Thursday, May 05, 2016

“TESOURO DOS REMÉDIOS DA ALMA”

Um dos remédios mais poderosos contra a ignorância, esse tão disseminado mal do espírito é a leitura de bons livros,  repositórios da experiência e sabedoria humanos acumulados por milênios à nossa disposição, bastando, para isso, que tenhamos vontade de usufruí-los. Não por acaso, no Egito antigo, as bibliotecas eram chamadas de “Tesouro dos remédios da alma”. É a elas, muito mais que às farmácias, que devemos recorrer com freqüência, para nos prevenirmos (senão nos curarmos) da “mãe de todas as doenças”: a ignorância. Devemos, pois, nos embebedar fartamente de leitura, sorvendo-a, com sofreguidão, em generosos goles. Algum bem, certamente, esse exercício nos trará. Quanto à ignorância... Não devemos sequer passar perto do “cálice” que a contenha.    


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Papel da opinião pública



Pedro J. Bondaczuk


O fato de o plano de estabilização econômica, anunciado nesta semana pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, ser consistente, realista e tecnicamente correto, não é nenhuma garantia de que venha a Ter o sucesso esperado. O conjunto de medidas tem uma série de condicionantes, até maior do que as proposições de Eliseu Resende, dadas a público em 24 de abril passado.

Ambos os programas se complementam. Os dois dependem da boa vontade de um Congresso que nunca mostrou disposição de colaborar com o governo. Em ambos, houve a decisiva interferência de Fernando Henrique Cardoso (tido como um forte presidenciável).

Um dos grandes defeitos desses planos, e de tantos outros já apresentados, ou a apresentar, está na expectativa que sempre é criada na sociedade em relação ao seu teor. Esse fato dá margens para que muita gente aproveite o alarido criado em torno das medidas para fazer reajustes preventivos de preços, mesmo que o conteúdo seja adiantado com grande antecedência pela imprensa e que seja evidente a inexistência de choques ou congelamentos. Foi o que ocorreu mais uma vez agora.

A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Fipe) detectou novamente esta prática. E nem seria necessária essa prova. O consumidor sentiu os efeitos das remarcações em seu bolso. Como parte considerável da inflação brasileira tem a ver com a expectativa inflacionária, o novo programa, elaborado exatamente para atacar essa disfunção econômica em sua raiz, vai contribuir para mais uma evolução dos índices neste mês, por causa do mistério que se criou, por duas longas semanas, em torno de seu anúncio.

Quanto ao sucesso ou não das medidas anunciadas, tudo vai depender do grau de mobilização da opinião pública. Convém ressaltar que a campanha sucessória – e desta vez não somente para a Presidência, mas para os governos estaduais, para o Congresso Nacional e para as Assembléias Legislativas – já está rolando nas ruas com uma antecipação inusitada de mais de um ano.

Nestas circunstâncias, governadores, prefeitos e congressistas (que sofrem influência direta desses chefes de Executivo) certamente não se mostrarão dispostos a colaborar espontaneamente com o governo federal.

É uma ilusão achar que políticos formados na “escola” do carreirismo, da demagogia institucionalizada e do populismo (que dão resultados num país tão despolitizado) irão se mostrar dispostos a colocar os interesses nacionais acima de suas ambições pessoais.

Daí o ceticismo de alguns setores em relação ao plano de estabilização, que na verdade não é um pacote fechado, mas o início de um projeto que tende a ser muito mais amplo, se os oportunistas, os que jogam no time daqueles que pretendem “levar vantagem em tudo”, permitirem.

Está na hora de o brasileiro ser mais participativo, mais atuante e muito mais crítico em assuntos que dizem respeito à sua vida. É preciso estar atento, discutir as medidas, fazer pressão, cobrar, exigir serviços dos representantes que o cidadão elege.

Cada falcatrua ou negociata que algum deputado ou senador faz tem como cúmplice quem o elegeu. Afinal, tais parlamentares agem em seu nome, tendo como procuração o voto recebido nas urnas. É mais do que justo, portanto, sendo inclusive uma questão de prudência, cobrar por atos e omissões dos que atuam em nosso nome.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 19 de junho de 1993).


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Competente e precisa descrição da peste


Pedro J. Bondaczuk

A devastadora pandemia de peste bubônica, que a partir de 1347 assolou, praticamente, toda a Europa, causando milhões de mortes, teve, em Giovanni Boccaccio, um dos mais perfeitos e competentes cronistas. Sua obra-prima, o “Decamerão”, é um dos documentos mais confiáveis, detalhados e verossímeis desse flagelo. Nenhum historiador conseguiu sequer chegar perto da objetividade demonstrada por esse escritor e num livro de ficção, diga-se de passagem. Mesmo tratando especificamente da pandemia apenas no início da sua obra, a peste sempre esteve presente em toda a narrativa, como pano de fundo de todo o enredo. Seu relato “apresenta” a doença para o leitor, do presente e do futuro, com meticulosidade poucas vezes vista em qualquer outro autor.

Em alguns pares de parágrafos, Boccaccio explicou como a peste se manifestava, como evoluía, quais os sintomas que apresentava etc.etc.etc. Mas não se limitou a esses aspectos, digamos, “médicos” da enfermidade. Descreveu, de maneira nua e crua, a reação das pessoas diante da perspectiva de uma morte horrenda. Ademais, ressaltou a ineficácia, e portanto a inutilidade, das medidas adotadas para combater a peste, principalmente as de caráter espiritual, já que havia praticamente consenso de que a epidemia era “castigo divino” que requeria arrependimento dos pecados, com rezas, procissões, promessas e todo o arsenal religioso recomendado pela Igreja Católica, religião majoritária ou, para ser exato,  praticamente única naquele tempo e lugar.

Boccaccio abordou, também, a ação de uma Medicina empírica e ineficaz que, a rigor, nem merecia esse nome, com seus “remédios” que nada remediavam e suas práticas até absurdas. São de se notar suas descrições de dois tipos opostos de reações por parte das pessoas ameaçadas pela implacável doença, incompreensível para elas e que consideravam como uma espécie de “roleta russa”, que poderia atingi-las ao sabor do acaso. De um lado, estavam os que se entregavam a uma luxúria desenfreada, passando a beber sem moderação e a praticar todos os excessos, sobretudo sexuais, no afã de “aproveitar” a vida, antes que a morte os colhesse. No outro extremo, estavam os que se recolhiam em grupos, orando fervorosamente, praticando o ascetismo e arrependendo-se até de pecados imaginários. Boccaccio destaca que entre essas duas correntes de comportamento havia uma terceira, que ora se entregava à luxúria e ao desregramento, ora fazia promessas, jejuns e autoflagelações.

O autor do “Decamerão” escreve, em determinado trecho: “(...) Tínhamos já atingido o ano ... de 1348, quando, na mui importante cidade de Florença... sobreveio a mortífera pestilência... Nenhuma prevenção valeu, baldadas todas as providências dos homens... Nem conselho de médico, nem virtude de mezinha alguma parecia trazer a cura ou proveito para o tratamento (...)”  Destaca, também: “(...) E não valendo contra ela nenhum saber nem providência humana (como a limpeza da cidade de muitas imundícies ordenadas pelos encarregados disso e a proibição, a todos enfermos, de entrarem nela, além dos muitos conselhos dados para conservar a salubridade), nem valendo, tampouco, as humildes súplicas dirigidas a Deus pelas pessoas devotas, não uma vez, mas muitas, através de procissões e de outras formas de manifestação de fé, quase no início da primavera do ano citado (1348), a peste começou horrivelmente e em assombrosa maneira, a mostrar seus dolorosos efeitos (...)”.

A seguir, com a meticulosidade de um infectologista (que obviamente não era), com objetividade científica de causar inveja a profissionais de saúde atuais, Boccaccio observa a diferença entre a epidemia que testemunhou e as similares ocorridas na Ásia, além de descrever os sintomas. Escreveu: “(...) A peste, em Florença, não teve o mesmo comportamento que no Oriente. Neste, quando o sangue saía pelo nariz, fosse de quem fosse, era sinal evidente de morte inevitável... Apareciam no começo, tanto em homens como em mulheres, ou na virilha ou na axila, algumas inchações... a que o povo chamava de bubões... Em seguida, o aspecto da doença começou a alterar-se. Apareciam manchas escuras ou pálidas nos doentes. Nuns, eram grandes e espalhadas; noutros, pequenas e abundantes (...)"
 
Numerosas levas de pessoas, aterrorizadas, desesperadas, em pânico saíam de Florença e das outras cidades atingidas pela pandemia, vagando pelos campos ou reunindo-se nas igrejas. Foi num desses caóticos êxodos em massa que Boccaccio situou o inusitado grupo que ele criou para a narrativa do “Decamerão”. Note-se que as dez pessoas que o escritor “designou” para narrarem as cem novelas do livro, têm uma simbologia tanto numerológica, quanto mística. As sete moças do grupo, por exemplo, representam as Quatro Virtudes Cardinais – Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança – e as Três Virtudes Teologais - Fé, Esperança e Caridade. Já os três homens representam a Divisão da Alma em Três Partes: Razão, Ira e Luxúria da tradição helênica.

As sete mulheres, cuja mais idosa era Pampinéia, tinham idades entre 18 e 28 anos. Eram bonitas, de origem nobre e seu comportamento era honesto. Antes de deixarem Florença, para fugirem da peste, agruparam-se, por acaso, na igreja de Santa Maria Novela. Ali, fizeram um pacto e resolveram continuar juntas, acontecesse o que acontecesse. A seguir, surgiram os três homens, com idades a partir dos 25 anos. Eram agradáveis, bem apessoados e com esmerada educação. Eles foram à igreja com um objetivo específico: para procurarem suas respectivas amadas, que, aliás, eram três das sete moças, ali reunidas. Foi quando o grupo, agora de dez, resolveu fugir de Florença, abrigando-se num castelo, dando início, de fato, ao genial enredo do “Decamerão”. Por tudo isso, considero esse livro um primor literário, original e inovador, que por romper com a mítica literatura medieval, lançou as verdadeiras bases do realismo.


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Wednesday, May 04, 2016

AÇÃO VELOZ, MAS PENSAMENTO MOROSO

Usualmente, temos o mau-hábito de pensar com extrema lerdeza, com a velocidade de uma tartaruga e de agir com insensata rapidez, como um raio que risca o céu em noite de tempestade, sem dar tempo, sequer, ao raciocínio de estabelecer um bom plano de ação que seja coerente e factível. O correto é fazer exatamente o contrário: inverter essa premissa. Ou seja, é aprender a ser o mais ágil possível ao raciocinar e moderado e prudente na hora de executar o que for planejado (se planejarmos de fato, claro). Esse, aliás, é o grande segredo das pessoas consideradas sábias, dos líderes e gênios. O tempo despendido em ambos será rigorosamente o mesmo. Apenas estaremos invertendo a proporção do seu uso em cada uma dessas etapas. Devemos, pois, sorver o raciocínio aos goles e a ação, com cautela, gota a gota. Já a ignorância é uma das mais perigosas (se não a pior) das doenças que afetam as pessoas. Não raro é a causa e a origem da maioria das enfermidades. O ignorante, por exemplo, entre tantas bobagens que comete, descuida-se da prevenção, que é a forma mais sensata e eficaz de se conservar a saúde. Por isso, adoece, tendo que recorrer a paliativos para buscar a cura, após inúmeros e atrozes sofrimentos, que poderiam ser evitados.


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Prisioneiros em casa


Pedro J. Bondaczuk


A cidade de Nantes, localizada às margens do Rio Loire, no Noroeste da França, povoação de cerca de 300 mil habitantes, uma das principais do país, viveu, anteontem e ontem, um insólito caso de seqüestro. O motivo, pelo que se depreendeu das informações enviadas por agências, não se deveu a qualquer fato político e o caso não pode ser atribuído a nenhum grupo guerrilheiro, dos tantos que hoje atuam em todas as partes do mundo.

Quatro marginais comuns, que estavam sendo julgados no tribunal de justiça dessa localidade por roubo e outros delitos menores, contando com a ajuda de um marroquino, com ficha na polícia por ter sido condenado por assalto a mão armada, seqüestraram todos os membros da corte, indistintamente. Juiz, promotor, advogado, jurados e até os que assistiam o julgamento, inclusive jornalistas, acabaram se tornando reféns.

Que eu me recorde, é um caso absolutamente inédito na longa história dos seqüestros, que já teve de tudo. Até um presidente já foi vítima desse tipo de ação. No caso, o da Bolívia, Hernán Siles Zuazo, mantido como refém, por quatro horas, numa residência de La Paz, por policiais rebelados.

Navio, aviões, palácios, parlamentos, todos esses locais já foram palcos de ações de extremistas. Até mesmo um ataque contra a Suprema Corte de um país registrou-se neste estranho e violento ano de 1985, com o episódio de 6 e 7 de novembro, em Bogotá, protagonizado pelo Movimento 19 de Abril da Colômbia.

Mas em todos estes casos, os motivos sempre foram essencialmente políticos. O de Nantes é o primeiro em que réus comuns prendem seus julgadores para não serem presos.

O significado disso, para a Justiça, pode ser terrível. Nós tivemos, no Espírito Santo, no final de 1984, um episódio mais ou menos parecido. Mas na oportunidade, apenas o juiz ficou como refém. E o incidente teve curta duração, se comparado com este, que polarizou as atenções mundiais por 35 horas.

É o terror fazendo escola e passando seus ensinamentos para criminosos comuns. É a violência ganhando dimensões maiores e contestando o princípio da autoridade. É a anarquia obtendo espaços insuspeitados, sem que a sociedade tenha grandes meios de impedir o seu avanço.

Casos como o ocorrido anteontem, em Nantes, têm que ser punidos com a máxima severidade possível, para que não formem entre os que vivem à margem das leis a certeza da impunidade. Isso poderia incentivar ações de igual natureza cada vez mais ousadas, mais freqüentes e finalmente mais brutais. Com o correr do tempo, pode levar os criminosos a se sofisticarem e concorrerem com os vários grupos extremistas existentes, no mercado de armamentos mais modernos.

De uns tempos a esta parte, em nível mundial, observa-se um fenômeno estranho, inquietador e altamente negativo. As pessoas de bem, que cumprem seus deveres de cidadania, contribuem com o seu trabalho para o bem estar geral e têm mentalidade construtiva, são, virtualmente, as prisioneiras.

Transformam os seus lares em autênticas fortalezas para dotarem suas famílias de proteção. Ou seja, se auto-enclausuram, enquanto que os que precisariam ser segregados do convívio social, por patológicos desvios de conduta, permanecem à solta, em plena liberdade, dando vazão a suas taras e instintos bestiais.

Decididamente, algo está muito errado. Na política, que gera ilhas (às vezes continentes) de carências; na economia, que privilegia grupos e cria castas e nas leis, severas em questões menores e absurdamente brandas nos assuntos em que deveriam ser rigorosas.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 21 de dezembro de 1985).


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O preço do pioneirismo de Giovanni Boccaccio


Pedro J. Bondaczuk

O escritor checo, de língua alemã, Franz Kafka, afirmou, certa feita, que “a literatura é sempre uma expedição à verdade”. Eu acrescentaria: “Mesmo quando recorre à ficção, portanto, à fantasia”. Muitas vezes, as histórias inventadas tendem a ser mais verdadeiras, no sentido de retratar determinadas realidades, costumes e comportamentos do que acontecimentos reais, caso sejam mal-interpretados. Determinados escritores, vez ou outra, fogem dos padrões convencionais, os estatuídos e, mesmo que suas obras a princípio choquem seus contemporâneos (as novidades, geralmente, enfrentam resistências em quaisquer atividades), se o que escreveram for, realmente, de qualidade, acabam por se impor e se constituem em marcos de novos caminhos que, com o tempo se impõem e passam a ser seguidos por muitos, se tornando, praticamente, em novas regras.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com Giovanni Boccaccio e com seu livro mais famoso, “Decamerão” (há quem grafe “Decameron”, o que dá na mesma). Ele inovou e sua inovação foi aperfeiçoada por muitos, ao longo dos séculos e hoje está consagrada, sem que a maioria sequer reconheça seu pioneirismo. Todavia, admitam ou não, ele é um marco no que se convencionou chamar de “Realismo” na Literatura de ficção. Conversando, dia desses, com amigos, a propósito dessa obra fundamental, alguns se disseram decepcionados com seu teor. Acharam muitas das cem novelas curtas que ela contém óbvias demais. Outros tantos, criticaram o tom muitas vezes caricato adotado pelo autor, exagerando nas virtudes e nos defeitos dos personagens envolvidos. Esse, porém, é o preço pago pelos pioneiros: a incompreensão.

É fácil criticar o que outros escreveram, mesmo que ninguém tenha escrito dessa mesma forma antes. Para valorizar Boccaccio e seu “Decamerão”, é indispensável contextualizar essa produção. É preciso atentar para a época em que o livro foi escrito, em como era a Literatura até que ele fosse redigido e como passou a ser depois. E nesse contexto, não há como não concluir que ambos, a obra e seu autor, são geniais. Não fossem, há tempos  já estariam esquecidos e, se eventualmente fossem lembrados, seriam citados, apenas, como exemplos de “exotismo” e nada mais. Mas... não é o que acontece. E nem poderia ser. O “Decamerão” é original desde sua concepção (é, como diriam os jovens no seu linguajar característico, uma “boa sacada”) e ao seu próprio título. Este é uma composição das palavras gregas “deca” (que significa dez) e “hemeron” (dias, ou jornadas).                 

Quanto às novelas, desafio, quem procura defeito nessas narrativas, a escrever cem histórias, absolutamente diferentes umas das outras, e torná-las todas “geniais”. Algumas serão (e no caso, são) melhores do que outras, como não poderiam deixar de ser. Tanto que várias delas inspiraram (e inspiram) escritores do passado e do presente, que escreveram (e escrevem) versões das mesmas, mas raras sequer parecidas às originais, quanto mais melhores. Em linhas gerais, o “Decamerão” começa numa manhã de terça-feira do ano de 1348. É quando sete moças e três rapazes resolvem deixar a cidade de Florença para fugir da peste negra. O grupo resolve exilar-se em um castelo, onde seus integrantes estariam a salvo da doença. Essas pessoas, porém, precisariam arrumar alguma ocupação para espantar o tédio. O que fazer? Para se distraírem, alguém sugeriu uma brincadeira, logo aceita por todos. Cada dia, um deles reinaria no castelo por uma jornada completa. E essa pessoa seria obrigada a narrar dez contos. Foi daí que surgiram as cem histórias que compõem o “Decamerão”. Isso não é original? É originalíssimo! Além do que, apresentava um desafio para o autor: o de inventar cem enredos diferentes para serem narrados pelas dez pessoas do grupo.

Contudo, a vida desses “exilados” não se restringia a inventar e narrar historinhas, o que já era, por si só, enorme desafio. Eles passaram dias entre a nobreza, em vida refinada, na qual se entrelaçam divertimentos campestres, conversas, jogos, jantares e danças. É, pois, um retrato fiel do comportamento dos florentinos daquele tempo. Enquanto os que ficaram na cidade morriam como moscas, por causa da peste negra, esses exilados nada faziam de prático e de útil para socorrer, de alguma maneira, seus desesperados e aterrorizados concidadãos.  Todos os dias da semana (com exceção de sexta-feira e do sábado, por respeito às conveniências religiosas), cada um contava uma história, com tema livre, sendo apenas decidido quem deveria narrar pelo rei ou rainha na véspera.

Há quem encare o “Decamerão” como  coleção de anedotas, como as que consagrariam, muito tempo mais tarde, o português José Maria Du Bocage, incorporado ao anedotário de Portugal (e posteriormente do Brasil). Quem pense assim, ou não leu o livro ou o fez sem a devida atenção que ele merece. Concordo com um crítico (não consegui identificar qual) que alerta que no “Decamerão” “há mais que riso, sexo e padres nas histórias criadas por Boccaccio. O tom cômico, que na obra assume um caráter crítico, se enquadra numa tradição mental típica da narrativa medieval”.

As novelas, que à primeira vista podem parecer sem nenhuma relação umas com as outras, seguem um padrão lógico, que com um pouquinho de observação, fica claro. Constituem um discurso progressivo.  Querem ver como isso é real? Observe-se que as primeiras histórias versam todas sobre vícios: pederastia, mentira, violência, representadas especialmente pelo pederasta, usurário, violento, mentiroso, falsário. Já as últimas tratam de algo que ocorre ainda nos dias de hoje: das provações que uma esposa suporta pelo marido. Quem critica o livro, insisto, ou não o leu e sabe, apenas, de uma coisa ou outra do seu conteúdo, por “ouvir dizer”. Ou não tem capacidade de entendimento, por isso perde o que ele tem de melhor. Na verdade, a magistral pena de Boccaccio traçou o que o tal crítico, que não consegui identificar, destacou como sendo: “Todo o tipo de encruzilhada humana, fruto da fortuna, do amor e da inteligência”. E isso na metade do século XIV, fazendo, em Literatura, o que ninguém havia feito antes. Como classificar um escritor assim se não com a designação que ele tanto fez por merecer, a de gênio? Sim, caro leitor, como?


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Tuesday, May 03, 2016

BEBER ÀS GOTAS, NÃO AOS GOLES

A memória tanto pode ser preciosa aliada ao longo da vida, quanto se transformar em intransponível obstáculo, em feroz adversária na nossa busca por satisfações e pela felicidade. Ao trilharmos a estrada da existência, teimamos em olhar para trás, sob o risco de tropeços e de quedas, quando o sensato seria vislumbrar o que esteja à nossa frente e seguir, com passo firme, em sua direção. Não há quem não tenha, em algum momento da sua trajetória existencial, instantes de ira, de dor, de tristezas e de aflições. Quando eles passarem, porém (e certamente passam), o mais inteligente a fazer é apagá-los da memória. Ou, se não agirmos assim, é utilizarmos essas lembranças como experiências e lições e nunca como potenciais fontes de angústia, como alguns utilizam. Se a memória fosse uma bebida, portanto, deveríamos sorvê-la às gotas, nunca aos goles. .      


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Gorbachev tem pouca chance


Pedro J. Bondaczuk


O presidente soviético Mikhail Gorbachev, embora equilibrando-se precariamente numa corda bamba, tendo milhões de cidadãos a exigir sua renúncia nas ruas das grandes cidades, vendo seu projeto reformista sabotado por muitos e adulterado por alguns, mantém-se determinado a promover uma revolução pacífica, sem barricadas e sem sangue, em seu país.

As pressões a que vem sendo submetido seriam suficientes para acabar com a carreira de qualquer um que não tivesse a sua determinação e a sua convicção nas idéias que prega. De um lado, os conservadores do Partido Comunista, temendo perder os privilégios que maliciosamente, em nome da unidade partidária, e de uma pretensa revolução mundial, se auto-atribuíram, fazem o possível e o impossível para criar fatos novos, que conduzam ao fechamento do regime. De outro, os militares insinuam que Gorbachev deve, simplesmente, reprimir a oposição e tomar as rédeas do poder absoluto nas mãos, ditatorialmente, ao estilo de Leonid Brezhnev ou até mesmo de Joseph Stalin.

Numa direção oposta a esta estão os reformistas radicais, pretendendo demolir o inseguro edifício socialista, com as bases apodrecidas pela arbitrariedade e corrupção, pedra por pedra, ao invés de promover uma reforma. Esta facção é a liderada pelo populista russo Bóris Yeltsin, hoje disparadamente o político mais popular da União Soviética por falar a linguagem que o povo deseja ouvir, mesmo que desacompanhada de atos concretos. Numa quarta vertente estão os nacionalistas, que sequer desejam falar em união, mesmo que remodelada e integrada por Estados soberanos.

A tudo isso Gorbachev responde com a sua determinação de implantar, não à força, mas através da persuasão, o projeto que o tornou famoso no mundo todo, mesmo parecendo impossível, a esta altura, que ele consiga persuadir quem quer que seja nesse autêntico "saco de gatos" em que a URSS se transformou.

Aos conservadores disse, em junho passado, que, ou eles se modificam no comportamento e no dogmatismo que os intoxica, ou ficarão à margem da reconstrução do país para o transformar numa superpotência que realmente mereça este nome.

Aos militares, advertiu, num discurso pronunciado às Forças Armadas no início da semana: "Se a adoção dessas medidas (para restabelecer a ordem) significa um retorno aos velhos métodos, à repressão e à violência, então devo dizer categoricamente que não pretendo recorrer a esses meios".

Os reformistas radicais, o presidente sequer leva a sério, encarando Yeltsin como mero "aventureiro", obcecado pela sede de poder pelo poder.

Aos nacionalistas, finalmente, classifica como irresponsáveis e sem visão de conjunto, escolhendo a indigência de Estados paupérrimos e economicamente inviáveis à participação num projeto de construção de uma superpotência exemplar e sobretudo democrática.

Todas as cartas vencedoras, todavia, neste momento, estão com seus adversários, que não são obrigados a agir, como Gorbachev é. A cada dia que passa, ao invés de obter adesões ao seu projeto reformista, tem visto decepcionantes defecções de setores que julgava leais.

Ajuda do Exterior, por outro lado, não tem recebido muitas, pois apesar do apregoado fim da guerra fria, o Ocidente continua ainda adotando não apenas a linguagem, mas também o comportamento desse período. Sua situação, portanto, é não apenas insustentável, como até mesmo desesperadora. A menos que retire, como tem feito nestes últimos seis anos, algum novo "coelho da cartola" e reverta todos os dados a seu favor, sua queda parece ser somente questão de tempo.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 6 de abril de 1991).

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O duplo pioneirismo de Giovanni Boccaccio


Pedro J. Bondaczuk

O “Decamerão” constitui-se, até hoje, no mais conhecido relato literário da pandemia de peste bubônica que assolou, além de Florença, praticamente toda a Europa meridional, a partir de 1347. Nesta obra ficcional Giovanni Boccaccio utiliza a mortal doença como “pano de fundo” para narrar exatas cem histórias curtas, muitas cômicas, outras tantas picantes, mas revolucionárias para a época. Ele coloca essas narrativas na boca de dez narradores que inventou – sete mulheres e três homens – todos membros da burguesia florentina. Para fugir da peste, estas pessoas abandonam Florença e se abrigam numa casa de campo. E o grupo estabelece um pacto: todas as noites, para animar a vigília, um deles teria que contar uma história diferente. E todos deveriam participar. São estas narrativas que compõem as cem pequenas novelas do livro.

Mas a peste negra não aparece, somente, como pretexto para a reunião dessas dez pessoas e para suas respectivas narrativas. Giovanni Boccaccio faz meticulosa (e primorosa) introdução, em que descreve, com propriedade de causar inveja a qualquer cientista (que não era), os sintomas da doença. E não se limita a isso, mas avança e chega a especular sobre as causas desse mal, mas diferindo da generalidade das pessoas que as atribuíam unicamente a um “castigo” divino. Oportunamente, comentarei com mais vagar, esse livro. Hoje, meu foco é seu autor, que passou para a história como autor de dupla façanha com o “Decamerão”. Ou seja, foi pioneiro na criação do realismo na Literatura e como um dos mentores do que viria a ser conhecido como o Renascimento italiano nas artes e na cultura.

Giovanni Boccaccio não era, propriamente, ficcionista. Aliás, nessa época, praticamente inexistia o hábito de se “inventarem” histórias, a não ser peças teatrais, geralmente de cunho moral. Ele era poeta e crítico literário. Era considerado o maior especialista na obra de Dante Alighieri. Consta que ao ler o livro desse ilustre florentino, que então se chamava, somente, “A comédia”, ficou tão fascinado, que lhe acrescentou a palavra “divina”. E assim o título acabou sendo modificado para sempre e conhecido no mundo todo, através dos tempos. Graças a Boccaccio, a obra-prima de Dante Alighieri passou a se chamar “A divina comédia”.

Há várias divergências entre os biógrafos sobre alguns aspectos da vida do autor do “Decamerão”, como, por exemplo, a cidade em que ele nasceu. Alguns garantem que foi em Paris. Outros tantos afirmam que foi na cidade toscana de Certaldo. Mas todos concordam na data de nascimento: 16 de junho de 1313. O fato é que Boccaccio era filho ilegítimo de um mercador toscano, que tentou prepará-lo, desde tenra idade, para o comércio. Essa, porém, não era a vocação daquele moço inteligente e inquieto. O pendor para as letras manifestou-se desde cedo e findou por prevalecer. Seu “Decamerão”, de acordo com os críticos literários, é um “dos exemplos mais representativos do choque e da síntese de valores morais e sociais do final da Idade Média”. Essa ruptura com a tradição é um dos principais esteios do Renascimento (ou Renascença, como queiram).

Cataloguei 17 livros que Boccaccio publicou. Não sei se é a totalidade da sua obra. Provavelmente, não. Mesmo que tivesse tão somente o “Decamerão”, este valeria (como de fato vale), pelo ineditismo e pela forma original  e competente como foi escrito, por toda uma biblioteca. Alguns dos seus livros são sobre Dante Alighieri, sobretudo sobre “A divina comédia”. Destaque-se que Boccaccio permaneceu em Florença durante todo o tempo em que a epidemia de peste bubônica durou (ao contrário dos dez “narradores” que criou no “Decamerão”) e escapou ileso da doença. Só se mudou para Certaldo em 1363, cidadezinha da Toscana onde morreu, doze anos depois (em 21 de dezembro de 1375), com a idade de 62 anos.

Seu livro influenciou diversos escritores, de vários países, épocas e gerações, como Voltaire, Moliere, Gotthold Ephraim Lessing, Jonathan Swift, William Shakespeare, Lope da Vega, Percy Bysshe Shelley e Alfred Tennyson, entre tantos outros. Muitas das histórias que incluiu no livro eram narrativas populares, passadas de pai para filho, que ele ouviu e incorporou. Contudo, suas histórias denunciam, de forma nua e crua, como nunca antes ninguém tinha feito, as mais baixas paixões, os vícios, as maldades e as várias idiossincrasias humanas. “Decamerão”, portanto, é um livro que não pode faltar em nenhuma boa biblioteca que se preze.


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