Friday, May 22, 2015

Alguns problemas que tendem a afetar parcial ou totalmente a memória são: reação adversa a determinados medicamentos, depressão, desidratação (quem diria!), não ingestão de alimentos saudáveis suficientes ou ter poucas vitaminas e sais minerais no organismo; pequenas lesões na cabeça, problemas de tiróide e vai por aí afora. Bom, vou parar por aqui. Até porque, sou escritor e, embora apaixonado por medicina, não sou, propriamente, alguém versado na matéria. Por estas e outras é que fico, no final das contas, com a definição de Austin O’Malley (para desgosto dos adeptos do politicamente correto): “A memória é uma velha louca que joga comida fora e guarda trapos coloridos”. E não é?!


@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 
Omissão das superpotências


Pedro J. Bondaczuk


A atitude das duas superpotências, que virtualmente são as únicas a dispor de capacidade efetiva de decisão em conflitos que ocorram além de suas próprias fronteiras, tem sido decepcionante diante da carnificina que se desenrola no Líbano, mais especificamente em Beirute. Preocupados com seus próprios problemas, Estados Unidos e União Soviética virtualmente fazem vistas grossas à sangria desatada que se desenvolve nesse atribulado país do Oriente Médio.

Alguns observadores poderiam argumentar que Washington e Moscou estariam de mãos atadas para atuar em território libanês. Os norte-americanos, por terem ali sete cidadãos cativos em mãos de extremistas muçulmanos. Moscou, por ser o maior aliado de uma das partes envolvidas diretamente no conflito, a Síria.

Entendemos, porém, que exatamente por tais circunstâncias os dois lados são os que têm as maiores condições (e interesse) de atuar, isoladamente ou em conjunto, para a pacificação libanesa. Um Líbano isento de lutas encarniçadas poderia conferir melhores condições para se obter a libertação dos reféns ocidentais aprisionados.

Por outro lado, a União Soviética, na qualidade de "amiga" dos sírios, teria possibilidades de influir na liderança de Damasco se quisesse agir assim para que fizesse, de fato, o que se comprometeu a fazer quando recebeu, em 1976, um mandado da Liga Árabe para atuar em território libanês. Ou seja, assumisse o papel de mediadora na guerra civil e não o de sua principal protagonista.

Justiça deve ser feita, por outro lado, em relação ao governo francês e principalmente ao papa João Paulo II nesta questão. O primeiro, já tentou de todas as formas prestar auxílio humanitário a essa sofrida população. Mandou combustível para Beirute, mesmo tendo o navio tanque que remeteu para lá recebido a bala, numa operação de enorme perigo. Enviou também alimentos, médicos e até uma embarcação hospital, para socorrer os milhares de feridos nessa carnificina.

O Pontífice, por seu turno, do alto da sua enorme autoridade moral, vem fazendo sucessivos alertas à comunidade internacional sobre a destruição do Líbano e apelos às partes em conflito, para que deponham as armas e discutam suas pendências de forma civilizada, ao redor de uma mesa.

Além das superpotências, outra omissão que se observa é a da Grã-Bretanha, apenas para mencionar as posturas dos quatro grandes do mundo. Destes, somente a França parece ter tomado consciência real da sua responsabilidade pelo que ocorre no Planeta, que é de todos nós e de ninguém em particular. O barco é um só e não adianta ele ser um transatlântico de luxo, se houver um bomba-relógio em seus porões...

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 16 de agosto de 1989).


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk  
Onde mora o perigo...

Pedro J. Bondaczuk

A ciência fez de nós deuses antes mesmo de merecermos ser homens”. Essa afirmação é do filósofo e historiador francês, Jean Rostand, que, como tantos e tantos pensadores do seu tempo (e do nosso) preocupava-se com a aplicação das mais relevantes descobertas científicas exclusivamente para construir um mundo melhor, como seria de se esperar, e tornar a vida das pessoas mais amena ou menos árdua. Vários dos segredos da natureza, desvendados por hábeis pesquisadores, todavia, são terríveis ameaças, inclusive à sobrevivência da espécie, quando usados sem critério e sem juízo. Exemplo? A energia nuclear.

Caso o fantástico potencial energético contido no simples núcleo de um átomo seja usado, única e exclusivamente, para mover máquinas e iluminar cidades, é capaz de resolver, adotadas as devidas cautelas, de uma vez por todas, o problema de energia, cada vez mais necessária, posto que as fontes mais utilizadas atualmente sejam escassas e finitas. Ocorre que seu uso não se restringe a esse aspecto. Estão aí as armas nucleares, com potencial destrutivo absolutamente catastrófico e em quantidades fantasticamente exageradas. Uma só dessas bombas pode destruir países inteiros e lançar a humanidade, literalmente, na idade das trevas. Sabe-se, porém, que os arsenais das potências atômicas tem poder destrutivo tamanho que, se explodidas simultaneamente, podem destruir mais de uma centena de planetas Terra!!! Ora, destruída uma, não haverá outras noventa e nove para serem aniquiladas. E não se trata de fantasia. É a mais inquietante e pavorosa realidade.

Os detentores desses absurdos arsenais asseguram que sua existência tem caráter meramente “dissuasório”. Ou seja, que nenhum país os atacará sabendo que possuem esse absurdamente invencível meio de “defesa”. Defesa? Só mesmo na cabeça desses malucos que detêm poder político, com a complacência e alienação dos que lhes delegaram essa posição. Quem pode garantir que essas bombas nunca serão usadas? Afinal, duas delas, e de potência ínfima comparadas com as de hoje, já foram utilizadas para destruir, em minutos, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki!!! Houve, portanto, um precedente  Ademais, quem é capaz de assegurar que jamais venha a ocorrer alguma explosão acidental? Ou que alguma dessas bombas não caia, por uma dessas desgraças impensáveis, mas não impossíveis, em mãos de algum grupo terrorista, de indivíduos tão fanatizados que sua última preocupação é com a vida alheia e inclusive com a própria? Claro que não há garantia alguma. E sequer citei acidentes na utilização da energia nuclear para fins pacíficos, como ocorreu com as usinas de Three Mile Island, nos EUA, em 1979; Fukushima, no Japão, em 2011 e, principalmente, Chernobyll, na Ucrânia, em 1986. Antes, portanto, a ciência sequer descobrisse esse segredo da natureza.

E o que dizer das armas bacteriológicas? Como classificar a ação de determinados pesquisadores que, em vez de conhecerem os segredos dos vírus e bactérias para eliminá-los e erradicar doenças que nos ameaçam há milênios, fortalecem-nos e os transformam em equipamentos de guerra? Há descobertas e mais descobertas científicas que, se empregadas com juízo e construtivamente, tendem a tornar nossas vidas muito mais longas, seguras e agradáveis. Todavia, se mal utilizadas... podem tornar este planeta estéril, vazio e inabitável. Não sou e nem poderia ser contrário aos avanços científicos. Só entendo que as descobertas têm que vir acompanhadas da devida cautela, ditada pela ética. Infelizmente, nem sempre são.      

A afirmação de Jean Rostand, embora soe, a muitos, como mera retórica, como simples frase de efeito, não é. É a pura expressão da verdade. “A ciência fez de nós deuses antes mesmo de merecermos ser homens”. E não fez? E ele pôde afirmar o que afirmou com pleno conhecimento de causa. Afinal, além de filósofo e de historiador, foi, também, ilustre biólogo> Portanto, foi um cientista; O dramaturgo irlandês, ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura, George Bernard Shaw, afirmou: “A ciência nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez”. Embora sua afirmação tenha o defeito da generalização, não deixa de conter certo fundo de verdade. Talvez uma determinada descoberta científica, que solucione problema específico, não crie outros dez, como ele afirmou. Em alguns casos, contudo, pode gerar muito mais do que só uma dezena. Como pode, também, não produzir nenhum.

Estas ligeiras considerações, observo, não são manifestações de pessimismo, como pode parecer aos desavisados. São frutos de observação da realidade, como compete a qualquer escritor que acredite num futuro melhor e que, por isso, não seja alienado. Não se pode fazer da ciência uma espécie de “caixa de Pandora” que, se aberta, libere todos os males que existem. Mas, para que isso aconteça, é preciso que o conhecimento ande de mãos dadas com a sabedoria. Que o homem não se sinta o deus, que não é, e que cultive o que deveria caracterizá-lo: “a humanidade”, fundamentada na razão. Até porque, como observou Isaac Asimov – gênio tanto como escritor, quanto por se tratar de um dos mais lúcidos cientistas do século XX: “O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria”. É aí que mora o perigo.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Thursday, May 21, 2015

Observo (posto que sem base em nenhuma teoria científica, mas da mera observação), que nem sempre a memória se degrada com a idade. Ouso dizer que, em alguns casos (em pessoas especiais), torna-se até mais aguda, precisa, afiada e rápida. Conheço indivíduos (muitos dos quais do meu círculo de amizades), com mais de oitenta anos, que fariam inveja ao CPU de qualquer supercomputador. Lembram coisas do “arco da velha” que, confrontadas com arquivos, se revelam de precisão milimétrica. Claro que, na maioria das pessoas, a idade, de fato, degrada a memória. E nem me refiro às portadoras de determinadas doenças e muito menos aos extremos, entre os quais destaco a senilidade. Há vários motivos de ordem médica que podem “avariar” esse nosso importante sistema de lembranças e levar uma pessoa à sua perda total. Esses problemas podem ser sanados (em alguns casos), com o devido tratamento como podem, também, ser irreversíveis. Aí a coisa se torna trágica, sem dúvida. Imagine-se totalmente desmemoriado. Não dá sequer para imaginar, não é mesmo?


@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk  
Corrida armamentista chega ao Golfo



Pedro J. Bondaczuk


Os mais eficazes remédios, se não usados na dosagem e na indicação corretas, tendem a se tornar letais venenos. Por mais lógico que isso pareça, nem sempre o fato é tido em conta. Principalmente no que se refere à fantástica energia que pode ser liberada por um mísero átomo.

Bem canalizada e tomadas as devidas cautelas para se evitar acidentes, ela se constitui numa inesgotável fonte de recursos para a humanidade. Todavia, se usada para destruir, tem a capacidade de mandar pelos ares todo o Planeta, com tudo o que ele possui, principalmente o homem.

Quanto mais se fala hoje em não-proliferação, maiores são as ameaças de que os terríveis armamentos atômicos venham a proliferar cada vez mais, principalmente entre povos que mostraram não ter tirocínio suficiente para entender o potencial catastrófico que eles possuem.

Aumentam as suspeitas, por exemplo 000 que ficam cada vez mais evidenciadas --- de que a recente guerra do Golfo Pérsico não demoveu o presidente iraquiano, Saddam Hussein, de desenvolver a "arma do Apocalipse". Tanto é que, conforme o jornal The Los Angeles Times noticiou, ontem, a Casa Branca já estaria pensando num ataque preventivo contra instalações nucleares do Iraque, ou pelo menos contra suas possíveis reservas de materiais dessa natureza.

Outro fato inquietador neste campo foi a revelação feita num artigo publicado na quarta-feira pelo The Washington Post. Nele, o articulista fala em transferência de tecnologia, no campo das armas atômicas, da China, não signatária do Tratado de Não-Proliferação de Tlateloco, para o Irã.

Ou seja, a se acreditar nos alertas --- e não há razões para não se crer na integridade e veracidade dos jornalistas que os fizeram --- a corrida armamentista nuclear parece estar chegando com tudo à sensibilíssima área do Golfo Pérsico. Imagine o leitor um Iraque, de Saddam Hussein, e um Irã, dos fundamentalistas xiitas, tendo em suas mãos um instrumento de extermínio em massa como este, por menor que seja o artefato! A perspectiva chega a ser arrepiante!

Até porque, depois do desastre ecológico produzido no Kuwait, com o incêndio de mais de 500 campos de petróleo e o vazamento de milhões de litros de óleo cru no mar, não há nenhuma razão para se crer no bom senso e no equilíbrio do presidente iraquiano.

Certamente, líder ocidental nenhum duvida que, se esse delirante megalomaníaco possuir um instrumento decisivo desse tipo em suas mãos, não medirá conseqüências e certamente o usará para os seus propósitos, que talvez nem ele saiba exatamente quais sejam.

Quem criou as armas nucleares raciocinou como se cada país fosse um planeta diferente, um compartimento estanque, isolado dos demais. Esqueceu-se que os danos causados em qualquer parte do mundo afetam fatalmente a Terra inteira, que é literalmente uma nave cósmica viajando no espaço para um rumo que cientista algum tem a capacidade de determinar.

Por isso, a menos que a humanidade esteja dominada pelo instinto tânico, o de destruição, tais engenhocas deverão, fatalmente, mais cedo ou mais tarde, ser banidas de vez, e por completo. A mais elementar das lógicas deixa claro que ou os homens destróem a totalidade dos armamentos atômicos, e para sempre, ou serão destruídos por eles. Neste caso inexiste o meio-termo.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 29 de junho de 1991).


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk     
Milagre sem chance de repercussão

Pedro J. Bondaczuk

O que a vida quer é repercussão”. Essa é a constatação de Guilherme de Almeida, no primeiro verso do magnífico poema “Eco”. Aliás, “adjetivar” positivamente a produção deste que foi, justamente, eleito (em eleição popular) “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, é até redundante. Não conheço uma única de suas poesias – e olhem que tenho uma estante inteira da minha caótica biblioteca repleta de livros seus – a que se possa impor a mais leve restrição, quer nos temas que desenvolve, quer na forma de abordagem, quer e, sobretudo, na emoção que transmite e que nos contagia de imediato, sem que ao menos nos apercebamos. Entendo que, pelo que fez, e pelo que foi, Guilherme de Almeida mereceria maior atenção por parte da crítica, da mídia e dos leitores. Ou seja, merece contínua “repercussão”.

Parece-me que o poeta campineiro tinha uma espécie de obsessão por esse fenômeno acústico, por esse reverbero de sons, que em passado remoto intrigou nossos remotíssimos ancestrais. Tanto que sua festejada coluna de crônicas no “O Estado de São Paulo” – que manteve por décadas (tenho, em minha hemeroteca, centenas delas recortadas, ciosamente, do jornal) – tinha, justamente, o título de “Eco ao longo dos meus passos”. A vida nos impõe circunstâncias – ora benignas, ora ruins – que são desafios à nossa engenhosidade e capacidade de reação. Das complicadas, espera, de nós, que o “eco” seja a saída que possamos encontrar para os diversos impasses. Já das favoráveis, nos desafia a multiplicá-las, em várias repercussões, como ocorre com o som, quando emitido em local com vários obstáculos, ou seja, de acústica apropriada.      

Para que o leitor entenda bem o que me proponho a transmitir, nada é mais apropriado do que reproduzir o belo poema “Eco”, de Guilherme de Almeida, que diz: 

“O que a vida quer é repercussão.
Há paredões e cavernas,
há membranas e bojos,
há ocos e superfícies,
nos caminhos divergentes.
O grito salta da boca,
bate, volta e coincide.

Perguntas que fiz,
nomes que bradei,
segredos que disse,
versos e preces
que minha voz levou ---
tudo partiu e volveu
menos a única rima: ‘Eu’”.

Tudo o que emitimos – gritos, gemidos, sussurros, perguntas, nomes, segredos, versos e preces – retorna para nós, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde. A única exceção é a nossa essência, nossa alma, aquilo em que nos transformamos com o tempo. Ou seja, o nosso “Eu” original, desgastado pelos anos e finalmente aniquilado pela “niveladora dos homens”: a morte. Nesse aspecto, Manuel Bandeira foi mais explícito (posto que eu discorde de sua conclusão). Considera tudo, absolutamente tudo o que nos rodeia e nós próprios como um “grande milagre”. Até aí tudo bem. Faz a seguinte constatação no poema “Preparação para a morte”:

“A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre;
cada pássaro,
com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
--- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”.

Como observei, discordo dessa sombria conclusão. Não considero que a morte – mesmo admitindo outro tipo de vida, incorpóreo e incorruptível, posto que incomprovável, restrito, apenas, ao terreno da fé – seja qualquer espécie de “bênção”. Para mim, não é! É maldição! É o fim! É a extinção! É o que não se pode repercutir jamais, como a vida tanto exige, por se tratar de sua antítese.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Wednesday, May 20, 2015

A memória é uma velha louca que joga comida fora e guardar trapos coloridos”. Esta é a definição (pitoresca), nada científica, dada pelo professor irlandês (da Irlanda do Sul), Austin O’Malley, dessa capacidade humana (não posso garantir que não seja, também, a de todos os animais) de adquirir, armazenar e evocar informações, ou seja, lembranças. Os tais politicamente corretos devem estar torcendo o nariz. Por que? Porque O’Malley usou a expressão “velha louca”, que eles entendem ser preconceituosa em relação aos idosos. “Bushit”, diria o norte-americano. Besteira, enorme besteira!, exclamo, da minha parte. Aliás, os tais que se propõem a fiscalizar o que é politicamente correto são, com sua atitude antipática e enjoada, exatamente o oposto do que acham que são. Quem, afinal, lhes conferiu a prerrogativa, ou mais, o direito de serem árbitros do comportamento alheio? Certamente ninguém! Esse seu constante (e chato) patrulhamento, portanto, é o suprassumo da incorreção.

@@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk         


O peso da corrupção num ano eleitoral


Pedro J. Bondaczuk


O assunto corrupção, no âmbito de governo, é muito sensível em qualquer país e período, pois, presume-se, que o homem público, que se oferece para exercer função dessa natureza, tenha um mínimo de probidade. Ninguém é convocado para cargos governamentais compulsoriamente. Muito pelo contrário, os políticos investem o que têm, e muitas vezes até o que não têm, para obter um mandato.

Mas quando o tema é levantado nos Estados Unidos, e num ano eleitoral, a coisa fica muito pior. É o que vem acontecendo, infelizmente, nos últimos tempos, na Casa Branca. Alguns dos ex-auxiliares do presidente Ronald Reagan, de menor escalão, já foram punidos, e até com prisão. Outros, todavia, conseguem esquivar-se, a despeito de abundarem acusações contra eles.

Uma das questões desse tipo, que vêm se arrastando há dois longos anos, é a investigação que apura supostas fraudes em contratos feitos com o Pentágono. Antes mesmo do caso vir à baila, em nível oficial, ainda em 1985, a imprensa vinha denunciando que fornecedores do Departamento de Defesa estavam cobrando preços exorbitantes pelos seus produtos que, ademais, estavam isentos de impostos, muito acima daquilo que cobravam dos seus clientes civis.

Por exemplo, nesse mesmo ano, a Força Aérea dos Estados Unidos chegou a pedir, a duas empresas, a devolução de US$ 208 milhões em lucros excessivos que seriam indevidos. Mencionou-se, na época, a título de exemplo, o caso do fornecimento de simples cinzeiros (que estão muito longe de ser materiais estratégicos que envolvam a segurança nacional).

Enquanto esses recipientes para colher cinzas de cigarros eram negociados, em qualquer lugar, por US$ 1 (ou o equivalente), e isto os de melhor qualidade, o Departamento de Defesa estava pagando cerca de US$ 20 a unidade. Falou-se muito sobre este, e outros casos e, de repente, tudo acabou abafado.

Agora é o próprio presidente Reagan que quer as coisas em pratos limpos. Aliás, comenta-se que o motivo real da demissão apresentada, anteontem, pelo chefe da Casa Civil da Casa Branca, Howard Baker, não seria exatamente aquele que ele mencionou em seu pedido: a doença da sua esposa Joy.

Ele estaria, na verdade, querendo a cabeça do secretário de Justiça, Edwin Meese, envolvido em diversos casos não muito bem explicados. Ocorre que esse auxiliar da presidência é mais do que um simples colega de governo ou mero subordinado. É amigo pessoal de Reagan.

Vai daí que os democratas vão ter pratos muito cheios durante a campanha presidencial, cujsa reta final deve começar a ser percorrida em agosto próximo. E a permanência dos republicanos na Casa Branca pode se tornar um conto da carochinha.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 16 de junho de 1988).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk        
Pessimismo, otimismo e alienação

Pedro J. Bondaczuk

O pessimismo, o negativismo e o derrotismo são atitudes doentias, que nada constroem e que, por isso, são comportamentos dos quais temos que nos livrar. Todos nós, é verdade, diante de alguma circunstância particularmente ruim, manifestamos alguma dessas reações, quando não todas elas, simultaneamente, posto que “ocasionalmente”. Considero isso normal, mas apenas se essa postura for passageira e não se torne constante, rotineira, habitual. Há pessoas, todavia, que encaram a vida como castigo, como forma de expiação de algum suposto “pecado original” que sequer cometeram e que enxergam tudo e todos, digamos, com uma cor cinza chumbo, carregada e ruim. É essa atitude que condeno e que considero doentia. Ela é fruto, normalmente, de experiências ruins das quais o prudente e sábio é extrair lições a propósito e esquecer. Tais pessoas, no entanto, por razões que nem elas conseguem explicar, não as esquecem e ficam remoendo, remoendo e remoendo, por anos e mais anos e, não raro, por toda a existência. Com isso deixam de usufruir as boas coisas que a vida pode lhes proporcionar.

É verdade que os dramas do cotidiano que nos envolvem (ou dos quais somos testemunhas), caracterizados pela violência, corrupção, maldade e dor, tendem a nos assustar e nos desanimar. Nessas circunstâncias, o pensamento negativo, que em nada contribui para que venhamos a mudar uma realidade adversa, finda por se impor em nossa mente. E inibe nossa capacidade de reação, por afetar nossa lucidez. Extingue a esperança, elimina a fé e nos torna amargos e infelizes, desconfiados de tudo e de todos. Nem é preciso ressaltar que se trata de atitude doentia e destrutiva.

Há quem consiga superar isso naturalmente, dadas  características inatas. Mas o pensamento positivo pode, e deve, ser aprendido e cultivado. São esse aprendizado e esse cultivo que devem ser empreendidos em cada manhã da nossa vida, que é um privilégio dos céus. Afinal, o pensamento positivo é o único caminho seguro para o sucesso e a felicidade. O pessimismo (e refiro-me, insisto, ao contumaz e habitual e não ao momentâneo, ao qual todos estamos sujeitos, dependendo das circunstâncias)  é inimigo feroz contra o qual é necessário, portanto, lutar sem tréguas. A maioria dos livros que temos ao nosso dispor, por exemplo, nos apresenta só o lado obscuro e torpe da natureza humana. Raros, raríssimos, ressaltam o que o homem tem de melhor: seu raciocínio e imenso potencial de grandeza, por exemplo. 

Nas conversas informais do dia a dia, o que mais se ouve são críticas aos atos e defeitos alheios, como se os que criticam fossem seres perfeitos. Não são! Infelizmente, o homem ainda duvida do homem, desconfia dele, teme-o e o tem como inimigo, em vez de aliado. É verdade que age assim não sem certa dose de razão. Mas, por que, em vez de só criticar os defeitos alheios não procuramos identificar e ressaltar suas virtudes? Todos, em alguma medida, as têm. Por que não encararmos a vida pelo ângulo positivo, benigno, belo, considerando o mal e suas manifestações (como violência, mentira, corrupção, cobiça, perfídia e outros desvios de comportamento) como exceções, jamais como regras?  

É muito controversa essa questão do pessimismo. Ouço, amiúde, por aí, dizerem que o pessimista é o otimista bem-informado. Discordo. É, isto sim, alguém bastante parcial no julgamento da vida e dos acontecimentos. Enxerga “apenas” um lado da questão, o negativo, sem atentar para o outro, o positivo. Além disso, sua visão parcial e amarga é influenciada pelos hormônios, em detrimento dos neurônios. O pessimismo, como diz Èmile-Auguste Chartier (que assinava seus textos com o pseudônimo de Alain), é humor. Já o otimismo, no seu entender, é vontade. Concordo. O otimista é como é porque quer ser assim. Deseja que as coisas boas lhe aconteçam e essas, de fato, acabam em algum momento por ocorrer. Vislumbra os dois lados da vida e dos acontecimentos e opta pelo de maior quantidade, relevando o de menor. Ademais, o pessimista é uma espécie de ave de mau-agouro, que envenena a fé, a esperança e a alegria dos que o cercam.
 

O mais profundo pessimismo permeia as relações humanas neste início de milênio. Raríssimos são os que crêem em um mundo melhor, mais justo, equilibrado e humano, sem os enormes contrastes e aberrações econômicos, sociais e comportamentais  da atualidade. As pessoas desconfiam umas das outras e a hipocrisia predomina nos relacionamentos (sejam profissionais, afetivos ou de qualquer outra espécie, até no seio das famílias, onde a  prepotência, a traição, os abusos sexuais e o rancor se instalam com freqüência assustadora). Há crescente desamor na humanidade, o que se transforma em estopim para explosões (individuais e coletivas) de violência ou pelo menos atua como uma espécie de bomba-relógio, pronta a explodir a qualquer momento, face o mais banal e inocente incidente. Em suma: o homem desconfia do homem e odeia seu semelhante. Mas isso é irreversível? É motivo para generalizações? Justifica-as? Entendo que não.

Por isso insisto que o pessimismo é uma doença da alma, da qual devemos nos acautelar. Não raro é sintoma de depressão, se não uma de suas causas. Ronda-nos a todo o instante e, quando menos esperamos, nos toma em suas traiçoeiras garras. Distorce nossa visão de mundo, suprime nossa alegria de viver e faz, até, com que enxerguemos terríveis monstros, onde há, apenas,  reles formigas. Ou seja, amplia o negativo e distorce cruelmente a realidade. Inibe nossa iniciativa, criatividade e ousadia e, sem que nos apercebamos, nos torna inúteis e indesejáveis. Afinal, como outras doenças quaisquer, o pessimismo tende a ser extremamente contagioso. Para evitá-lo, o melhor recurso é o de recorrermos a pelo menos três poderosas “vacinas”: fé, esperança e, sobretudo, amor.

Muitos, todavia, confundem otimismo com alienação. Crêem que podem se encerrar numa redoma de vidro, na qual ficariam imunes aos efeitos dos horrores e das patifarias que os cercam. Claro que não podem. Essas pessoas agem como se os fatos negativos que ocorrem ao seu redor não lhes digam respeito. Dizem. Os formadores de opinião precisam, sobretudo, de equilíbrio, para refletirem com exatidão a realidade, sem aumentar ou diminuir os episódios negativos. Como jornalista, a matéria-prima do meu trabalho é o que há de melhor (raramente) e de pior (na imensa maioria) na natureza humana. O fato de trazer à baila  crimes, a imoralidade, a corrupção e a devastação do meio ambiente, entre outras coisas ruins, não implica em me classificar, necessariamente, de pessimista, derrotista ou catastrofista. Pelo contrário. Se abordo estes problemas é porque creio que eles têm solução. Afinal, a cura de qualquer doença depende da precisão do diagnóstico.

Convenhamos, não é justo, e muito menos inteligente, por exemplo, generalizar a corrupção. Afirmar que todos os políticos são “farinhas do mesmo saco”, que não há mais salvação para o Brasil, que cada um deve agir apenas em seu próprio interesse, como se apregoa amiúde, além de não ser prático, não é construtivo. Temos sempre que dar nome aos bois, até por questão de justiça. Tal pessimismo que toma conta da sociedade, embora até explicável, é um veneno que conduz facilmente ao derrotismo. Reflete um desencanto em relação às instituições, quando a atitude racional seria agir, mediante pressões, protestos e todos os instrumentos lícitos de exercício da cidadania, para seu aperfeiçoamento. Em suma, ser otimista não é ser alienado. Não é fugir da realidade e não “enxergar” o mal, como se não existisse. É ser criterioso na análise e disposto a contribuir, de alguma forma, para a reversão do que está errado. Sei que o tema é polêmico e controverso, mas, justamente por isso, merece madura e construtiva reflexão, em vez de ser liminarmente ignorado.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Tuesday, May 19, 2015

Os políticos, notadamente os populistas, quando querem justificar determinado projeto de lei e encontram oposição, principalmente da direita, dizem que seus adversários deveriam “ouvir a voz rouca das ruas”, ou seja, os clamores populares, para adotarem as medidas requeridas pela maioria imensa da população, aquela faixa mais pobre dela que raramente é ouvida. O mesmo se pode dizer em relação à poesia. Sempre que se exagera no academicismo – a ponto de tornar textos supostamente poéticos em obscuras criptografias, como aquelas mensagens cifradas dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, sem significado lógico e inteligível a não ser para meia dúzia de “iniciados”, que por mais que se tente decifrar, não se consegue – pensa-se, de imediato, no cidadão comum, naquele sem grande (ou até sem nenhuma) instrução, mas que tem visão de vida notável e talento inato de poetar. Para estes eu digo que deveriam ouvir a “poesia rouca das ruas”, aquela espontânea, lógica, com metáforas criativas e emoção borbulhando. Muitos críticos e acadêmicos torcem o nariz para esse tipo de literatura e sequer o levam em consideração na redação da história literária de uma cidade, um Estado ou mesmo do País. Deveriam levar.

@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 
O homem e a bola


Pedro J. Bondaczuk


O sucesso da seleção brasileira, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, embora um feito meramente esportivo, que não pode ser usado por nenhum político para obter qualquer espécie de vantagem, encerra lições preciosas que todos podemos e devemos aprender.

Em primeiro lugar, significa uma ducha gelada na excitação dos eternos derrotistas, que juram por todas as juras que o povo que habita este imenso país de dimensões continentais é incompetente em tudo, ou quase tudo. Ao contrário. O Brasil pode carecer, na verdade, de líderes conscientes ou bem intencionados.

Todavia, mesmo andando, às vezes, às cegas, em círculos, seguindo a mera intuição, o brasileiro é versátil, é criativo, é resistente e, portanto, um vencedor.

Outra lição a ser extraída é a de que, apesar de ser necessário que não nos alienemos da realidade, sempre há um espaço para o sonho, para a fantasia, para a concretização de esperanças, mesmo as que pareçam impossíveis. Isto vale tanto para o esporte, quanto para a vida.

Poucas pessoas punham fé na atual seleção nas Eliminatórias do ano passado. Menos ainda quando do seu embarque para os Estados Unidos. Alguns, porém, ousaram sonhar. E, mesmo que por alguns desses acidentes de percurso --- comuns e normais num esporte como o futebol --- o tetra escape das mãos brasileiras, o resultado obtido já foi muito superior àquele esperado pela maioria.

O escritor realista italiano Verga afirmou que "copiar a realidade pode ser uma boa coisa, mas inventar a realidade é melhor, muito melhor".  E esta apenas se "inventa" com ação, com esforço, com determinação e com fé.

A seleção brasileira, convenhamos, apresentou uma infinidade de defeitos. Esteve longe, muito distante, da perfeição e de jogar aquele futebol mágico, alegre, versátil, como se fora um balé, de outras jornadas. Mas alcançou o objetivo que seus integrantes traçaram.

O imortal Nelson Rodrigues, numa de suas crônicas, expressou, em 1970, o que gostaríamos de ter expressado naquela ocasião e nesta atual, ao escrever: "Há um ser humano por trás da bola e digo mais: a bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão". E, convenhamos, não é também o que encontramos na vida?

Se podemos nos organizar e atingir a excelência em esportes coletivos como o futebol, o vôlei e o basquete, o que nos impede de agir da mesma forma, com idêntico espírito de união, para criarmos uma sociedade bem diferente da atual, que hoje é a mais injusta do mundo em termos de concentração de renda?

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 17 de julho de 1994).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk        
Aventura repleta de surpresas

Pedro J. Bondaczuk

A vida é tão variada e surpreendente, que nenhuma situação (boa ou má) que enfrentamos hoje é definitiva. Salvo, claro, a morte. Morrer, todavia, é a antítese do viver. Portanto, não conta neste caso. Afligimo-nos ou nos entusiasmamos prematuramente, achando, em ambos casos, que os motivos das aflições ou dos entusiasmos são irreversíveis. Podem até ser, mas como saber? Não há como! Quando menos esperamos, tudo se modifica, se altera, se embaralha e anula todas as possíveis previsões, e respectivos planos, que tenhamos feito. É esse caráter mutante que mais me fascina e ao mesmo tempo mais me aterroriza nessa magnífica e instável aventura.

A experiência dos muitos anos (para os padrões humanos atuais) que já vivi me indica que os maus momentos não devem nos desanimar e nem levar a entregar os pontos. Quando menos esperarmos, o que nos afligia será superado e não passará de dolorosa lembrança da qual, se formos prudentes, extrairemos as devidas lições. Todavia, não devemos nos acomodar e nem nos encher de grande entusiasmo diante de situações favoráveis. Elas também tendem a passar, mais cedo ou mais tarde, e devemos, por conseguinte, estar minimamente prevenidos para isso. Raramente estamos.

O prudente seria continuar nos empenhando para consolidar nossas conquistas, já que nada nos garante que elas não irão passar. Quase nunca agimos assim. Nossa tendência é a da acomodação, satisfeitos com o mínimo, mesmo quando o máximo nos seja, mesmo que teoricamente, viável, ou pelo menos possível. Estamos constantemente mudando: de idéias,  conceitos, valores, amizades e inimizades, mesmo que não venhamos a perceber tais mudanças. Aliás, são poucas as coisas a que atentamos ao longo de nossas vidas.  Erich Fromm nos lembra: “Viver é nascer a cada instante”. E nascemos de fato. Nosso próprio corpo se renova por inteiro, de um dia para o outro. Todas nossas células – não importa de que tecidos e órgãos – se renovam. As de ontem, morrem e são sucedidas por suas “filhas”, nesse processo contínuo de mudanças que só termina com nossa morte.

Temos componente animal que está acima da nossa vontade. Alguns conseguem dissimulá-lo, escondê-lo, mantê-lo sob vigilância. Mas ele sempre estará lá, no fundo da consciência, ou, mais propriamente, da inconsciência. Em determinado momento, essa bomba-relógio, esse nosso componente animal (e não raro nos esquecemos que o somos, mesmo que racionais) pode explodir, à nossa revelia e ou causar estragos irreparáveis, se for uma compulsão para a violência e ódio, ou determinar magníficas criações, obras-primas de causar espanto e inveja, caso seja positiva. Esse processo, admitamos ou não, está fora do nosso controle. É comum ouvir-se por aí, ou se ler em livros, artigos e crônicas, que as paixões cegam as pessoas e as impedem de conquistar o que mais desejam, por falta de clarividência.

Trata-se de mera generalização e, por isso, de “meia verdade”. Depende de a qual tipo de paixão esses pseudo-especialistas se referem. As negativas, como ódio, cobiça e inveja, de fato têm a característica de ofuscar a visão dos que são possuídos por elas. Já no caso do amor (por uma pessoa, ideal ou causa) ocorre o contrário. A complicação está, todavia, no fato de nunca sabermos qual (ou quais) irão prevalecer e se impor. Essas paixões são instintivas e, portanto, “explodem” à nossa revelia. O tal do livre-arbítrio é relativo. Pode-se fazer, até, um jogo de palavras com esse conceito e ainda assim não fugir (pelo menos não muito), da realidade, classificando-o de “arbitrário”.  

O fato é que a vida se transforma a cada instante, sem que tenhamos o menor controle sobre essa transformação. Milhões de pessoas nascem todos os dias, e outros tantos milhões morrem. Mas não é – pelo menos na atualidade – processo de mera substituição, de mera renovação do antigo pelo novo. A população mundial, no saldo entre nascimentos e mortes, aumenta sem cessar. Onde isso vai parar, levando em conta que vivemos em um Planeta de dimensões fixas, que não “estica”, como se fosse de borracha? Como saber?

De acordo com Programa de População da ONU, nascem, atualmente, em média, três bebês por segundo no Planeta. Descontando os indivíduos que morrem – por doenças, assassinatos, acidentes, guerras, fome ou velhice – a espaçonave Terra ganha, diariamente, cerca de 250 mil passageiros a mais. E isso ocorre, notadamente, em maior quantidade, em países paupérrimos, inviáveis, do ponto de vista econômico, de tão pobres que são.  Não precisa ser nenhum gênio para concluir que um dia o limite de pessoas será atingido, se é que já não foi. Afinal, reitero, o Planeta não é elástico, não estica, não amplia automaticamente seu território.

O trágico é que 90% desse crescimento populacional ocorre onde a prudência manda que se limite a natalidade. Ou seja, nas regiões mais pobres do mundo, o que só multiplica a miséria, a fome, as doenças, os conflitos sociais e a violência. Como controlar esse processo? Ele é controlável? Se a resposta fosse positiva (mas não é) a quem caberia a tarefa de controle? Quem pode, quem tem o direito de decidir sobre quem deva viver e quem não? Baseado no que, se todos, absolutamente todos os 7,2 bilhões de seres humanos são rigorosamente iguais, por se tratarem de indivíduos mortais? Esse é um dos tantos enigmas que me preocupam e apavoram.

Quem pode garantir que uma criança nascida nos grotões mais miseráveis da África ou da Ásia não possa, um dia, por uma dessas circunstâncias do acaso, se transformar em um benfeitor, quem sabe até salvador da humanidade? O mesmo raciocínio vale para o mal. Como assegurar que um bebê, nascido em “berço de ouro”, com todas as facilidades e regalias que sua condição econômico-social lhe oferece, não venha a se transformar, quando adulto, em um monstro humano, num Átila, num Nero ou num Hitler, responsável por milhões de mortes e por desgraças inconcebíveis de toda a sorte? Cada criança que nasce pode ser uma coisa ou outra. Como saber o que será? Não há como! É esta inconstância da vida – aventura única que tanto adoro a despeito de seus riscos e possibilidades ruins – que me apavora. Esta e outras tantas...


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk