Wednesday, October 22, 2014

A dúvida, desde que razoável, não é falta de fé, que para ser poderosa e remover montanhas, não pode ser cega. Tem que contar com alicerces sólidos que a tornem imbatível. Mas não se pode estacionar nela. Devemos, isto sim, procurar nos convencer do que ainda duvidamos, e concluir se é verdadeiro ou falso, mediante argumentos lógicos e raciocínio abrangente. Convencidos, contudo, não há mais porque duvidar. Desse convencimento é que nasce a fé inabalável, das tais que operam maravilhas e nos tornam seguros e convictos face às inúmeras batalhas da vida. Agostinho da Silva recomenda, a respeito, no livro “Textos e ensaios filosóficos”: “...Acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, exceto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível. Ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão”. Sensato conselho, não é mesmo?


@@@@@@@@@@@

Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk         

Jogo de azar


Pedro J. Bondaczuk

A sociedade brasileira está, de novo, naquela situação do comandante de um navio que, na iminência de desabar uma tempestade – que deseja enfrentar de peito aberto – ordena a seus tripulantes que o amarrem no mastro para não ser arrastado para o mar.

Vem aí um novo choque, desta vez ortodoxo, para que o governo possa cumprir as metas prometidas na nova carta de intenções encaminhada ao Fundo Monetário Internacional. A receita escolhida, agora, é aquela tão conhecida do receituário do FMI: recessão purgativa. O País terá, portanto, nos primeiros meses de 1992, um agravamento do quadro recessivo que já se verifica, com todas as suas seqüelas, como desemprego, achatamento salarial e aprofundamento do fosso que separa ricos e pobres, ampliando a dívida social que já é das maiores.

Se o sacrifício der certo, tudo bem. O governo, todavia, atravessa grave crise de credibilidade. Amplos setores não acreditam no cumprimento do que foi prometido ao Fundo e não é raro se ouvir pelas ruas: “Já vi esse filme em algum lugar”. Teme-se por um acirramento do perverso processo de estagflação, ou seja, inflação alta com paralisia na produção econômica.

Que os ajustes prometidos ao FMI, na economia brasileira, têm de ser feitos, isso está, há tempos, para lá de claro. O que se contesta é a forma de execução e a duração do processo. Paul Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1970, assinalou, há alguns anos, numa entrevista que concedeu: “Os economistas cultivam uma análise sadomasoquista do processo econômico. Segundo eles, a economia oscila permanentemente entre a recessão profunda e a distensão prematura. Não se arriscam a fazer projeções otimistas. Felizmente a economia é bem mais forte do que os economistas”.

Não é difícil de se perceber o quanto há de verdadeiro nisso. Adam Smith, num manuscrito de 1775, já afirmava: “Os planejadores atrapalham a natureza no curso das operações naturais sobre os negócios humanos, quando seria suficiente deixá-la sozinha, deixá-la agir livremente na efetivação de seus objetivos, a fim de que ela realizasse os próprios planos”.

Mais adiante, o notável economista escocês acrescenta: “Pouco se requer, para levar um Estado da barbárie mais baixa para o mais alto grau de opulência, além da paz, impostos baixos e uma administração aceitável da Justiça; todo o resto é feito pelo curso natural das coisas”. Ou seja, exatamente o contrário do que se verifica, há décadas, no Brasil.

O País precisa achar o seu caminho. A imensa, fantástica e crescente dívida social tem que começar a ser resgatada. Parodiando o ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, numa declaração que deu em 1987, se pode, ainda, dizer que “a socialização dos prejuízos e a privatização dos lucros continuam”.

Nunca é demais reiterar que os políticos e os tecnocratas têm que se conscientizar que não estão lidando apenas com frios números, mas com pessoas, com vidas, com destinos. Suas decisões afetam milhões de seres humanos, a maioria com ambições simples, comuns, baratas.

O que os brasileiros esperam é que lhes seja permitido ao menos trabalhar. E trabalho é o que mais o País precisa. Por isso, o mais sensato a fazer é não somente torcer, mas agir no sentido de que mais este sacrifício que vai se impor à cidadania não seja vão e que o programa dê certo.

O Brasil não pode ficar à mercê do acaso, num maquiavélico jogo de azar. Anteontem, ao explicar a carta de intenções encaminhada ao FMI, o secretário de Política Econômica, Roberto Macedo, acentuou: “Com alguma sorte se terá o programa sem o agravamento da desaceleração da economia”. A vida dos brasileiros não pode depender dessa roleta-russa.
  
(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio Popular, em 8 de dez\embro de 1991)


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk       
Estupros e abusos sexuais

Pedro J. Bondaczuk


Um dos crimes mais covardes, e no entanto mais comuns, cometidos contra as mulheres nas mais variadas partes do mundo, é o de estupro. Ou seja, a relação sexual forçada, não desejada e nem consentida, realizada por força, ameaça de ferir, ou incapacidade mental ou física de dar o consentimento (incluindo intoxicação, mediante álcool ou drogas). Ainda assim é largamente praticado, tanto por pessoas que a vítima não conhece, quanto por seus conhecidos: homens com quem marcaram encontros, que conheceram em festas, em bares, em ofícios religiosos, nas vizinhanças da sua casa, ou amigos, colegas de universidade, companheiros de trabalho, etc.  

Trata-se, todavia, de delito que conta com tamanho repúdio social, que ao serem presos, os estupradores geralmente têm que ficar separados dos demais detentos, para preservar sua integridade física e até a sua vida. Quando isso não ocorre, acabam sendo espancados, estuprados pelos companheiros de cela e não raro assassinados por estes.

Alguns exemplos, no entanto, revelam o quanto essa atitude ainda é comum. Estudo divulgado em 27 de maio de 1996, pela Direção Municipal da Mulher da Argentina, revelou que são cometidos, anualmente, 15 mil estupros, somente na Província de Buenos Aires, a maior do país, numa média de dois casos por hora.

Os autores da pesquisa dizem que as cifras seriam muito maiores caso todas as vítimas notificassem as agressões que sofreram às autoridades. A maioria não o faz por vergonha, por medo ou por temer má interpretação por parte de maridos, namorados, noivos ou companheiros, que poderiam achar que a relação sexual foi de fato consentida e que a vítima, para se eximir de culpa, "inventa" que foi agredida. Esse comportamento masculino, aliás, é bastante comum.

De acordo com o Conselho Nacional da Mulher, da Argentina, 70% das vítimas de estupro conheciam seus atacantes e 66% das agressões ocorreram em suas próprias casas. É o que ocorre, também, em vários outros países, cujos dados são disponíveis, como os Estados Unidos, o Brasil e a Grã-Bretanha.

O perigo maior não está, portanto, nas ruas, na ação de tarados, de maníacos sexuais, à espreita de incautas, para levarem a cabo suas sortidas criminosas. Em geral está no recesso do próprio lar, nas pessoas das relações e da confiança da vítima. O jornal argentino "La Nación" destacou que nos últimos dez anos, os delitos contra a mulher na Argentina, como violações, estupros e outros tipos de abusos sexuais, aumentaram em 32%, conforme o Registro Nacional de Reincidências.

A relutância de muitas das agredidas em denunciar os casos de que são vítimas se deve ao fato de temerem ser maltratadas nas dependências policiais, conforme explicou Cristina Kershner, investigadora de um grupo privado argentino. Reitere-se, no entanto, que a maioria dos crimes sexuais, principalmente estupros, é cometida por pessoas conhecidas da pessoa agredida, conforme estudos feitos no Chile, na Malásia, no México, no Panamá e nos Estados Unidos.             

Por exemplo, um levantamento, feito no Peru, revelou que 90% das mães peruanas com menos de 16 anos tinham sido estupradas pelo pai ou por um parente. Pesquisas feitas no Canadá, Grã-Bretanha, Nova Zelândia e Estados Unidos constataram que, de cada seis mulheres, pelo menos uma é estuprada. Cerca de 11.600 sofreram estupro na Índia, em 1994. Por se tratar de um delito tão freqüente e ainda mal compreendido tanto pelos que o praticam, quanto pelos responsáveis por sua coibição e punição, é um caso que merece estudo mais detido.


Do livro “Guerra dos Sexos”, Pedro J. Bondaczuk, 1999, inédito.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Tuesday, October 21, 2014

Nunca entendi essa divisão do mundo por países (e surgem novos, amiúde, como que brotados do nada), por causa de conceitos tolos, como poder, soberania, etnia, tradições religiosas etc. Sinto-me, porém, cidadão do mundo, o que de fato sou, habitante de um planeta pequeno e de ínfima importância na ordem universal. Morris West colocou as seguintes e lúcidas palavras na boca de um personagem do seu romance “A Torre de Babel”: “Somos forçados, mesmo contra vontade, a cooperar na sanidade mútua. Por que não levamos esta cooperação mais longe? Por que o nós e o eles continuam a acreditar que outras coisas intangíveis são necessárias para nossa identidade: soberania, posse deste ou daquele santuário, ocupação de uns metros de terra estéril, tradições religiosas ou étnicas...Somos ainda crianças brigando por uma maçã, chorando uns e outros, enquanto a maçã apodrece no pé”. Há algum exagero ou alguma inexatidão nessas lúcidas observações? Claro que não!


 @@@@@@@@@@@@@

Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk         

O estopim e o urânio da última explosão


Pedro J. Bondaczuk


As duas questões mais graves da atualidade, que preocupam e inquietam toda a humanidade, são a dívida externa do Terceiro Mundo e a ameaça de uma guerra nuclear, nesta ordem. A primeira ganha a preferência, por ser já um fato consumado, enquanto que a outra, embora envolva o destino de todos, indistintamente, ainda pode ser evitada.

Nada, entretanto, aconteceu de novo, nesta ano de 1985 de tantas esperanças e expectativas frustradas, que nos livrasse desse segundo pesadelo. A despeito da reunião de cúpula de Genebra e dos progressos que ela trouxe no relacionamento das superpotências, a corrida armamentista continua. Apenas disposição para fazer a paz, sem gestos concretos que a acompanhem, não dá qualquer garantia que ela venha a ser consolidada. E nada indica que ela virá.

Recentemente, o Instituto de Estudos Estratégicos, com sede em Londres, divulgou um trabalho sobre o armamentismo mundial, intitulado “The Military Balance 1985-1986”, capaz de encher de sombrios augúrios ao mais incorrigível dos otimistas.

Revelou, por exemplo, que o mundo nem pode vender (e muito menos consumir) a enorme quantidade de armas que hoje produz, tamanho é o seu volume. Em 1985, os governantes, em geral, mostraram-se mais realistas do que em ocasiões anteriores e se armaram menos, especialmente os dos países do Terceiro Mundo. Em contrapartida, as superpotências compensaram, e com largas sobras, esse quadro. Armaram-se como nunca.

Diz o estudo do instituto internacional que a União Soviética fez um esforço muito maior do que o seu rival na corrida pela morte. Enquanto os norte-americanos ampliaram em pouco menos de 10% seus estoques de ogivas estratégicas, os soviéticos os incrementaram em 37%, obtendo a paridade nesse aspecto.

Em outras palavras, exigiram um esforço muito maior de toda a sua sociedade, privando-a de bens de consumo capazes de tornar a vida mais confortável e cheia de satisfações, sacrificando ao limite máximo a sua economia, já à beira da exaustão.

Não é por acaso que o líder russo, Mikhail Gorbachev, tem vindo seguidamente a público para exigir mais eficiência de seus colaboradores em seu desempenho econômico. E nem foi por desprendida magnanimidade que propôs ao presidente Ronald Reagan a redução em 50% dos arsenais nucleares das duas superpotências. Afinal, o momento é o mais propício possível a Moscou para frear essa disparada maluca rumo à destruição.

Nos derradeiros três anos (a partir, portanto, da ascensão de Yuri Andropov ao poder), a União Soviética instalou quatro vezes mais armamentos atômicos de qualquer espécie do que os norte-americanos. Quem garante isso é o conceituado organismo de estudos estratégicos de Londres, que fez duas previsões, no mínimo sombrias, para 1986. Ambas, por sinal, de pleno conhecimento da opinião pública.

Fala da instalação, no próximo ano, dos mísseis MX, móveis, intercontinentais, com dez ogivas cada um, por parte do Pentágono. Em compensação, repica dizendo que os russos deverão responder em dobro a isso, iniciando a fabricação acelerada dos SS-24 e SS-25, ambos dotados de mobilidade, portanto impossíveis de serem detectados previamente. Os dois são balísticos intercontinentais, possivelmente com três ogivas nucleares cada um.

Poderíamos desfiar, interminavelmente, os armamentos que as superpotências pretendem construir, ou que já estão construindo, como se não houvesse nada mais importante para a humanidade do que esse estúpido e perigoso desperdício de recursos.

Enquanto isso, metade da espécie humana, justamente aqueles 50% que sustentam com seu trabalho essa aventura, se debate com questões mais triviais e, por isso, que dizem respeito mais diretamente a todos nós, os simples da Terra, que não opinamos, mas pagamos toda essa barbaridade.

Embora a guerra nuclear possa varrer o homem do mapa, todavia, é a dívida do Terceiro Mundo que põe em risco a estabilidade econômica do Planeta. Num determinado momento, pode levar de roldão todo o sistema monetário existente e criar o caos no relacionamento entre as nações.

Da falência à violência, a distância não é maior do que um simples passo. A primeira questão, portanto, pode ser o estopim do segundo. E esta...fica por conta da imaginação de cada um.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 4 de dezembro de 1985)

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk.

 


     
Violência contra a dignidade

Pedro J. Bondaczuk


Há formas bastante sutis de violências praticadas contra as mulheres, que não produzem ferimentos físicos, não deixam marcas no corpo, não são sequer visíveis, mas que acabam doendo, e muito, já que as vítimas ficam impotentes, sem qualquer possibilidade de reação diante delas, e não têm, por conseqüência, como e a quem recorrer ou reclamar. São os atos que ferem sua dignidade e sua honra.

O não reconhecimento da importância do trabalho doméstico feminino, no cuidado da casa, na educação dos filhos e nas tarefas diárias de preservação e valorização do patrimônio comum da família é, por exemplo, uma dessas formas de violência, e a mais comum. Mais injustiçadas ainda se sentem as que trabalham fora e são forçadas a exercer dupla jornada, sem que o seu esforço seja recompensado ou sequer reconhecido.

As ofensas proferidas pelos companheiros masculinos, quando não há testemunhas, no auge de cenas banais (e comuns) de ciúme, atacando sua honra ou questionando a sua fidelidade, é outra forma corriqueira de violência. E a idéia (implícita) de que a mulher deve "irrestrita obediência" ao homem da casa, seja pai, irmão, marido ou mero companheiro, arraigada na sociedade, (basta viajar pelo interior do Brasil ou pela periferia das grandes cidades, por exemplo, para constatar o quanto esse comportamento é verdadeira regra de conduta não escrita) é mais uma, senão a pior, das formas de agressão à dignidade feminina.

Os agravos, aliás, não param por aí e não ocorrem somente no seio da família. Verificam-se no trabalho, na escola, no lazer, nas relações sociais e nos mais variados aspectos da vida em comunidade. São tantos, que sua simples enumeração consumiria páginas e mais páginas de textos, sem que se esgotassem.

Muitas dessas ofensas, frise-se, são tão sutis, que nem mesmo as próprias mulheres se dão conta de que estão sendo ofendidas e injuriadas. São as que questionam, por exemplo (posto que veladamente), desde a sua inteligência à sua competência, capacidade e senso de responsabilidade. Vários escritores e filósofos ficaram famosos, através da história, por sua misoginia, tendo deixado registradas para a posteridade inúmeras citações sarcásticas e desairosas sobre as mulheres, repetidas ainda hoje, em tom de chiste, amiúde, nas rodas masculinas.

E são considerados "normais", e até "legais", em muitas sociedades, pelo mundo afora --- que contam com leis consuetudinárias, baseadas nos costumes, algumas  milenares, tidas como "cláusulas pétreas", imutáveis mesmo estando patentes as injustiças que amparam --- as determinações de estrita submissão feminina, sem que haja a mínima justificativa (biológica, moral ou legal), para isso.

Há, no entanto, agressões à dignidade da mulher mais grosseiras, ostensivas e até perigosas. No Sudão, por exemplo, (e em vários outros países islâmicos onde prevalece a "sharia"), os juizes podem determinar chibatadas em praça pública, que variam de dez a cinqüenta, àquelas que não seguirem o "código de vestimentas", independente da religião que professem. Em relação aos homens, no entanto, não existe a mínima restrição quanto àquilo que vistam ou deixem de vestir.

No Afeganistão, dos talibans, as mulheres foram expressamente proibidas de trabalhar e de estudar. E não podiam sair de casa para nada, se não estivessem cobertas, da cabeça aos pés, com a tradicional "burkha". Trata-se de uma vestimenta que cobre a pessoa por completo, tendo, como única "concessão", rala telinha, junto aos olhos, nariz e boca, para permitir que quem a  use possa respirar e enxergar por onde anda. E ai daquela que desrespeitasse essa norma! Estaria sujeita, sem nenhuma possibilidade de defesa ou de apelação, à pena de morte, por apedrejamento!

E os fundamentalistas afegãos foram ao extremo de exigir até que as venezianas de todas as casas de suas cidades fossem pintadas de negro, para que as mulheres não pudessem ser sequer vislumbradas, mesmo que de perfil, à noite, à luz elétrica, pelas frestas das janelas, por eventuais transeuntes que trafegassem nas ruas.

Esse comportamento bárbaro pode parecer grosseira exceção à regra de comportamento vigente no mundo contemporâneo, caso extremo de fanatismo religioso. Mas, infelizmente, não é. Somente se tomou conhecimento desse tipo de atitude, agora, por causa da ofensiva norte-americana no Afeganistão.

Não fossem as ações militares contra os talibans e os terroristas comandados por Osama Bin Laden, ninguém falaria a respeito. Ou se algum repórter mais ousado falasse, seria a título de registrar, meramente, um "costume exótico", "curioso", "pitoresco" até, e não para denunciar estúpida e indefensável forma de violência contra a vontade e a dignidade da mulher.

Ressalte-se que muitos outros povos adotam a mesma prática, e com o mesmo rigor dos fundamentalistas afegãos, sem que o Ocidente (ou seja lá quem for, alheio a essas comunidades), tome ciência, por não terem sobre si o foco das atenções internacionais. A apregoada globalização, como se vê, ainda não chegou à área do direito natural à igualdade, que as mulheres deveriam ter, mas ainda não têm.

Atos implícitos (e até explícitos) de coação, de sujeição feminina existem, em grande profusão, em todos os lugares, bastando apenas que se atente para eles. E isso ocorre quer nos países miseráveis e culturalmente atrasados do chamado Quarto Mundo (da África, Ásia ou América Latina), quer nos tidos e havidos como os mais civilizados, liberais e prósperos do Planeta, como Estados Unidos, Japão e os seletos integrantes da Europa Ocidental.


Do livro “Guerra dos Sexos”, Pedro J. Bondaczuk, 1999, Inédito.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk, 

Monday, October 20, 2014

Raciocinamos por metáforas, por signos e por símbolos. Daí ser de fundamental importância a invenção do “zero”, que possibilitou a estruturação da matemática, com reflexos sobre tudo o que dependa de cálculo. Já abordei esse tema, mas nunca é demais reforçá-lo. Não houvesse alguém inventado o zero e, certamente, não teríamos a evolução tecnológica atual, que tanto nos favorece e maravilha. Quem me fez refletir a respeito foi Fernando Pessoa, indivíduo estranho e genial, que nos legou, além dos livros publicados postumamente (em vida, publicou só um), um baú repleto de papéis, com anotações de toda a sorte. Calcula-se que apenas um terço, se tanto, das observações que deixou para a posteridade, já foi catalogado e divulgado até agora, ano do centenário do seu nascimento. A propósito de simbologia, Pessoa escreveu: “O zero é a maior metáfora. O infinito a maior analogia. A existência o maior símbolo”. Êta escritor genial!


@@@@@@@@@@

Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk         
Emissoras prometem mudanças em março

Pedro J. Bondaczuk

A partir da próxima semana, diversas emissoras de televisão prometem mudanças em suas programações, dando início, assim, efetivamente, ao “ano letivo” do setor. Não se sabe por quais cargas d’água os programadores cismaram que no período de férias escolares não requer nenhuma atenção. Já a partir do início de janeiro retiram, do fundo do baú, os velhos e surrados enlatados, mostrados exaustivamente e que acabam sendo repetidos todos os anos. É a isso que chamam de “Festival de Férias” ou algo parecido.

A Rede Globo é especialista nisso. A maior parte dos filmes que foram exibidos por ela nesse período foi mostrada tantas vezes que quase todo o mundo já conhece (até de trás para a frente) cada enredo. Assim não dá”  Tradicionalmente, e não se sabe o por quê disso, os lançamentos são reservados para o mês de março. E pelo que as diversas emissoras estão anunciando, a programação, de nova, terá apenas o nome. Alguns programas serão mostrados com outros títulos. Mas os esquemas continuarão sempre os mesmos. Os tão batidos e repetitivos shows, seriados repletos de violência e de ideologismos, fazendo a apologia do herói americano e colocando um pouco mais de lenha na cansativa fogueira da “guerra fria” e uma ou outra produção aceitável, tendente a ser retirada meses depois, sob a alegação de falta de audiência.

Pelo menos em duas áreas, porém, as emissoras não terão que inovar no corrente ano, por contarem com um material que por si só é o espetáculo: na jornalística e na esportiva. Bastará que trabalhem com competência e criatividade para a conquista de índices expressivos de sintonia dos telespectadores. Na primeira, teremos as eleições, e das mais importantes para a vida institucional do País. Todavia, o tema que já deveria estar nas telas, sendo debatido pela sociedade e veiculado exaustivamente pelos meios de comunicação, anda, estranhamente, esquecido. Parece que há um certo interesse de determinados grupos para que o público não se esclareça a seu respeito e continue fazendo as confusões que faz. Referimo-nos à escolha da Assembléia Constituinte, que deverá ser eleita em novembro próximo.

Nenhum canal teve a visão de promover qualquer espécie de discussão em torno do assunto. Ninguém trouxe ao vídeo, e portanto aos lares de todos os brasileiros, o pensamento das lideranças das mais variadas correntes de opinião sobre como esses segmentos desejam que seja a nossa próxima Carta Magna. Nenhuma emissora deu sequer espaço, a não ser em algum pé de matéria fria, para os vários debates que já se desenrolam em torno do tema. Estranho isso, não é mesmo? Estranho e inquietante. Pelo que parece, o País vai ter outra Constituição elitista, que não vai levar em conta a realidade nacional e só vai servir de detonadora de novas crises institucionais no futuro.

A segunda área de farto noticiário para as emissoras neste ano será a esportiva, com a disputa da Copa do Mundo de Futebol no México. Nessa, ao contrário do que se verifica na jornalística, a movimentação é das mais intensas. Afinal, o esporte predileto do País, paixão maior de 135 milhões de brasileiros, hoje em dia é um negócio multimilionário, envolvendo inúmeros setores: desde os próprios atletas profissionais, as principais vedetes desse show de emoções, a empresas de turismo, agências de publicidade, companhias de aviação, e assim por diante. Por ser um bom negócio, o assunto Copa do Mundo sempre tem quem queira patrocinar e por isso não faltam programas envolvendo a nossa Seleção.

Entretanto, se a cobertura do Mundial do México for feita da mesma forma como as atividades de treinamento dos 25 craques de Telê Santana estão sendo mostradas, coitado do torcedor. Há gente fazxendo o possível e o impossível só para aparecer. Há repórteres esquecendo-se que seu papel é captar e transmitir, com o maior rigor e fidelidade possíveis a informação e não se transformarem na própria notícia. Há comentaristas que julgam que o torcedor brasileiro é burro em matéria futebolística, elaborando suas análises em cima do que o saudoso Nelson Rodrigues classificava de “óbvio ululante”. Se na fase de treinos a coisa está dessa maneira, o crítico fica imaginando com seus botões como será na hora do vamos ver.

É verdade que a guerra pela audiência, nesse setor, é das mais acirradas entre as várias emissoras. Afinal, esse é o “filet mignom” de 1986 e ninguém deseja ficar para trás, sob o risco de ver comprometido seu faturamento publicitário no ano. Mas é bom que as emissoras se lembrem que o telespectador é caprichoso. Apega-se a detalhes, às vezes muito sutis, para eleger seus preferidos. O caminho mais lógico e coerente a seguir para a conquista desse público é dar-lhe um máximo de informação, precisa, objetiva e bem editada, sem nenhum vedetismo por parte dos profissionais encarregados desse trabalho. O desportista não está preocupado sobre os dotes histriônicos deste ou daquele repórter, narrador ou comentarista. Quer é saber das condições físicas e técnicas de um Zico, de um Careca, de um Falcão ou de um Casagrande. Está curioso em esclarecer-se como estão se comportando os novatos, como Müller, Silas, Elzo e Júlio César. O resto é dispensável. Como o são, também, vários programas que há anos vêm chateando o telespectador que investiu na compra de um receptor e que às vezes se arrepende amargamente por não ter depositado esse dinheiro numa caderneta de poupança.


(Comentário publicado na página 22, Arte e Variedades, do Correio Popular, em 28 de fevereiro de 1986).

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk                   
Nunca entendi...

Pedro J. Bondaczuk

Dia desses postei, em minha página no Facebook, a seguinte reflexão, extraída de uma de minhas crônicas redigida, se não me falha a memória, em 2010: “Desde criança (e já me encaminho celeremente para sete décadas e dois anos de vida), nunca consegui entender o obsessivo apego das pessoas por isso que rotulam de ‘riquezas’”. Jamais, nenhum anjo, ou qualquer outro ser superior que eventualmente exista, apareceu-me em sonhos, ou durante a vigília, para me exibir algum documento de partilha do Planeta, em que sejam outorgadas extensas áreas de terra a determinadas pessoas e sua descendência, em detrimento da maioria. Os bens da Terra, todos eles, houvesse um mínimo de lógica no comportamento humano que justificasse sua classificação como ‘animal racional’, deveriam ser patrimônios comuns. Pertenceriam a todos os homens, indiscriminadamente. Claro que não são. Jamais serão! E quem defende essa tese, a lógica das lógicas, recebe inúmeros rótulos e epítetos, todos, claro, pejorativos. É estereotipado, considerado ‘comunista’, perseguido, encarcerado, não raro torturado e morto ou tido e havido como ‘alienado’, ou louco (que é praticamente a mesma coisa) e segregado do convívio geral. É uma inversão brutal e catastrófica de valores. Ou seja, o são é tido por demente e vice-versa”.

Detesto escrever sobre este assunto. E não se trata de temor de represália dos poderosos (até porque sou pequeno demais para que eles se importem comigo), ou de ser ridicularizado. A razão desse incômodo é que me sinto envergonhado de fazer parte de uma espécie tão cruel e predatória, como a do chamado Homo Sapiens (que Edgar Morin caracterizou muito bem ao denominá-lo de “Homo Demens”). Não que me considere melhor do que quem quer que seja. Não sou. É possível, até, que seja, em muitos aspectos, pior. Apenas não entendo essa obsessão por juntar o “mais do que suficiente” para uma vida segura e confortável, em detrimento de bilhões (não, não me enganei, são bilhões mesmo os que vegetam no limiar da miséria, sem a mais remota esperança de ascensão). Essa minha vergonha não se trata de inveja da riqueza alheia. Embora não possa ser classificado como “rico” (que não sou), tenho pelo menos o suficiente para viver com relativo conforto e dignidade.

 Já me disseram, um dia, que “se me preocupo tanto com a concentração de riquezas em tão poucas mãos, por que não distribuo o que tenho com quem não tem?”. Bem, em primeiro lugar, minhas posses não são superiores às minhas necessidades. Mal e mal “empatam” com elas. Em segundo afirmo que farei isso, mas apenas se “todos” (principalmente os que têm em excesso) também fizerem. Mas... ainda assim, não tenho excedentes a distribuir. O que mais me choca e intriga é o fato de serem exatamente as pessoas mais prejudicadas com  a péssima distribuição de renda (e aqui me refiro à riqueza mundial e não a de um país específico) as que mais defendem o “status quo”, não raro recorrendo até mesmo a extrema violência para defendê-lo. Aliás, são as mesmas que sustentam ditadores e ditaduras, tiranos e tiranias, vilões e vilanias, permitindo que se perpetuem no poder.

O que defendo é sumamente utópico e irrealizável. Essa impossibilidade, porém, não se deve a nenhuma suposta barreira lógica. Vai além dela. Prende-se à natureza humana. Não defendo nenhuma “revolução” – que ao fim e ao cabo, invariavelmente acaba se corrompendo e repondo as coisas da mesma forma que eram antes que ela fosse feita, quando não as piorando – e muito menos o confisco de bens e riquezas dos que os têm. É aí que consiste a impossibilidade da solução com que sonho. Defendo que os que possuem muito além do razoável caiam em si, se convençam, espontaneamente, de que esse excesso não lhes trará tanta vantagem quanto acham – apenas contribuirá para que o mundo permaneça tenso, violento e atrasado –, que não lhes “comprará” a imortalidade, pois certamente irão morrer, como todos, algum dia, e que dividam com os que nada têm esse indecente excedente. Afinal, defendo a democracia (porém não seu arremedo) às últimas conseqüências.

Não sou cientista político e nem economista, embora tenha noções pelo menos primárias dessas disciplinas. Sou simples escritor, e dos menores e mais inexpressivos. E incorrigível sonhador. Ademais recebi educação rigorosamente cartesiana e, por isso, raciocino com estrita lógica. E essa não está presente, óbvio, na absurda concentração de renda, que aumenta mais e mais, da atualidade. Claro que esse súbito lampejo de racionalidade, e envolvendo tanta gente, jamais irá acontecer!!!! Contraria a natureza humana, caracterizada pelo egoísmo e pela adoração fanática do próprio umbigo. Pelo contrário, a tendência é que ocorra concentração de renda mundial cada vez maior, com a conseqüente ampliação do universo dos necessitados, despossuídos, pobres, miseráveis e/ou indigentes.

Para quem acha que estou exagerando, trago à baila uma notícia que circulou, na semana passada, em diversos portais noticiosos da internet e que poucas pessoas deram a devida atenção. Refiro-me a um levantamento, datado de 2013, intitulado “Relatório da riqueza global”, feito pelo banco “Credit Suisse” que concluiu que menos de 1% da população mundial detém 41% de todos os bens, fungíveis e infungíveis, do Planeta. Exagerei no que escrevi? Ora, ora, ora... O estudo envolveu somente adultos, já que crianças, na prática, enquanto não chegam à maioridade, não são proprietárias legais de nada. Seus tutores é que são.

O universo pesquisado, portanto, foi de 3,2 bilhões de pessoas. Destas, 32 milhões são milionárias. Parece muito aos desavisados, não é mesmo? Parece... Mas não é. Representa, simplesmente, 1% da população adulta mundial. Se você acha isso certo (posição que, embora não concorde com ela, a respeito), é muito mais utopista do que eu. Se acha que o mundo vai melhorar com tamanha concentração de riquezas em tão poucas mãos e entende que pode, um dia, alcançar essa condição (com a qual, provavelmente, sonha), continue sonhando. Mas não reclame da violência, da corrupção, das epidemias, das guerras, das arbitrariedades e injustiças e de tudo o que ameaça a atual civilização (civilização?) e, principalmente, a sobrevivência da espécie humana.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Sunday, October 19, 2014

A Filosofia, “mãe de todas as ciências”, que num passado remoto foi patrimônio de toda a humanidade, hoje se complica, mais e mais, com a introdução de expressões fora do alcance da maioria (que nem seus introdutores sabem o que significam) e jargões inúteis e desnecessários, que a tornam acessível, apenas, a uns poucos iniciados. Com isso, ela perde não apenas sua essência, mas, sobretudo, sua função prática. Como me pode ser útil aquilo que não entendo? Não pode! Fernando Pessoa resume, todavia, em apenas três palavras o que deveria se constituir na verdadeira Filosofia: trabalho, esperança e amor (no sentido lato do termo). Escreve a propósito: “Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, enternecer-se com o homem: esta é a verdadeira Filosofia”. Esta, pelo menos, foi a origem da “mãe” de todas as ciências. O resto... são quinquilharias, inutilidades, “cacos” que podem e devem ser descartados, porque não fazem falta a ninguém.

@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk     

Bandidos são perdedores


Pedro J. Bondaczuk


O que ocorreu em 10 de dezembro passado, no enterro do assaltante e seqüestrador Leonardo Pareja, assassinado um dia antes por um grupo de presos do Centro Penitenciário Agroindustrial de Goiás (Cepaigo), se repetiu, anteontem, em Campinas, no velório de Jonas Arthur Gomes, o "Capeta" (guardadas as devidas proporções).

Até bandeira brasileira sobre o caixão foi colocada, como se o morto fosse um herói. Não era, evidentemente. As famílias das vítimas que fez que o digam. Há quem atribua à imprensa esse fenômeno de transformar bandido em herói. Os órgãos de comunicação, todavia, limitam-se a informar sobre os crimes praticados por essas pessoas.

Nenhum jornal, revista, rádio ou televisão (por mais sensacionalistas que sejam), comete a irresponsabilidade de exaltar os "feitos" de homicidas, assaltantes ou seqüestradores. Pelo contrário. O que há é uma freqüente campanha pela segurança e uma exigência para que essa gente perigosa seja tirada das ruas.

A mitificação de bandidos tem outras causas, psicológicas e sociais. No velório do "Capeta", por exemplo, pôde-se observar que a maioria dos que o "louvavam" era constituída por adolescentes, contestadores pela própria natureza, que invertem valores como uma forma de rebeldia em relação aos adultos.

A transformação de marginais em heróis não é um fenômeno novo ou restrito a Campinas --- que mitificou, entre outros, Luís Carlos do Vale e Hidemax Rita. Em São Paulo, figuras como Sete Dedos, Meneghetti e o Bandido da Luz Vermelha dominaram a fantasia de muita gente.

No Rio, Cara de Cavalo, Tião Medonho, Lúcio Flávio e mais recentemente Escadinha e Uê, foram (ou estão para ser) inclusive personagens de filmes. No Exterior, podem ser mencionados desde o lendário Robin Hood a Jesse James, Bonnie e Clyde, Calamity Jones, Al Capone e Caryll Chessman, o "Bandido da Luz Vermelha" original, executado em 1959, após permanecer por quase 11 anos no "corredor da morte" de uma prisão norte-americana.

As pessoas sem muita estrutura psicológica e inadaptadas socialmente precisam de ídolos, numa época carente de merecedores de idolatria. Ninguém idolatra políticos, salvo raras exceções. Jogadores de futebol, mitificados num passado recente, têm desencantado admiradores, pelo seu "mercantilismo" ou pela conduta às vezes irresponsável fora ou dentro dos gramados. Hoje são raros os que demonstram amor a uma determinada camisa.

Falta, por exemplo, um Pelé, que no Brasil jogou somente no Santos. Ou um Zico, cuja trajetória está toda ligada ao Flamengo. Não dá mais tempo para o torcedor transformar algum "craque" em ídolo. Quando menos espera, ele passa a jogar pelo time que é o maior adversário do seu.

O risco em transformar bandidos em heróis é o da imitação. Muito adolescente tem ultrapassado os limites da mera rebeldia, descambando para a marginalidade, apenas por se espelhar em exemplos de criminosos. E enveredam num caminho sem retorno. Exemplo? Leonardo Pareja e Capeta.


(Artigo publicado no caderno Cidades do Correio Popular em 20 de março de 1997)




Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk