae (que provocam febres hemorrágicas graves) como o ebola (que já causou pelo menos cinco mil mortes em 2014), como o Marburg (considerado ainda pior), ou como o H5N1 (causador da gripe aviária), ou o que provoca a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) ou os vários Hantavírus e vai por aí afora. Já imaginaram se ocorrer uma pandemia dessas doenças, a tragédia que será? E isso é perfeitamente possível, apesar dos recursos atuais da Medicina e dos avanços da Virologia. Só um súbito assomo de loucura nos responsáveis pelo uso do absurdo arsenal nuclear existente na atualidade é mais perigoso à sobrevivência da nossa espécie (temo que á de todas).

Como se vê, temos que estar atentos, atentíssimo, vigilantes, vigilantíssimos às pequenas coisas. O povo costuma dizer que “é nos pequenos frascos que estão os grandes perfumes”. Ao que alguns acrescentam, não sem certa dose de sadismo: “e também os venenos mais letais”. Não se trata de paranóia catastrofista, mas convém estarmos sempre prevenidos para as artimanhas, não só do diminuto, mas do ínfimo, do microscópico, do invisível a olho nu, como o átomo e os vírus, pois neles pode estar o germe da nossa destruição.


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Friday, February 27, 2015

Por mais criativos que nos achemos, salvo raríssimas exceções (se é que elas existam), somos, na verdade, eminentes plagiadores. Tomamos determinada idéia, que achamos que seja original (mas não é, pois a colhemos alhures), acrescentamos um ou outro detalhe, algum ingrediente provavelmente até supérfluo e pronto. Julgamo-nos um poço de sabedoria e inventividade. Isso, no entender de Goethe (e no meu, evidentemente) é arrogância. E mais: é inconsciência. Claro que sou tentado a achar que estas minhas reflexões estão revestidas, se não por completo, pelo menos parcialmente, de absoluta originalidade. Mas estariam? O que conheço de literatura universal? Qual o escritor uzbeque que já li? Ou bengali? Ou paquistanês? Ou hutu? Ou dos milhares de povos que há, espalhados mundo afora? Como me achar original e inventivo depois de 13 milênios de civilização, com um número incontável de pessoas que já passaram pelo Planeta, que refletiram, estudaram e escreveram páginas que nunca chegaram e nem chegarão ao meu conhecimento?!


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Criação de feras


Pedro J. Bondaczuk


O terrorismo é uma rara arma de ação política dos desesperados e, de acordo com um estudo divulgado nesta semana, feito por psicólogos e sociólogos, apresenta duas grandes vertentes. A primeira é a dos anarquistas, que se opõem a qualquer tipo de sociedade organizada e desejam destruir as estruturas sociais existentes.

Esse grupo teve grande atuação no passado, notadamente da parte dos niilistas espanhóis e seus congêneres russos, do período czarista. O assassinato do czar Alexandre II, em 1º de março de 1881, cometido por Ignaty Grinevitsky que, portando uma bomba, cometeu um atentado-suicida, segurando o artefato explosivo nas mãos, para que não explodisse em lugar errado, é um desses inúmeros exemplos.

Outro é o da morte do presidente norte-americano William McKinley, atingido, a bala, pelo terrorista Leon Czolgosz, em 6 de setembro de 1901 e que veio a falecer, em conseqüência dos ferimentos recebidos, oito dias depois.

Como se vê, o terrorismo está longe de ser um fenômeno recente. Podem ser classificadas na categoria dos anarquistas as mortes de Mahatma Gandhi, na Índia, e do arquiduque da Áustria, Francisco Ferdinando, na Bósnia. Seus respectivos matadores, Nathuram Godse e Gavrilo Princip eram notórios niilistas.

A segunda categoria dos terroristas é a dos que lutam por uma pátria. São os casos de grupos como a OLP, o IRA, o ETA e outros menos conhecidos. Estes, geralmente, atacam, apenas, objetivos dos países que desejam atingir diretamente, embora, não raro, atinjam, também, pessoas inocentes, que nada têm a ver com política.

A ser verdadeira (e não há motivos para duvidar da veracidade) a reportagem publicada, ontem, pelo jornal norte-americano “Los Angeles Times”, foi com esse tipo de terroristas que os governos da França e da Itália teriam estabelecido um “pacto de não-agressão” na década de 70.

Negociar acordos dessa espécie, entretanto, é o mesmo que confiar numa serpente venenosa, que tenhamos criado em casa, com o máximo de desvelo e de carinho. Nem por isso podemos (ou devemos) esperar qualquer espécie de lealdade do ofídio. Mesmo que inicialmente não nos ataque, não podemos, jamais, confiar que nunca nos atacará. Um dia, até por questão de instinto natural, acabaremos picados e envenenados pela cobra de estimação. O ataque faz parte da sua natureza.

É mais ou menos isso que vem ocorrendo com franceses e italianos em relação a líbios e palestinos. Se o pacto (que teria sido selado na década de 70) realmente existiu, foi para o espaço, com o seqüestro do transatlântico italiano Achile Lauro, em outubro do ano passado. Teve o atestado de óbito assinado com o julgamento, condenação e prisão dos autores dessa ação terrorista. E foi solenemente sepultado, principalmente, com o ataque ao Aeroporto Leonardo da Vinci, em 27 de dezembro de 1985, feito, simultaneamente, a um outro, em Schwehart, na Áustria. Isso, em relação à Itália.

Quanto à França, muitas das várias explosões registradas nos últimos dias, em Paris, foram atribuídas aos palestinos. E esses ataques mostram que o instinto do terrorista sobrepuja algum eventual sentimento de honra no cumprimento da palavra empenhada. É a cobra de estimação atacando o criador.

É claro que denúncias dessa espécie são virtualmente impossíveis de se comprovar, principalmente passados tantos anos da suposta ocorrência. Mas se os acordos realmente existiram, constituíram-se na mais grosseira e estúpida irresponsabilidade de quem os firmou.

A impunidade e a vista grossa aos atos criminosos alimentaram de sangue as feras. Permitiram que os monstros ficassem ainda mais perigosos e letais e desenvolvessem diversas cabeças, como a mitológica Hidra de Lerna. E determinaram, por conseqüência, que as monstruosas criaturas se voltassem, finalmente, contra os protetores.
 
(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 5 de abril de 1986)


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Assim se descobriram os vírus

Pedro J. Bondaczuk

Os vírus, causadores de inúmeras doenças, algumas das quais ainda incuráveis, a despeito de todo o avanço da ciência biológica, ainda são, em muitos aspectos, um enorme mistério para a ciência. Sua detecção, a bem da verdade, é relativamente recente. Até meados do século XIX, era crença generalizada que as doenças eram “todas” de caráter autogênico. Ou seja, que o desarranjo do organismo se devia a suas deficiências próprias, hereditárias ou adquiridas em decorrê4ncia de maus hábitos. Para alguns, era causado por fatalidades inexplicáveis. E outros tantos (talvez a maioria) o atribuíam a eventual “castigo” de divindades caprichosas e vingativas.

Pensar dessa forma era normal. Contudo, geravam diagnósticos naturalmente equivocados que, por conseqüência, resultavam em tratamentos inadequados. As curas, raras, quando aconteciam, eram mais conseqüências do acaso do que mérito dos terapeutas. Era uma medicina um tanto empírica, que tratava dos efeitos, quando o lógico seria atacar as causas, pelo menos em relação à maior parte das moléstias. Não por acaso, a expectativa de vida média, até meados do século XIX, mal chegava aos 45 anos (hoje, no chamado Primeiro Mundo, chega a praticamente o dobro, ou seja, a 90 anos em muitos casos).

Foi quando Louis Pasteur deflagrou uma profunda e decisiva “revolução” no campo da biologia e, sobretudo, da Medicina. Propôs a teoria microbiana das doenças, afirmando que todas elas eram causadas e transmitidas por algum tipo de “vida diminuta”, que se multiplicava no organismo doente, se transmitia a outro, sadio, e o contaminava. Em muitos círculos, sua tese foi recebida com ceticismo, quando não com sarcasmo. Foi, por algum tempo, tida e havida como sumamente fantasiosa. Não tardou, porém, que fossem identificadas as bactérias, inclusive visualizadas em microscópios. Como contra fatos não há argumentos, aos poucos o que não passava de mera teoria, ousada para alguns e fantasiosa para outros, não tardou a se impor como realidade.

Todavia, ao pesquisar a raiva, algo intrigou, sobremaneira, Pasteur. O persistente cientista constatou que, embora a doença fosse contagiosa, transmitida pela mordida de um animal doente em outro sadio, o micro-organismo que a causava não podia ser observado. Estaria errado, pelo menos nesse caso? Ou seria alguma exceção para contrariar a regra? Ele pesquisou, pesquisou, pesquisou e nada de visualizar o agente patogênico nos mais sofisticados microscópios da época. Por fim, Pasteur concluiu que o tal agente infeccioso estava presente, sim, sem dúvida, na origem da raiva, mas era tão pequeno que não podia ser observado. E, mais uma vez... o cientista estava certo.

Experiências levadas a efeito pelo microbiólogo holandês, Martinus Beijerinck, em 1898, convenceram-no que de fato existia o tal agente patogênico, tão minúsculo que sequer podia ser visualizado nos microscópios, que causava um sem número de doenças. Denominou esse causador de infecções de “contagium vivum fluidum” (“fluido vivo contagioso”). Estavam descobertos os vírus, posto que, ainda, sem serem visualizados. Beijerinck observou características sumamente peculiares nesses agentes infecciosos. Uma delas é que eles apenas se reproduziam em células que se dividiam. Ou seja, sua reprodução era exclusivamente parasitária. Batizou-os de “vírus”, palavra latina que significa “veneno” ou “toxina”.

Finalmente, já em pleno século XX, um deles pôde ser microfotografado. Foi em 1939, com o advento dos potentíssimos microscópios eletrônicos (equipamento inventado em 1931, pelos engenheiros Ernst Ruska e Max Knoll). Estava, pois, mais do que comprovada a teoria de Pasteur a propósito dos agentes patogênicos, tão ridicularizada quando ele a apresentou pela primeira vez. O primeiro vírus visualizado, e fotografado, foi o do mosaico do tabaco. Em 1901, Walter Reed pôde comprovar que esses perigosos e peculiares seres, tão pequenos a ponto de não poderem, até então, serem vistos por ninguém, também causavam doenças em humanos. Havia “suspeitas” a propósito, porém sem comprovação material. O primeiro vírus a afetar pessoas que Reed identificou foi o que batizou de “Flavivírus”, causador da febre amarela.


A partir de então, a microbiologia deu um salto notável. Foram, por exemplo, criadas vacinas, para fortalecer as defesas do organismo e habilitá-lo a combater, por si só, esses “invasores”, com plena eficácia, impedindo que esse agente patogênico o adoecesse e levasse, quase sempre, à morte. Hoje já se conhece muito a esse propósito, embora muita coisa permaneça envolta sob um véu de mistério. Por exemplo, não se tem certeza se os vírus são seres vivos ou se uma espécie híbrida, um meio termo entre vida e matéria inanimada. Desconhece-se, além disso, sua origem. Acredita-se que eles sejam “extraterrestres”, ou seja, que tenham vindo parar na Terra em algum dos tantos meteoritos ou cometas que frequentemente têm atingido o Planeta desde priscas eras. Enfim, está aí um tema fascinante, que atrai a curiosidade de qualquer escritor, mesmo que se trate (e geralmente é) leigo em matéria científica. Que tal nos debruçarmos sobre ele?

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Thursday, February 26, 2015

Por que os “inventores” dos objetos e processos que deflagraram o progresso e a civilização dos povos, nunca os patentearam? “Bem, porque não havia, na ocasião, nenhum órgão de registros e patentes”, dirá o cidadão que adora obviedades. Não havia mesmo, é evidente. Mas por que os nomes desses anônimos “descobridores” não se fixaram na memória de seus descendentes, até chegar a nós? Porque sua intenção, certamente, não era a busca de notoriedade, mas de proporcionar conforto e segurança para eles mesmos e para as comunidades em que viviam. A fama, certamente, nunca os seduziu. E muito menos a intenção de enriquecer com ela. Esta, pelo menos, é a ilação mais lógica que se pode extrair do seu anonimato. Afinal de contas, o que é a “descoberta”? Um dos que fizeram esta pergunta foi o gênio da Literatura universal, o poeta alemão Johann Wolfgang Goethe, que lhe acrescentou o seguinte: “E quem pode dizer que descobriu isto ou aquilo? Que grande loucura é afinal alardear a prioridade nesta matéria. Porque não querer confessar abertamente o plágio é arrogância e inconsciência”. De fato, é.


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Sete milhões sem infância



Pedro J. Bondaczuk


A infância é aquele momento na vida em que o mundo parece ser fruto de pura magia. É a época em que tudo parece bonito, os sonhos são realidade em nossa mente e a fantasia tem um lugar de destaque no dia a dia. Isto, todavia, é válido somente para as pessoas que têm a felicidade de nascer num lar que realmente mereça esse nome, constituído com base no amor e respeito mútuos entre dois seres humanos de sexos diferentes que se integram e se complementam. E, convenhamos, isto é cada vez mais raro.

Todavia, sete milhões de crianças brasileiras não têm hoje nem mesmo lares inadequados. Não possuem nenhum! Meninos de sete anos de idade, que mal aprenderam a andar e a falar, já estão abandonados, perambulando nas ruas das grandes cidades, cheirando cola, praticando furtos para sobreviver, enfrentando a dura lei da selva de cimento e asfalto em que as aglomerações humanas se transformaram.

Meninas em idade de brincar de boneca e nutrir belas fantasias são exploradas sexualmente por bestas insensíveis, pela pior espécie de animal que possa haver na Terra, que é um homem corrompido.

Para esses tantos e sofridos menores, infância é somente uma palavra vazia e nada mais. É algo que eles não têm e jamais terão, com a perda, extremamente precoce, da sua inocência. Para estes, o Dia da Criança é nada menos do que mera ironia, uma palavra sem conteúdo na sua luta inglória de tentar sobreviver em miseráveis favelas, quando não nas soleiras de portas de luxuosos prédios de apartamentos, bancos de jardins, desvãos de pontes e viadutos e até nos sistemas de ar refrigerado do Metrô, conforme mostrou, tempos atrás, uma reportagem de televisão.

O escritor norte-americano Saul Bellow escreveu que "o que nos ameaça não são apenas os pardieiros das cidades, mas também os pardieiros do nosso ser mais profundo".

A que ponto chegamos, ao suprimir de seres humanos em formação, aquilo que existe de mais precioso, que são suas fantasias! A situação dos menores abandonados chegou a um ponto tão crítico, tão catastrófico, tão alarmante, que pela primeira vez na história da humanidade líderes de mais de 70 países do mundo realizaram, no mês passado, uma reunião de cúpula, na sede das Nações Unidas, para debater o problema.

O chocante em tudo isso é que se está adquirindo o hábito de se mascarar as grandes questões do nosso tempo. Como que num passe de diabólica magia, elas transformam-se em matérias-primas para demagogia, engordam o noticiário da imprensa, ensejam crônicas e comentários de editorialistas, discursos de políticos, enfim, são "consumidas" como um produto qualquer e logo caem no esquecimento. Soluções mesmo...

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 13 de outubro de 1990).

   

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Empenho para salvar Gaia

Pedro J. Bondaczuk

A Terra é, conforme asseguram notáveis cientistas, um super-organismo vivo, com todas as funções vitais bem caracterizadas, que eles denominam de "Gaia". Tudo o que ela contém – animais, vegetais e minerais – seriam, simplesmente, componentes desse magnífico super-ser, de extraordinária beleza quando contemplado do espaço. Nosso planeta é belíssimo, visto à distância, azul salpicado de branco. A teoria, se atentarmos bem, não é tão disparatada quanto possa parecer em um primeiro momento. Nós, humanos, nesse gigantesco corpo, não passaríamos de células, (possivelmente neurônios do cérebro dessa super-criatura). Contudo, por nossa ação, o processo de envelhecimento de "Gaia" vem sendo acelerado e ela já está ameaçada de colapso, possivelmente iminente.

O desaparecimento de espécies, o desmatamento crescente e o aumento intolerável da poluição do ar e das águas põem em risco a saúde do Planeta. Caso não se atue no sentido da preservação do ambiente natural, a Terra, como qualquer animal, poder vir a "morrer", em um futuro não muito distante, ficando "fossilizada", estéril e vazia, desolada e deserta em nosso Sistema Solar, como Marte, por exemplo, ou quem sabe, até, como Vênus ou Mercúrio. Comentando essa depredação ambiental – insensata, criminosa (seria, no caso, suicida) e acelerada –, Leonardo Boff conclui, no ensaio "Desafios Ecológicos do Fim de Milênio", publicado no caderno "Mais!" do jornal "Folha de S. Paulo", em 12 de maio de 1996: "Nós, seres humanos, podemos ser o Satã da Terra, como podemos ser seu anjo da guarda bom".

No primeiro caso, estaremos, junto com a morte de "Gaia", decretando a extinção da nossa própria espécie (e de todas as demais). No segundo, rejuvenesceremos este magnífico organismo, ele sim com possibilidades de uma vida "quase" eterna (pelo menos enquanto durar nosso Sol, cuja falência é estimada em mais quatro bilhões de anos), garantindo a existência, saudável, harmoniosa e segura, de milhares de gerações. Seria o homem capaz de compreender essa relação profundíssima que tem com a Terra e mudar, em curto espaço de tempo, seu comportamento infeliz, destrutivo e absurdo?Tenho minhas dúvidas. Seu comportamento atual indica que não tem essa salvadora consciência.

Para que isso seja possível, é necessário educar os jovens, incutindo-lhes a mentalidade preservacionista, mas não como modismo ou bandeira "ideológica", como se faz amiúde, mas como ação. A educação cuidadosa, integral e generalizada das novas gerações é parte da minha utopia. A dúvida é: haverá tempo para isso? Ela deveria já estar, há séculos, em pleno andamento. Óbvio que não está. Ainda é possível reverter os sintomas de desgaste, de envelhecimento de "Gaia", que podem evoluir rapidamente para uma "doença" de caráter irreversível, que a leve em pouco tempo à morte? Sim! O ser humano pode qualquer coisa, desde que tenha vontade. Aí, porém, é que está o grande obstáculo, o insolúvel “x” da questão..

Albert Camus, aparentemente um pessimista, a julgar pelos livros que deixou, afirmou que "há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar". Outro escritor, o também antropólogo, ambientalista e poeta norte-americano, Loren Eiseley, vai mais longe na avaliação da espécie, de tamanha fragilidade face o universo e, no entanto, de incomparável grandeza quando exercita a razão (seu distintivo e diferencial em relação aos demais seres vivos). Acentua: "O homem sempre pertence em parte ao futuro, tem o poder de se transportar para além da natureza que conhece. Há muito tempo, criaturas armadas de paus e meras pedras começaram uma jornada que conduz a nós mesmos. Se não houvesse entre elas uma pequenina parcela de honra e amor, pequena, muito pequena, talvez não poderíamos estar aqui agora. Temos que recolher novamente essa pequenina parcela, em vez do nosso terrível equivalente das pedras e esforçar-nos por seguir adiante".

O amor, a compreensão e a solidariedade são outros fragmentos da minha utopia, a mesma de São Francisco de Assis, de Madre Teresa, de Irmã Dulce, do Centro de Defesa da Vida, do Lar Fabiano de Cristo e de tantas e tantas outras pessoas e entidades, famosas ou anônimas, que agem para proteger a espécie mais ameaçada de extinção de todas do Planeta: o homem. A vertiginosa reprodução humana, mormente no século XX, é aberrante e antinatural. Em qualquer organismo vivo, essa multiplicação desordenada de células seria diagnosticada como câncer. Talvez "Gaia" já tenha esse "tumor maligno" a corroê-la e, quem sabe, em pleno processo de metástase.

Em vários períodos da história, povos perderam o "freio" que mantém as comunidades ordenadas e sadias, chamado "moral" e pagaram altíssimo (diria intolerável) preço por isso. Foi o caso dos romanos, por exemplo, quando da invasão dos bárbaros. É o que vem acontecendo agora, com as insensatas tentativas de dissolução de uma das mais antigas e eficientes instituições humanas, a família, sem que nada de melhor seja criado em substituição.

Isso resulta numa irresponsável liberação de instintos cegos – principalmente por uma maioria despreparada para a vida –, aqueles mesmos, citados por Eiseley, como os "equivalentes das pedras". Essa perda de autocontrole faz com que a humanidade tenha, como contraponto da evolução tecnológica, perigosíssimo retrocesso ético. Surge, em nosso tempo, uma "subespécie" humana, faminta, miserável, obscura, viciada, violenta e selvagem. É o anticlímax da evolução. A preservação da moral, de maneira espontânea e consentida, mediante processo de conscientização geral, é outro fragmento da minha utopia. É preciso que valores duramente conquistados ao longo de milênios – como respeito, lealdade, honra, fidelidade, amor, honestidade e solidariedade, entre outros – sejam resgatados e ampliados e não se transformem, como hoje, em simples palavras, despidas de conteúdo, despojadas de significado e ridicularizadas pelos "modernosos".

Roger William Riis lembra que "somente nós, entre as coisas vivas, descobrimos a beleza, a amamos e criamo-la para os nossos olhos e para os nossos ouvidos. Somente nós, entre as coisas vivas, temos o dom de contemplar o ambiente que nos cerca e criticá-lo e torná-lo melhor". Nessa mesma linha, o autor teatral Thornton Wilder, na peça "Our Town" (Nossa Cidade), coloca na boca de um personagem: "Oh, Terra, és maravilhosa demais para que alguém te perceba. Acaso os seres humanos têm consciência da vida enquanto vivem? Da vida em todos os seus minutos?". O ideal de beleza, de cultura, de harmonia e de inteligência plena complementa minha utopia. Ela, contudo, é coroada mediante a defesa intransigente e a radical valorização da vida, de cada vida, de toda a vida, animal ou vegetal, racional ou irracional. E de Gaia, como super-organismo vivo, vivíssimo, posto que seriamente ameaçado e de cuja sobrevivência depende a nossa.

Loren Eiseley nos lembra que "em nosso mundo, mesmo uma aranha se recusa a deitar-se e morrer, se um fio ainda pode ser tecido em direção a uma estrela". Essa utopia, mal-esboçada, incompleta, inacabada, a soma de todas as magníficas utopias que já foram urdidas e que ainda serão, tem tudo para deixar o plano do ideal, das elucubrações e das fantasias e tornar-se concreta. Basta que queiramos. Basta que ajamos nesse sentido. Basta que não nos conformemos jamais com a decadência da civilização nem nunca admitamos a robotização do homem.

Eclesiastes, o pregador, ensinou: "Tudo tem a sua hora, cada empreendimento tem o seu tempo debaixo do céu: tempo para nascer, tempo para morrer; tempo para plantar, tempo para colher; tempo para matar, tempo para curar; tempo para destruir, tempo para edificar; tempo para chorar, tempo para sorrir; tempo para lamentar, tempo para dançar; tempo para espalhar pedras, tempo para ajuntar pedras; tempo para abraçar, tempo para abster-se de abraços; tempo para procurar, tempo para perder; tempo para guardar, tempo para jogar fora; tempo para rasgar, tempo para coser; tempo para falar, tempo para calar; tempo para amar, tempo para odiar; tempo para a guerra e tempo para a paz". O tempo agora é para agir! Para cada um fazer sua parte, por aparentemente ínfima que pareça, para cumprir seu papel, para dizer a que veio a esta magnífica e fascinante experiência de existir. Exerçamos, pois, até a plenitude esse potencial de racionalidade que temos e que nos confere a imagem e a semelhança com o Criador do Universo. Sejamos os "anjos da guarda" de Gaia, jamais seu "Satã".


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Wednesday, February 25, 2015

Os verdadeiros “descobridores” das coisas que realmente importam são todos anônimos. Nenhum “patenteou” sua “invenção”, para explorá-la comercialmente. Contudo, há inúmeros indivíduos alardeando, aos quatro ventos, terem “descoberto a pólvora”, ou seja, inventado o que acham que antes não existia, sem que de fato o tenham feito. O que lhes falta é conhecimento, é consciência, é humildade, é informação. Quem inventou a roda? Ninguém sabe! Quem foi o primeiro a obter o fogo mediante o atrito de duas pedras, ou por outro meio qualquer? Quem teve, pela primeira vez, a idéia de criar as letras do mais primitivo dos primitivos alfabetos? Quem inventou os números? Quem teve a genialidade de criar o símbolo que representa o nada, a ausência, o “zero”, que deu tamanho impulso à matemática e a todas as demais ciências que têm nela instrumento essencial? Estão vendo? Ninguém sabe! E o questionamento poderia seguir, linha após linha, preenchendo páginas e mais páginas e sabe-se lá onde poderia parar.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. Preço: R$ 20,90.

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A Saúde na UTI


Pedro J. Bondaczuk


O Brasil é um país de contrastes, mas em nenhum setor este é maior do que no do atendimento de saúde oferecido à sua população. Temos o melhor e o pior convivendo lado a lado. O excelente, é óbvio, está reservado à minoria que pode pagar (e bem) pelos serviços prestados.

O atrasado, o medieval, o perigoso, o irresponsável fica para a imensa maioria, para os "excluídos", para os deserdados, para os (usando uma expressão que deu título a um livro célebre de Fedor Dostoiewsky) "humilhados e ofendidos" que são cerca de 120 milhões de brasileiros.

Depois dos meios de comunicação haverem ressaltado, em manchetes e em editoriais, aberrações tais como as mortes causadas por contaminação em tratamentos de hemodiálise (em duas clínicas de Caruaru) e óbitos de idosos em instituições geriátricas (notadamente a Clínica Santa Genoveva do Rio), entre tantas outras, o noticiário se concentra, agora, no "genocídio" de bebês em berçários de maternidades. Das que atendem a população carente, é óbvio.

Entre julho e quinta-feira passada, foram reportados 130 casos de recém-nascidos que morreram em circunstâncias no mínimo estranhas, para não dizer suspeitas. Muitos foram vítimas de infecção hospitalar. Ou seja, da negligência dos "(ir)responsáveis" pelo seu nascimento com saúde. Outros são frutos da crise social que parece se eternizar no País.

Não é a nossa medicina, todavia, que merece reparos. Temos os melhores entre os melhores. Exemplo? O novo gênio médico mundial, pouco conhecido no Brasil (afinal não é cantor nem jogador de futebol), mas com sólida reputação no Primeiro Mundo, a ponto de ser bastante cotado para ganhar o Prêmio Nobel no ano que vem ou nos próximos (com amplos méritos).

Trata-se do cirurgião de Curitiba, Randas Vilela Batista, que teria sido, inclusive, consultado pela equipe que recentemente operou o presidente russo, Bóris Yeltsin. E é um médico brasileiro!

Um novo método cirúrgico que desenvolveu, chamado vulgarmente de "nhaco", vem salvando vidas e evitando despesas e sofrimentos inúteis. A técnica é considerada, pelo seu arrojo, a maior revolução da medicina nos últimos 30 anos. Evita transplantes e pontes de safena e consiste no corte de grande parte do ventrículo de um coração doente. A recuperação do paciente é rápida e absoluta.

Pois bem, o mesmo país que conta com esse gênio, forma, em faculdades absolutamente sem condições, meras "fábricas de diplomas", profissionais que cometem erros primários. A mesma medicina que causa espanto ao mundo pelas soluções inovadoras que encontra, lamenta tantas perdas de vida que poderiam ser salvas com um mínimo de responsabilidade. Todo o sistema de saúde brasileiro precisa ser repensado. O ser humano, pelo menos nesse aspecto fundamental, tem o direito (consagrado na Carta das Nações Unidas) de ser considerado apenas "pelo que é"‚ e não "pelo que tem".

(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio Popular, em 22 de novembro de 1994)



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Utopias que não se sustentam

Pedro J. Bondaczuk

O professor Lucien Sfez, da Universidade de Paris, cita uma nova utopia dos tempos modernos: a da saúde absoluta.  O corpo saudável (felizmente) tornou-se ideal, empenho, obsessão de muitas e muitas pessoas ao redor do mundo. Pena que poucos tenham acesso áquilo que o viabiliza: alimentação adequada, saudável e equilibrada, exercícios devidamente compatíveis com o potencial de cada organismo e ritmo de vida sem vícios, excessos e nem descuidos. A Medicina foi um dos ramos da ciência e da tecnologia de maior evolução e progresso, em especial a partir da segunda metade do século XX. Até 1929, os antibióticos, por exemplo, eram desconhecidos, até que nesse ano, Alexander Fleming descobriu (por puro acaso) a penicilina. Novos medicamentos, equipamentos ultra-sofisticados de diagnóstico e técnicas cirúrgicas são desenvolvidos praticamente todos os dias. No outro extremo, porém, há doenças novas surgindo, atingindo, logicamente, os que não têm sequer o suficiente para comer.

Lucien Sfez aborda a questão da saúde em uma entrevista publicada pelo caderno "Mais!", do jornal Folha de S. Paulo, na edição de 7 de abril de 1996. Afirma: "A Biosfera 2 e o Genoma são o retorno à origem, são o reencontro de Adão antes da queda, uma espécie da Adão perfeito, o Adão do paraíso terrestre, geneticamente purificado. O que é a Biosfera 2? O paraíso terrestre. Do lado do genes, quer se encontrar o puro em si. O homem selvagem. Os dois projetos se fundem nisso: a origem sonhada, o Éden, antes das doenças e da poluição".

Mais adiante, respondendo a uma pergunta do repórter, o professor Sfez acrescenta: "As utopias mudaram de signo, e a ideologia perdeu a sua base tradicional. As utopias não se opõem à realidade e a ideologia deixou de ser um signo das coisas, para se transformar em signo-coisas, coisas-signos. E o inimigo não está  no exterior para ser combatido ou civilizado. Não é mais o selvagem, o negro, o judeu, o burguês. O inimigo está dentro de nós, na cidade poluída, nos nossos genes, na camada de ozônio, na droga, no colesterol, anônimo, e quem o combate é a tecnociência onipotente. A ideologia está aqui, mas como que entrelaçada na utopia da saúde perfeita do corpo e do Planeta, interdependentes. E essa utopia é prática".

De fato, tem vários dos ingredientes que julgo essenciais. Mas sonho com uma era em que todas as doenças, tanto do corpo quanto do espírito, sejam erradicadas. Em que não haja, de um lado, uma raça de gigantes, saudável e longeva, e de outro, multidões de seres raquíticos, famintos, doentes e frágeis, morrendo de doenças simples, subprodutos da fome e da extrema miséria, como a diarréia e a dengue, para não dizer o ebola. A utopia de Sfez, portanto, embora apresente alguns fragmentos da minha, não é, ainda, ela, na sua integralidade.

Desde 1989, data tomada como marco do fim da Guerra Fria, com a derrubada do Muro de Berlim e que antecipou a dissolução da União Soviética, dois anos depois, vem se propalando uma tal de "globalização", que seria uma espécie de Éden econômico. Apregoa-se nova era, que no entanto ainda não mostrou sua cara. Não impediu a crise econômica, que ainda penaliza o Primeiro Mundo, mas cujo reflexo mais perverso recai sobre a infinidade de país pobres da África, Ásia e América Latina. O "mercado" é deificado e em seu nome são praticados determinados atos que, em vez de diminuir, ampliam o profundo fosso existente entre os homens. De um lado, uma minoria perdulária, que desperdiça recursos e depreda o Planeta e que tudo tem e tudo pode. De outro, dois terços da humanidade nos limites entre a pobreza e a indigência, o que é inconcebível. A "globalização" é a nova utopia das classes políticas e econômicas. Mas não é a minha.

Carlos Gabaglia Penna, diretor do Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, no artigo "A Sagração Econômica", publicado no dia 12 de abril de 1998, no Jornal do Brasil, informa: "A produção mundial de bens e serviços ultrapassou US$ 23 trilhões em 1997. De 1987 a 1995, a economia global expandiu-se em US$ 3,8 trilhões, igual ao total da produção de 1950. Apesar do crescimento demográfico, a renda per capita mundial passou de US$ 1.500 anuais em 1950, para US$ 3.600 em 1995. Desde 1900, enquanto a população do Planeta triplicava, a economia aumentava 20 vezes, o consumo de combustíveis fósseis multiplicava-se por 30 e a produção de bens por 50. Cerca de 80% desse crescimento vertiginoso ocorreram após 1950. São números econômicos que confirmam o inexorável caminho da civilização industrial para o paraíso. Serão mesmo?" E Gabaglia acrescenta: "Em 1960, os 20% mais ricos do mundo tinham uma renda 30 vezes maior do que os 20% mais pobres. Em 1980, essa relação já era de 45 vezes e, em 1991, a concentração de renda alcançava a proporção de 61 para 1. Os 60 homens mais ricos do Globo têm mais riqueza do que a África inteira e boa parte da Ásia juntas". Dados recentes apenas confirmam essa tendência de hiperconcentração de riquezas em pouquíssimas mãos;

E Penna conclui: "Com toda a riqueza material, sem paralelo na história humana, as crescentes mazelas sociais estão aí para quem quiser ver: drogas, alcoolismo, crime organizado, violência urbana, alienação social. Os suicídios aumentaram muito nos países ricos. O número de refugiados políticos e ambientais é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Países como o nosso apresentam ainda elevadas taxas de favelização, baixa escolaridade, mão-de-obra infantil e trabalho escravo". Decididamente, a "globalização" que aí está não é e nem pode ser a minha utopia.

Como aceitar que, em um mundo globalizado, mais de um bilhão de pessoas passem fome, quando a natureza tem sido generosa e safras recordes se sucedam de ano para ano? Como conceber uma pretensa Nova Era na qual 850 milhões de pessoas ao redor do mundo estejam desempregadas ou subempregadas, fazendo bicos para sobreviver? Como se ousa insinuar o novo Éden, quando há vinte milhões de nossos irmãos vivendo em acampamentos de refugiados, vítimas das várias guerras civis nos quatro quadrantes do Planeta? Onde mais de 100 milhões de "homeless" fazem das ruas, de vãos de pontes e viadutos seus lares, vegetando em situação muito mais precária do que os ancestrais das cavernas, pois nem estas possuem para se abrigar? Onde crianças de oito a onze anos trocam canetas e cadernos por fuzis e metralhadoras, nas várias guerras étnicas na África e na Ásia ou nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Campinas etc? Não! Esta não pode ser, e nem é, a minha utopia!!!.

Desde a invenção da escrita, milhares de textos foram deixados à posteridade, sobre uma suposta e desejável "Idade de Ouro", quando os homens teriam vivido em inocência, o vício da cupidez ainda não havia criado as odiosas divisões de classe e a humanidade seria harmoniosa e feliz. Provavelmente, os autores, das mais diversas épocas, lugares e costumes, expressaram somente o seu ideal, a utopia das utopias. A partir da Renascença, com o advento da era das grandes navegações, circularam lendas a propósito da existência de um lugar de plena felicidade. Seria uma ilha, perdida em vastidões oceânicas e isolada do mundo, para evitar o contágio das pseudocivilizações existentes, mormente as européias e asiáticas. Foi à procura desse hipotético paraíso que Cristóvão Colombo aportou na América, julgando estar na Ásia, próximo à procurada "ilha das especiarias".

O espanhol Cabeza de Vaca situou esse edênico local no coração da América do Sul, nos altiplanos andinos, provavelmente nos arredores do Lago Titicaca, no Peru, ou no centro da Colômbia. Fernão de Magalhães circunavegou o Planeta e julgou ter descoberto a "ilha de ouro" nas Filipinas, onde morreu em combate com os nativos locais. Mungo Park e Richard Burton entenderam que esse paraíso existisse no interior da África e empreenderam, em vão, exaustiva jornada por vastas extensões desse continente, que lhes exauriu a saúde e abreviou a vida. Vitus Behring procurou esse lendário lugar no Extremo Norte da Terra, sem encontrá-lo. Encontrou foi a morte, mas descobriu a passagem entre a Ásia e a América.

Essa "ilha de ouro" não existe. Ainda está por ser construída por pessoas de larga visão e de boa vontade. Sua localização não vai estar em algum minúsculo pedaço de terra do Pacífico Sul, do Atlântico Norte ou de qualquer outro dos mares da Terra. Será neste próprio e bizarro planeta azul, em sua totalidade, assim que seus habitantes reciclarem suas prioridades e se derem conta da estupidez de acumular bugigangas, como fazem desde que tiveram o primeiro lampejo de consciência. Embora seja óbvio que deste mundo não levamos coisa alguma, tão logo a morte – fatalidade biológica que atinge indistintamente o humilde e o poderoso, o sábio e o néscio, o rico e o miserável – nivele a todos, mas ao contrário deixamos atos e fatos e gestos de amor, o ideal das últimas gerações tem sido apenas o de juntar coisas, em geral inúteis. Voltarei ao assunto.


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