Sunday, June 26, 2016

ATOS SOLITÁRIOS

A decisão é sempre um ato solitário. Por mais pessoas que estejam envolvidas nas tarefas de preparação de qualquer empreitada, por maior que seja a equipe responsável pela coleta de informações que vão servir de base para se decidir alguma coisa, a responsabilidade final vai caber a uma só pessoa. Ao chefe, mentor, comandante ou seja lá o que for do projeto. Um exemplo disso é quanto a um aspecto fundamental até para a sobrevivência do ser humano. Estados Unidos e Rússia, dispõem de um arsenal nuclear capaz de destruir uma centena de planetas como a Terra. Mas a utilização, ou não, desse potencial está nas mãos de dois líderes, o presidente norte-americano, Barack Obama, e o homem forte russo, Vladimir Putin, que certamente não entendem nada de Física. É provável que os dois tenham aquelas noções básicas, que qualquer pessoa com nível colegial tem. Ambos, portanto, desconhecem o verdadeiro potencial da energia nuclear, a capacidade de destruição das ogivas estocadas em milhares de silos espalhados por seus países. Por essa razão, tanto um, quanto o outro, contam com assessores altamente especializados na matéria. É a prerrogativa dos cargos que ocupam. Mas a decisão final, quanto à eventual utilização, ou não, dessas armas de tamanha capacidade de destruição, não compete a nenhum auxiliar, por mais gabaritado que seja. Compete, exclusivamente, a cada um deles.


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Miséria socializada


Pedro J. Bondaczuk


A pesquisa "Crianças e Adolescentes-Indicadores Sociais", divulgada, na semana passada, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostra que, entre outras coisas, o Brasil é a sociedade mais injusta do Planeta em termos de distribuição de renda.

Nesse aspecto, o País perde, inclusive, para povos que se situam no chamado Quarto Mundo, ou seja, as 42 sociedades nacionais mais pobres da comunidade internacional, como Gana, na África, e Bangladesh, na Ásia. Os mais penalizados com as políticas concentracionistas perversas, que massacram os brasileiros há pelo menos um século, são os elos mais frágeis da corrente social: os menores de idade e os idosos.

O estudo do IBGE, ultrapassado, pois referente a 1990, extraído da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, revela que o Brasil conta com 59,7 milhões de crianças e adolescentes, entre os 7 e os 17 anos. Deixou, portanto, de ser um dos países mais jovens do mundo, já que conta com uma população adulta de 86,5 milhões de pessoas, aí incluídos os velhos.

O dado mais chocante, todavia, é o que se refere à renda familiar. Mais da metade do público infantil brasileiro, 32 milhões de menores, provém de famílias cujo rendimento mensal per capita é de mísero meio salário mínimo. Todo esse contingente, portanto, que representa o futuro da Pátria, vegeta abaixo da linha da miséria. É estarrecedor!

Mais revoltante ainda se torna essa constatação diante dos escândalos que se sucederam, de março do ano passado para cá, envolvendo desvio de bilhões, talvez trilhões de cruzeiros dos cofres públicos, que foram parar nos bolsos de alguns espertalhões.

É desnecessário recapitular tais episódios, como a falcatrua ocorrida na Legião Brasileira de Assistência. Como os rombos aplicados nas finanças da Previdência Social, através de aposentadorias fantasmas ou de valores superdimensionados. Como os casos das mochilas e bicicletas do Ministério da Saúde. Ou como o "affaire" envolvendo o ex-ministro Antonio Rogério Magri, culminando com o esquema PC, fartamente conhecido por causa das revelações que vieram ao público por parte da recente Comissão Parlamentar de Inquérito.

Se em 1990 --- antes, portanto, da perversa recessão que vem empobrecendo, cada vez mais, os brasileiros --- a situação já era tão deprimente, imagine-se agora como é que não está! A pesquisa revela, entre outras coisas, que há dois anos, 4 milhões de crianças, entre os 7 e os 14 anos, estavam fora das escolas. O analfabetismo, acima dos 15 anos, chegava a 18,3%.

E o relatório não diz nada acerca dos meninos e meninas de rua. Omite-se sobre esse imenso contingente que cresce ao Deus dará, à espera de que alguma doença, ou bala assassina, elimine de vez esses seres humanos sem afeto, perspectiva, esperança e sem futuro.

É verdade que o País precisa de um choque ético na vida pública. Mas necessita de mais do que isso. Precisa, urgentemente, repensar as relações desta sociedade em que à maioria são reservados somente deveres e contratempos, para que uma minoria mande para o Exterior --- estima-se que US$ 60 bilhões de capitais brasileiros estejam aplicados no estrangeiro --- o fruto de todo o esforço coletivo. É deprimente e revoltante!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 16 de setembro de 1992).


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Falta alegria

Pedro J. Bondaczuk

O mundo carece, cada vez mais, de alegria. As pessoas, a cada dia que passa, tornam-se (salvo honrosas exceções) mais solitárias, mais macambúzias, mais mal-humoradas e, sobretudo, mais tristes. É possível que essa evolução da solidão e do desamparo seja apenas quantitativa, dado o explosivo aumento da população mundial, notadamente a partir da última metade do século passado. Talvez...

É provável que as mazelas e infelicidades que assolam o homem deste início de século XXI sejam as mesmíssimas de sempre, embora afetando maior quantidade de gente. Nas grandes cidades, por exemplo, crescem, em progressão geométrica, a desconfiança e o medo.

Andar nas ruas, exercício há não muito simples e trivial, transforma-se, dramaticamente, em perigosa aventura, face aos inúmeros perigos, absolutamente reais, com os quais nos confrontamos, como assaltos, atropelamentos, balas perdidas etc., que expõem a risco não apenas nossa integridade física, mas, principalmente a vida. Corremos o risco de sair de casa para um simples passeio e jamais regressarmos. Ou de irmos parar num hospital com alguma grave mutilação que nos marque para sempre.

Como a Literatura é o reflexo da vida, do comportamento das pessoas de um determinado tempo, esta também anda, há já bom tempo, um tanto sombria e tensa. Falta, nela, o riso, o bom-humor e a alegria de escrever. Carece, por exemplo, da ironia de um George Bernard Shaw, da picardia de Mark Twain, da observação irônica e sempre inteligente de Mário Quintana, de Carlos Drummond de Andrade e, sobretudo, do “Bruxo do Cosme Velho”, Machado de Assis.

É verdade que temos bons escritores, e em profusão. Sinto, porém, que lhes falta o riso, embora abunde o siso; lhes falta a descontração, a observação galhofeira, o rir de si mesmo, em vez de escrachar pessoas humildes e fracas de cabeça, em textos que, não raro, descambam para o preconceito implícito (quando não explícito).

Está aí magnífico filão a ser explorado por escritores ousados e observadores que, certamente, lhes renderá bons dividendos caso se disponham a explorá-lo com competência, criatividade e picardia. Que tal trazer um pouquinho de alegria e de luz a um mundo crescentemente sombrio, violento, injusto, revoltante e, sobretudo, triste?


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Saturday, June 25, 2016

NÃO TEMOS QUE ALARDEAR NOSSOS DEFEITOS

Não é necessário alardear nossas deficiências aos quatro ventos. Se o fizéssemos, estaríamos nos depreciando, ou seja, utilizando em demasia o “sal da dúvida”, ao duvidar de nós mesmos. Mas é indispensável que identifiquemos nossas vulnerabilidades e nos disponhamos a corrigir o que estiver incorreto. Todos temos lá nossa importância, embora não tanta como desejamos. O filósofo Will Durant chega a esta conclusão, no livro “Filosofia da vida”: “A maior parte de nós não passamos de simples matéria-prima, meros tijolos dum edifício cujo plano não podemos conceber”. Não há como contestar! E qual o problema de não sermos o telhado dessa construção?!


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Maratona diplomática


Pedro J. Bondaczuk


O ano de 1985, nestes dois meses e alguns dias já transcorridos, está sendo caracterizado por uma desusada movimentação diplomática, tendo, a maioria dos encontros, por centro, o presidente norte-americano Ronald Reagan. Desde a reunião ocorrida em Genebra, nos dias 8 e 9 de janeiro, entre o secretário de Estado dos EUA, George Shultz e o ministro de Relações Exteriores da União Soviética, Andrei Gromiko, visitas e conversações se sucedem, e o objetivo básico é a solução de três grandes problemas: a redução das armas nucleares (com os arsenais das superpotências atingindo quantidades críticas e extremamente perigosas), a questão da América Central e o eterno barril de pólvora do Oriente Médio.

O primeiro tema será discutido até a exaustão, a partir de terça-feira, em Genebra, pelas delegações norte-americana e soviética, devendo, na melhor das hipóteses, durar cerca de um ano para que ocorra qualquer resultado prático.

Ao cabo desse período, só Deus sabe quantas engenhocas mortais mais serão fabricadas. Os negociadores das superpotências levaram para esse encontro a disposição de não fazerem concessões representativas um ao outro e chegam a essa importante cidade suíça com o espírito preconcebido de mútua desconfiança. Essa não é – e nem seria preciso frisar – uma base propícia para a obtenção de nenhum acordo. Como eu posso concordar com alguém, em cujas proposições não confio e de quem espero apenas burlas e engodos?

Nos dois meses que precederam a essa conferência, o presidente norte-americano não se cansou de criticar os russos, afirmando que jamais eles cumpriram qualquer espécie de pacto (o que, até certo ponto, não deixa de ser verdade). Moscou, em contrapartida, deu o troco na mesma medida e voltou as suas baterias de críticas e recriminações ao megalomaníaco projeto da Casa Branca, “guerra nas estrelas”, tendente a fazer crescer muitas fortunas às custas da instabilidade mundial, sem que, na prática, tenha qualquer utilidade, no sentido de evitar a eclosão de uma guerra nuclear. Pelo contrário, pode assustar o inimigo e levá-lo a um ato extremo e tresloucado, cometido mais por medo do que por convicção ideológica.

Os estudiosos de psicologia das massas sabem os efeitos que o pânico causa nas multidões, sendo mais propício a despertar o instinto tânico, de autodestruição, que todos nós possuímos, do que o erótico, de autopreservação. Essas exibições freqüentes de força (ou de mera bravata) de ambas as superpotências, portanto, têm o efeito contrário daquele que geralmente elas esperam uma da outra. Conduzem à guerra, e nunca à paz.

Outra questão que vem produzindo muita movimentação diplomática é a situação da América Central, principalmente diante da ofensiva da Casa Branca contra o regime sandinista da Nicarágua, uma pedra incômoda nos sapatos de três administrações norte-americanas: a de Jimmy Carter e as duas de Ronald Reagan.

Felizmente, a flexibilidade recentemente demonstrada pelo presidente nicaragüense, Daniel Ortega, salvou o Grupo de Contadora, único caminho racional e humano para a solução dos conflitos que assolam aquela minúscula e miserável região, autêntico “quintal de fundo” dos EUA.

A libertação do desertor Urbina Lara, por parte dos sandinistas, no correr desta semana, acabou com o único pretexto apresentado pela Costa Rica, Honduras, El Salvador e Guatemala para boicotarem a missão pacificadora na América Central.

Finalmente, no Oriente Médio, o rei Hussein, da Jordânia, e o presidente egípcio, Hosni Mubarak, tentam uma autêntica “missão impossível”: levar palestinos e israelenses a sentarem-se em torno de uma mesma mesa para negociar.

A iniciativa conta, inclusive, com o apoio e bênçãos das alas moderadas do mundo árabe, principalmente dos sauditas, cujo rei, Fahd, esteve recentemente em Washington, advogando essa causa. Mas ela encontra obstáculos, ao nosso ver intransponíveis, no fato da OLP hoje estar fragmentada, com três fortes alas dissidentes, das quais a mais incômoda e barulhenta é aquela que segue a orientação do sírio Hafez Assad. Sem contar o radicalíssimo grupo que tem como mentor o incendiário e anarquista líder líbio, Muammar Khadafy, que prega, não apenas a destruição de Israel, mas, se possível, até mesmo dos EUA.

De qualquer forma, o ano começa bem no terreno da diplomacia, com um clima favorável às negociações. Pena é que todos esses esforços esbarrem num obstáculo intransponível: a intransigência em defender apenas interesses próprios dos únicos poderes que realmente decidem alguma coisa no mundo atual: União Soviética e Estados Unidos. É como diz um popular provérbio gaúcho: “Estão gastando pólvora com ximango”, ou seja, desperdiçando munição com uma caça ruim.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 10 de março de 1985).


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Meu São João inesquecível

Pedro J. Bondaczuk

Neste 24 de junho de 2016 emerge-me, subitamente, à memória, sem nem mesmo pedir licença, a suave lembrança de um dos momentos mais marcantes da minha vida. Refiro-me a uma festa de São João, realizada em São Paulo, há exatos 66 anos, ou seja, no já distante ano de 1950. Eu era, então, um garotinho sapeca (“levado”, como me caracterizavam, com indisfarçável ternura, os mais velhos), loirinho, com cabelos tão dourados que até pareciam brilhar e com olhos azuis, azuis, que eram o encanto da mulherada que orbitava ao meu redor. Destaco, como subsídio a essa incompleta descrição  que, embora atingido pela poliomielite que reduzia drasticamente minha locomoção, eu tentava me “reinventar”, para viver, com intensidade e alegria, minha infância, como todo menino normal naquela idade (sete anos e meio) vivia.

Estou certo de que, por mais que tente, não conseguirei descrever esse momento com a mesma graça e beleza com que alguns escritores (estranhamente, poucos) descreveram as respectivas festas de São João que viveram e que são jóias da Literatura de língua portuguesa. Aqui, observo, não se trata de questão de memória, mas de talento literário. Espero compensar minha deficiência descritiva com a emoção que então senti e que sinto agora, ao recordar esse evento. Lembro que na ocasião, essa data era feriado. Aliás, as três dedicadas aos santos do mês de junho (Santo Antonio, dia 13; São João, dia 24 e São Pedro, dia 29) eram. Não tínhamos que nos preocupar, portanto, com várias obrigações diárias (nós, crianças, especificamente, com a ida à escola).

A São Paulo de então não era, nem de longe, o que é hoje. Embora já fosse gigantesca, em termos nacionais, estava anos-luz de se comparar a esta metrópole vibrante (e estressante) do século XXI, a terceira megalópole mais populosa do mundo. Era uma cidade grande, é fato, mas, em muitos aspectos, com ares deliciosamente provincianos (digo isso sem nenhum demérito), com muita coisa que hoje só encontramos em remotas cidadezinhas interioranas, cada vez mais raras. Festas juninas, então, eram sagradas. Eram promovidas por famílias e não, como hoje, restritas a seletos clubes aos quais a maioria de nós, brasileiros, não temos acesso. Hoje, à exceção do Nordeste, estes festejos tão ingênuos, e por isso encantadores, praticamente desapareceram, ou estão em vias de desaparecer, sobretudo do tal “Sul Maravilha”.

Lembro-me de tudo, como se tivesse acontecido há horas, daquela festa de São João de há exatos 66 anos. Da fogueira, que de tão alta, parecia imitar o Prédio Martinelli, então um dos edifícios mais altos do País. Dos quitutes – batatas doces, carás com melado, bolos de fubá, bons bocados, paçocas, pés de moleque, pinhões e uma fatura de amendoins torrados – cujo sabor sinto ainda agora, na ponta da língua, bastando me concentrar e fechar os olhos. Lembro, claro, da criançada correndo sem parar, entre risos e caçoadas, soltando bombinhas, traques, buscapés e riscando estrelinhas, enquanto os adultos soltavam rojões e morteiros, que já então me causavam intenso desagrado. E dos tantos que, no final da festa, atravessavam, com os pés descalços, extenso lençol de brasas, sem se queimarem, “façanha” acompanhada da preocupada e prudente recomendação dos adultos, para que nós, crianças, não os imitássemos, pois eles “teriam truques que nós não conhecíamos”. Claro que não tinham. Não era bem isso. Mas... ingênuos, como éramos, acreditávamos.

Houve, como em toda festa junina, a tradicional quadrilha, com casamento caipira e tudo. E cantos, muitos cantos. Duas canções, em particular, ficaram gravadas para sempre em minha memória, na verdade, na alma, como se fossem hinos entoados por um coral de anjos. Uma delas tinha esta letra:

“Serenô, eu caio, eu caio
Serenô, deixai cair
Serenô da madrugada
Não deixou, meu bem, dormir
(Bis)

Minha vida, ai ai ai
É um barquinho, ai ai ai
Navegando sem leme e sem luz
Quem me dera, ai ai ai
Ter agora, ai ai ai
Os faróis dos teus olhos azuis

Serenô, eu caio, eu caio
Serenô, deixai cair
Serenô da madrugada
Não deixou, meu bem, dormir
(Bis)

Vivo triste, ai ai ai
Soluçando, ai ai ai
Recordando o amor que perdi
O sereno, ai ai ai
É o pranto, ai ai ai
Dos meus olhos que choram por ti

Serenô, eu caio, eu caio
Serenô, deixai cair
Serenô da madrugada
Não deixou, meu bem, dormir
(Bis)”.

Mas a canção que me arranca lágrimas de saudade e de emoção, neste momento, e que me parecia então de uma harmonia inigualável, sem que nenhuma voz destoasse (é o que hoje me parece), foi a cantada por todos, adultos e crianças, no final da festa, composta originalmente para a despedida dos soldados que partiam para a guerra (que naquele 1950 fazia só cinco anos que havia acabado, enchendo o mundo de esperança de que nunca mais os homens iriam guerrear), era esta:

“Adeus amor
Eu vou partir
Ouço ao longe um clarim
Mas onde eu for irei sentir
Os teus passos junto a mim

Estando em luta
Estando a sós
Ouvirei a tua voz

A noite brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração
Do seu

No céu, na terra
Onde for
Viverá o nosso amor

A luz que brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração
Do teu.

No céu, na terra
Onde for
Viverá o nosso amor”.

Peço-lhe, paciente leitor, compreensão e, sobretudo, perdão se você achar que estas reminiscências tão distantes são piegas (e provavelmente são mesmo). Eu avisei que não tenho o talento de tantos e bons escritores que descreveram suas respectivas festas de São João que os marcaram, construindo imortais jóias literárias. Mas duvido que eles me suplantem (ou até mesmo me igualem) em um quesito dos mais importantes, pelo menos para mim: em emoção.


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Friday, June 24, 2016

VIDA EM DOIS COMPARTIMENTOS

Vivemos em dois compartimentos distintos: o exterior e o interior. O primeiro é o da convivência com outras pessoas, dos relacionamentos – afetivos, sociais, profissionais etc. – caracterizado por intensa competição e pouca cooperação (deveria ser o inverso). O segundo é o convívio conosco mesmos, com nossas idéias, valores, convicções, pensamentos e sentimentos. O ideal é que nossa vida seja rigorosamente equilibrada nos dois planos. Ou seja, no cumprimento do nosso papel no mundo e no enriquecimento espiritual, sem o qual teremos poucas chances de sucesso. Na vida exterior, quase sempre, a tendência é a ostentação. Na interior, é o bom-senso, o equilíbrio e o pragmatismo. As pessoas não-dogmáticas (diria, pragmáticas), têm sede e fome de conhecimentos que são insaciáveis. Mantêm-se permanentemente ligadas ao mundo, dispostas a aprender tudo o que possam. São, pois, as que têm as maiores chances de mudar, sem que tais mudanças impliquem em traumas. Tão logo descubram que aquilo em que acreditavam não é, rigorosamente, verdadeiro, mudam de opinião, sobre os outros ou sobre si mesmos, sem nenhum problema. Sabem temperar suas crenças com o sal da dúvida. Convenhamos, a descoberta das nossas limitações é sempre complicada, pois fere nosso amor próprio. Mas é importante. Se quisermos empreender conquistas, é indispensável sabermos onde estamos, o que somos e o que queremos, para que possamos escolher a estratégia e os meios adequados para a nossa evolução.


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Copa e eleições


Pedro J. Bondaczuk


A disputa da Copa do Mundo é uma das raras oportunidades para que o brasileiro mostre o quanto ama este país. É ocasião para vestir-se de verde e amarelo, tirar a bandeira nacional do fundo do baú e gritar emocionado: Brasil! Brasil! Brasil! É momento de afirmação da nacionalidade. É, antes de uma festa esportiva, um raro momento de civismo, que une todas as classes sociais.

Como nas outras quinze Copas disputadas --- e o Brasil foi o único a ser representado em todas essas disputas --- ocorre agora a mesma manifestação de descrença (com uma pontinha indisfarçável de derrotismo) na nossa seleção, como em tantas outras situações semelhantes. Defeitos inerentes a todos nós --- como a falta de previsão, o fato de deixar tudo para a última hora e a confiança sem limites na capacidade de improvisação --- são apontados pela imprensa especializada como falhas imperdoáveis, com o que concorda parte considerável da torcida. Tais deficiências (contornáveis, por sinal, como experiências passadas mostraram), são colocadas como obstáculos quase intransponíveis à conquista do sonhado penta. Mas não há novidade alguma nisso.

À exceção de 1950, quando o "já ganhou" provavelmente levou nosso selecionado ao fracasso, no jogo decisivo contra o Uruguai, no que se convencionou chamar de "o desastre do Maracanã", nos demais mundiais a tônica foi essa: pessimismo, críticas e restrições a técnicos ou jogadores. Em 1954, era "palpável" o nosso complexo de inferioridade frente aos europeus. Alguns tolos inconseqüentes chegaram a dizer que constituíamos uma raça inferior. Nada mais estúpido!. Em 1958, a seleção embarcou cercada do mais absoluto descrédito. Maravilhou o mundo e conquistou seu primeiro título.

Em 1962, o pessimismo e a mentalidade derrotista voltaram, após o segundo jogo, quando Pelé sofreu a distensão muscular contra a Checoslováquia, naquele sofrido 0 a 0 no Chile, que o alijaria da Copa. Esse mesmo adversário, no entanto, seria superado com relativa facilidade na final, na conquista do bi. Em 1970, o Brasil fez fiasco na fase de amistosos (como agora). Mas deu no que deu: foi tricampeão.

Poderíamos reportar todos os mundiais. A véspera de cada um deles não diferiu disso que estamos assistindo agora. Há torcedores, inclusive, que ostensivamente torcem contra o Brasil, sob o pretexto de que um eventual fracasso na França impediria a reeleição de Fernando Henrique Cardoso para a Presidência. Será que o presidente depende, de fato, da performance da seleção para garantir mais quatro anos no poder? O futebol pode ajudar, mas não será o fator determinante de sua vitória ou derrota.

O que vai contar, com toda a certeza, vai ser o nível de desemprego no País às vésperas da eleição. Terá um peso considerável o andamento da economia e o controle do indecente déficit público. Vão pesar, e bastante, declarações dos três principais candidatos. Por exemplo, Fernando Henrique não pode mais cometer gafes como a que cometeu, quando chamou os brasileiros que se aposentam com menos de 50 anos de "vagabundos". Por outro lado, Luís Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes, seus principais adversários, precisam policiar atos e palavras, para não cometerem deslizes como estes, ou até piores.

Quanto ao desempenho da seleção, é duvidoso que venha a influir, pelo menos em grande medida, na campanha sucessória. Apesar do clima de pessimismo e das notícias alarmantes procedentes da França --- sobre insuficiência de preparação, brigas entre jogadores e contusões --- o Brasil tem, é óbvio, todas as chances de repetir o êxito obtido em quatro ocasiões.

Na hora do "vamos ver", é o talento que conta. E isso o atleta brasileiro tem de sobra. Não foi por acaso que o País conquistou os quatro campeonatos que ostenta, um dos quais na Europa em 1958, feito jamais repetido por outro sul-americano, ou africano ou asiático. Em competição, prognósticos são inúteis. Isto vale tanto para uma Copa do Mundo, quanto para uma eleição, seja ela para a Presidência, para governo do Estado, para prefeituras ou mesmo para uma sociedade de bairro.

(Texto escrito em 9 de junho de 1998 e publicado como editorial na Folha do Taquaral).

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Facilidades e dificuldades

Pedro J. Bondaczuk

Ser escritor, nos dias que correm, se tornou mais fácil e, simultaneamente, mais difícil, por paradoxal que pareça. A facilidade principal e óbvia está nos meios de consulta, de produção e de difusão dos textos. Há não muito, para se pesquisar qualquer assunto, por exemplo, era necessário gastar fortunas na aquisição de livros. Quando isso não era possível (e raramente era), o escritor precisava fazer demorada e cansativa “romaria” a várias bibliotecas em busca das informações que precisava. E haja tempo para isso! Não raro, sequer encontrava o que estava à procura.

Hoje, a rede mundial de computadores possibilita que o escritor tire praticamente todas e quaisquer dúvidas que eventualmente lhes surjam, permitindo-lhe escrever com segurança e correção. Basta acessar o Google e este lhe fornece uma infinidade de fontes de informação sobre praticamente tudo. Ademais, para “visitar” as melhores bibliotecas do mundo e ter acesso a obras que até não muito tempo lhe eram interditas, basta digitar corretamente seu endereço na internet e pronto. Um vasto universo se descortina à sua frente.

Quanto às possibilidades de divulgação, sequer é preciso lembrar dos recursos de que dispomos hoje. O que, por exemplo, não dariam os escritores do século XIX e início do XX (para não ir muito longe), para dispor de um espaço na internet, para divulgar suas produções?! No entanto, para nós, isso é tão corriqueiro e banal que sequer nos lembramos.

E onde residem as dificuldades? Em vários pontos. Afinal, nada é perfeito, como seria desejável que fosse. Primeira dificuldade: a tremenda concorrência. Temos, na atualidade, mais escritores do que os que a humanidade produziu em toda sua história, somados.

Segundo obstáculo: originalidade. Embora o escritor contemporâneo disponha de uma infinidade de temas a explorar, os mais óbvios são explorados por milhares, quiçá milhões de concorrentes mundo afora ao mesmo tempo. Quando achamos que escrevemos algo absolutamente novo, não raro descobrimos, constrangidos, que esse mesmíssimo assunto foi explorado não por um, mas por uma infinidade de escritores, posto que com abordagens diversas da nossa.

Terceira dificuldade: preservação da autoria. São cada vez mais comuns plágios, alguns desastrados e grosseiros, daquilo que escrevemos com tanto empenho e entusiasmo, notadamente na internet. Apesar de haverem leis e mais leis que resguardem os direitos de autoria, amiúde estas são violadas, às vezes, até, sem que venhamos a saber. E novas e não menos enjoadas dificuldades poderiam ser mencionadas, o que não faremos para não cansar o paciente leitor. Como se vê, como toda a moeda, esta, que se refere à nossa atividade, também tem duas faces: a das facilidades e a dos obstáculos.


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