Friday, December 19, 2014

Raros têm a exata noção da importância de cada etapa da vida pela qual poderão passar (muitos não passam). A criança, por exemplo, aprende a respeitar os mais velhos, mas nem sempre o faz, encarando o idoso com desprezo e certo desdém. O jovem, então, assume a atitude de quem tudo sabe e tudo pode, sem se lembrar que a juventude não é eterna e que, quando menos esperar, estará igual, ou pior do que aqueles aos quais menospreza. E as pessoas de maior idade, em vez de se colocarem em seus devidos lugares, tentam imitar os adolescentes nas roupas, nas falas e nas atitudes. Se a morte não nos colher antes, de maneira prematura, porém, todos passaremos pelas três etapas da vida. Millôr Fernandes, com seu humor inteligente e, no entanto, crítico, escreveu a respeito: “A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude é passageira. A velhice, sim: quando um cara fica velho é para o resto da vida”. E não é?!!


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Presente de Natal

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Futuro comprometido


 Pedro J. Bondaczuk


O presidente dos EUA, Ronald Reagan, em seu debate pela TV norte-americana, no domingo passado, com o democrata Walter Mondale, fez uma apologia apaixonada do sistema de defesa espacial, chamado um tanto poeticamente de “guerra nas estrelas”. O mecanismo consistiria, basicamente, de potentíssimos canhões de raios laser e de raios-x instalados no espaço, que teriam a capacidade de desativar mísseis balísticos intercontinentais do inimigo, impedindo a explosão de suas ogivas nucleares nos alvos predeterminados.

Reagan salientou, na oportunidade, que esse sistema defensivo tornaria as armas nucleares obsoletas, pela impossibilidade delas cumprirem seu objetivo de destruição. Esqueceu de dizer (esqueceu mesmo?), que para isso ser possível, as duas superpotências teriam que contar com o mesmo dispositivo. Se contassem, que bom seria se as coisas fossem realmente assim tão simples! Todos sabem, no entanto, ou pelo menos pressentem, que não são.

Entretanto, os autores do livro “Contagem Regressiva para a Guerra Espacial” rebatem as afirmações do presidente norte-americano (que inclusive, no debate, foi acusado por Mondale de estar desinformado a esse respeito) e garantem que, na verdade, os canhões de laser seriam até mesmo mais perigosos para o país que os possuir, por obrigarem o inimigo a se utilizar de todos os mísseis do seu arsenal simultaneamente, já que o sistema teria a capacidade de deter somente 40% deles.

Isso representa que seis mil balísticos soviéticos (dos dez mil que a superpotência possui), atingiriam o alvo, quantidade suficiente para arrasar, não apenas os EUA, mas o próprio mundo em pelo menos 40 vezes. Ou seja, teriam um potencial para destruir 40 planetas do porte do nosso.

Surge, naturalmente, uma pergunta lógica diante dessa informação: compensaria o investimento que o sistema vai requerer (orçado, muito por baixo, em US$ 1 trilhão, ou Cr$ 2,5 quatrilhões) para tão pequeno resultado? De onde viria tanto dinheiro (o equivalente a quase duas vezes toda a dívida externa mundial, que anda pela casa dos US$ 850 bilhões), se, como todos sabem, nenhum recurso tem geração espontânea e não brota simplesmente do nada, como num passe de mágica?

Os leitores já adivinharam de onde será tirado tanto dinheiro, não é mesmo? Levando-se em conta que os russos também estão trabalhando em sistema semelhante (embora para consumo externo queiram posar de bonzinhos), com custos certamente em nada inferiores aos dos EUA, concluímos que praticamente a metade de toda a riqueza gerada pela humanidade será empatada nessas engenhocas, cujos resultados práticos ainda são incertos.

Não seria mais sensato, então, destinar insignificante 1% dessa quantia para socorrer, por exemplo, a população etíope, morrendo, literalmente, de fome? Ou para educar quase 50% da humanidade, mergulhada num irreversível analfabetismo? Ou para reduzir os alarmantes índices de mortalidade infantil registrados no Terceiro Mundo?

Há um meio muito mais simples e racional de acabar com o perigo das armas nucleares. Mas esse é lógico demais para seres ilógicos, como provaram ser os homens.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 26 de outubro de 1984).


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Do prelo às telas

Pedro J. Bondaczuk

O livro “1984”, de George Orwell, ganhou novo impulso, e voltou a ser fartamente comentado, a partir do filme do mesmo nome, lançado, exatamente, quando o ano do título do romance (há quem o classifique como novela) chegou. Ou seja, exatamente 1984. É verdade que antes dele ser filmado, já em finais de 1982, começaram a “pipocar” artigos, ensaios e outras tantas análises a propósito da mais conhecida das obras orwellianas, notadamente na imprensa inglesa e na dos Estados Unidos. O enfoque da maioria nem era, propriamente, “1984”. Era a ideologia do autor, considerada ambígua por muitos, dúbia por outros tantos e equivocada por alguns. Houve, até, quem dissesse que, caso Orwell não morresse tão prematuramente – faleceu aos 46 anos – fatalmente se “converteria” ao pensamento e aos postulados da direita. Será? Quem pode afirmar com certeza? Eu não ousaria.

Foram rodadas várias versões cinematográficas de “1984”, algumas bastante recentes, mas a que é considerada a mais fiel ao livro é uma produção inglesa, dirigida por Michael Radford, com roteiro do próprio diretor em parceria com Jonathan Gems, que tinha, no elenco, atores consagrados, como Richard Burton, John Hurt, Cyril Cusack e Suzanna Hamilton. Para refrescar a memória do leitor, nada como resumir, em poucas palavras, o enredo criado por Orwell e reproduzido, com grande fidelidade, pelos roteiristas.

O mundo havia emergido de uma guerra nuclear, que resultou numa divisão territorial do Planeta em apenas três Estados, substituindo as mais de uma centena de países que existiam antes do conflito bélico. Um deles era Oceania, cuja capital era Londres, dominado por um partido único, com controle absoluto sobre a vida de todos os cidadãos. Nele, era proibido, até mesmo, se apaixonar. Ali as emoções eram ilegais. A libido foi banida.  Havia, em todo lugar, câmeras (e telas) de televisão, que eram uma espécie de olho do governo para monitorar o que a população dizia, fazia ou até mesmo pensava. Havia uma espécie de lavagem cerebral em massa. Eram exibidas, o tempo todo, imagens mostrando as batalhas que Oceania travava em outros continentes. Mas as notícias a respeito eram todas positivas. O Estado comandado pelo “Grande Irmão” nunca perdia. Óbvio que as notícias eram manipuladas. Winston Smith (papel interpretado por John Hurt) trabalhava em um departamento cuja função era exatamente a de distorcer as informações, de sorte a que essas sempre fossem positivas. Ou seja, favoráveis ao ditador, pintado como justo, onisciente e invencível.

Tudo ia bem até que o diligente funcionário, que vivia sozinho e dedicava-se de corpo e alma ao “trabalho”, e exclusivamente a ele, interessou-se por uma colega, Julia (papel interpretado por Suzanna Hamilton). Do simples interesse inicial, nasceu uma amizade recíproca. E esta não tardou em transformar-se em paixão. O casal passou a ter um relacionamento, desafiando o regime, pois isso era expressamente proibido na ditadura de Big Brother. O mais... eu não digo. Deixo, ao paciente leitor, a (deliciosa) tarefa de ler o livro ou assistir a alguma das versões cinematográficas de “1984”.

Cito, a título de curiosidade, um filme anterior baseado no livro de George Orwell, datado de 1956. Trata-se de uma produção da Columbia Pictures, com Edmond O’Brien e Jan Sterling nos principais papéis. Todavia, para os críticos, a versão de Michael Radford é muito mais fiel ao livro. Para o norte-americano Roger Ebert, por exemplo, o filme inglês “penetra mais profundamente no coração das trevas da obra”.

Pesquisando na enciclopédia eletrônica Wikipédia, descobri algumas curiosidades sobre essa produção cinematográfica. Uma delas, por exemplo, é que o filme começou a ser rodado exatamente no dia em que começava o diário do principal personagem, Winston Smith, ou seja, 4 de abril de 1984. Seria, apenas, coincidência ou foi algo proposital, de caso ponsado? Não sei dizer! Outra coisa que merece menção é que o ator Richard Burton (que foi casado com Elizabeth Taylor), faleceu, na Suíça, apenas dois meses após a conclusão das filmagens. Por essa razão, o filme de Michael Radford lhe foi dedicado.      

Um aspecto, que considero essencial – e que me proponho a abordar com mais vagar, oportunamente – é o desencanto, na verdade repúdio, de George Orwell pelo comunismo soviético. O escritor sempre deixou isso claro, quer nos artigos e ensaios que escreveu, quer nas entrevistas que concedeu. Esse repúdio, essa verdadeira ojeriza, remonta ao período da guerra civil espanhola, de 1936 a 1938, quando pegou em armas e chegou a ser ferido em combate. Ele nunca perdoou o fato de Josep Stalin não dar o devido apoio material e logístico, que dele se esperava, aos republicanos. E muito menos a aliança dele, a seguir, com Adolf Hitler.

Orwell descreveu suas experiências no front espanhol em um livro, praticamente desconhecido no Brasil, considerado por muitos críticos como sua melhor obra. Muitos consideram-no, até, uma das obras-primas da literatura de guerra de todos os tempos, perdendo, talvez, apenas para “Adeus às armas” e “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Hemmingway. Ou, quem sabe, para “Guerra e Paz”, de Leon Tolstoi ou para “Fui recruta de Napoleão!, de Victor Hugo.   Trata-se de “Homenagem à Catalunha”. Nele, Orwell expressa toda sua indignação com o Partido Comunista Espanhol, por retirar o espaço dos demais grupos de esquerda que combatiam o general Francisco Franco, respaldado por Adolf Hitler e por Benito Mussolini. Isso, na sua avaliação, fortaleceu ainda mais o franquismo e levou os republicanos espanhóis à derrocada.


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Thursday, December 18, 2014

Qual a verdadeira religião do homem contemporâneo, aquela que ela professa de fato, sinceramente, sem falsidade ou disfarce, e não apenas de maneira formal, como a que declara integrar? Mais de novecentas milhões de pessoas ao redor do mundo declaram-se cristãs, como nos mostram as estatísticas. Quantas, todavia, exercem, de fato, o cristianismo? Dez por cento? Cinco? Dois? São poucos! Não gosto de abordar o tema religião, porquanto trata-se de questão de foro íntimo de cada um. Analiso-a, contudo, com o olhar do sociólogo e concluo, com tristeza, que os objetos de culto do homem contemporâneo não são sagrados, mas profanos: seu clube esportivo (quem nunca ouviu alguém dizer que encara o time de futebol pelo qual torce como religião?), o dinheiro, o automóvel, enfim, os tantos objetos de ostentação que há por aí. É lamentável, mas trata-se de fria realidade mundo afora.


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Paz passa pela justiça social



Pedro J. Bondaczuk


 A Europa, berço da civilização ocidental, que irradiou sua cultura e seu modo de vida pelos quatro cantos do mundo, tem sido, pelo menos nos últimos mil anos (para se restringir a um período histórico não tão amplo), um gigantesco campo de batalhas. Guerras medonhas foram travadas em seu território, matando milhões e milhões de pessoas.

Suas cidades mais antigas já sofreram inúmeras destruições e posteriores reconstruções. Pode-se dizer que a trajetória histórica do continente foi marcada, desde que se tem registro, por ódios, rancores, ambições desmedidas, agressões e retaliações.

As guerras ali sempre se constituíram em rotina e a paz acabou por se constituir numa excepcionalidade, quando o senso mais comum de lógica diz que deveria ser exatamente o contrário. Agora, os europeus, do Atlântico aos Urais, do Ártico ao Mediterrâneo, mobilizam-se para finalmente discutir um sistema de segurança que elimine os conflitos no seu nascedouro.

É evidente que a tarefa não é obra para apenas uma geração, tamanha é a quantidade de problemas, visíveis ou invisíveis, detectados ou a detectar, sociais, econômicos e comportamentais que requerem solução. E o enfoque não pode ser somente o de segurança militar.

O grande pressuposto para a paz, não apenas na região, mas no mundo, é o estreitamento – já que a abolição raia à mais delirante das utopias – ao máximo possível o fosso que divide a parte rica do Planeta, uma incipiente minoria, da pobre, maioria esmagadora.

Essa diferença, à mais apressada análise, revela-se ser a causa básica de todas as divergências já surgidas no correr do que se convencionou chamar de civilização, que acabam derivando invariavelmente para a violência das guerras que, por sua vez, tendem a acentuar ainda mais a distância entre os dois grupos, provocando novas conflagrações, num círculo vicioso jamais rompido por qualquer povo em qualquer período.

Na Europa, essa discrepância entre riqueza e miséria é muito grande, não somente entre Estados, mas entre categorias sociais dentro de um mesmo país. Embora os homens precisem uns dos outros para sobreviver, a vida individual é a que conta. Ninguém está disposto, pelo menos conscientemente --- embora pela educação as pessoas sejam condicionadas a isso --- a receber um papel fixo assim que nasce, que não leve em conta suas ambições pessoais.

Todo indivíduo saudável e razoavelmente inteligente sonha com notoriedade, conforto e sobretudo poder. O operário de uma fábrica, por exemplo, embora nem sempre revele isso ou sequer saiba como expressar tal vontade, tem como objetivo ser o chefe. O executivo de uma empresa luta por conquistar a presidência. E vai por aí afora. Todos, de uma maneira ou de outra, aspiram chegar ao topo das atividades que escolheram ou que lhes foram impostos por condicionamentos.

Quando tais aspirações se tornam absolutamente impossíveis de serem atingidas, numa determinada sociedade, as pessoas mais ativas procuram outra, onde julguem ter maiores oportunidades. Daí o fenômeno das emigrações e migrações contínuas. Os povos da parte pobre da Europa deslocam-se maciçamente agora para o lado rico, como foi o caso dos alemães orientais, em 1989, cujo êxodo determinou a queda do regime comunista e a reunificação do país.

Ou como ocorre agora na Albânia e no restante do Leste europeu. Ou como se verifica no Terceiro Mundo, inclusive no Brasil, que já tem uma quantidade considerável de cidadãos vivendo nos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental. Tal movimentação de pessoas, desde que essa gente toda não possa ser absorvida pelos países para onde migra, é uma bomba-relógio de conflitos, tendentes a derivar em guerras.

(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 21 de junho de 1991).


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Nem a gregos e nem a troianos

Pedro J. Bondaczuk

O livro “1984”, de George Orwell, volta e meia volta à baila, tantos anos após ser escrito e publicado. A imensa maioria das críticas, feitas em ensaios, biografias e outros tipos de análise (quer literária, quer política ou ideológica), é negativa. Consiste tanto de ataques ao estilo do autor quanto, e principalmente, ao seu próprio conteúdo. Ou seja, a mensagem que pretendeu transmitir. Nessa onda, de quase linchamento, a própria figura do escritor não é poupada. Há quem o acuse, por exemplo, de jamais ter sido socialista, mas mero “oportunista ideológico”. Outros tantos são mais complacentes com ele. Entendem, sobretudo, que Orwell acreditava em um “socialismo utópico”, democrático, que não existe e nunca existiu em nenhum lugar, qualquer coisa parecida com a “glasnost” e a “perestroika” que Mikhail Gorbachev tentou implantar nos anos 80 e início dos 90 do século XX, no afã de salvar (em vão) a União Soviética da desagregação.

Nessa querela ideológica, que volta e meia é renovada, sobretudo em jornais e revistas sectários, o que menos se analisa, todavia, é o conteúdo de “1984”. A ditadura, de que o autor trata, ressalte-se, tanto pode ser de esquerda, quanto de direita. Orwell não dá a menor pista a propósito. Não identifica (e sequer sugere) em qual dos dois extremos estava pensando ao compor o enredo. É esta ambigüidade que o torna alvo constante tanto de uma vertente, quanto da outra. Ou seja, obtém uma quase unanimidade de condenações, sob os mais variados argumentos, quer de intelectuais de esquerda, quer dos de direita, com um extremo ideológico acusando o outro de ser o verdadeiro foco do escritor, ou seja, o “implantador” da ditadura absolutíssima tratada no livro.

Orwell escreveu essa obra em 1948, embora fosse publicada um ano depois, em 1949. Deu-lhe um título (propositalmente?) ambíguo, sugerindo o tempo em que a “Oceania” que criou surgiria no panorama mundial, sob o domínio absolutíssimo do “Big Brother” que, em sua determinação de controlar tudo, rigorosamente tudo na vida de seus cidadãos, controlaria, inclusive, e principalmente, seus pensamentos. Pensou em uma época  que não fosse nem tão distante daquela em que vivia e nem muito próxima. O que fez? Simplesmente inverteu os dois últimos algarismos do ano em que escreveu o livro: 1948 virou “1984”.

Das inúmeras acusações de que George Orwell foi (e volta e meia continua sendo) alvo, a mais contundente foi feita pela jornalista e historiadora britânica Frances Stonor Saunders. Em seu livro “Quem pagou a conta – A CIA na Guerra Fria da Cultura” (lançado no Brasil em 2008 pela Editora Record, com 556 páginas e tradução de Vera Ribeiro), ela o acusa de ter sido delator, ou seja, dedo-duro. Afirma que o autor de “1984” entregou, ao Departamento de Pesquisa de Informações (IRD), o braço secreto do Ministério de Relações Exteriores da Inglaterra, em 1949, uma lista que denunciava “35 pessoas como simpatizantes, ou como suspeitas de serem testas-de-ferro ou ‘adeptas’ do comunismo”.

A dita relação conteria nomes de intelectuais dos mais ilustres, como Kingsley Martin, Michael Redgrave, John Steinbeck, Paul Robenson, Upton Sinclair, Richard Rees, J. B. Priestley, George Padmore, Stephen Spender e Tom Driberg (estes dois últimos lembrados por serem, supostamente, homossexuais), entre outros. Saunders admite que a lista foi feita como uma espécie de “brincadeira” de Orwell com os amigos. Fica claro, portanto, que ela de fato existiu e que foi feita pelo acusado. A dúvida que fica é se ele a entregou ou não ao IRD. Da minha parte, suspeito que sim.

O biógrafo do autor de “1984”, Bernard Crick, praticamente confirma o ato de “deduragem” ao justificar: “Orwell não diferiu dos cidadãos responsáveis de hoje que transmitem ao esquadrão antiterrorista informações a respeito de pessoas de suas relações que eles acreditam serem terroristas do IRA. Essa era uma época vista como perigosa, o fim dos anos quarenta”. Caso o acusado tenha, realmente, agido assim, considero a atitude sumamente condenável, até porque estaria expondo pessoas de suas relações que pensavam exatamente como ele. Dêem o nome que quiserem dar a esse ato – caso tenha sido mesmo praticado – mas, para mim, é traição explícita.

Nesse aspecto concordo com o jornalista, escritor e radialista inglês, Peregrine Worsthorne, que declarou: “Um ato desonroso não se torna honrado pelo simples fato de ter sido cometido por George Orwell”. E Saunders arrematou: “Ele demonstrou haver confundido o papel do intelectual com o do policial”. Diz o surrado clichê que “ninguém consegue agradar, simultaneamente, a gregos e troianos”  E não consegue mesmo. O maior erro de George Orwell, na concepção de “1984”, foi o de não identificar a ideologia de “Big Brother”. Caso o fizesse, certamente seria, sim, alvo de ataques, mas de apenas uma das ideologias extremistas. Todavia, não uniria as duas no sentido de tentarem destruir não apenas sua obra, mas, principalmente, sua reputação. Do jeito que agiu, não agradou “nem a gregos e nem a troianos”.


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Wednesday, December 17, 2014

Todos os períodos da História têm seus ídolos, seus Baals, seus “bezerros de ouro”, seus objetos de culto aos quais a maioria se inclina e venera. Daí o mundo, que poderia ser um Paraíso, ser este perverso “vale de lágrimas”, de sofrimentos e dores. Nem sempre os idolatrados são pessoas. A psiquiatra Nise da Silveira, no livro “Jung Vida e Obra”, aponta quais foram os ídolos do século passado: “O século XX conhece grandes ídolos: raça, sexo, Estado, partido, dinheiro, máquina...”. Isso explica a razão do mundo estar como está: poluído, ameaçado de ter seu equilíbrio natural definitivamente rompido, injusto, perverso e sofrido. Oxalá neste século XXI a humanidade substitua todos os ídolos, sem exceção, por valores perenes, como bondade, justiça, solidariedade e profundo amor um pelo outro. E que adore, somente, única e exclusivamente, o Criador do universo, Onipotente, Onisciente, Perfeito e Eterno.


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Presente de Natal

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Não se mata uma idéia com armas


Pedro J. Bondaczuk


O primeiro-ministro chinês, Li Peng, veio a público, ontem, para afirmar perante a comunidade internacional que iria agir “sem piedade” contra os que participaram do movimento que ocorreu, recentemente, na China, em favor da democracia, esmagado pelos tanques do 27º Exército e pela prepotência de dirigentes fanáticos, que só conhecem uma linguagem para se impor: o terror.

Aliás, esse é o expediente favorito dos tiranos e das tiranias, que lidam com vidas alheias como se estas não tivessem nenhum valor. Em geral, um caudilho qualquer, ao assumir ilegitimamente o poder (que deveria sempre emanar do e pertencer ao povo) se vale da violência extrema, da calúnia e da ameaça para manter seu domínio. Nunca o faz através de uma idéia. Mediante a força da verdade.

A regra é o ditador escolher alguma personalidade da vida pública muito respeitada e reputada do regime anterior assim que seu golpe se consolide. Feita tal escolha, ele determina ou o encarceramento sumário, sem julgamento ou maiores considerações legais, ou simplesmente executa a vítima publicamente, com a pecha de traidora, ou corrupta, ou algo que o valha.

Não é difícil, através do medo que desperta, arrolar “testemunhas” que confirmem tais acusações por mais injustas que elas pareçam. Com isso, o tirano pretende desestimular qualquer espécie de reação. Tenta implantar, de forma às vezes sutil, e outras tantas até bem desastrada e ostensiva, o temor por tudo e por todos.

Por exemplo, estimula e até chega a premiar a delação como sendo uma virtude, um ato de civismo, levando irmão a entregar irmão, pai entregar filho e assim por diante por coisas que sequer são crimes, como ocorreu na China pós-massacre de Pequim.

Os cidadãos passam a ter receio de emitir opiniões, às vezes sobre os assuntos mais triviais. Acabam pode desenvolver uma desconfiança patológica por tudo e por todos. Convenhamos, isto está muito longe de significar ao menos um arremedo de liberdade. É a mais brutal das tiranias!

O italiano Vittorio Alfieri observou que “o medo de tudo e de todos gera a covardia e com ela, a tirania, isto é, o governo de um só”. Por isso, o primeiro ato dos tiranos, assim que tomam o poder, é obter o controle absoluto dos meios de comunicação. Ou seja, da “consciência de uma nação”.

É o que o primeiro-ministro chinês vem tentando fazer, com sua campanha de ameaças e de perseguições. Todavia, dificilmente ele terá sucesso na sua tentativa. O que ele pretende, é algo impossível. Não se mata uma idéia com armas e nem se esmaga a esperança com tanques.

Dia virá em que a verdade, acerca do horror vivido pelos participantes do heróico movimento pela democracia da Praça da Paz Celestial virá à tona, límpida, luzente e por inteiro. É mera questão de tempo.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 20 de junho de 1989).


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Extremos que se tocam

Pedro J. Bondaczuk

A história é narrada na terceira pessoa. Passa-se no futuro, mais especificamente no ano de 1984.  O cenário é a Pista de Pouso Número Um. Ela integra o megabloco da Oceania. Não se trata, aqui, do continente com esse nome. É a denominação dada à reunião de países de todos os oceanos do mundo, uma espécie de megaconfederação, que abrange a maior parte, quase a totalidade do Planeta. Poderia ser uma situação ideal, ou seja, uma sociedade sem fronteiras e sem as atuais barreiras de língua, raça, religião etc. e de todas as demais coisas que dividem, há milênios, a humanidade. Poderia... caso fosse uma democracia. Mas não era. Tratava-se de uma ditadura como nunca vista, que controlava todos e tudo nas pessoas, até, e principalmente, as idéias que tinham.

Este é o panorama em que se desenvolve o enredo de um dos romances mais polêmicos do século XX que, mesmo escrito ao final da Segunda Guerra Mundial, e publicado em 1949, volta e meia vem de novo à baila, gerando análises e debates de toda a sorte. Refiro-me ao livro “1984”, do escritor inglês, George Orwell. Seu tema principal não é sequer o político, embora assim pareça, por tratar da pior das ditaduras que se possa imaginar. Essa, aliás, é tão absoluta que o que está em questão no livro é a transformação da própria realidade. É o que o partido que está no poder, o IngSoc (único admissível, claro, como ocorre em regimes totalitários) se encarrega de fazer com diligência e eficiência.

Para não correr o mais remoto risco de sofrer ínfima oposição, o todopoderoso e onipresente líder, identificado como “Grande Irmão” (Big Brother), controla, através de um sistema de monitoramento do qual nada escapa – e não apenas o comportamento dos robotizados cidadãos, mas até, e principalmente, seus pensamentos – o IngSoc criou uma espécie de novo idioma, chamado, eufemisticamente, de “novilíngua”.

O maior delito que alguém poderia cometer em Oceania era o de pensar de forma mesmo que remotamente diferente do poderoso ditador. Tinha, até, um nome próprio: “crimidéia”. Para essa infração, não havia recurso e muito menos perdão. O infrator era perseguido pela Polícia do Pensamento, capturado e... executado, sem nenhum julgamento, mesmo que simulado ou sumário. Era, simplesmente, vaporizado. Ou seja, fisicamente destruído. O romance de Orwell propõe-se a narrar a história de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, cuja principal função era a de fazer exatamente o contrário do que o nome da pasta sugeria. Ou seja, distorcer, mentir, falsear, em suma, apresentar a “realidade” não como era, mas como o Grande Irmão queria que fosse.

O foco dos debates em torno desse polêmico romance, pelo menos os que ocorreram às vésperas de 1984, ano escolhido pelo autor para o surgimento dessa inflexível e absolutíssima ditadura, não era sobre se tal tirania seria possível ou impossível, provável ou improvável. Era o de (caso esta viesse a ser implantada, algum dia) se ela seria de esquerda ou de direita. Adeptos das duas correntes ideológicas se acusavam mutuamente, uma atribuindo à outra os instintos do absurdo “Big Brother”. Da minha parte entendo que, caso uma tirania, minimamente parecida com a descrita por Orwell, viesse a ser implantada (Deus que nos livre disso!), ela poderia ser tanto de uma facção ideológica, quanto da outra, posto que por métodos diversos de tomada e conservação do poder. Afinal, os extremos sempre se tocam. E esquerda e direita são o verso e o reverso de uma mesma moeda.

O polêmico (e saudoso) jornalista Paulo Francis tratou, na coluna que então assinava no jornal “Folha de S. Paulo” – mais especificamente, na publicada em 29 de janeiro de 1983 – dos debates que então se verificavam na imprensa norte-americana em torno do romance “1984”. Destacou, entre outras coisas, que tanto o “Village Voice” (porta-voz da esquerda nos EUA), quanto o “Harper’s” (de extrema direita) reivindicavam, para si, o pensamento político de Orwell, auto-elegendo-se como seus “legítimos herdeiros”. Ora, ora, ora...

Na minha visão pessoal (e na da maioria dos mais reputados críticos literários), “1984” é obra menor, tanto na relativamente escassa bibliografia do autor, quanto, e principalmente, na moderna literatura inglesa. Lido com a devida atenção, com foco não tanto no enredo, mas nos aspectos técnicos, o livro contém uma série de falhas e omissões. Parece ter sido escrito às pressas, sem a devida revisão final que, se feita com cuidado e critério, as sanaria e suprimiria. O romance, claro, tem também muitas virtudes. Uma, por exemplo, é a apresentação do “newspeak”, ou seja, a linguagem, cheia de dubiedades, eufemismos e falsidades, do “establishment” totalitário.

Sua retórica, fartamente conhecida pelos povos que viveram ou que ainda vivem sob ditaduras, caracteriza-se pela justificação de todos os atos dos detentores do poder absoluto, por mais execráveis, covardes e desumanos que sejam, com a utilização de uma linguagem que enfatiza, sobretudo, uma pretensa “salvação nacional”. E esse é um recurso utilizado por tiranias tanto de esquerda, quanto de direita que, ao fim e ao cabo, reitero, sempre se tocam, variando, quando muito, nos métodos para a tomada e conservação do poder. Voltarei, certamente, ao tema.


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Tuesday, December 16, 2014

O homem contemporâneo, ferozmente materialista, obcecado pela conquista de bens materiais dos quais, provavelmente, sequer terá tempo de usufruir, dá cada vez menos valor à reflexão. Como conseqüência, decrescem seus pensamentos e, mesmo vivendo em meio a crescentes multidões, sente-se cada vez mais solitário e vazio. Henry David Thoreau escreveu, no ensaio “Caminhando”:  “Na Nova Inglaterra temos o hábito de dizer que a cada ano é menor o número de pombos que nos visitam. Nossas florestas não lhes fornecem um bom lugar para pousar. Da mesma forma, talvez, vai diminuindo de ano a ano a quantidade de pensamentos que visitam um homem que vai crescendo, pois destruímos os arvoredos de nossas mentes, para alimentar o fogo útil das ambições ou a fornalha das fábricas e mal sobra um graveto no qual possa repousar uma reflexão. Os pensamentos não mais fazem seu ninho em nossa mente”.
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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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Fato político mais previsível de 1988



Pedro J. Bondaczuk


O general Augusto Pinochet, que certa feita afirmou que ocupava o governo do Chile para cumprir uma missão divina, parece ter levado demasiadamente a sério sua própria afirmação. Ontem, os comandantes militares indicaram-no para ser o candidato único no plebiscito que deverá ocorrer em outubro próximo, onde 7,3 milhões de eleitores (número recorde de inscrição nesse país) deverão dizer se querem ou não que ele permaneça por mais oito anos no poder, a partir de 1989, quando expira seu atual "mandato". Desta forma, tudo leva a crer que os chilenos terão que conviver com a atual situação de falta de liberdade e leis de exceção até o final deste século. Isto, se o general não cismar de estender a sua "missão divina" para além do ano 2000.

Sua indicação, embora todo o suspense que se procurou fazer em torno dela, foi o fato político internacional mais previsível deste ano. Só mesmo alguém muito ingênuo, ou desinformado acerca do drama quotidiano mundial, poderia acreditar que as coisas pudessem se passar de forma diferente da que se passaram. Dentro da previsibilidade, também, estão as reações, em especial dos jovens, quanto a essa escolha. Manifestações de rua nunca faltaram neste regime, em nenhum momento dele, a tal ponto de várias delas sequer terem sido noticiadas, por não se constituírem mais em novidade. Como também abundaram denúncias, feitas pelas organizações mais sérias e mais idôneas em nível internacional, de torturas a presos políticos, assassinatos de opositores e desaparecimento de pessoas.

Ainda assim, com todo esse retrospecto, é bastante previsível que o general Pinochet vença o próximo plebiscito, a despeito das pesquisas de opinião que assinalam um índice massacrante de rejeição à sua permanência no poder. Não que os chilenos, num rasgo de masoquismo, optem pela continuidade daquilo que os incomoda.

Mas a vitória deverá vir mediante a mesma "mágica" que fez o general vencer o plebiscito de 1980, numa época em que as prisões viviam repletas (até o Estádio Nacional de Santiago chegou a fazer papel de penitenciária, tamanha era a quantidade dos que o regime estava punindo por causa de suas convicções). Aliás, a manutenção da presidência, mediante o expediente do referendo, sequer é novidade.

O ex-ditador filipino, Ferdinand Marcos, esmerou-se nessa prática. E continuaria torturando a população das Filipinas até hoje se não tivesse cometido o erro de cálculo de mandar assassinar o líder opositor, Benigno Aquino, para lançar a culpa sobre os comunistas. O "bode expiatório" não foi "engolido" por ninguém e ele acabou onde está. Gozando o delicioso ócio nas praias de Honolulu. Por isso, que ninguém espere novidades das urnas, na consulta de outubro próximo, no Chile. Seria uma ingenuidade imperdoável de quem agisse assim.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 31 de agosto de 1988)


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Revisitando George Orwell

Pedro J. Bondaczuk

O ano de 1984, pelo menos no aspecto literário, começou onze meses antes. “Mas como?”, perguntará, atônito, o leitor. Isso mesmo. Um livro, publicado originalmente, em 1949, que gerou intensa polêmica na ocasião do  seu lançamento, voltou à baila, no início de 1983, com várias republicações. Fosse só isso, seria normal. Todavia, a obra em questão recebeu criticas à beça em todas as mídias da época, e em muito maior quantidade do que quando foi lançada originalmente e provocou intenso debate ideológico, o que sequer não me surpreende, pois na ocasião a Guerra Fria estava em pleno andamento, muitas vezes esquentando, perigosamente, e ameaçando alcançar o ponto de fervura. Refiro-me ao romance “1984”, de George Orwell.

Na verdade, os debates em torno desse livro nunca cessaram. Não, pelo menos, por completo. Ainda hoje, volta e meia, retornam, mesmo que a pretextos diferentes daqueles da época do seu lançamento, quando a Guerra Fria recém havia começado. Já em 1984, ano que lhe deu o título, as superpotências de então (Estados Unidos e a extinta União Soviética) ameaçavam se engalfinhar de vez, o que, se acontecesse, traria conseqüências trágicas para a humanidade, provavelmente a extinção da espécie humana, em decorrência das armas nucleares, que dificilmente deixariam de ser usadas caso isso acontecesse. Felizmente... não aconteceu.

O romance de Orwell é metafórico e comporta várias interpretações. O enfoque analisado por muito tempo foi o ideológico, com esquerda e direita atribuindo, uma à outra, a superditadura mundial tratada na referida obra, a do “Big Brother”. Hoje, o que está em questão é nossa perda de privacidade por causa da parafernália tecnológica que se incorporou à nossa rotina cotidiana, tornando nossa vida não algo que diga respeito, apenas, a nós e a nosso núcleo familiar, mas pública e escancarada. O que me proponho a fazer é “revisitar” Orwell. É refletir, com vocês, sobre alguns aspectos suscitados, direta ou indiretamente, por este polêmico romance, que considero literariamente pobre, mas que é riquíssimo em temas que merecem madura consideração

Aviso, de antemão, que não farei nenhuma sinopse do livro. Aliás, não faço de nenhum dos tantos que trago à baila em meus textos analíticos. Meu propósito não é o de resumir nenhuma obra, mas o de trazer à baila o que cada uma delas sugere nas entrelinhas. Escrevi, e publiquei na época, extenso ensaio, com o título do romance, “1984”, que publiquei em 20 de novembro de 1983 no jornal “Correio Popular” de Campinas, onde era editor. Proponho-me a reproduzir vários trechos do referido (e extenso) texto, mas com as devidas atualizações, ditadas por fatos supervenientes, ocorridos nos últimos trinta anos.

Antes de entrar diretamente no assunto, peço licença, paciente leitor, para refrescar-lhe a memória com alguns dados biográficos, hiper resumidos, do autor desse romance. George Orwell é o pseudônimo adotado pelo escritor e ativista político de esquerda, Eric Arthur Blair. Ele não nasceu na Inglaterra, como muitos podem pensar. É natural de Bengala, na Índia, que na ocasião do seu nascimento (1903) era uma das tantas colônias da Grã-Bretanha espalhadas pelo mundo. Seu pai era funcionário do governo colonial britânico e a mãe, cidadã francesa. Quando tinha somente oito anos de idade, a família mudou-se para a metrópole, para a Inglaterra e o garoto foi imediatamente mandado para um internato.

Em 1917, aos catorze anos, George (na verdade, Eric, como queiram) ingressou no Etton College, uma das mais tradicionais escolas inglesas, onde teve como professor o notável escritor Aldous Huxley, que o teria influenciado decisivamente. Formou-se em 1921 e, um ano depois, recusou uma bolsa de estudos para cursar a universidade. Em vez disso, decidiu voltar à Índia, após ingressar na polícia. Começaria, aí, uma vida de aventuras, que caracterizaria sua trajetória por anos e mais anos. Eric tornou-se, ao retornar à Inglaterra, em 1928, literalmente um vagabundo: sem emprego fixo, sem objetivos e sem posição social. Chegou, até mesmo, a mendigar. Por dois longos anos, até meados de 1930, perambulou, sem rumo e sem destino, entre Londres e Paris, envolvendo-se em encrencas de toda sorte.

Resolveu, porém, narrar em livro suas aventuras (ou desventuras?). Escreveu, e publicou, “Na pior, entre Paris e Londres”, que se constituiria em sua primeira obra literária que, ademais, não fez\ grande sucesso. Todavia pelo menos inseriu-o no mundo literário. O ano era 1933. A Europa vivia, então, um período caracterizado pela boêmia, que ficou conhecido como “Belle Époque”. Ou as classes privilegiadas viviam-na. Festas e mais festas sucediam-se por toda a parte, em que a bebida rolava farta e solta e a juventude européia agia como se o mundo fosse uma imensa boate, cujo objetivo fosse exclusivamente se divertir, sem atentar para o amanhã. Enquanto isso, nos bastidores, as engrenagens políticas giravam e giravam e criavam condições propícias para a eclosão da mais terrível e homicida das guerras que a humanidade já viu.

George Orwell (é assim que irei tratá-lo na sequência destas considerações), era socialista convicto. Quando, em 1936, a ascensão do general Francisco Franco, na Espanha, levou aquele país à sangrenta guerra civil, o jovem aventureiro não teve dúvidas: alistou-se na Brigada Internacional, em defesa do presidente espanhol eleito, ameaçado pelas forças fascistas de extrema-direita, que contavam com os apoios (não somente político, mas,sobretudo, militar) do cada vez mais poderoso líder nazista Adolf Hitler e do italiano Benito Mussolini. Entre os brigadistas havia muitos jovens intelectuais, idealistas, mas (convenhamos) não muito (ou nada) ajuizados. Um deles era o norte-americano Ernest Hemmingway, que se inspirou nessa empreitada para escrever seu notável romance “Por quem os sinos dobram”.

George Orwell também escreveu um livro a  propósito: “Lutando na Espanha”, publicado em 1938, em que narra suas experiências como combatente da Brigada Internacional. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como correspondente da rede BBC. Seu livro mais popular, no entanto, não é (ainda hoje), “1984”, mas “A revolução dos bichos”, que publicou em 1945. Li-o, reli-o e, confesso, não gostei. Mas... Cito, mais a título de curiosidade, outros três dos seus livros: “Dias na Birmânia” (1934), “O caminho de Wigan (1937) e “Por que escrevo” (1946). Porém, o que nos interessa é o romance “1984”, sobre o qual escreverei na sequência. Para não deixar este resumo biográfico incompleto, contudo, informo que George Orwell (na verdade Eric Arthur Blair) morreu em 1950, na Inglaterra, vítima de tuberculose.


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