Wednesday, October 01, 2014

Algumas raras vezes uma obra de arte que produzimos supera, em grandeza e transcendência, em muito aquilo que nós somos. Adquire um toque de magia, de perpetuidade, de eternidade até, enquanto nós não passamos de frágeis animais, efêmeros, ignorantes, sumamente imperfeitos e, sobretudo, transitórios. Convém que, nessas ocasiões, revisemos o que fizermos para lhe dar um indispensável toque de humanidade. Caso contrário, nossa obra-prima, exatamente por sua perfeição formal, não encontrará acolhida por parte das outras pessoas, que não se identificarão com ela. Qualquer tipo de renúncia é doloroso, não há como negar. Ainda mais dessa natureza, que afeta, diretamente, nosso ego. Mas não raro, esta se faz não somente necessária, como indispensável. E este é um desses casos. É disso que tratam estes versos com que o poeta piracicabano, Pedro Morato Krahenbuhl, abre o poema “Voto”:

“Corrompe-te um vício de humanidade.
Se teu verso repousar na pedra,
na cúpula do tempo ressoar,
gradua-lhe o tom de eternidade,
em poeira e renúncia”.


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Manobra para desviar atenção


Pedro J. Bondaczuk


A população norte-americana, que desde quinta-feira tem saído às ruas de várias cidades do país para protestar contra o envio de tropas para Honduras, bem como os políticos que se opõem à medida e ponderável parte da opinião pública, argumentam, para fundamentar sua atitude, com a possibilidade de ser criado um novo Vietnã na América Central, bem no quintal dos Estados Unidos.

Exageros a parte, ficou claro, no entanto, que o presidente Ronald Reagan usou, mais uma vez, os sandinistas para desviar as atenções gerais de algo que ele não quer que adquira repercussão em demasia. É que o escândalo “Irã-contras” ganha, a partir desta semana, foros de dramaticidade, com o julgamento, por parte de um grande júri federal, de suas principais personagens.

Desta feita, não tenham dúvidas, o tenente-coronel Oliver North não vai poder usar seus dotes de ator e, em arroubos de demagogia, conquistar a opinião pública, posando de herói nacional, como fez em julho do ano passado, quando prestou depoimentos perante as comissões mistas do Congresso que investigavam o caso.

Agora ele, o ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional, John Poindexter; o general reformado da Força Aérea, Richard Secord e o comerciante de armas, Albert Hakim, vão responder a processo criminal, com possibilidades de pegarem longas penas de prisão em caso de serem condenados. 

É claro que seus respectivos advogados de defesa os orientaram para que livrassem a própria pele e não protegessem ninguém. O presidente Reagan permanecerá a salvo, mais uma vez, já que os réus disseram, sob juramento, durante o inquérito, que o mandatário não tinha nada a ver com os delitos.

Se mudarem agora o que afirmaram anteriormente, estarão cometendo novo crime: o de perjúrio. E, com certeza, não irão se atrever a se arriscar tanto. Todavia, uma outra figura muito importante no momento, por ter chances reais de vir a ser o novo ocupante da Casa Branca a partir do próximo ano, o vice-presidente George Bush, vai estar na berlinda.

Toda a bateria de acusações estará voltada contra ele. Os democratas, por outro lado, que não conseguem se definir sobre um candidato para as eleições de novembro próximo, vão fazer o possível e o impossível para envolver o nome mais em evidência, no momento, dos republicanos, no escândalo.

Irão mover céus e terra para encontrar o mínimo deslize do oponente, para mostrar à opinião pública porque ele não deve ser eleito. Reagan, portanto, tinha que criar uma nova manchete nos órgãos de comunicação do mundo todo. E nada melhor para isso do que a surrada crise centro-americana. Só que desta vez, com o presidente em final de mandato, o tiro pode sair pela culatra. É aguardar para ver.  

(Artigo publicado na página 20, Internacional, do Correio Popular, em 20 de março de 1988)


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Editora de olho clínico

Pedro J. Bondaczuk

A atuação de Virgínia Woolf no instável, posto que fascinante, “mundo da Literatura”, não se restringiu à sua principal atividade, ou seja, a de escritora. Foi, também, editora e integrante de um dos mais polêmicos grupos de intelectuais, das mais diversas  tendências e áreas da cultura: o “Bloomsbury”. Destacou-se em ambos, a exemplo do que aconteceu nas letras, revelando, no primeiro caso, competência, sobretudo administrativa e, no segundo, rebeldia ativa contra o status vigente na sociedade inglesa do seu tempo  e não somente retórica. Em vez de se limitar a criticar o que a desgostava, agiu para tentar modificar a situação, São aspectos dignos de nota que provam que ela não foi, propriamente, aquela figura desequilibrada e amalucada que a maioria dos seus biógrafos enfatiza. Ou, para sermos mais exatos, não foi “só” isso. Seu desequilíbrio emocional foi público e notório. Mas sua competência e talento foram infinitamente maiores.

Analisemos por partes. A editora, que Virgínia fundou, com o marido, Leonard Woolf, em 1917, tinha o objetivo de ser, inicialmente, apenas um passatempo para o casal. Se pudesse ter alguma utilidade, além disso, muito bem. Se não pudesse, provavelmente não causaria nenhuma aflição ou constrangimento a nenhum dos dois. A Hogarth Press nasceu simplezinha, com maquinário antiquado e praticamente sem nenhum funcionário. Os livros eram impressos, todos, a mão, num processo artesanal e lento, em tiragens limitadas, posto que com bom acabamento. Inicialmente, a editora imprimia livros da própria Virgínia e de um ou outro escritor conhecido, amigo do casal. O nome da empresa familiar era o da casa em que os proprietários residiam em Richmond.

Não tardou, porém, para que tudo mudasse. E para melhor, muito melhor, obviamente. O casal resolveu investir no empreendimento. Adquiriu impressoras comerciais, relativamente modernas, que permitiam imprimir mais livros e em tiragens bem maiores. Contratou funcionários e, principalmente, organizou-se empresarialmente, deixando de ser mera ação entre amigos. Passou a atrair tanto escritores já consagrados, quanto jovens promissores, de grande talento e muita ambição, mas de escassas oportunidades. O negócio começou a prosperar e não tardou a navegar em mares tranqüilos, de vento em popa. Os livros publicados já não eram só de membros do Grupo de Bloomsbury. A Hogarth Press, por exemplo, foi a pioneira na publicação de trabalhos sobre psicanálise, principalmente da obra de Sigmund Freud (mas não só dele). Outro passo à frente foi a publicação de livros de escritores estrangeiros, traduzidos para o inglês, em especial dos clássicos, notadamente dos russos.

Cinco anos após a morte de Virgínia, em 1946, a editora passou a ser administrada por outra empresa, a “Chatto and Windus”. E assim permaneceu até 1969, quando se fundiu à “Jonathan Cape”. Esta, todavia, não durou muito tempo e encerrou suas atividades nos anos 70. Virgínia Woolf, ou, mais propriamente, sua editora, a Hogarth Press, revelaram diversos escritores, alguns tidos e havidos hoje como clássicos. O caso mais citado é o do poeta norte-americano, que se naturalizou britânico, T. S. Eliot. Foi ali que seus primeiros livros de poesia foram impressos, entre os quais o mais famoso foi “Terra estéril”.

Editora e escritor foram grandes amigos, a despeito de algumas rusgas que tiveram. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando T. S. Eliot se tornou editor de uma empresa rival, a “The Criterion”. Ela não entendeu essa decisão, pois havia tentado tirar o poeta de seu emprego em um banco, oferecendo-lhe o mesmo cargo na Hogarth Press. Este, porém, recusou. A rusga entre ambos, todavia, não durou muito. Certamente Virgínia teria ficado sumamente orgulhosa caso pudesse testemunhar sua “descoberta” literária ser agraciada, em 1948, com o Prêmio Nobel de Literatura. Mas não pôde. Quando T. S. Eliot foi premiado, ela já estava morta há sete anos.

Todavia, nem sempre a escritora-empresária acertou em suas decisões empresariais. Por exemplo, teve em mãos o manuscrito de “Ulysses”, de James Joyce, mas não pôde, ou não quis (o que é o mais provável) publicá-lo. Foi, é claro, um erro sem tamanho e nem preciso lembrar por que. Aliás, ela alimentava, por razões que só ela poderia explicar, algumas picuinhas com o escritor irlandês (ao qual era comparada por muitos). Quentin Bell, em seu livro “Virgínia Woolf – uma biografia (1882-1941)”, escreve a respeito: “Era uma obra que Virginia não podia rejeitar nem aceitar. O poder e a sutileza da obra eram evidentes o bastante para despertar a admiração dela e, sem dúvida, inveja. Parecia-lhe ter uma espécie de beleza, mas também um brilho rude, arguto, de sala de fumantes. Joyce usava instrumentos parecidos com os dela, e isso era doloroso, pois era como se a pena, sua própria pena, tivesse sido arrancada de suas mãos e alguém rabiscasse com ela a palavra foda no assento de um vaso sanitário”.


Quentin acrescenta: “Virgínia também sentia que Joyce escrevia para um pequeno grupo, e, quando se refere a ele, escreve ‘essa gente’ — como se o classificasse tal qual Ezra Pound e não sei que outras figuras do ‘submundo’. A reação dela talvez seja significativa; a rudeza gratuita e impudente de Joyce fazia-a sentir-se, súbito, desesperadamente ‘uma dama’. Mesmo assim foi perspicaz o bastante para ver que era algo digno de ser publicado; era claro, também, que estava absolutamente além da capacidade técnica da Hogarth Press”. Prefiro crer que Virgínia perdeu a oportunidade de revelar “Ulysses” ao mundo por incapacidade material de sua editora e não por inveja, embora esse fator não possa ser descartado. Quanto ao Grupo Bloomsbury, este merece capítulo a parte, que pretendo escrever na sequência.

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Tuesday, September 30, 2014

A melhor maneira de nos livrarmos de mágoas e dores emocionais é fazermos delas temas para uma obra de arte: um poema, uma canção, uma crônica, ou seja lá o que for. Além de acalmar as emoções, se o que fizermos tiver valor artístico, pode, de quebra, ainda render algum dinheirinho, o que não é nada mau, concordam? É aquela história que o povão, em sua instintiva sabedoria, tanto conhece: se lhe atirarem um limão azedo, faça dele uma deliciosa limonada. As mais sensíveis composições do cancioneiro popular em todo o mundo nasceram de amores fracassados, de ciúmes avassaladores e da chamada “dor de cotovelo”. Só os masoquistas gostam de ficar remoendo o que os faz sofrer, sem que tenham uma só válvula de escape para esse acúmulo de pressão emocional.

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Vocês já notaram o quanto alivia o fato de desabafarmos com alguém quando nos sentimos arrasados com a perda de um amor, ou com a traição de um amigo ou com qualquer outra decepção sentimental? Esses desabafos, porém, também podem ser feitos com arte que, além de não amolarem ninguém, tendem a encantar quem tiver contato com as obras que forem produzidas nestas circunstâncias. Os melhores poemas de amor, por exemplo, foram escritos quando o poeta se sentia amargurado e triste com o abandono da amada. São desse tipo estes versos de encerramento do poema “Canção”, do poeta paulista, de Caçapava, Ubiratan Rosa:

“Não, não; não quero chorar,
vou compor uma canção...
Canta sempre, eternamente,
canta tolo coração...

Canta a dor que te dói tanto,
canta a dor que te consome.
e ao cantares do teu canto,
coração, sossega e dorme...”

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Mundo perde a guerra da droga


Pedro J. Bondaczuk


O mundo está perdendo a guerra para os narcotraficantes”. Essa constatação, feita recentemente pelo presidente norte-americano, George Bush, foi reforçada, ontem, em Bogotá, por uma comissão do Parlamento Andino, que informou acerca do crescimento nas duas pontas da escala de envenenamento e corrupção: na produção de drogas e no seu consumo.

A despeito de campanhas, palestras, artigos e toda a espécie de alertas feitos por diversos meios, mais e mais jovens continuam se viciando, cometendo esse lento e doloroso suicídio, e enriquecendo os grandes cartéis do crime organizado.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há pontos de venda de crack (um resíduo da cocaína usado para fumar, ao invés de se aspirar, conforme se faz com o pó maldito) em tamanha profusão quanto há de botequins vendendo bebidas alcoólicas.

Aliás, ambas as drogas transformam seres humanos brilhantes, gente útil e produtiva, em verdadeiros rebotalhos. Em pessoas inúteis para a família, para os amigos, para a sociedade e até (e principalmente) para si próprias.

Por maiores que sejam as campanhas para a erradicação das plantações de coca, de papoula, de maconha e de outras matérias-primas para entorpecentes, estas prosseguem se multiplicando a uma velocidade estonteante. Para cada pé dessas plantas arrancado, são plantados, em média, três. E por quê? Porque a procura pelos tóxicos segue aumentando. E o esquema do vício é sempre o mesmo.

Os futuros “zumbis”, ou mortos-vivos de amanhã, são aliciados em portas de escolas, de clubes e de outros locais freqüentados em especial por adolescentes. A princípio, as drogas são oferecidas gratuitamente. Os asquerosos agentes de corrupção procuram passar a idéia para os garotões de que o uso dos produtos que querem impingir é “coisa para homem”.

Falam com um hipócrita entusiasmo dos “efeitos maravilhosos” que tais substâncias vão lhes causar, mesmo sabendo que não há qualquer maravilha no vício. Indefesos, muitas vezes precisando se auto-afirmar em virtude do tratamento equivocado que recebem dos pais (que procuram “comprar” os filhos ao invés de lhes dedicar um genuíno afeto), esses quase meninos findam por ceder aos apelos dos aliciadores. E com isso, decretam, na maioria das vezes, o seu próprio fim.

Autocondenam-se à morte, lenta, sofrida, dolorosa, angustiante, repleta de medos e de delírios. E o que acontece com os bandidos que estão por trás de tudo isso? Não os “mulas”, que transportam a droga. Não os “bagrinhos”, que as vendem. Não os pés de chinelo, que aliciam novos viciados. Mas os cabeças dessa trama diabólica, considerados pelas Nações Unidas como “inimigos da humanidade”.

Estes ficam cada vez mais ricos, mandam os filhos estudar na Suíça, são chamados de “doutor” e podem até acabar fazendo carreira na política!

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 16 de junho de 1989).

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Obra sólida posto que polêmica

Pedro J. Bondaczuk

A obra literária de Virgínia Woolf segue causando polêmica, mesmo passados 73 anos do seu suicídio (completados em 28 de março de 2014). Uns, consideram-na ultrapassada e envelhecida, o que, se fosse verdade, sequer causaria estranheza, dado o tempo em que viveu, muito diferente deste início de século XXI. Outros tantos, no entanto (entre os quais me incluo) acham que ela é atual, sobretudo no que se refere ao comportamento das personagens, com seus dramas, amores, desamores, alegrias, dissabores e relacionamentos, que, em sua essência, não mudaram tanto assim. Apenas adaptaram-se à tal da tão apregoada “modernidade”.

 A rigor, seus livros não são fáceis de ler. Não, óbvio, porque, eventualmente, escrevesse mal, que não era o caso. Muito pelo contrário. Escrevia bem demais! Sua literatura, contudo, foge do convencional. Daí tantas comparações a outros ícones literários, feitas por quem conhece sua obra (como a James Joyce, a Franz Kafka e a Marcel Proust, ou a uma mescla de todos eles, reunidos). Muitos “críticos”, infelizmente, emitem opiniões sem conhecimento de causa. Percebe-se, pelos comentários que fazem, que sequer se deram o trabalho de ler qualquer dos livros de Virgínia Woolf. O chato é que esses sujeitos “fazem cabeças” e espantam leitores que, dessa forma, perdem a oportunidade de conhecer um tipo de literatura original, criativo e, em muitos casos, genial.

Sua obra literária é relativamente vasta, se levarmos em conta o tempo que ela viveu (59) anos e a forma como as mulheres “intelectuais” eram tratadas em sua época. Eram, sobretudo, mal vistas, quando exerciam atividades que fossem diferentes do papel que a sociedade lhes atribuía. E este, salvo uma ou outra exceção, era o casamento, a geração e criação dos filhos e os cuidados do lar. E só. Sua presença em escolas e universidades era encarada com desconfiança e preconceito. E o mundo literário era tido e havido como uma espécie de “clube do Bolinha”, restrito exclusivamente a homens. Tanto que as academias de letras de praticamente todas as partes passaram a aceitar, e assim mesmo com muitas restrições, a presença de escritoras apenas recentemente, por volta dos anos 60 do século passado. Como se talento e competência fosse questão de sexo, o que, claro, não é.

Virgínia Woolf publicou 17 livros, a maioria sem tradução para o português. Considero “Orlando” sua obra-prima. Esse romance, publicado em 1928, é tão fora do convencional, que merece comentários à parte (o que me proponho a fazer oportunamente). Sua primeira obra, “The voyage out”, data de 1915. Já a última foi “Entre os atos”, lançada em 1941, poucos meses após seu suicídio. Quatro de seus 17 livros se destacam, por uma série de razões. O principal, como enfatizei, é “Orlando”. Confesso que não li tudo o que Virgínia Woolf publicou, mas do que li, não tenho nenhuma restrição a fazer, embora a leitura me exigisse grande “ginástica mental” para acompanhar seu raciocínio e compreendê-lo.

Destaco, ainda, da sua produção, os romances “Mrs. Dalloway” (1925) e “Passeio ao farol” (1927), além dos livros de ensaios “Um quarto só para si” (1929) e “The Common Reader”, em dois volumes (1925 e 1932, respectivamente). No ano da sua morte, foi lançada uma coletânea de seus contos, abrangendo o período de 1917 a 1941, esta sim traduzida para o português, sob o título (óbvio) de “Contos completos”.

O romance “Mrs. Dalloway” serviu de inspiração para um filme de muito sucesso de Hollywood, que valeu, inclusive, um Oscar à atriz Nicole Kidman, por sua interpretação de Virginia Woolf. Trata-se de “As horas”. Essa produção cinematográfica é baseada no livro do mesmo nome do escritor Michael Cunningham. O autor mescla, em sua obra, várias histórias fictícias a episódios reais da vida da escritora inglesa. Mistura, todavia, a personagem verdadeira, de carne e osso, no caso Virgínia, com particularidades fictícias da protagonista do romance dela: as de Mrs. Dalloway. É, sem dúvida, uma fórmula bastante original de fazer literatura.

Agora, respondam-me com sinceridade: estou ou não estou com a razão quando afirmo que a vida dessa mulher totalmente fora dos padrões tido como normais da época é, se não mais interessante, tão marcante quanto sua magnífica obra? Sua conduta, seu trauma sexual, seus amores e desamores, suas dúvidas e contradições, tudo, absolutamente tudo é fora do convencional. Sem falar da sua morte, mais dramática do que a da maioria dos personagens de ficção que se conhece. A enciclopédia eletrônica Wikipédia lembra que “em Mrs. Dalloway, Virginia descreve um único dia da personagem, quando ela prepara uma festa”. É mais ou menos como James Joyce fez em seu clássico “Ulysses”. E não houve plágio de nenhuma das partes.


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Monday, September 29, 2014

Todos temos, em maior ou menor quantidade, lembranças amargas de fracassos profissionais, de amores que não deram certo, mas deixaram marcas; de sonhos nunca concretizados ou de ideais que deixamos pelo caminho sem que saibamos a razão. O mais prudente e sábio é, se possível, nos livrarmos dessas “quinquilharias” emocionais, que só ocupam espaço que poderia ser preenchido com recordações agradáveis, de sucessos, de afetos marcantes, de coisas que pareciam impossíveis de serem feitas e que o foram e de novas metas a nos conferirem motivação e sentido. Devemos proceder como fazemos, vez ou outra, com os quartos de “bagunça” que quase todos temos em casa (ou nos fundos de uma garagem) onde acumulamos objetos sem uso, em geral quebrados. Seria mais prático comprar outros, mas teimosamente pensamos em consertá-los um dia, mas nunca os consertamos. Lá um belo dia, criamos coragem e nos desfazemos dessas bugigangas. É certo que não demora muito para preenchermos esse espaço com novas quinquilharias. Com as lembranças, porém, é conveniente não agir assim. É sábio não renovar as que eram ruins e foram descartadas.


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A atitude prudente, que devemos adotar, em nossa busca pela felicidade e saúde mental, é nos livrarmos de lembranças amargas de fracassos profissionais, de amores que não deram certo, de sonhos nunca concretizados ou de ideais que deixamos pelo caminho e nunca mais acumularmos novas recordações dolorosas. Isso é mais questão de auto-condicionamento do que de personalidade. Por que represar emoções inúteis e, pior, que causem sofrimento, nos subterrâneos da alma? O poeta Afonso Schmidt tem um soberbo soneto a esse propósito, intitulado “Barba-azul”. E ele o encerra com estes magníficos tercetos, em que diz:

 “Neste beijo, porei nas tuas mãos suaves
o maldito esplendor das áureas sete chaves
do velho coração...Vem habitá-lo, pois,

não devasses, porém, subterrâneos e fossos;
morrerás de pavor, se vires os destroços
das quimeras que amei e trucidei depois”.

Afinal, não queremos que a amada, quando vier a habitar de vez nosso coração, “morra de pavor” ao ver restos de sonhos, trucidados com requintes de crueldade, não é mesmo?

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Europa preconceituosa



Pedro J. Bondaczuk



O preconceito racial, sob suas diversas formas, vem se manifestando com maior agudeza nos últimos tempos na Europa, justamente um continente que pagou um preço alto demais (em vidas e perdas materiais) por causa dessa autêntica doença comportamental. Estranha-se que uma civilização já consolidada, que adquiriu tradição, abrigue na sua esfera de influência esse tipo de ação. A discriminação, em especial contra pessoas oriundas do Terceiro Mundo, manifesta-se às vezes de maneira apenas sutil, com "indiretas" insinuadas a tais cidadãos acerca dos problemas existentes nos países em desenvolvimento de onde eles procedem, muitos dos quais surgidos com a colaboração dos europeus (os brasileiros, por exemplo, são vistos como "caloteiros" e como depredadores do meio ambiente). Em outras ocasiões, ela é ostensiva, quando não violenta.

Uma de suas formas mais antigas, o antissemitismo, parece ressurgir com grande força agora, 45 anos depois do terrível massacre, que quase eliminou os judeus da face da Terra, num genocídio monstruoso, que contou com a conivência (através do silêncio) de muitos povos que hoje posam como defensores dos direitos humanos e da liberdade e democracia. O episódio de violação de 34 sepulturas na cidadezinha francesa de Carpentras, próxima a Marselha, no Sul da França, talvez nem tenha sido o mais grave caso dos últimos tempos (muitos dos quais até foram omitidos do noticiário). Mas ganha realce por ter ocorrido um dia depois que a Europa comemorou o quadragésimo-quinto aniversário da vitória das forças aliadas sobre os nazistas.

Ninguém fomenta ódios entre os povos impunemente. Rancor gera rancor, violência produz violência e isto é do que menos o mundo precisa na atualidade, quando se defronta com problemas gravíssimos, como a superpopulação, o estado de miserabilidade crescente de dois terços da humanidade, a degradação do meio ambiente, o desaparecimento de inúmeras espécies vegetais e animais, a poluição das águas e do ar, o aquecimento do Planeta que pode conduzir ao "efeito estufa", a ruptura na camada de Ozônio e tantos outros que freqüentam diariamente os noticiários da imprensa.

Gente de mente doentia, que ainda cultiva preconceitos de toda a espécie e dissemina somente rancores inúteis, tem que ser segregada do convívio social. Não contribui em nada para resolver as grandes questões e ainda cria novas. Pessoas que agem assim não passam de parasitas, de homicidas potenciais, de agentes de destruição. Compete aos formadores de opinião pública fazerem alguma coisa para extirpar, de uma vez para sempre, essa terrível doença da alma, responsável por um dos piores conflitos que a humanidade já viveu, que foi a Segunda Guerra Mundial.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 12 de maio de 1990)


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Resgate como fruto do acaso

Pedro J. Bondaczuk

A primeira vez em que ouvi e li o nome de Virgínia Woolf não teve nada a ver com Literatura. Pelo menos não especificamente. Na ocasião, sequer sabia que ela foi escritora. Aliás, desconhecia, até, que tivesse “existido”. Foi há muito tempo, lá pelos idos de meados dos anos 60 do século passado (se não me engano, foi em 1968). Na ocasião, um filme, então muito badalado, estava em exibição na cidade, aqui em Campinas, protagonizado pelo casal Elizabeth Taylor e Richard Burton. Eu era na oportunidade o que se pode classificar de “cinéfilo”, posto que não tão fanático quanto alguns integrantes do meu círculo de amigos, jovens universitários antenados em tudo o que se referisse à sétima arte. Colecionava críticas, lia, avidamente, a publicação “Cahiers Du cinema” tão em voga na ocasião e não perdia nenhuma das grandes produções cinematográficas, quer de Hollywood, quer as francesas, italianas ou suecas.

O filme em questão era “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”. Baseava-se na peça teatral, do mesmo nome, de Edward Albee, que vim a assistir anos depois. Apesar de relativamente “cinéfilo”, se é que me possa classificar assim com essa relatividade, minha preferência, em termos de dramaturgia, era, e ainda é (mais do que nunca) pelo teatro. Uma coisa me intrigou na ocasião: qual a razão do filme ter esse nome, se Virgínia Woolf não aparecia no enredo em momento algum, sequer por mera referência de algum personagem? Fiquei matutando: “Quem é essa mulher? O que ela faz? Existiu de fato ou foi um nome qualquer que veio, subitamente, à cabeça do autor da história?

Foi só então, pesquisando em arquivos e bibliotecas, que cheguei primeiro à obra, e na sequência, à biografia de Virgínia Woolf. Hoje posso afirmar, sem medo de contestações, que conheço tanto a seu respeito quando os que conviveram com ela. Exageros à parte., claro Muito tempo depois descobri que Albee fez uma brincadeira, por aproximação, com  o nome de Virgínia. Suprimiu um “o” do seu sobrenome e obteve a palavra “wolf” que em inglês significa “lobo”. Ainda assim, não entendia a razão do nome que deu à peça.

Foi em uma revista norte-americana, na “Time”, que fiquei sabendo que Albee pretendeu parodiar a célebre canção infantil “Quem tem medo do lobo mau?”. Ainda assim, o título da peça (transformada em filme) não tem nada, rigorosamente nada a ver com o enredo. E muito menos com Virgínia. Todavia, por vias transversas, o autor trouxe à baila a escritora inglesa, que andava um tanto esquecida. Despertou a curiosidade em muita gente – e em mim também, claro – ávida por saber quem era essa figura, supostamente temível, que emprestou o nome a uma peça, adaptada para um filme de cinema, ambos de tanto sucesso.

Para que o leitor tenha uma idéia do êxito dessa produção cinematográfica – dirigida por Mike Nichols, tendo, nos principais papeis Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segall e Sandy Dennis – basta dizer que foi indicada para onze categorias do Oscar em 1967. Ganhou cinco estatuetas: melhor atriz (Elizabeth Taylor), melhor atriz coadjuvante (Sandy Dennis), melhor fotografia preto e branco (Haskel Wexler), melhor figurino preto e branco e melhor direção de arte preto e branco. Obteve, ainda, outros prêmios importantes, como o Bafta, do Reino Unido, de 1967 e o Globo de Ouro do mesmo ano.

Premiação maior, todavia, foi a de Virgínia Woolf, trazida à baila, com tamanho estardalhaço, em um filme de tamanha bilheteria mundo afora (está entre os mais assistidos de todos os tempos). Isso sem falar na peça que lhe deu origem, encenada nos principais teatros das grandes metrópoles mundiais até os dias atuais. E isso sem precisar ter feito nada, rigorosamente nada, a não ser ter “existido”. Não precisou, no caso, ter escrito coisa alguma, ter cometido as maluquices que cometeu, ter violado os padrões morais da sua época. Em suma, não fez nada, nada, nada para ser “ressuscitada”.

Seu nome deve ter vindo à mente de Edward Albee por acaso, quando este estava à procura de um título para sua peça. Se foi ou não, ninguém sabe. O autor jamais revelou o que o levou a denominar sua produção teatral daquela maneira. A única certeza que se tem, e que é óbvia, é que ele pelo menos já ouvira pelo menos falar de Virgínia Woolf (provavelmente, até, leu algum de seus livros). Objetivamente, isso nada tem a ver com a biografia da escritora inglesa. Merece, porém, citação, por haver despertado a curiosidade do mundo sobre quem foi essa figura. Se eu me interessei em saber de quem se tratava, é provável que alguns milhares de amantes de literatura tiveram o mesmíssimo interesse. Eis aí o dedo do acaso, circunstância que tanto cito em meus textos, atuando para resgatar a memória de alguém, que não merecia e nem merece ser esquecido.


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Sunday, September 28, 2014

As pessoas que sabem vislumbrar beleza até onde esta, objetivamente, não exista (ou pareça não existir) são rotuladas, pelos pessimistas e renitentes derrotistas, de “utópicas”. Confesso que comungo dessa utopia. Procuro sempre ver o lado positivo, nobre e belo da vida, sem, contudo, ignorar ou negar a existência do oposto (mas no sentido de modificá-lo para melhor). O antônimo da utopia é chamado de “distopia”. É o comportamento de muitos (talvez, infelizmente, a maioria) que só enxergam o lado perverso, ruim e feio da vida. São, no meu entender, mais alienados do que os que vêem apenas o aspecto positivo, belo e nobre de tudo. E, na sua alienação, são infelizes, mesmo que tenham a seu favor tudo o que alguém necessite para alcançar felicidade.


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Muitas pessoas não alcançam a felicidade por não estarem predispostas a ela. Apostam no negativo e este se impõe e se manifesta, com todo o vigor, em suas vidas amargas e cinzentas. O poeta Murilo Mendes fez uma brincadeira, no poema “O utopista”, e caracterizou o distópico, como sendo utópico. Escreveu:

“Ele acredita que o chão é duro.
Que todos os homens estão presos.
Que há limites para a poesia.
Que não há sorrisos nas crianças
nem amor nas mulheres.
Que só de pão vive o homem.
Que não há um outro mundo”.

Quem nutre estas crenças e se comporta dessa maneira, reitero, jamais conseguirá ser feliz. Mesmo que o chão não seja macio, que nenhum homem seja livre, que a poesia seja limitada, que as crianças sejam sisudas, que as mulheres não saibam amar, que o homem viva somente em função da comida e que, com a morte, tudo termine, não há mal algum em pensar no oposto, se isso trouxer alegria e motivação para viver.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

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Guerra econômica no Líbano


Pedro J. Bondaczuk


A retirada das tropas israelenses do Líbano vem se desenvolvendo num ritmo acelerado, tendo sido iniciada ontem a segunda etapa do seu cronograma, que prevê a volta para casa de dez mil soldados de Israel, no máximo até junho. Apesar de alguns confrontos e atitudes hostis de parte a parte, no geral o processo se realiza de uma maneira até menos traumática do que muitos observadores temiam que ocorresse.

Entretanto, o Líbano que os israelenses estão deixando, quase três anos após o desfecho da operação “Paz para a Galiléia”, que visava a escorraçar para longe das fronteiras de Israel diversos grupos de palestinos que alvejavam seguidamente povoações judias de território libanês) é um país destroçado. Destroçado e falido, muito diferente daquele que as tropas encontraram quando da invasão.

O problema atual do Líbano já nem é mais tanto a guerra civil, que caminha para completar uma década, com a qual o povo aprendeu a conviver. É a recessão econômica, o visível empobrecimento nacional, com a outrora fortíssima e cobiçada libra libanesa batendo sucessivos (e quase diários) recordes de desvalorização.

O conflito interno, no seu início, trouxe até mesmo alguns lucros para esse país, situação que perdurou até 1982. Estes eram provenientes das seguidas “injeções” de dólares dos países árabes, que visavam a financiar as facções litigantes que apoiavam com crescentes recursos, mormente os guerrilheiros palestinos.

Era o que o atual ministro Selim Hoss, um especialista em economia, com muita lucidez, classificou de “turismo em uniforme”, representado por soldados sírios e de outras nacionalidades, que íam para o Líbano munidos de recursos para uma vida decente num país estrangeiro.

O ex-ministro das Finanças daquele tempo, Elias Saba, testemunha que “a renda individual de então atingiu seu máximo e que as divisas vindas de fora mais do que compensaram qualquer baixa do PNB que houvesse sido causada pela guerra”. Diante disso, pode-se dizer que, no período, o conflito até que compensou (do ponto de vista financeiro) para os libaneses.

Entretanto, a operação “Paz para a Galiléia” praticamente acabou com isso. Expulsou os palestinos, destinatários do maior volume de ajuda dos árabes e que mais gastavam esse dinheiro no mercado do Líbano. Os sírios restringiram a sua atuação ao Vale do Bekkaa e à proximidade da sua própria fronteira, fazendo circular menos divisas, principalmente numa Beirute arrasada, sitiada e sob constante bombardeio.

Hoje a situação da ex “Suíça do Oriente Médio” é para lá de desesperadora. As reservas de moeda estrangeira caíram abruptamente, nos últimos dois anos, de US$ 2,7 bilhões para menos de US$ 400 milhões. Isso, para um país que importa 70% do que consome, é arrasador!

A inflação e o desemprego subiram à estratosfera. Apenas no mês de janeiro, as taxas inflacionárias alcançaram 35% e com tendências de crescimento muito mais acentuado.

É indispensável que se faça, com urgência, um esforço internacional para socorrer o Líbano. Caso contrário, a advertência feita na semana passada por Ghassan Seblani, líder da milícia xiita Amal, será concretizada em questão de dias ou, quando muito, semanas. Ele disse, fundamentado não apenas naquilo que vê, mas no que sente na própria carne: “Se a crise continuar fora de controle como está, levará a um extremismo que acabará conosco antes dela. Será a destruição do Líbano que conhecemos hoje”. E, ressalte-se, a sociedade libanesa atual está a milhões de anos-luz de distância da ideal...

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 7 de março de 1985).


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