Friday, January 19, 2018

UM BOM ESCRITOR É, ANTES DE TUDO, EXCELENTE LEITOR

Um ponto é essencial para que se possa pelo menos pretender escrever bem: ler, ler e ler, farta e incansavelmente. Um bom escritor é, antes de tudo, excelente leitor. André Malraux constatou que "o artista não é aquele que cria, é aquele que sente". Sensibilidade, portanto, é fundamental para que se estabeleça empatia, entendimento e cumplicidade entre quem escreve e quem lê. Há, por seu turno, ocasiões e assuntos em que, e sobre que, é preferível não escrever. Caso contrário, corre-se o risco de se produzir textos vazios, sem beleza, criatividade, emoção, conteúdo e, por consequência, sem nenhuma serventia. Há, também, descrições que se fazem dispensáveis, por serem redundantes. Há ideias cuja transcrição para o papel se constitui, no mínimo, em perda de tempo e de esforço (e elas são tantas!!), por sua ineficácia, banalidade ou pelo conteúdo destrutivo que encerram. Mas esta já é uma outra história... Ensinar a escrever bem?! Ora, quem me dera se eu soubesse, querido leitor! Quem me dera!


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CITAÇÃO DO DIA:

Sem final feliz 

Se as duas pessoas se amam, não pode haver final feliz.

(Ernest Hemmingway).


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A revisão abortada


Pedro J. Bondaczuk


A revisão constitucional, aguardada com tanta expectativa e esperança pela sociedade, acabou de forma melancólica, sem que fosse cumprida a tarefa atribuída pelos constituintes de 1986 ao atual Congresso: a de melhorar a Constituição, para que ela se tornasse um instrumento, simultaneamente, de garantia das liberdades individuais e de boa administração do País. Ou seja, que deixasse de ser o entrave em que se transformou.

Os congressistas "fizeram de conta" que trabalharam, embora tivessem sido pagos de verdade. Frustraram o País. Em cerca de 240 dias, de muito barulho e nenhuma ação, apenas seis artigos foram tocados. Os pontos mexidos foram os "consensuais", que não despertavam polêmica e que, portanto, não eram importantes. Ou, pelo menos, não muito.

Caso fossem deixados como estavam, não trariam contratempos ao País. E nem inviabilizariam a governabilidade. O grande nó, que desde 1988 vem entravando as várias administrações, foi mantido intacto. O capítulo da ordem econômica nem foi seriamente cogitado. Uma lástima!

Mais cedo, ou mais tarde, as mudanças ora proteladas terão que ser feitas e não pelos caminhos rotineiros das emendas constitucionais. O ideal seria a aprovação de um dispositivo que permitisse a convocação de uma assembleia revisora exclusiva e no tempo mais rápido possível. De preferência que seus membros fossem eleitos já no próximo dia 3 de outubro, junto com os novos governadores, senadores, deputados estaduais e federais e o novo presidente da República.

O País tem pressa. O fracasso do atual Congresso em realizar a tarefa torna a providência muito mais urgente. A Argentina optou, recentemente, por uma assembleia exclusiva. Acreditamos que essa seja a única forma de fazer com que a vontade dos brasileiros prevaleça sobre a de grupos inexpressivos, minoritários, embora barulhentos, que estranhamente acabaram impondo no grito a sua vontade e impedindo a realização da revisão constitucional.

A Assembleia Constituinte de 1986 deveria ter tido o caráter da exclusividade. Caso houvesse esse entendimento na época, certamente não teríamos hoje esse monstrengo precocemente ultrapassado, desconexo e disforme.

Espera-se que o erro do passado tenha ensinado alguma lição. E que os atuais congressistas não caiam na tentação de atribuir ao próximo Congresso a tarefa revisora, o que seria ilegítimo, ilógico e sobretudo ilegal.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 1 de junho de 1994).


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Complexidade humana



Pedro J. Bondaczuk


O homem é um ser dotado de uma insaciável curiosidade, que é a "mãe" da sua sabedoria. Procura conhecer de tudo, quer esse conhecimento o conduza a uma evolução, quer lhe traga riscos de sofrer retrocessos ou até mesmo o leve à autodestruição (como são os casos dos segredos do átomo e da estrutura genética, capazes de fazer a espécie humana desaparecer do universo se utilizadas de forma inadequada).

O conhecimento de que mais o indivíduo necessita, no entanto, que é o de si próprio --- das suas potencialidades e fragilidades, dos "demônios" que cria na mente ou que adquire no convívio social --- é relegado a um segundo plano. As pessoas relutam em assumir essa tarefa --- e a maioria não a assume jamais e sequer chega a tentar ---, possivelmente temerosas do que possam vir a descobrir.

Ninguém pode afirmar com segurança que conhece profundamente (ou mesmo superficialmente) alguém, por mais que conviva com ele. Cônjuges que coabitam muitas vezes por quarenta, cinquenta, sessenta anos ou mais, amiúde se surpreendem com aspectos da personalidade do parceiro com os quais jamais atinaram. Concluem que na verdade se desconhecem. São como que dois mundos hermeticamente fechados, estranhos.

Nem os pais conhecem bem seus filhos, o que sequer é de se estranhar, já que também não se avaliam de maneira isenta, objetiva, realística. Em suma, não se conhecem. Gosto de ler opiniões a meu respeito, embora por uma questão de vaidade, prefira as positivas.

Contudo, as mais úteis são as feitas por meus adversários, pelos que não gostam de mim e só enxergam minhas fraquezas (tantas!), defeitos (ostensivos) e vulnerabilidades (que não revelo para ninguém). A rigor, não sou tão importante assim para que outros opinem a meu respeito.

No meu modo de entender, nenhuma dessas avaliações, de amigos ou de inimigos, sequer chegou perto da imagem que eu faço de mim. Os primeiros superestimam minhas eventuais qualidades, o que não deixa de ser uma satisfação para o ego. Mas trazem o risco de me tirar da realidade e acabam sendo causas indiretas de imensas frustrações.

Para os segundos, sou a verdadeira imagem do mal (nossa!), como erva daninha que tenha que ser extirpada (que exagero!). Se tirarmos os excessos existentes nessas opiniões (muitos) e pinçarmos defeito por defeito dos apontados, teremos diante de nós um excelente parâmetro para que possamos nos tornar melhores. Os inimigos, portanto, são mais úteis do que os amigos para que possamos estabelecer uma imagem nossa mais próxima da real.

Até o aspecto físico que julgamos ter não condiz com a realidade. Não nos enxergamos por inteiro. Não contamos com visão holográfica. Não vemos, por exemplo, nossas costas, o que nos torna incapazes de avaliar a nossa postura. Mesmo vista no espelho, a "retaguarda" não aparece como de fato é.

A visão de conjunto fica comprometida. O parâmetro que os outros adotam para nos julgar (e que nós usamos para o julgamento de terceiros) é o dos atos, das palavras e das expressões. E dos preconceitos, confesse-se. Consegue-se, com material tão precário, não mais do que pálidos e distorcidos reflexos da imagem real.

Pitigrilli traçou um perfil humano genérico, não de alguém específico, mas do tipo médio, no qual a maioria se enquadra. Escreveu, no livro "Lições de Amor": "O homem não é nem anjo, nem fera, ou é ambas as coisas em proporções desiguais. A beneficência, a moral, a caridade não podem fabricar homens e mulheres ideais. Devem servir-se daqueles que encontram".

A dúvida que me fica é: será que as pessoas cuja imagem envolvemos em uma aura de santidade eram ou são verdadeiramente santas? Ou as que julgamos sábias, teriam, de fato, tanta sabedoria? Ou, do lado oposto, será que os monstros humanos foram mesmo tão maus como pintados? Provavelmente há exageros, para o bem ou para o mal, para melhor ou para pior, em todas essas avaliações. Nossos julgamentos, por mais que tentemos, nunca se vêem totalmente expurgados de preconceitos, ou seja, de conceitos previamente fabricados.

E a avaliação histórica, está correta? São exatas as previsões feitas sobre o futuro? O passado foi registrado com exatidão? A humanidade seria, mesmo, tão sanguinária, doentia, egoísta e corrupta quanto os meios de comunicação procuram pintar? Ou como os historiadores dizem que foi? Ou como os estudiosos do comportamento garantem que é? Talvez não! Ou talvez seja até pior, não se sabe com certeza.

O italiano Paolo Rossi, no livro "Os Sinais do Tempo", observou: "Por muitos séculos, o homem concebera-se no centro de um universo limitado no espaço e no tempo e criado em seu benefício". Hoje, sabemos (ou pelo menos as pessoas cultas e instruídas sabem) que não é assim.

E o escritor prossegue: "Imaginara-se habitante, desde a Criação, de uma Terra imutável no tempo. Construíra-se uma história de poucos milhares de anos que identificava a humanidade e a civilização às nações do Oriente Próximo e, depois, à Grécia e Roma. Pensara-se diferente, em essência, dos animais; senhor do mundo e dono de seus próprios pensamentos. Em breve, no novo século, ele terá de defrontar-se com a destruição de todas essas certezas, com uma diversa, menos narcisista mas decerto mais dramática, imagem do homem".

Será a real? Terá, pelo menos, a mais leve das proximidades com a verdade? Ou a subjetividade e o preconceito continuarão determinando os julgamentos? Vai depender de cada um de nós. Ou talvez nem dependa...


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Thursday, January 18, 2018

A VAIDADE É ”PÉSSIMA CONSELHEIRA” PARA O ESCRITOR

Na dúvida sobre a qualidade e pertinência de um texto é melhor consultar quem tenha, sabidamente, senso crítico aguçado. E quanto mais cáustico e exigente for, melhor será. Confesso que caí inúmeras vezes em ridículo, cego de presunção, achando que sabia tudo, por não querer me submeter à opinião alheia. Quebrei a cara! Deixei-me levar pela vaidade, que neste caso (como em tantos outros) é péssima conselheira, e me dei mal. Aprendi, todavia, a lição. Há recomendações que são óbvias para quem tem a pretensão e necessidade de escrever bem. Por exemplo, erros de grafia, de concordância, de regência, de crase, ou qualquer outro tipo de agressão às normas da gramática e do idioma, são inconcebíveis e imperdoáveis. A clareza, por seu turno, é essencial. Há quem procure mostrar erudição, escrevendo de forma pomposa, empolada, pedante, cheia de jargões técnicos e expressões que não são de uso comum. Quem age assim só consegue espantar leitores. Erudição é simplicidade (que não pode ser confundida com infantilidade). É preciso que o escritor tenha conhecimento de causa sobre o que escreve. Ou seja: que tenha o que dizer!


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CITAÇÃO DO DIA:

Amigos que traem 

Minha vida inteira, estive à procura de amigos que não me explorassem para trair-me em seguida.

(Sigmund Freud, em carta endereçada ao seu fiel seguidor Karl Abraham).


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Código bem-vindo se for aplicado


Pedro J. Bondaczuk


O novo Código de Trânsito Brasileiro, que entrou em vigor ontem, um dia antes do que havia sido anunciado pelo governo --- por erro na contagem dos 120 dias regulamentares após a publicação no "Diário Oficial da União" --- está causando, como seria de se esperar, controvérsia entre alguns e merecendo elogios de especialistas na matéria. É evidente que não se pode pretender resultados concretos a curto prazo.

Os bons motoristas, respeitadores das regras e sobretudo da vida, não têm o que temer. Basta que continuem com essa consciência e competência ao volante. Quem precisa ficar alerta, e muito, são os negligentes, os imprudentes e os imperitos, que passarão a pagar multas que não são mais as quase simbólicas do código anterior. Além disso, estarão sujeitos à perda da habilitação ou, em casos de dirigirem embriagados, ou drogados, ou sem carteira e atropelarem alguém (em algum "racha", por exemplo) à prisão. Pelo menos espera-se que sejam de fato punidos com a severidade prevista na lei.

O problema da impunidade no Brasil ocorre não exatamente por ausência de legislação punitiva, mas por dificuldades na sua aplicação. Há que se modernizar, por exemplo, os códigos de processo civil e penal, para adequá-los à nossa realidade, no tempo e no espaço. Há que se dar fluência às milhares, senão milhões, de ações que se arrastam nos vários tribunais do País, em suas diversas instâncias, algumas por décadas, antes que caduquem.

O "Jornal do Brasil", do Rio de Janeiro, publicou no início da semana um levantamento dando conta de que, dos 130 mil acidentes de trânsito com vítimas e morte que anualmente chegam às delegacias de polícia dos 26 Estados e Distrito Federal, para inquérito e processo, 117 mil são arquivados, prescrevem ou simplesmente nem são investigados. Uma lástima!

A legislação que deixou de vigorar ontem também previa punições para os infratores, embora mais brandas do que as da que passa a viger. No entanto, as ações legais esbarravam, invariavelmente, na morosidade do Judiciário ou na incompetência dos responsáveis pela instrução dos processos. Quando houve alguma condenação, até aqui, as penas foram, em geral, leves e a fiança, irrisória.

O mesmo "Jornal do Brasil" informa que levantamento feito entre 8.700 presos cadastrados no Rio mostrou que não havia um só criminoso do volante cumprindo pena por ter matado ou ferido alguém. Mas a legislação previa isso!

Não se pode, contudo, negar que o novo Código de Trânsito Brasileiro é uma bem-vinda atualização nesse importante, senão fundamental, aspecto da vida nacional, que é a regulamentação do tráfego nas cidades e nas rodovias nacionais. O que deixou de vigorar ontem já não condizia com os tempos atuais.

Há 32 anos, quando passou a viger, o Brasil tinha 60 milhões de habitantes e 1,5 milhão de veículos. Hoje, a população beira os 160 milhões e pelas ruas e avenidas das cidades e estradas do País circulam 15 milhões de carros, ônibus, caminhões, etc.

Há que se atualizar, agora, a mentalidade, tanto dos motoristas, quanto das autoridades do setor. Há que se esquecer o famoso "jeitinho" brasileiro, quando se tratar da concessão de carteiras de habilitação ou da aplicação de multas por infrações. Há que se adotar medidas preventivas de extremo rigor, de proteção à vida de pedestres ou motoristas (não importa), tirando liminarmente de circulação os potenciais assassinos do volante.


(Editorial número um publicado na página 2 do Correio Popular em 23 de janeiro de 1998).

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Esforços frutíferos

Pedro J. Bondaczuk

A vida, sobretudo a humana, consiste, em sua maior parte, de atividades, quer as físicas, quer intelectuais, quer ambas, simultaneamente. Despendemos, diariamente, uma carga imensa, incontável, de esforços, para andar, falar, trabalhar, copular, brigar ou jogar, não importa. Uns, esforçam-se mais, por serem ou mais fortes ou mais ativos, outros menos, por deficiências orgânicas ou temperamento. Mas todos, de uma maneira ou de outra, fazem força o tempo todo. Até durante o sono, sem que percebamos, nos esforçamos muito. Nosso corpo não foi projetado para a inércia, mas para a atividade.

Há, porém, os que entendem que os esforços devem ser, sempre, dirigidos e seletivos, ou seja, objetivos, caso contrário serão considerados inúteis, mera perda de tempo e de energia. Contesto os que pensam assim. Não vejo inutilidade alguma, e muito menos desperdício, em atividade alguma, desde que não seja 24 horas por dia, 30 dias no mês e 12 meses ao ano a mesmíssima, o que, claro, é impossível. Portanto...

Esforçar-se, em última análise, é viver. Só não faz esforço algum, obviamente, aquele que já morreu. E por que? Somente porque não conta mais com aquele “motor” que empresta dinamismo e vigor aos seres vivos. Por isso, entra em rápido processo de decomposição. Essa constatação parece para lá de óbvia, mas nunca é demais repeti-la, pois muitos parecem que não a entendem, ou relutam em entender.

Concordo plenamente com o sociólogo francês, Roger Caillois, quando afirma: “Não existem esforços inúteis”. E arremata: “Sísifo ganhava músculos”. Esse estudioso do comportamento, que morreu em 1978, aos 65 anos de idade, foi autor de um livro que até hoje corre o mundo e que na versão brasileira recebeu o título de “Os homens e os jogos”. Nele, aborda a necessidade humana de “brincar”. Caillois estendeu e completou seus estudos a respeito em outra obra, igualmente best-seller, intitulada “Homo Ludens”. Sim, amigos, jogar é, desde sempre, mais do que diversão, necessidade humana.

Não vou ser chato de expor os argumentos do sociólogo (aliás irretorquíveis), para não tirar o gostinho do leitor de consultar, por si só, os dois livros que citei. É leitura que recomendo a todos, especialmente aos amantes de “games”, que têm em Callois um grande defensor.

A propósito, muita gente talvez não se lembre quem foi Sisifo, que o pesquisador francês afirmou que “ganhava músculos” com sua atividade. Qual era ela? Quem foi esse personagem? Para quem não sabe (e não é feio não saber, mas o não querer aprender), informo que se trata de intrigante personagem da mitologia grega. Filho do rei Eólo e da rainha Enarete, era considerado o mais astuto dos mortais. Tanto, que enganou, em ocasiões diferentes, praticamente a totalidade dos deuses do Olimpo.

Sua esperteza era tamanha, que mesmo assim, descontentando os senhores dos destinos humanos, morreu de velhice. Aí, porém, foi que começou o seu drama (e que drama!). Sua alma foi conduzida, por Hermes, ao Hades e Zeus, o senhor supremo do Olimpo, atribuiu-lhe um castigo sem-fim, ou seja, para toda a eternidade.

E qual foi a tal punição? Foi a de rolar, com as mãos, uma enorme pedra de mármore, montanha acima, até o cume. Fácil, não é mesmo? Muita calma, afoito leitor. O castigo não era tão simples. Todas as vezes que Sisifo estava quase alcançando o topo, o pesado bloco rolava ladeira abaixo, até o ponto de partida, por meio de uma força irresistível: a da gravidade. E ele tinha, então, que recomeçar tudo outra vez, sempre e sempre, com o mesmíssimo resultado.

Por isso que todas as vezes que alguém quer se valer de uma metáfora, para ilustrar alguma tarefa inútil e infrutífera, se refere ao tal “Trabalho de Sísifo”. Caillois, contudo, argumenta que até esse esforço tinha algum proveito. “Qual?”, perguntaria o leitor desatento. “Ganhava músculos!”, responde o sociólogo francês.

Há algum desperdício de energia, por exemplo, numa caminhada, numa pelada com os amigos, num passeio de bicicleta, numa partida de frescobol na praia ou num simples jogo de peteca? Se não fizermos só isso, o tempo todo, mas também trabalharmos, andarmos, falarmos, copularmos, jogarmos etc., tudo a seu devido tempo e na dosagem adequada, não há nenhuma inutilidade nesses atos.

Na pior das hipóteses, estaremos, como Sísifo, “ganhando músculos”, quando não alguns anos de vida a mais. E isso não é precioso? Esses esforços, pois, não estarão sendo frutíferos? Claro que sim! Perguntem a qualquer médico!



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Wednesday, January 17, 2018

“INSPIRAÇÃO” DEVERIA SER CARACTERIZADA COMO “IDEIA SÚBITA”

Há que se ter certo perfeccionismo, uma perpétua insatisfação, um aguçado e implacável senso de ridículo, sem nenhuma espécie de concessão, em relação ao que se escreve para ser escritor pelo menos razoável. É preciso escrever, reescrever, tornar a escrever, cortar, acrescentar, burilar o texto, tornar a escrever tudo outra vez, e assim por diante, quantas vezes julgar oportuno ou necessário, num exaustivo processo que só termine quando a autocrítica (que deve sempre acompanhar quem se aventure nesse instável e perigoso pântano da criação), der o veredito de relativa excelência. Autran Dourado observa, a propósito desse processo de trabalho que respeita a inteligência do leitor e preserva quem escreve dos riscos do fiasco: "Não gosto da palavra inspiração, pelo que ela tem de mistifório, preferindo a ela a expressão 'ideia súbita'. Esse meu desgosto chega a tal ponto que, quando estou escrevendo com muita fluência e facilidade, paro, certo de que alguma coisa de errado está acontecendo". E, em geral, está mesmo ocorrendo.


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CITAÇÃO DO DIA:

Nem quatro amigos 

Para mim é um fato que, se todos os homens soubessem o que os outros dizem deles, não haveria quatro amigos no mundo. Isto resulta das contendas que referências indiscretas ocasionalmente originam.

(Blaisé Pascal).

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Revisão constitucional



Pedro J. Bondaczuk



A revisão constitucional teve a data de seu início fixada, na semana passada, para o dia 6 de outubro próximo, pelas lideranças de oito partidos (PMDB, PSDB, PFL, PP, PPR, PTB, PL e PRN), cujas bancadas somam 80% dos 584 congressistas.

Novamente, grandes expectativas são despertadas entre a faixa lúcida da população (que é formadora do que se convencionou chamar de “opinião pública”) no sentido de que, desta vez, os parlamentares tenham um repente de lucidez e façam um trabalho limpo e decente, dotando o País de uma Constituição que realmente mereça esse nome.

Ou seja, que se enquadre na definição que lhe foi dada pelo doutrinador Jellinek: “Fixação escrita, material, das instituições e princípios de governo de um Estado. A formação e a limitação básica do Estado diante do indivíduo”.

A tarefa fundamental e lógica dos responsáveis pela revisão é a de usar com perícia uma “tesoura”, para cortar uma série de bobagens, de armadilhas, de utopias encravadas no texto constitucional. Espera-se, sobretudo, que a reforma restabeleça aquilo que os constituintes de 1986 suprimiram: a governabilidade. Ou seja, a base, o fundamento, a alma e a própria razão de ser de qualquer Carta Magna que se preze.

A atual composição do Congresso, porém, lança dúvidas sobre se isso será feito ou não. Até porque, estranhamente, um tema de tamanha relevância, como é o da revisão constitucional, não vem merecendo nenhum destaque nos meios de comunicação, o que impossibilita, ou pelo menos inibe, o saudável e indispensável debate que a questão deveria gerar.

Fala-se muito nas “conquistas sociais” obtidas com a Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988. Todavia, jamais o País esteve em situação mais vexatória nesse aspecto, do que nos cinco anos de sua vigência.

Seria até redundante citar dados estatísticos a respeito, tantos foram os divulgados e analisados nos últimos tempos. Até porque tal citação se faz desnecessária diante da própria realidade. Basta que se dê uma caminhada pelas ruas para se observar o estado de miserabilidade da população.

Onde, pois, estão as tão apregoadas “conquistas”? Onde a reforma agrária? Onde a garantia fundamental aos direitos da criança? Onde o atendimento às necessidades fundamentais do cidadão?

As melhores Constituições são as enxutas, as despidas de detalhes que competem à legislação ordinária, como a norte-americana, que é a mesma elaborada após a independência dos Estados Unidos, com sete artigos e 21 emendas. E, no entanto, sempre funcionou e continua mais atual do que nunca. E a nossa, com seus 245 artigos básicos e mais 70 nas chamadas "disposições transitórias"?

Seria oportuno que os responsáveis pela revisão lessem o trabalho do veterano e proficiente constitucionalista Wolgran Junqueira Ferreira. O mestre acentua, num de seus livros: “A Constituição deve ser a individualidade pelo respeito ao pensamento humano; a solidariedade humana em sua profundidade; o esquecimento do passado, como melhor forma de futuro. Concebida como um impulso humano para o espírito do homem, deve ser a voz e a palavra para o auditório do mundo, tomando o homem, protegendo-o, realizando-o e dando-lhe a oportunidade de ser. Deve determinar com clarividência, afirmando sem dúvidas, protegendo sem pendência e estimulando o mais fecundo porvir, sem medo”.

Respondam os que pelo menos leram a atual Constituição: são estes os princípios que a fundamentam? Ela afirma sem dúvidas, protege sem pendências e estimula o futuro sem medo?

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 10 de agosto de 1993).



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A maior descoberta

Pedro J. Bondaczuk


A vida pode ser comparada a uma escola, na qual jamais nos graduamos. Quanto mais aprendemos, mais temos a aprender, num aprendizado que nunca tem fim, vivamos o quanto vivermos: vinte, cinquenta, oitenta ou cem anos. Nossas primeiras lições – aparentemente triviais, mas indispensáveis à sobrevivência – consistem em aprendermos a nos alimentar, sugando, corretamente, o seio da mãe; a erguer sozinhos a cabeça; a sentar; a engatinhar e, finalmente, a andar.

Às vezes, esse aprendizado é traumático e doloroso. Outras tantas, é envolvido em estimulantes prazeres. Mas sempre aprendemos, queiramos ou não, do berço à tumba. E quando morremos, deixamos infinitas lições para trás que, caso continuássemos vivendo, certamente aprenderíamos. Somos, pois, perpétuos estudantes nessa escola informal.

Todavia, o mais importante acontecimento da nossa vida é quando nos conscientizamos do nosso “eu”. É somente a partir daí que começamos a exercitar, de fato, nossa racionalidade. Claro que as consequências dessa lição fundamental nunca são iguais para todos. Alguns, ficam felizes por adquirirem a capacidade de entender e usufruir da beleza que os cerca. Outros, porém, decepcionam-se com a descoberta de que não passam de animais, posto que racionais e que o mundo não é o paraíso que esperavam.

Uns, descobrem talentos que jamais supunham que tinham e os exercitam, para deleite pessoal e engrandecimento do mundo. Outros, conscientizam-se de deficiências, de taras congênitas e de segredos sobre si próprios que melhor seria que permanecessem interditos.

São, pois, lições e mais lições aprendidas, algumas (como vimos) de forma dolorosa e traumática, representada pelas consequências de erros cometidos; outras sublimes e magníficas, decorrentes da convivência com pessoas nobres e construtivas ou de experiências inesquecíveis que as circunstâncias colocam em seus caminhos.

Além desse permanente aprendizado, dessa sucessão de descobertas (ou em decorrência delas) colecionamos, vida afora, imagens, sons, ideias, conceitos, valores etc. Essa coleção é feita, em geral, de forma inconsciente, à nossa revelia. Daí a necessidade de nos brindarmos o tempo todo com paisagens magníficas, com a convivência com pessoas nobres, bonitas e exemplares; com conversas sadias e leituras edificantes, entre outras tantas experiências ao nosso alcance.

Claro que nem sempre temos como fugir do oposto. Ou seja, de cenários sombrios e apavorantes, de gente horrorosa e perversa, de diálogos chulos, tensos ou banais e de livros que melhor seria que jamais houvessem sido escritos. Isso também se fixa em algum lugar do subconsciente e pode emergir, quando menos esperarmos, para nos atormentar ou aterrorizar.

Reitero que há cenas bucólicas, aparentemente banais, em geral bastante simples, que sem que nos apercebamos, ficam gravadas para sempre em nossa memória e que, quando as lembramos, o fazemos com deleite e satisfação. Essas paisagens; essas pessoas bonitas e bondosas; esses atos de nobreza e solidariedade; esses acontecimentos marcantes dos quais participamos – como personagens, ou meros espectadores – formam uma espécie de álbum de imagens, como esses tantos de fotografias que costumamos guardar e, de vez em quando, exibir para os filhos e para os netos.

São lembranças que se juntam, uma a uma, sem cessar, ao longo dos dias, semanas, meses e anos, ao nosso acervo espiritual e nos inspiram, enternecem e consolam notadamente em momentos de tristeza e solidão.

É um privilégio podermos ler, por exemplo, versos singelos, de uma beleza que chega a doer de tão intensa, como estes dois tercetos do soneto “Recreio”, do poeta português Alberto de Serpa:

Na claridade da manhã primaveril,
ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves.

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
a mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
- um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas”.

Concordo, pois, com Leon Tolstoi (escritor que tem lugar cativo no meu “álbum de lembranças” pessoal) quando afirma: “O mais importante acontecimento da vida de um homem é o momento em que se torna consciente do seu eu. As consequências disto podem ser as mais benéficas ou as mais terríveis”. Os riscos, desta transcendental descoberta, porém, valem, sempre, a pena correr.



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Tuesday, January 16, 2018

HÁ POUQUÍSSIMOS ESCRITORES ACIMA DA MÉDIA

A rigor, poucos, pouquíssimos escritores são acima da média. Os que conseguem essa façanha de qualidade acabam por se imortalizar. Há raríssimos Machados de Assis, Williams Shakespeares ou Carlos Drummond de Andrade por aí. Muitos e muitos livros publicados são enfadonhos, maçantes, quando não ridículos, embora abordando assuntos teoricamente de grande interesse. Creio que apenas 10%, ou menos, do que é publicado (cerca de 50 milhões de títulos por ano), se enquadre na classificação de "bom texto"! De excelente? Quase nenhum! Há quem fale, amiúde, em "inspiração". Existe isso?!! Por mais que tente, quem não sabe escrever, ou quem não goste, nunca conseguirá o "milagre" de produzir peças criativas, marcantes e duradouras (ou no mínimo legíveis), que agradem até os menos exigentes dos leitores, por mais "inspirado" que esteja.


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NÃO CONFIE NA TAL DA “INSPIRAÇÃO”

Muitos se julgam escritores, quando na verdade não são. E outros são, sem que se deem conta. Mas o que vem a ser, afinal, essa tal de "inspiração", da qual tanto se fala e nada se sabe, caso exista de fato? Nunca li definição pelo menos aceitável dela. O que se usa, e muito, quando se escreve bem, é outra coisa: é a "transpiração". Ou seja, é o trabalho árduo, disciplinado e constante. É a pesquisa acurada e meticulosa. É a leitura ordenada e atenta. São muitas, muitíssimas horas de prática despendidas diante da tela de um computador, já que parte considerável dos redatores (senão a totalidade) utiliza, hoje em dia, esse magnífico, racional e quase indispensável recurso eletrônico, aposentando a velha máquina de escrever.

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CITAÇÃO DO DIA:

Sabedoria e amor 

Se a sabedoria fosse moça, ela amaria o amor, nutri-lo-ia com a devoção, aprofundá-lo-ia com o sacrifício, vitalizá-lo-ia com a reprodução e a ele subordinaria tudo, desde o começo até o fim.

(Will Durant, livro: "Filosofia da Vida").


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Clima de expectativa


Pedro J. Bondaczuk

A cidade vive o clima de expectativa pela posse do prefeito eleito, Hélio de Oliveira Santos, dentro de três semanas, em 1º de janeiro de 2005, para um mandato de quatro anos. Com ele, serão empossados os 33 vereadores, consagrados pelas urnas em outubro passado, parte dos quais é inexperiente nas lides parlamentares e precisará se adequar às suas funções.

É muito importante, se não indispensável, que a nova administração municipal adote, logo de cara, medidas de impacto, que conquistem a simpatia da opinião pública e a confiança principalmente dos que votaram no candidato derrotado no Segundo Turno. Os primeiros meses de gestão são sempre, via de regra, uma espécie de lua de mel entre o eleito e os cidadãos, seja em qual nível da administração que for: municipal, estadual ou federal. É um período de trégua, em que praticamente não existe oposição. Depois disso…

Os dois últimos governos, notadamente o de Izalene Tiene, que está em final de mandato (mas também o de Francisco Amaral), enfrentaram forte hostilidade por parte de alguns setores da sociedade, que não lhes deram a menor folga, o que reduziu, e muito, sua margem de apoio. É mister que o novo administrador, porém, governe para todos os campineiros, de todos os segmentos sociais (e não somente para os que o elegeram) de forma justa, equânime e equilibrada. Que seja maleável, aberto ao diálogo e saiba, sobretudo, definir prioridades.

Uma das características desejáveis no novo prefeito é que tenha capacidade de negociação, até porque vai precisar, e muito, disso. Afinal, vai assumir tendo como contrapeso uma Câmara de Vereadores teoricamente opositora. Para aprovar os projetos indispensáveis à sua administração, portanto, precisará saber convencer os parlamentares contrários da sua necessidade e da sua pertinência, isto se não quiser ficar travado em sua gestão.

Outra coisa que Hélio de Oliveira Santos prometeu fazer, durante a campanha, e que se espera que venha a cumprir, após a posse, é a busca de parcerias com a iniciativa privada, para financiar determinadas obras inadiáveis, para as quais faltam recursos do Poder Público. Problemas, certamente, não irão faltar em sua gestão (pelo contrário), mas o potencial de Campinas é suficiente para que ele encontre, com sabedoria e bom senso, as devidas soluções.

Espera-se que o novo prefeito obtenha, também, o prometido e necessário respaldo financeiro do Palácio do Planalto, cujo apoio político foi decisivo para a sua eleição. Uma das medidas que deverá tomar será a de tentar renegociar a imensa dívida da cidade, que vem consumindo preciosos reais, em juros, e que deixam, por consequência, de ser investidos em educação, em saúde, em obras públicas e em saneamento básico, entre outras coisas, desta gigante metrópole.

Se conseguir cumprir metade do que prometeu em palanque, fará, certamente, uma boa administração e terá condições de aspirar, tranquilamente, uma possível reeleição em 2008. Caso contrário...

(Editorial publicado em 7 de dezembro de 2004 no jornal “Folha Regional”).



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Amigos e ocasiões

Pedro J. Bondaczuk

A amizade é um fenômeno mal compreendido e, por isso, gera inúmeros equívocos e decepções. Muitos, por exemplo, que acham que têm “um milhão de amigos”, não raro não têm nenhum. Outros tantos, que julgam não contar com nenhum, os têm em profusão.

Esse sentimento benigno é, e deve ser sempre, absolutamente espontâneo. Não se prende a qualquer compromisso, regra ou obrigação. Nasce à nossa revelia, como o sol num dia de céu azul de primavera, como as chuvas de verão, como as quatro estações do ano e assim por diante. E quando acaba, o faz da mesma forma. Ou seja, espontaneamente, de mansinho, sem nenhum alarde ou drama e sem deixar ressentimentos no seu rastro.

Não somos amigos de alguém porque o escolhemos ou porque desejemos isso. E a recíproca, claro, é verdadeira. Não se trata de ato de vontade, de escolha, de apuração, em outra pessoa, de virtudes que julguemos que ela possua (e que raramente, de fato, tem).

Há quem confunda, amiúde, amizade com admiração. Não são, todavia, coisas iguais. Ao contrário, são muito distintas e com características bem definidas. Posso, por exemplo, admirar profundamente determinada pessoa e, no entanto... não ter a menor afinidade com ela e não desejar nenhum tipo de relacionamento com a mesma. Ou posso ser admirado por ela, mas “nossos santos” não se cruzarem.

Acho, por isso, uma bobagem sem tamanho a tentativa de alguns de “testarem” amizades. Se elas precisarem de algum teste para serem comprovadas é porque não existem, nunca existiram e jamais existirão. Por que? Porque estará rompida sua característica fundamental: a irrestrita confiança mútua. Quem testa é porque não confia. E quem não confia em mim (mereça eu confiança ou não), não é e jamais pode ser meu amigo. E ponto final.

O site de relacionamentos Orkut ensinou-me muitas coisas a esse propósito. Ajudou-me, por exemplo, a distinguir quem me dedicava, de fato, genuína amizade e quem apenas desejava um “correspondente” assíduo, sofisticado, que escrevesse maravilhosas (e hipócritas) mensagens laudatórias, que lhe massageassem o ego. E O Facebook só comprovou e consolidou essas lições.

Felizmente, pelo menos no meu círculo de amigos, essas pessoas são poucas. Os que queriam um “admirador”, e não um amigo, romperam imediatamente esse vínculo informal que tinham comigo (foram em torno de duzentos nos últimos quarenta dias os que agiram assim). Classificaram-me de “fantasma” (Deus do céu, será que morri e esqueceram de me avisar?!) e (usando um termo típico de informática) “me deletaram”.

Azar deles! Não entenderam que, para se “ter” amigos, é preciso, antes de tudo, “ser” amigo. Claro que nunca foram e que jamais serão. Devo ficar aflito por isso? De forma alguma! Essas pessoas infringiram uma das únicas e mais importantes regras informais da amizade: a da não exigência. Não se pode, em circunstância alguma, exigir o que quer que seja de alguém que achamos que seja nosso amigo. E vice-versa. Tudo tem que ser sempre natural, espontâneo, sem interesses e nem testes e muito menos obrigações prévias.

Li, há já certo tempo, pitoresco texto de Mário de Andrade a esse propósito, que partilho com você, paciente leitor. O autor de “Macunaíma” afirma, em determinado trecho: “Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhecem os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras”.

Só não concordo com Mário de Andrade quanto ao dia da semana de sua preferência. No mais... Da minha parte, desde os tempos de namoro (e isso já faz muuuuito tempo), prefiro as quintas-feiras. Era nelas que passava momentos inolvidáveis com minha eterna amada (hoje minha esposa), de olho nos sábados e domingos. Eram esses os três dias que, na época, os pais consideravam “adequados” para se namorar. E sempre sob sua diligente supervisão.

Eram outros tempos, claro. Não havia o tal do “ficar”, tão do gosto da mocidade de hoje. Eram, isso sim, namoros “comportados”, vigiados zelosamente por alguém da família, via de regra algum irmão mais novo da namorada (que subornávamos desavergonhadamente, para que nos desse trégua e nos deixasse a sós por alguns preciosos minutinhos que fossem).

Hoje, logo no primeiro encontro, após trocar não mais do que meia dúzia de palavras, lá vai o casal para algum motel, gozar das delícias do sexo. Ou seja, “a entrada” da refeição passou a ser substituída: é, agora, o próprio banquete (e vice-versa).

Os namorados romperam o que havia de melhor no namoro, que era o mistério, a imaginação, a mútua conquista, tarefa que exigia paciência que se rivalizasse com a do patriarca bíblico Jó. Mas quando se chegava aos finalmente... Era um delírio! Era o transporte do céu para a terra!

Naquele tempo, tocar, mesmo que de leve, como que sem querer, os seios da garota, era uma façanha heroica! E o beijo... Nem é bom falar! A garotada, hoje, ri, com ar de superioridade, quando isso vem à baila. Mal sabe o que está perdendo com sua afoiteza! Por isso, por causa daquele exercício de controle e de paciência que mantínhamos (ou também por isso), os casamentos que resultavam desses namoros eram para a vida toda. Nem todos, claro. Mas boa parte era. Hoje...

Bem, o assunto tratado não era bem este. Mas como todo conto exige novo ponto... E essa história de que é nas grandes ocasiões que se conhecem os amigos é coisa de quem, de fato, não tem a mínima noção do que são amizades. Como Mário de Andrade, portanto, também tenho horror às grandes ocasiões. Mas continuo preferindo as quintas-feiras...



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