Wednesday, July 30, 2014

O cinema pode ser ótimo coadjuvante da literatura, mas jamais seu substituto. Filmes baseados em livros famosos auxiliam muito, por exemplo, no entendimento do enredo de determinado romance ou novela, mas têm o defeito de omitir as reflexões do autor, feitas, geralmente, à margem do desenrolar da história, quando da descrição de personagens e/ou cenários. E aí é que está a essência da obra literária, embora o leigo nem desconfie que assim seja. Quando me refiro a cinema, claro, pressuponho o de qualidade, não o chamado “trash”, mal-feito técnica e conceitualmente, que esbanja violência e sexo. O mesmo vale para literatura. Um bom filme valoriza um livro apenas mediano e o oposto também é verdadeiro. Ou seja, um mau, arrebenta com a obra até de um Balzac, um Eça de Queiroz ou um Machado de Assis, entre tantos. A escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís – grande nome das letras de Portugal na atualidade, ganhadora do Prêmio Camões de 2004 – abordou a relação dessas duas artes, em entrevista publicada em 18 de junho de 2000, no caderno “Mais!”, do jornal Folha de S. Paulo, e constatou: “O cinema é uma forma de respirar da literatura. Bergman queria ser escritor, mas a linguagem literária é outra. A linguagem cinematográfica é puramente emotiva e mais sintética. Mostra, mas não demonstra, ilumina, mas não informa”. São, como afirmei, artes complementares, mas não exclusivas.


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Informação é a “vacina”


Pedro J. Bondaczuk


A melhor arma para se combater a propagação da mortal Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, a conhecida Aids, ainda é a informação: correta, exata, sem subterfúgios ou preconceitos. É a exposição franca sobre o que é a doença e quais são as formas de prevenir o contágio.

Campanhas na imprensa precisam ser contínuas e competentemente postas em prática, pois a pandemia, que afeta, praticamente, o mundo inteiro, evolui de forma assustadora no Brasil. Atualmente, o nosso país é o quarto do Planeta em número de registros comprovados da moléstia.

E o diretor da Divisão de Aids do Ministério da Saúde, Eduardo Cortes, alertou que teremos, até 1995, entre 100 mil e 150 mil pessoas doentes, condenadas, irremediavelmente, a uma vida de sofrimentos, já que o mal é incurável, posto que controlável mediante coquetel de medicamentos.

Além de tudo, apesar dos esforços e dos investimentos feitos em todas as partes, nenhuma vacina ainda foi desenvolvida para evitar o contágio. O caminho existente, portanto, é somente o da prevenção. Cortes ressaltou que o Brasil “perdeu a oportunidade de controlar a doença há cinco anos, quando eram reduzidos os casos”.

Não se investiu o quanto deveria para a conscientização da população e para que se procedesse ao meticuloso exame do sangue usado em transfusões. As conseqüências dessa omissão são, evidentemente, funestas, para não dizer trágicas.

Um dos adversários do controle eficaz da Aids, em todo o mundo, é o preconceito que cerca esse mal. Os soropositivos têm sido postos de lado, como se um simples aperto de mão seus ou a simples presença deles no mesmo recinto sejam suficientes para contagiar alguém. Evidentemente, não são.

Isto torna-se mais perigoso pelo fato de levar os doentes a esconderem o mal e aí sim serem um perigo para a comunidade , através de contatos sexuais, já que a ocorrência da moléstia em mulheres e heterossexuais vem se dando numa taxa 50% maior até do que entre os grupos de risco tradicionais.

Cortes prometeu que o Ministério da Saúde vai promover, agora, uma campanha contínua contra a Aids, e não mais esporádica, como se verificou nos últimos tempos. Assinalou que ela não irá se restringir à divulgação de como o vírus é transmitido, mas dará ênfase às conseqüências sociais, econômicas e políticas da epidemia para o País.

Há quem encare, ainda, a doença com pouco caso. Muitos sequer querem ouvir falar dela, mesmo não conhecendo nada a seu respeito, confiantes de que não correm nenhum perigo de contágio quando, em virtude do seu desconhecimento, são os que têm os riscos maiores. É indispensável que a Aids não seja nem subestimada e nem superestimada, para não despertar o pânico, o maior inimigo das soluções inteligentes.     

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de agosto de 1990)

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Pivô da colonização portuguesa

Pedro J. Bondaczuk

O aventureiro português, João Ramalho, desperta imediata e fulminante curiosidade de quem, pela primeira vez, ouve falar a seu respeito, ou lê referências sobre suas ações, que soam a lendas, tão inverossímeis que parecem. Aliás, é impossível determinar o quanto do que se menciona sobre ele é realidade e o quanto é mera ficção. Desconfio que, se não a totalidade, pelo menos mais da metade das referências são frutos exclusivos da imaginação. Advirto-o, caríssimo leitor, que estas considerações não são e nem se propõem a ser uma biografia. Não disponho (e ninguém dispõe) de dados confiáveis para biografar essa figura singular.

Há quem trate João Ramalho como bandeirante, contudo entendo que essa caracterização é equivocada. O que não se pode negar, no entanto, é sua contribuição (decisiva), por exemplo, para o início da colonização do Brasil, notadamente de São Vicente, como “braço direito” de Martim Afonso de Souza, enviado pela Coroa Portuguesa com essa missão específica (pode-se dizer que foi o pivô desse processo, impedindo que os índios arrasassem os primitivos núcleos colonizadores)

Mas João Ramalho, também, foi peça fundamental para a consolidação do nascente vilarejo de São Paulo de Piratininga, ameaçado de destruição por diversas tribos ferozes, inimigas dos portugueses, dos jesuítas e, principalmente, dos seus costumes e crenças, tão diferentes dos seus. O aventureiro português, seus filhos e os silvícolas que comandava combateram sem tréguas essas hordas ameaçadoras. Não fez isso, porém, de graça. Levou vantagens pessoais, e muitas. Afinal, escravizou, vendeu como escravos e até devorou esses inimigos, pois consta que era antropófago. E, se não era, fazia vistas grossas à antropofagia, que considerava prática “natural”. O padre José de Anchieta, em uma de suas tantas cartas, refere-se a isso. Claro que o faz, em tom de horror. Atribui tais práticas que o horrorizavam não diretamente a João Ramalho, mas aos seus filhos mamelucos. Este ponto, portanto, está devidamente documentado.

E não foi somente na colonização de São Vicente e na defesa tanto desse núcleo colonial, quanto de São Paulo de Piratininga, que João Ramalho se destacou. Fundou – consta que apenas com filhos e netos, o que considero exagero – duas cidades: Santo André da Borda do Campo e Taubaté. Seu relacionamento com os jesuítas foi ambíguo e, em inúmeras ocasiões, abertamente conflituoso. Tanto que chegou a ser excomungado, em decorrência não apenas dos seus costumes selvagens, considerados “demoníacos”, pelos sacerdotes, mas por influenciar diretamente muitos índios já catequizados, para que retornassem aos seus costumes originais e abandonassem de vez a doutrina alienígena que lhes era imposta pelos europeus. José de Anchieta, em suas cartas, menciona a destruição, por parte de João Ramalho e dos silvícolas sob seu comando, de várias capelas.

Sobre a excomunhão, o escritor Raimundo de Menezes assim se refere a ela, em seu excelente livro “Aconteceu no velho São Paulo” (Coleção Saraiva, 1964): “No ano de 1553, Santo André da Borda do Campo viveu o ponto mais alto de sua vida florescente. Então surgiram os primeiros jesuítas: Manuel da Nóbrega e Leonardo Nunes. O segundo ficou horrorizado com o que presenciava: a mancebia dos portugueses com as índias e o cativeiro dos índios. Aquilo lhe pareceu pior que Sodoma e Gomorra. E não teve dúvidas em excomungar João Ramalho. Este achou ruim. E começou a luta, uma luta de vida e morte”.

O curioso é que, em dado momento, o polêmico aventureiro parece ter se arrependido de tudo o que fez, principalmente de sua oposição à doutrina católica. Tanto que se casou com a índia Bartira, com a qual estaria amancebado há praticamente quarenta anos, convertida ao cristianismo e que recebeu um nome cristão, após a conversão: Isabel Dias. O mesmo ocorreu com o sogro, o cacique Tibiriçá, batizado com o nome de Martim Afonso Tibiriçá (nome este em óbvia homenagem ao português responsável pelo início da colonização do Brasil). Os restos mortais desse chefe indígena estão sepultados na cripta da Catedral de São Paulo, na Praça da Sé.

A propósito da conversão de João Ramalho (ou de sua conciliação com a Igreja), é reveladora uma carta do padre Manoel da Nóbrega aos superiores da ordem, datada de 31 de agosto de 1553, endereçada do sertão de São Vicente, em que o jesuíta escreve, em certo trecho: “João Ramalho é muito conhecido e venerado entre os gentios e tem filhas casadas com os principais homens desta capitania e todos estes filhos são de uma índia, filha dos maiores e mais principais desta terra. De maneira que nele, nela e em seus filhos esperamos ter grande meio para a conversão dos gentios (...) Se o Núncio tiver poder, hajam dele dispensa particular para este mesmo João Ramalho poder casar não obstante tivesse conhecido outra irmã ou quaisquer outras parentas dela”. Consta que o aventureiro português não se restringiu a manter relações sexuais com as mulheres citadas, mas copulou com centenas de índias, que lhe teriam gerado cerca de três centenas de filhos (há quem diga que foram muitos mais).

O importante a ressaltar é que esta diplomática intercessão de Manoel da Nóbrega foi decisiva para a revogação da excomunhão do aventureiro, que passaria a ser, a partir de então, de acérrimo e implacável adversário (na verdade, inimigo) dos jesuítas, em leal e providencial defensor deles e de sua causa. Essa inesperada conciliação contou com a providencial e decisiva ajuda de Mbicy (conhecida, também, como Bartira, Burtira ou Isabel Dias). Mas... esta é uma história que fica para uma outra vez.


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Tuesday, July 29, 2014

Os “intelectuais” hoje em dia (salvo, claro, honrosas exceções), despendem seu tempo para longas e intermináveis viagens ao redor do próprio umbigo, inconscientes do seu papel social, julgando-se não apenas o centro do mundo, mas do próprio universo. Deixaram morrer as utopias sem que colocassem nada de melhor em seu lugar. São arrogantes, ranzinzas, prepotentes e sumamente egoístas e, sobretudo, narcisistas, de um narcisismo doentio e ridículo. Apostam não somente no pessimismo (que chamam de “realismo” e têm o desplante de classificar quem não pensa como eles de “alienados), mas, sobretudo, no derrotismo. São os arautos da catástrofe. Tanto que hoje em dia as utopias (que na verdade, embora fantasiosas, eram metas postas diante da humanidade, ousadas é verdade, mas que, se atingidas, mesmo que parcialmente, fariam do mundo um lugar decente para se viver) pelas distopias. Ou seja, pelo caos, pela paranóia, pela catástrofe, pelo fracasso, por um inferno criado pelo homem, que é muito pior do que aquele imaginado pelas religiões. Os intelectuais chegaram à sua privilegiada condição não apenas por esforço próprio. São fruto do sacrifício de milhares, de milhões de pessoas humildes, que contribuíram com seus esforços para que chegassem a esse patamar. É justo exigir-lhes, portanto, a contrapartida, que não dão. E se não a derem (como não estão dando), estarão cometendo o crime dos crimes: o da omissão.


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Camaradagem entre superpotências



Pedro J. Bondaczuk


O clima de distensão entre as superpotências, erigido laboriosamente em três reuniões de cúpula entre o presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o líder soviético, Mikhail Gorbachev, vem se mantendo intacto, e até se ampliando, a despeito das desavenças existentes nas negociações de Genebra, sobre um acordo para a redução em 50% dos mísseis ofensivos de longa distância dos Estados Unidos e da URSS.

Isto ficou bastante evidenciado, ontem, no encerramento da visita do secretário de Estado, George Shultz, a Moscou. O encontro desse funcionário com o dirigente do Cremlin foi marcado por amabilidades e até por algumas brincadeiras, como que a refletir uma certa “camaradagem” desenvolvida entre ambos, impossível de se prever há ainda pouco tempo.

O chefe da diplomacia norte-americana, por outro lado, saiu de vários encontros que manteve com as autoridades russas mais convencido do que nunca de que a retirada do Afeganistão é algo iminente. Se ela de fato acontecer, com certeza a confiança mútua entre os líderes das superpotências tende a crescer bastante, facilitando, destarte, a solução de inúmeros outros problemas pendentes no mundo, como as guerras civis de Angola, do Camboja, da América Central, da Etiópia e de tantos outros recantos miseráveis, onde povos sofredores pagam um preço muito alto pelo conflito ideológico entre Leste e Oeste.

Em raras ocasiões foi possível sentir tamanho otimismo nas declarações de algum secretário de Estado dos Estados Unidos, de regresso de Moscou, como o expressado por Shultz, em sua entrevista coletiva de ontem. Esse clima favorável, com toda certeza, deverá se refletir em todas as partes onde os dois gigantes mundiais têm interesses.

Ou seja, virtualmente, em todo o Planeta. Os “refuseniks” soviéticos, por exemplo, serão os beneficiários mais imediatos, recebendo maior quantidade de vistos para irem para Israel. A própria população da URSS vai se beneficiar, mediante um respeito maior às suas liberdades individuais e aos seus direitos humanos por parte das autoridades.

Oxalá nenhum incidente banal, desses que costumam acontecer ao acaso ou ser provocados pelos que vêem apenas no confronto o único caminho para as superpotências, não venha a arruinar um laborioso trabalho diplomático, desenvolvido nos últimos três anos. Que a pequenina abertura para a paz existente agora seja ampliada, até se tornar uma estrada ampla, por onde toda a humanidade possa trafegar.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 23 de fevereiro de 1988).


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Versões e contradições sobre a origem

Pedro J. Bondaczuk

O aventureiro João Ramalho é, certamente, uma das figuras mais enigmáticas, misteriosas e controvertidas da História do Brasil, sobretudo da região que viria a se transformar no atual Estado de São Paulo. Certeza, mas certeza mesmo, sobre sua origem e sobre como veio parar nas terras recém-descobertas por Pedro Álvares Cabral, que viriam a se transformar no Brasil contemporâneo, creio que ninguém a tem. São várias as versões a propósito de quem foi, de onde veio e por que, entre tantas outras circunstâncias da sua vida. Num ponto, todos os historiadores concordam. É quanto ao local de nascimento. João Ramalho nasceu na cidadezinha portuguesa de Vouzela, na região do Viseu, em Beira Alta, filho de João Vieira Maldonado e de Catarina Alfonso de Balbode.

Quanto à data exata de nascimento, não se sabe com certeza. A maioria das fontes cita, apenas, o ano: 1493. Um ano, portanto, depois que o genovês Cristóvão Colombo pisou pela primeira vez em terras que viriam a ser conhecidas como América – em homenagem ao seu navegador Américo Vespúcio – o que, até hoje, causa estranheza. Por que não chamar os territórios do Novo Mundo de Columbia, ou Colômbia, ou Cristovia, ou algo que o valha, em homenagem ao verdadeiro descobridor? Há muitas teorias a respeito, mas nenhuma convincente. Mas, voltemos a João Ramalho, que é quem nos interessa.

Algumas fontes citam que ele foi casado em Portugal com uma tal de Catarina Fernandes. Informam que dessa esposa nunca mais ouviu falar, desde que Ramalho deixou a terra natal, em 1512. Não se mencionam filhos portugueses, o que conduz à dedução que não os teve em Portugal. Essas informações, todavia, suscitam muitas dúvidas, que se somam às referentes aos motivos que o levaram a deixar para sempre a terra natal. Se João Ramalho de fato desposou a citada mulher, deve tê-lo feito quando muito jovem, adolescente, quase menino. É fácil chegar a essa conclusão. Se ele partiu, embarcado como marinheiro, em um navio mercante, em 1512 e se nasceu em 1493, estaria na oportunidade da saída do país com 19 anos de idade. Supondo que tenha vivido algum tempo com a esposa, é possível que tenha se casado (se é que se casou mesmo) por volta dos dezesseis ou, no máximo, dezessete anos.

Tenho, todavia, minhas dúvidas sobre as citadas datas. É possível que os historiadores tenham chegado a essa conclusão face ao registro dos jesuítas referente à ocasião da morte de João Ramalho. O aventureiro teria morrido em 1580 (e novamente não se menciona dia e nem mês) aos 87 anos. Provavelmente, foi ele mesmo quem informou a idade que teria. Mas seria essa mesmo? Será que um sujeito bronco, inculto, selvagem, totalmente analfabeto tinha tirocínio para saber pelo menos quantos anos, de fato, tinha? Se preocupava com isso em plena selva? É plausível que um sujeito que levou vida tão rústica e primitiva, totalmente sem recursos sanitários e médicos, enfrentando tantas guerras e privações, tenha vivido tanto tempo? Não acredito! Para mim, é absolutamente inverossímil.

Mas quem, de fato, foi esse polêmico e misterioso João Ramalho? Raimundo de Menezes, em seu livro “Aconteceu na velha São Paulo” (Coleção Saraiva, 1964) especulou a respeito. E manifestou as mesmas dúvidas que vários historiadores antes e depois dele sempre tiveram e ainda têm e que são, igualmente, as minhas. Escreveu sobre nosso personagem: “Judeu degredado para uns, simples náufrago casual, para outros; precursor de Colombo na América, segundo  frei Gaspar da Madre de Deus; filho da Casa Real, no dizer de Pedro Taques (...) na opinião de Cândido Mendes, boçal e rude analfabeto; personagem pelo menos iniciado nos rudimentos da Cabala, para Horácio de Carvalho...” Afinal, quem foi esse João Ramalho?

Que seu navio naufragou na costa da futura Capitania de São Vicente, em meados de 1513, não há dúvidas. O que se questiona é a razão dele ter saído de Portugal. Foi expulso de lá por ser judeu que se recusava a se converter, ameaçado pela Inquisição? Ou foi mais um de centenas de jovens portugueses da época que resolveu deixar tudo para trás em busca de aventuras e de fortuna fácil? Isso nunca foi esclarecido. Os que especulam sobre sua suposta origem judia citam que na sua assinatura (depois de alfabetizado pelos jesuítas) João Ramalho teria passado a utilizar a letra hebraica “kaf”. Ora, ora, ora. O que isso prova (caso tenha usado mesmo)? Nada! Absolutamente nada.

Outra versão que me parece fantasiosa (ou, pelo menos, soa ilógica) é a afirmação do frei Gaspar da Madre de Deus de que ele seria “um dos primeiros europeus a pisar em terras da América”. Ora, se João Ramalho nasceu em 1493 (no que nenhuma fonte diverge) e naufragou nas costas de São Vicente em 1513, quando ele pisou em solo paulista já haviam se passado vinte e um anos depois que Colombo e seus tripulantes haviam desembarcado em solo do Caribe, um ano antes, inclusive, do aventureiro português ter sequer nascido. Outra especulação que me parece ridícula é a de que ele poderia ser membro da família real. Mesmo que se tratasse de filho bastardo de algum membro da realeza, dificilmente teria nascido na localidade obscura em que nasceu, mas sim em Lisboa ou arredores, para dizer o mínimo. Tudo o que comentei, porém, é apenas introdução sobre a vida e as peripécias desse personagem talhado para “estrelar” um bom e inesquecível romance, como pretendo detalhar na sequência.


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Monday, July 28, 2014

Que bom seria se, ao chegarmos a uma idade avançada, pudéssemos contemplar a vida com o olhar da criança que um dia fomos: com inocência, esperança e assombro (positivo, claro). Evitaríamos inúmeros sofrimentos causados por uma visão distorcida que adquirimos das coisas, pessoas e, sobretudo, desta aventura magnífica, mágica e talvez única. Carregamos nossa memória com “quinquilharias”, dogmas que não se sustentam, filosofias caducas e ambições inconseqüentes. Alguns, deixam de lado aquela veneração natural que tinham pela vida e há, até, os que por uma razão ou outra, tentam abreviá-la, quando não suprimi-la liminarmente. Podemos manter essa visão até o último dos nossos dias, basta querer. Para isso, é indispensável cultivar um sadio e lógico senso de proporções. O poeta Mauro Sampaio escreveu, a propósito, no poema “Aspiração”:

“Vida! Como seria bom fincar meus joelhos na terra
e contemplar-te com os olhos do menino
que um dia fugiu de mim”.


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Operário está mais perto do poder


Pedro J. Bondaczuk


O polonês Lech Walesa, mais uma vez, está em vias de fazer a história em seu país, caso as pesquisas de opinião para as eleições presidenciais de hoje se confirmem e os mais de 27 milhões de eleitores o consagrem definitivamente. Se ele for eleito, será a primeira vez que um operário, que há dez anos era simplesmente um humilde eletricista nos Estaleiros Lenin, da cidade portuária de Gdansk, no Báltico --- a mesma Danzing alemã, que em 1939 foi um dos pretextos para a invasão nazista ao território da Polônia --- chega ao poder.

Trata-se de um homem nascido sob o signo do sucesso. Um líder com facilidade de expressão, que prima pela franqueza em seus pronunciamentos e que por isso nem sempre é bem interpretado. Mas é, sobretudo, um indivíduo de coragem.

Quando em agosto de 1980 Walesa começou sua luta solitária para a criação do primeiro sindicato livre no Leste europeu, o empenho foi noticiado no mundo todo não porque alguém acreditasse no seu êxito, mas pelo insólito da situação. Muitos apostavam que não demoraria muito para a polícia secreta comunista dar sumiço nele. Outros achavam que o sindicalista não passava de um Dom Quixote, a combater com os moinhos de vento do dogmatismo ideológico.

Um ano depois de haver deflagrado o movimento, que empolgou o operariado polonês e se espalhou com tanta velocidade quanto o fogo se espalha num capinzal seco, o ousado eletricista de Gdansk experimentou na própria carne a reação, dura, feroz, implacável, inflexível de um sistema cujos dirigentes diziam que era "infalível". De uma ideologia que, a despeito de apregoar se tratar da "ditadura do proletariado", era na verdade "sobre" ele.

Numa sexta-feira 13, do mês de dezembro de 1981, o Solidariedade foi posto na ilegalidade pelo general Wojciech Jaruzelski, mediante o expediente da Lei Marcial. Sua liderança em peso foi para a prisão. Inclusive Walesa, logicamente, o cabeça do movimento.

O tempo passou. A persistência do líder sindical prevaleceu. Sua luta solitária e pacífica valeu-lhe um Prêmio Nobel da Paz de 1983. Redundou, no ano passado, num histórico acordo que minou as monolíticas bases do comunismo, a rigor já carcomidas por péssimas administrações, pela corrupção e pela incompetência. Resultou no primeiro gabinete de governo realmente democrático do Leste europeu. E com certeza terá o magnífico "happy end" de uma história repleta de lutas, de pertinácia, de fé e coragem, com a histórica eleição de Walesa.

Será uma inédita trajetória de um homem da oficina de trabalho rumo ao palácio presidencial. Será o proletariado, de fato, no poder, não através de uma ditadura, mas por consagração da vontade popular dos poloneses.

(Artigo publicado na página 26, Internacional, do Correio Popular, em 25 de novembro de 1990).


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Preâmbulo do que se propõe a ser longa narrativa

Pedro J. Bondaczuk

A figura de João Ramalho é das mais fascinantes e, simultaneamente, mais bizarras da História do Brasil. Daquela remota, quinhentista, dos primórdios da colonização. Muito se escreveu sobre ele, todavia é impossível distinguir fatos históricos de lendas nas diversas narrativas. Ou seja, não dá para separar realidade de ficção (esta fruto, claro, de pura imaginação). Aliás, bizarro e misterioso não é somente o perfil desse aventureiro português, mas também os de personagens que orbitam ao seu redor, com os quais esteve intimamente relacionado. Destes, claro, a principal é a índia Bartira, que João Ramalho viria a desposar, após conviver com ela, maritalmente, por cerca de 40 anos

Para que o casamento cristão fosse celebrado pelos jesuítas, foi necessário que ela se convertesse à fé católica. E ela converteu-se. Recebeu um novo nome – Isabel Dias – e os registros de São Paulo de Piratininga assinalam que se tornou mulher pia, dada a caridade, financiadora de igrejas e de capelas, que morreu aos 87 anos de idade, respeitada e reverenciada. Apesar de casada oficialmente com João Ramalho, fez vistas grossas ao insaciável apetite sexual do marido, que teria gerado três centenas ou mais de filhos com outras índias. Com Bartira, gerou nove..

Outra figura intimamente ligada ao aventureiro português é o seu sogro, o cacique Tibiriçá, importantíssimo na defesa da nova cidade surgida no Planalto de Piratininga, que viria a se transformar nesta gigantesca e caótica metrópole mundial, que é a atual São Paulo. Conforme registros da época, não fosse sua providencial intervenção, à frente dos seus bem adestrados e leais guerreiros – muitos dos quais netos, filhos de João Ramalho – a então incipiente e frágil vila teria sido arrasada por tribos inimigas dos portugueses, notadamente dos bandeirantes e não seria, óbvio, este colosso que é.

Não tenho a menor condição de assegurar se os dados de que disponho sobre essas fascinantes figuras, candidatas naturais e evidentes a personagens marcantes de novelas, são verídicos ou não. Ou seja, é impossível determinar se são documentos autênticos ou meras lendas, contos e mitos, posto que calcados em pessoas que de fato existiram. O escritor Raimundo de Menezes optou pela prudência neste caso. Tanto que denominou o capítulo dedicado ao aventureiro português e aos personagens a ele relacionados, de seu livro “Aconteceu na velha São Paulo” (Coleção Saraiva, 1954), de “A lenda de João Ramalho”. Eu não chegaria a tanto. Todavia, não ponho minha mão no fogo pela autenticidade e veracidade dos supostos documentos a propósito.

Embora se trate de algo tão lógico que dispensa justificativas, apresso-me em declarar que, por maior que seja meu poder de síntese, é rigorosamente impossível tratar de pessoas tão complexas e controvertidas e que viveram em tempos tão remotos  num único texto, ou mesmo em meia dúzia deles. Farei, portanto, meu relato do jeito que mais gosto. Ou seja: meticulosa e didaticamente, sem me importar com estilo, pirotecnias verbais ou extensão. Só não decidi, ainda, se redigirei esses textos em sequência ou se alternados com tantos outros assuntos que requeiram minha atenção. De qualquer forma, no entanto, conto com sua benevolência (e paciência) nessa aventura literária pelas primitivas trilhas, compreensivelmente misteriosas, da nossa História (ou estória, já que boa parte do que será exposto pode não passar de ficção?).

Para esses relatos, contarei com várias fontes, embora tome como “fio condutor” da narrativa, até por questões de entendimento, das informações que colhi na enciclopédia eletrônica Wikipédia. Embora não se trate do tal romance que me propus a escrever tendo João Ramalho e suas peripécias como personagem central, pretendo que estas narrativas tenham pelo menos dupla função: a de servir de base para a obra ficcional que pretendo encarar e, simultaneamente, a de terem vida autônoma, como uma espécie de ensaio mais extenso do que o usual. Essa empreitada vai me exigir (já está exigindo) horas e mais horas de estudos, que não considero, contudo, como tempo perdido, já que o esforço representa a retomada de um ambicioso projeto, originalmente nascido há praticamente duas décadas.

Este prolongado preâmbulo, embora pareça “enrolação” do editor, (garanto) não a é. Tem dupla função. A primeira é a de emprestar certa ordem à narrativa, com princípio, meio e fim. A segunda, por seu turno, é a de determinar um conjunto de regras que pretendo seguir nessa empreitada, necessário para disciplinar os textos, dar-lhes coerência e assegurar sua simplicidade e clareza. E poderia citar, ainda, uma terceira finalidade: esta seria a de criar  certo clima de suspense nos que se disponham a realmente ler (e não se limitar, apenas, a ligeira passada de olhos) o que tenho e o que me proponho a redigir. Mas por hoje... paciência...


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Sunday, July 27, 2014

Muitas vezes nos esquecemos de como éramos num passado relativamente recente, na adolescência, por exemplo, quando tínhamos sonhos grandiosos, ideais ousados e projetos embora fantasiosos, que mostravam nosso vigor físico e intelectual. Fisicamente, éramos belos e espiritualmente, éramos ingênuos, de uma ingenuidade sadia por sinal. Muito de tudo disso, não raro, acabou se perdendo no tempo, sem que déssemos conta. Subitamente, como num lampejo, nos lembramos de como éramos e constatamos que ainda somos os mesmos, do ponto de vista espiritual. Claro que somos outros, bem diferentes, porém, no aspecto físico. Só nos damos conta disso quando encontramos alguma fotografia antiga, dos tempos da juventude. Mas o que é a aparência? Por que nos preocuparmos com ela? O poeta Mauro Sampaio escreveu o seguinte, em seu poema “Distanciamento”, sobre esses eventuais reencontros conosco:

 “Por onde andei escondido por tanto tempo?
Hoje, em um retrato antigo reencontrei-me ontem.

E perdi-me inexoravelmente de mim, em meu espelho”

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Presente do Dia dos Pais

Dê ao seu amigão o melhor dos presentes neste Dia dos Pais: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas nessa data. Mas em todos ops dias do ano, por anos e anos a fio.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

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O arrastão social


Pedro J. Bondaczuk


O presidente Itamar Franco confidenciou a amigos, no último fim de semana, em Juiz de Fora (vindo a desmentir depois), seu temor de que um “arrastão social” possa comprometer as eleições de 1994. A situação brasileira, nesse aspecto, é muito mais grave do que as pessoas querem admitir.

Miséria, violência e fome aumentam, a despeito das promessas de políticos e de isoladas ações práticas (louváveis e dignas de imitação), de cidadãos e de entidades particulares que, no entanto, tornam-se como minúsculas gotas de água de solidariedade num imenso oceano de descaso e de egoísmo. A esta altura do calendário, não se esperam mais grandes coisas deste governo.

As expectativas mais equilibradas são as de que ele não deixe a inflação disparar e descambar para a hiperinflação, na impossibilidade de ela vir a ser reduzida. Prematura ou não, o fato é que a sucessão presidencial está nas ruas.

Ao contrário do que alguns candidatos potenciais possam estar pensando, a atitude mais sensata neste momento não é a de sabotar a atual administração, mas de colaborar com ela, para que o País chegue em relativa tranqüilidade e ordem até 1º de janeiro de 1995, quando o sucessor de Itamar Franco tomar posse.

Quanto mais erros o atual governo cometer, maiores serão as dificuldades do futuro presidente para implantar seu programa (presume-se que, ao contrário de Fernando Collor, ele terá um). Ninguém certamente vai querer, em sã consciência, herdar uma massa falida.

Por isso, com campanha ou sem ela, a união de forças é fundamental para essa travessia que se afigura acidentada. É preciso conferir um mínimo de governabilidade ao atual presidente. Afinal, estamos todos no mesmo barco e não queremos e nem podemos deixar que ele afunde.

Itamar não será concorrente de ninguém, por ser inelegível. E embora falar mal do governo sempre tenha rendido dividendos, em termos de votos, no passado, dificilmente esta estratégia dará resultado em 1994.

A despeito da falta de politização do brasileiro, o eleitor, certamente, agora estará mais atento. Em 1989, ele se deixou levar pela esperança. Não votava para a Presidência desde 1960 e estava, portanto, desprevenido para os truques demagógicos, que acabaram por fazer com que se enganasse tragicamente na escolha.

Agora, certamente, estará mais precavido, mais crítico, mais exigente. Não será nenhuma surpresa, inclusive, se os votos brancos e nulos rivalizarem com os do candidato mais votado, tamanho é o desencanto da população com a atual geração de políticos. Corre-se, portanto, o risco de um “excesso de cautela”.

Mas os temores de Itamar Franco têm fundamento. O descontentamento é crescente e nem mesmo o futebol, usado tantas vezes, até de forma exagerada, como válvula de escape para as frustrações, vem dando alegrias aos brasileiros. Pelo contrário, é vexame em cima de vexame.

Um editorial do jornal “O Globo”, de 30 de outubro de 1988, acentuou que “muitos brasileiros amam, ou dizem amar, a democracia, mas detestam a prática democrática, querem um cenário democrático sem personagens e os incidentes que dão realidade e vida a essa moldura”. Ou seja, defendem a inexistência de crises.

Buscam o chamado consenso. Pregam uma sociedade a salvo de tensões. Estes, de democratas podem ter, quando muito, o rótulo. Pois, como conclui o mencionado editorial, “o sonho de uma democracia sem crises só pode conduzir ao pesadelo da noite institucional, de uma noite que costuma ser longa e fria”. E esta, todos sabemos, de sobejo, as conseqüências que produz. Está aí o quadro de pré-arrastão social para lembrar os esquecidos.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 12 de agosto de 1993).


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