Saturday, April 18, 2015

Há pessoas que vivem num permanente estado de beligerância, quer com o próximo, quer com o mundo, quer com elas próprias. Esperam sempre o pior e quando o melhor lhes acontece, não o usufruem, por sequer perceberem o bem que recebem. Não as culpo. Foram condicionadas a isso por uma educação equivocada. Caso sejam religiosas, ainda nutrem alguns fiapos de esperança, mas não no dia a dia. Não na vida (pelo menos a real, concreta, a que conhecemos), mas numa suposta (não sei e ninguém sabe se hipotética e fantasiosa ou não) existência futura. Estes, pelo menos têm um consolo. Mas há quem não creia nem nisso. Ou que creia, mas atribua a Deus (ou aos deuses) todos seus sofrimentos e tribulações. Ou então, culpam uma entidade abstratíssima, que alcunham de “destino”. André Gide escreve: “Camarada, não aceites a vida tal qual a propõem os homens. Não cesses de te persuadir que ela poderia ser mais bela, a vida; a tua e a dos outros homens; não uma outra, futura, que nos consolasse desta e nos ajudasse a aceitar sua miséria. Não aceites! Quando começares a compreender que o responsável por todos os males da vida não é Deus, que os responsáveis são os homens, não te conformarás mais com esses males

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

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País mata o futuro



Pedro J. Bondaczuk


O Brasil vem se especializando, há muito tempo, em jogar fora o seu potencial mais precioso, seu maior patrimônio, sua garantia de um futuro promissor, que são suas crianças. A mortalidade infantil entre nós, por exemplo, é incompatível com nosso "status" internacional e principalmente com a nossa aspiração de galgar, em curto prazo, o seleto e restrito clube dos países do Primeiro Mundo.

O abandono de menores chega a constituir-se num escândalo, tema predileto dos políticos em períodos pré-eleitorais e assunto maldito assim que eles chegam ao poder. Nossos administradores invertem a fórmula clássica de prudência, preferindo remediar a prevenir, ao deixarem de investir em escolas para terem de gastar, anos depois, em presídios.

Não bastassem as mazelas oficiais, vêm se espalhando, como ervas daninhas, bandos de assassinos, que se autodenominam de "Vigilantes",  de "Justiceiros", ou algo semelhante, especializados em exterminar crianças, como se estivessem suprimindo ratos e não vidas humanas (re por isso, sempre preciosas).

Ontem, a diretoria da Fundação Abrinq, liderada por empresários, entregou um "dossiê-bomba" ao presidente Fernando Collor sobre extermínio de menores na Baixada Santista. Bandidos dessa espécie, que enxergam em meninos e meninas pobres somente marginais em potencial, precisam ser retirados, o quanto antes, das ruas. São matadores frios, covardes, insensíveis, impiedosos, que certamente "já nasceram adultos". Nunca tiveram infância.

A periferia de São Paulo já convive, há tempos, com essas gangues. O mesmo ocorre com outras metrópoles brasileiras, mais notadamente Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

A matança maior, todavia, acontece na violentíssima Baixada Fluminense. O coordenador do Movimento de Meninos de Rua, Wolmer do Nascimento, denunciou que nessa região até o juiz Rubens Medeiros, da Quinta Vara Criminal de Duque de Caxias, está envolvido na atuação de grupos de extermínio locais.

Triste o destino da criança brasileira! Quando escapa do aborto de sua mãe, acaba colhida por alguma doença decorrente do estado de miserabilidade de sua família. Se sobrevive ao período crítico de um a cinco anos, morre, muitas vezes, de fome ou desnutrição aguda. E se escapa heroicamente das situações anteriores, termina sendo exterminada pelos tais "Justiceiros", ou "Vigilantes", ou seja lá o nome que tenham esses grupos de assassinos que, apenas na Baixada Fluminense, de janeiro a maio do ano passado, deram cabo de 184 menores naquela região.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 23 de novembro de 1990).


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Aula de Literatura contemporânea

Pedro J. Bondaczuk

O livro “O castelo de Frankenstein” provavelmente não é considerado o mais importante da carreira de Salim Miguel, esse libanês de coração brasileiro, que chegou ao Brasil com apenas três anos e que agora, aos 90 bem vividos anos de idade, se tornou uma espécie de paradigma cultural de Santa Catarina, Estado que adotou como seu. Sua obra literária é vasta, eclética e da melhor qualidade. Consiste de cerca de trinta livros, cada um melhor do que o outro. Tanto que lhe valeu, com justiça, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras de 2009, pela coerência e qualidade uniforme de seu conjunto. Talvez Salim Miguel seja mais conhecido como ficcionista, embora seja desses intelectuais (cada vez mais raros) classificados como “homens dos sete instrumentos”. Pudera! Além de escritor, é jornalista, editor, redator, crítico literário, roteirista, dono de livraria, diretor da Agência Nacional de Santa Catarina e da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina e superintendente da Fundação Cultural Franklin Cascaes, entre outras atividades. Ufa! É, sobretudo, homem de cultura e de ação.

Muitos leitores manifestaram, por e-mail, estranheza pelo fato de eu escolher um livro lançado há tanto tempo pelo autor (em 1986) e não algum dos seus lançamentos recentes, por exemplo, “Nur na escuridão” (muitos confundem esse título achando que seja “nu” e não “nur” que de fato é), que lhe valeu o prêmio de melhor romance, tanto pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, quanto pela Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Ou então “Primeiro de abril, narrativas da cadeia”, consagrada como a melhor narrativa de ficção pela União Brasileira de Escritores. Ocorre que minha intenção foi a de mostrar esta outra faceta de Salim Miguel, volta e meia ignorada, que é a de crítico literário, todavia peculiar, diferente da maioria, que foge do lugar comum e que prima pela clareza, objetividade, simplicidade, sem perder jamais a profundidade em suas análises.

Alguns leitores queixam-se que não conseguirão encontrar o livro, provavelmente esgotado (afinal, passaram-se 28 anos do seu lançamento), no que discordo. Há muitos meios de se conseguir uma obra de nosso interesse. Como? Em “sebos”, por exemplo, (hoje em dia existem muitos na internet), ou entrando em contato com a editora, ou em alguma biblioteca pública e vai por aí afora. Eu, pelo menos, nunca fiquei na mão quando me interessei por alguma publicação esgotada. Creio que o leitor atento também não fique. Cabe, aqui, um esclarecimento. Escolho livros para comentar neste espaço pelas mensagens que contêm, não importando que sejam lançamentos ou obras muito antigas (não raro antiqüíssimas). Meu objetivo não é o de promover os autores, de olho nas vendas. Se isso acontecer, muito que bem. Matarei dois coelhos com uma única cajadada. Todavia, a finalidade dos meus comentários (não confundir com crítica literária) não é, propriamente, esta. É a de refletir com vocês, que me aturam, com paciência de Jó, há já quase nove anos.

E o que “O castelo de Frankenstein” tem de tão especial? Tem tudo! E já a partir do título, aspecto que abordei em texto anterior, que é, como demonstrei, inusitado quando levamos em conta seu conteúdo. E sua originalidade se estende pelos escritores, cujas obras aborda. Se sustenta pela linguagem, sobretudo ágil, precisa e objetiva, característica do jornalista, que utiliza. E caracteriza-se pelo estilo, organização, edição etc.etc.etc. O livro está dividido em quatro partes que, entrando no espírito do autor ao denominá-lo da forma que o denominou, chamo, metaforicamente, de “aposentos” desse castelo que, embora de Frankenstein, não tem nada de assustador. Pelo contrário, só contêm beleza e verdade... e muita sabedoria.

No primeiro desses cômodos, Salim Miguel coloca escritores do Estado que ama, Santa Catarina, que adotou como seu (contudo, a adoção foi mútua). Nessa parte, traça um panorama das letras catarinenses, destacando nomes que na ocasião tinham projeção regional e já começavam a se destacar nacionalmente. Cito, entre estes, Adolfo Boos Jr., Emanuel Medeiros Vieira (cujos textos, volta e meia, publico neste espaço), Guido Wilmar Sassi, Holdemar Menezes, Ricardo L. Hoffmann e Silveira de Souza, entre tantos outros. No segundo “cômodo” estão autores nacionais, tanto os que na época se constituíam em promessas, quanto os “monstros sagrados” da Literatura Brasileira. Na terceira parte, são abordados ases das letras hispano-americanas. Finalmente, na quarta, estão cinco mestres literários mundiais que Salim Miguel confessa estarem entre seus preferidos: os italianos Ítalo Svevo e Humberto Eco, o russo Nikolai Gogol, o húngaro Alexander Lenard e o norte-americano Saul Below. “O castelo de Frankenstein” é, pois, uma aula, imperdível, de Literatura contemporânea.


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Friday, April 17, 2015

A palavra é o mais miraculoso engenho que o cérebro humano engendrou. E a criatividade do único animal racional da natureza extrapolou todos limites ao criar não apenas dez, ou mil, delas, mas bilhões, em milhares de idiomas. A palavra escrita, então, é o máximo de criatividade e fundamento de toda a evolução humana. Através dela, é possível preservar, indefinidamente, o que cérebros privilegiados pensaram e criaram, geração após geração, como herança dos antepassados à qual os homens de hoje acrescentam sua contribuição para os do futuro. E, apesar de tudo isso, as palavras são tão pobres para definir e descrever alguns pensamentos e sentimentos, como amor, amizade, saudade etc.! Elas, todavia, são nosso instrumento de comunicação, nossa arma para “convencer” recalcitrantes. São, pois, ferramenta por excelência de retórica.


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Ocidente não acredita na "perestroika"


Pedro J. Bondaczuk


O presidente Mikhail Gorbachev, à medida em que aumenta o desgaste de sua imagem junto à população soviética, que não entende o alcance, a estratégia e o real objetivo da "perestroika", busca, com maior insistência, apoio exterior, onde goza de inegável respeito e popularidade.

O curioso é que os mesmos setores que gritam exigindo a aceleração das reformas são os primeiros a se aproveitar do descontentamento gerado pelas amargas decisões que o Cremlin é obrigado a tomar para fazer a transição de uma economia estatizada para o mercado livre.

Exemplo típico disso foi o recente aumento geral de preços determinado pelo corte de subsídio a uma extensa lista de produtos, para deter o alarmante crescimento do déficit orçamentário. Tal decreto provocou greves, manifestações e críticas de todos os lados.

No ano passado, esse tipo de providência precisou ser suspenso, por causa do pânico que causou à população, por indução, frise-se, dos próprios setores que vinham pressionando a adoção da medida. O populista Bóris Yeltsin vem baseando toda a sua fulminante carreira política no vácuo de poder deixado por Gorbachev, que parece ter tomado sobre os seus ombros uma tarefa muito maior do que sua capacidade, por mais sinceras que sejam suas intenções e mais lúcida a sua visão de mundo. Tanto é que até aqui nada fez de concreto para apresentar alternativas.

Fora da União Soviética, são poucos os que entendem os verdadeiros objetivos da "perestroika" e seu real alcance. Daí os apoios ao projeto reformista serem tão tíbios e acompanhados, em geral, de indisfarçável ceticismo quanto ao seu êxito.

O presidente George Bush afirmou e reiterou, em inúmeras oportunidades, que apóia Gorbachev, em quem disse confiar, mas ressaltou ter sérias dúvidas acerca das mudanças que ele pretende implantar. Anteontem, por exemplo, discursando na Base Maxwell da Força Aérea, em Montgomery, voltou a respaldar o líder do Cremlin.

Mas emendou: "O caminho à frente da União Soviética será difícil e em momentos, extraordinariamente doloroso. Será lento. Haverá revezes. Mas este processo de reforma, esta transformação interior, deve ter procedência, se é que a cooperação externa e nosso progresso rumo a uma verdadeira paz internacional irão perdurar. Deve ter êxito".

Bush acredita que Gorbachev esteja sinceramente determinado a fazer da URSS um país democrático, estável e confiável perante o mundo. Mas parece não estar certo de que ele tenha "capacidade" para uma tarefa tão monumental. Teme que o presidente soviético venha a ser manipulado por aqueles que, embora se dizendo reformistas, sonham em manter o "status quo" ou fazer as coisas regredirem aos tempos de Leonid Brezhnev.

Por isso, ressalvou: "Ao mesmo tempo seguiremos apoiando um processo de reforma dentro da União Soviética, destinado à liberdade política e econômica. Um processo que, cremos, deve ser levantado num diálogo e negociações pacíficas".

A estratégia de Bush ficou mais clara em 24 de abril de 1990, no auge da pressão exercida pelo Cremlin contra a Lituânia, para que a República báltica rebelde voltasse atrás na sua declaração de independência. Disse, naquela oportunidade: "Minha maior preocupação no momento é não fazer nada que force a União Soviética a agir e comprometer o processo de paz e liberdade em todo o mundo". Ou seja, o presidente norte-americano aferra-se à tática de esperar para ver o que acontece.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 16 de abril de 1991).


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Embalagem insólita de excelente produto

Pedro J. Bondaczuk

A objetividade e a clareza – além do rigor na informação e principalmente no manejo das regras do idioma – são características, um tanto raras, que distinguem um bom escritor do, digamos no popular, “meia boca”. Essa eficiência e competência é o que se espera de qualquer redator que se preze, seja qual for a natureza dos textos que redige e para o que o faz. Espera-se encontrar essas virtudes muito mais em quem se propõe a fazer crítica literária.  A razão é tão lógica que dispensa comentários e explicações. Como alguém pode analisar (e criticar) o que outros escrevem se antes, e acima de tudo, não souber escrever? Não pode. Ou melhor, não deve. Não faz sentido, não é mesmo? Porém, muitos (e põe muitos nisso) agem assim. A gente lê suas críticas e sequer sabe se estão elogiando ou apontando falhas nos livros e autores que se propõem a abordar. São confusos, incoerentes e contraditórios e isso quando não “assassinam” essa “última flor do Lácio, inculta e bela” que é a nossa língua portuguesa.

Confesso que não gosto de ler critica literária (salvo exceções), embora, por necessidade, frequentemente a leia. Não por causa dela em si, já que se trata de um gênero, e dos mais nobres, da Literatura, e esta é sabidamente (por quem me conhece) minha paixão, mas por raramente encontrar quem a faça bem, com objetividade e clareza. Admito que pode não passar de coincidência o fato de raramente eu topar com críticos que me convençam e ilustrem. Não posso e nem devo generalizar. Como em todas as atividades, nesta, também, há os bons e os incompetentes. Há críticos com “c” minúsculo e Críticos, com “C” maiúsculo. Mas... Bem, vamos tratar dos bons. E, nesse caso, Salim Miguel tem que ser catalogado de excelente. Prova é seu livro “O castelo de Frankenstein”, que lançou em 1986, pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. Fiquei encantado com ele e aprendi muito com suas explanações claras, objetivas e, sobretudo, corretas em todos os sentidos.

O título dessa obra é que me chamou, em especial, a atenção. Admita-se que ele tende a espantar quem compra um produto cultural (que é o caso) apenas pela “embalagem”. Fica mais fácil comprar, sem equívoco, quando se tem outra referência qualquer, que não esta, em especial sobre o conteúdo. Sem nenhuma intenção de criticar, eu não daria esse título ao livro, por razões práticas, eminentemente comerciais. Mas Salim Miguel explica o que o levou a tomar essa decisão que, à primeira vista, parece despida de bom senso. Argumenta que tal como o famoso monstro, criado no século XIX pela escritora inglesa Mary Shelley (e imortalizado no cinema pelo ator Boris Karloff), seu livro foi composto por “retalhos de cadáveres” de textos escritos não com a finalidade de serem reunidos e se tornarem um volume como se escrito propositalmente para esse fim. Nasceu da junção de um artigo aqui, outro ali, publicados em jornais e revistas diversos, de vários lugares diferentes, e em épocas variadas, aparentando, à primeira vista ausência de nexo comum. Não é o que se percebe, todavia, na leitura de “O castelo de Frankenstein”.

Salim trata disso no prefácio do livro em que explica, em determinado trecho: “O título devo-o a um velho amigo e colega de profissão: o escritor Guido Wilmar Sassi. Em uma de suas inigualáveis cartas, ou em um de nossos intermináveis e surrealistas papos, ele me falou do título (nem sei por quê ou para quê), talvez lembrando o Castelo de Alex, de Edmond Wilson. Imediatamente, e sem qualquer cerimônia, dele me apoderei. Depois, reconsiderei, recuei. Não por escrúpulo pelo rápido furto ou pela semelhança do título do livro do ensaísta norte-americano. Meu problema era outro: como justificar o título insólito”.

Mais adiante, Salim acrescenta: “Foi ainda Guido quem me deu a deixa: Fácil. São matérias variadas as tuas, aparentemente desencontradas. A meu ver, desconexas só na aparência. Na verdade, têm um fulcro comum: e todas saídas de um mesmo cérebro e com uma mesma preocupação. Quanto à diversidade de enfoque, é lógica e se justifica por si mesma; e na proposta há uma unidade intrínseca e uma idêntica busca. Concordei. Não lá muito convicto. Eu queria era um pequeno empurrão. Ei-lo, me disse. Cabe agora ao leitor penetrar nos meandros do Castelo – e aceitá-lo ou recusá-lo”.

Eu, que “passeei”, embevecido, pelos aposentos dessa insólita edificação, bisbilhotando, xeretando em cada canto, sem nenhuma reserva ou escrúpulo, aceitei o título, embora continue considerando-o, digamos, comercialmente impróprio. Quem ler o livro também, com certeza, se convencerá que o autor não estava tão errado assim. Cada um de seus “cômodos” reservam agradáveis surpresas para os que se dispuserem a vasculhar cada milímetro desse castelo, que não tem nada de exótico ou de assustador, com o espírito aberto, atento e observador de um cientista, face um precioso e original espécime. E, afinal de contas, o importante em um produto não é a embalagem que o envolve, mas o que ela contém. Isso vale, também, para livros. E o de Salim Miguel é para lá de bom.


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Thursday, April 16, 2015

Qual o objetivo de qualquer comunicador? Não é o de persuadir pessoas a abraçarem determinadas causas e ideais e repudiarem e se oporem a outros? Não é a de “convencer” os receptores da excelência sua comunicação? Partindo da premissa que o escritor é um comunicador (e de fato é), concluo esse silogismo com o “logo”... tenta sempre, e sempre, e sempre, “convencer” leitores. Portanto (alguns mais e outros menos) o escritor é retórico por excelência. Não sei se estou certo, mas creio que retórica deriva de “repto”, ou seja, de desafio. É tão importante, que no passado chegou a ser matéria ensinada nas melhores universidades mundiais. Só não é hoje, porque os que estabelecem os currículos às vezes não sabem distinguir o útil do inútil. A Retórica compunha, ao lado da Dialética e da Gramática, o “trivium”, ou seja, as três artes liberais. Hoje, muito crítico literário considera-a defeito, vício de linguagem. Só não entendo baseados em que chegaram a essa conclusão. 


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Estúpida dialética do terror


 Pedro J. Bondaczuk


O terrorismo está destinado a ser assunto ainda durante muitos e muitos anos, para sociólogos, jornalistas, ministros de Estado, chefes militares e líderes políticos, entre outros. A despeito de algumas estatísticas virem tentando impingir a idéia de que esta praga mundial está diminuindo, isto está longe da realidade.

É que tais levantamentos são feitos se levando em conta apenas vítimas norte-americanas e européias. De fato, os atentados contra cidadãos e bens deles caíram bastante nos últimos tempos, embora o verão, época em que atos extremistas ousados acontecem com maior freqüência no Hemisfério Norte, ainda sequer tenha começado ali.

Entretanto, mesmo no Velho Mundo, os ataques não pararam. Embora não estejam ocorrendo na França, na Itália, na Alemanha Ocidental, na Bélgica, na Holanda e na Grã-Bretanha, alvos prediletos dos terroristas em vista das controvérsias que eles julgam ter com esses países, os bascos e catalães, por exemplo, não estão dando tréguas aos espanhóis.

Ontem, mais um ato hediondo e covarde dessa espécie foi perpetrado, atingindo, desta vez, não autoridades do governo, ou seus representantes, como a organização sempre fazia. Os afetados foram civis despreocupados, que faziam compras em um shopping-center, quando tudo, de repente, pareceu voar pelos ares.

Ações violentas dessa espécie também não cessaram no Terceiro Mundo. Apenas nos últimos dias, tivemos ataques no Peru, na Venezuela e na Colômbia. E ontem, a casa de um importante analista econômico argentino, o jornalista Osvaldo Granados, foi dinamitada, não se sabe com que propósito.

Aliás, as autoridades desse país já admitem a sombria possibilidade do terrorismo ressurgir na Argentina, por causa da aprovação da controvertida lei da Obediência Devida, que se seguiu a uma anterior, de fins do ano passado, a do Ponto Final, reduzindo, em muito, os processos contra os militares que se excederam na repressão durante o período conhecido como “guerra suja”.

Além desses lugares, que dada a proximidade de nós despertam mais a nossa atenção, grupos separatistas vêm agindo em inúmeras outras partes, no afã de criar países que já nasceriam mortos caso o sonho desses utopistas se tornasse realidade, posto que surgiriam de atos de violência. E esta, como se sabe, é péssima conselheira.

Os tamis, do Sri Lanka, e os sikhs, do Estado indiano do Punjab, estão suprimindo vidas de pessoas que poderiam até apoiar as suas causas, eventualmente, caso elas fossem postuladas por outros canais mais civilizados. No entanto, os parentes dessas vítimas estarão sempre presentes diante das autoridades, exigindo justiça, senão vingança. Afinal, foram agredidos, com a perda de entes queridos, sem que tivessem feito sequer qualquer provocação.

Entretanto, é baldado qualquer esforço para conscientizar os fanáticos, que lançam mão do terror para reivindicar o que quer que seja, que esse não é o caminho mais indicado para a consecução dos seus objetivos. Os bascos, por exemplo, que já são vítimas de discriminação por uma parte da população espanhola (mesmo aqueles moderados, que entendem que a estratégia do entendimento não passa jamais pela confrontação), deverão pagar um preço muito alto pela inconseqüência de um grupo mais exaltado, que entende que os fins sempre justificam os meios que forem empregados para a sua consecução, quando a história está farta de exemplos de que as coisas não são assim. Afinal, como o povo sempre disse, na infinita sabedoria da sua simplicidade: “Quem semeia ventos, somente pode colher tempestades”.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 20 de junho de 1987).


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Crítica literária objetiva e atrativa

Pedro J. Bondaczuk

O livro “O castelo de Frankenstein”, de Salim Miguel, lançado em 1986 pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, é dessas preciosidades cada vez mais raras no mundo literário. Seu título sugere que se trate de alguma obra de ficção, relacionada ao famoso personagem criado pela escritora britânica Mary Shelley, também conhecido como Moderno Prometeu, datado de 1818. Todavia, não é nada disso. Nem é coletânea de contos de terror como muitos podem pensar. Também não é nenhuma reunião desses poemas estranhos, que por isso são extremamente originais, como os tantos que andam circulando por aí. O livro de Salim Miguel, insisto, não é nada disso. É, sim, uma coleção de textos de crítica literária, abordando obras de escritores catarinenses, de outras partes do Brasil, das Américas de língua espanhola, enfim, do mundo. São escritos que publicou na imprensa de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, Estado em que reside e atua.

O Frankenstein do título, embora original, é mais um surto de modéstia do autor. Como se sabe, esse personagem criado pelo Doutor Víctor Frankenstein foi construído com pedaços de cadáveres que o cientista juntou e que deu vida. Já os textos de Salim Miguel não têm nada de mortos e nem de restos, mas são vivos, vivíssimos, claros, objetivos e dos tais que nunca perdem a atualidade, passe o tempo que passar. Porém que o título chama a atenção, pelo inusitado, não resta a menor dúvida. O autor, embora considerado, com justiça, um dos melhores escritores brasileiros da atualidade – tanto que recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2011, pelo conjunto de sua obra – sempre se considerou (e de fato é), sobretudo, jornalista. E como tal, é dotado daquela linguagem ágil, fluente e dinâmica do jornalismo de primeira qualidade. Em vez de recorrer a qualquer preciosismo semântico (que classifico de “pirotecnia verbal”), ou de se valer das tentativas pedantes de mostrar cultura e erudição, tão a gosto de muitos redatores, ele dá seu recado com simplicidade, clareza e objetividade. Enfim, satisfaz o objetivo principal da comunicação: comunica.

Salim Miguel analisa, entre outros, alguns livros de autores desconhecidos para nós, leitores, sobretudo do eixo Rio-São Paulo, de escritores muito bons, que mereceriam sorte melhor, como os de Santa Catarina que agora, com o advento da internet, dos blogs e sites voltados para a Literatura, começam a ser conhecidos e apreciados. Na época em que publicou seu livro, no entanto, não havia esse recurso. E excelentes escritores catarinenses raramente conseguiam a projeção nacional que mereciam. Mas “O castelo de Frankenstein” não se limita à Literatura regional. Pelo contrário, é universal. Salim Miguel enfoca, por exemplo, os contos de Gogol, os romances de Jorge Amado e Gabriel Garcia Marquez e vai por aí afora, flagrando determinadas nuances que escapam de leitores mais desatentos e até de críticos literários mais apressados. Enfim, decodifica, em linguagem simples e objetiva, o que outros escondem mediante uso e abuso de jargões técnicos, acessíveis, apenas, a meia dúzia de iniciados.

Ultimamente tem sido muito difícil o leitor, sobretudo o assinante, poder ler a análise de algum livro, qualquer que seja, no seu jornal diário predileto ou em sua revista de grande circulação. O relacionamento da imprensa com os escritores e com as editoras caracteriza-se por mútua indiferença. É raro, por exemplo, algum grande nome da literatura brasileira ter sua coluna própria, exclusivamente literária, diária ou não, em algum veículo impresso de comunicação de expressiva circulação nacional. Literatura é tema cada vez mais da alçada da internet. Com isso, as duas partes saem perdendo. Editorias voltadas às letras são cada vez mais escassas. No máximo, há seções curtíssimas de Livros nas editorias de Cultura ou de Artes e Variedades.

Os Suplementos Literários, como o que o jornal “O Estado de São Paulo” manteve por décadas, em suas edições dos sábados, foram extintos, em decorrência de custos. Já vão muito longe, também, os tempos em que Guilherme de Almeida, com seu “Ecos ao longo dos meus passos”, Luís Martins, com “Crônicas” e Sérgio Milliet, todos no carinhosamente apelidado “Estadão” paulista, “conversavam” com a gente, a cada edição, a propósito de obras literárias, da vida e principalmente de escritores, esses magistrais artífices desse mundo fascinante da cultura e da observação do comportamento humano. Quando algum jornal trata de livros (o que é cada vez mais raro, reitero) geralmente não dedica ao assunto mais do que dois parágrafos, limitando-se a vagas referências, quase sempre extraídas da orelha ou da contracapa da obra citada, o que, convenhamos, não motiva ninguém a querer adquiri-la ou lê-la. Com isso, o leitor se vê privado do acesso a analistas brilhantes, competentes e realmente entendidos, como Salim Miguel, o que é de se lamentar.


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Wednesday, April 15, 2015

A sensibilidade poética, obviamente, é assexuada. Todavia, em alguns casos, pela temática adotada e pela forma com que determinado poema é desenvolvido, é possível, à simples leitura, distinguir se quem o escreveu é homem ou mulher. O que conta, porém, em todos os casos, é o talento, este também assexuado. A arte poética é isto: é como soprar vidro incandescente, fazendo maravilhosas taças de cristal de fantasias ou, melhor, de “além-da-realidade” ou “transrrealidade”. Não por acaso, o Pai da Psicanálise, Sigmund Freud, recomendava, a quem quisesse conhecer os mais secretos compartimentos da mente, que consultasse não psicanalistas, mas os poetas, aos quais atribuía conhecimentos interditos às pessoas comuns, no que se refere às emoções. Não tenho como discordar (e não discordo) da sua conclusão.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

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Horda de miseráveis


Pedro J. Bondaczuk


A Organização das Nações Unidas promove, como parte das comemorações do 50º aniversário de fundação, em Copenhague, na Dinamarca, a primeira Reunião de Cúpula sobre o Desenvolvimento Social, reunindo chefes de Estado e de governo de 111 países-membros. O encontro, de suma importância, por tratar de um tema em geral deixado para segundo plano, embora se constitua no maior problema da humanidade nesta virada de milênio, ficou um tanto esvaziado pela ausência de alguns governantes tidos como pesos-pesados mundiais, como é o caso do presidente norte-americano, Bill Clinton. Mas nem por isso a conferência deve ser considerada menos importante.

Que não se espere, porém, alguma solução imediata para a questão mais angustiante que está sendo discutida, a da pobreza absoluta, que afeta a 20% de toda a população do Planeta. Ou seja, mais de um bilhão de pessoas dependem completamente dos semelhantes para sobreviver. Não têm renda, moradia, acesso à saúde, à educação e a outros direitos básicos, que lhes garantam uma vida digna e produtiva. São os excluídos da Terra. São os miseráveis, os “invisíveis”, os “sombras”, os parias, os mais pobres entre os pobres.

Nesse ranking da miserabilidade, desgraçadamente, o Brasil está bem situado. Num documento oficial encaminhado aos organizadores da cúpula, o governo brasileiro admite que o País tem 16 milhões de indigentes. A cifra apenas será melhor percebida, em sua trágica magnitude, se for lida junto com comparações.

Esse número de mendigos equivale, por exemplo, à totalidade da população chilena. Ou à metade dos habitantes da Argentina. Ou a todas as pessoas, homens, mulheres e crianças, que vivem na Grande São Paulo. Terrível!

A tragédia brasileira, porém, ainda é maior. Basta informar que, além desses 16 milhões de indigentes, há outros 25 milhões de cidadãos que têm, somente, o suficiente para a comida. Oscilam à beira do abismo, num desespero que parece não ter fim.

Moram em favelas e mesmo ali muitos já não conseguem pagar aluguel. Uma fatalidade, uma perda de emprego, um pacote econômico mais desastrado e pronto. Tais pessoas passam a engrossar o vasto contingente dos que estão abaixo da linha da pobreza absoluta.

Diante desses números aterradores, não é de se estranhar que a violência esteja se tornando a preocupação número um da população, em todas as camadas sociais. Hoje, ela é assunto obrigatório em todas as conversas. Ocupa quase que a totalidade do espaço dos noticiários das televisões e uma quantidade razoável de centimetragem nos jornais.

Se considerarmos formas mais sutis em que ela se manifesta, está presente em toda a parte, preenchendo todo o nosso dia. Violência, por exemplo, é o salário-mínimo que não permite a quem o recebe sequer comprar os alimentos básicos à sua sobrevivência. É o mau atendimento nos hospitais públicos – que lembram os métodos medievais de tratamento e cura, esta última verdadeiro milagre. É a qualidade de ensino dado pelo Estado no 1º e 2º graus.

Por tudo isso, não se entende a omissão do governo brasileiro em não se fazer representar na cúpula de Copenhague pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O governante, homem culto e sensível, conhecedor profundo dessa problemática até por formação, já que se trata de um sociólogo, fica privado de uma tribuna mundial para defender a causa dos excluídos, para denunciar esse sistema internacional insensato, que exclui um quinto da humanidade de todos os direitos, que é incapaz de prover trabalho a 800 milhões de pais e mães de família, que faz vistas grossas à morte de 250 mil crianças somente no prazo de duração do encontro da Dinamarca. Que mundo é esse? O que pensam os que geraram essa situação ou que se recusam a acabar com tamanha injustiça?

Diga-se, a favor de FHC, que ele não é o único presidente da América Latina a se ausentar da cúpula. Carlos Menem, da Argentina; Ernesto Zedillo, do México; Eduardo Frei, do Chile e Julio Maria Sanguinetti, do Uruguai, apenas para citar alguns, também não comparecem ao encontro.

Embora dessa conferência não vá sair mais do que um conjunto de intenções, sua simples realização já é um avanço. Mostra que, finalmente, a humanidade começa a vislumbrar qual é, de fato, o seu maior problema, raiz de todos os demais que a atormentam. Espera-se, somente, que não se limite a ficar no vislumbre e que algo de prático venha a ser feito para desmontar a terrível bomba da miséria que ameaça o Planeta.    

(Artigo publicado na página 2, Opinião, da Folha do Taquaral, em 11 de março de 1995)


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O eclético escritor que amava o povo e o futebol

Pedro J. Bondaczuk

O escritor uruguaio, Eduardo Hughes Galeano, que nasceu, viveu e morreu (neste 13 de abril de 2015) em Montevidéu, é um dos tantos latino-americanos que serão sempre citados (com pertinência, diga-se de passagem) como mais um dos tantos injustiçados pelo Nobel. Ele tornou-se mundialmente conhecido pelo seu livro “As veias abertas da América Latina”. Há quem ache que essa foi sua obra “única” – a exemplo de Juan Rulfo, que só publicou “Planalto em chamas” – o que é tremenda desinformação. Há muita gente que posa de “expert” em Literatura, mas que, ao fim e ao cabo, entende muito pouco do riscado. Galeano, além de escritor, foi notável jornalista, que tinha muito que ensinar aos que exercem essa nobre profissão.

Quanto à sua bibliografia, esta é bastante considerável. Ascende a mais de 40 livros, a imensa maioria abordando a história nem sempre narrada com fidelidade dos povos latino-americanos. Desses, 13 foram traduzidos para o português, o que não é desculpa para não ser lido no Brasil, e que são os seguintes: “As veias abertas da América Latina” (1971); “Vagamundo” (1973); “Dias e noites de amor e de guerra” (1973); “Memórias de fogo” – trilogia (1982 a 1986); “O livro dos abraços” (1989); “As palavras andantes” (1993); “O futebol ao sol e à sombra” (1995); “Ser como eles” (1997); “Mulheres” (1997); “Pés acima: a escola do mundo ao revés” (1998); “Bocas do tempo” (2004); “O teatro do bem e do mal” (2002); “Espelhos, uma quase história universal” (2008) e “Os filhos dos dias” (2012), a última obra que publicou, também lançada em nosso país.

Eduardo Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940, em uma família de classe média, de ascendência européia. Batalhou muito para se instruir, tendo, na adolescência, assumido funções bastante modestas, como as de pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. O curioso é que seu sonho de infância não era, propriamente, ser jornalista e nem escritor. Era o de ser jogador de futebol profissional, certamente influenciado pelo título mundial (o segundo da sua história) conquistado em 1950, pelo Uruguai, no célebre episódio do “Maracanazzo”, ocasião em que tinha quase dez anos de idade (que completaria meses depois da conquista).

Não por acaso, um dos primeiros livros que publicou, em 1968, foi “Su majestad El futbol” (não traduzido para o português). Mas sua obra mais conhecida, abordando este apaixonante esporte das multidões, data de 1995. Trata-se de “O futebol ao sol e à sombra”, esta sim lançada no Brasil e bastante conhecida, sobretudo da mídia esportiva brasileira. Neste livro, entre outras coisas, Galeano compara esse esporte ora como teatro, ora como uma guerra, com suas táticas e estratégias. E estava errado? Óbvio que não. Narra, principalmente, a final de 1950 e tudo o que a cercou, antes e depois da conquista uruguaia (e, consequentemente, do fracasso brasileiro considerado o maior de nossa seleção até ser superado pelo de 2014, com a trágica goleada sofrida diante da Alemanha por 7 a 1).

Apesar de “As veias abertas da América Latina” ser a obra mundialmente mais conhecida de Eduardo Galeano, a que teve melhor acolhida por parte da crítica internacional foi a trilogia “Memórias de Fogo”, uma espécie de resgate da História da América Latina, com seu punhado de heróis e sua multidão de vilões, sobretudo os vários caudilhos que governaram os países latino-americanos e foram responsáveis pelo secular atraso do hemisfério. Ele foi comparado (comparação com a qual concordo) com o norte-americano John dos Passos e com o colombiano Gabriel Garcia Marquez. O renomado crítico do “The Times”, Ronald Wright, chegou a escrever que "os grandes escritores dissolveram gêneros antigos e encontraram novos. Esta trilogia de um dos mais ousados e talentosos da América Latina é impossível de classificar". Da minha parte, classificaria a obra de genial.

Quando afirmo que Eduardo Galeano é um dos tantos e tantos e tantos injustiçados do Nobel não exagero e nem estou tecendo loas pelo fato dele ter falecido. O escritor uruguaio inovou em Literatura. Conseguiu a façanha de combinar em sua obra ficção, jornalismo, análise política e História. Recorde-se que, nos mais de cem anos de existência da premiação, apenas seis escritores latino-americanos foram premiados: Gabriela Mistral (Chile), em 1945; Miguel Angel Astúrias (Guatemala), em 1967; Pablo Neruda (Chile), em 1971; Gabriel Garcia Marquez (Colômbia), em 1982; Octávio Paz (México), em 1990 e Mário Vargas Llosa (Peru), em 2010. Só de brasileiros que mereceram o Nobel e não foram sequer cogitados, poderia citar, na ponta da língua, pelo menos cinco dezenas de escritores. De todos os injustiçados, considero como “pecado mortal” irremissível o fato de Machado de Assis não ser, nem remotamente, cogitado para o Nobel de Literatura. Afinal, “ignorância literária” tem limites, ou pelo menos deveria ter.

Eduardo Galeano vem juntar-se – excluindo os brasileiros – a escritores excepcionais da América Latina, nunca cogitados a esse prêmio. Como os argentinos Jorge Luís Borges, Ernesto Sabato, Júlio Cortázar, Ricardo Piglia e Adolfo Bioy Casares. Ou como o nicaragüense Ruben Dario. Ou como os cubanos Alejo Carpentier, José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante. Ou como o paraguaio Augusto Roa Bastos. Ou como seus conterrâneos uruguaios, Horácio Quiroga, Juan Carlos Oneti e Mário Benedetti. E a relação poderia se estender por páginas e mais páginas. Além do que, não existe um Prêmio Nobel póstumo, para corrigir tantas e tão gritantes omissões.


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