Monday, December 05, 2016

“DORMIREMOS NA CAMA QUE ARRUMARMOS”

Está mais do que na hora de se pôr fim a esse estúpido preconceito em relação às pessoas que já fizeram, por exemplo, mais do que 65 aniversários. A estupidez desse comportamento preconceituoso fica mais evidente ainda quando se recorda que todos, absolutamente todos (a menos que a morte colha alguém antes, na juventude ou na maturidade, por exemplo), um dia iremos envelhecer. E as idéias que consolidarmos, a respeito das pessoas idosas, se voltarão, então, por inteiro, contra nós. Seremos, considerados inúteis, pesos mortos para a família e a sociedade, com mentalidade de criança ou de uma pessoa insana, mesmo que não sejamos assim. Por que? Porque alimentamos, ou ajudamos a alimentar esse preconceito. Meu pai sempre dizia, do alto de sua sabedoria de homem simples, mas sensato: “Pedrinho (foi assim que sempre me chamou), lembre-se que você irá dormir na cama que arrumar”. Ou seja, tudo o que fizermos, de bom ou de ruim, um dia nos produzirá conseqüências, boas ou más.


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbert Oliveira” (Fortuna crítica)Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
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Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

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Em livraria

Edição impressa:
1. Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.
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É preciso credibilidade


Pedro J. Bondaczuk


O País convive, desde agora, com uma nova "realidade" --- desculpem o trocadilho involuntário --- com a introdução da Unidade Real de Valor, a tão comentada e pouco entendida URV, que despertou uma verdadeira (e justificada) histeria nacional.

Quem vai perder? Quem vai ganhar? Como fica a poupança? Como ficam os aluguéis? Essas são algumas das perguntas que circulam de boca em boca e são repetidas milhões de vezes por todo o País. O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, realiza autêntica maratona de entrevistas, tentando tranqüilizar as pessoas. E fica a impressão de que já vimos "filme" parecido com esse.

Tomara que desta feita haja um "happy end", um final feliz, já que o atual plano de ajuste se mostra pelo menos não tão dramático quanto seus antecessores Cruzados I e II, Bresser, Verão e Collor I e II, para citar os que vêm de imediato à memória. Quando da edição dos citados pacotes anteriores, as expectativas também eram de que dessem certo, embora o otimismo decrescesse progressivamente, de um para o outro.

Sem atentar para os aspectos técnicos, já que toda a teoria na prática é outra, o atual programa de estabilização depende, para funcionar (e esse muito mais do que os anteriores), de um capital que os últimos governos nunca tiveram: credibilidade.

Seria indispensável que, vencida a etapa da resistência natural (toda novidade, seja em que sentido for, enfrenta a barreira do ceticismo), a população "acreditasse" na viabilidade e na eficácia das medidas adotadas. Essa adesão, contudo, parece tão árdua quanto os mitológicos "doze trabalhos de Hércules".

Depois de tudo o que aconteceu nos últimos 50 anos de história alguém pode culpar o brasileiro por não acreditar em nada e ninguém? Aliás, a descrença é uma característica dos nossos tempos, e não somente no Brasil. Qual governo goza, nos dias que correm, de absoluta credibilidade? O de Bill Clinton, nos Estados Unidos? O de John Major, na Grã-Bretanha? O da dupla François Mitterrand-Édouard Balladur, na França? O de Bóris Yeltsin, na Rússia? O de Helmut Kohl, na Alemanha? O de Morihiro Hosokawa, no Japão?

Quem acompanha a política internacional sabe que todos esses governos atravessam um período de desprestígio tão grande, que qualquer medida que adotem, política, econômica ou militar, é recebida não apenas com resistências, mas com um sorriso irônico e zombeteiro, como se as pessoas dissessem: "Pronto, lá vem um novo truque dos políticos!"

A URV, antes de se transformar em moeda forte, como Fernando Henrique pretende, deve passar por uma série de testes. O dos sindicalistas, por exemplo. O da Previdência Social e, mais do que essa, dos aposentados que, pelo andar da carruagem, mais uma vez ficarão no prejuízo. O do funcionalismo público. E principalmente, o de um Congresso obscuro e medíocre, sem muita vontade de trabalhar --- basta ver o número de "gazeteiros" que possui --- ao qual caberá a tarefa de aprovar a medida provisória que cria a URV.

Terá Fernando Henrique, candidato potencial à sucessão de Itamar Franco, "cacife" político ainda maior do que o demonstrado para a aprovação do Fundo Social de Emergência?

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 1 de março de 1994).


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Constante reconstrução

Pedro J. Bondaczuk

Você já notou como nossa vida é uma constante reconstrução? É um tal de fazer, refazer, construir, demolir, voltar a construir no local em que a construção anterior foi demolida, e assim vamos, nessa toada, até o momento de nos despedirmos do mundo e encerrarmos essa aventura que nos é proporcionada pelo fato de termos nascido. E não me refiro apenas a obras palpáveis, a casas e edifícios, por exemplo, mas também a carreiras, a relacionamentos, a amizades, inimizades, ódios e amores. Nada tem o caráter da permanência, da perpetuidade e da eternidade.

Galáxias, estrelas e planetas nascem a todo o momento, enquanto outros tantos explodem, ou se alteram, ou simplesmente desaparecem em algum lugar da imensidão sem-fim do espaço vazio. Essa permanente reconstrução, digamos, física, concreta, pode ser observada melhor, por exemplo, nas zonas urbanas.

Num determinado instante, em decorrência da crescente expansão das povoações (hoje, mais da metade da humanidade reside em pequenas, médias e, sobretudo, grandes cidades), uma área qualquer é loteada e dividida em vários terrenos. São feitas campanhas publicitárias, os lotes são vendidos um a um, e não tarda para que alguém edifique uma moradia no espaço que adquiriu, há pouco tempo absolutamente baldio, que é logo cercado pelo proprietário.

Digamos que nesse lugar seja erguida uma luxuosa mansão, embora a área seja ainda um tanto erma. Os anos passam. As coisas mudam. O poder público promove a urbanização da gleba, proporcionando serviços essenciais ao homem moderno, sem os quais não sobrevive com dignidade, como água, luz, esgoto, asfalto etc. E o novo bairro, que se formou lentamente, se expande com rapidez. Centenas de outras moradias são construídas, várias das quais mais suntuosas, modernas e confortáveis do que a residência original do nosso personagem pioneiro. Claro que nos referimos ao processo, digamos, “normal” de urbanização. Nas favelas, ele é mais ou menos parecido, porém desordenado e caótico. Ninguém compra terreno de ninguém. Invade a área e pronto. Ela passa a ser sua.

Voltemos ao nosso povoador pioneiro. O passar dos anos traz natural desgaste à mansão que construiu, apesar de constante e cuidadosa manutenção (e até de várias reformas) que faz. Novos (e melhores) materiais de construção são desenvolvidos. A arquitetura evolui. Os acabamentos se tornam mais sofisticados e duráveis. E a mansão, que na época em que foi construída era moderna e, não raro, revolucionária, não tarda a se tornar feia, cinzenta, envelhecida e decadente, destoando das demais moradias ao redor.

Um dia, o proprietário original morre. A propriedade, após muita disputa, é assumida pelos herdeiros. Estes, claro, têm conceitos estéticos muito diferentes do nosso pioneiro. Ademais, acham mais fácil dividir dinheiro do que uma edificação velha e decadente. Põem, portanto, o imóvel à venda. Não raro, alguma imobiliária o adquire, mas de olho, apenas, no terreno.

A mansão original acaba demolida, para dar lugar a um prédio, que ao cabo de certo tempo, também passará por idêntico processo de decadência da mansão original e será, por seu turno, posto abaixo, para ceder lugar a um edifício mais moderno e racional ainda e assim por diante, num ciclo virtualmente sem fim. Foi, por exemplo, mais ou menos o que aconteceu com a Avenida Paulista, em São Paulo. Onde estão os suntuosos casarões dos barões do café dos anos 20? Ou os de seus “sucessores” dos anos 30, 40, 50 ou 60? Há tempos não existem mais!

Com nossas carreiras, com nossos sonhos, com nossos relacionamentos etc. ocorrem processos semelhantes, guardadas as devidas proporções. São construídos, reformados, demolidos e reconstruídos continuamente. Peço licença ao paciente leitor para citar palavras de um escritor, que concorda com minhas colocações (ou, para ser exato, eu é que concordo com as dele), e que expressa tudo isso que eu quis dizer com muito mais perícia do que eu.

Trata-se do baiano Ariovaldo Matos, que constatou, num de seus contos, publicado na antologia “Histórias da Bahia”: “Um homem constrói toda a sua vida acreditando numa certeza, a ela se sacrificando, matando sentimentos profundos, sufocando desejos, justificando erros. E, de repente, todo o mundo que construía, no plano ideal, explode. A certeza era uma farsa. Talvez um cínico, diante de tal problema, dissesse: bem, amanhã é outro dia... Talvez um calculista frio, mestre na análise de sentimentos e imune a paixões, pesasse, um a um, todos os aspectos do problema, considerasse suas causas e suas conseqüências, permitindo-se uma autocrítica percucentíssima, no fim do que se consideraria disposto a outra, repetindo Camões: muda-se o ser, mudam-se as substâncias...”



Mas o que fazer, de verdade, quando nosso castelo de sonhos desmorona de maneira tão fragorosa e definitiva? Lamentar? Para quê? Lamentos não levam a lugar algum. Culpar os outros? Qual o sentido prático de agir assim? Largar mão de tudo e se entregar a um covarde desalento? Nada disso! Para as pessoas práticas e, sobretudo, corajosas, só resta um caminho a seguir. Reconstruir (se ainda houver tempo, claro) o que ruiu, seja lá o que for: casa, carreira, relacionamento, amizade ou amor...Não há outra saída.

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Sunday, December 04, 2016

NOSSA VERDADEIRA IDADE É AQUELA QUE “SENTIMOS”


Escrevi inúmeras vezes, e reitero aqui, que juventude e velhice não são questões cronológicas, de calendário, mas um estado de espírito. Não me canso de repetir que conheço inúmeros “velhos” de 18 anos, desanimados, sem perspectiva e buscando a fuga da realidade no álcool e, não raro, nas drogas, e muitos “jovens” prestes a atingir a idade centenária. Exagero? De forma alguma! Querem um exemplo? Alguém que não conhecesse Barbosa Lima Sobrinho pessoalmente – que foi por um tempão presidente da Associação Brasileira de Imprensa – e que lesse, com atenção e assiduidade, os textos que escrevia aos cem anos (isso mesmo, em idade centenária) para o Jornal do Brasil do Rio de Janeiro diria, em sã consciência, que se tratava de um “velho”? Duvido! Era tamanha a sua lucidez, tão grande o seu entusiasmo, tão ativa a sua participação na vida do País, que se diria que se tratava de um moço de 20 anos, se tanto. E esse não é um caso único e nem o mais surpreendente. Conheço inúmeros outros.

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Presente de Natal

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Falta de motivação inibe o talento


Pedro J. Bondaczuk


O incidente registrado na quinta-feira, na União Soviética, quando um jovem piloto alemão ocidental, que tirou seu brevê não faz muito tempo, pilotando um frágil Cessna 172-B do Aeroclube de Hamburgo, conseguiu burlar os mais rígidos e sofisticados sistemas de defesa aérea do mundo e chegar até às muralhas do Cremlin, no centro de Moscou, o coração do poder da superpotência marxista, faz o observador entender, perfeitamente, a razão pela qual o líder Mikhail Gorbachev está tão empenhado em mudar essa sociedade.

O burocrativismo exacerbado produziu como que uma letargia coletiva, um entorpecimento do senso individual de responsabilidade nos russos. Em outras palavras, não há a vontade de ser eficiente, por falta de reconhecimento pessoal.

O cidadão, conscientizado de que é nada mais do que uma simples peça de uma gigantesca engrenagem, perde um fator indispensável para se empenhar em ser competente: a motivação. Todos, certamente, se recordam do que aconteceu em Chernobyl, em 26 de abril de 1986, naquele que foi o maior desastre nuclear de todos os tempos.

Entre a data da ocorrência do lamentável acidente e a da confirmação dele, por parte do Cremlin, transcorreram 48 horas, vitais para muita gente, que acabou sendo exposta sem necessidade aa doses excessivas de radiação. Dias depois, autoridades soviéticas admitiram que houve demora na comunicação. Os funcionáarios da usina acidentada, que teriam feito uma experiência não autorizada no reator, relutaram em assumir a responsabilidade.

O caso do Cessna pode ser (e é) pitoresco para a imprensa ocidental, por seu aspecto inusitado. Certamente não passou de uma aventura para Mathias Rust, o rapaz de 19 anos (portanto, irresponsável, ainda, do ponto de vista civil), que o tornará uma celebridade mundial por alguns poucos e efêmeros meses, até que seu nome volte a cair no ostracismo.

Dentro de alguns dias, para a maioria, o caso não passará de uma simples história. E, em alguns anos, o protagonista dessa peripécia terá dificuldades para convencer os próprios netos que conseguiu realizar tal façanha. Corre o risco, até, de passar por mentiroso.

Todavia, na União Soviética, a questão, com toda certeza, não será encarada com tanta simplicidade. Todo o aparato defensivo (e não, portanto, um único funcionário relapso) falhou nesta oportunidade. E se o rapaz fosse um terrorista homicida transportando algumas bombas? E se, ao sobrevoar, em vôos rasantes, por duas vezes, a Praça Vermelha de Moscou, desovasse alguns explosivos sobre os transeuntes? E se cismasse de atacar a sede do poder soviético?

Teríamos, agora, um incidente internacional de proporções bastante sérias. São casos tolos, como este, aparentemente até pitorescos, que provocam as grandes conflagrações mundiais. O constrangedor, para os russos, foi o fato de que, na data em que o seu espaço aéreo foi violado com tamanha facilidade por um jovem ainda imberbe, o país comemorava o Dia da Guarda de Fronteira. Ou seja, era festejada exatamente a corporação que cometeu essa omissão tão imperdoável que, certamente, deixará, doravante, o povo soviético inseguro e desconfiado da capacidade das autoridades garantirem a segurança nacional.

Talvez a imprensa ocidental jamais venha a saber quem será o culpado pelo caso. Mas é quase certo que a corda, mais uma vez, vai arrebentar do lado mais fraco. Ou seja, algum pobre diabo, sem chances de se defender condignamente, será culpado, como sempre acontece, e aa honra do sistema ficará a salvo.

Portanto, quando se diz que as reformas propostas por Gorbachev (tão combatidas pela gerontocracia que ainda predomina no centro de poder da URSS) são fundamentais para que esse país continue sendo superpotência, não há qualquer exagero.

O burocrativismo, em termos de administração, e o centralismo estatal, nos meios de produção, são o túmulo da motivação e, portanto, da responsabilidade individual da produtividade. E o homem (isto é o óbvio ululante, como diria o teatrólogo Nelson Rodrigues) não é uma máquina.

(Artigo publicado na página 20, Internacional, do Correio Popular, em 31 de maio de 1987).


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Do tamanho dos nossos desejos

Pedro J. Bondaczuk

O mundo da fantasia, aquele do faz-de-conta, o dos nossos sonhos, tem as dimensões exatas dos nossos desejos. Difere em muito do real, onde temos que lutar pela sobrevivência, sem muito espaço para correr atrás de abstrações. Preocupações imediatas nos desafiam: como conseguir um teto para nos cobrir a cabeça, o alimento que nos mantenha as forças, o acesso à educação e à cultura para que conservemos nosso tênue verniz de "civilização", o usufruto das conquistas da medicina para manter nossa saúde e prolongar nossa vida etc.? O que desejamos pode ser tanto a mola que nos impulsione às grandes realizações, quanto a fonte de toda a nossa infelicidade. E é muito difícil, senão impossível, filtrar o factível, o concretizável e o realizável do somente desejável.

Alguns desejos exigem cumplicidade para que se realizem. Jamais uma única pessoa, de forma isolada, teria condições de realizá-los, dadas sua abrangência e complexidade.  Devem ser ideais permanentes tanto do indivíduo, quanto da comunidade em que ele está inserido. São os casos da solidariedade, da fraternidade e da justiça, entre outros, conceitos que, se bem entendidos e, sobretudo, aplicados, transformam por si sós o Planeta em um lugar aprazível para se viver.

O austríaco Peter Handke escreveu: "Existe como que uma falta que se instala (em nossa vida). Mas é preciso ter o desejo. É só isso, é preciso ter o desejo. O desejo de redenção, de libertação. Se a gente não tem isso, acho que não se pode escrever". Eu estenderia um pouco além esta conclusão. Diria que não se pode viver. Mas de nada vale se limitar a desejar. É preciso agir, de maneira ordenada e coletiva.

É necessário ter-se em mente a possibilidade de não conseguirmos alcançar o que tanto desejamos e saber como lidar com essa frustração. Temos que entender que não passamos de pequeno elo de uma imensa corrente surgida quando do aparecimento do primeiro indivíduo inteligente, da nossa espécie, sobre a Terra e cujo final é impossível de vislumbrar na sucessão de gerações. Mas nossa vaidade impede-nos de admitir o quanto é ínfima a nossa importância individual. Carecemos de uma visão de médio e longo prazo. Queremos a realização dos nossos desejos, por mais fantasiosos ou egoísticos que sejam, de imediato. E, claro, nos frustramos. Ocorre o choque inevitável entre a realidade e a fantasia.

O físico Albert Einstein escreveu, em seu livro "Como vejo o mundo": "A perfeição dos meios e a confusão dos objetivos parece caracterizar a nossa época. Se desejamos sinceramente e com ardor a segurança, o bem-estar e o desenvolvimento livre dos talentos de todos os homens, não nos faltarão meios para atingir tal estado. Ainda que só uma pequena parte da humanidade se esforce para tais objetivos, sua superioridade ficará comprovada a longo prazo". Nunca os recursos para a instauração do sonhado Paraíso na Terra estiveram mais ao alcance de todas as pessoas. No entanto, em época alguma houve maiores divisionismos e injustiças do que agora.

Basta atentar para o fato de que dois terços da humanidade trabalham, ou procuram trabalhar, para que o um terço restante fique com os frutos deste labor em seu próprio proveito. Por que? É a pergunta que os idealistas fazem há séculos! E muitos morrem por essa igualdade de oportunidades! Um bilhão e quatrocentos milhões de pessoas situam-se, hoje, abaixo da linha da miséria, sem casa para morar, sem comida, sem acesso à saúde, sem poder obter o preciosíssimo bem da educação que lhes permitiria uma evolução em sua condição pessoal. E essa contundente cifra cresce em progressão geométrica. Enquanto isso, os recursos preciosos e esgotáveis do Planeta concentram-se, mais e mais, proporcionalmente, em menos mãos. Por que?

Somente entre os anos de 1998 e 2002, de acordo com estatísticas do Banco Mundial, 400 milhões de indivíduos caíram na absoluta miserabilidade. Não me consta que essa dolorosa realidade tenha mudado para melhor. Pelo contrário. Estes milhões, quiçá bilhões de miseráveis certamente, também têm desejos, posto que meramente instintivos. É possível que sonhem com a fortuna e com os prazeres sensoriais. Mas nos seus delírios desejam, antes de tudo, o que têm o direito natural de obter e não lhes permitem. Querem comida que os mantenha vivos, roupa, para estarem aquecidos, um teto, para estarem abrigados. Ambições primitivas, como as dos homens das cavernas. Direitos naturais que devem ser garantidos. E é lamentável que em 13 milênios de civilização, após tantas guerras, discussões e movimentos, somente os instintos egoísticos, animais, prevaleçam: os da lei das selvas, da prevalência do forte sobre o mais fraco.


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Saturday, December 03, 2016

EM QUE IDADE COMEÇA A VELHICE?

A velhice começa em qual idade? Há não muito, pessoas que mal passavam da faixa dos 50 anos já eram consideradas “velhas”. E assumiam-se como tal. Os progressos da medicina, todavia, bem como a melhor qualidade dos alimentos, da água e dos medicamentos estenderam bastante esse limite. Recentemente vimos, em reportagem da ESPN Brasil, um cidadão do Nordeste que, aos 52 anos, ainda era jogador profissional de futebol. Romário encerrou a carreira aos 42. O volante Fernando, do Santo André, tinha essa mesma idade e ainda defendia o seu time, no Campeonato Brasileiro da Série A de 2009, com fôlego de dar inveja a muito garotão que atua nas categorias de base dos clubes. O mesmo acontece com o “interminável” Zé Roberto, atualmente no Palmeiras. Hoje, considera-se que aquilo que se convencionou chamar, eufemisticamente, de “Terceira Idade”, tem início quase duas décadas depois. Ou seja, aos 65 anos. E, pelo andar da carruagem, esse teórico limite da maturidade deverá (logo, logo) ser estendido para 80 ou mais aniversários. Detesto esses rótulos, que só dão margem ao preconceito.


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Só nos resta ainda a esperança


Pedro J. Bondaczuk


A campanha política recém finda foi o supra sumo da arte (ou da artimanha?) do discurso vazio, sem conteúdo e, é claro, sem solução para os raros problemas levantados. Os vários candidatos tentaram passar ao público uma onipotência que o mais ingênuo dos ingênuos sabe que eles não possuem.

Buscar convencer, em especial, o irritado telespectador, durante o horário gratuito de propaganda eleitoral nas televisões, da existência de um país de fantasia, cujos males principais são a inadequação da segurança pública e a carência habitacional. E só!

Fossem, contudo, somente estas as nossas necessidades, e estaríamos até que muito bem. Violência urbana, afinal, é um fenômeno que afeta o mundo todo, e não é de hoje. Nova York, Moscou, Pequim, Paris e Londres bateram recordes sobre recordes de criminalidade nos últimos tempos. Por outro lado, cada vez mais soviéticos, britânicos, alemães e demais europeus encontram dificuldades para morar com decência.

O que nos aflige é também isso, evidentemente, mas não somente. O jornalista Gaudêncio Torquato, num inspirado artigo que publicou no jornal "O Estado de São Paulo", em julho passado, previu que os políticos, como sempre tem acontecido no correr de praticamente todas as campanhas de nossa história, voltariam a usar a miséria absoluta que ronda a 35% da população nacional como base de sua pregação. Que usariam a mesma retórica de sempre, com sua proverbial insensibilidade.

Só que nem ele, e nem ninguém, poderiam prever que desta vez o discurso viria a ser tão vazio, como foi. Seria extremamente edificante se cada candidato, de castigo pelas bobagens que disse, dedicasse, nos próximos dias, longas horas na análise dos vídeos da propaganda eleitoral que foi ao ar ao longo de penosos 60 dias.

Certamente, cada um deles ficará envergonhado de trazer tanto lugar comum, tanto clichê, tanta baboseira, que em certos momentos descambou para o ridículo, ao assustado cidadão, caso tenha humildade para fazer essa autocrítica. A reação do eleitor só poderia ser a que foi: omissão em massa, ditada por absoluto desencanto.

Os que lograram ser eleitos, muitos dos quais beneficiados pela enxurrada de votos brancos e nulos, não pensem, todavia, que poderão manter o "status quo" impunemente. Ninguém mais está disposto a tolerar salários nababescos de parlamentares insensíveis, enquanto a grande maioria ganha o insuficiente até para sobreviver.

O cidadão não aceitará calado, outra vez, as briguinhas de comadre em plenário, embora a Constituição, cantada e decantada como panacéia para todos os males nacionais, não foi ainda completada, faltando as indispensáveis leis complementares que viabilizem boa parte dos seus dispositivos, mesmo já tendo passado dois anos da sua promulgação.

Não há quem esteja com paciência para fazer vistas grossas a negociatas, conchavos, casuísmos e corrupções de toda a sorte, às custas da única coisa que ainda sobrou para a maioria dos brasileiros: a sua esperança.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 9 de outubro de 1990).


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