O Escrevinhador

Tuesday, January 05, 2010




A era da informática tende a contribuir decisivamente para a racionalização da vida urbana, fazendo, por exemplo, sem esforço, aquilo que as autoridades vêm tentando fazer (sem grande sucesso, através dos inconvenientes, mas necessários, rodízios): tirar centenas de milhares de veículos motorizados das ruas. Como? Através das chamadas "cidades virtuais". O cidadão já pode, se quiser, realizar operações do cotidiano, como pagar e receber contas, fazer depósitos e saques em bancos, comprar produtos em supermercados e lojas etc., sem sair de casa. Quando John Naisbitt previu, no livro "Megatendências", a possibilidade das residências se transformarem em extensões das grandes empresas e corporações, muitos viram na previsão novo exercício furado de "futurologia". Hoje, estima-se que pelo menos 200 mil norte-americanos já trabalhem em suas casas, com computadores bancados pelos seus empregadores. O futuro já chegou!




Vontade e consciência

Pedro J. Bondaczuk

O convívio entre as pessoas, dadas as contradições do nosso tempo entre a avançada tecnologia e o retrocesso do humanismo, descamba cada vez mais para o absurdo. A vida que se vê por aí, no plano material, naquele que se convencionou chamar de "real", é marcada por dores, medos, egoísmo, desamor, injustiças e violência. E também por sujeição, exploração, cinismo, corrupção e impiedade. Vez por outra tomamos conhecimento de um ato nobre, de um gesto desprendido, de uma manifestação genuína de amor. Não daquele possessivo, que tudo quer e pouco ou nada dá em troca. Mas do magnânimo, do desinteressado, do espontâneo, que ainda resiste e existe (embora a maioria duvide), mas que é extremamente raro.
Porém essa não é uma regra, senão exceção. No mais... O noticiário da imprensa é um desfile de desgraças, corrupção, sangue e aberrações. Ao contrário do que pensam os alienados, não é a mídia que cria (ou pelo menos amplia) tamanha insanidade. Ela não passa de espelho do comportamento humano. Só reflete a feiúra e a loucura do suposto "homo sapiens".
É preciso que o homem crie um outro mundo – o da razão, o da arte, o do ideal, o da sensibilidade – para que esta existência se torne pelo menos suportável. Não é a vida que é ruim, mas a maneira como somos forçados a viver. Quando nascemos, isto que está aí já existia e já havia um relativamente extenso retrospecto de insânia, que se denomina de "História", instalado. Deixaremos que as gerações futuras encontrem o mesmo cenário, ou quiçá pior? É o questionamento que o intelectual, o jornalista que ama o que faz, homem racional e idealista devem fazer a cada instante da sua existência. Se deixarmos, seremos cúmplices dos tiranos, dos corruptos e dos assassinos que levaram a humanidade ao atual impasse.
Sem ilusão de que as coisas possam e vão melhorar, o indivíduo é capaz de enlouquecer, tamanha será sua impotência para se proteger e tão grandes são os perigos que o cercam a cada passo do seu convívio, desde que põe os pés fora de casa até seu regresso (e mesmo no recesso do seu lar). Mas esta precisa ter uma dosagem certa. Não pode se limitar a mera fantasia. Tem que ser verossímil. Precisa poder ser transformada em potencial, em meta, em alvo, em objetivo factível a se alcançar.
Estas idéias, embora concorde com elas (e nem posso deixar de concordar diante das evidências palpáveis da sua exatidão), não são minhas. São do teatrólogo, poeta, ensaísta político e ex-presidente da República Checa, Vaclav Havel. Li, recentemente, uma resenha de seu pensamento e senti-me enriquecido por conhecer alguém que conseguiu colocar em palavras aquilo que eu apenas intuía, embora sentisse na própria carne as contradições que ele aponta.
Como sobre o absurdo da existência tal como a vivemos, onde a busca do poder é o objetivo maior de alguns, o acúmulo de bens materiais é de outros e a luta pura e simples pela sobrevivência física é o que resta à maioria das pessoas. Por que, se todos os homens nascem iguais e o fim é idêntico – "com terra por cima e na horizontal", como diz a letra de um samba de Billy Blanco? É preocupante notar que a maioria das pessoas sequer crê nas benesses da democracia, pelo menos em nosso país. É o que revela pesquisa das Nações Unidas, feita em vários países, e divulgada nesta semana.
O levantamento em questão constata, entre outras coisas, que 54,7% dos brasileiros trocariam o regime democrático em vigor por uma ditadura, caso ela fosse capaz de resolver problemas econômicos. Claro que não é. Mas a maioria das pessoas não tem essa percepção. Pior é o que os entrevistados pensam dos políticos (não, convenhamos, sem forte dose de razão, embora não se deva generalizar). Sessenta e quatro por cento dos pesquisados disseram que “os governantes mentem e não cumprem suas promessas”.
Outro aspecto marcante da obra de Vaclav Havel é o que destaca a importância do intelectual em geral (e do jornalista, em particular) como fator de transformação social, como o que desperta e cristaliza os anseios de liberdade do indivíduo e dos grupos mesmo que não organizados ou mobilizados e lhes mostra o caminho adequado para empreender essa luta milenar, essencial, básica, fundamento da paz. Essa influência é que torna tais pessoas "especiais". Mas também as transforma em contestadoras, revolucionárias, subversivas, "perigosas" para os tiranos e os que lucram com o sistema e que por isso agem no sentido da sua preservação.
Quem exerce esse poder de influenciar afronta enorme responsabilidade. Não pode ser um cego guiando outros. Precisa ter clarividência para entender que as idéias são mais poderosas do que as pessoas. Deve armar a estratégia adequada para que a verdade prevaleça. E necessita ter, sobretudo, sinceridade de propósito, para não transformar a vitória sobre a tirania em outra pior. Só faz cabeças quem já tenha a própria feita. O intelectual (e o jornalista, reitere-se) dependendo do seu engajamento e do seu poder de persuasão, tanto pode se transformar em fator de libertação quanto conduzir multidões ao caos da violência, do preconceito e da destruição.
É escusado apresentar exemplos históricos, de lideranças equivocadas, que conduziram povos à desgraça, por serem tão recentes e abundantes. No sentido inverso, os casos também abundam, embora em número menor. O verdadeiro líder, o que dissemina humanismo e razão e cuja vida se torna um marco, um referencial, um guia no caminho da liberdade para os homens do seu tempo e das gerações vindouras, trabalha, basicamente, com dois conceitos abstratos importantes: vontade e consciência. Cada um deles deve ser aplicado no momento e na dosagem adequados.
Através do primeiro, são deflagradas as ações, embora estas possam ser positivas ou negativas. Mediante o segundo, são feitas as correções de rumo, evitadas as distorções, reparadas as injustiças e dominados os demônios interiores que tentam o indivíduo a subjugar e explorar seus semelhantes. O escritor Humberto de Campos sintetizou os dois, determinando o seu âmbito e abrangência, ao escrever: "Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência". Existe síntese melhor?

Monday, January 04, 2010




O crescimento desordenado dos habitantes de um país que não conte com recursos para absorver novos e crescentes contingentes de pessoas conduz à ocupação de todos seus espaços, com crescente desmatamento e progressiva degradação do solo. De acordo com Programa de População da ONU, nascem, atualmente, em média, três bebês por segundo no Planeta. Descontando os indivíduos que morrem – por doenças, assassinatos, acidentes, guerras, fome ou velhice – a espaçonave Terra ganha, diariamente, cerca de 250 mil passageiros. Não precisa ser gênio para concluir que um dia o limite será atingido, se é que já não foi. O trágico é que 90% desse crescimento populacional ocorre onde a prudência manda que se limite a natalidade. Ou seja, nas regiões mais pobres do mundo. A ONU informa que dos 6,7 bilhões de habitantes da Terra, mais de um bilhão, ou quase um quinto da humanidade, vive em estado de absoluta miséria. Há solução? Qual?




Armadilha das cidades

Pedro J. Bondaczuk

O consumidor brasileiro, a despeito da existência de códigos, leis, órgãos e associações que pretensamente atuam em sua defesa, é um dos mais desprotegidos e desrespeitados do mundo. Em geral, tem de arcar com prejuízos na aquisição de produtos e serviços de má qualidade, pagos a peso de ouro e quando tenta reclamar, acaba transformado no vilão, no chato, no encrenqueiro.
Nem é preciso citar exemplos para fundamentar essa afirmação. Raros são os cidadãos que nunca passaram por essa situação desconfortável e sobretudo prejudicial. Os órgãos de defesa do consumidor fazem o que podem, mas poucos cidadãos são informados o suficiente para buscarem sua ajuda quando são, ou quando se sentem lesados.
Outro aspecto interessante a ser notado é que, nesta era do consumo em massa, o indivíduo acaba, de fato, massificado, despersonalizado, rotulado. Ele é o cliente, o espectador, o paciente, o leitor, o usuário, o passageiro, o fiel, o torcedor, o funcionário, o aluno e vai por aí afora, e nunca o Paulo, o Antonio, o José ou a Maria. As pessoas têm sido submetidas a instituições que elas próprias criaram para as servir e que findam por fazer delas suas escravas.
É o caso dos Estados, por exemplo, que não passam de uma abstração, de um rótulo, de um conceito. A grande concentração da população mundial contribui, de forma decisiva, para a crescente despersonalização do indivíduo. As primeiras cidades surgiram, conforme alguns historiadores, há cerca de 9 mil anos e foram erguidas para proteger as pessoas de saques de bandoleiros nômades, de tribos bárbaras que recorriam à força para garantir seu sustento e sobrevivência.
Devem ter sido lugares agradáveis, onde todos se conheciam e em geral eram ligados por algum laço de parentesco. A quantidade de moradores era pequena e havia um verdadeiro espírito comunitário. Hoje... Bem, na atualidade, as cidades não passam de enormes depósitos de pessoas, amontoadas umas sobre as outras em enormes caixotes de concreto, vidro e aço. Barulhentas, poluídas e agitadas, são o protótipo de como não se viver. Transformaram-se numa selva, sem os atrativos desta.
O fator segurança, que determinou sua própria concepção, hoje virtualmente não existe. A solidariedade, que ligava os moradores das cidades antigas na defesa do patrimônio individual e coletivo, foi substituída pelo antagonismo, pela desconfiança, pela indiferença e pela ostensiva hostilidade. Não se trata mais de comunidade, pois pouquíssima coisa, quase nada, é atualmente comum.
A mania pelo estereótipo estende-se por todos os setores da existência e nós, jornalistas, de maneira até inconsciente, não raro compactuamos com ela e a disseminamos em nossos textos. Seres humanos são classificados por etnias, por religiões, por cor ou por convicção política e não são levados em conta na sua essência, naquilo que realmente têm de importante, na sua individualidade. Esse procedimento, fruto de uma cultura profundamente arraigada nas diversas sociedades, gera preconceitos, rancores gratuitos, ódios insensatos e está na raiz de todas as guerras, revoluções e explosões de violência que marcaram a história.
Eça de Queiroz, em seu livro "A Cidade e as Serras", observou: "Na natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetitivo! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte se assemelhassem! Na cidade pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação, as idéias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há de mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro...A mesmice: eis o horror da cidade!"
Por que não encarar o homem pelo que ele é? Por que não conceder aos outros o respeito que exigimos deles? Por que nos colocarmos numa posição de todo poderosos quando somos transitórios, passageiros, impotentes para vencer nossa insignificância e efemeridade? Empresas, instituições, Estados, sistemas e até religiões passam e às vezes sequer deixam vestígios de sua existência ao longo da história.
Ficam princípios, atos, idéias, sentimentos, desde que realmente valham a pena. Hoje a figura da "pessoa jurídica" prepondera sobre a física. Mas afinal, o que ela significa? A gentileza vem deixando de ser uma espontânea manifestação de respeito pelo próximo para se transformar em mera "tática de venda". Por não se rebelar contra isso, o consumidor, que acima de tudo é um ser humano, compactua com a despersonalização e se automatiza, robotiza, age como uma máquina programada e não como "homo sapiens". É preciso uma nova confusão de línguas, como a registrada no relato bíblico, para que os construtores dessas babéis contemporâneas, dessas selvas de concreto e asfalto, cada vez mais loucas, violentas, enfumaçadas e barulhentas, se dispersem pelo mundo.

Sunday, January 03, 2010




Como há 50 anos, no início da década de 60, temos pessoas rebeldes e até em maior número do que naquela ocasião. Mas sua rebeldia é inócua. Trata-se, apenas, de mera auto-afirmação, de uma batalha sem causa, destrutiva, ou, no mínimo, meramente catatônica. Caracteriza-se pelo ceticismo, pelo imobilismo, pela amargura, pelo isolamento. Claro que há exceções, mas estas, infelizmente, são cada vez mais raras. Bandeiras não faltam para serem erguidas. Pelo contrário, existem, e em maior quantidade do que nos anos 60. A maior delas é a da construção de um Brasil justo, próspero e decente, onde as crianças sejam encaradas como o grande patrimônio nacional e não meros estorvos, abandonadas e alvos de impiedosas caçadas. Eis, portanto, uma grande causa para os que se rebelam contra o que aí está.




Cargo espinhoso, mas de grande procura

Pedro J. Bondaczuk


O vencedor das eleições de hoje, na República Dominicana, irá assumir, junto com a presidência, uma soma de problemas capaz de transtornar qualquer mortal. Eles são de tal dimensão, que levaram um presidente, Antônio Guzman, ao suicídio, em 4 de julho de 1982. Inflação elevada, brutal dose de recessão, desemprego e subemprego atingindo a cifra assustadora de 59% de toda a mão de obra do país e queda acentuada nos principais produtos de exportação dominicanos, compõem os pratos especiais desse "indigesto cardápio". Apesar de tudo isso, seis políticos ainda mostraram disposição para postular esse espinhoso cargo.

O pleito vai opor, além de dois tradicionais adversários, também dois ex-aliados. No primeiro caso, estarão competindo, palmo a palmo, urna a urna, pelos preciosos votos, os ex-presidentes Joaquin Balaguer e Juan Bosch.

O primeiro, governou a República Dominicana por 12 anos, desde a intervenção que o país sofreu, por parte da Força Interamericana de Paz (da qual o Brasil fez parte). Quando seu candidato perdeu as eleições de 16 de maio de 1978, chegou a ensaiar um golpe de Estado, alegando fraude na votação. As Forças Armadas movimentaram-se nesse sentido, mas uma advertência do então presidente norte-americano, Jimmy Carter, devolveu Balaguer à razão. Embora a contragosto, admitiu a vitória da Antônio Guzman, na oportunidade, e deu posse ao sucessor. Antes não desse.

Juan Bosch, um marxista confesso, nem chegou a esquentar a cadeira presidencial em 1963. Governou o país, recém saído da ditadura de Leônidas Trujillo (de 31 anos de duração) somente sete meses. Frise-se que sua eleição foi a primeira livre que ocorreu na República Dominicana desde 1914. Bosch foi derrubado pelos militares e esse golpe deu origem à guerra civil de 1965 e à posterior intervenção estrangeira.

Os dois ex-aliados que estão hoje em campos opostos são o atual vice-presidente, Jacobo Majluta e o próprio Balaguer. Para o pleito de 1982, este último indicou o primeiro para ser seu candidato presidencial. Não obteve sucesso, pois ele foi repudiado pelo partido. Acabou indicado para ser o vice.

Majluta chegou, inclusive, a assumir a presidência dominicana por um mês, quando do suicídio de Guzman, até a posse de Salvador Jorge Blanco, que havia vencido o pleito de 16 de maio daquele ano, no qual ele também havia saído vitorioso pela segunda vez.

Hoje os dois estão em campos opostos e parece que o pupilo leva nítida vantagem sobre o mestre. Isso, pelo menos, é o que indicam as pesquisas de opinião mais confiáveis. Majluta revela-se mais simpático ao eleitorado e tem a seu favor 25 anos a menos de idade do que o seu ex-protetor.

A República Dominicana vem vivendo um período muito atribulado, especialmente desde 1984, quando o atual presidente recorreu ao Fundo Monetário Internacional e aceitou a sua "fórmula mágica". Procedeu à maxidesvalorização do peso dominicano, elevou os preços dos combustíveis e dos gêneros alimentícios em 200% e achatou os salários, bem de acordo com o figurino recessionista do FMI.

Conseguiu, com isso, apenas despertar a ira popular. Durante o mês de abril daquele ano, San Domingos e as principais cidades dessa porção da Ilha Hispaniola (que esse país divide com o Haiti) protagonizaram sangrentos distúrbios, que deixaram, em seu final, 59 mortos, 20 feridos, mais de 4 mil presos e prejuízos materiais quase tão elevados quanto os causados pelo furacão David, em 1979, que foram de US$ 1 bilhão.

Aliás, desde a ocorrência dessa devastadora tormenta, a economia dominicana jamais se aprumou. E a dívida externa nacional continua crescendo, ultrapassado, atualmente, os US$ 3,5 bilhões.

Com todas essas desvantagens, seis políticos querem passar para a história como um dos raros que conseguiram presidir esse violento e problemático país mediante a escolha do povo. Não têm varinhas de condão, não tiram coelhos da cartola e nem fazem milagres, embora apregoem, compreensivelmente, isso nos palanques. A qual deles caberá o desafio de tentar essa inglória tarefa de pôr ordem na casa? A voz soberana do eleitor é que irá dizer isso hoje. E "vox populi, vox Dei".

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 16 de maio de 1986)

Saturday, January 02, 2010




Como as comunicações via satélite reduziram o Planeta à aldeia global apregoada por Marshall McLuhan, temos, em âmbito ampliado, uma situação idêntica à da França de julho de 1789. A fome, o desemprego, a falta de perspectivas de vida atormentam severamente a dois terços da humanidade, enquanto o um terço restante segue, estupidamente, incensando o “bezerro de ouro”, crente que a capacidade de tolerância ao sofrimento dos desvalidos seja infinita e inesgotável. O nosso tempo, aliás, é o das grandes contradições. Nunca se falou tanto, por exemplo, em direitos humanos e jamais eles foram tão desrespeitados. Temos que agir, posto que ordeira e pacificamente, para modificar essa trágica realidade. É a omissão dos bons que propicia a perversa atuação dos maus. Tenhamos isso sempre em mente!




Soneto à doce amada – LI

Pedro J. Bondaczuk

Permaneço em silêncio. Ela dorme,
a cabeça apoiada em meu peito.
A paz é completa e é enorme
a ternura, imenso o meu respeito

por esta mulher que eu amo tanto
e que em mim tem tanta confiança,
e que me desvenda o seu encanto
juvenil, pois é quase criança.

Em seus seios um beijo deponho
levemente, como um passarinho
que pousa, sorrateiro, mansinho

na haste da erva da campina.
Não quero despertar do seu sonho
Esta amada, inocente menina!

(Soneto composto em Campinas, em 25 de setembro de 1965).

Friday, January 01, 2010




Os líderes nacionais que conduzem os seus povos às guerras deveriam se conscientizar da gravidade de seus atos. Precisariam ter noção das desgraças que vão causar. Deveriam entender (mas não entendem) a real natureza do poder que lhes é outorgado. Necessitariam ter em mente o todo, e se conscientizar que o período que vivem é um mero segmento de algo muito maior, infinitamente mais amplo, que é o eterno. Não há glória alguma em destruir, causar dor, matar. E nem há ciência.. Na verdade, não somos nada. Somos menos do que um piscar de olhos na eternidade. E, no entanto, alguns de nossos atos têm um alcance tão grande, que continuam a produzir efeitos através dos anos. Às vezes, até por séculos, muito tempo depois da nossa extinção como pessoas.




Fuga e união

Pedro J. Bondaczuk

A realidade, muitas vezes, se nos afigura tão horrenda, violenta, injusta, sem sentido e sem esperanças de que mude para melhor, que nos sentimos tentados, nessas ocasiões, a fugir dela, a nos distanciarmos do que acontece conosco e/ou ao nosso redor e fingir que nada disso está acontecendo. Mas como fazer isso? Fugir para onde?
Há, é verdade, circunstâncias que são o oposto. Existem momentos tão sublimes e gratificantes que gostaríamos que não acabassem nunca. Sonhamos que o mundo todo venha a ser tão maravilhoso, como aquilo que vivenciamos, mas que temos convicção de que irá passar. Tudo passa, o bom e o mau. Mas como fazer isso? Como tornar esse sonho pelo menos minimamente realizável, se não concreto?
Só conheço uma única resposta para todas essas questões. Podemos fugir da realidade horrenda que nos assola, ou que nos rodeia, através da arte. E só podemos mudar o mundo para melhor também por meio dela. Não ria, amigo leitor, se você for artista saberá do que estou falando.
Esse ato de criação, essa forma de expressão de sentimentos, pensamentos e observações – como que num desabafo – proporciona-nos o meio mais seguro e eficaz para a fuga do horror, da violência, das injustiças e de tudo o que transforma o mundo – que poderia e deveria ser um paraíso para todos – em sucursal do inferno. E fugir para onde? Para um lugar em que tirano algum poderá nos alcançar e atingir: para o nosso próprio interior.
Creio, piamente, no poder regenerador da arte. Ademais, ela não é, apenas, veículo de fuga de uma realidade aziaga e má. Em mãos peritas tende a se transformar na concretização de sonhos e de ideais que de outra forma seriam irrealizáveis. O talento do artista é varinha mágica que transforma os cenários, atos e pessoas mais horrendos em protótipos de beleza, de grandeza e de transcendência.
Um compositor talentoso, tendo por matéria-prima dissonâncias que ferem e machucam o ouvido, é capaz de elaborar, apenas com estrondos, gemidos, urros e estridências, melodias harmoniosas e suaves, que nos embalam o espírito e fazem nossa alma dançar.
Pintores hábeis reproduzem em suas telas – apenas com pincéis e tintas, às quais misturam com perícia para dar-lhes todos os tons da natureza – não só o concreto e belo, mas o mundo ideal que trazem em seus corações e mentes.
Escultores, tal como Deus modelando o primitivo Adão, fazem da pedra rústica e suja perfeições de formas e de movimentos, de maneira que só eles sabem fazer, mediante a força, a perícia e a grandeza do seu talento.
Escritores expressam a beleza, a magia, o poder e a transcendência dos magnos ideais que movem o homem tendo por ferramentas, apenas, a ambigüidade, a indigência e a fragilidade das palavras, que manipulam com a perícia de um tecelão a tecer seus panos.
Vocês já imaginaram um mundo sem artes? Já pensaram como seria tão mais sombrio, horrendo, violento, injusto, sem graça e sem esperanças de que mudasse para melhor? A fria realidade se tornaria superlativa, ou seja, gélida.
Não teríamos como expressar nossos mais acalentados sonhos e magníficos ideais. Seríamos uma fera a mais em um mundo povoado apenas por feras, na mera e selvagem luta pela sobrevivência, sem que esta, todavia, tivesse o menor sentido ou graça.
Não sei o que você pensa a esse propósito, estimado leitor e esteja certo que, mesmo que não concorde com seu pensamento, respeitá-lo-ei às últimas conseqüências. Da minha parte, porém, não saberia viver sem arte. E não viveria. Abriria mão, liminarmente, desta fascinante e simultaneamente perigosa aventura que sei quando e como começou, mas não tenho a menor noção de quando e como irá terminar.
Para mim a arte, qualquer arte, é tão fundamental como o ar que respiro, o alimento que me mantém, a veste que me aquece ou o abrigo que me acolhe. Este sempre foi meu credo desde que tomei consciência de mim, do que me rodeia e dessa incompreensível e misteriosa imensidão que é o universo.
Mesmo correndo o risco de ser mal interpretado e tido como piegas ou alienado, não tenho vergonha e nem receio de declarar, aos quatro ventos, peito estufado e plenamente convicto do que digo: creio na beleza, na grandeza e na transcendência do homem!!! E expresso essa minha crença, apenas, através da arte, que é meu DNA, minha vez e minha voz!

Thursday, December 31, 2009




Às vezes, julgamo-nos onipotentes e não nos damos conta da nossa pequenez, de que dependemos de forças e circunstâncias muito além da nossa capacidade, sobre as quais não temos o mínimo controle. Há milhares de tragédias potenciais tendentes a nos conduzir à catástrofe que podem se abater sobre nós quando menos esperarmos. Basta citar, por exemplo, os efeitos catastróficos da tsunami que se abateu sobre a Ásia, em 26 de dezembro de 2004, que deixou cerca de meio milhão de mortos. Ou do furacão Katrina, que quase varreu Nova Orleans do mapa. Se quisermos, portanto, ter um futuro, temos que começar sua construção já! Mas com atos concretos e não com fantasias. Por isso, 2010 tem que ser caracterizado pela ação: conjunta, solidária, incansável e competente. Só dessa forma, poderemos fazer do ano que está às portas um período de alegrias, satisfações e sucessos. E com a ajuda de Deus, claro!




Alma nova

Pedro J. Bondaczuk

O início de cada novo ano é recebido de maneiras muito diferentes pelos três principais tipos de pessoas que existem: os otimistas, os pessimistas e os indiferentes, aqueles que deixam a vida rolar, sem esperar e nem desesperar demais dela. Observe-se que otimismo não implica em alienação, pelo menos não necessariamente. É uma predisposição pessoal, uma postura positiva, uma atitude de esperar sempre o melhor, mesmo nas piores circunstâncias e situações.
Já o pessimismo, óbvio, é o comportamento diametralmente oposto. É o de achar que nada no mundo é tão ruim que não possa piorar. É a postura das pessoas que no fundo da consciência esperam mais da vida e das pessoas do que estas provavelmente lhes irão dar e que, quando essas expectativas não são satisfeitas, enxergam tudo e todos sob o prisma da decepção e da frustração, ou seja, cinzento, enfumaçado, opaco e, portanto, ruim.
Creio que a humanidade se divida, grosso modo, em partes praticamente iguais desses três tipos de personalidade. Talvez haja, admito, um pouquinho a mais de pessimistas, em decorrência, até, da imensa horda de famintos, miseráveis e sofredores que povoam o Planeta.
Otimismo, pessimismo e indiferença, porém, não dependem intrinsecamente de condições econômicas e/ou sociais. Conheço muita gente que não tem rigorosamente nada de seu ou seja, usando jargão popular, não tem nem “onde cair morta”, mas que não abre mão da esperança de dias melhores.
É alegre, de uma alegria de causar estranheza e inveja em quem não consegue senti-la, confiante e, sobretudo, batalhadora. Como sempre espera o melhor, não mede esforços para a sua obtenção, acreditando que tanto esforço trará, mais dia menos dia, resultados favoráveis (mesmo que nunca traga).
Em contrapartida, cruzo, a todo o momento, com pessoas privilegiadíssimas, que têm muito mais do que fazem ou fizeram por merecer, que jamais passaram por qualquer espécie privação, que não têm a mínima carência, nem material e nem afetiva e que, no entanto... têm a alma parecida com um reservatório de vinagre. São azedas, desagradáveis e, principalmente, insuportáveis. São como aves de mau agouro. Na verdade, sequer sabem o que querem.
Quanto aos indiferentes, há milhões, mundo afora. Estes, em vez de pensarem na vida, limitam-se a viver. Pouco desejam, mesmo que nada tenham. E quando têm, contentam-se com a posse, sem questionar se o que possuem é muito, pouco ou apenas o suficiente. Creio que essas pessoas, à sua maneira, até sejam felizes. Ao contrário dos otimistas, estes sim são alienados, na mais pura e legítima caracterização de alienação.
Esses três tipos, portanto, nem poderiam ter as mesmas expectativas em relação ao início de cada novo ano. Têm posturas opostas e, forçando um pouco a constatação, até “almas” diferentes. Raramente mudam. Embora não se saiba em que momentos da vida assumiram essas posturas, essas findam por serem definitivas.
O otimista revê o que de positivo lhe aconteceu no ano que termina e acredita, sem titubear, na pior das hipóteses, que as mesmas coisas voltem a lhe acontecer. E na melhor... Espera surpresas agradáveis e oportunidades renovadas. Quanto aos fracassos, não lamenta por eles. Avalia onde errou e busca corrigir esses erros, para que não mais se repitam.
Já o pessimista sequer menciona o que de positivo lhe ocorreu. Talvez nem saiba identificar. Provavelmente, sequer se dá conta dessa ocorrência. Concentra-se nos insucessos e busca se prevenir para que estes não se repitam.
Fá-lo, todavia, de forma equivocada. Isola-se de tudo e de todos e vê, nas situações mais triviais, corriqueiras e inocentes do cotidiano, perigos que só ele enxerga. Encara o início de um novo ano como um ano a menos de vida. E alguns chegam ao exagero de desejarem a morte, na qual vislumbram o fim dos seus sofrimentos, na maior parte, apenas, imaginários (ou exclusivamente temidos).
Nesse aspecto, os indiferentes levam vantagem sobre os outros dois tipos. Não espera vitórias e nem teme fracassos. Apenas ignora ambos. Festeja o início de novo ano porque todos o fazem, sem emprestar ao momento nenhum significado especial.
Creio que esses três tipos de pessoas deveriam raciocinar como Gilbert Keith Chesterton sugere: “O objetivo de um ano novo não é que nós deveríamos ter um ano novo. É que nós deveríamos ter uma alma nova”.
E você, querido leitor, como encara a superação de mais uma etapa, com o consequente início de uma nova, com todo o potencial, positivo e negativo, que ela traz ou pode trazer? É otimista, pessimista ou indiferente?
Não farei nenhum juízo de valor e reservo minhas críticas (ou elogios) apenas a mim mesmo. Porquanto, qualquer que seja sua postura, lhe desejo, com absoluta sinceridade, um FELIZ ANO NOVO! E, se possível, de “alma nova”.

Wednesday, December 30, 2009




A visão do tempo precisa ser mudada. Octávio Paz acentua: "Saber que somos mortais nos leva a indagar: que futuro melhor nos espera? A ameaça de aniquilação do mundo deu novo e redobrado valor à hora presente. A presença é um novo erotismo fundado, não na eternidade, mas no aqui e no agora". Já passou pela cabeça da amiga que pode nem haver um ano 2008 para a humanidade? Poderíamos traçar inúmeros cenários possíveis que levariam o mundo à catástrofe. Suponhamos que ocorra uma guerra nuclear. Ou que um meteoro atinja a Terra e a destrua. Ou que um outro tsunami, de gigantescas proporções, surpreenda países e cidades. Os perigos a que estamos expostos são infindos. Tantas e tantas catástrofes podem acontecer. Mas Deus haverá de nos proteger e nada disso ocorrerá! Mas temos que fazer a nossa parte para salvar o Planeta, que é o nosso lar cósmico! Irmanados e solidários, saibamos fazer de 2010 um ano de paz, prosperidade e alegrias.




Futuro oculto

Pedro J. Bondaczuk

O futuro está na iminência de, mais uma vez, metamorfosear-se bem diante de nossos olhos. Vai se tornar, numa fração de tempo tão ínfima que não pode sequer ser mensurada, presente e, sem aviso ou delongas, em seguida, se consolidar em caudaloso e infinito passado. Em poucas horas, mais um ano ficará na lembrança, com o surgimento de um novo a nos desafiar a preenchê-lo de alegrias, sucessos e felicidade.
Essa é, pois, excelente oportunidade para “filosofarmos”. Não, claro, com aquela filosofia dos jargões complicados e das variadas escolas, teorias exóticas e conceitos vagos e nebulosos, incompreensíveis à maioria. Mas com a simples, a ditada pela observação criteriosa dos fatos e madura reflexão sobre suas origens e conseqüências. Momento algum é mais apropriado para esse exercício racional do que o da passagem de um ano para outro. Ou seja, agora.
Não há quem não se ocupe, de uma forma ou outra, com o futuro. Essa preocupação, desde que moderada, é saudável e desejável. Contudo, é preciso ter em mente que o futuro não passa de abstração, de mero potencial, de simples vir a ser. Pode se concretizar rapidamente, transformando-se, em infinitésimos de segundo, no presente, como dissemos, ou pode nunca acontecer, em decorrência da nossa mortalidade. Sua matéria-prima, portanto, são os sonhos, as esperanças, as projeções da mente e da imaginação. A realidade é o momento presente, curtíssimo, mais rápido do que um piscar de olhos. E é, principalmente, o passado que, reitero, é caudaloso e extenso.
Há pessoas que garantem pensar no futuro – que nem sabem se terão (ninguém jamais sabe) – mas se esquecem das tarefas mais comezinhas, das obrigações mais simples do dia-a-dia. Descuidam de tudo: das finanças, dos amores, dos relacionamentos e até da saúde. Concentram-se, apenas, num eterno “amanhã”, que para elas nunca chega.
Trata-se, porém, de grave equívoco. Quem age dessa maneira, arruína a vida, sem sequer se dar conta. Compete-nos viver, da melhor maneira possível, um dia por vez, como se este viesse a ser o último. É a única forma honesta, sábia e eficaz de construir o futuro.
Encaramos esse porvir de formas diferentes, conforme nossa personalidade, formação ou circunstâncias. Para uns, ele é nebuloso e assustador. Para outros, é indiferente, por saberem que é desconhecido. Há, no entanto, os que o aguardam com confiança e gratidão, mesmo sem ter a mínima noção do que ele lhes reserva. Vêem, nele, sem-número de oportunidades e se preparam para aproveitar cada uma delas.
Claro que essa postura não é garantia para o sucesso. Ninguém tem certeza de como será seu amanhã, se feliz ou tormentoso. O que importa é a postura. Uma atitude de confiança valoriza e multiplica as eventuais alegrias que o porvir nos reserva e previne e atenua as tristezas e sofrimentos.
O futuro é o que ainda não existe, certo? Errado! Nem sempre é assim. Não, pelo menos, em relação ao segundo seguinte ao que estamos vivendo. É conseqüência do que fizemos no passado e do que estivermos fazendo agora. Não surge, como por encanto, do nada.
Nosso futuro estamos construindo a cada momento, mediante atos, empenho e predisposição do espírito. Se perdermos tempo com temores exacerbados, inúteis lamentações e manifestações de pessimismo e mau-humor, quando ele chegar, num piscar de olhos, será estéril, sem que tenhamos feito nada de útil e proveitoso para nós e para a espécie. O que você terá, pois, no futuro imediato, será conseqüência do que estiver elaborando agora, neste preciso instante.
A maneira de encarar esse tempo potencial, tanto do otimista, quanto do pessimista, é bastante parecida. Varia, apenas, de intensidade. O primeiro, por exemplo, tem “certeza” de que ele virá, e será brilhante e feliz, muito melhor que o presente. Já o segundo, manifesta, apenas, “esperança” que venha a ser assim.
Mas a mera preocupação com o futuro, mesmo que com otimismo, mas sem prévia ação, no sentido de construí-lo, achando que as coisas irão se concretizar por si sós, à nossa revelia, é uma estupidez sem tamanho. Se quisermos que nossos projetos se concretizem (e isso se os tivermos), reitero quantas vezes for necessário, temos que agir nesse sentido.
Precisamos estudar, trabalhar e nos preparar com método, organização e aplicação, dia a dia, anos a fio. Ainda assim, não há a menor certeza de sucesso (nunca há e para ninguém). Repito, pela milésima vez, o que já escrevi em inúmeras ocasiões: não temos sequer certeza de que amanheceremos vivos amanhã, quanto mais sobre os resultados dos nossos esforços num remoto e nebuloso futuro.
Todavia, se nos prepararmos adequadamente, se aprendermos todo o conhecimento a que tivermos acesso, nossas possibilidades de sucesso crescerão exponencialmente. O tão aguardado ou temido porvir será, pelo menos potencialmente, viável. Afinal, como constatou o filósofo inglês, Francis Bacon, “o futuro do homem está oculto em seu saber”. E, tenha certeza, pelo menos em termos potenciais, de fato, está. Portanto, caro leitor, feliz “metamorfose do futuro”! Feliz ano novo!