Friday, May 24, 2013

Cada novo dia que surge é uma oportunidade que a vida nos dá para a realização dos nossos sonhos, para a renovação das nossas esperanças e para a obtenção (ou conservação e multiplicação se já a tivermos) da felicidade. Não podemos, todavia, permanecer passivos, esperando que as coisas caiam do céu e que se concretizem por si sós, sem que precisemos fazer nada para isso. Temos que batalhar pelo que queremos! É como diz o dito popular: “Deus ajuda a quem se ajuda”. A vida é dinâmica e nos exige ação, do berço à tumba. O poeta alemão, Johann Wolfgang Goethe, tem uma forma mais bela e elegante de dizer isso, ao constatar: “Cada novo dia nos repete: espere o impossível, faça o possível”. Ou seja, devemos aspirar ao máximo, se quisermos conseguir o mínimo. Mas, para isso, reitere-se, temos que fazer o melhor, dentro dos limites das nossas forças e da nossa capacidade.


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Batalha perdida

Pedro J. Bondaczuk

Longas batalhas, que travei sozinho.
Travo amargo e ácido da derrota!
Encontros com a madrugada,
sinistra ronda dos fantasmas.

Procuro-a, ingentemente,
com afinco e com afã.
Perdi-a ontem! Não a encontro hoje!
Espero alcançá-la amanhã!

Luto comigo, com minhas lembranças.
Morro de desgosto e de saudade
para renascer, quiçá, fênix gloriosa,
no alvorecer de renovadas esperanças,
nas promessas incertas de felicidade
dos seus lábios de rosa e de romã.

A brasa arrasadora da indiferença,
seu riso de mofa, escarninho,
a ira cega e o ciúme daninho,
a covarde fuga do nosso ninho,
seu desleixo e o atual desalinho,
imensa distância, embora pertinho,
cruel desamor, ausência de carinho,
terrível engano, mútua desavença,
longa batalha que travo sozinho.

Os soldados ilusões,
os cabos fantasias,
os sargentos ideais,
tenentes emoções,
capitães altruísmo,
coronéis entusiasmo,
generais esperanças,
e o marechal amor,
 (Exército de virtudes),
tombaram, todos,
mortos no combate,
atravancando o caminho,
pois esta batalha do adeus
travei, e perdi, sozinho.

(Poema composto em Campinas, em 23 de novembro de 1977).

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De ceticismo e de exageros

Pedro J. Bondaczuk

O artista deve gostar da vida e mostrar-nos que ela é bonita. Se não fosse ele, duvidaríamos disso”. Essa afirmação categórica é de um dos maiores escritores de todos os tempos, que assinava seus textos com o pseudônimo de Anatole France. Seu nome verdadeiro, para os que não sabem ou que se esqueceram, era Jacques Anatole François Thibault. A qualidade dos seus livros é incontestável. Não deixa de ser pitoresca essa sua declaração quando se sabe que sua principal característica, a que o consagrou e o fez merecedor do Prêmio Nobel de Literatura – que ganhou em 1921, pelo conjunto da sua obra – foi o ceticismo. Pelo menos é o que seus críticos dizem.

Entendo, todavia, que não há contradição entre o que Anatole France afirmou sobre a vida e sua postura supostamente cética face quase tudo. Notem que disse “quase” e não “absolutamente” tudo. Não há ninguém – e ponho minha mão no fogo por essa até ousada declaração – que não creia rigorosamente em nada. Crê, sim, e muito mais do que, por algum motivo, ousa admitir.

Se vasculhar seu íntimo, bem lá no fundo (e nem precisa ser o inconsciente ou o subconsciente), se fizer profunda (e, sobretudo, sincera) avaliação dos seus mais secretos pensamentos e não reveladas opiniões, sempre encontrará algo em que acredita. Levando o exemplo ao extremo dos extremos, e se mesmo assim esse cético empedernido não encontrar rigorosamente nada em que creia, ainda assim acreditará em algo: no seu ceticismo. Não deixa de ser uma crença, posto que, no meu entender, não seja a mais recomendável.

Não proponho, óbvio, o procedimento contrário. Ou seja, a total credulidade, sem criteriosa análise das crenças, mesmo a pretexto da fé. Esta, a despeito de se tratar, por definição, crença absoluta e incontestável no objetivamente incrível e improvável, tem lá seu fundamento lógico. Por exemplo, se acreditar, sem admitir contestação ou exigir prova, que a caneta que tenho à minha frente opera “milagres”, que compõe, digamos, textos à minha revelia, sozinha, como se tivesse vida, essa minha fé será uma aberração. Óbvio que estarei errado. Temo, todavia, que haja pessoas assim. Que creiam em disparates como este ou piores.

Aliás, sequer concordo que Anatole France tenha sido escritor cético. Pelo menos não sempre. Aprendi muito com suas observações e conseqüentes conclusões. Prefiro classificá-lo de “racional”. Suas eventuais descrenças são as mesmas que tenho (e que você, esclarecido leitor, certamente tem). Fosse o empedernido descrente que seus críticos afirmam que foi, sua obra jamais faria o sucesso que fez (e que ainda faz). Jamais receberia o Nobel de Literatura. E nunca defenderia a postura de que o artista deva gostar da vida e, muito menos, que sua missão é “mostrar-nos que ela é bonita”. Notem o tempo que utilizou do verbo “ser”. Conjugou-o no presente do indicativo. Afirmou que ela “é” bela e não que “poderia” ser, ou que “talvez fosse” ou outra forma qualquer que expressasse a mais ligeira descrença a propósito.

A dúvida, no caso, Anatole France expressou no condicional. Ou seja, que duvidaríamos que a vida é bonita “se” o artista não existisse. Mas existe. E capta e transmite a beleza que há, até, no aparentemente feio. As aparências sim enganam. E enganam muito. Ademais, somos dados a exageros e, principalmente, das coisas ruins, negativas e indesejáveis. Raramente exageramos nas coisas positivas.

Aliás, pincei essa outra declaração, a esse propósito, em um dos livros de Anatole France: “Se exagerássemos nossas alegrias, como fazemos com nossos sofrimentos, nossos problemas perderiam importância”. E não perderiam? É por causa dessa tendência de exagerar o negativo que ele finda por se concretizar, por nos tornarmos predispostos a isso. E, dessa forma, as coisas se tornam como o poeta chileno, Armando Roa, expressou, nestes magníficos (e exageradamente expressivos) versos: “A vida é uma assembléia de sombras/que se imolam umas às outras”. Pense nisso!


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Thursday, May 23, 2013


Pausa para refletir

Pedro J. Bondaczuk

O papa João Paulo II inicia, hoje, a sua segunda visita à América Latina e a 31ª de seu pontificado de oito anos, levando, como a todo o lugar que foi, uma mensagem de paz e de conciliação aos colombianos que, dada a violência que impera nesse país, quase que continuamente, desde 1948, bem que precisa de alguém, com a estatura moral do Pontífice, para abrir os olhos do seu povo quanto aos caminhos equivocados que essa sociedade vem trilhando.

A despeito de se tratar de uma viagem de caráter pastoral (como todas as anteriores), certamente determinadas questões que angustiam o homem moderno deverão vir novamente à tona. Ganharão espaço nas manchetes, análises dos comentaristas e ampla divulgação. E isto é bastante saudável, num momento aparentemente tranqüilo, mas na verdade sumamente tenso, pelo qual passam os povos.

Certamente questões como o aborto, a nobreza e dignidade do trabalho, o papel do cristão no mundo moderno, a corrida armamentista, a exploração de multidões de desassistidos, "usados" sem pudor em sua humilde alienação pelos poderosos e sobretudo a violência, centralizarão a maior parte de suas homilias.

Mas é necessário que suas palavras não sejam meramente ouvidas e lidas para logo a seguir serem esquecidas. É indispensável que as pessoas parem para um momento de grave reflexão sobre seu conteúdo, enquanto a marcha dos acontecimentos ainda permite mudanças de rumo. E que procurem, sobretudo, atuar decisivamente na realidade. Tentar transformar tanta coisa que está errada e que assim permanece em virtude da alienação, do "laissez-faire" da maioria.

João Paulo II, a despeito de exigir uma delimitação rigorosa entre a atividade sacerdotal e a prática política dos membros da sua igreja, "dando a César o que é de César", foi, certamente, o Pontífice que maior número de pronunciamentos fez a propósito da nada agradável realidade do nosso tempo. Esteve nos países mais problemáticos que se possa imaginar, muitos dos quais vivendo terríveis ditaduras à época em que os visitou (como no caso das Filipinas, da Argentina e outros), e nem por isso procurou agradar os poderosos do dia. Sempre soube "colocar o dedo" nas mais dolorosas feridas, não no sentido de as arruinar, mas para que o seu possuidor procurasse curar tais chagas.

Não há como negar que nestes contínuos e prolongados giros, que já o levaram a praticamente todos os continentes, enfrentou enormes riscos. Presenciou manifestações de desagrado de diversas comunidades, inclusive católicas (como ocorreu na Holanda, no ano passado) sem que isso chegasse a abalar as suas convicções. E nem que o desestimulassem a prosseguir alertando os povos a propósito de tudo o que incomoda a tanta gente, que no entanto nada faz para alterar (ou pelo menos empreender alguma tentativa) tais situações distorcidas.

É por essa razão que o papa João Paulo II pode ser encarado, sem favor algum, como a autêntica consciência do mundo moderno, aquela que quando nos acusa por nossas falhas, tentamos, às vezes, calar, principalmente por sabermos que ela está sempre certa em suas reprimendas. E que, quando a seguimos, nos conduz à paz gerada pela certeza do dever cumprido.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 1º de julho de 1986)

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Wednesday, May 22, 2013


Para mostrarmos grandeza, espiritual, intelectual, ou de qualquer outra natureza, não devemos, jamais, humilhar, menosprezar e nem diminuir quem quer que seja. Quem age assim, manifesta, na verdade, o contrário de superior virtude: arrogância, presunção, mesquinhez. Gilbert Keith Chesterton trata do tema com bom-senso, oportunidade e precisão. Constata: “Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes”. É assim que devemos proceder. Ou seja, trazer os que nos rodeiam para um patamar mais elevado, caso não estejam nele e os tornar iguais. E mesmo os que não consigam ascender à grandeza, devem ser tratados como se o tivessem conseguido, para que se sintam assim. Até porque, não existe ninguém tão perfeito que não precise melhorar nada, nem quem seja tão obtuso que não tenha coisa alguma a ensinar ao mais sábio dos sábios.

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Por dentro da TV


MANCHETE REFORÇANDO O CAST

A Rede Manchete continua reforçando o seu "cast" artístico. Vejam só quem vai estrear no canal 9 (15h, em UHF, em Campinas) já neste domingo: Pepita Rodrigues. A esposa de Dolabela comandará um engraçado e divertido programa infantil, produzido por Sérgio Galvão. A Pepa vai alegrar a tarde da criançada com "Essas Crianças Maravilhosas". E a Manchete prepara-se para novas contratações. Aguardem.

MURILO NERY SUBSTITUI CHAPELLIN

Segundo informações de bastidores, a partir do mês de maio próximo, o programa "Show sem Limites", da TVS, terá novo comandante. Será entregue ao veterano Murilo Nery, que assim substituirá o astro Sérgio Chapellin. Este, embora continuem os desmentidos, será mais uma das contratações da Rede Manchete. A caçula das emissoras está, mesmo, disposta a "botar pra quebrar"...

CIDINHA NA RECORD

Cidinha Campos, grande sucesso no Rio de Janeiro, no rádio, pelas suas reportagens agressivas, mas sempre oportunas, acaba de obter espaço na TV carioca. Há já alguns dias ela comanda o "Encontro Marcado", na Record do Rio. Seria interessante que Cidinha estendesse sua atuação também a São Paulo. Corajosa e inteligente como é, e sem papas na língua, faria, certamente, crescer ainda mais o Ibope do canal 7, que vez registrando grandes piques, há já algum tempo.

CASA DE IRENE EM PERIGO

O excelente seriado da Rede Bandeirantes, "Casa de Irene", correr o risco de ser tirado do ar. Isso porque o homem responsável pela criação das incríveis situações, vividas na maluca pensão focalizada na história, Geraldo Vietri, já não mais pertence à emissora do Morumbi. Ele foi contratado, recentemente, pela Rede Manchete e a Bandeirantes não conseguiu um substituto à altura. Os próprios atores de "Casa de Irene" acham que o seriado ficou esvaziado sem o seu criador e sugerem que o melhor caminho é a sua extinção.

MATILDE DESMENTE GRAVIDEZ

A Matilde Mastrangi anda uma arara com os boatos que têm circulado na praça, segundo os quais estaria grávida e o pai da criança seria o Wagner Montes. Muitos garantem, todavia, que o autor da informação seria o próprio, que teria dito, numa brincadeira, que em breve seria pai. Desmentindo ou não, a dúvida acaba ficando...

VIRGÍNIA VAI CASAR

Quem não se conforma em ficar sozinha e já está pensando em casar outra vez é a "vedete do Brasil", Virgínia Lane. Ela ficou viúva há seis meses, mas não suporta a solidão. E está de romance com um comandante de avião, cujo nome, pelo menos por enquanto, prefere manter em sigilo. Mas afirma que se tudo continuar correndo como está, até o fim do ano casa de novo.

NOVA NOVELA NA TVS

A TVS está anunciando o lançamento de uma nova novela, no próximo mês, no horário das 19h (com reprise às 20h30). Pelo nome do autor, Crayton Sarzy, parece que será outro "dramalhão" estrangeiro. O título da novela é "Meus Filhos, Minha Vida", substituindo "Vida Roubada", no ar, atualmente, nesse horário. Esse será o primeiro trabalho lançado pelo núcleo de telenovelas de emissora desde que Henrique Lobo assumiu sua direção artística. Como Henrique conhece muito e é de reconhecida competência, a novela pode até vingar. Só achamos que a TVS deveria prestigiar autores nacionais. Em todo o caso...

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na editoria de TEVÊ, página 22, do Correio Popular, em 18 de abril de 1984).

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Morre o homem e nasce o mito

Pedro J. Bondaczuk

Os ídolos, como qualquer ser humano, obviamente também morrem. Dependendo, porém, da idolatria que lhes seja tributada e das circunstâncias em que morreram, assim que ocorre a morte física, “nasce”, simultaneamente, o mito. E esse, por sua vez, sobrevive por séculos, às vezes por milênios, no imaginário popular. Foi o que aconteceu com o cantor, compositor e ator Carlos Gardel.

Os cronistas do longínquo ano de 1935 do século XX narram que, na véspera da morte do celebrado intérprete, ele recebeu a visita de uma garotinha, em Barranquilla, uma das escalas de sua até então vitoriosa turnê, que disse tê-lo visto, em sonhos, envolvido por chamas. Conforme essa versão, a menina teria implorado ao ídolo que não viajasse no dia seguinte, de avião, mas que fosse por terra que era muito mais seguro. O astro teria, apenas, se limitado a sorrir, sem dar maior atenção a aquela suposta premonição.

Não se sabe se esse episódio realmente aconteceu e, em caso positivo, se ocorreu da maneira que foi narrado. O provável é que se trate de mais uma das tantas lendas que sempre cercaram a vida (e esta teria cercado também a morte) de Gardel. Acho essa versão fantasiosa demais para ser verídica. Porém... nunca se sabe.

O cantor empreendia, então, vitoriosa turnê pelas Américas e tinha programado visitar as principais cidades da Colômbia, onde o tango, aos poucos, tornava-se popular, e quase tanto quanto na Argentina. Era comum, por exemplo, ouvirem-se os acordes do “Mano a mano”, da “La cumparsita”, do “Por uma cabeza”, do “Mi Buenos Aires querido” ou do “El dia que me queiras”, trauteados por algum transeunte nas ruas de Bogotá, ou assoviados por alguém em Cali ou em Medellin ou em qualquer outra grande localidade colombiana.

Nos cafés dos bairros boêmios, o tango já era o ritmo da moda. Mas não só neles, porém igualmente nas residências mais luxuosas, em que as pessoas de maior poder aquisitivo possuíssem vitrola, aparelho que na época estava ao alcance de poucos bolsos, dado seu alto custo. A chegada de Carlos Gardel a Bogotá, em 14 de junho de 1935, havia sido acontecimento marcante, que reunira frenética multidão no campo de pouso da capital colombiana, o Techo, para recepcionar o ídolo. O mesmo entusiasmo se repetiu em outros lugares por onde ele passou naquela excursão. Os fãs não lhe davam trégua, querendo autógrafos ou alguma lembrança qualquer, quando não simplesmente tocá-lo, como se fosse algum santo milagreiro.

Em 24 de junho, dez dias após seu desembarque na Colômbia, Gardel se dirigiu com destino a Cali, mas antes teria que fazer escala obrigatória em Medellin, onde não faria nenhuma apresentação. A aeronave que o transportava era um trimotor Kord F-31, da empresa aérea colombiana Saco. Integravam a comitiva os guitarristas Guillermo Barbieri, Domingo Riverol e José Aguillar, além do compositor e amigo, o paulistano de nascimento Alfredo Le Pera, o tradutor Jose Plaja e o massagista do astro, Alfonso Azaff.

A chegada foi tranqüila e sem nenhum incidente. A recepção calorosa que Gardel recebeu foi semelhante à recebida em outras tantas cidades pelas quais passou. A turnê começara em Nova York, com passagens pelo Porto Rico, pelas Antilhas e pela Venezuela, e seria completada na Colômbia, com o posterior regresso a Buenos Aires. Pouco antes de chegar a Medellin, Gardel havia feito memorável apresentação no Teatro Apolo, em Barranquilla, num show que marcou época na cidade.

O avião aterrissou por volta do meio dia no antigo Aeroporto de Las Playas (atualmente denominado de Olaya Herrera) e o astro decidiu almoçar, com os membros da sua comitiva. Antes, conversou com um adolescente, de 15 anos de idade, Enrique Bello (que se estivesse vivo, hoje estaria com 93 anos) que se tornou bem sucedido empresário do ramo cinematográfico na Colômbia. O rapaz perguntou a Gardel qual era sua idade. “El Zorzal” brincou com o moço. Chamando-o para um canto, disse: “Mira, pibe, tengo 44 años, pero no se lo vayas a decir a nadie” (“Olha, menino, tenho 44 anos, mas não vá dizer a ninguém”).

Às 15h10, horário colombiano (13h10 hora do Brasil), o grupo embarcou, outra vez, no F-31, que havia sido abastecido com 250 galões de combustível, para dar sequência à turnê. O momento do embarque, todavia, foi o derradeiro de vida do mito. A partir daquele momento, sua lenda viria a ser ampliada, com o acréscimo de fantasias e de exageros, que se somariam aos fatos realmente ocorridos, compondo uma lenda da qual é muito difícil distinguir a verdade histórica da ficção. E dezenas de histórias seriam inventadas, nos anos subseqüentes, para destacar ainda mais uma tragédia já por si só chocante, que dispensa acréscimos.

O avião começou a taxiar normalmente na pista. Tudo parecia absolutamente normal. Uma multidão estimada em pelo menos duas mil pessoas acompanhava a operação de decolagem. Subitamente, o aparelho guinou para a direita (ninguém jamais soube explicar a razão) e espatifou-se contra outra aeronave, ainda no solo, a “Manizales”, de propriedade da empresa Scadia, que aguardava no acostamento, com os motores ligados, para decolar um pouco depois do avião que conduzia Gardel.

O F-31 explodiu, envolto em chamas, diante dos olhos da atônita e aterrorizada multidão, impotente para prestar qualquer tipo de socorro à tripulação e aos passageiros. No acidente, morreram, carbonizadas, treze pessoas. O desastre foi atribuído a uma súbita rajada de vento, que teria feito o piloto perder o controle do avião.

A primeira sepultura de Gardel foi no Cemitério de San Pedro, em Medellin, onde seus restos mortais permaneceram por apenas oito meses. Seu velório foi realizado na casa do Monsenhor Enrique Uribe Ospina e foi marcado por cenas de desespero e de histeria popular. Mas seus fãs de Buenos Aires não admitiam ficar distantes do ídolo que veneravam. Providenciaram para que seus restos mortais fossem trasladados para sua pátria de adoção, à qual sempre jurou amor. Hoje eles estão sepultados no Cemitério de La Chacarita, local que se tornou até um dos principais pontos turísticos da capital argentina.

Carlos Gardel, homem de muitos amores, que tinha propensão à obesidade quando abandonava seus exercícios de halterofilismo (chegou a pesar 120 quilos), e que era viciado em corridas de cavalo, morreu solteiro. Nunca se casou, apesar de haver conquistado o afeto de tantas pessoas. E ganhou o coração não de apenas uma mulher específica, mas de todo um povo, que o amou extremadamente, enquanto vivo, e que ainda o ama, posto que, agora, apenas à sua memória. Afinal, mitos não morrem. Ou, para ser mais exato, tardam a morrer, não raro séculos ou até milênios.

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Tuesday, May 21, 2013


Reitero, pela enésima vez, o respeito, o carinho e a admiração que tenho pelos meus leitores aqui do “O Escrevinhador” e de outros espaços em que divulgo meus textos na internet. De alguns, sequer conheço o verdadeiro nome. Pouco importa. Chamo-os, genericamente, de “amigos”. Os céticos questionam: como posso nutrir um sentimento tão nobre, como a amizade, por alguém que nem ao menos sei como se chama? Por suas atitudes. Pela constância das mensagens. Pela consideração que me demonstra. Nome é coisa aleatória. Não somos nós que escolhemos como queremos nos chamar. Ademais, se eu chamar uma rosa de “cebola”, nem por isso ela deixará de ser rosa, de exalar perfume e de encantar os olhos e o coração. O mesmo vale para os amigos das redes sociais e da internet que, todavia, infelizmente, como a vida, é uma selva. Está repleta de perigos e muitos preferem a cautela do anonimato, à indesejada e provavelmente perigosa exposição da identidade. Respeito isso e não considero quem age assim menos amigo do que quem se identifica. Deveria?

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Risco de mudança de uniformes

  
Pedro J. Bondaczuk

O homem forte panamenho, general Manuel Antonio Noriega, escapou, ontem, de sua segunda tentativa séria de golpe de Estado desde que assumiu o poder de fato em seu país, em 12 de agosto de 1983, sucedendo a um outro oficial carismático das Forças de Defesa do Panamá, general Omar Torrijos. A anterior havia sido encabeçada pelo chefe da polícia nacional, coronel Leônidas Macias, em 16 de março de 1988.

O que não se sabe é até quando ele vai teimar em não ceder às evidências. Ou seja, até quando não vai perceber que a população local deseja a democracia. Quer exercer livremente o direito de voto, como aliás ocorre em praticamente toda a América Latina (até o Chile, de Augusto Pinochet, terá eleições presidenciais no corrente ano).

As acusações contra Noriega se acumulam, enquanto ele teima, olimpicamente, em desafiar mundos e fundos. Perante a opinião pública internacional, suas afirmações têm sido sempre iguais. Ou seja, as de que todo o problema que o envolve se resume, basicamente, na tentativa norte-americana de não devolver o Canal do Panamá a esse país, conforme prevê o acordo assinado entre o general Omar Torrijos e o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.

Mas ele é acusado de usar isso como mero pretexto, para tapear os panamenhos. Para despertar neles pruridos nacionalistas. Há pessoas que garantem que o general, na verdade, seria uma peça chave dos cartéis de narcotraficantes colombianos.

Muitos chegam a indagar como o Panamá conseguiu sobreviver economicamente, mesmo após as sanções que lhe foram impostas pelo antecessor de George Bush na Casa Branca, Ronald Reagan. Afinal, naquela oportunidade, a economia panamenha estava virtualmente falida.

O dinheiro que o país possuía nos bancos norte-americanos foi congelado. A sua participação na exploração do Canal do Panamá foi cortada. Houve um momento em que faltaram verbas até para pagar os salários dos funcionários públicos. Subitamente, não se falou mais dessa crise. Ela acabou virtualmente esquecida, como se esse país, que não dispõe de tantos recursos assim, houvesse achado uma mina inesgotável de divisas.

De fato, muita coisa suspeita ficou no ar. A esta altura, para todo mundo, seria melhor que Noriega pensasse numa saída pelo menos honrosa. Isto enquanto ainda há tempo. Caso ele não se disponha a tal gesto de grandeza, corre o risco de numa dessas tentativas golpistas, como a de ontem, acabar sendo de fato enxotado do poder.

Em tais circunstâncias, o destino que o esperaria não seria, convenhamos, dos melhores. O hoje homem forte do Panamá poderia ter de trocar o seu pomposo uniforme de general, de agora, por um “pijama listrado” de alguma penitenciária da Flórida. E isto, certamente, jamais deve ter passado por sua cabeça em momento algum.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 4 de outubro de 1989).

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Sob o signo do pioneirismo

Pedro J. Bondaczuk

A vida do cantor, compositor e ator Carlos Gardel é cercada de uma série de curiosidades, algumas das quais são ignoradas até pelos seus mais fanáticos admiradores e muitos dos seus biógrafos, além do signo de pioneirismo que a caracterizou. Por exemplo, o que o leitor diria se eu lhe informasse que seu maior parceiro, autor das letras dos seus tangos de maior sucesso, foi um brasileiro, mais especificamente, um paulistano? De duas, uma: ou duvidaria da minha informação, exigindo mais referências se não provas ou ficaria admirado, como fiquei em 1985, quando descobri esse fato.

Pois é, não estou inventando nada. O compositor, jornalista, crítico de arte, roteirista de cinema etc.etc.etc. e amigo íntimo de Gardel – morreu com ele no desastre aéreo que vitimou o grande ídolo – Alfredo Le Pera, filho de imigrantes italianos, nasceu em São Paulo, em 4 de junho de 1900. É fato que viveu pouco tempo no Brasil. Mudou-se, quando tinha somente dois anos, com a família, para Montevidéu e fixou-se, posteriormente, na Argentina. Era dez anos mais novo do que “El Zorzal” e teve influência decisiva tanto na carreira, quanto na vida do “rei do tango”. O curioso (entre tantas curiosidades) é que essa dupla, tão amada (diria, venerada) pelos argentinos, não nasceu e nem morreu na Argentina.

Carlos Gardel estabeleceu pelo menos três grandes primazias em sua relativamente curta carreira (pois morreu aos 45 anos de idade, quando tinha, ainda, muito a oferecer à arte e à cultura popular). A primeira, foi o fato de ter sido pioneiro na gravação de discos. E sua discografia ascende a mais de 1.200 composições, eternizadas em cera ou em acetato, entre tangos, fox-trotes, fados, pasodobles e músicas folclóricas. Foi campeoníssimo na venda de discos, e não apenas na Argentina, mas em toda a América Latina (e também no Brasil, claro) e Europa.

Suas canções mais famosas são: Mi noche triste (1917), Margot (1921), Mano a mano (1927), Esta noche me emborracho (1928), Chorra (1928), Adiós muchachos (1928), Seguí mi consejo (1929), Yira…yira (1930), Desdén (1930), Tomo y obligo (1931), Lejana tierra mía (1932), Silencio (1932), Amores de estudiante (1933), Golondrina (1933), Melodía de arrabal (1933), Guitarra guitarra mía (1933), Cuesta abajo (1934), Mi Buenos Aires querido (1934), Soledad (1934), Volver (1934), Por una cabeza (1935), Sus ojos se cerraron (1935), Volvió una noche (1935) e El día que me quieras (1935).

A segunda primazia ele registrou nas telas. Gardel foi o primeiro artista a cantar em um filme, assim que o cinema deixou de ser mudo e passou a ser sonorizado. E fez isso não em uma, mas em várias produções cinematográficas em que atuou como ator. Sua filmografia, a exemplo da discografia, é considerável, principalmente em se levando em conta a época em que filmou. Seus filmes são os seguintes: Flor de Durazno (1917) (filme mudo), Encuadre de canciones (1930) (primeiro filme falado da América do Sul), Luces de Buenos Aires (1931) (filmado em Paris), La casa es seria (1931), Espérame (1932), Melodía de arrabal (1932), Cuesta abajo (1934), El tango en Broadway (1934), El día que me quieras (1935), Tango Bar (1935) e The Big Broadcast Of (1936).

E, finalmente, para completart seu contorno de mito, constituindo-se em terceira primazia (esta, logicamente, trágica), o celebrado cantor, compositor e ator morreu carbonizado num desastre aéreo, distante do seu país de adoção e, principalmente, em uma época em que viajar de avião era considerado ato de extrema coragem, que os artistas não ousavam encarar. Por trágico que possa ter sido (e que de fato foi), para quem sempre viveu cercado por uma aura de romantismo (boa parte da qual forjada pelos que orientavam sua carreira), não poderia haver morte mais romântica do que a de Gardel. Além do seu talento, portanto, esse mito latino-americano tinha o destino dos pioneiros, o que consolidou a aura de mistério em torno dele. Mas pagou, por isso, preço muito alto, diria intolerável: tanta ousadia custou-lhe a vida.

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Monday, May 20, 2013


O otimismo é a mola-propulsora do progresso. Nenhuma obra, da mais simples àquela de extrema complexidade, pode ser levada a bom-termo se não acreditarmos que ela seja factível. Iniciar qualquer empreendimento duvidando do sucesso é o caminho mais seguro para o fracasso. Nesse caso, é preferível sequer começar, para não desperdiçar energias. Não podemos ser pessimistas contumazes, embora, infelizmente, essa seja, hoje em dia, prática bastante corriqueira, quase uma tônica. Hellen Keller, que deu lições maravilhosas de garra e de superação – nasceu cega e surda e, no entanto, se tornou magnífica professora e extraordinária conferencista – afirmou o seguinte, a esse propósito: “O otimismo é a fé em ação. Nada se pode levar a efeito sem otimismo”. Sejamos, pois, otimistas convictos em tudo o que fizermos em todos os dias das nossas vidas. Vale a pena!

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