Monday, November 30, 2015

Enquanto o indivíduo comum faz da exasperação causada por uma onda de forte calor pretexto para agredir os semelhantes, o poeta elabora um poema.

"Estou sozinho no quarto.
Estou sozinho na América...", desabafa Carlos Drummond de Andrade, em obra escrita em uma noite muito quente do Rio de Janeiro.

Enquanto uma pessoa que não possua qualquer dote artístico pensa em se matar, com a exacerbação da carência afetiva que sofre num garoento e frio dia de inverno, Fernando Gregh tece louvores às delícias do amor e conclui que a vida é bela. E é mesmo! Basta que tenhamos os olhos sempre abertos para apreciar o muito de bom que ocorre ao nosso redor.

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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

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No fundo, Malthus era otimista


Pedro J. Bondaczuk


O assunto fome, por ser desagradável, costuma desaparecer, periodicamente, do noticiário, dando a falsa impressão, aos desavisados (ou aos cínicos, ou aos insensíveis, etc.) de que o problema foi resolvido, ou no mínimo, reduzido a proporções mínimas, ínfimas até.

Claro que não é o que ocorre de fato. No ano passado, por exemplo, enquanto as câmeras de televisão não haviam focalizado as imagens pungentes, que viriam, finalmente, a despertar a comunidade internacional para a questão, ela era tratada, até, com certo menosprezo por diversos governos.

Apenas entidades que se dedicam à assistência social, e assim mesmo poucas, diretamente vinculadas ao problema, é que se preocupavam com o que estava acontecendo na Etiópia e em outros 29 países da África. Com o início do período de chuvas nessa região, cerca de um mês atrás, a maioria imaginou que, finalmente, as hordas de famintos, à beira da morte, poderiam mitigar a fome e dar continuidade a suas vidas, outra vez relegadas ao anonimato a que são submetidos os que não têm nada de seu, sequer um naco de pão para comer, tratados como meros números estatísticos e nada mais. Quem pensou isso, no entanto, se enganou, e muito!

Para começar, recorde-se que uma safra não é colhida, obviamente, da noite para o dia. Primeiro, é necessário que a terra ressequida por onze anos de uma severíssima estiagem fique embebida de água e possa, dessa forma, ser arada.

A seguir, é indispensável que se semeie. Para isso, lógico, não podem faltar sementes que, neste caso, só podem ser conseguidas mediante doações externas. É lícito supor que as que existiam antes, foram todas comidas, no período mais agudo de escassez, por serem o único recurso que restava, aos habitantes dessas áreas, para evitar a morte por inanição.

Tomadas todas essas providências, elementares, resta, ainda, esperar a ação da natureza, que tem o seu próprio ritmo. Contar, por exemplo, que não chova em excesso e muito menos a conta-gotas. Ou seja, o lavrador, ainda acossado pela fome, por não contar com reservas de alimentos, vai, mais uma vez, depender dos caprichos do clima. Não há como fugir disso!

Se tudo correr conforme as mais otimistas expectativas, ou seja, se as sementes forem de boa qualidade, imunes a pragas, se germinarem no tempo certo, se as chuvas forem regulares e na medida certa, se o sol não queimar a plantação, ainda assim ele irá depender de novo elenco de condições e circunstâncias, tão grande quanto o descrito, antes de poder ter alimento para pôr à mesa.

Por exemplo, vai precisar dispor de braços fortes para a colheita. Onde arrumar essas pessoas? Boa pergunta! Terá, ainda, de contar com a sorte, para que não chova na época da colheita, para que os grãos possam secar e não mofar. Além disso, vai precisar dispor de um sistema, mesmo que rudimentar, mas que seja eficiente, de silagem do que for colhido, para estocar eventuais excedentes. E torcer, além de tudo, para que os ratos (famintos quanto ele) e outras pragas não produzam quebras consideráveis na safra.

Contudo, antes, muito antes de dar todos esses passos, será indispensável que não falte, a esse lavrador, o que comer, enquanto se dedica à tarefa de arar, semear, colher e armazenar os alimentos. E é aí que surge o grande obstáculo, capaz de inviabilizar sua recuperação.

A ajuda internacional, é verdade, segundo informam as entidades assistenciais – embora a conta-gotas – está chegando aos 30 países africanos assolados pela fome. Mas como se tratam de Estados muito pobres, suas estradas, por exemplo, (se é que essas picadas de pastores de cabras podem ter esse nome) estão, literalmente, intransitáveis. Transformaram-se em imensos lamaçais, por causa das chuvas!

Parte daquilo que é enviado pelos doadores, por sua vez, é desviada para as mãos dos mercadores de desgraças, parasitas que existem em todos os lugares, e ali também. Essas hienas corruptas e cínicas, que existem em todas as sociedades, e que fazem fortuna às custas da infelicidade alheia, estão mais ativas do que nunca nesses pises miseráveis e desorganizados. O leitor, certamente, sabe a quem estamos nos referindo.

Falamos dos tais intermediários, que afirmam que fazem a ponte entre as entidades internacionais de socorro e os flagelados. Só que, na verdade, não intermediam coisa nenhuma. Embolsam, isso sim, parte, senão a totalidade dos donativos, arrancados a poder de muito choro dos países desenvolvidos.

Enquanto isso, 30 milhões de africanos, a despeito das chuvas, continuam na iminência de morrerem de fome, sob as vistas complacentes de quem poderia e deveria evitar essa tragédia. Depois ainda dizem que Robert Malthus estava exagerando quando fez as suas previsões, sobre a ocorrência de “epidemia” mundial de fome, há três séculos! Como era otimista esse economista britânico!!

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 4 de junho de 1985).


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A perfeccionista Teodelina e o zahir

Pedro J. Bondaczuk

Os contos de Jorge Luís Borges são originalíssimos, mas nem tanto pelos enredos, pelos personagens (cujo papel parece à primeira vista ser apenas “incidental”, mas que, na verdade, não é) ou por eventuais e reveladores diálogos, que no seu caso são um tanto raros, como os da maioria dos contistas. É todo o conjunto, que se harmoniza e os torna, digamos, tão “peculiares”. Não por acaso ele é dos raros escritores de ficção que se consagraram mundialmente sem haver publicado um só e reles romance. Não digo que seja o único. Todavia, não me lembro, assim de memória, de nenhum outro.

O conto “O Zahir”, incluído no livro “O Aleph”, é mais um dos exemplos dessas virtudes literárias de Borges que citei. É uma narrativa tão complexa (embora pareça simples aos desavisados) que requer  análise muito mais extensa, meticulosa e profunda, que vá além de um mero comentário á margem, como normalmente faço em relação a trabalhos literários de outros escritores. Se não agir assim, certamente se perderão determinadas nuances, que normalmente tendem a nos escapar, mas que nesse caso revelam toda a genialidade desse contista de escol. Um detalhe, em particular, que me chamou a atenção, é o fato de Borges dedicar alguns dos contos (se não me engano, quatro deles) a determinadas pessoas. Não me lembro de nenhum outro contista que tenha agido assim. Poesias sim são usualmente dedicadas a amigos, ou parentes, ou pessoas que admiramos etc.etc.etc. Todavia contos... para mim é novidade.

“O Zahir”, por exemplo, é dedicado ao poeta argentino Wally Zenner. Seria um gesto de humildade de Borges ou mais uma de suas tantas idiossincrasias? Provavelmente as duas coisas. A exemplo do que fez no conto “O Aleph”, com Beatriz Elena Viterbo, apresenta a personagem feminina, no caso Teodelina Villar, como que por acaso e também depois de sua morte. Não lhe dá, por isso, voz e nem ação (ao contrário do que fez em relação a Emma Zunz), deixando implícito que a trouxe à baila apenas como pretexto para tratar do “zahir”. Mas, ainda assim, consegue fazer, a exemplo do que havia feito com Beatriz, figura inesquecível, ao cabo da leitura do conto. Ou seja, Borges se mostra um contista que mais sugere do que declara. Se tem algo que o diferencia da maioria dos ficcionistas, isso é o fato dele nunca ser óbvio.

Borges inicia seu conto definindo, logo no primeiro parágrafo, o verdadeiro objeto em torno do qual irá girar todo o enredo, dando sua definição literal, no caso material, e a, digamos, “cabalística”. Escreve: “Em Buenos Aires, o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; marcas de navalha ou de canivete riscam as letras N T e o número dois; 1929 é a data gravada no anverso. (Em Guzerat, em fins do século XVIII, um tigre foi Zahir; em Java, um cego da mesquita de Surakarta, que os fiéis apedrejaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar; nas prisões do Mahdi, por volta de 1892, uma pequena bússola que Rudolf Carl von Slatin tocou, envolta numa dobra de turbante; na mesquita de Córdoba, segundo Zotenberg, um veio no mármore de um dos mil e duzentos pilares; entre os judeus de Tetuan, o fundo de um poço)”.

Viram quantas informações o contista nos traz para que conheçamos o objeto tratado além do enredo? A seguir, identifica-se como o verdadeiro narrador da história, para que não paire nenhuma dúvida: “Hoje é 13 de novembro; no dia 7 de junho, de madrugada, chegou às minhas mãos o Zahir; não sou o que então eu era, mas ainda me é dado recordar, e talvez contar, o ocorrido. Se bem que, parcialmente, ainda sou Borges”. A personagem feminina é introduzida no enredo já morta. Aliás, foi após se fazer presente ao seu velório que o narrador (no caso, o próprio Borges) começou a narrativa de como o zahir foi parar em suas mãos e as peripécias que encarou para se livrar dele.

“Em 6 de junho morreu Teodelina Villar. Seus retratos, por volta de 193O, enchiam as revistas mundanas; essa abundância contribuiu talvez para que a julgassem muito bonita, embora nem todas as imagens apoiassem incondicionalmente essa hipótese. Além do mais, Teodelina Villar se preocupava menos com a beleza que com a perfeição. Os hebreus e os chineses codificaram todas as circunstâncias humanas; na Mishnah se lê que, iniciado o crepúsculo do sábado, um alfaiate não deve sair à rua com uma agulha; no Livro dos Ritos se lê que um hóspede, ao receber o primeiro copo, deve assumir um ar grave e, ao receber o segundo, um ar respeitoso e feliz. Análogo, porém mais minucioso, era o rigor que Teodelina Villar exigia de si mesma”. Além de apresentar a amada (mais uma das mulheres que amou ou somente imaginou?), apresenta mais um “caminhão” de informações, mostrando que seu empenho, ao escrever contos, não era somente o de entreter leitores com boas histórias, mas contribuir para ampliar sua cultura.

A seguir, Borges traz subsídios sobre o perfeccionismo de Teodelina. “Procurava, como o adepto de Confúcio ou o talmudista, a irrepreensível correção de cada ato, mas seu empenho era mais admirável e mais duro, pois as normas de seu credo não eram eternas, já que se rendiam às casualidades de Paris ou de Hollywood. Teodelina Villar mostrava-se em lugares ortodoxos, em hora ortodoxa, com atributos ortodoxos, com tédio ortodoxo, mas o tédio, os atributos, a hora e os lugares caducavam quase imediatamente e serviriam (na boca de Teodelina Villar) para definição do ridículo. Procurava o absoluto, como Flaubert, mas o absoluto no momentâneo. Sua vida era exemplar e, no entanto, um desespero interior a roía sem trégua. Ensaiava contínuas metamorfoses, como para fugir de si mesma; a cor de seus cabelos e as formas de seu penteado eram famosamente instáveis”

Como quem não quer nada, Borges informa o leitor como o tal zahir foi parar em suas mãos, com funestas conseqüências. Relatou: “Na figura que se chama oxímoro, aplica-se a uma palavra um epíteto que parece contradizê-la; assim os gnósticos falaram de luz obscura, os alquimistas, de um sol negro. Sair de minha última visita a Teodelina Villar e tomar cachaça num armazém era uma espécie de oxímoro; sua grosseria e sua facilidade me tentaram. (A circunstância de que se jogavam cartas aumentava o contraste.). Pedi uma aguardente de laranja; de troco, deram-me o Zahir; olhei-o por um instante; saí à rua, talvez com um princípio de febre. Pensei que não existe moeda que não seja símbolo das moedas que resplandecem interminavelmente na história e na fábula..”

Para quem não sabe, ou já se esqueceu, informo que oximoro é uma figura de estilo literário, que reúne duas palavras aparentemente contraditórias ou incongruentes. Exemplos? No título deste livro temos uma idéia desta figura: “Eu Próprio o Outro”. Ou então na expressão “gentileza cruel”. Ou em  “belo terrível” e “ilustre desconhecido”. Estes são alguns oximoros. O termo vem do grego  “oxymorom = “arguto” + “moron” = “estúpido”. Esclarecido? A tal moeda afetou de forma nefasta o juízo do narrador. Por que? Bem, Zahir, em árabe, quer dizer visível, presente, incapaz de passar despercebido. É algo ou alguém que, uma vez que o contatamos, acaba por ir ocupando a pouco e pouco o nosso pensamento, até não conseguirmos concentrar-nos em mais nada. Isso pode ser considerado santidade ou loucura.

No caso do nosso personagem, era a insanidade. Ele precisava livrar-se desse objeto. Como o fez? “No dia seguinte, decidi que tinha estado bêbado. Também resolvi livrar-me da moeda que tanto me inquietava. Olhei-a: nada tinha de particular, a não ser algumas ranhuras. Enterrá-la no jardim ou escondê-la num canto da biblioteca teria sido o melhor, mas eu queria distanciar-me de sua órbita. Preferi perdê-la. Não fui ao Pilar, essa manhã, nem ao cemitério; fui, de metrô, a Constitución e de Constitución a San Juan e Boedo. Saltei, impensadamente, em Urquiza; dirigi-me ao oeste e ao sul; baralhei, com desordem estudada, umas quantas esquinas e, numa rua que me pareceu igual a todas, entrei num botequim qualquer, pedi uma caninha e paguei-a com o Zahir. Entrecerrei os olhos, por trás das lentes esfumadas; consegui não ver os números das casas nem o nome da rua. Essa noite, tomei uma pastilha de veronal e dormi tranqüilo”.

Livrar-se do objeto não lhe adiantou muito. “No mês de agosto, optei por consultar um psiquiatra. Não lhe confiei toda a minha ridícula história; disse-lhe que a insônia me atormentava e que a imagem de um objeto qualquer costumava perseguir-me; a de uma ficha ou a de uma moeda, digamos...”. Querem saber como terminou essa história? Ora, leiam o livro “O Aleph”. E leiam, com redobrada atenção, esse marcante conto de realismo fantástico que é “O Zair”, combinado?


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Sunday, November 29, 2015

Um poeta que compôs versos memoráveis sobre o clima, foi Fernando Gregh. Exemplo é o poema intitulado “Chove”, com precisa e preciosa tradução de Guilherme de Almeida:

"Chove.
A vidraça chora.

O vento põe no parque um soluço de outono.
Range uma porta e bate, e parece que implora
numa voz de abandono.
Chove.

Dir-se-ia que milhões de alfinetes acertam
nos vidros frios e se espetam.

Chove.
A vidraça chora.

O sol esconde a última nesga azul, que existe,
sob um manto cinzento e móvel.
Chove.
A vida é triste.

---Que importa!
Ulule o vento, bata a porta
e tombe a chuva!
Que importa!

Tenho nos olhos um clarão que nada turva,
tenho na vida um céu azul e imóvel;
tenho na alma um jardim ondulante de palmas
balançando em pleno anil por brisas calmas:
eu penso nela!

Chove...

--- A vida é bela!".


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Desarmamento é necessidade óbvia



Pedro J. Bondaczuk


As potências mundiais intensificam movimentos no rumo de um desarmamento global que, se não for concretizado, tende a mergulhar a humanidade numa crescente violência --- maior do que a atual, que já é insuportável --- capaz de chegar ao paroxismo.

Somado ao fato, de como afirmou Sigismund Freud, o homem ser, por si só, por instinto, um animal violento, não falta motivo para que se lance mão de meios destrutivos para dizer um "basta" às injustiças e corrupções. Todavia, qualquer pessoa medianamente inteligente sabe, ou intui, as conseqüências dos atos de força.

Destruir não possui nenhuma ciência. Saddam Hussein e os 42 países que se opuseram a ele na guerra do Golfo Pérsico que o digam. Eles são especialistas em "demolições". Resta saber o quanto há de sinceridade, de verdadeiro e legítimo empenho das grandes potências em desarmar os povos. Afinal, o comércio de armas representa, por baixo, 30% de todas as transações comerciais do Planeta.

Que o mundo precisa se desarmar, e com urgência, é mais do que óbvio. Mas antes de tudo requer-se que se desarmem os espíritos. O norte-americano Paul Kennedy (que não tem nada a ver com o célebre clã de Hiannys Port, do Massachusetts), constatou: "Em 1985, as despesas militares mundiais chegaram a US$ 940 bilhões, muito mais do que a renda da metade mais pobre da população do Planeta. Esse gasto em armas aumenta mais depressa do que a expansão da economia global e da maioria das economias nacionais".

Um ano depois, o mundo passou a investir US$ 1,3 trilhão em armamentos, mais do que a totalidade da dívida externa do Terceiro Mundo, que anda pela casa do US$ 1,1 trilhão. Os recursos, por sinal esgotáveis, da Terra estão sendo desperdiçados, portanto, para a preparação do suicídio coletivo da humanidade. Afinal, as armas tem uma e somente uma única finalidade: matar.

A guerra do Golfo Pérsico, da maneira como foi noticiada, em especial pela mídia televisiva, certamente deve ter provocado uma considerável aceleração na corrida armamentista e, por ironia, justamente entre os povos mais pobres. E portanto compreensivelmente mais propensos à violência.

Em determinados instantes, algumas matérias, em canais de televisão, só faltaram dar aos ditadores no poder (e aos potenciais que o aspiram conquistar mediante golpes) o endereço dos fabricantes dos caças, tanques, mísseis e equipamentos bélicos de todas as espécies.

A pretexto de "ilustrar" as reportagens, eram fornecidas fichas técnicas completas desses armamentos, como se eles fossem a maravilha das maravilhas. Como se neles estivesse a grande solução para os problemas que afligem a humanidade, como a fome, o fanatismo, a ignorância, o analfabetismo, a exploração do homem pelo homem, as agressões absurdas à natureza, as doenças e tantas outras mazelas que tornam tão penosa essa fascinante aventura que é a de viver,

Só se os líderes mundiais, num ataque de esquizofrenia, estiverem pensando em resolver a questão da pobreza matando todos os pobres. O jornalista Eduardo Galeano adverte que só "o orçamento da Força Aérea dos Estados Unidos é maior do que a soma de todos os orçamentos de educação infantil no chamado Terceiro Mundo".

É preciso citar mais algum dado para mostrar que o desarmamento global é hoje, mais do que uma questão de bom senso, o comportamento mais óbvio que se espera desse ser que se diz racional? E por tudo isso, não é difícil entender o poeta Guilhermino César quando desabafa: "A civilização é uma coisa de mau cheiro/orgulhosa de seus pudores mecânicos/de sua baba erudita, de seus crimes/polidamente bem arrotados na Bolsa".

(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 5 de junho de 1991).


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Paixão obsessiva por um fantasma

Pedro J. Bondaczuk

O livro “O Aleph” é tido e havido por parte considerável dos críticos literários como o melhor que Jorge Luís Borges publicou. Discordo. Considero “toda” sua obra num mesmo patamar (e superior) de qualidade, de inventividade e de criatividade, quer a ficcional, quer a de não-ficção. Foi um escritor único! Foi desses homens de letras tão originais que ninguém sequer se aproximou, mesmo que remotamente, dele no quesito originalidade. Seus contos seguem a linha do realismo fantástico e nos induzem ao raciocínio, à reflexão, ao estabelecimento de inu8sitados parâmetros, diversos dos que estamos acostumados a lidar para aferir o homem, o mundo, o universo e o que entendemos como “realidade”.

Não quero, com isso, diminuir a importância de “O Aleph” e muito menos considerar esse livro como obra menor em sua bibliografia. Muito pelo contrário! É tão bom, que merece análise mais detida, mais profunda, isolada, particular (melhor seria redigir até um tratado a propósito),  que me proponho a fazer oportunamente. “O Aleph” é uma obra-prima de realismo fantástico, que deve figurar, obrigatoriamente, em toda boa biblioteca que se preze. Os contos do livro são: O imortal; O morto; Os teólogos; História do guerreiro e da cativa; Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874); Emma Zunz; A casa de Astérion; A outra morte; Deutsches Requiem; A busca de Averróis; O Zahir; A escrita de Deus; Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto; Os dois reis e os dois labirintos; A espera; O homem no umbral; e, finalmente, O Aleph.

Meu foco, hoje, é o conto que dá título ao livro. Dele emerge uma personagem feminina absolutamente inesquecível. O curioso é que ela não participa diretamente da trama, embora seja onipresente na lembrança do narrador. Por que? Porque está morta. Trata-se, pois, de paixão, de obsessão, de veneração, literalmente, por “um fantasma”. Borges inicia o conto da seguinte forma: “Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita”.

O curioso é que a personagem, embora amada, venerada, adorada pelo narrador, nunca lhe correspondeu. Beatriz foi casada com Roberto Alessandra, de quem se divorciou. Teve vários casos amorosos. Arrastava as asas para seu primo-irmão Carlos Argentino Daneri, mas... o narrador, ainda assim, venerava-a. Relembrava cada passagem marcante da sua vida através de fotografias. Borges escreve a respeito: “De novo aguardaria no crepúsculo da abarrotada salinha (do casarão da Rua Garay, em que havia um ‘aleph’), de novo estudaria as circunstâncias de seus muitos retratos. Beatriz Viterbo, de perfil, em cores; Beatriz, com máscara, no carnaval de 1921; a primeira comunhão de Beatriz; Beatriz, no dia de seu casamento com Roberto Alessandra; Beatriz, pouco depois do divórcio, num almoço do Clube Hípico; Beatriz, em Quilmes, com Delia San Marco Porcel e Carlos Argentino; Beatriz, com o pequinês dado por Villegas Haedo; Beatriz, de frente e em três quartos de perfil, sorrindo, com a mão no queixo (...)”. Em suma, Beatriz, Beatriz e Beatriz...

A certa altura, Borges descreve aquela mulher tão entranhada no coração e na mente do narrador, assim como seu rival, o destinatário da sua afeição, da seguinte forma: “(...) Beatriz era alta, frágil, ligeiramente inclinada; havia em seu andar (se for tolerável o oxímoro) uma como que graciosa lentidão, um princípio de êxtase; Carlos Argentino é rosado, robusto, encanecido, de traços finos. Exerce não sei que cargo subalterno numa biblioteca ilegível dos subúrbios do Sul; é autoritário, mas também ineficiente; aproveitava, até há bem pouco, as noites e as festas para não sair de casa. A duas gerações de distância, o ‘esse’ italiano e a abundante gesticulação italiana sobrevivem nele. Sua atividade mental é contínua, apaixonada, versátil e completamente insignificante. Excede em imprestáveis analogias e em ociosos escrúpulos. Tem (como Beatriz) grandes e afiladas mãos formosas (...)”.   

Para mim, o ápice, o clímax, o ponto alto desse conto, cujo enredo central sequer é essa paixão sem a mais remota esperança que enfatizei, mas a existência ou não do “aleph” no porão do velho casarão da Rua Garay, é este trecho, quase escondido, do conto: “ (...) Junto ao vaso sem flor, no piano inútil, sorria (mais intemporal que anacrônico) o grande retrato de Beatriz, em pesadas cores. Ninguém nos podia ver; num desespero de ternura, aproximei-me do retrato e disse-lhe: – Beatriz, Beatriz Elena, Beatriz Elena Viterbo, Beatriz querida, Beatriz perdida para sempre, sou eu, sou Borges (...)”.

Para não deixar o leitor que não tenha lido o livro, e por consequência o conto a que me refiro, na mão, esclareço o que é o tal       “Aleph”. Para tanto, recorro aos préstimos do crítico literário Luís Duarte. “No estudo dos alfabetos vamos ver que o aleph ou alef, é a primeira letra de vários sistemas de escritas, como o alif do alfabeto árabe e o aleph do alfabeto fenício. O aleph fenício deu origem ao alpha grego, significando a consoante “a” . Do alpha veio o A latino e o A cirílico. A origem do nome aleph é o desenho de um touro, ou aluf em hebraico antigo. Normalmente simboliza o começo de algo. Não possui sonorização e é utilizada apenas para indicar uma vogal sem acompanhamento de uma consoante. Na crença da Cabala o Alef tem seu papel fundamental em toda a mística”. Para Borges, a palavra significa o ponto de onde é possível se ver todos os outros pontos do universo.

Como se vê, tudo nesse livro é fantástico, marcante, originalíssimo (e aqui cabe muito bem o superlativo, tão ao meu gosto de exagerado por natureza) e inesquecível: o conto que lhe dá título, “o ponto de onde é possível ver todos os outros pontos do universo”, a obsessão do narrador por um “fantasma” e, sobretudo, a personagem feminina que não participa do enredo, por haver morrido logo no primeiro parágrafo da história, mas que é onipresente, ou seja, Beatriz, Beatriz Elena, Beatriz Elena Viterbo.


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Saturday, November 28, 2015

Em termos de texto, é possível elaborar até mesmo uma alentada antologia, com trabalhos muito bons, tendo o clima por tema. Uma não, várias. Toda uma coleção, envolvendo escritores de todo o mundo. Isto se torna mais fácil ainda na poesia, onde a influência climática se faz sentir com maior intensidade, já que o gênero é quase todo ele sentimento, emoção, paixão. Há alguns exemplos nesse sentido. Como estes versos de Cecília Meirelles:

"E eis a névoa que chega, envolve as ruas,
 move a ilusão e figuras.
A névoa que se adensa e vai formando
nublados reinos de saudade e prantos".

Lindo poema, não é verdade? Como ele, há inúmeros, de poetas nacionais e estrangeiros.

Citaria, entre tantos que li e anotei, este outro, da mesma escritora, uma das minhas prediletas:

"No meio do mundo faz frio
faz frio no meio do mundo
muito frio.

Mandei armar o meu navio
volveremos ao mar profundo
meu navio.

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas
muito frio".

São versos melancólicos, envolventes, de intenso conteúdo emocional. São daqueles que nos dão inveja e dos quais gostaríamos de ser os autores.


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Carisma patológico


Pedro J. Bondaczuk


Os estudiosos de psicologia detectaram, num estudo divulgado em 1986, nos Estados Unidos, uma patologia que afeta determinados líderes carismáticos, do tipo do iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini, ou do todo poderoso ditador líbio, Muammar Khadafy, que denominaram de "Complexo de Hubris-Nêmesis".

As recentes atitudes do presidente afastado, Fernando Collor, com as manobras para adiar o seu julgamento por parte do Senado, parecem indicar que o político brasileiro sofre desse desvio comportamental, mais comum do que se pensa.

Afinal, mesmo sem teer nunca justificado sua eleição, com mais de 35 milhões de votos, apesar das provas que se acumulam contra ele de crime de responsabilidade e de todas as evidências de culpabilidade existentes, apega-se ao poder, como se este fosse um "direito divino" que lhe tenha sido concedido.

"Hubris" é a pretensão de alguém de ser igual aos deuses, embora o possuidor desse desvio não admita que o tenha e muitas vezes procure mostrar uma humildade que de fato não possui. Nêmesis, por seu turno, era a deusa mitológica da vingança. Quando os deuses no Olimpo se irritavam com algum mortal que estava excedendo o seu destino, ela podia interferir nos assuntos humanos para restaurar o equilíbrio. Opunha-se, portanto, à Hubris e podia ser devastadora quando um homem manifestava tal pretensão.

Nesta rara patologia, contudo, as duas forças, que em geral se contradizem, se tornam uma única. Tal fusão, conforme os estudiosos da matéria, produz uma impressionante quantidade de energia de ambição. Como é que o complexo governa o comportamento dos seus portadores?

Em intensidades variadas, eles precisam apresentar-se como verdadeiros messias que têm um destino especial no mundo, no sentido de revolucionar a história. Isto não lembra um determinado "caçador de marajás"?

Os líderes atacados pela Hubris-Nêmesis, na maioria das vezes, propõem projetos monumentais e mudanças sociais que parecem construtivas e benevolentes para seus próprios conterrâneos. Abraçam elevados ideais para racionalizar a violência. Aparentam pretender que as metas morais prevaleçam sobre as materiais em seus esquemas. Medram na alta retórica apoteótica, na habilidade de transferir a responsabilidade para outros, na política da polarização. Exigem uma lealdade absoluta e uma atenção constante. E quanto maior for o público, tanto melhor será.

Quem tem esse complexo jamais tolera a possibilidade de ser ignorado ou de permanecer em segundo plano. Concorre até mesmo com os rivais "amigos", mais do que coopera com eles. Considera o compromisso e a acomodação como fraquezas.

O portador da patologia se recusa a ser humilhado por aliados ou inimigos, embora simule humildade para platéias seletas. Tais líderes gostam do desafio das chances ínfimas, de ameaças e de obstáculos. Prosperam os confrontos apenas para confirmar sua invencibilidade. Não são suicidas no sentido comum, mas desafiam a morte.

Pode haver um perfil mais parecido com tudo o que se conhece do presidente afastado, Fernando Collor? Caso ainda falte alguma coisa, pode-se acrescentar uma última característica dos que têm Hubris-Nêmesis: em condições extremas, podem preferir o martírio para não terem de se render ou se humilhar!!!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de dezembro de 1992).


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A vingativa Emma Zunz

Pedro J. Bondaczuk

O escritor argentino Jorge Luís Borges destacou-se nas letras latino-americanas e mundiais principalmente como poeta e contista. Isso não quer dizer, todavia, que não tenha incursionado em outros gêneros. Foi, por exemplo, notável ensaísta. Publicou pelo menos dois livros que não é possível identificar com exatidão se são ficcionais ou não, no caso “História universal da infâmia” e “O livro dos seres imaginários”. Fez parceria com Adolfo Bioy Casares em seis outras publicações, entre as quais dois roteiros cinematográficos (“Los orilleros” e “El paraíso de los creyentes”) e quatro volumes de contos. Foi, como se vê, escritor eclético e, sobretudo, desses que convidam a nós, leitores, a participarmos de seu processo de criação.

Como contista, Borges criou personagens dos mais variados. E, claro, trouxe a lume muitas protagonistas femininas, e várias delas (diria todas), inesquecíveis. Tratarei, no entanto, especificamente, de cinco delas na sequência, iniciando, hoje, por Emma Zunz, do conto do mesmo nome inserido no livro “O Aleph” (lançado no Brasil, em 2008, pela Editora Companhia das Letras). Li essa obra em espanhol, por volta de 1967 (cuja primeira edição foi publicada na Argentina em 1949).

Aprendi muito com Borges sobre a arte de narrar uma boa história sem necessariamente estender-me na narrativa a ponto de redigir um romance. O conto é, ao lado da poesia, meu gênero favorito em Literatura. Por que? Pela disciplina que impõe (entre outras coisas), fazendo com que narre, em poucas páginas, o que muitos só conseguiriam fazer (se conseguirem) em centenas delas. Não digo que “imitei” ou que “imite” Borges, até porque não tenho competência para tal. Antes tivesse! Mas aprendi com ele certas técnicas que me têm sido de enorme utilidade. E elas tornam-me um contista se não excelente ou mesmo bom, pelo menos razoável (o que entendo que já seja de bom tamanho).

Emma Zunz é personagem complexa, totalmente movida por paixões, e por isso fascinante. Trata-se de uma jovem recatada (era virgem), tranqüila, mas que, após receber a notícia da morte do pai, se transforma por completo. Conclui, após ler uma carta anônima, que o suicídio daquela pessoa que tanto amava teve um culpado, que deu desfalque na empresa que trabalhava, mas cuja culpa recaiu no suicida. Emma decide, pois, fazer justiça (ou o que entendia como tal) com as próprias mãos. Urde um plano, que lhe exigiria sacrifícios além de muito sangue frio, para executar o homem que considera culpado pela morte do pai. A história é contada por outra pessoa, por um narrador distanciado que, aparentemente, pode relatar cada detalhe das ações e até das sensações de Emma.

A moça fora informada pelo próprio pai (que lhe jurou, antes que decidisse se suicidar) que o ladrão era Loewenthal. Este, portanto, passou a ser alvo de sua “justiça”, depois que ela recebeu a tal carta comunicando-lhe, anonimamente, a ocorrência do suicídio. A partir daí ela elabora seu plano de vingança que na sua cabeça era o de “justiça”. Para levar sua intenção a cabo, telefona para Loewenthal, seu atual patrão, e diz que irá ao escritório para lhe comunicar, em segredo, uma greve das funcionárias da empresa que estava em andamento. Seu plano era o de fazê-lo confessar o roubo, sob a mira da arma, executá-lo e depois alegar que agira em legítima defesa da honra, por ter “sido estuprada” pela vítima.

Para que o álibi fosse convincente, porém, teria que perder a virgindade. Emma sai, portanto, em busca de quem realize o que seria essencial para o êxito de seu plano, embora isso a repugnasse. Ou seja, precisava encontrar um homem que a desvirginasse. Vaga a esmo por alguns bares até que “opta” por um marinheiro sueco, embriagado ou semi. E este consuma o ato, que ela considera uma tortura e imenso sacrifício. Detesta a experiência, mas considera-a mais do que necessária: essencial para seu propósito. Borges sugere que ambos foram úteis um para o outro: “ela serviu para o prazer e ele para a justiça”. O plano de Emma, porém, não deu totalmente certo. Ela não esperou que Loewenthal confessasse seu delito sob a mira da arma (se é que confessaria). Movida por incontrolável ódio, atirou antes. Só quando o sangue já corria abundante, ela começou a acusá-lo. Mas a vítima morreu antes que a acusação terminasse. Dessa forma, Emma “nunca soube se ele chegou a compreender” porque estava sendo morto. Mas a segunda parte de seu plano deu certo. Para a sociedade, ela acusou Loewenthal de estupro, e assim justificou tê-lo assassinado.

Borges não faz qualquer juízo de valor sobre o ocorrido. Deixa todo e qualquer julgamento exclusivamente por conta do leitor. Para ele, esse personagem anônimo, mas essencial para todo e qualquer escritor, é sempre “co-autor” de tudo o que escrevemos. Cada qual interpreta nossos textos à sua maneira, conforme sua cultura, suas experiências, seu temperamento etc. É o que Borges deixa implícito, por exemplo, no prólogo do livro “História universal da infâmia”, ao afirmar, a certa altura: “Ler, além do mais, é uma atividade posterior à de escrever, é mais resignada, mais atenciosa, mais intelectual”. E não é? Creio que o leitor atento há de concordar que Emma Zunz é personagem feminina absolutamente inesquecível, tanto por seus equívocos, quanto por sua paixão e sua ânsia por vingança, que entendia como sendo “justiça”, com o sacrifício de gostos e de princípios que para ela eram sagrados..


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Friday, November 27, 2015

A chuva e o frio acentuam a melancolia nas pessoas e ressaltam a solidão dos solitários, a angústia dos depressivos e a carência afetiva dos despojados de afeto. Aliás, o homem é um ser "meteorológico". O clima influi decisivamente em suas emoções e, por conseqüência, na sua forma de reagir aos estímulos externos. O calor, por exemplo, acentua a violência. Tanto que as estatísticas demonstram que a criminalidade aumenta muito no verão. Já no inverno, o que cresce é o número de suicídios. Em ambos os casos, é a vida que acaba por ser agredida. No entanto ela é tão preciosa e bela! Essa influência climática para um artista, seja de que arte for, contudo, costuma ser benéfica. Engendra obras que se tornam imortais. Há pinturas notáveis, de grandes mestres, mostrando a fúria das tempestades, ou campos nevados, ou, como Paul Gauguin, a luminosidade dos mares do Sul nas ilhas do Taiti que brotaram de seu pincel encantado. No meu caso, funciono geralmente melhor na época do calor, quando fico descontraído e sem inibição. Daí expor-me com mais facilidade, sem muito receio ou escrúpulos, nessa ocasião. Conforme ressaltei recentemente em uma crônica, o verdadeiro escritor é aquele que se expõe por completo. Mas o faz com sinceridade e clareza. Com amor pelo próximo e grandeza.


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

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