Wednesday, February 22, 2017

TRAGÉDIA HUMANA

O autoconhecimento é a origem, o princípio e a fonte da sabedoria. Para isso, você sequer precisa saber ler. Claro que é útil e desejável que o saiba. Contudo, mesmo que você, paciente leitor, não concorde, convenhamos: não é essencial. Oportunidades para adquirir conhecimentos e informações temos a todo o instante, e muitas. Temos que aproveitá-las. Hoje em dia, só é ignorante quem quer. Aliás, a esse propósito, o professor Idel Becker fez uma observação não apenas pertinente, mas perspicaz, posto que realíssima. Escreveu: “Morrer ignorante tendo tido capacidade para ser sábio, isso sim que é uma tragédia humana”. Concordo plenamente. Não há quem não disponha de tal capacidade, mesmo que não em grau superlativo. Notem que o mestre mencionou a “capacidade de ser sábio”, não a de ser culto, letrado ou mesmo bem-informado.     


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Eleições decisivas



Pedro J. Bondaczuk


O atual governo – contando os quase três anos da gestão de Fernando Collor e a presidência de seu vice, Itamar Franco – está, praticamente, chegando ao fim, e tudo indica que serão cinco anos absolutamente perdidos para o País.

A crise, que já era grave na época de José Sarney, se tornou gravíssima, afetando o presente e o futuro de milhões de brasileiros. Foi um período marcado por incertezas, vacilações, incompetência, tendo como pano de fundo a onipresente corrupção. Algumas palavras-chave dominaram o noticiário de março de 1990 para cá.

Falou-se, por exemplo, demasiadamente, em “modernidade”, quando em alguns aspectos o Brasil retroagiu ao início do século. A fúria reformista colocou por terra muita coisa de positivo que havia sido conquistada no passado, sem que as mudanças funcionassem.

Inflação, desemprego, fome, confisco, privatização, fraudes, plebiscito, ajuste fiscal, revisão constitucional, impeachment, PC Farias, CPI, cassações, contas-fantasmas, “sete anões” etc. foram os termos mais freqüentes nas manchetes. E, fazendo pano de fundo, implícita ou explicitamente, a corrupção em todas as suas formas (política, econômica, social e comportamental) esteve sempre presente, revoltando, angustiando, frustrando os brasileiros, apesar das anedotas que inspirou. Disfarçamos nossas angústias fazendo piadas sobre aquilo que nos atormenta.

A travessia de 1994 afigura-se dramática e perigosa. Está nas mãos dos eleitores, num papelzinho que para muitos tem escasso valor, mas que é sumamente importante numa democracia que se preze, a chave das mudanças verdadeiras. Não aquelas de fachada, tão comuns entre nós, mas as autênticas, que restituam a coesão nacional, a solidariedade e a justiça social.

Todas eleições, desde que livres e sem cartas marcadas, são importantes. Mas as do ano que vem têm sua importância infinitamente multiplicada. O cidadão não tem mais o direito de errar na escolha. Esgotou sua cota de equívocos ao eleger Fernando Collor e o atual Congresso, provavelmente o mais pífio, inoperante e corrupto da nossa história.

No caso dos congressistas, pesou, em demasia, o pueril protesto do eleitorado, ao descarregar uma enxurrada de votos brancos e nulos nas urnas. Com isso, os incompetentes, os eternos caciques partidários que possuem seus currais eleitorais, os manipuladores de corações e mentes, os subornadores, os ladrões do Orçamento, prevaleceram, mediante a força do poder econômico. Tão corruptos (ou no mínimo coniventes com sua corrupção, por terem sido omissos) quando os deputados e senadores envolvidos no atual caso de assalto ao bolso dos contribuintes, são aqueles que os elegeram.

Nem tudo, porém, está perdido. O melhor castigo para aqueles que desvirtuaram a nobre função de representantes do povo, usando seus cargos apenas para engordar contas bancárias do País e no Exterior, é a sua expulsão da política. Mas isso não pode ser feito votando em branco ou anulando o voto. Só terá êxito se o eleitor der chance a novos nomes, àqueles que jamais exerceram qualquer mandato, mas que têm serviços prestados à comunidade a ostentar.

Para isso, precisa abstrair-se da propaganda política. Deve pesquisar, informar-se, participar ativamente da campanha. A renovação não dá nenhuma certeza de eficiência ao futuro Congresso – nada dá – mas abre uma preciosa oportunidade para isso, que merece, pelo menos, ser tentada.    

(Artigo publicado na página 2, Opinião, da Folha do Taquaral, em dezembro de 1993)


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Notícia ou fofoca?



Pedro J. Bondaczuk


O saudoso mestre Benedito Sampaio, na crônica "Pecados da Língua", publicada no Correio Popular de Campinas há algumas décadas, e que consta de seu livro (premiado pela Academia Brasileira de Letras na ocasião) "O Cosmorama da Cidade", constata: "Diz o ditado que o peixe morre por sua boca. Também pela boca morremos nós, ou vamos morrendo na alma, porque, não contentes de pecar por pensamentos, damos à língua e dizemos mal do nosso semelhante. E como se não bastasse a só intenção silenciosa para tornar-nos réus de grave culpa, soltamos a palavra e lá se vai a maledicência a apregoar a nossa imperfeição".

Há pessoas cuja diversão predileta é falar mal da vida alheia. Ninguém escapa de sua língua ferina (ou, pior, do seu texto contundente), deva ou não, seja ou não merecedor de reprovação por idéias, escritos, conduta ou ausência dela. Há críticas que são sempre bem vindas, por servirem de corretivos de rumos em nossas vidas.

Quando bem fundamentadas, embora arranhem nosso ego e firam nosso amor próprio, alertam-nos para nossas falhas, permitindo que as corrijamos. Estas, contudo, não podem e nem devem ser confundidas com a pura e simples maledicência. Com o rancor patológico que determinadas pessoas costumam sentir e mostrar por seus semelhantes, mesmo contra os que não conhecem pessoalmente.

O leitor, certamente, já teve a oportunidade de se deparar com gente assim, que todos evitam, para escapar de aborrecimentos inúteis. Esses indivíduos, se participam de uma conversa numa roda de amigos, buscam aparentar onisciência. Palpitam sobre tudo e sobre todos, mas sempre destilando veneno. Se o assunto envolve determinado cantor de sucesso, ou ator de novela, de imediato arranjam uma brecha no bate-papo para suas observações em geral descabidas e inoportunas. "Fulano?! Ora, todos sabem que se trata de um efeminado", logo afirmam, com ares de sabe-tudo.

Ou, quando não questionam a virilidade da figura famosa, recorrem a outros defeitos –  geralmente existentes somente em suas cabeças de sociopatas – para criticar, ou afirmando que o artista é viciado em drogas, ou que é mulherengo ou qualquer outra coisa que lhe confira "notoriedade".

Dessas "críticas" não há quem não deseje se livrar. São destrutivas, mesquinhas, covardes, que revelam somente uma personalidade desajustada, doentia e sumamente infeliz. Não constróem nada e, se puderem, destroem qualquer um, sem o mínimo escrúpulo, já que ninguém gosta de ser mal falado, principalmente quando tem consciência de estar agindo bem.

Pior é quando esses indivíduos conseguem colunas em jornais ou revistas. Não raro, tomam processos sobre processos nas costas, por suas irresponsáveis acusações, mas não se emendam. E em geral são muito lidos, principalmente por fracassados, que se deliciam com defeitos alheios, reais ou não, para compensar a própria insignificância.

Inventam circunstâncias, distorcem acontecimentos, vêem malícia nas coisas mais inocentes e procuram sempre, invariavelmente, como regra de conduta, realçar o lado negativo (mesmo que ele não exista), de figuras públicas de sucesso. Um desses casos foi o já célebre beijo de Chico Buarque de Hollanda, que ganhou repercussão muito além da sua real importância (se é que tem alguma para algum leitor). “É o preço que se paga pela celebridade”, diriam alguns. Discordo! Isto pode ser tudo, menos jornalismo.

Há, porventura, a mínima necessidade de se agir dessa maneira? Não existe uma forma mais decente, ética, lógica e construtiva de se escrever sobre os outros, sem recorrer às insinuações, ao escândalo, à maledicência?  As pessoas bem sucedidas, necessariamente, têm que se submeter a isso, ou seja, a ter sua intimidade invadida, vasculhada, devassada e exposta com crueza, e de forma distorcida, ao público? Claro que não! 

Os maledicentes... Ah! como são frustrados e amargos os maledicentes! São mais um caso para se ter piedade do que rancor. Todavia, as críticas honestas, fundamentadas, coerentes, são importantíssimas, mesmo quando partidas de alguém que não nos aprecia. Aliás, nestes casos, têm até muito mais valor, já que não vêm cercadas do fator “bajulação”. São isentas e desinteressadas.

Ruy Barbosa observou, num célebre discurso proferido no Senado, no início do século passado: "Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros, nos almejam o bem, e nos trazem o mal". Elogios, em geral, tendem a ser funestos, mesmo quando o elogiado é merecedor deles. Sábia é a observação do saudoso mestre Benedito Sampaio, com a qual iniciamos estas considerações. De fato, o maledicente vai morrendo na alma a cada aguilhoada que dá em seus semelhantes, não sem antes causar enormes estragos ou, na melhor das hipóteses, imensos aborrecimentos.


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Tuesday, February 21, 2017

SABEDORIA É SENSO COMUM EM GRAU SUPERLATIVO


Cultura e informação não são, nunca foram e jamais serão sinônimas de sabedoria. Escrevi isso “n” vezes e, como num teorema, comprovei isso e demonstrei com exemplos práticos. Sábio é quem sabe aproveitar os conhecimentos que adquire, por ínfimos que sejam, mas em sentido prático. Ou seja, é pragmático. Sabe o que fazer com o pouco conhecimento que absorve. Ou que, apenas pela intuição, descobre os melhores caminhos do bem-viver. Há muita, muitíssima gente com extensíssima coleção de diplomas, insisto, que não enxerga um palmo adiante do nariz. E que por isso, mesmo que goze de fama e seja reverenciada, não chega nem perto de cumprir a principal obrigação que temos na vida: a de sermos felizes. Certamente não são. Samuel Taylor Coleridge resume, nestas palavras, a essência da sabedoria: “Senso comum em grau incomum é o que o mundo chama de sabedoria”. É, de fato, isso, sem tirar e nem pôr. Montaigne, um dos meus ensaístas prediletos, escreveu a propósito: “A maior coisa do mundo é saber ser para si mesmo”. Isto é o que classifico de sabedoria. É, antes de conhecer o que nos cerca ou que está tão longe que a nossa vista jamais conseguirá abarcar, saber quem é, como pensa, o que faz e o que deseja o próximo mais próximo de nós: nós mesmos

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Resistência de Saddam é subestimada



Pedro J. Bondaczuk


A guerra do Golfo Pérsico – passado o impacto inicial da fulminante ofensiva terrestre aliada contra o Iraque, liquidando com a teimosia de Saddam Hussein em manter a ocupação do Kuwait em pouco mais de 48 horas – se revela uma das mais estúpidas e sem sentido de todas as que se travaram na história contemporânea, toda ela marcada por esses surtos periódicos de insanidade coletiva. Seus resultados foram desastrosos sob todos os aspectos.

É verdade que o emirado ocupado foi libertado. Mas a que preço? Assim que anunciou a vitória e a concessão de um cessar-fogo provisório ao inimigo, em 28 de fevereiro passado, o presidente norte-americano, George Bush, deu corda nos adversários do ditador iraquiano, e nos oportunistas que apenas se aliam a quem estiver no poder, para que depusessem o general, conhecido há alguns anos como “carniceiro de Bagdá”.

Xiitas, no Sul, e curdos, no Norte, interpretaram as palavras do líder mais poderoso do mundo como um convite a uma rebelião. Achavam que o governo baathista, humilhado com o comportamento de seus soldados, que se renderam em massa, sem demonstrar a propalada combatividade, não teria grandes chances de conservar o comando do país.

O Iraque estava arrebentado, com todo o seu sistema de sobrevivência comprometido, sem eletricidade, água potável, transporte e comunicações. Hordas espavoridas perambulavam sem rumo por toda a parte. Parecia que um levante, nessas circunstâncias, não passaria de um piquenique.

Além disso, os rebeldes entendiam que, no caso da reação das tropas leais a Saddam Hussein – cuja lealdade foi, evidentemente, subestimada – poderiam contar com a ajuda de mais de meio milhão de soldados aliados. Houve líder xiita que, em suas delirantes previsões, chegou a achar que as tropas estrangeiras fariam o serviço de depor o regime do Partido Baath. Desgraçadamente, para eles, porém, tais opositores se equivocaram, tragicamente, em todos os pontos.

O presidente iraquiano agiu como na fábula do gato e da onça, em que o animal menor se dispôs a ensinar ao maior todos os seus truques e os segredos de sua agilidade. Todavia, manteve sem revelar um único, e o mais importante de todos. E foi aquele que lhe salvou a vida. Soube atribuir a devida importância à sobrevivência, ao confiar desconfiando. Não ensinou à onça como escaparia do bote fatal.

O “pulo do gato” de Saddam foi a preservação da maior parte da sua força de elite, a Guarda Republicana. Como militar tarimbado, ele sabia que não conseguiria derrotar o aparato bélico montado contra ele. Estava lutando por não lhe restar outra alternativa.

Nos dias que antecederam a ofensiva terrestre aliada, o presidente iraquiano retirou do teatro de operações suas melhores tropas, substituindo-as por recrutas inexperientes, em geral camponeses famintos e sem grande combatividade. Daí a enorme quantidade de rendições.

Astutamente, Saddam transferiu os homens com cuja lealdade sabia poder contar às últimas conseqüências, para posições estratégicas em seu próprio território, certamente prevendo qualquer tentativa de golpe ao final da guerra. E deu no que deu.

Simplesmente esmagou, dura e metodicamente, as rebeliões no Sul e no Norte, sem a mínima reação dos aliados vencedores para evitar esse desfecho. Não houvesse a pressão internacional para impedir um genocídio ainda maior e o destino de xiitas e curdos seria muito, mas muito pior mesmo do que foi.     

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 26 de abril de 1991)


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Comércio com fantasmas

Pedro J. Bondaczuk

A correspondência entre escritores constitui importante acervo de informações sobre sua vida, seus gostos, suas idéias, suas idiossincrasias, suas amizades e até (ou, quem sabe, principalmente) suas inimizades. Após sua morte, tornam-se, não raro, preciosa coleção de documentos, onde seus biógrafos, via de regra, se abastecem, para explicar determinadas passagens da sua vida. Estão aí as cartas escritas e recebidas por Fedor Dostoievski, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros, transformadas em livros, alguns verdadeiros best-sellers.

Antes do advento do e-mail, escrevi (e recebi) poucas cartas. Preguiça minha, claro! Por causa dessa inércia, afastei-me de amigos muito queridos, aos quais prezava muito e de quem perdi contato. Pena! Ademais, a maioria da minha correspondência se perdeu nas várias mudanças de casa por  que passei, até adquirir a atual, em que resido, e que jamais pretendo me desfazer.  Por conseqüência, esse enorme acervo tornou-se irrecuperável. Puro relaxo meu, que prometo não mais repetir!

Passei a ter consciência da importância de conservar minha correspondência para a posteridade apenas de uns dez anos para cá. Desde então (aprendi a lição), arquivo todos os e-mails, tanto os que escrevo, quanto os que recebo (claro, aqueles que possam conter informações úteis aos meus eventuais futuros biógrafos).

Tive o capricho, também, de digitar, e arquivar na memória do computador, as cartas que se salvaram da destruição, ou do extravio, ou então da perda, não importa. Infelizmente, restaram poucas delas para contar a história. Estimo que dois quintos (ou menos) das que recebi (ou que escrevi) foram recuperados. E estas últimas só escaparam de se perder por causa do hábito que sempre cultivei de escrever cartas com cópia.

A correspondência que consegui preservar melhor foi a que mantive com o jornalista, poeta, conferencista, acadêmico e extraordinária figura humana, Maurício de Moraes, já falecido, mineiro de Ouro Fino, cidade que, aliás, preserva a sua memória. Não faz mais do que a obrigação! Afinal, esse meu querido e saudoso amigo amou, como ninguém, sua pequenina, mas acolhedora terra natal, que perpetuou em magníficos versos e em marcantes crônicas.

O que consegui salvar, todavia, foram apenas 16 cartas que lhe escrevi (a primeira, datada de 12 de janeiro de 1993 e a última, de 20 de julho desse mesmo ano). Pelos assuntos que comento com o poeta, dá para deduzir algumas coisas que ele me escreveu, no seu estilo lírico, mas sempre bem-humorado. Aliás, o bom-humor e o otimismo sempre foram características marcantes de Maurício de Moraes. Era uma pessoa que nunca vi triste. Vivia em outro mundo. Com ele não tinha “tempo quente”, como diz o povão. Tinha uma espécie de filtro na mente e só enxergava o lado belo e nobre da vida. Teve, por conseqüência, influência marcante no meu comportamento e na minha mentalidade, notadamente nas muitas crises existenciais que atravessei (e superei).    

A primeira das cartas que lhe escrevi começa assim:

“Campinas, 12 de janeiro de 1993

Caro amigo e irmão de ideais Maurício:

Espero que esta carta o encontre gozando de paz e saúde, na companhia dos seus. Antes de tudo, quero penitenciar-me por minha imperdoável falta de delicadeza, ao não retribuir a tempo o seu gentil cartão de boas festas, com mensagem tão profunda e emocionante, que só pode sair, mesmo, da alma, da sensibilidade e do talento de um grande poeta, como você é.

Você sabe que a amizade que diz ter por mim é recíproca. Nem precisava dizer, não é mesmo?! Você tem certeza disso! Afinal, não nos conhecemos ontem. Aliás, devo confessar que o considero, se não o único, pelo menos um dos raros verdadeiros amigos que me restaram. Muita gente me jura "eterna" e desinteressada amizade. Mas na hora do vamos ver...É puro interesse!  Deixa pra lá!

Concordo com você quando observa que não deixa de ser estranho o fato de dois amigos, que se gostam tanto e que residem na mesma cidade, se comunicarem apenas por carta. Mas você sabe do meu empenho na profissão. Não tenho tempo nem para respirar! (...)”

A última das cartas que lhe escrevi e que consegui preservar tem este início:

“Campinas, 20 de julho de 1993

Amigo Maurício:

Nesta terça-feira gelada, com os termômetros das ruas da cidade marcando cinco graus centígrados, sinto-me como se estivesse na Sibéria. Ainda assim, dez horas da noite, concluído o meu trabalho, sento-me diante da familiar máquina de escrever, com os dedos enregelados, para dar continuidade ao nosso interminável "papo epistolar".

Melhor seria, claro, se estivéssemos cara a cara, em casa ou em algum desses tantos bares aconchegantes que ainda há em Campinas, com um copo de bom uísque (digamos, um Jack Daniel's 12 anos, por exemplo), "cowboy" (isto é, sem gelo e sem soda), nas mãos, a trocarmos confidências, falando da vida, do trabalho, da cultura e, principalmente, de literatura, nossa mútua paixão. Como isso não é possível, é melhor nos contentarmos mesmo com essa troca de cartas, para sabermos notícias um do outro e até para fazermos pequenas "fofocas" (por que não?!).

Primeiro vou falar da minha saúde, que tanto vem preocupando o amigo. Não se preocupe! "Vaso ruim não quebra", como diz o povão. O fato de eu ser chorão impressiona algumas pessoas. Afinal, "quem não chora, não mama". Mas tenho uma resistência física "cavalar". Não é qualquer achaquezinho besta que me derruba.

Apesar de me sentir cansado (devo estar com a imunidade muito baixa e com algum foco infeccioso no organismo), estou razoavelmente bem. A conjuntivite cedeu quase por completo, embora a acuidade visual do olho direito tenha ficado muito reduzida. Não faz mal! Se a natureza quer assim, ficarei caolho! O que fazer?! É o preço que devo pagar por tantas e tantas horas de leitura e de texto. Aliás, é um tributo irrisório para tamanho prazer intelectual. (...)”

As cartas eram extensas, com média de dez páginas de vinte linhas, em espaço dois. Eram descontraídas e brincalhonas, como deve ser a correspondência entre dois amigos. Os que as leram juram que só essas 16 que se salvaram dariam um livro interessante. Bondade deles. Não chegam a tanto. 


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Monday, February 20, 2017

SABEDORIA NÃO É SINÔNIMA DE “CONHECIMENTO”

A distinção entre sabedoria – ou seja, a capacidade de transformar a intuição, ou a impressão, ou a simples hipótese em “saber” – e o mero conhecimento é um tema que me fascina e que abordo sempre que tenho oportunidade. Essa é uma confusão muito comum que as pessoas fazem. Aquelas simples, por exemplo, que jamais tiveram acesso ao crescente e quase infinito acervo de informação hoje ao nosso dispor (às vezes sequer às primeiras letras) – muitas vezes sábias sem que nem mesmo se dêem conta – acham, na sua simplicidade (diria, santa ingenuidade) que esse dom precioso, ou seja, a sabedoria, só é acessível aos letrados. Aos que freqüentaram bibliotecas e escolas as mais diversas, que têm diplomas em profusão  e que conhecem um pouco de tudo. Não é bem assim, creiam-me. E explico a razão. Muitos desses “doutores”, autênticas enciclopédias ambulantes, não têm discernimento sequer para coisas elementares e comezinhas do dia a dia. Conhecem o âmago do átomo, mas são incapazes de sustentar um relacionamento afetivo sadio e equilibrado. São capazes de nos dar lições de física, química, astronomia ou seja de que disciplina for, mas desconhecem os princípios básicos de higiene e levam vidas tais que os aproximam precocemente do túmulo.


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Renegociação com competência


Pedro J. Bondaczuk


A equipe econômica do governo do presidente Collor de Mello, depois de vários contatos preliminares, de sondagem, realizados no mês passado, em Nova York e Washington, elaborou sua proposta de renegociação da dívida externa brasileira, que deve estar girando pela casa dos US$ 116 bilhões e que será apresentada aos credores nos próximos dias.

Até aí, nada de mais. Afinal, renegociar nosso débito já se tornou uma rotina, pois é um fato que se repete praticamente desde que o País conquistou a sua independência. A novidade está na estratégia, na estrita lógica na política que se pretende adotar a esse respeito, coerente, aliás, com o empenho modernizador que se apregoa.

O plano, que num primeiro momento deve causar um susto enorme nos bancos privados internacionais, esperançosos de receber algum dinheiro neste ano, provavelmente será recebido com hostilidade num primeiro instante. Sua aceitação ou não vai depender muito da visão de futuro dos banqueiros.

A proposta traz, implícita, a idéia de que é uma estupidez se matar "a galinha dos ovos de ouro". Credor algum vai lucrar qualquer coisa caso o Brasil se precipite no abismo do subdesenvolvimento, para onde estava se encaminhando velozmente nos últimos tempos.

O que se pretende é impedir que os pagamentos efetuados resultem em mais inflação. E, sobretudo, garantir que não drenem da nossa economia os recursos indispensáveis para investimentos produtivos. O plano prevê desembolsos crescentes, à medida em que o País for crescendo economicamente. Mas também contempla a possibilidade dos termos acertados em função dos azares da conjuntura mundial, passarem por revisões.

Trata-se de uma espécie de taxa de risco do devedor, já que o credor cobra, no chamado serviço da dívida, uma certa importância sob tal rubrica. Caso haja acordo a respeito, será corrigida uma das falhas mais insensatas e estúpidas que se cometeram, quando da tomada do empréstimo, que foi a faculdade de deixar a cargo dos que desembolsaram o dinheiro a estipulação dos juros a serem cobrados. É como se colocar uma rapodsa para vigiar um galinheiro.

Nem o mais desesperado, ou o mais ingênuo dos ingênuos dos cidadãos fariam um empréstimo nestas condições. Muitos dos nossos tecnocratas, tidos e havidos como "luminares" da economia, no entanto, fizeram. Pela proposta do governo, os termos do acordo seriam revistos, por exemplo, todas as vezes em que ocorressem elevações do preço do petróleo, como está acontecendo agora, em função da crise do Golfo Pérsico. Ou quando as duas taxas de juros interbancárias cobradas do Brasil, tomadas como referenciais (a "Libor" londrina e a "Prime Rate", norte-americana) subissem.

Pelo que se pôde depreender das declarações de nossos negociadores, o banqueiro que quiser ver um único centavo, enquanto não se fizer um acerto, pode esquecer. Já é hora de alguém mostrar que somos capazes de negociar, e bem, sem cair em armadilhas de espertalhões.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 10 de outubro de 1990).


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