Thursday, August 28, 2014

Fala-se muito, nos meios políticos (em especial em vésperas de eleições), na necessidade de respeito irrestrito aos direitos dos cidadãos. Concordo, mas apenas parcialmente. Quem tem que ser respeitado de forma irrestrita é o ser humano. Temos direitos naturais que ninguém, a pretexto algum, pode violar. Não podemos ser forçados por quem quer que seja a fazer o que não queremos, em circunstância alguma, desde que, claro, isso não prejudique ninguém. Cada vez mais, o homem é tratado como objeto, robô manipulável, títere e não como ser racional, detentor de necessidades, idéias e direitos próprios. A palavra “liberdade” há muito foi desvirtuada e é interpretada ao gosto e à feição dos detentores do poder. Posso, por exemplo, ser um talentosíssimo artista, poeta, músico, pintor ou sabe-se lá o quê, e não ser cidadão. Ou seja, viver no isolamento, no campo ou nas montanhas e, ainda assim, minha vontade e meus direitos têm que ser respeitados sempre!


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Para guerra há recursos


Pedro J. Bondaczuk


O corrente ano foi dedicado pelas Nações Unidas para a promoção de um esforço internacional objetivando acabar com o analfabetismo, que atinge a cerca de um quinto da humanidade, virtualmente um bilhão de pessoas, das quais 75% mulheres.

Falta apenas um mês para o término de 1990 e não se observa nenhuma movimentação, diversa da usual, nesse sentido. O que se percebe, isto sim, é uma agitação diplomática quase sem precedentes para arregimentar o maior apoio possível para uma nova guerra, não importa se motivada ou imotivada, justa ou injusta --- para todas, sempre foram arranjadas justificativas, com os mesmos resultados desastrosos --- colocando o mundo à beira de um desastre de grandes proporções, de caráter ambiental, econômico e de perda de vidas humanas.

Com isso, apenas está sendo dada seqüência a uma lógica cruel, da preponderância do mais forte (e não do mais útil ou produtivo) sobre o mais fraco ou insensato, que marcou os 13 mil anos de história que se tem registro.

Desse período de 13 milênios --- e para se constatar isso basta que se pesquise um bom compêndio da matéria --- 95% foram gastos no ato de matar. Ora em guerras de conquistas, ora para impor ou derrubar tiranos, ora para proteger agricultores contra ataques de bandos nômades, ora para expulsar invasores de territórios que não lhes pertenciam. Enfim, motivos nunca faltaram para guerrear.

O resultado de tudo isso sequer seria necessário apontar, por fazer parte da nossa realidade cotidiana. A humanidade dividiu-se em castas estabelecidas não através dos critérios do "ser", mas do "ter". Recursos sempre escasseiam quando se trata de educar pessoas, quando se destinam a evitar a fome de populações desassistidas ou atingidas por catástrofes climáticas, quando se tenta erradicar doenças simples e de baixo custo em seu combate.

Esse mesmo dinheiro sobra, todavia, nos eufemisticamente chamados "Orçamentos de Defesa". Curioso é que nenhum país admite que gasta fábulas em arsenais que se destinam a atacar outros povos. Para todos os efeitos, os equipamentos bélicos sempre são de caráter "defensivo".

Mas armamentos só têm uma, e única, serventia: matar. Não alfabetizam pessoas, não erradicam doenças, não extinguem a fome. Somente suprimem vidas, cada vez em maior quantidade, dada a crescente sofisticação armamentista, mostrando que o homem somente substituiu os machados de silex ou os arcos e flechas de madeira, dos tempos das cavernas, por outro instrumental. Mas o sentimento de fera que o movia na ocasião permanece exatamente o mesmo.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de novembro de 1990).


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Escritora carismática e sincera

Pedro J. Bondaczuk

A atriz e escritora (ou escritora e atriz, como queiram). Kátia Saules é uma dessas pessoas, hoje em dia cada vez mais raras, que sempre acrescenta algo a quem tem o privilégio de conhecê-la. Simpática e bonita, seu sorriso franco e honesto desarma, de imediato, qualquer sujeito mal-humorado. Mas não são apenas estas suas virtudes pessoais – que, por si sós, já seriam suficientes para que a admiremos e queiramos sua amizade – que a caracterizam. A isso tudo, Kátia alia inteligência, talento (e não somente o dramático, mas também o literário) e uma capacidade ímpar de observação. Tem, sobretudo, carisma. E sinceridade, virtude cada vez mais rara nestes tempos tão bicudos.

Eu poderia discorrer horas sem fim sobre sua carreira no complicado e competitivo mundo das artes dramáticas. Afinal, como atriz, ela está em vias de completar dezesseis anos de brilhante carreira nos palcos e nas telas país afora. O que me chama, todavia, em especial a atenção (por motivos óbvios) é sua atuação no não menos árduo e não menos competitivo campo da Literatura. Escrevi a seu respeito já em duas oportunidades: quando do lançamento de seu primeiro livro, “Crônicas cruas” e do segundo, “Crônicas Nuas” (ambos pela Editora Giostri) que, aliás, se complementam. Não sei se a intenção foi essa, mas se não foi, Kátia acertou na mosca.

A atriz e escritora (ou escritora e atriz, como queiram), que mora no Rio de Janeiro, esteve em São Paulo, no último fim de semana, e “arrasou”. Deu show de simpatia, versatilidade e talento, cumprindo o que parece sua sina: encantar e conquistar simpatizantes e amigos por onde passe. Agitou, por exemplo, a noite paulistana, em 23 de agosto (sábado), ao participar de evento literário no Espaço Parlapatões. Na ocasião, apresentou (e autografou) “Crônicas cruas” e “Crônicas nuas”, dando show de simpatia e esbanjando versatilidade e carisma. Foi, claro,  um sucesso. E poderia ser diferente? Creio que não. O evento contou com a presença, óbvio, do ator, escritor e diretor Hugo Possolo. Para quem não sabe, ou não se lembra, informo que se trata de um dos fundadores do Grupo Parlapatões de comédia, que utiliza técnicas circenses e de teatro de rua para transmitir suas mensagens.

No dia seguinte, tudo se repetiu, agora em “palco” mais amplo. Kátia compareceu á Bienal Internacional do Livro, que ocorre no Pavilhão de Exposições do Anhembi, onde, entre outras atividades, fez troca literária com a escritora Thalita Rebouças (sobre a qual já tive a oportunidade de escrever na ocasião em que lançou uma de suas obras). Também trocou livros com o cantor Naldo Benny, que lançou, na oportunidade, sua autobiografia intitulada “Cada vez eu quero mais”. Foi, como se vê, um final de semana altamente produtivo para a jovem atriz e escritora (ou escritora e atriz, como queiram).

O que mais me fascina em Kátia Saules, em sua forma de expressar pensamentos, sentimentos e observações, é a sinceridade que brota de cada linha dos seus textos. É a linguagem “nua e crua”, sem enfeites ou arabescos, que utiliza para dizer o que todos queremos, mas nem sempre conseguimos, ou por interpretarmos equivocadamente o papel da literatura, ou por medo de ferir suscetibilidades.

Kátia, no entanto, diz as coisas como sempre devem ser ditas: com sinceridade, honestidade e transparência. Isso não quer dizer que sua linguagem seja rude, descuidada ou eivada de erros. Longe disso! Mas entre expor algo “dourando a pílula” e enfeitando (não raro desnecessariamente) a maneira de exposição e dizer as coisas com os devidos “pingos nos is”, opta pela segunda. Por isso, seus livros e seus textos esparsos agradam tanto.

Pincei, a esmo, dois trechos de suas crônicas, para comprovar o que afirmo. No primeiro, Kátia escreve:  “Os grandes entendedores e pensadores que me perdoem, mas de vez em quando calar também faz parte… calar não só pra si, mas pro mundo”. E não é verdade? Não sentimos, volta e meia, essa vontade de silenciar, ou seja, de fazer do silêncio mensagem até mais enfática do que a expressada com milhares de palavras? Da minha parte sinto, e até com muita frequência, essa vontade de calar. E me calo.

Em outro trecho, de uma de suas crônicas, Kátia traz à baila um comportamento cada vez mais comum, que incomoda à beça, mas que raramente vi explicitado em algum texto, sobretudo, literário. Kátia escreve: “É cada vez mais raro ver as pessoas se olhando, se observando, se paquerando (palavra antiga!)… o que mais sinto falta hoje em dia é do olho no olho… passo pelas pessoas na rua, na praia, no shopping… o lugar independe, e as vejo conectadas no celular (que hoje em dia é mais computador que telefone) de forma que andam sem nem olhar onde pisam. Parece assustador e é”.  E não é?!


Por tudo isso é que tenho tanta admiração por Kátia Saules. Pela pessoa que é: simpática, bonita, inteligente e com sorriso devastador, que desarma qualquer sujeito mal-humorado. E pela escritora: talentosa, carismática, observadora e, principalmente... sincera, que não hesita em ser “nua e crua” quando os temas que aborda exigem. É possível não admirar?

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Wednesday, August 27, 2014

O alicerce da arte é o que Fernando Pessoa denomina de “sinceridade traduzida”. Ou seja, a interpretação feita pelo artista de tudo o que vê, ouve ou sente, que ele transforma, a seu gosto, com a força do seu talento. Por isso, os melhores poemas de amor são os que abordam situações imaginárias. O artista estaria mentindo? De jeito nenhum. É a essa situação ideal que Pessoa classifica de “sinceridade traduzida”. Uma descrição rigorosa e fria de uma pessoa, sentimento ou cenário, não raro não se constitui, sequer, em arte. Pode ser reportagem, documento, registro, menos manifestação artística. Fernando Pessoa justifica sua afirmação: “Três espécies de emoção produzem grande poesia: emoções fortes, porém rápidas, captadas para a arte tão logo passaram; emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte”.


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Paz no Líbano é quase utopia


Pedro J. Bondaczuk


O Líbano vive, há três semanas, mais um de seus periódicos surtos de violência. Milicianos do grupo Amal e guerrilheiros palestinos travam um novo "round" da inacabada "guerra dos acampamentos", deflagrada no ano passado. O objetivo dos xiitas, liderados pelo ministro da Justiça libanês, Nabih Berri, é impedir que o líder da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat, restabeleça suas bases de operação em Beirute, de onde foi desalojado após a invasão israelense ao Líbano, feita em 1982, depois de dramáticos combates, onde essa cidade acabou transformada num virtual montão de ruínas. Aliás, isso já é rotineiro ali.

É verdade que num país que vive uma guerra civil, de onze anos de duração e que já matou 10% de sua população e arrasou com a economia e com a organização social, esse novo episódio pode nem ter grande significação. Mas para o quadro estratégico do Oriente Médio, pode ser decisivo.

Os xiitas libaneses desejam que ao final deste longo e selvagem conflito, do qual parecem ser (ao menos no momento) os grandes vencedores, que sua principal tese afinal prevaleça. Eles desejam que, como a atual maioria religiosa do país, lhes seja atribuída uma participação muito mais ampla no governo do que simples ministérios, num gabinete que nunca se entendeu. Pretendem o próprio poder. Ou a Presidência da República ou o cargo de primeiro-ministro, detido atualmente por um sunita.

Seu principal objetivo, portanto, nada tem a ver com Israel e com a longa luta que se trava no Oriente Médio desde 1947. Se a milícia Amal hostiliza os israelenses, é porque eles ocupam uma faixa do território libanês no Sul do Líbano, onde os muçulmanos dessa seita são predominantes. Estão, portanto, pouco se importando se os palestinos conseguirão, ou não, sucesso na sua difícil missão de obter um território para  estabelecer um Estado independente. O que não desejam, é que seja fornecido um novo pretexto para o retorno das tropas de Israel ao país, para recomeçar tudo de novo, a exemplo do que ocorreu em 1982.

Yasser Arafat, por outro lado, demonstrou possuir, política e fisicamente, autêntico fôlego de gato. Após sucessivos reveses, primeiro diante dos israelenses e posteriormente dos dissidentes da própria OLP (que entendem que a sua forma de ação é excessivamente contemporizadora), quando foi expulso, pela segunda vez, do Líbano, em 1983, tendo que deixar o porto de Tripoli num cargueiro grego, para não ser morto ou capturado, recobrou boa parte do prestígio perdido. E quer restabelecer suas bases às barbas do Estado judeu, para poder continuar a sua luta sem fim.

Se ele conseguir o seu intento, os libaneses, com toda a certeza, ficarão muito mais distantes da pacificação que, convenhamos, no atual panorama, não deixa de ser também algo extremamente utópico. Em primeiro lugar, reforçados, os palestinos certamente passarão a lutar ao lado dos sunitas, que estão emprestando apoio à sua causa no atual momento crítico. E os xiitas correm o risco de nos futuros gabinetes não terem sequer o ministério estratégico que hoje dispõem (o da Justiça), tendo lutado tanto tempo praticamente em troca de nada.

Por essa razão, a "guerra dos acampamentos", mesmo que tenha uma nova trégua, ainda está muito distante do final. E a população de Beirute terá que enfrentar, heroicamente, mais esta dura provação, por um tempo que pode se prolongar por meses ou até indefinidamente. Nunca a paz esteve tão distante dos libaneses quanto agora. E não há como fugir dessa duríssima realidade.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 4 de junho de 1986)


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Otimismo x pessimismo

Pedro J. Bondaczuk

Os significados das palavras otimismo e pessimismo nem sempre são devidamente compreendidos. Ouso dizer que raramente são. As duas expressões têm a ver com o futuro, com o que ainda não aconteceu, mais propriamente, com expectativas. O que cada um desses termos significa já está sugerido, para não dizer explicitado, na sua própria raiz. Otimista é o indivíduo que espera o “ótimo”, o excelente, o muito bom. Por conseqüência, o pessimista é o oposto. Ou seja, é o que espera, posto que não deseje, o péssimo, o muito ruim, o desastroso.

São palavras que, ao contrário do que se pensa, não avaliam a realidade. Não expressam nenhum juízo a propósito. Refletem, reitero, expectativas. É certo que a realidade tem muito a ver com as posturas dos dois lados. Ela pode ser péssima e, ainda assim, o otimista irá “esperar” que sofra reversão e se torne ótima. E o mesmo ocorre no caso oposto. Ou seja, face uma realidade bastante favorável, o pessimista insiste em manter um pé atrás e esperar o pior. Sofre muito, portanto. Sofre com o que aconteceu de ruim e com o que não aconteceu e pode nunca acontecer, mas que ele acha que acontecerá. E que será ruim. Não consigo ser assim e não entendo quem o seja, quem aposta no negativo, no sofrimento e na infelicidade.

A definição mais exata de pessimismo, a que consta dos melhores dicionários, é: “Estado de espírito dos que pensam que tudo caminha para o pior”. Há várias outras, mas entendo que esta é a mais precisa. Cito uma segunda, cujo significado é o mesmíssimo, posto que com outras palavras  “Pessimismo é a disposição de espírito que leva o indivíduo a encarar tudo pelo lado negativo, a esperar de tudo o pior”. Já a definição de otimismo, lógico, é exatamente o contrário, sem tirar e nem pôr. Nos dois casos, porém, a chave é a esperança. O otimista “espera” o ótimo, enquanto o pessimista aguarda o péssimo.

Essa análise semântica, na verdade conceitual, desses dois tipos de comportamento, é pretexto para discordar, posto que com elegância, de alguns leitores, que me questionaram, por e-mail, a propósito especificamente dos dois últimos textos que escrevi, sobre escravidão infantil e sobre minha intuição de que esteja em andamento uma revolução global, posto que não pacífica e nem construtiva. Ambos comentários foram considerados bastante “pessimistas”, o que causou estranheza a esses gentis críticos que têm em mim um escritor otimista. E, de fato, sou.

Esclareço que otimismo não é sinônimo de alienação. Não posso e não devo identificar uma realidade perversa como sendo positiva e ideal, por mais desinformado que seja, poderia ser qualquer coisa, menos otimista. Só que esses leitores não levaram em conta o que é essencial nesses conceitos: o fator “esperança”. Em momento algum declarei que “espero” o “pior”, em ambos os casos. E a expectativa de melhoria fica implícita no próprio fato de eu haver tratado desses temas. Se não acreditasse na possibilidade de uma evolução positiva, por ínfima que fosse, sequer abordaria as questões. Manteria o silêncio a respeito que, ademais, é a atitude da maioria dos intelectuais do nosso tempo. Ou não é?
        

Não, esclarecido leitor, não sou pessimista, até porque concordo com o psicólogo e filósofo norte-americano William James, que concluiu que “pessimismo é fraqueza e otimismo é poder”. A realidade mundial é a maravilha das maravilhas? Óbvio que não. É fácil de observar que o mais profundo pessimismo permeia as relações humanas. Que raríssimos são os que crêem em um mundo melhor, mais justo, equilibrado e humano, sem os enormes contrastes e aberrações econômicos, sociais e comportamentais  da atualidade. Mas se ninguém fizer nada para mudar, as coisas ou permanecerão como estão, ou, o que é o mais provável, tenderão a piorar. Como sou otimista, “espero” que muitos se disponham a agir concretamente em sentido positivo. Notaram a diferença? Admito, como qualquer pessimista, que a realidade é ruim, viciosa, dramática e quase insustentável. Mas, ao contrário dele, “espero” o melhor (embora – confesso – minhas esperanças não raro se vejam abaladas face tanta violência, maldade, sofrimento e injustiças).

Portanto, quando eu, na função de jornalista, menciono o desequilíbrio climático, por exemplo, não estou sendo “catastrofista”, como pode parecer aos desavisados, e nem sequer derrotista, que é superlativo de pessimista. Que não me encarem, pois, como um neurótico, ou como alguém fora da realidade, de mal com tudo e c om todos. Essa alienação (das pessoas e não minha) que conta com a aliança dos que devastam o patrimônio da humanidade em proveito próprio, transformando matas seculares em montinhos de carvão, é extremamente perigosa e não sou seu adepto.

Não me incluo, pois, entre esses alienados. O que critico nessa questão é o fato de se levar o desequilíbrio ambiental para o terreno ideológico. Se o sujeito quer viver num mundo limpo, que não se assemelhe às nauseabundas cloacas romanas, é tido por agitador, perturbador da ordem pública e outras coisas, até mesmo mais depreciativas. E essa é, sem dúvida, uma perigosa burrice e não a atitude de denunciar as agressões à natureza. Quem denuncia pode ser confundido com o pessimista?. Não é!. Se o fosse, se limitaria a resmungar, até a se desesperar, mas sem agir para deter, de alguma forma, o desequilíbrio ambiental.

A vida das grandes metrópoles, eu sei porque sinto na carne, é caracterizada pela angústia. Torna-se cada vez mais raro surpreender-se alguém com um sorriso de genuína satisfação nos lábios. O cotidiano é composto por correrias, preocupações com contas, luta por uma posição melhor, verdadeira batalha por esse lema, extremamente vago e de sentido ambíguo, que se denomina “vencer na vida”. Para cada pessoa, isto tem um significado diferente. Os meios de comunicação, por outro lado, a pretexto de pintarem o quadro do que se convencionou classificar de realidade, passam, na verdade, mensagens negativas.


Certos profissionais entendem que a comunidade está ávida somente por notícias ruins; por crimes, escândalos, aberrações sexuais e outras tantas distorções de comportamento do animal homem. Alguns, é verdade, se “deliciam” com isso. Para estes, só o negativo é digno de manchete. Por quê? Dificilmente alguém conseguirá explicar isto de maneira racional e minimamente lógica. É verdade que meus colegas de profissão, os jornalistas cumprem seu papel de retratar a realidade. Fazem-no, porém, de forma apenas parcial. Sonegam o lado positivo da realidade. São, portanto, pessimistas, e fazem apologia do pessimismo (posto que nas entrelinhas), não pelos seus relatos, mas por suas expectativas que, salvo exceções, são quase sempre pelo “pior”. Ficou claro?

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Tuesday, August 26, 2014

Que o amor, em todas as formas e variações, é o maior sentimento que se pode ter, disso não restam dúvidas. Todavia, por estranho que pareça, o tema é verdadeiro campo minado para os poetas. Quase sempre, ao abordá-lo, resvala-se para a mesmice, o lugar-comum, até para a pieguice. As metáforas, não raro, são pobres, os versos são vacilantes e o conjunto do poema é até pueril. Exagero?! Não! Claro que há magníficos poemas de amor. Isso não quer dizer que o tema seja de fácil abordagem. E por que tanta dificuldade? Por incompetência do poeta? Nem sempre. Ocorre pela própria intensidade e complexidade desse sentimento. Concordo com Fernando Pessoa, quando constata: “A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrito a respeito de uma mulher abstrata. Uma grande emoção é por demais egoísta, absorve em si própria todo o sangue do espírito,e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever”. E olhem que Fernando Pessoa sabe o que diz.

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Luta de xiitas rivais


Pedro J. Bondaczuk


O Irã, passados oito anos do fim da sua monarquia, e quase o mesmo tempo de uma sangrenta e feroz guerra contra o Iraque, demonstra uma vitalidade impressionante. Observadores estimam que o conflito do Golfo Pérsico já tenha produzido em torno de dois milhões de vítimas diretas, entre mortos e feridos. Dessas, a maior parte é persa, com certeza, já que o território da República Islâmica permaneceu ocupado em cerca de um terço de sua área pelo adversário até meados de 1982 e sua Força Aérea perde, em quantidade, na proporção de oito para um, para a iraquiana. Em qualidade, nem dá para comparar.

As aeronaves iranianas são, ainda, os antigos F-4 norte-americanos, desgastadas pelo uso e, em geral, sem peças de reposição. Ainda assim, tendo a opinião pública mundial contra si, as duas superpotências também, e contando, somente, com a ajuda “subterrânea” conseguida a peso de ouro no mercado informal de armamentos, o país reverteu a situação a seu favor.

De invadido, passou a invasor. Da defensiva, passou a atacar. Não deixa de ser louvável, portanto, o espírito de luta desse povo, em geral classificado, na grande mídia impressa internacional, como sendo mero fanatismo.

Mas o mais notável é que, mesmo essa sociedade nacional sendo considerada uma ditadura dos aiatolás, as suas instituições básicas, bem ou mal, vêm funcionando. Por exemplo, hoje o Irã realiza a terceira eleição parlamentar desde a proclamação da República.

Anteriormente, ocorreram outras duas, para a presidência. Quantos países há, por aí, que têm essa mesma preocupação? Poucos, não é mesmo? E nenhum deles está vivendo o drama de uma chuva contínua de mísseis sobre o seu território, esses mensageiros da morte, que ceifam, indistintamente, pessoas de todas as categorias sociais e graus de instrução.

No entanto, na maioria dos Estados, há, hoje em dia, ou um ditador com cadeira cativa no poder (estima-se que haja mais de 70 ditaduras no mundo), ou políticos que engendram manobras prorrogacionistas, visando a aumentar o prazo do mandato que o povo lhe concedeu, por expedientes nem sempre justificáveis.

O Iraque, enquanto isso, permanece com o mesmo governante desde o início da guerra, o general Saddam Hussein. Recebe o respaldo das ricas monarquias do Golfo, que financia o seu esforço bélico. É abastecido por armas moderníssimas pela União Soviética, França e outras potências da Europa Ocidental. E nem assim vem conseguindo dobrar a resistência iraniana, mesmo usando armamentos proibidos por convenções internacionais (como os gases tóxicos, por exemplo) sob o olhar complacente dos que erguem um dedo em riste para os aiatolás, só porque eles lhes cortaram os privilégios que o xá lhes havia outorgado.  

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 8 de abril de 1988)

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Escravidão infantil

Pedro J. Bondaczuk

A verdadeira civilização, a caracterizada pelo respeito irrestrito ao ser humano, chegou a pouquíssimas partes do mundo, neste início de terceiro milênio da era cristã, tido como o dos mais notáveis avanços no campo da tecnologia. Mas em termos de relacionamento entre as pessoas, a humanidade, ou pelo menos parte considerável dela, continua na Idade da Pedra, quando a luta pela sobrevivência se caracterizava pelo extremo egoísmo; pelo instinto substituindo a razão, pela prevalência da lei do mais forte.

O comportamento humano não acompanhou o incrível avanço das ciências físicas e biológicas, em especial após a segunda metade do século XIX. Por esta razão, muitas das maravilhas criadas por mentes privilegiadas, que poderiam significar a redenção da humanidade e a melhoria do seu padrão de vida, acabaram transformadas em objetos de tortura, em armas terríveis para que se cometam as mais abjetas ações e heresias que se possa imaginar.

A todo o instante se ouve alguém reivindicar um elenco de direitos, alguns legítimos e outros apenas imaginados. Mas o que esses indivíduos parecem esquecer é que cada direito sempre tem que vir, necessariamente, acompanhado da contrapartida do respectivo dever. Os dois são indissociáveis. Uma das principais obrigações das pessoas, senão a principal, é a de viver e deixar viver. Ninguém tem, nem pode ter, o poder de decidir sobre quem continuará existindo, e como, e quem deve ser eliminado. Qualquer coisa que ao menos lembre este tipo de comportamento é ilegítima, imoral e ilegal. É arbitrariedade sem tamanho. Contraria a lógica, a razão e o bom-senso.

O princípio básico de Justiça, o alicerce que lhe dá sustentação e força, preceitua que “todos” são iguais perante a lei. O fato dessa igualdade não passar, hoje em dia, de mera ficção, é que impede que, no campo do comportamento, a humanidade acompanhe o vertiginoso  progresso da ciência. O direito mais sagrado e inalienável de qualquer ser é o da vida. Segue-se a ele em importância o da liberdade. São prerrogativas tão óbvias que dispensariam leis que as consagrassem. Deveriam ser até instintivas e respeitadas por todos, sem exceção.

Os delegados da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, ouviram, em 3 de agosto de 1989i, certamente estarrecidos, uma revelação, sobretudo chocante. A de que cerca de 20 milhões de crianças trabalhavam, naquela ocasião, como escravas, em parte considerável do Sul asiático. Embora nestas questões não se deva olhar o lado quantitativo, mas o princípio em si, o número era, simplesmente, assustador. Como ademais também seria se um único menor fosse o escravizado, para produzir riquezas para outro indivíduo, pois esta é uma brutalidade intolerável.

Pode parecer óbvia, esta afirmação, mas há milhões de pessoas que não entendem isso. Tanto, que existe uma quantidade tão grande de pequeninos sendo explorada da maneira mais vil e covarde que se possa conceber. Mas não é somente o Sul da Ásia que contava (e que ainda conta, infelizmente) com essa aberração. Foi ventilado, na ONU, o caso de lá, porque a denúncia havia partido de um desses (já um tanto raros) abnegados idealistas, que ainda existem por todas as partes (poucos, infelizmente, e ficando a cada dia mais escassos), que realmente se preocupam com os semelhantes, que era dessa região.

Se a cifra revelada em 1989, de 20 milhões de crianças escravizadas, já chocou tanta gente, o que dizer das estatísticas a propósito, divulgadas em 2008, que deram conta de que, naquele ano, 400 milhões de meninos e meninas eram explorados como escravos no mundo?! Não disponho de cifras mais recentes, mas duvido que essa exploração absurda e irracional tenha refluído. É provável, isso sim, que haja aumentado muito mais. Há seis anos, o trabalho infantil escravo representava 10% da força de trabalho mundial. Gerava cerca de 13 milhões de euros anuais do Produto Interno Bruto do Planeta. Dinheiro... sempre o dinheiro, tido e havido como mais importante do que vida e liberdade de pessoas e, pior, das que sequer tiveram ainda oportunidade de viver plenamente. Como intelectual, como escritor e, sobretudo, como ser humano, acho isso odioso, repulsivo, revoltante e inconcebível.
  
Escravidão infantil (ostensiva ou disfarçada), existe em várias partes do mundo. Comentei, anos atrás, em artigo publicado em determinado jornal da minha cidade, a respeito da imensa covardia praticada por alguns governos africanos, que transformavam meninos, de oito a doze anos, em “soldados”. Melhor qualificaría se dissesse que tais garotos faziam as vezes de “buchas de canhão”. Em muitas regiões, as crianças são exploradas sexualmente, para satisfazer a tara de degenerados, de seres doentios, que requerem tratamento adequado e não podem estar andando à solta nas ruas (alguns ocupando, até, cargos de destaque na sociedade).

Nas Filipinas, por exemplo, um desses centros de pedofilia chega ao perverso requinte de utilizar computadores para selecionar parceiros sexuais para as crianças. São situações como essa que provocam asco e desalento naqueles que ainda crêem que haja esperança para o mundo. Ela existe, mas é indispensável que se cobre alguma ação, urgente, urgentíssima de quem de direito, para coibir aberrações tão assustadoras, que mostram, entre outras coisas, que a sociedade do nosso tempo está profundamente doente e carente de rumos, intoxicada pela falácia do “ter” a qualquer custo, em detrimento do que é importante por caracterizar-nos como humanos: o “ser”.


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Monday, August 25, 2014

A dúvida não é, como muitos (erroneamente) pensam, o oposto de fé. Não se trata de descrença. É uma necessidade que as pessoas têm (ou deveriam ter) de ser convencidas de que determinadas idéias e conceitos são verdadeiros. Há coisas que não se podem demonstrar e que, ainda assim, estamos convictos de serem corretas. Intimamente convencidos, assimilamos melhor esses conceitos abstratos, de difícil (ou impossível) comprovação. Trata-se, sobretudo, da atitude que se requer do cientista e do filósofo (e do artista, por que não?). Blaisé Pascal propôs, como ponto de partida para chegar ao conhecimento e à verdade, a negação apriorística de tudo, até da própria existência. Feito isso, refletiu e chegou à premissa original, que lhe serviu de ponto de partida para todas as demais conclusões: “Cogito, ergo sum”. Ou seja, “penso, logo existo”. O melhor caminho para chegarmos à sabedoria é este. É ter sempre uma dúvida razoável a propósito de tudo.


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“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
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Eficácia só se constata através de resultados


Pedro J. Bondaczuk


O melhor parâmetro para se verificar a eficácia de uma determinada medida é analisar os resultados que ela produziu. Isto também vale para a lei 7.232, de 1984, que criou a reserva de mercado para os microcomputadores nacionais, que gerou, e vem gerando, polêmica aqui e no Exterior.

Muitos garantem que, com ela, o País sofreu um atraso tecnológico. Outros dizem que o Brasil vem agindo com um protecionismo que seria incompatível com os tempos atuais. Críticas, aliás, não têm faltado, até mesmo da parte de alguns que foram beneficiados pela lei.

Mas e os resultados, compensaram? Acreditamos que sim! Por exemplo, o nosso mercado de informática deverá atingir, neste ano, a cifra de US$ 4 bilhões. Poucos setores de atividades conseguem movimentar, sozinhos, tamanho volume de recursos. Mas o dado mais expressivo é que 50% desse valor, ou seja, US$ 2 bilhões, correspondem às vendas das indústrias nacionais.

Além disso, a quantidade de empresas brasileiras já é bastante expressiva, chegando a mais de três centenas. Isto seria possível num clima de acirrada competição que sempre caracterizou essa (e outras áreas consideradas de ponta em termos de tecnologia) se não houvesse alguma espécie de proteção ao empreendedor empresário brasileiro? O mínimo bom-senso diz que não.

É claro que a lei 7.232 não é perfeita e ninguém jamais afirmou que era. Ela, assim como toda a política de informática, precisa de ajustes. Todos admitem isso e tais acertos já estão sendo estudados cuidadosamente.

Temos apontado, reiteradamente, aqui neste espaço, os problemas enfrentados pela nossa indústria no setor. Criticamos, seguidamente, por exemplo, a qualidade de alguns produtos. Investimos contra o alto preço daquilo que é produzido internamente, no que o governo, através de altíssimas taxações (em especial na importação de componentes e equipamentos) tem grande parcela de culpa. E batemos, com freqüência, na tecla da necessidade de investimento em pesquisas.

Mas em momento algum dissemos que a reserva de mercado tenha sido um fracasso, embora defendamos que seu prazo seja limitado. Até porque, seus resultados mais do que justificam a sua implantação.


(Artigo meu, publicado sob pseudônimo, na página 14, Informática, do Correio Popular, em 15 de julho de 1988).

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Revolução mundial?

 Pedro J. Bondaczuk

 A Revolução Francesa, cujo bicentenário foi comemorado com fausto e grandeza, em Paris, há já bom tempo, em 14 de julho de 1989, nasceu de uma situação parecida com a atual, que se verifica em várias regiões do mundo, embora, na época, ocorresse apenas em nível meramente nacional. Enquanto a massa, a grande maioria da população da França de então, de 1789, reclamava da falta de pão, os celeiros reais estavam repletos de trigo. E o rei Luiz XVI e sua consorte Maria Antonieta promoviam festas nababescas, caras e perdulárias.


Como as comunicações via satélite reduziram o Planeta à aldeia global apregoada por Marshall McLuhan, temos, em âmbito bastante ampliado, ou seja, mundial, situação idêntica à da França quando da deflagração da tal revolução. A fome, o desemprego, a falta de perspectivas de vida atormentam severamente a dois terços da humanidade, enquanto o um terço restante segue, estupidamente, incensando o “bezerro de ouro”, crente que a capacidade de tolerância ao sofrimento dos desvalidos seja infinita e inesgotável. Mas não é. O Nosso tempo, aliás, é o das grandes contradições.

Nunca se falou tanto, por exemplo, em direitos humanos e jamais eles foram tão profusamente desrespeitados, aqui, ali e acolá. Basta que qualquer pessoa leia os relatórios da Anistia Internacional para que venha a se inteirar da sucessão de taras e de tarados que dão vazão, impunemente, aos seus desvios e desmandos, aprisionando, torturando e matando semelhantes, usando, invariavelmente, como pretexto a defesa da “liberdade” e da “democracia”. Ou seja, lançando mão de duas palavrinhas tão prostituídas que até chegaram a perder o real sentido. Mas a maioria da população mundial não sabe disso e, se sabe, encara essas aberrações como “normais”. Óbvio que não são.

Os acontecimentos dramáticos que se verificam, atualmente, no Leste europeu, por exemplo, mais propriamente na Ucrânia e mais especificamente ainda na Criméia, e a movimentação política que ocorre em alguns países-chaves da Europa Ocidental vêm demonstrar, melhor do que nunca, que o tempo dos governos autocráticos, que não dão ouvidos às bases, está chegando ao fim. O povo, pelo menos nos países com maior tradição democrática, está redescobrindo sua força, à revelia dos políticos. E onde não há um aspecto tradicional, as massas se empenham por criar tal situação.

O Estado existe, recorde-se, em função do indivíduo e não o inverso. É entidade abstrata, composta por pessoas tais como nós, com as mesmas necessidades e fraquezas que temos. O indivíduo, teoricamente, é seu grande beneficiário. Pelo menos, deveria ser. Mas é? Raramente. Onde é, não passa de exceção, quando esse princípio deveria ser a regra. Qualquer pessoa razoavelmente inteligente sabe, ou intui, que o abstrato não pode se sobrepor ao concreto. Portanto, a sociedade, que delegou poder aos que exorbitam, de forma corrupta e degradante, de suas funções, tem o dever de cobrar deles.

Nos tempos antigos, Cícero, em "De Legibus", já concluía, com rara lucidez: "Se da reta razão resulta a lei e desta o Direito, este deve ser igual para todos, assim como comum a todos é a fonte originária da razão natural". Segundo Jellinek, as leis são ditadas pelo interesse geral. E à maioria não interessa, óbvio, que haja torturas, degradações morais e execuções arbitrárias como as que se denunciam na Síria, na Coréia do Norte, no Egito e em tantas e tantas outras partes do mundo. Ainda mais quando esses crimes são cometidos pelos que receberam (quando receberam) delegação popular exatamente para coibi-los. Pior ainda é quando os criminosos usurparam o poder, à revelia do seu legítimo dono: o povo. Os exemplos citados parecem ser os casos.

É doloroso constatar-se que até países com grande tradição de respeito às leis também lançam mão de expedientes que eles tanto condenam nos outros, nos fóruns internacionais. Em raras ocasiões a paz foi tão apregoada, mas em nenhum período da história houve tanta violência. Nos últimos 114 anos, além de duas guerras mundiais, houve mais de 300 conflitos armados regionais, com cerca de 120 milhões de vítimas fatais. Poucas vezes se defendeu tanto a solidariedade, mas o que vem prevalecendo, e se ampliando, é um individualismo exacerbado, um egoísmo feroz, alienado, burro e desmedido.

É dever dos cidadãos que vivem sob democracias estáveis a cobrança de explicações de desvios de conduta de seus governantes. Que tais mazelas sejam exemplarmente punidas, mas rigorosamente ao amparo da lei, acima da qual ninguém pode estar (e exclusivamente sob sua égide) para que o exemplo de respeito à dignidade humana frutifique e atinja comunidades mais atrasadas e carentes. Para que haja parâmetro factível, que possibilite contínua evolução no campo do Direito. Para que seja lançada a semente, pelo menos uma, que conduza a humanidade (mesmo que isso venha a demorar um milênio ou mais) a uma era de compreensão e de fraternidade, tendo a justiça por corolário.

Contradições, infelizmente, eu poderia mencionar às centenas, senão aos milhares, cada uma mais contundente do que a outra. Como, por exemplo, o fato de nunca antes o mundo estar tão povoado – tem hoje mais de 7 bilhões de habitantes – e jamais, nem nos tempos dos maiores desregramentos morais do fim do Império Romano, haver tamanho apelo ao sexo irresponsável, fora do casamento, sendo usados, para contrabalançar essa ausência de autocontrole, métodos bárbaros e criminosos, tais como o aborto, para evitar nascimentos indesejados. E há (uma infinidade) quem considere isso “normal”. Estamos ou não estamos, pois, à beira de  nova Revolução, desta vez não localizada, como a francesa, mas de abrangência mundial?

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