Saturday, June 30, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Robert Louis Stevenson sugere a maneira mais sensata de viver. Observa: “Todos podem executar seu trabalho, por difícil que seja, por um dia. Todos podem viver com doçura, paciência, ternura e pureza até que o sol se ponha. E isso é tudo o que a vida realmente significa”. Dando um passo de cada vez, buscando executar as pequenas coisas com o máximo de empenho para atingir a perfeição em tarefas aparentemente inexpressivas e corriqueiras, tornaremos nossos dias, cada um deles, todos eles, agradáveis. Não precisaremos ficar recordando o passado. O presente nos bastará. Não teremos tempo para projetar um futuro que sequer sabemos se vamos ter. O aqui e agora serão suficientes. E da soma de todos esses dias calmos, aparentemente sem brilho, sem dramaticidade, sem euforias e sem heroísmos, construiremos nossa biografia. Fabricaremos o sucesso ou, quiçá, a felicidade. Simples, não é verdade?

Interrogação


Pedro J. Bondaczuk

Busca incessante, implacável da verdade.
Súplica, desesperada, de explicações à noite
--- insólita e singular girafa negra,
estranha, volumosa, mas muda –
tentativa (inútil) de devassar o futuro,
garimpo do incógnito diamante do amanhã.

Interrogações ao fluido, onipresente vento,
que ora sussurra, ora ruge balelas
e, soturnamente, balança, bate janelas
na absoluta, espectral escuridão noturna.

--- Onde a verdade? O que é a verdade? –,
Indaga-se, com insistência e com afã.
--- Onde as respostas? De responder quem há de?
Haverá, ainda, algum fortuito amanhã?

Tateando, às cegas, bailando, caindo, levantando
e avançando, passo a passo, aos tropeções
no atroz desespero que tanta treva enseja,
entre dúvidas multiplicadas e tantas indagações,
vislumbra-se uma réstia, tênue nesga de luz.

A Terra gira, inconsciente, no espaço infinito.
Noites se sucedem, exponencialmente,
hojes e mais hojes fazem-se ontens,
amanhãs e mais amanhãs tornam-se hojes,
segundos, minutos, horas, dias não se detêm.

Mudanças... Foi o tempo, afinal, que mudou,
ou fui eu que, repelente, porém frágil, larva,
em improvável, anormal metamorfose,
inversa à das mariposas e borboletas,
me transformei, de um belo e inocente menino
(que às vezes até conseguia ser feliz)
neste poeta, consciente, sensível, maduro,
sábio, é verdade, mas um poço de amarguras?

--- Onde a verdade, implacável esfinge? –
indago, com insistência e com afã.
--- Onde as respostas? De responder-me quem há de? –
--- Haverá, ainda, algum fortuito amanhã?
Como administrar tanta e tão intensa saudade?

(Poema composto em Campinas, em 12 de dezembro de 1965).

Friday, June 29, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O conceito de sucesso é bastante subjetivo e pode ter uma conotação específica para cada um de nós, dependendo da nossa personalidade, visão de vida e expectativas. O dinheiro, por exemplo, é um parâmetro para a maioria. A pessoa simples, que passa por privações e que sequer é levada em conta, como se fosse mera sombra ou até menos, por não possuir bens, tem como meta, evidentemente, o ter, não o ser. Não se entra aqui no mérito se essa ambição é válida ou não, se traz ou não felicidade. Mas, para um monge tibetano, por exemplo, ou para um ermitão do Oriente Médio, ou para qualquer outro indivíduo que se despoje de aspirações materiais, a acumulação de objetos, seja qual for o seu valor intrínseco, ou sua natureza, ou sua escassez, pouco ou nada significa. Para tais pessoas, juntar coisas não representa ser bem-sucedido. Provavelmente, significa o contrário. Para elas, o que conta é o auto-conhecimento, a iluminação espiritual, a contemplação da natureza etc.

Do proibido ao obrigatório


Pedro J. Bondaczuk


“Transar ou não transar” é o dilema que se impõe, há já algum tempo, a pessoas com idades cada vez menores, pelo mundo globalizado afora. Em raras ocasiões, os apelos ao sexo foram tão intensos, tão disseminados e tão intermitentes como são agora. São uma constante, quer nos meios de comunicação, quer nas artes (sobretudo na literatura), quer na publicidade ou mesmo nas conversações, mesmo as mais triviais, no dia a dia. E isso é mau? Não, necessariamente! Depende de uma série de fatores. Ponderemos.
O sexo tornou-se, subitamente, mais do que necessidade animal, uma obsessão. E isso, a despeito da epidemia de Aids que, embora sob relativo controle, segue afetando enormes contingentes de pessoas em todos os continentes, em especial na África, e matando muita gente, ainda. Tempos atrás, não tão distantes assim, era assunto tabu, principalmente para crianças e adolescentes. Hoje, é tema mais do que corriqueiro e recorrente. É constante, obsessivo, onipresente. Descambou-se, portanto, de um exagero a outro.
Não faz muito, quando o menino e/ou a menina chegavam à idade da descoberta do próprio corpo, os pais ficavam cheios de dedos para explicarem, de forma clara, didática e racional, a realidade do sexo, em linguagem que fosse adequada à sua compreensão. Na verdade, os jovens aprendiam, a esse respeito, não no lar, mas com os colegas, em especial, os mais velhos. Hoje... O tema é ensinado, é verdade, nas escolas (com o que concordo plenamente). Mas há algo que está fugindo ao controle dos educadores: a transmissão, às crianças, não apenas das funções, mas dos limites, da ocasião e das condições da sua prática.
A iniciação sexual, hoje em dia, é cada vez mais prematura. Até meados do século passado, começava, quase sempre, por volta dos catorze anos, quer para rapazes, quer para moças (estas, porém, não raro, tinham a sua primeira experiência apenas depois de casadas, por volta dos vinte e um anos). Hoje, meninas de dez anos (ou menos) já mantiveram várias relações. Algumas, até mesmo, chegam a engravidar, o que, convenhamos, é enorme aberração. E os garotos começam a fazer sexo por volta dos doze anos, quando não têm, evidentemente, ainda, a mínima maturidade para isso. As conseqüências, claro, não são das melhores, para não dizer desastrosas. Nem poderiam ser, óbvio.
Passou-se, reitero, de um extremo ao outro, do “proibido” ao “obrigatório” (ou quase). Por exemplo, isto se verifica, de forma mais evidente, na questão da virgindade. Até a década de 60 do século passado, a moça tinha que se manter virgem até o dia do casamento. Tratava-se de condição sine qua non para ser considerada “séria”. Era consenso entre os rapazes que a mulher que fazia sexo antes de casar não se prestava a ser mãe de família. Fazia-se clara distinção entre as que se prestavam apenas a transas e as casadoiras.
Hoje, não se distingue mais uma da outra. A virgindade é encarada (por ambos os sexos) como anomalia. É tratada, quase, como se fosse uma doença, uma aberração, um grave defeito ou, no mínimo, uma inaptidão da virgem de despertar desejo sexual no namorado. Como se nota, descambou-se, reitero mais uma vez, de um exagero a outro, talvez pior. Não nego (não seria maluco para tanto) o valor e a importância do sexo, como função básica, instintiva e natural de todo e qualquer ser vivo. Daí condenar sua banalização, não por razões morais ou religiosas, mas, sobretudo, por motivos práticos.
As coisas, nesse sentido, começaram a mudar, de fato, de maneira generalizada, a partir dos anos 50 do século passado, com a popularização da pílula anticoncepcional, que libertou a mulher dos riscos de uma gravidez indesejada. Com isso, ela sentiu-se liberada para buscar a plena satisfação sexual, a exemplo do que o homem sempre buscou, sem nenhum tipo de repressão ou de tabu. Isso é bom? É ruim? Depende.
Cabe, claro, a cada pessoa – afinal somos todos dotados do livre-arbítrio –, independente do sexo, decidir sobre o que fazer com o seu corpo, e com quem. Mas, antes, precisa estar plenamente consciente das conseqüências dessa sua decisão (como, aliás, ocorre em tudo o que se faz na vida). Sexo é bom, é saudável e é imprescindível à sobrevivência da espécie, todos sabem disso. Mas é melhor, muito melhor se for manifestação máxima de amor e não mero ato mecânico e impessoal, simples descarga de tensões, não é mesmo?

Thursday, June 28, 2007

TOQUE DE LETRA







Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo e sites da FIFA e da Associação Atlética Ponte Preta)

TROPEÇO FORA DE CASA

A Ponte Preta sofreu, terça-feira, seu segundo tropeço no Campeonato Brasileiro da Série B, e de novo fora de casa, desta vez diante do bom time do Marília, quando perdeu por 3 a 2. O ponto frágil da equipe foi a defesa, mais especificamente a zaga reserva, composta por Zacarias e João Paulo, que entrou numa baita fogueira, ao ter que substituir os titulares da posição, Anderson e Emerson, que não puderam jogar em decorrência de uma forte gripe. Não foi uma boa atuação pontepretana, convenhamos, embora não tenha faltado disposição e nem espírito de luta à equipe. Com a ausência de Heverton (a principal estrela do time), o meio de campo não reeditou a boa atuação que teve notadamente contra o Santo André. Marcinho viu-se sobrecarregado e, ademais, errou muitos passes. Os alas, Júlio César e Andrezinho, não desceram com eficiência e, assim, Roger e Wanderley tiveram que lutar sozinhos com a boa zaga do Marília. Ainda assim, o ataque manteve a sua boa média de gols. Não fossem as falhas defensivas, a equipe poderia ter voltado de Marília com pelo menos um ponto ou, até mesmo, com os três. Não deu. Fabiano Gadelha foi o fator de desequilíbrio, a favor do adversário, deitando e rolando sobre a fraca zaga pontepretana. Mas a derrota tem que ser encarada como normal. Ao contrário do que muitos cronistas afirmaram, não foi vexatória e nem preocupante. Claro que perder sempre é ruim. Mas a Ponte mostrou garra, vontade e um bom sentido de recuperação. E isso, claro, é muito bom.

WANDERLEY FIRMA-SE COMO TITULAR

O jovem atacante pontepretano Wanderley reeditou, terça-feira, em Marília, as excelentes atuações que havia tido contra o Santo André e o Ituano e acabou, finalmente, premiado com um gol de bela feitura, que vinha perseguindo há já um bom tempo. Aos poucos, o garoto mostra que tem muita bola e que estão certos os que apostam na sua evolução técnica e na sua consolidação como grata realidade e não mais como mera promessa (entre os quais me incluo). Méritos, sobretudo, para a comissão técnica, especialmente para o treinador Nelsinho Baptista e seu auxiliar Evair, que confiaram no jovem matador e lhe deram moral. E este vem correspondendo. Posso estar enganado, mas vejo, em Wanderley, potencial maior do que via no Luís Fabiano em início de carreira. E nem é preciso dizer da evolução e consolidação do ex-matador pontepretano que hoje brilha no futebol espanhol e que, no domingo passado, levou o modesto Sevilha à conquista da Copa do Rei. Todavia, no início de carreira, ele era alvo de críticas e de descontentamento da torcida, a exemplo do que ocorre com Wanderley atualmente. Só espero que o garoto continue fazendo jus à confiança da comissão técnica e que, finalmente, decole para o sucesso. Vai decolar.

ESTRÉIA COM PÉ DIREITO

O estreante da noite, terça-feira, em Marília, na derrota da Ponte Preta para o MAC, por 3 a 2, o meia-atacante Leo Mineiro, agradou em cheio tanto à comissão técnica, quanto à crônica esportiva e, principalmente à torcida. Além da velocidade, sua principal característica, o jogador mostrou muita voluntariedade e apurada técnica, dando nova vida ao ataque pontepretano, num momento crítico da partida. Trata-se, pois, de mais uma excelente opção no plantel da Macaca, para a sua empreitada de voltar à elite do futebol brasileiro. Outra característica positiva de Leo Mineiro são os chutes a gol, fortes e com direção. Arrisco-me a dizer que, com mais um ou dois jogos, o meia vai conquistar a camisa titular e ser um dos destaques da Ponte Preta no Campeonato Brasileiro. Só não sei se no lugar de Roger ou de Wanderley. Será no de quem vacilar.

SORTE A FAVOR

Um time, para ser vencedor, além da indispensável capacidade técnica, tem que contar com o fator sorte. E esta parece rondar o Moisés Lucarelli. Tomara que se instale por lá em definitivo e permaneça pelo menos até o final do ano, para que a Ponte Preta retorne ao patamar de onde nunca deveria ter saído: a elite do futebol brasileiro. No espaço de duas semanas, foram disputadas duas rodadas completas do Campeonato Brasileiro e a Macaca, que só voltaria a jogar nesta terça-feira, corria o risco de despencar na tabela. Não despencou. Dos sete times que poderiam ultrapassar a alvinegra campineira, cinco tropeçaram. É muita sorte! E a Ponte, assim, perdeu, apenas, duas posições. Claro que a colocação da equipe, a esta altura, quando há, ainda, trinta jogos a serem disputados, não tem lá tanta importância prática. Mas dá moral ao time, traz otimismo à torcida e cria um clima favorável que, se bem aproveitado, pode ser mais um fator de sucesso. Se Deus quiser, será!

RETORNO APENAS DISCRETO

O atacante Roger teve uma atuação apenas discreta, no jogo de terça-feira, quando a Ponte Preta perdeu para o Marília, por 3 a 2. Entre outras coisas, bateu muito mal o pênalti sofrido por Wanderley, embora tivesse sorte e saísse o gol da Macaca no rebote, graças à eficiência do Alê. Quem deveria ter cobrado a penalidade era o Marcinho, ou o Júlio César, ou o Andrezinho. Ainda bem que seu erro não trouxe prejuízos ao time. Debito essa apresentação, de regular para ruim, do atacante, à falta de ritmo de jogo. E isso, sem dúvida, conta muito. Afinal, o atleta teve que cumprir as quatro partidas de suspensão impostas pelo TJD, por sua infeliz expulsão diante do Gama, na estréia da equipe no Campeonato Brasileiro. Todavia, de lá para cá, a situação mudou. A Ponte Preta buscou alternativas para a posição e Roger deixou de ser unanimidade entre a torcida (e provavelmente, também entre a comissão técnica) para comandar o ataque. Terá, doravante, como “sombras”, três excelentes atacantes, com características diferentes das suas: Michel, Alex Terra e Leo Mineiro. Precisará, portanto, jogar muito (ou pelo menos bem mais do que jogou contra o Marília) para permanecer como titular. Espero que o desafio sirva como fator de motivação, e não como causa de desânimo, para o jovem, mas já experiente, atacante.

MÁ ESTRÉIA DA SELEÇÃO

É verdade que o México não jogou para tanto, mas a Seleção Brasileira estreou, ontem, com o pé esquerdo na Copa América, que se disputa na Venezuela. A derrota, por 2 a 0, foi fruto, sobretudo, de dois erros crassos da defesa, embora o primeiro gol tenha saído de uma jogada de alta qualidade técnica do atacante mexicano Castillo. O adversário jogou retrancado, explorando os contra-ataques. E o Brasil caiu nessa. O selecionado mexicano marcou muito bem, é verdade, mas a sorte também não ajudou os comandados de Dunga. No segundo tempo, por exemplo, a Seleção criou pelo menos quatro oportunidades claras de gol, inclusive uma em que a bola chutada por Robinho caprichosamente bateu no travessão e saiu. A arbitragem prejudicou nossa equipe, anulando um gol brasileiro legítimo e deixando de marcar um pênalti sobre Afonso que só o árbitro argentino (tinha que ser!) não viu. E ainda o homem do apito teve a suprema cara de pau de mostrar cartão amarelo para o atacante, sob a alegação de que ele havia se jogado na área. Doni falhou no segundo gol, de falta, armando mal a barreira e pulando atrasado na bola. E os dois volantes, Gilberto Silva e Mineiro, sequer apareceram para jogar. Estiveram sumidos no campo. Só espero que a Seleção se recupere desse tropeço, na seqüência da Copa e feche a boca da nossa pífia crônica esportiva, que já considera a Argentina como campeã antecipada da competição, com um pé nas costas, antes mesmo, sequer, da sua estréia. Êta cambada de cassandras de mau-agouro!

RESPINGOS...

· Depois de amanhã, teremos um dos maiores clássicos do futebol brasileiro: Palmeiras x Corinthians. Quem perder vai ficar em maus lençóis com a respectiva torcida.
· Bastou o São Paulo ter derrotado o Santos, domingo passado, na Vila Belmiro, por 2 a 0, para que parcela da imprensa apontasse o tricolor como candidato ao título do Campeonato Brasileiro deste ano. Calma, pessoal, muita água ainda vai rolar até o fim da competição.
· Quem deu a volta por cima foi o Cruzeiro que, domingo, derrotou o seu maior rival, o Atlético Mineiro, no Mineirão, por 4 a 2. Dorival Junior começa a pôr ordem na Toca da Raposa. Esse conhece!
· O Botafogo está numa fase tão boa, que mesmo sem jogar, na rodada passada, conservou a liderança isolada do Campeonato Brasileiro. Olho no time da estrela solitária!
· Quem continua fazendo uma campanha surpreendente (de novo), é o Paraná, mesmo trocando de técnico. No ano passado, atribuíram o sucesso do time ao treinador, Caio Junior, que vem se dando mal no Palmeiras. E neste, qual é a desculpa?

· E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


A corrida desesperada e insensata por bens materiais – que se convencionou chamar de “riqueza” – ou pelo “poder”, que nada pode, já que é incapaz de nos livrar da morte, não resiste à mais simples das análises. Trata-se de enorme perda de tempo e de energia. Desvia-nos do nosso verdadeiro papel na vida: o de agentes da preservação e da evolução da espécie. Nada, portanto, é mais ilógico e irracional do que o egoísmo. Nada é mais sem sentido do que ajuntar bens, que no final das contas não nos pertencem de fato, mas sobre os quais temos somente posse transitória. O homem depende de forças cósmicas descomunais para viver. O indivíduo somente consegue sua plena realização quando age no sentido de promover a evolução da espécie. Tudo o mais que fuja disso, é mero desperdício de tempo, senão de vida.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

VIII-REVOLUÇÃO DO AMOR

Albert Camus, aparentemente um pessimista, a julgar pelos livros que deixou, afirmou que "há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar". Outro escritor, o norte-americano Loren Eiseley, vai mais longe na avaliação da espécie, de tamanha fragilidade face o universo e, no entanto, de incomparável grandeza quando exercita a razão (seu distintivo e diferencial em relação aos demais seres vivos).

Acentua: "O homem sempre pertence em parte ao futuro, tem o poder de se transportar para além da natureza que conhece. Há muito tempo, criaturas armadas de paus e meras pedras começaram uma jornada que conduz a nós mesmos. Se não houvesse entre elas uma pequenina parcela de honra e amor, pequena, muito pequena, talvez não poderíamos estar aqui agora. Temos que recolher novamente essa pequenina parcela, em vez do nosso terrível equivalente das pedras e esforçar-nos por seguir adiante".

O amor, a compreensão e a solidariedade são outros fragmentos da minha utopia, a mesma de São Francisco de Assis, de Madre Teresa, de Irmã Dulce e de tantas outras pessoas e entidades, famosas ou anônimas, que lutam para proteger a espécie mais ameaçada de extinção de todas do Planeta: a do homem.

A vertiginosa reprodução humana, mormente no século 20, é aberrante e antinatural. Em qualquer organismo vivo, essa multiplicação desordenada seria diagnosticada como um câncer. Talvez "Gaia" já tenha esse "tumor maligno" a corroê-la e em processo de metástase.

Em vários períodos da história, povos perderam o "freio" que mantém as comunidades ordenadas e sadias, chamado "moral" e pagaram altíssimo (diria intolerável) preço por isso. Foi o caso dos romanos, por exemplo, quando da invasão dos bárbaros. É o que vem acontecendo agora, com as insensatas tentativas de dissolução de uma das mais antigas e eficientes instituições humanas, a família, sem que nada de melhor seja criado.

Isso resulta numa irresponsável liberação de instintos cegos – principalmente por uma maioria despreparada para a vida –, aqueles mesmos, citados por Eiseley, como os "equivalentes das pedras". Essa perda de autocontrole faz com que a humanidade tenha, como contraponto da evolução tecnológica, um perigosíssimo retrocesso ético. Surge, em nosso século, uma "subespécie" humana, faminta, miserável, obscura e selvagem. É o anticlímax da evolução. A preservação da moral, de maneira espontânea e consentida, mediante um processo de conscientização geral, é outro fragmento da nossa utopia.

É preciso que valores duramente conquistados ao longo de milênios – como respeito, lealdade, honra, fidelidade, amor e solidariedade, entre outros – sejam resgatados e ampliados e não se transformem, como hoje, em simples palavras, despidas de conteúdo, despojadas de significado.

Roger William Riis lembra que "somente nós, entre as coisas vivas, descobrimos a Beleza, a amamos e criamo-la para os nossos olhos e para os nossos ouvidos. Somente nós, entre as coisas vivas, temos o dom de contemplar o ambiente que nos cerca e criticá-lo e torná-lo melhor".

Nessa mesma linha, o autor teatral Thornton Wilder, na peça "Our Town" (Nossa Cidade), coloca na boca de um personagem: "Oh, Terra, és maravilhosa demais para que alguém te perceba. Acaso os seres humanos têm consciência da vida enquanto vivem? Da vida em todos os seus minutos?". O ideal de beleza, de cultura, de harmonia e de inteligência plena complementa a minha utopia. Ela, contudo, é coroada mediante a defesa intransigente da vida, de cada vida, de toda a vida, animal ou vegetal, racional ou irracional.

Loren Eiseley nos lembra que "em nosso mundo, mesmo uma aranha se recusa a deitar-se e morrer, se um fio ainda pode ser tecido em direção a uma estrela". Essa utopia, mal-esboçada, incompleta, inacabada, a soma de todas as magníficas utopias que já foram urdidas e que ainda o serão, tem tudo para deixar o plano do ideal, das elucubrações e fantasias e tornar-se concreta. Basta que queiramos. Basta que ajamos nesse sentido. Basta que não nos conformemos jamais com a decadência da civilização nem jamais admitamos a robotização do homem.

Eclesiastes, o pregador, nos ensinou: "Tudo tem a sua hora, cada empreendimento tem o seu tempo debaixo do céu: tempo para nascer, tempo para morrer; tempo para plantar, tempo para colher; tempo para matar, tempo para curar; tempo para destruir, tempo para edificar; tempo para chorar, tempo para sorrir; tempo para lamentar, tempo para dançar; tempo para espalhar pedras, tempo para ajuntar pedras; tempo para abraçar, tempo para abster-se de abraços; tempo para procurar, tempo para perder; tempo para guardar, tempo para jogar fora; tempo para rasgar, tempo para coser; tempo para falar, tempo para calar; tempo para amar, tempo para odiar; tempo para a guerra e tempo para a paz".

O tempo agora é para agir. Para cada um fazer a sua parcela, cumprir seu papel, dizer a que veio para esta magnífica e fascinante experiência de existir. Exerçamos, pois, até a plenitude esse potencial de racionalidade que possuímos e que nos confere a imagem e a semelhança com o criador do Universo. Sejamos os "anjos da guarda" de Gaia, jamais o seu "Satã".

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação, sujeito a revisão)

Wednesday, June 27, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Há uma característica, passiva de cultivo, que permitiu que o “homo sapiens” deixasse as cavernas, aprendesse a domar a natureza em seu favor (criando a agricultura, por exemplo), adquirisse noção do local em que vive, se aventurasse a entender e explicar a imensidão do cosmos, com sua multiplicidade de mundos e tentasse ampliar seu raio de ação: a razão. Dela derivaram a ética, as ciências, o senso estético e o direito, entre outros. Este foi o seu grande salto qualitativo, enquanto espécie, em relação aos demais animais. É o que merece ser cultivado e transmitido, geração após geração, numa corrente contínua e sem fim, da qual cada um de nós, enquanto indivíduos, não somos mais do que simples elos.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

VII-UTOPIA E GAIA

A Terra é, conforme asseguram notáveis cientistas, um superorganismo vivo, com todas as funções vitais bem caracterizadas, que eles denominam de "Gaia". Tudo o que ela contém – animais, vegetais e minerais – seriam simplesmente componentes desse magnífico super-ser, de extraordinária beleza quando contemplado do espaço. A teoria, se atentarmos bem, não é tão disparatada quanto possa parecer em um primeiro momento. Nós, humanos, nesse gigantesco corpo, não passaríamos de células, (possivelmente neurônios do cérebro dessa criatura).

Contudo, por nossa ação, o processo de envelhecimento de "Gaia" vem sendo acelerado e ela já está ameaçada de colapso, possivelmente iminente. O desaparecimento de espécies, o desmatamento crescente e o aumento intolerável da poluição do ar e das águas põem em risco a saúde do Planeta. Caso não se atue no sentido da preservação do ambiente natural, a Terra, como qualquer animal, poder vir a "morrer", num futuro não muito distante, ficando "fossilizada", estéril e vazia, desolada e deserta em nosso Sistema Solar.

Comentando essa depredação ambiental – insensata, criminosa (seria, no caso, suicida) e acelerada –, Leonardo Boff conclui, no ensaio "Desafios Ecológicos do Fim de Milênio", publicado no caderno "Mais!" do jornal "Folha de S. Paulo", em 12 de maio de 1996: "Nós, seres humanos, podemos ser o Satã da Terra, como podemos ser seu anjo da guarda bom".

No primeiro caso, estaremos, junto com a morte de "Gaia", decretando a extinção da nossa própria espécie (e de todas as demais). No segundo, rejuvenesceremos este magnífico organismo, ele sim com possibilidades de uma vida "quase" eterna (pelo menos enquanto durar nosso Sol, cuja falência é estimada em mais quatro bilhões de anos), garantindo a existência, saudável e segura, de milhares de gerações.

Seria o homem capaz de compreender essa relação profundíssima que tem com a Terra e mudar, em curto espaço de tempo, seu comportamento infeliz, destrutivo e absurdo? Para que isso seja possível, é necessário educar os jovens, incutindo neles a mentalidade preservacionista, não como modismo ou bandeira "ideológica", mas como ação. A educação integral das novas gerações é parte da nossa utopia. A dúvida é: haverá tempo para isso?

Ainda é possível reverter os sintomas de desgaste, de envelhecimento de "Gaia", que podem evoluir rapidamente para uma "doença" de caráter irreversível, que a leve em pouco tempo à morte? Sim! O ser humano pode qualquer coisa, desde que tenha vontade.

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação e sujeito a revisão).

Tuesday, June 26, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O valor do ser humano não está em sua força, em sua riqueza, em seu limitado e ridículo poder ou na eventual beleza física que possua, embora sejam estas as suas características mais enfatizadas. Tudo isso é ilusório, passageiro, efêmero, como ele próprio o é. O que somos, enquanto indivíduos, diante da imensidão universal? Um nada, de ínfimo tamanho, menos, até, do que uma simples célula é em relação ao conjunto do nosso organismo. Diante da grandeza do universo, impossível sequer de se dimensionar, o homem, este poço de arrogância e de inconseqüência, que sequer se dá conta da sua finitude, é tão ínfimo, que é como se nem ao menos existisse. E, no entanto, é cheio de empáfia e de orgulho, como se contasse com ilimitado poder. Claro que não conta. O ser humano apenas adquire grandeza quando empresta à sua vida um sentido altruísta, comunitário, de solidariedade e de integração. É isto ou a mediocridade e o esquecimento.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

VII-A IDADE DE OURO

Desde a invenção da escrita, milhares de textos foram deixados à posteridade, sobre uma suposta e desejável "Idade de Ouro", quando os homens teriam vivido em inocência, o vício da cupidez ainda não havia criado as odiosas divisões de classe e a humanidade seria harmoniosa e feliz. Provavelmente, os autores, das mais diversas épocas, lugares e costumes, expressaram somente o seu ideal, a utopia das utopias.

A partir da Renascença, com o advento da era das grandes navegações, circularam lendas a propósito da existência de um lugar de plena felicidade. Seria uma ilha, perdida em vastidões oceânicas e isolada do mundo, para evitar o contágio das pseudocivilizações existentes, mormente as européias e asiáticas. Foi à procura desse hipotético paraíso que Cristóvão Colombo aportou na América, julgando estar na Ásia, próximo à procurada "ilha das especiarias".

O espanhol Cabeza de Vaca situou esse edênico local no coração da América do Sul, nos altiplanos andinos, provavelmente nos arredores do Lago Titicaca, no Peru ou no centro da Colômbia. Fernão de Magalhães circunavegou o Planeta e julgou ter descoberto a "ilha de ouro" nas Filipinas, onde morreu em combate com os nativos locais. Mungo Park e Richard Burton entenderam que esse paraíso existisse no interior da África e empreenderam, em vão, exaustiva jornada por vastas extensões desse continente, que lhes exauriu a saúde e abreviou a vida. Vitus Behring procurou esse lendário lugar no Extremo Norte da Terra, sem encontrá-lo. Encontrou foi a morte, mas descobriu a passagem entre a Ásia e a América.

Essa "ilha de ouro" não existe. Ainda está por ser construída por pessoas de larga visão e de boa vontade. Sua localização não vai estar em algum minúsculo pedaço de terra do Pacífico Sul, do Atlântico Norte ou de qualquer outro dos mares da Terra. Será neste próprio e bizarro planeta azul, em sua totalidade, assim que seus habitantes reciclarem suas prioridades e se derem conta da estupidez de acumular bugigangas, como fazem desde que tiveram o primeiro lampejo de consciência.

Embora seja óbvio que deste mundo não levamos coisa alguma, tão logo a morte – fatalidade biológica que atinge indistintamente o humilde e o poderoso, o sábio e o néscio, o rico e o miserável – nivele a todos, mas ao contrário deixamos atos e fatos e gestos de amor, o ideal das últimas gerações tem sido apenas o de juntar coisas, em geral inúteis.

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação e sujeito a revisão).

Monday, June 25, 2007

REFLEXÃO DO DIA


As pessoas que esperam que os outros resolvam os seus problemas, sem sequer tentar melhorar, com os próprios recursos, a sua situação, são vulneráveis à influência de falsos líderes, de profetas de polichinelo, de caricatos e risíveis “gurus”, que quanto mais estapafúrdios se mostram, mais ingênuos seguidores conseguem arrebanhar. Tais indivíduos, porém, são dignos de piedade e atenção e não de reprimendas. Constituem-se em vítimas indefesas de malucos triunfalistas, de celerados oportunistas e de megalomaníacos que se julgam divindades. São o lado frágil da espécie humana que precisa ser protegido.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

V-UTOPIA DA GLOBALIZAÇÃO

Desde 1989, data tomada como marco do fim da Guerra Fria, com a derrubada do Muro de Berlim e que antecipou a dissolução da União Soviética, dois anos depois, vem se propalando uma tal de "globalização", que seria uma espécie de Éden econômico. Apregoa-se uma nova era, que, no entanto, ainda não mostrou sua cara. O "mercado" é deificado e em seu nome são praticados determinados atos que, em vez de diminuir, ampliam o profundo fosso existente entre os homens. De um lado, uma minoria dispersiva, que desperdiça recursos e depreda o Planeta e que tudo tem e tudo pode. De outro, dois terços da humanidade nos limites entre a pobreza e a indigência, o que é inconcebível. A "globalização" é a nova utopia da classe política. Mas não é a minha.

Carlos Gabaglia Penna, diretor do Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, no artigo "A Sagração Econômica", publicado, no dia 12 de abril, no Jornal do Brasil, informa: "A produção mundial de bens e serviços ultrapassou US$ 23 trilhões em 1997. De 1987 a 1995, a economia global expandiu-se em US$ 3,8 trilhões, igual ao total da produção de 1950. Apesar do crescimento demográfico, a renda per capita mundial passou de US$ 1.500 anuais em 1950, para US$ 3.600 em 1995. Desde 1900, enquanto a população do Planeta triplicava, a economia aumentava 20 vezes, o consumo de combustíveis fósseis multiplicava-se por 30 e a produção de bens por 50. Cerca de 80% desse crescimento vertiginoso ocorreu após 1950. São números econômicos que confirmam o inexorável caminho da civilização industrial para o paraíso. Serão mesmo?"

E Gabaglia acrescenta: "Em 1960, os 20% mais ricos do mundo tinham uma renda 30 vezes maior do que os 20% mais pobres. Em 1980, essa relação já era de 45 vezes e, em 1991, a concentração de renda alcançava a proporção de 61 para 1. Os 60 homens mais ricos do Globo têm mais riqueza do que a África inteira e boa parte da Ásia juntas".

E o articulista conclui: "Com toda a riqueza material, sem paralelo na história humana, as crescentes mazelas sociais estão aí para quem quiser ver: drogas, alcoolismo, crime organizado, violência urbana, alienação social. Os suicídios aumentaram muito nos países ricos. O número de refugiados políticos e ambientais é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Países como o nosso apresentam ainda elevadas taxas de favelização, baixa escolaridade, mão-de-obra infantil e trabalho escravo". Decididamente, a "globalização" que aí está, não é, e nem pode ser, a minha utopia.

Como aceitar que, em um mundo globalizado, mais de um bilhão de pessoas passem fome, quando a natureza tem sido generosa e safras recordes se sucedam de ano para ano? Como conceber uma pretensa Nova Era na qual 850 milhões de pessoas ao redor do mundo estejam desempregadas ou subempregadas, fazendo bicos para sobreviver? Como se ousa insinuar o novo Éden, quando há vinte milhões de nossos irmãos vivendo em acampamentos de refugiados, vítimas das várias guerras civis nos quatro quadrantes do Planeta? Onde mais de 100 milhões de "homeless" fazem das ruas, de vãos de pontes e viadutos, seus lares, vegetando, em situação muito mais precária do que os ancestrais das cavernas, pois nem estas possuem para se abrigar? Onde crianças de oito a onze anos trocam canetas e cadernos por fuzis e metralhadoras, nas várias guerras étnicas na África e na Ásia? Não. Esta não pode ser, e nem é, a minha utopia.

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação, sujeito a revisão).

Sunday, June 24, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Ser útil a alguém é muito mais simples do que pode parecer. E mais gratificante. Confere, a quem se dispõe a sê-lo, uma dimensão de grandeza, impossível de dimensionar. Em geral, quem ajuda o próximo acaba mais gratificado, interiormente, do que quem é ajudado. O poeta alemão, Johann Wolfgang Göethe, constatou que “uma vida inútil é uma morte prematura”. Daí a importância de se compartilhar grandeza de sentimentos e de se praticar ações abnegadas, para diminuir nossa própria pequenez.

Prisões e o inferno de Dante


Pedro J. Bondaczuk


A doutrina penal consagrada preceitua que as prisões não devem ser encaradas como depósitos de criminosos, de desajustados sociais, de pessoas que vivem à margem da lei, mas que sejam centros de reeducação para devolver os que delinqüiram ao convívio da sociedade.
Todavia, entre a teoria e a prática vai uma distância fantástica. Os centros de encarceramento transformaram-se, em geral, e no mundo todo, num verdadeiro circo dos horrores, onde aliada à privação da liberdade, quem tem a desventura de parar ali finda por abrir mão da própria dignidade humana. Personificam bem o inferno da “Divina Comédia”, célebre poema de Dante Aligheri. Só falta que se coloque um cartaz em suas portas, como o do abismo do mal do genial poeta, com os dizeres: “”Ó vós que aqui entrais, deixai todas as vossas esperanças”.
Agora, um advogado holandês está apresentando uma proposta radical, tida por muitos como temerária, que está sendo debatida nesta semana por criminologistas da América Latina, num congresso que se realiza em Belém.
O professor Louck Hulsman, da Faculdade de Direito de Rotterdam, propõe, simplesmente, a extinção das prisões. Claro que ele não deseja que elementos comprovadamente irrecuperáveis, de alta periculosidade e sem a mínima possibilidade de reintegração social, fiquem perambulando nas ruas, praticando toda a sorte de atrocidades.
O jurista argumenta que se está fazendo uma irracional inversão no encarceramento de pessoas. Enquanto gente humilde, passiva mais de assistência social do que de cadeia, está sendo rigorosamente punida por delitos menores, inúmeros condenados da Justiça, pela prática de crimes hediondos, ficam à solta, por falta de vagas nos presídios.
Em junho de 1990 estimava-se que 84 mil mandados de prisão não podiam ser cumpridos no Estado de São Paulo por não haver lugar para colocar mais ninguém nas várias e superlotadas penitenciárias. O professor holandês argumenta, não sem fundamento, que da forma como se está procedendo, no mundo todo, na atualidade, todos os centros de detenção só estão servindo para corromper seres humanos. Atuam como autênticas universidades do crime em que o indivíduo penetra inocente, por um deslize na maioria dos casos praticado por causa de circunstâncias funestas, e sai – ou ao cabo da sua pena ou através de fuga – um verdadeiro monstro, revoltado contra tudo e contra todos.
Está aí uma boa questão para se pensar agora que, em decorrência da proximidade das eleições, o tema violência – cuja ocorrência, na verdade, nunca diminuiu – ganha, oportunisticamente, enfoque até exagerado, para uso de políticos que distorcem o alcance e a função dessa nobre atividade com histriônicos arroubos de demagogia.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 10 de agosto de 1990)

Saturday, June 23, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Já não encontro nas esquinas da minha cidade muitos dos amigos que tiveram influência marcante em minha existência. Isso me leva a fazer minha a indagação feita pelo poeta paulistano Ernesto Garcia Veiga, nestes versos: “Onde estão aquelas pessoas maravilhosas,/que passaram qual cometas/pela minha vida,/com sua deslumbrante luz de amor?” Sim, para onde foram? Ou será que só existiram em minha imaginação? Impossível! Afinal, constato, assim como Veiga: “Me deixaram abobalhado de admiração e ternura”. E como...Muitos desses amigos ficaram, como costumava dizer Guimarães Rosa, “encantados”. As pessoas que amamos nunca morrem de verdade, enquanto permanecermos vivos. Transformam-se em estrelas no firmamento das nossas lembranças. Como é bonita, e importante, uma genuína amizade, mesmo que virtual!

Menina na janela


Pedro J. Bondaczuk


Menina morena, que está na janela,
Musa inspiradora de tantos apelos,
recende a perfume de cravo e canela,
da noite, o negrume, teceu seus cabelos;

morena menina, corpo escultural,
inocência e malícia bailam no olhar,
Esfinge encantada: do bem ou do mal?
Induz-me ao dilema: amar ou pecar?

Sorriso sereno, tranqüila Gioconda,
embora discreta, rouba toda a cena,
mesmo que atrás da cortina se esconda

e dissimule sua beleza plena.
Donzela ou bacante? Por favor responda:
Quem é você, ó menininha morena?

Soneto composto em São Caetano do Sul, em 3 de dezembro de 1963.

Friday, June 22, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O poeta tem função importante no mundo, bem maior do que os que são desacostumados à leitura costumam lhe atribuir: criar harmonia. Sua inspiração reúne pessoa por pessoa, como que a sugerir que além da realidade há um mundo melhor do que este em que vivemos, que é acessível, desde que buscado nas asas da poesia, onde a esperança ainda se faz certeza, as crianças ainda têm o direito ao futuro e o amor é muito mais do que mera transação de corpos e de interesses.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

IV-UTOPIA E BIOESFERA

O professor Lucien Sfez, da Universidade de Paris, cita uma nova utopia dos tempos modernos: a da saúde completa. Aborda a questão em uma entrevista publicada pelo caderno "Mais!", do jornal Folha de S. Paulo, na edição de 7 de abril de 1996.

Afirma: "A Biosfera 2 e o Genoma são o retorno à origem, são o reencontro de Adão antes da queda, uma espécie da Adão perfeito, o Adão do paraíso terrestre, geneticamente purificado. O que é a Biosfera 2? O paraíso terrestre. Do lado do genes, quer se encontrar o puro em si. O homem selvagem. Os dois projetos se fundem nisso: a origem sonhada, o Éden, antes das doenças e da poluição".

Mais adiante, respondendo a uma pergunta do repórter, o professor Sfez acrescenta: "As utopias mudaram de signo, e a ideologia perdeu a sua base tradicional. As utopias não se opõem à realidade e a ideologia deixou de ser um signo das coisas, para se transformar em signo-coisas, coisas-signos. E o inimigo não está no exterior para ser combatido ou civilizado. Não é mais o selvagem, o negro, o judeu, o burguês. O inimigo está dentro de nós, na cidade poluída, nos nossos genes, na camada de ozônio, na droga, no colesterol, anônimo, e quem o combate é a tecnociência onipotente. A ideologia está aqui, mas como que entrelaçada na utopia da saúde perfeita do corpo e do Planeta, interdependentes. E essa utopia é prática".

De fato, ela tem vários dos ingredientes que julgo essenciais. Mas sonho com uma era em que todas as doenças, do corpo e do espírito, sejam erradicadas. Em que não haja, de um lado, uma raça de gigantes, saudável e longeva, e de outro, multidões de seres raquíticos, famintos, doentes e frágeis, os “gabirus”, morrendo de doenças simples, como a diarréia. A utopia de Sfez, portanto, embora apresente alguns fragmentos da minha, não é ainda a que proponho, na sua integralidade.

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação, sujeito a revisões).

Thursday, June 21, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O que o mundo mais precisa, agora, em especial os países em desenvolvimento, para crescer, gerar riquezas e reduzir o imenso fosso que separa a minoria aquinhoada da imensa maioria miserável do Planeta, é de recursos humanos. Claro, o Brasil também necessita disso. O brasileiro tem talento como ninguém. O que precisa é aprender a utilizar esse potencial e ter oportunidades para isso. É canalizá-lo em sentido prático e racional. O consultor norte-americano George Gilder afirmou, em certa ocasião: “Nos negócios, a experiência é um ingrato professor: primeiro faz o exame e só depois dá a lição”. O correto, porém, é inverter essa situação. É orientar as pessoas para que descubram (e apliquem, em benefício próprio e no da coletividade), seu potencial de criação, de realização, de produção, tirando os sonhos de sucesso da cabeça para os tornar concretas realidades. Basta acreditar, querer e saber colocar em prática as lições.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

III - ALGUMAS OUTRAS UTOPIAS

Mário Donato segue relacionando algumas outras utopias. Escreve: "Pela ordem cronológica, o utopista seguinte é Etienne Cabet, dos fins do século XIX, autor de `Viagem a Icária'. Nesta cidade havia um toque de recolher permanente, vexame que, na interpretação mais do que ingênua do autor, era acolhido com grande júbilo pela população!". Cabet, líder espiritual dos icários, pensou realmente na fundação de colônias utópicas nos Estados Unidos, na época o país das liberdades e das possibilidades ilimitadas. Seus adeptos e outros utopistas fundaram, entre 1830 e 1860, vários núcleos em território norte-americano, mas todos malogrados. Esta, como as anteriores, ainda não é a minha utopia, que é muitíssimo mais transcendental.

Por volta de 1860, o utopismo parecia praticamente desacreditado. O poeta inglês William Morris, em seu livro "News from Nowhere" ("Notícias de parte alguma"), renova a tradição iniciada por Thomas Morus. Mas sua sociedade ideal nunca saiu do papel e jamais foi tentada na prática.

Donato acrescenta: "O mais recente de tais utopistas é o norte-americano Edward Bellamy (1850-1898), cujo ‘Cem anos depois’ (título em português) se passa em Boston no ano 2000. Felizmente, os bostonianos do terceiro milênio não contam criminosos entre si: os que se insubordinam são tratados como loucos". Embora tenha alguns ingredientes interessantes, esta, igualmente, não é a utopia que proponho.

Mário Donato observa: "Todos estes utopistas tinham a melhor das intenções. Comoviam-se com a pobreza, a doença e a desesperança, e buscavam dar-lhes remédio através de uma nova organização social, cuja base era, sempre, a propriedade coletiva de todos os bens. Thomas Morus ia ainda mais longe: depois de certo tempo, embora todas as casas fossem idênticas, as famílias deveriam mudar-se, a fim de eliminar delas sinais de singularidade de cada grupo familiar, como um retrato na parede, um enfeite, um bibelô. Enfim, era proibido tudo quanto pertencesse ao indivíduo e escapasse ao Estado anônimo e todo-poderoso".

Estas utopias colocavam o ser humano, concreto, sob férrea subordinação de uma entidade abstrata, não mais do que um conceito organizacional. Subjugavam as pessoas. Ditavam onde elas deveriam morar, como educar seus filhos, o que deveriam pensar etc. Desumanizavam o homem. Transformavam-no em mero robô, teleguiado por uma inteligência que presumidamente lhe era superior. Não é, evidentemente, a minha utopia, a da racionalidade absoluta, a do autodomínio e a da solidariedade.

Donato observa: "Em todas as utopias, o Estado, de uma forma ou outra, está sempre presente e o trabalho é uma obrigação a que ninguém pode furtar-se. Sobretudo no caso dos chamados `socialistas utópicos', como Jean Greve, Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Godwin, Owen, Morris, todos do século XIX, que invocavam outras soluções para a produção de bens, como o cooperativismo ou o contrato livremente estabelecido entre as partes. Nunca nenhum deles atreveu-se a criar uma utopia `anarquista', ou seja, um paraíso edênico, sem governo nem trabalho, onde os seus felizes cidadãos pudessem colher nas árvores plantadas por Deus, além dos frutos naturais, algo como conjuntos completos e grátis de `prêt-a-porter', liquidificadores, óculos ray-ban e radinhos de pilha. Nem James Hilton, autor de `Horizonte Perdido', que vimos no cinema, e cuja terra de sonho, Shangri-lá, abrigava a chamada eterna juventude, disponível ao menos para os eleitos. Como também `Ela', de Ridder Hagard, em que Hilton disse ter se inspirado. Em todas as utopias há governo e trabalho. Nenhuma terra é a Coconha dos italianos – aquele pau-de-sebo em cuja ponta os mais espertos colhem brincando os prêmios da sua ociosidade legal".

Nenhuma das utopias mencionadas é a minha, embora algumas contem com os ingredientes que julgo possíveis, desejáveis e factíveis pelo homem.

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação, sujeito a revisões)

Wednesday, June 20, 2007

TOQUE DE LETRA











Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo e site oficial da A. A. Ponte Preta)

OUTRA VITÓRIA E LIDERANÇA

Com oscilações durante os dois tempos do jogo – ora pressionando o adversário e criando chances de gol, ora batendo cabeça no meio de campo e na defesa – a Ponte Preta venceu, ontem à noite, o bom time do Ituano, no Estádio Moisés Lucarelli, por 2 a 1, e assumiu a liderança provisória do Campeonato Brasileiro da Série B. Ser líder, a essa altura da competição, não quer dizer muita coisa, mas dá moral ao plantel e tranqüilidade para a comissão técnica trabalhar, com vistas à próxima partida. O time teve chances de liquidar a fatura após o segundo gol e a expulsão do lateral Erick, do time adversário. Não o fez. Optou por tocar a bola e garantir os três pontos, quando ainda faltavam 25 minutos para o fim do jogo. O castigo não tardou a vir. O Ituano fez o seu gol e passou a pressionar a Ponte, que se assustou e se encolheu. E não fosse uma defesa sensacional do goleiro Denis (sempre ele!), a vitória, que parecia tão fácil, teria escapado por entre os dedos. Felizmente, não escapou. Essas oscilações do time, aliás, são normais, enquanto não vier o desejável entrosamento, que só será obtido com a seqüência dos jogos. O importante é que a Ponte conquistou sua quarta vitória em sete jogos e passou tranqüilidade à torcida, que sente que a equipe tem tudo para evoluir ainda mais e se impor como séria candidata até ao título. Que assim seja!

DIONÍSIO, DE NOVO, SURPREENDE

O coringa da Ponte Preta, Dionísio, continua surpreendendo a comissão técnica e a torcida. Positivamente, é claro. O atleta fica um tempão fora do time, sem sequer ser relacionado no banco de reservas. De repente, numa emergência qualquer, acaba escalado, para surpresa geral. E, em ocasião alguma em que isso ocorreu, decepcionou. Já está mais do que na hora, portanto, da torcida lhe dar o devido valor. Afinal, contando suas duas passagens pelo clube, o atleta já está no Moisés Lucarelli há pelo menos dez anos, sem nunca reclamar da reserva e sem decepcionar quando entra. Não me esqueço de uma partida, no Estádio Serra Dourada, de Goiânia, quando a Ponte Preta precisava vencer o Goiás de qualquer jeito, para escapar do rebaixamento. Todos já davam a queda da Macaca como favas contadas. Dionísio, no entanto, fez um golaço, por cobertura, que deu moral ao time. A Ponte sustentou o resultado, venceu, na seqüência, o América, em Natal (com gol de Zinho) e manteve-se na elite do futebol por mais seis ou sete anos. O atleta, portanto, tem história no clube e muito crédito. E provou, ontem, que ainda é muito útil, sobretudo nas emergências. É o cara certo nas horas certas.

NOME DO JOGO

A exemplo do que havia ocorrido sábado, no ABC, na vitória pontepretana sobre o Santo André, o meia armador Heverton foi, ontem, de novo, o nome do jogo. Correu, lutou, marcou, defendeu, atacou e foi o autor dos dois gols, ambos de belíssima feitura, que garantiram mais três pontos à Ponte Preta. Ouso dizer que, se não tivesse sido substituído, exausto de tanto correr, o placar teria sido muito mais amplo e folgado. Heverton, portanto, fará muita falta no próximo jogo, na terça-feira da semana que vem, contra o Marília, nos domínios do adversário. Ontem, porém, o meia dividiu as honras de melhor jogador em campo com esse fenômeno, vindo das categorias de base, chamado Denis. Não fosse a defesa (quase impossível) que fez, no finzinho do jogo, e a Ponte estaria lamentando, a exemplo do que aconteceu com o Grêmio Barueri, a perda de mais dois preciosos pontos dentro de casa. Como todo grande time começa com um ótimo goleiro, a Macaca está no caminho certo, rumo à conquista do acesso para a elite do futebol brasileiro no ano que vem.

É PRECISO RESISTIR AO ASSÉDIO

O grande problema da Ponte Preta, há já alguns anos, é que sempre que monta um time competitivo, com potencial de grandes conquistas, este é desmontado no meio da competição, com a saída dos seus melhores jogadores, ou do técnico, ou do preparador físico, e assim por diante. Neste ano, não está sendo diferente. Mal o campeonato começou, e já estão de olho gordo em atletas e funcionários do clube. Evair, por exemplo, mostrou todo o seu profissionalismo, ao recusar convite do Palmeiras para ser o parceiro de Toninho Cecílio no Departamento de Futebol do alviverde. Seu gesto, como não poderia deixar de ser, agradou em cheio à torcida, especialmente àquela parcela que ainda se opunha à sua presença no Moisés Lucarelli. O Corinthians, por sua vez, mostrou interesse na contratação de Cristiano Nunes, que faz ótimo trabalho de coordenação entre a categoria de base e o time profissional da Macaca. Antes, o São Paulo havia manifestado interesse no volante Pingo. E Heverton sofre constante assédio de clubes do país e do exterior, interessados na exuberância do seu futebol. Esse é um problema que a diretoria terá que equacionar, com serenidade e inteligência, para que um excelente trabalho não acabe na lata de lixo.

MAIS DOIS ÓTIMOS REFORÇOS

A diretoria da Ponte Preta apresentou, hoje de manhã, no Estádio Moisés Lucarelli, mais dois excelentes reforços para a temporada: os atacantes Leo Mineiro e Alex Terra. Curiosamente, ambos têm características de jogo bastante parecidas. Ou seja, são velozes, caem pelas laterais do campo para abrir as defesas adversárias e chutam muito bem a gol. Os novos contratados vão disputar posição com Roger – que cumpriu, ontem, sua última partida de suspensão – e com Wanderley, que repetiu, contra o Ituano, a excelente atuação que havia tido contra o Santo André, mostrando que começa a deixar a condição de eterna promessa, para se constituir em grata realidade. Outro que terá que lutar muito para ter camisa nesse time é Anderson Luiz. Já Beto tem características diferentes dos jogadores citados. É mais aquele pivô fixo, apropriado para fazer a parede aos companheiros que venham de trás. Doravante, como se vê, Nelsinho Baptista contará com muitas opções para mexer no time, quando isso se fizer necessário. Pelo menos no papel, trata-se de um plantel muito interessante, versátil e o melhor, em termos técnicos, dos tantos que a Ponte Preta montou nos últimos anos. Espera-se que a prática confirme a teoria. Desta vez, a diretoria pontepretana trabalhou direitinho.

MISSÃO IMPOSSÍVEL

O time mais copeiro do país, o Grêmio Porto-alegrense, terá, hoje, diante do Boca Juniors da Argentina, missão que, à primeira vista, parece impossível. Ou seja, fazer um placar com três gols de diferença sobre o tinhoso e experiente time argentino, para levar o jogo para a prorrogação e conquistar, dessa forma, mais uma Copa Libertadores da América. A maioria dos cronistas esportivos, nacionais ou estrangeiros, dá a conquista do título como favas contadas em favor da equipe que mais vezes ganhou essa competição em toda a sua história. Ou seja, ao poderoso Boca Juniors. Não me incluo entre estes. E aqui não vai, sequer, a influência do coração, já que, como pontepretano, não morro de amores pelo Grêmio (e por nenhum outro clube que não seja a veterana campineira). Trata-se, pois, da opinião de um observador absolutamente neutro, pelo menos em relação a esse confronto. Não estou afirmando, também, que o Grêmio terá sucesso no seu desafio. Mas já vi coisas incríveis no futebol, inclusive desse mesmo time gaúcho, como foi o caso da sua heróica vitória no Estádio dos Aflitos, no Recife, em dezembro de 2005, oportunidade em que assegurou a sua volta à Série A do Brasileirão. Não há vencedores e nem perdedores de véspera. E não ficarei nada surpreso se o Grêmio sair, hoje, do Olímpico, com o título da Libertadores. Não mesmo!!!

RESPINGOS...

· Ao que tudo indica, o sonho da diretoria palmeirense, de trazer o atacante certo que o time tanto precisa, mais uma vez vai acabar em frustração. Quando parecia tudo acertado com Kleber, que defende o Necaxa, do México, entrou areia nas negociações. Por enquanto, a novela continua.
· O Corinthians apresentou, ontem, mais um jogador procedente do Bragantino, o quinto já contratado desse mesmo time. Trata-se do zagueiro Cadu, que regularizou sua situação e está à disposição de Paulo César Carpegiani. Quem está rindo à-toa é Marquinho Chedid, presidente do clube de Bragança Paulista.
· Tudo indica que Dunga já definiu o time titular da Seleção Brasileira para a Copa América, que começa no mês que vem, na Venezuela. É a nova geração nacional que ganha espaço, para tentar buscar o penta, em 2010, na África do Sul.
· Domingo teremos a oportunidade de ver um jogão na Vila Belmiro: o clássico Sansão, ou seja, Santos e São Paulo. Não que ambos estejam praticando um futebol maravilhoso, mas pela oportunidade que os dois terão para deixar para trás um princípio de crise, que ganhará corpo no perdedor.
· Por causa do Pan do Rio, um mundão de jogos do Campeonato Brasileiro foi adiado, complicando demais a competição. Quem elaborou a tabela deste ano merecia ser demitido. O cara não sabia que a Cidade Maravilhosa iria sediar esse evento? Claro que sim! Há quatro anos que todos nós já tínhamos conhecimento disso. Êta pessoal incompetente!

* E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


O fanatismo, quer de caráter político, quer ideológico, quer religioso ou até mesmo esportivo, não está restrito a países considerados mais atrasados. Ao contrário, as conseqüências maiores da sua existência foram provocadas em sociedades super-evoluídas, como a germânica, por exemplo, no último ano da década de 1930 e em parte da década de 1940, com a Segunda Guerra Mundial. Essas manifestações doentias, de fuga da realidade, que têm na sua base um estúpido complexo de superioridade, aparecem em todas as sociedades organizadas. Desde o paupérrimo e oprimido Afeganistão, aos superpoderosos Estados Unidos; desde os multimilionários Japão e Suíça, aos miseráveis Chade e Etiópia, o fanatismo, a discriminação e o preconceito se manifestam. Afinal, nenhum povo detém o monopólio da estupidez humana, que é, talvez, a coisa mais “democrática” e disseminada que existe.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

II-CRIADOR DO TERMO

Mário Donato prossegue com seu retrospecto: "Thomas Morus, cujo livro (Utopia), que tem aquele nome, escrito em latim no ano de 1516, constrói uma ilha em oposição à Inglaterra de Henrique VIII, o que lhe custou a cabeça. A sua sociedade, uma amálgama das virtudes platônicas e paulinas, eliminava, de fato, a propriedade privada da terra e a exploração do povo pelos `landlords'. Mas, em contrapartida, não deixava lugar a quem, como ele, quisesse erguer a voz para uma crítica, mesmo construtiva".

Thomas Morus tem, evidentemente, seu valor. Foi um grande humanista, íntimo de Erasmo de Rotterdã, que o celebrou no seu "Moriae Encomium" ou "Elogio da Loucura". Tanto que foi beatificado em 1886 e canonizado por Pio XI em 1935. A força de suas idéias foi de tal sorte que, embora santo da Igreja Católica, tem uma estátua em Moscou. Mas a sua também não é a minha utopia.

Mário Donato assinala. "Logo após Thomas Morus, no mesmo século, surge outro religioso sonhando a sua utopia, agora um calabrês, Tommaso Campanella, dominicano, hostil ao aristotelismo escolástico. É ele autor de "A Cidade do Sol", em que defende a propriedade coletiva de todos os bens produzidos pela comunidade. Nela, os funcionários têm o dever de persuadir os insubmissos a aprovarem o seu próprio castigo, em conseqüência do que piedosamente os matam". Evidentemente, esta não pode ser a minha utopia, pois valorizo a vida (toda e qualquer vida, sem distinção) mais do que a qualquer outro bem ou virtude.

(Texto do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação, sujeito a revisões).

Tuesday, June 19, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Você já notou como nossa vida é uma constante reconstrução? É um tal de fazer, refazer, construir, demolir, voltar a construir no local em que a construção anterior foi demolida, e assim vamos, nessa toada, até o momento de nos despedirmos do mundo e encerrarmos essa aventura que nos é proporcionada pelo fato de termos nascido. E não me refiro apenas a obras palpáveis, a casas e edifícios, mas também a carreiras, a relacionamentos, a amizades, inimizades, ódios e amores. Nada tem o caráter da permanência, da perpetuidade e da eternidade. Mas o que fazer quando nosso castelo de sonhos desmorona? Lamentar? Para quê? Lamentos não levam a lugar algum. Culpar os outros? Qual o sentido prático de agir assim? Largar mão de tudo e se entregar a um covarde desalento? Nada disso! Só resta um caminho sensato e prático: reconstruir o que ruiu, seja lá o que for: casa, carreira, relacionamento, amizade ou amor...

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

I-DEFININDO UTOPIA

Mário Donato inicia suas considerações com a pergunta: "Uma utopia? Que é uma utopia no consenso atual?". E responde: "Algo de paradisíaco e de inefável. Tão bom, que se faz inexequível". Sua definição difere da de Karl Manheim, que afirma: "Utopias são idéias inspiradoras das classes em rebelião e ascensão, em oposição às ideologias que racionalizam e estratificam o pensamento das classes dominantes". Não concordo com essa colocação, de cunho exclusivamente político.

Mas voltando ao que foi escrito por Mário Donato, questiono: haveria, de fato, alguma tarefa, por mais sublime que seja, impossível do ser humano realizar? Entendo que não! Para quem conquistou a natureza, dominou os segredos do átomo, decifrou os mistérios do genoma e operou tantas e tamanhas maravilhas, a impossibilidade é apenas relativa, mera questão de tempo.

Mário Donato prossegue, no mencionado ensaio: "O pai das utopias foi Platão, que viveu entre o IV e o V século antes de Cristo. Era um impenitente criador de utopias, o que dá a medida do seu inconformismo. Uma delas, a da Atlântida, até hoje é discutida a sério: existiu mesmo ou não?".

Os ideais platônicos podem ter grande interesse na história do pensamento humano. Sua República foi tentada, em várias épocas e lugares, e fracassou. Até hoje os aristocratas conduzem os destinos de vários Estados, mas foram impotentes, ou indolentes, ou incompetentes para pôr fim aos desníveis sociais e outras mazelas que caracterizam o nosso tempo. Não é esta, portanto, a utopia que quero ver implantada.

(Do livro "Por uma nova utopia-2", em fase de redação, sujeito a alterações);

Monday, June 18, 2007

TOQUE DE LETRA







Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo, site do Robinho e Gaspar Nóbrega - VIPCOMM)

VENCEU E CONVENCEU

A Ponte Preta venceu seu compromisso deste sábado, no Estádio Bruno José Daniel, diante do Santo André, por 2 a 0 e, o que é importante para a torcida, convenceu, principalmente no segundo tempo. No primeiro, adotou a cautela, para evitar surpresas e, apesar de alguns erros da zaga, conseguiu seu objetivo. Já na etapa final, o time voou em campo. Nelsinho Baptista adiantou os dois meias de armação, Marcinho Guerreiro (que fez uma boa estréia levando em conta que estava há 40 dias sem disputar uma partida oficial) e Heverton, que arrebentou e só faltou fazer chover. Com isso, as oportunidades apareceram naturalmente e três delas foram aproveitadas. Ocorre que uma delas foi anulada pelo auxiliar de linha, Rafael Silva, que teve péssima atuação, a ponto de comprometer a arbitragem. O gol de Wanderley, que ele entendeu ter sido marcado em impedimento, foi legal, legalíssimo, e de bela feitura. Sorte que a Ponte Preta não precisou dele para vencer. Mas foi lamentável a atuação desse bandeira. No primeiro tempo, por exemplo, deixou de marcar um impedimento clamoroso, e não de um., mas de quatro jogadores do Santo André, que por pouco não resulta em gol do time do ABC. Êta neguinho ruim! E seus erros (coincidência ou não) só beneficiaram o time da casa.

ESTRÉIA EM ALTO ESTILO

A estréia do meia-armador Marcinho Guerreiro, com a camisa da Ponte Preta, na vitória da alvinegra, por 2 a 0, frente ao Santo André, no ABC, foi o que se esperava de um jogador da sua categoria. E acabou coroada, inclusive, com um gol de oportunismo e boa colocação. Logo no início do jogo, por sinal, por volta dos 7 ou 8 minutos de partida, o atleta já havia mostrado seu “cartão de visitas” ao protagonizar o lance de maior perigo do primeiro tempo. Num arremate na lateral da área, obrigou o goleiro do Santo André a fazer uma ótima defesa e assim evitar a abertura do placar. Na primeira etapa, porém, Marcinho limitou-se a guardar posição no meio do campo, apesar de não de forma passiva. Aliás, ajudou, e muito, na marcação, tanto que levou seu primeiro cartão amarelo com a camisa da Macaca por um lance mais brusco, que impediu um perigoso ataque do adversário. No segundo tempo, porém, o jogador soltou-se e foi fundamental para a eficiência dos contra-ataques da Ponte Preta. Marcinho, claro, tem muito a evoluir ainda. Afinal, há quarenta dias que não disputava uma partida oficial. Ademais, fez apenas dois ou três treinos com os novos companheiros, o que, convenhamos, pesa. Mas começou com o pé direito no time, mostrando que Nelsinho Baptista estava certíssimo em insistir tanto na sua contratação. Se continuar com a mesma vontade, não tardará para se transformar em ídolo da fiel torcida pontepretana.

NOME DO JOGO

O nome do jogo, na boa vitória pontepretana, sábado, diante do Santo André, por 2 a 0, foi o meia-armador Heverton. Armou, marcou, defendeu, atacou e foi o responsável direto pelos dois gols que garantiram à Ponte Preta três preciosos pontos, conquistados na casa do adversário e que repuseram o time no topo da tabela de classificação. Aos poucos, o jovem atleta vai se soltando e encontrando seu espaço no campo, mostrando a exuberância do seu futebol. O gol que fez neste sábado, o segundo, foi uma pintura, desde o início da jogada, com uma rápida troca de passes entre Wanderley e Andrezinho, ao arremate final, firme, forte, seco e indefensável para o goleiro adversário. Ficou demonstrado, nesse jogo, que Heverton rende muito mais para o time quando joga avançado, fazendo companhia aos homens de área. Com a entrada de Marcinho Guerreiro, isso fica agora muito mais facilitado, pois passa a ter com quem dividir a tarefa de armação. Além de um passe primoroso e certeiro e de facilidade de driblar progressivamente, no sentido do gol adversário, o atleta chuta muito bem. Por isso, hoje já é o “cérebro e o coração” da equipe. Parabéns, garoto.

NÍTIDA EVOLUÇÃO

O jovem atacante Wanderley disputou, sábado, frente ao Santo André, sua melhor partida desde que passou a ser aproveitado no time de cima, em 2005. No primeiro tempo, até que não apareceu muito, embora cumprisse a função que lhe foi determinada por Nelsinho Baptista. Na segunda etapa, porém, quando passou a fazer o pivô, no ataque, após a saída de Anderson Luiz, seu futebol, o mesmo que encantou todo o mundo no time de juniores, finalmente veio à tona. Participou do lance que redundou no golaço de Heverton, fez um, de cabeça, anulado erroneamente pelo auxiliar de linha, Rafael Silva e por pouco fez outro, que seria digno de placa no estádio, após driblar dois zagueiros adversários e arrematar muito bem, forçando o goleiro adversário a fazer a melhor defesa do jogo. O contato de Wanderley com o auxiliar-técnico Evair, um dos mais lúcidos artilheiros do futebol brasileiro, está fazendo muito bem ao menino. A continuar nesse ritmo, logo, logo o garoto deixará de ser mera promessa, para se tornar grata realidade, como foi o caso de Luís Fabiano, hoje brilhando com a camisa do Sevilha, da Espanha.

DECRÉSCIMO DE PRODUÇÃO

Joguinho ruim, o clássico de domingo, no Morumbi, em que o São Paulo derrotou o Vasco da Gama por 2 a 0, pelo Campeonato Brasileiro da Série A. O tricolor até que começou bem a partida, de forma arrasadora, fazendo, logo de cara, dois gols seguidos, ambos do artilheiro Borges, que até aqui não disse ainda a que veio. A impressão que se tinha era que os comandados de Muricy Ramalho, finalmente, deixariam a má-fase para trás e aplicariam uma história goleada no fraco time cruzmaltino. Tudo não passou, porém, só de impressão. Não tardou para que o jogo se tornasse sonolento, monótono, chato, com quantidade exagerada de erros de passe e inúmeras jogadas bisonhas, indignas de quem veste a camisa de dois clubes de tanta tradição, como são o São Paulo e o Vasco. Ou ambos se reforçam, para a seqüência do campeonato, ou não poderão aspirar a nada além da mera participação. Claro que nenhum dos dois corre riscos de rebaixamento (seria o cúmulo se corressem). Mas com esse futebolzinho que estão jogando, com certeza, não chegarão a lugar algum.

CAMPEÃO EM ALTO ESTILO

O Real Madri bateu pé firme e se recusou a liberar Robinho para a Seleção Brasileira, antes da disputa da sua última partida, pelo Campeonato Espanhol, contra o Mallorca, no Estádio Santiago Bernabeu, neste domingo. Afinal, o jogo valia título. Caso vencesse, o time merengue, finalmente, poria fim à hegemonia de já alguns anos do Barcelona e voltaria a comemorar um título nacional. E foi o que aconteceu. Tratou-se de um jogo dramático, em que a equipe madrilenha saiu atrás no marcador, dando um susto imenso em sua torcida. Com a ajuda de Robinho, contudo, o Real Madri deu a volta por cima, empatou e posteriormente virou o placar (para a euforia dos seus torcedores) e venceu por 3 a 1, assegurando o tão sonhado título, que quase lhe foge por entre os dedos. O jogo marcou a despedida do lateral-esquerdo Roberto Carlos da equipe merengue, após dez longos anos de bons serviços. Outros brasileiros que participaram da vitoriosa campanha foram Emerson, titularíssimo do meio de campo, e Cicinho e Marcelo, ambos na reserva do novo campeão espanhol. Bem que Robinho estava merecendo a consagração também no exterior. O garoto, diga-se de passagem, ainda tem muito futebol a mostrar, quer no Real Madri, quer na Seleção Brasileira. E estou certo de que mostrará, no seu devido tempo.

RESPINGOS...

· A crise está definitivamente instalada pelos lados do Parque Antártica, após a derrota de ontem, para o Goiás, no Estádio Serra Dourada, por 3 a 1. Já se fala na saída do comando técnico de Caio Junior e na possível contratação de Abel Braga. Que coisa!
· A torcida corintiana, que superlotou o Morumbi, sábado, saiu decepcionada com o empate do time, contra o Paraná, por 0 a 0. Se analisar direito, porém, o torcedor irá concluir que se tratou de um bom resultado. Afinal, o Corinthians enfrentou um adversário dos mais qualificados, que faz, de novo, boa campanha.
· Ainda é muito cedo para prognósticos. Mas se o Botafogo continuar jogando esse mesmo futebol alegre, ofensivo e, sobretudo, objetivo, que tem mostrado desde o início da temporada, é sério candidato ao título deste ano. Ontem, massacrou o Náutico, no Maracanã, mesmo Dodô perdendo um pênalti e o goleiro Juninho dando um gol de presente para o adversário. O 3 a 1 até que saiu barato para os pernambucanos.
· Achei que houve abuso de autoridade dos policiais que retiraram o técnico Lori Sandri, do América de Natal, algemado de campo, sob a acusação de “desacato”. O Sport tentou ganhar o jogo no grito, e quase conseguiu. Empatou, por 2 a 2, e segue na rabeira da tabela. Lamentável esse tipo de pressão.
· Wanderley Luxemburgo deu um susto enorme, nos santistas, na semana passada, quando teve que ser internado, às pressas, para a extração do apêndice. Ontem, porém, da sua casa, o treinador comandou seu time, por telefone, na excelente vitória sobre o Juventude, por 2 a 0, em plena Caxias do Sul. E Serginho Chulapa cumpriu direitinho suas instruções.

* E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


A capacidade de ter (e de expressar) gratidão é uma das características das pessoas felizes. Elas nunca se consideram credoras da ajuda e da consideração dos que a cercam. E sabem ser gratas aos parentes, pelo carinho, aos cônjuges, pelo amor e aos amigos, pela amizade manifestada. Victor Hugo constatou, em um de seus livros, que “os infelizes são ingratos”. E arremata: “a ingratidão faz parte da infelicidade deles”. Temos tantos e tão variados motivos de gratidão bastando, para identificá-los, olharmos atentamente ao nosso redor. Devemos ser gratos a Deus pela oportunidade da vida, aos nossos pais, pelos desvelos na nossa criação e pelos princípios que nos transmitiram e à natureza, por nos proporcionar todos os recursos que asseguram nossa sobrevivência. Afinal, a felicidade não se acha por aí, mas se conquista, com sensibilidade e sabedoria.

Por uma nova utopia-2


Pedro J. Bondaczuk

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Valho-me das luzes do jornalista e escritor Mário Donato, mais especificamente de um longo e brilhante ensaio que publicou em abril de 1983, no suplemento "Leitura", do Diário Oficial do Estado, intitulado "Utopia e o sonho azul da Colônia Cecília", para as considerações preliminares sobre o tema deste livro. Elas é que vão nortear essa jornada por um assunto tão fascinante, porém de tanta complexidade.

Antes, porém, peço licença ao leitor para abrir um breve parêntese e destacar a importância desse ilustre intelectual para as letras nacionais. Mário Donato nasceu em Campinas, em 29 de abril de 1915. Iniciou sua carreira jornalística no jornal “O Estado de São Paulo”, como repórter. Dotado de um texto claro, limpo, correto e instigante, não tardou para ser promovido a redator e, posteriormente, a secretário de redação, função que também exerceu na Folha da Manhã.

Eclético e criativo, colaborou com várias outras publicações, como a revista “A Cigarra”, os jornais “A Gazeta” e “Diário de São Paulo” e a União Jornalística Brasileira na gestão de Menotti del Picchia. Paralelo à carreira de jornalista, Mário Donato empreendia intensa atividade de escritor. Poeta de grande sensibilidade, lançou, em 1938, no Rio de Janeiro, o livro “Terra”. Ainda em poesia, presenteou os leitores, em 1944, com “As cigarras migram”, lançado em Curitiba. Em 1949, decidiu abandonar, precocemente, o jornalismo, para assumir primeiro a direção de programação e, posteriormente, a artística, de uma emissora paulistana. Pouco tempo depois, comandou a Rádio Nacional de São Paulo (atual Rádio Globo), na época de grande prestígio e líder de audiência.

Ainda quando trabalhava em jornal, em 1948, lançou seu romance mais conhecido e de maior sucesso, “Presença de Anita”, filmado em 1951 e que em 2004 foi transformado em uma das minisséries de maior audiência da Rede Globo de Televisão. Seu segundo romance, “Madrugada sem Deus” (1954), valeu-lhe o Prêmio da Câmara Municipal de Campinas. Ganhou, também, um Prêmio Jaboti, da Câmara Brasileira do Livro. Morreu, na data do seu 77º aniversário, em 29 de abril de 1992, em São Paulo.

(Trecho do meu livro "Por uma nova utopia -2", em fase de redação, sujeito a mudanças)

Sunday, June 17, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Um dos desafios mais árduos e, no entanto, mais compensadores, é o de aprender a lidar com frustrações de toda a sorte em nosso cotidiano e evitar que elas se transformem em crônicos aborrecimentos. Para o bem da nossa saúde física e mental, e para o bem-estar dos que nos cercam e que conosco convivem, devemos manter sempre constante o nosso bom-humor, sem permitir que qualquer incidente, seja de que tamanho ou natureza for, o comprometa e arruíne. Devemos ter em mente a sábia observação do filósofo Ralph Waldo Emerson: “Para cada minuto que você se aborrece perde sessenta segundos de felicidade”. Não parece, mas se trata de perda irreparável. Há pessoas que perdem não apenas um minuto, mas horas sem fim, dias, meses, anos, quando não a vida toda, acalentando mágoas, chateações e desejos de vingança, abdicando da possibilidade de serem felizes. Vale a pena abrir mão de tanto por tão pouco?

Preservar mananciais


Pedro J. Bondaczuk


A água, embora as pessoas não se dêem conta disso, é o bem mais precioso – por motivos óbvios – existente no Planeta. Apesar da Terra aparentar abundância do líquido, pelo menos daquele que é potável (e, portanto, próprio para o consumo), há grave escassez, especialmente em algumas regiões, hoje bastante povoadas, da África, da Ásia e do Oriente Médio.
O Brasil, em termos de recursos hídricos, é um país privilegiado, embora no Nordeste não sejam bem distribuídos. A região de Campinas, teoricamente, é muito bem servida nesse aspecto. Mas na prática, não é bem assim.
O crescimento, na maioria das vezes desordenado, e a inconsciência quanto à preservação do meio ambiente, têm causado graves problemas de captação. Em alguns lugares, eles já são mais do que sérios, são críticos.
O Poder Público até que tem investido, para dotar a maior parte dos lares, das várias cidades da região, de água potável, tratada, dentro dos mais modernos e rigorosos padrões sanitários internacionais. Só que as obras realizadas resolvem a questão por curto tempo. Por exemplo, Campinas está garantindo seu abastecimento por mais 15 anos. O mesmo ocorre com Valinhos, com investimentos da ordem de US$ 18 milhões.
Ocorre que esse prazo é muito curto. O próprio progresso atrai para cá contingentes crescentes de pessoas, às quais será necessário abastecer. E a tendência não é de redução das migrações. Muito pelo contrário.
As projeções para o abastecimento tranqüilo até 2010 podem ter sido superestimadas. Ou a população pode aumentar em quantidade muito maior do que a prevista pelos responsáveis pelo planejamento urbano das cidades da região.
É preciso, portanto, simultaneamente às obras gigantescas e caras de captação e tratamento de água, que as pessoas se conscientizem da necessidade de preservação desse precioso líquido, quase nunca valorizado devidamente, mas sem o qual a vida é impossível.
É necessária a elaboração e rigorosa execução de projetos de proteção dos mananciais, evitando-se, por exemplo, o desmatamento nas cabeceiras dos rios, para que não ocorra o seu assoreamento e que suas fontes venham a secar.
É indispensável coibir o lançamento de dejetos industriais e esgotos clandestinos. Enfim, compete, também, à população evitar que no futuro esse problema de escassez venha a se agravar. Está aí uma boa reflexão da o Dia Mundial da Água, transcorrido em 22 de março.

(Artigo publicado na página 2, do caderno Metropolitano, do Correio Popular, em 23 de março de 1995)

Saturday, June 16, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Madre Teresa exerceu sua abnegada ação nos lugares mais miseráveis e violentos do Planeta, nos confins da Índia, até dias antes da sua morte, já fragilizada pela doença (mas sem lhe passar nem de leve pela cabeça interromper sua missão), com convicção, com amor e, sobretudo, com entusiasmo. Pôs em jogo tudo o que era. Mas não em busca de dinheiro, ou de elogios fáceis ou de efêmera e enganadora glória. Agia assim porque era necessário e isso lhe bastava. Fazia o que fazia porque alguém tinha que fazer! Fernando Pessoa, nas “Odes de Ricardo Reis”, escreveu: “Para ser grande, sê inteiro: nada/teu exagera ou exclui./Sê todo em cada coisa./Põe quanto és/no mínimo que fazes./Assim em cada lago a lua toda/brilha, porque alta vive”. E Madre Teresa, embora pequenina e frágil, foi maiúscula, foi exemplar, foi grande!

Inexpressão


Pedro J. Bondaczuk


Há algo vibrando no ar.
Poema? Soluço? Canção?
Há algo vibrando no ar.
E agita os pilares velhos
da minha arcaica emoção.

E quer brotar,
como uma flor
na Primavera,
como sangue
em veias seccionadas,
como o sol,
em todas as manhãs.

Há algo vibrando no ar.
Anseio? Desejo? Intuição?
Há algo vibrando no ar,
como cordas de violino,
notas perdidas de piano,
folhas soltas ao léu,
afinado diapasão.

Há algo vibrando no ar
lutando para viver,
e se fazer concreto,
ganhar forma e cor
e se espraiar
em ondas de ternura,
na suprema ventura
do amor correspondido.

Vibra no ar algo estranho,
poderoso, desconhecido!
Idéia? Paixão? Saudade?

Na terra em que repousar
este triste versejador,
vão brotar flores... muitas,
milhares de flores...
brancas... azuis... amarelas...
vermelhas... todas as cores.

Vão brotar infinitas flores,
em indefinidos albores,
na saga do tempo
que se expressa dia-a-dia,
em meu frígido jazigo,
em pétalas delicadas, sutis.

Vão brotar harmonias,
metros delicados e raros,
rimas inspiradas e caras,
de encantos inexprimíveis:
São os versos que não escrevi!

Pois há algo vibrando no ar,
que procura se manifestar,
mas que não consigo exprimir...

(Poema composto em Campinas, em 21 de outubro de 1968).

Friday, June 15, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Uma das figuras maiúsculas da nossa época, ganhadora de um Prêmio Nobel da Paz, e que entrava, com a mesma dignidade e desenvoltura, tanto em faustosos palácios dos poderosos, quanto em miseráveis e infectas choupanas, foi uma humilde e frágil monja, que trajava um hábito rústico e remendado, mas que punha “alma”, determinação e entusiasmo no que fazia. Claro que me refiro a Madre Teresa de Calcutá. Se não tivermos, pois, talento para as artes; se não contarmos com aptidões técnicas para pesquisas, para a produção de bens ou para administração, ainda assim poderemos legar à humanidade uma obra sólida, vasta, valiosa e inesquecível. Como? Dedicando-nos a servir os desvalidos, os necessitados, os doentes e os miseráveis (que não são poucos, convenhamos, mas são dois terços da população mundial, algo em torno de 4,5 bilhões ou mais de pessoas).

Clareza e concisão


Pedro J. Bondaczuk


As pessoas têm cada vez mais dificuldades de escrever com correção e clareza. Ora não cometem deslizes de grafia, sintaxe ou concordância, mas não são claras no que pretendem transmitir. Ora possuem clareza, mas cometem verdadeiras atrocidades vocabulares. Em geral, fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E não me refiro apenas aos semi-alfabetizados (já que, obviamente, os analfabetos não escrevem), que mal aprenderam a desenhar seus nomes e a "garatujar" uma ou outra palavra, trocando o "s" pelo "z", suprimindo o "h" onde ele deveria constar e cometendo outras barbaridades do gênero. Já abordamos, aqui no Comunique-se esse assunto, ao qual voltamos por solicitação de alguns estudantes, que nos dão a honra de ser (ou pelo menos de se declarar) nossos leitores.
O mau texto reflete, sobretudo, falta de leitura. Ninguém está exigindo que todo o mundo seja um Machado de Assis ou um Monteiro Lobato, peritos na arte de escrever e de prender a atenção de pessoas de diversos graus de cultura. O talento desses mestres (para citar somente os dois considerados consensualmente como os melhores), era inato. O que se espera da média das pessoas, da maioria dos "mortais comuns", é que sejam capazes de redigir pelo menos uma carta padrão, ou um memorando, ou um simples bilhete de recado para a mulher ou para a empregada, sem cometer atrocidades gramaticais.
É um equívoco achar que textos floreados sejam desejáveis ou mesmo aceitáveis. Nossos melhores escritores (e jornalistas) – como os citados acima – faziam da simplicidade, do despojamento vocabular e da precisão os seus segredos. Eram, sobretudo, autênticos, espontâneos, absolutamente naturais. Machado de Assis, por exemplo, nunca se deixou levar pelos modismos do seu tempo. A linguagem que reproduziu em seus romances (escritos no século passado, frise-se) e principalmente nos seus artigos e crônicas é, sem tirar e nem pôr, a mesma que as pessoas de cultura mediana atuais se utilizam para se comunicar. E pensar que Machadão jamais freqüentou uma escola!
Monteiro Lobato, por seu turno, ao escrever para crianças, não agiu como se estas fossem "debilóides", idiotas que mal conseguem tartamudear no diminutivo, como a maioria dos escritores especializados nesse tipo de literatura age (e alguns editores de suplementos voltados para a meninada). Tratou-as com a dignidade e o respeito que elas merecem. Usou a verdadeira linguagem delas: simples, é verdade, com reduzido vocabulário, mas clara e por isso autêntica.
Lobato coloca na boca de Dona Benta a seguinte observação sobre literatura (citada por Alaor Barbosa em seu livro "O Ficcionista Monteiro Lobato"): "Meus filhos, há duas espécies de literatura, uma entre aspas e outra sem aspas. Eu gosto desta e detesto aquela. A literatura sem aspas é a dos grandes livros; e a com aspas é a dos livros que não valem nada. Se eu digo: 'estava uma linda manhã de céu azul', estou fazendo literatura sem aspas, da boa. Mas se eu digo: 'estava uma gloriosa manhã de céu americanamente azul', eu faço 'literatura' da aspada que merece pau".
Geralmente as pessoas que não sabem escrever, que não têm idéias ordenadas ou segurança no que expressam, é que se valem desse tipo empolado (e imbecil) de texto. Em uma carta que escreveu ao amigo Godofredo Rangel, em janeiro de 1904, quando tinha 22 anos de idade, Monteiro Lobato definiu a sua opção pelo significado real das palavras e, sobretudo, pela clareza. Afirmou: "Na propriedade da expressão está a maior beleza; dizer 'chuva' quando chove – 'sol' quando soleja. É a porca que entra exata na rosca do parafuso".
O escritor voltaria a ressaltar a mesma coisa, por intermédio da personagem "Sintaxe", no livro "Emília no país da gramática": "O que quero saber nesta cidade é de clareza e mais clareza, porque a clareza é o sol da língua". Bela e original expressão. E, no entanto, verdadeira. Sobre a exatidão – o uso apropriado das palavras colocadas no lugar certo, e na hora certa –, Lobato enumerou-a como a regra básica número dois. Para não cometer deslizes de impropriedade, leu, releu, pesquisou e analisou todo o dicionário de Caldas Aulete.
Em agosto de 1909, escreveu o seguinte ao amigo Godofredo Rangel: "O que mais aprecio num estilo é a propriedade exata de cada palavra e para isso temos que travar conhecimento pessoal, direto, com todos os vocábulos, em demorada, pensada e meditada vocabulação dicionarística. Só pelo conhecimento exato do valor de cada um é que alcançamos aquela qualidade de estilo".
Está aí um bom roteiro para quem queira escrever bem e não passar vergonha. Ser absolutamente claro no que pensa e deseja transmitir e usar as palavras certas nos lugares adequados. E, sobretudo (reitere-se com toda a ênfase possível e imaginável): ler, ler e ler concentrada e incansavelmente, mas bons escritores e articulistas (é claro). Ou seja, os de textos diretos, concisos e, sobretudo, simples.