Monday, September 22, 2014

Um ideal, qualquer que seja, é indispensável para dar direção e, sobretudo, motivação, à nossa vida. Mas tem que ter como premissa fundamental a necessidade. Querer realizar alguma coisa que não seja necessária a ninguém é perda de esforço e de tempo. E há tanta coisa de que o mundo necessita, tanta tarefa a ser executada, sem que haja o devido executor, tanto desafio a ser encarado e vencido!. Por que não sermos nós a fazer o que tem que ser feito? O que impede que nos tornemos pioneiros para desbravar determinados campos de atividade e preparar terreno para que outros dêem continuidade ao que iniciarmos? Esse é nosso desafio, a forma mais decisiva de realização pessoal e de maneira de assegurar a “imortalidade”, através de nossas obras.  .


@@@@@@@@@@

A necessidade, já escrevi certa feita e reitero o que afirmei, é a verdadeira mola propulsora do progresso. Foi por causa dela que o homem aprendeu a produzir o fogo, feito que se constituiu num avanço miraculoso, quer para a sua segurança (ao manter as feras que o ameaçavam distantes da caverna que habitava), quer para a própria saúde, ao aprender a cozer os alimentos e torná-los, dessa forma, mais digestivos, o que teve enorme impacto positivo sobre seu desenvolvimento físico, aumentando sua resistência e tempo de vida. Foi ela que levou nossos ancestrais a desenvolverem a agricultura, o que lhes possibilitou estocar comida para períodos de escassez e os fixou, por conseqüência, em determinadas áreas, deixando de ser nômades. Foi, ainda, a necessidade que fez com que aprendessem a construir moradias saudáveis, confortáveis e seguras. Por isso, elas são o grande estimulante dos ideais. E como estes tendem a estimular ações, os três fatores se casam para se tornar os verdadeiros fundamentos da civilização.         

@@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk   
"Irmãozinhos" antecipam desculpa


Pedro J. Bondaczuk


Apaixonado pela Ponte Preta desde que me conheço por gente, nada me dá uma satisfação maior do que uma vitória num dérbi. Nos últimos dois anos, os irmãozinhos do Guarani nos privaram desse delicioso prazer, fugindo da raia. No ano passado, por exemplo, recusaram-se a nos enfrentar num jogo que estava sendo proposto para comemorar o aniversário de Campinas.

Hoje, não há como escapar, já que novamente os dois times estão no mesmo grupo do Campeonato Paulista. E algo me diz que já vamos começar com dois pontos a favor.

A última vez que pude gozar meus amigos bugrinos foi na decisão da Copa João Saad, de aspirantes, em dezembro de 1991, na preliminar da decisão daquele ano entre São Paulo e Corínthians. A meninada do Majestoso deu um vareio de bola e trouxe a taça para Campinas.

O dérbi anterior entre profissionais, o de 1990, não teve muita graça. A Ponte estava numa fase de autoafirmação, após um período desastroso, e o jogo terminou em zero a zero. Ou seja, mesmo enfrentando um time dos menos brilhantes, os irmãozinhos não conseguiram ganhar de nós.

Tenho ouvido muitas gozações sobre as duas descidas da Macaca para a Segunda Divisão, enquanto o Bugre jamais caiu. Mas com tudo isso, em toda história dos dérbis --- que vão completar neste ano 81 anos --- as estatísticas mostram um virtual empate.

O Guarani venceu 55, a Ponte 54 e os dois empataram 50 jogos. Isto porque o resultado do primeiro confronto, o de 1912, é controvertido. Nos meus arquivos consta que o timão alvinegro venceu. Os bugrinos garantem que houve empate.

Os historiadores esportivos preferem considerar o resultado indefinido. Que seja. Digamos que de fato o Guarani tenha uma vitória a mais. Pois hoje, depois do jogo, já não a terá!

A única frustração é que a diretoria dos irmãozinhos está dando uma colher de chá à torcida bugrina e arranjando uma desculpa antecipada para a derrota: a venda de Edilson para o Palmeiras. O mais gostoso seria enfrentar o Guarani completo. Quem sabe, até mesmo com reforços de jogadores de seleção.

Ainda assim, nossa torcida certamente não vai deixar de saborear o prazer de começar a temporada com uma consagradora vitória. E justo em cima de quem!

Não se trata de achar que o Bugre seja um grande time. O prazer de vencer o dérbi está no fato de poder gozar os amigos. Outros adversários, ou não têm torcedores na cidade ou estes são em pequena quantidade. Os irmãozinhos não. Estão ao nosso redor, prontinhos para as gozações.

Vamos, pois, todos ao Majestoso. Mas sem violência entre as torcidas, pos essa atitude não está com nada. Brigas acabam tirando o prazer de uma boa torcida. O gostoso é festejar, esportivamente, numa confraternização entre as torcidas.

Claro que vencer é o desejável, mas os bugrinos terão que se conformar diante da nossa superioridade. As gozações serão em tom carinhoso, até para não se perder a freguesia. Não se põe na panela a galinha dos ovos de ouro. E, como dizem os cariocas, mestres em gozações: "Bronca é instrumento de trouxa". O gostoso do esporte é brincar.

(Artigo publicado na página 17, Esportes, do Correio Popular, em 24 de janeiro de 1993).


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk     
Um dia como outro qualquer

Pedro J. Bondaczuk

A crônica, desde que manejada por um cronista hábil, inteligente e observador, é um gênero literário (e simultaneamente jornalístico, pois “nasceu” nas redações de jornais) delicioso para todo e qualquer paladar. Mesmo para o mais distraído ou menos atento dos leitores. Nela, o autor fixa-se em determinado tema aparentemente banal, de um trivialíssimo dia qualquer e, graças ao seu talento narrativo, consegue transformar o trivial em transcendental, como que num passe de mágica. Isso não quer dizer que não possa ou não deva tratar de assuntos, digamos, mais sérios e permanentes, filosóficos, sociais ou antropológicos. Pode e deve. O segredo, porém, está na linguagem de que se utiliza, que deve ser, sobretudo, simples e coloquial, ao alcance da cultura de qualquer cidadão de formação mediana, sem jamais descambar para dispensáveis surtos de erudição, pedante e inoportuna. Ou seja, para apreciar a boa crônica, não é necessário que o leitor seja algum erudito, ou nerd, ou muito menos gênio. Basta que tenha um pouquinho de bom gosto. E, claro, que o redator dela seja de fato bom.

Estas considerações vêm a propósito de um escritor que reúne todas as características desejáveis de um cronista de mão cheia, desses que, se fossem vendedores, conseguiriam vender geladeiras para esquimós no Ártico, tal sua capacidade de convencimento. Refiro-me a Fernando Yanmar Narciso. Há tempos, desde que tive contato com seu primeiro texto, sou seu admirador de carteirinha, uma espécie de “macaca de auditório”, posto que literária. Já editei cerca de 230 de suas deliciosas crônicas e, até hoje, não topei com uma única de que não gostasse.

Houve, o que é normal, ocasiões em que não concordei com as opiniões que emitiu. Todavia, estas foram expressadas de maneira tão hábil, tão bem humorada e tão original – não raro utilizando, posto que na dose correta, o dificílimo recurso da ironia (e às vezes, até, do sarcasmo) – que deixei espaço generoso para a dúvida, admitindo que talvez eu é que estivesse errado. Conheci e conheço pouquíssimos cronistas com esse talento. Até o título da sua coluna (das mais lidas e apreciadas) neste espaço voltado à Literatura, prima pela originalidade (“A favor de tudo, contra todos”). Bem, para o leitor que ainda eventualmente não saiba (e que seja, como eu, seu apreciador), aqui vai uma excelente notícia. Você já pode ter as crônicas de Fernando Yanmar Narciso permanentemente ao seu dispor na estante da sua biblioteca. Basta que adquira seu recente livro (que espero que seja um de muitos).

Seu senso de oportunidade é tão onipresente, que já no título dessa preciosa obra ele define, com meridiana clareza, não só seu conteúdo, mas, acima de tudo, a principal característica desse gênero literário, tão explorado, mas nem sempre com a leveza que ele requer. É, justamente, “Um dia como outro qualquer”. Se você, leitor amigo, ainda não o adquiriu, entre em contato com Fernando e compre-o logo. Caso contrário, perderá a oportunidade de deliciar-se com observações e opiniões absolutamente diferentes das triviais, expressadas com humor e, quando pertinente, com generosas pitadas de ironia. Tive o privilégio e a honra de prefaciar esse livro e no meu prefácio expressei exatamente isso que reitero agora, posto que com outras palavras: que o autor é, principalmente, um cronista singular, no aspecto mais positivo da singularidade.

O melhor de tudo é que se trata de um escritor jovem. Alerto, antes que me atribuam preconceito, que juro que não tenho, que não estou desprezando os que são idosos, longe disso. Até porque também já não sou nenhum jovenzinho e, quem me conhece, sabe que não sou dado a autolinchamentos. Meu amor próprio não permite isso. É que a juventude de Fernando é indicativo, pelo menos potencial, de que esse livro é apenas o primeiro de dezenas de outros tantos, com idêntica qualidade, que provavelmente virão. É certo que, com a idade, virá, também, o amadurecimento.

Só espero que a tal maturidade jamais iniba suas melhores características estilísticas, que lembram, em determinados momentos, o estilo do saudoso Sérgio Porto, consagrado sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, e em outros, o do não menos genial Milôr Fernandes. Essa inibição acontece, salvo exceções, com jovens promessas que, na sequência de suas carreiras, nesse complicadíssimo mundo da Literatura, abrem mão do que tinham de melhor, em nome da prudência. Estou seguro que isso não irá ocorrer com Fernando. Que venham, pois, novos e novos livros, mas com a mesma ousadia, originalidade, “pimenta” e bom humor de “Um dia como outro qualquer”.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Sunday, September 21, 2014


O que trazemos escondido no fundo da mente, no inconsciente ou no subconsciente, é um mistério insondável para nós e para os outros. Pode ser um impulso irreprimível e inexplicável para o bem, que venha, certo dia, sem aviso, a aflorar e nos tornar heróis ou santos. Mas é possível, também, que lá estejam adormecidos monstros cruéis e sanguinários, incontroláveis demônios, que talvez nunca venham a emergir, ou que, quando menos se esperar, venham furiosamente à tona e causem pasmo e terror não apenas a nós mesmos, mas a todas as pessoas do nosso círculo de relacionamentos. Nunca sabemos quais e quantos impulsos para o bem ou para o mal estão trancados a sete chaves nestes misteriosos e indevassáveis compartimentos da mente, que o escritor John Steinbeck denomina de “lagos secretos”.  São inúmeros os casos de pessoas que se comportam com correção e bondade durante boa parte da vida, mas que, subitamente, sem aviso prévio, para surpresa geral, cometem atrocidades imensas. São pais que matam filhos por banalidades; filhos que trucidam pais para antecipar a posse de heranças; cônjuges que juravam mútuo amor eterno e que, subitamente, assassinam a pessoa que garantiam amar, com requintes de crueldade e, não contentes, retalham os cadáveres, no afã de ocultar o horrendo delito. Há casos e mais casos como esses a abarrotarem as páginas policiais dos jornais do mundo todo.


@@@@@@@@@

Nunca sabemos se a nossa mente é um lago sereno, repleto de vida, plácido e benigno, com inúmeros peixes a nadar, ou se é o tão falado Lochness da Escócia, com seu suposto monstro a aterrorizar os que passam nas cercanias. John Steinbeck escreveu o seguinte, a propósito, no romance “A Leste do Éden”: “Talvez todos nós tenhamos um lago secreto em que as coisas sinistras germinam e se tornam fortes. Mas essa cultura é reprimida e a prole sobe pelas encostas apenas para tornar a cair. Não é possível que nos lagos escuros de alguns homens o mal se torne forte o bastante para pular a cerca e ficar livre? Um homem assim não seria nosso monstro e não estaríamos relacionados com ele em nossas águas ocultas? Seria absurdo se não compreendêssemos tanto os anjos como os demônios, já que os inventamos”.

@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk          

A falácia da negociação


Pedro J. Bondaczuk


O papel do Estado moderno, numa sociedade bem organizada e verdadeiramente democrática, é o de atuar em setores específicos que, ou pela sua relevância, ou por envolverem a segurança nacional, são de sua exclusiva competência.

Um deles, certamente o mais importante, é o da educação. Constitucionalmente, inclusive, cabe ao Poder Público prover o acesso à instrução à totalidade dos cidadãos. No Brasil, no entanto, isto além de nunca ter sido feito de maneira integral, parece ser um sonho ainda muito distante para a maioria.

O ensino oficial – e não por culpa dos educadores, mal pagos e pessimamente aparelhados – é um verdadeiro desastre, em termos de aproveitamento, em boa parte do País. Não se pode apontar o caso de uma escola aqui, de outra ali, em geral instaladas em metrópoles. É indispensável que se avalie a qualidade em seu todo. E esta, convenhamos, é de ruim para sofrível.

Dessa maneira, os pais que entendem ser a educação a maior herança (e às vezes a única) que podem deixar para os filhos, não medem sacrifícios. Dispõem-se a pagar, mesmo que não tenham recursos, uma escola particular.

A sucessão de crises econômicas, todavia, que fez com que o poder de compra dos salários sofresse uma erosão de no mínimo 35% em relação a 1980, torna cada vez mais esse empenho em dotar as crianças de um ensino um pouco mais substancial mais distante. Agora, um grupo de escolas particulares do Rio Grande do Sul está propondo ao ministro da Educação, Carlos Chiarelli, que as mensalidades escolares sejam definidas pelo sistema de livre negociação entre as partes.

Mas há condições, nas circunstâncias atuais, para que isso se verifique? Que poder de barganha um pai, que tem quatro filhos estudando simultaneamente em instituições privadas, possui para evitar que se cobre dele aquilo que ele não pode pagar?

Como compatibilizar seu reajuste salarial, cada vez mais difícil, com os da prestação mensal da escola? E se num determinado mês seus ganhos forem inferiores às suas próprias necessidades básicas, como em geral, aliás, vem ocorrendo? Como fazer para arcar com mensalidades maiores?

Não é preciso ser nenhum gênio para prever qual a opção que lhe será colocada. “O valor é muito alto? Você não tem condições de pagar? A saída é simples: coloque seu filho numa escola do Estado”. Onde, pois, a tal “liberdade” de negociação? Ela existiria caso as duas partes pudessem estar em igualdade de condições. Mas podem?

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 18 de julho de 1990).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk       
Dependência e auto-suficiência

Pedro J. Bondaczuk

O homem, entre praticamente todos os animais da natureza, é o mais dependente, ou o menos auto-suficiente. Leva um tempo enorme para amadurecer. Enquanto amadurece, com enorme lentidão, depende umbilicalmente da mãe para praticamente tudo. Sem ela, não conseguiria sobreviver. Morreria à míngua em questão de escassos dias. Por exemplo, uma criança com três anos de idade ainda não conta com nenhuma auto-suficiência para nada. É absolutamente dependente para tudo: para se alimentar, se locomover, se higienizar etc.etc.etc.. Enquanto isso, no mesmo período, alguns animais (quase todos) são, digamos, “adolescentes” e muitos já aprenderam a caçar. Estão aptos, portanto, a prover o alimento de que necessitam. Vários até já estão habilitados para se acasalar, e se acasalam.

É certo que este lento amadurecimento faz do homem o “rei da natureza”. É o único ser vivente dotado de inteligência, capaz de compreender quem é, onde está e todo o mecanismo da vida. Não raro, sabe, até, como interferir nele, curando e, portanto salvando, pessoas doentes. Por causa disso, se torna auto-suficiente, ou sequer menos dependente? Em alguns aspectos, sim. Mas na maioria deles, não. Para desenvolver as aptidões inatas, por exemplo, o homem depende de quem o ensine.

Tem que aprender a falar, a andar, a se alimentar, a se comunicar, a se relacionar com os outros etc. Depois, a ler, a reter na memória os conhecimentos fundamentais que passaram de geração a geração até chegarem a ele, a aprender os saberes específicos para a atividade que pretende exercer, e vai por aí afora. Para tanto, depende de professores, nos mais diversos níveis do aprendizado. Creio ser desnecessário lembrar as principais dependências que temos, do nascimento até a morte. E mesmo depois de morrermos, continuamos dependendo. Como? Dependemos de alguém que sepulte nossos restos mortais com um mínimo de dignidade, do que nenhum outro animal depende.

Portanto, é uma falácia, uma monumental tolice esta afirmação – que já ouvi “n” vezes – normalmente de adolescentes, quando não de adultos infantilizados: “eu não preciso de ninguém”. Precisa sim, e muito, e o tempo todo. Muitos de nós (se não todos) em algum momento de nossas vidas, em um assomo de rebeldia diante de adultos aos quais devamos obediência, provavelmente já dissemos isso. Tolice ditada pela imaturidade, claro. Devemos, sim, buscar ser o mais auto-suficiente possível, mas não por arrogância, ou birra, ou coisa parecida, mas por razões práticas. Para reduzir ao mínimo nosso grau de dependência de terceiros. Jamais o eliminaremos, todavia, por completo. É pura questão de lógica, que prescinde de comentários específicos.      

Queiram ou não os empedernidos egoístas, portanto, todos nós somos obrigados a cooperar uns com os outros se quisermos manter este arremedo de civilização e, sobretudo, para assegurar nossa sobrevivência. Cada qual desempenha (ou deveria desempenhar, para não se tornar um peso morto para ninguém) um papel, de acordo com suas aptidões, conhecimentos e circunstâncias: o professor, o médico, o pedreiro, o engenheiro, o jornalista, o lixeiro, o padeiro etc. etc.etc. Imaginem se não fosse assim! Seria o caos. Imperaria a lei das selvas.

A despeito de todas as imperfeições, desmandos e aberrações, bem ou mal, é esse espírito cooperativo (raramente espontâneo) que mantém coesas as sociedades e lhes confere um toque mínimo de organização. É certo que essa cooperação poderia, e deveria ser mais ampla, se não absoluta. Poderia, e deveria  envolver não somente todas as pessoas, mas todos os povos. O homem, a despeito do seu imenso potencial de inteligência, porém, ainda não chegou a esse estágio em seu contínuo, posto que lento processo de evolução. Tem (ou melhor, “temos”, pois não sou nenhuma exemplar exceção) enorme dificuldade de assimilar as realidades mais simples e óbvias. Por isso, complicamos, desnecessariamente, nossas vidas, quando poderíamos torná-las muito mais fáceis, agradáveis e simples.

O poeta Gibran Kahlil Gibran identifica um tipo de auto-suficiência, potencialmente ao nosso alcance, ao qual nada no mundo se compararia: o amor. Até nele, porém, há dependências a serem consideradas. Antes e acima de tudo, é indispensável senti-lo. Mas dessa exata forma e na intensidade máxima. O poeta nos ensina: “O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não se possui e não se deixa possuir, pois o amor basta-se a si mesmo”.

Não se conquista, portanto, a pessoa amada, com promessas, com oferendas ou com dádivas, tenham a natureza ou o valor que tiverem. A desejável e sonhada reciprocidade não se  força, não se induz, não se impõe. É espontânea, misteriosa e sutil e se conquista, embora ninguém saiba, de fato, como. O amor não se compra e nem se vende. Não é uma propriedade, uma obrigação ou um ato. É um sentimento! Extrapola toda a lógica humana. Surge sem motivo aparente e desaparece, sem que se possa evitar. É auto-suficiente e caprichoso e tem suas próprias leis, que independem da nossa vã filosofia. Pena que poucos, pouquíssimos de nós tenhamos esse nível de compreensão. Daí tantos equívocos, tantos sofrimentos e tantos desenganos em nome de um amor que na maioria das vezes não existe, que é confundido com mero desejo sexual, posse ou uso de uma pessoa por outra.


Acompanhe-me pelo twittert: @bondaczuk 

Saturday, September 20, 2014

Costuma-se atribuir valor muito alto à sabedoria e, em contrapartida, desdenhar de quem ignora fatos e informações, como se se tratasse de fera bronca, despida de razão e de importância. Há vários fatos a se considerar nessa questão. Primeiro: é preciso definir com exatidão quem é sábio e por que. É o sujeito bem-informado? É o que conhece um pouco de tudo, de matemática, física, filosofia, direito etc.? Ou é a pessoa que tem noção dos valores, de virtudes e de moral e põe esses conceitos em prática? Segundo ponto a considerar: o que se entende por ignorante? É o iletrado, que não teve acesso aos bancos escolares? Ou é quem aprendeu tudo o que os mestres tinham a lhe ensinar, mas não sabe o que fazer com esse conhecimento? O terceiro ponto a se ressaltar é: o verdadeiro sábio nunca desdenha de ninguém, qualquer que seja seu grau de conhecimento. Vê em todo o ser humano, analfabeto ou não,  uma fonte inesgotável de conhecimento e de experiência e busca usufruir plenamente dela.

@@@@@@@@@

Costuma-se rotular quem não conhece determinado assunto de ignorante. Por esse critério todos os seres humanos, sem exceções, não importa seu grau de leitura e de informação, o são. Afinal, não existe, nunca existiu e certamente jamais existirá quem conheça tudo de tudo. O pseudo-ignorante, que admite que nada sabe, é muito mais sábio do que o doutor em não sei quantas disciplinas, com pós-graduação, mestrado e doutorado nisso e mais aquilo, e que, por essa razão, pensa que “sabe tudo”. O ensaísta norte-americano Henry David Thoreau constatou, no memorável ensaio “Caminhando”, do seu livro “Desobedecendo”: “A ignorância às vezes é não apenas útil, mas linda; a chamada sabedoria é freqüentemente pior do que inútil, além de horrorosa. Com quem você preferiria lidar – com o homem que nada sabe de um assunto e – o que é raríssimo – sabe que nada sabe, ou com o outro que de fato sabe alguma coisa do assunto, mas pensa que sabe tudo?”..

 @@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Casuísmo fiscal

Pedro J. Bondaczuk

O Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira, que, entre outras coisas, vai taxar, caso seja aprovado em dois turnos pelo Senado, todos os cheques depositados ou sacados no País em 0,25%, vem gerando ácidas polêmicas entre o governo, a classe empresarial, os trabalhadores e alguns setores políticos.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) manifestou-se a respeito, assegurando que o IPMF é inconstitucional, por ferir o princípio de isonomia tributária. Ou seja, os assalariados não terão como evitar sua incidência, ao contrário dos empresários, que dispõem de outras formas para fazer circular seus recursos.

Os ministros Paulo Haddad, da Fazenda, e Yeda Crusius, do Planejamento, insistem que a criação do novo tributo é fundamental para a governabilidade do País. A pergunta que se faz é se o governo não dispõe mesmo de outra alternativa para fazer caixa até o fim do mandato do presidente Itamar Franco, em 31 de dezembro de 1994. Sugestões existem muitas, e vão desde a instituição do imposto único (que conta com a simpatia de parcela considerável do Congresso) até outras opções mais ortodoxas.

O leitor José Conti, agente fiscal de rendas aposentado da Secretaria Estadual da Fazenda, por exemplo, sugere uma taxação sobre os bancos. Argumenta que tal tributação não iria onerar os setores produtivos, nem consumidores, trabalhadores, microempresários etc.

Sem entrar no mérito da questão quanto à viabilidade ou não da idéia – até porque somos contrários à criação de novos tributos e favoráveis à extinção da maioria dos 54 existentes, muitos deles redundantes – nos limitamos a registrar a proposta.

Conti sugere que o tributo, que se chamaria Imposto Automático sobre Cheque Bancário, seja pago tanto pelos bancos particulares, quanto pelos estatais. Tal contribuição, ao contrário do IPMF, não seria provisória. A cobrança seria automática e sem ônus para os clientes.

Os cheques seriam numerados seqüencialmente, com numeração fornecida pelo Banco Central, e teriam dois tipos: internos e externos. Os do primeiro caso seriam os de uso dos correntistas. Os outros teriam emissão obrigatória, por parte das instituições bancárias, sempre que fossem debitados nas contas dos usuários os pagamentos de contas de água, de luz etc.

A criação de um novo imposto – embora as autoridades garantam que será provisório – através de emenda constitucional, vai abrir perigoso precedente. Os próximos governos podem agir de forma idêntica, a qualquer pretexto, argumentando com a existência de jurisprudência firmada.

O que se defende não são remendos casuísticos, feitos a toque de caixa, mas uma reforma tributária ampla, competente e debatida ao máximo com a sociedade. E que, sobretudo, seja dada satisfação ao contribuinte sobre a destinação do dinheiro que se recolhe.

As sucessivas denúncias de malversação de recursos, ou, no mínimo, de incompetência na sua administração, desestimulam os cidadãos cumpridores de seus deveres a continuar sendo pontuais com seus compromissos. Ao invés de serem privilegiados, eles acabarão, mais uma vez, sendo penalizados, se o IPMF for aprovado, com aumento de carga fiscal para suprir as lacunas deixadas pelos sonegadores.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 17 de fevereiro de 1993).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk             

Vidas iguais


* Pedro J. Bondaczuk


"As pessoas acreditam que suas vidas são diferentes das demais". A afirmação é do político socialista britânico, Harold Laski. É evidente e até redundante que nem todos vivem de maneira absolutamente igual. A realidade de cada um depende de uma extensa série de fatores: da classe social a que cada um pertence, da família de onde procede, da educação que recebeu, do país em que vive, etc.

Todavia, nem por isso se pode afirmar que haja no mundo alguém com trajetória absolutamente original. Todos compartilhamos sonhos, alegrias, decepções, esperanças, frustrações, etc. etc. etc., com indivíduos que têm vidas bastante semelhantes à nossa. É certo que semelhança não significa igualdade.

Mas nem mesmo o aspecto físico garante absoluta originalidade a quem quer que seja. São inúmeros os casos de sósias, sem que qualquer espécie de parentesco os vincule. Isto sem falar de irmãos gêmeos univitelinos, rigorosamente parecidos fisicamente, nos mínimos detalhes. Mas as pessoas gostam de parecer diferentes, únicas e originais. Por que lhes tirar esse gosto? Afinal, não passa de um pequeno, pífio, irrisório consolo à sua efemeridade. À nossa, melhor diríamos.

Custamos a nos conformar com a nossa mortalidade. Sentimo-nos, em nosso íntimo, como se fôssemos eternos, perenes, indestrutíveis. Alguns, a muito custo, conscientizam-se (em geral na velhice) que não o são. Outros nunca adquirem essa consciência.

A ilusão é um patrimônio comum das pessoas. Mesmo que não admitamos e que não ajamos socialmente nesse sentido, secretamente nos sentimos como "o centro do universo". Há quem se abstraia da realidade e transporte isso para os relacionamentos do dia a dia. Sem que se apercebam, caem em ridículo. Tornam-se alvos de chacotas, quando não até de casos de internamento em manicômios, tachados como "paranóicos megalomaníacos".

O escritor (e o ator) conhecem bem essa sensação de alienação da realidade, em diversos graus. Ambos assumem --- o primeiro na hora em que escreve seus contos, novelas, romances e peças e o segundo quando representa no palco ou para as câmeras --- inúmeras personalidades, de conformidade com as exigências dos enredos.

Vivemos nos iludindo, tanto nas pequenas coisas, quanto nas essenciais. Esse é o ópio da humanidade, que torna a vida suportável. O homem não resistiria a um único segundo da realidade pura. Ela é como olhar de frente para o Sol. É a ilusão que nos dá motivação para fazermos o que é necessário (e até o desnecessário).

Sei que a esta altura os que se consideram "donos da verdade" devem estar resmungando, com ares de sabe-tudo, ao ler estas considerações: "Esse cara é uma besta! Só escreve bobagem!". Isto se não disser impropérios piores. Cansei de receber cartas anônimas e telefonemas idem desses chatos, com preguiça de pensar, e que resolvem buscar seus "quinze minutos" de fama aborrecendo figuras públicas (importantes ou não).

Junqueira Freire tem um poema extraordinário sobre essa questão da ilusão. O poeta diz, na última estrofe: "Iludimo-nos todos! Concebemos/um paraíso eterno:/e quando nele sôfregos tocamos,/achamos um inferno". Estes mundos artificiais criados pela nossa fantasia tanto podem consistir em fortuna, prestígio ou poder, quanto em coisas mais íntimas e sutis, como um cargo, uma honraria ou até mesmo um casamento.

Quem já não ouviu por aí (ou também não achou isso em algum período da sua vida) a afirmação: "não posso viver sem fulana?" Acontece que pode. Todos podem viver sem todos. Às vezes, essa mesma pessoa, depois de cinco, dez ou vinte anos de desgaste conjugal (quando não de meros dias), percebe a besteira que fez. Se for sensata, vai buscar simplesmente a separação, sem maiores conflitos. Se for de índole violenta...Os jornais estampam todos os dias tragédias ocorridas em lares destruídos.

A situação que estivermos vivendo (boa ou ruim), certamente será igual à de centenas, de milhares ou até de milhões de outras pessoas, com realidades semelhantes à nossa, ao redor do mundo. Até o mais miserável dos mendigos terá a concorrer com ele outro tão indigente ou mais do que ele em alguma parte do Planeta.


O mesmo vale em relação aos triliardários. Ou aos que têm paixão brotando por todos os poros. Ou aos que se fazem de indiferentes a tudo o que os cerca. E assim por diante. Por mais que isso nos fira o ego, a verdade é que temos vidas (e muitas vezes mortes) iguais às de uma infinidade de pessoas. Há circunstâncias em que isso pode até servir de consolo...

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Friday, September 19, 2014

Podemos construir um futuro (individual e coletivo) promissor e tornar concretos aqueles sonhos e ideais, de igualdade, fraternidade, prosperidade e paz, pelos quais tanto nos empenhamos na juventude? Sozinhos, jamais! Em tese, porém, é possível vencer esse desafio, coletivamente. Mas, para tanto,  teríamos que satisfazer tantas condições que a tarefa raia à impossibilidade. A humanidade, por exemplo, teria que remar (pelo menos a imensa maioria), livre e espontaneamente, na mesmíssima direção, sem privilégios ou exceções. As pessoas teriam que trocar seu renitente individualismo (para não dizer, egoísmo) atual, por absoluto altruísmo. E isso por vontade própria. Todos teriam que ser educados para atuar coletivamente, em equipe, tendo em vista, sempre, o bem comum. Seria necessária, também, a consciência da importância de se zelar pelo meio-ambiente, abrindo mão de determinados confortos e facilidades, em troca da pureza do ar e da água e da preservação das florestas. Outra coisa indispensável seria deter a atual e incontrolável explosão demográfica. Tudo isso, óbvio, está apenas no plano do ideal, da mais fantasiosa utopia. Infelizmente...


@@@@@@@@@@

O mundo está chegando ao limite para prover alimentos para mais de 7 bilhões de bocas, que não param de se multiplicar. A paternidade deveria ser responsável e só deveria gerar filhos quem tivesse absoluta capacidade de lhes dar sustento e educação conveniente. Óbvio que não é o que ocorre. Estas são condições mínimas para que a humanidade possa escapar da catástrofe anunciada, que se avizinha mais e mais, sem que governos, povos e comunidades sequer se dêem conta. Caminhamos para o abismo, como fazem os lêmures quando há superpopulação da espécie, num instintivo e inevitável suicídio coletivo. Tudo tem limite e o número de habitantes no Planeta também deve ter. Victor Hugo alertou, certa feita, em um dos seus tantos memoráveis textos: “O futuro é um edifício misterioso que levantamos na terra com as próprias mãos, e que mais tarde deverá servir-nos a todos de moradia”. Ou seja, trata-se de obra coletiva, posto que com a indispensável contribuição individual de cada um dos mais de 7 bilhões de terráqueos, em que não pode haver privilegiados e nem omissos. Todavia, é claro que os há!

@@@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk           

Vingança do Estado


Pedro J. Bondaczuk


A pena de morte é um dos temas mais polêmicos, e que despertam mais paixões, em todo o mundo. E não apenas entre juristas, sociólogos e outros intelectuais, mas, sobretudo, entre as pessoas do povo. Alguns defendem esse tipo de punição, argumentando que determinados delinqüentes são irrecuperáveis e nada têm a oferecer à sociedade. Outros, opõem-se, tenazmente, à medida, classificando-a de “vingança oficializada”.

Sempre que ocorre algum crime, com requintes de crueldade, como o cometido no início deste ano, por um jovem, na cidade de São Paulo, no qual pai, mãe e irmãos foram trucidados, sem que tivessem qualquer chance de defesa, apenas porque momentos antes o rapaz havia sido advertido pelos pais, o assunto sobre a pena de morte vem à baila.

Pronunciamentos passionais, então, são feitos em profusão, defendendo a medida, mesmo por pessoas esclarecidas e ponderadas. Desde tempos imemoriais, essa prática vem sendo adotada para punir os que suprimem vidas. E as execuções são feitas das mais variadas maneiras, indo do apedrejamento, do linchamento e da forca – as formas mais comuns adotadas em passado ainda recente – aos pelotões de fuzilamento, câmaras de gás, cadeiras elétricas e injeções letais, nos últimos tempos.

Houve época em que execuções se constituíam em acontecimentos sociais, em uma espécie de mórbida diversão. Reuniam milhares de pessoas em praças públicas, onde eram realizadas e a maioria aceitava, como a coisa mais natural do mundo, a supressão de vidas.
Num determinado estágio da civilização, cabia aos parentes das vítimas de assassinato punirem os criminosos. Eram as propaladas “dívidas de sangue”, que tinham, necessariamente, que ser resgatadas. Coitado, por exemplo, do primogênito que deixasse de vingar a morte do pai! Ou do irmão que não vingasse a morte de irmão!

Quem se negasse a pagar esse cruel débito macabro, ou por ser avesso à violência, ou por reconhecer justiça na execução do parente (quando este a merecia), era segregado do convívio social. Passava por humilhações inomináveis e era rotulado de covarde, pecha que carregava pelo resto da vida. E tal designação era considerada a maior das ofensas que se poderiam fazer a alguém.

Essas dívidas de sangue deram causa a históricas guerras entre famílias, intermináveis, algumas com até mais de um século de duração. Uma das mais célebres, nos Estados Unidos, por exemplo, foi a que opôs os Martins e os McCoys. E, na cidade pernambucana de Exu, até hoje, duas famílias ainda mantêm disputa desse tipo, sustentando longa e inconciliável inimizade, que já fez dezenas de vítimas, dos dois lados, através de décadas.

A pena de morte nada mais é do que o Estado assumindo a dívida de sangue. Não passa, portanto, de vingança da sociedade contra infratores. Ou seja, aquele que condena o homicídio (no caso o Estado, na figura de um preposto, o juiz), comete o mesmo delito que proíbe aos outros. Isso, no mínimo, é uma aberrante contradição! Um erro jamais justifica outro, seja quem for que o cometa ou qual seja a razão.

Morte é morte, tanto faz se praticada mediante tocaia por algum malfeitor, com o objetivo de roubar ou estuprar a vítima, ou se causada por gás cianureto, por injeção de produto químico letal ou por tiro de fuzil de algum carrasco a serviço do Estado.

Aliás, o extermínio autorizado e patrocinado pela sociedade, do ponto de vista moral, é pior do que o dos homicidas tradicionais que, certos ou errados, têm lá (ou pelo menos acreditam ter) os seus motivos. Já o executor de uma sentença de morte não tem o mínimo interesse pessoal no condenado, ao qual sequer conhece. Mata fria, impiedosa e mecanicamente um ser humano, como se estivesse matando um animal qualquer.

Ademais, não foi um e nem foram apenas dois os erros judiciais cometidos por tribunais, atribuindo culpas a pessoas absolutamente inocentes, em todos os tempos e lugares. Essas aberrações jurídicas somam-se aos milhares, quiçá aos milhões e penalizam, quase que somente os pobres, os humildes, os iletrados que não têm como pagar bons advogados.

Muitos desses erros – embora não tantos como gostaríamos – são reparados a tempo, mas somente quando a pena imposta ao injustiçado é a da privação da liberdade. Em raros casos, os condenados à morte livram-se da execução, pela descoberta, localização e captura dos verdadeiros culpados. Mas esta não é, e nunca foi, a regra, senão uma exceção.

Mesmo no caso de prisões indevidas, a reparação nunca é completa. Que dinheiro paga uma reputação manchada, as humilhações e os sofrimentos de quem é encarcerado sem dever? E quando o réu é condenado à morte, executado e depois se descobre que era inocente? Como reparar essa monstruosidade? Como devolver a vida ao executado indevidamente? Quem deve ser responsabilizado por tamanho erro judiciário? O juiz? O promotor? As testemunhas? O advogado? O júri? A polícia? O Estado?

Se for este último, a quem cabe a responsabilidade? Ao presidente da República? Ao governador? Ao Supremo? Todos, certamente, vão saber encontrar subterfúgios e o erro vai passar batido. Quantos, por exemplo, dos 1.500 executados no ano passado, em 40 países onde vigora a pena de morte, não eram inocentes? Ninguém sabe! E quais são os responsáveis por esses erros? Quem os punirá? Como? Ficam as incômodas perguntas no ar...E fica o básico preceito bíblico, um dos Dez Mandamentos: não matarás! E em hipótese alguma, acrescente-se!

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 5 de junho de 1985).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk