Monday, October 31, 2011










Regras artificiais, que engessavam a criatividade e faziam de um poema mero jogo de palavras (muitas colocadas até fora de contexto, no afã de se encontrar uma rima) foram abolidas, na prática. Nada impede que sejam usadas. Poucos, no entanto, se dispõem a fazê-lo. Temem, evidentemente, (e com razão), o ridículo. Os padrões de beleza mudaram, estão mudando e certamente vão mudar ainda muito mais. Hoje, associam-se à tensão, à dramaticidade, ao medo e à perplexidade que nos dominam. Até não faz muito, a poesia era feita para ser "entendida". Hoje, como em outras artes (como pintura, escultura, música etc.), destina-se a ser "sentida". Na minha avaliação, portanto, avançou, evoluiu, progrediu, a despeito dos saudosistas.

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Presente de Natal


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Lance fatal
(contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. –
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Por dentro da TV

A ESTRÉIA (E DESPEDIDA) DE MÍRIAN EM TV

A vida tem certas ironias que deixam as pessoas mais equilibradas completamente confusas. Quem assistiu ontem, às 21h, pela TV Record o "Show do dia 7", viu uma nova figura apresentando aquele musical, com sua voz quente e aveludada e uma segurança típica dos profissionais veteranos. Era a Mírian Lane, ou melhor, a nossa querida (e já saudosa) Mírian Tavares, que fazia a sua estréia em televisão. Estréia e ao mesmo tempo despedida, já que ela foi barbaramente ceifada do nosso convívio, após o atentado a bala de que foi vítima, na madrugada de 27 de janeiro, vindo a falecer no dia 31.

A Record, em princípio, cogitou em não apresentar esse show. Depois (sabiamente) decidiu prestar homenagem a esse talento (a única mulher em São Paulo que trabalhava em FM) e mandou ao ar o programa. Mírian atuou ao lado de um outro desconhecido, Bob Floriano, e mostrou porque a emissora investiu no seu talento. Ela havia sido recentemente contratada, especialmente para fazer, mensalmente, esse programa. Estava cheia de entusiasmo, diante de um caminho novo que se abria à sua frernte, e fazendo aquilo que ela sempre gostou: apresentando e comentando músicas.

Na véspera do trágico acontecimento, que redundou na sua morte, Mírian concedeu entrevista exclusiva à revista "Amiga". Falou da carreira, da luta para se impor na Capital, onde a discriminação pelo trabalho feminino, infelizmente, ainda existe (embora freqüentemente se negue); dos planos para o futuro e do trabalho que iria fazer na televisão.

E explicou, a respeito do "Show do dia 7": "Fiz as cabeças do programa, anunciando e comentando as músicas, pois música é a minha grande paixão". E era. Quando ainda em sua terra natal, no interior de Minas, chegou a fazer sete anos num conservatório musical e trazia consigo, secretamente, um sonho: o de dedicar-se, futuramente, apenas à música.

Um tiro, covarde e traiçoeiro, no entanto, matou essa possibilidade. O que fazer? É a vida, com suas inexplicáveis ironias...

NOVO PROGRAMA INFANTIL

A Rede Bandeirantes está em franco ritmo de estréias nesta semana. Primeiro, lançou o seu noticioso matutino, "Primeira Edição". Depois, foi a vez do "TV Criança", com cinco horas de duração, que está indo ao ar desde segunda-feira, juntando, numa única apresentação, os desenhos animados, o "TV tutti-frutti" e a "Turma do lambe-lambe". E agora anuncia, para o próximo sábado, uma nova estréia. E a novidade também está voltada para a área infantil. Trata-se do "Sábado feliz", entregue à competência desse grande comunicador, que é Dárcio Campos, e que será apresentado das 9 às 13h. A direção foi confiada a Cícero Schnaider, que concebeu um programa movimentado, com participação direta das crianças no palco (semelhante a uma arena) cantando, brincando ou participando de concursos diversos. É uma estréia que vale à pena conferir.

ALCIONE NA CULTURA

A cantora Alcione (a queridíssima "Marrom") é o destaque desta sexta-feira, no "Especial Musical" da Rádio e Televisão Cultura, às 21h. Ela vai estar cantando e tocando trumpete (aliás, toca muito bem). Os melhores momentos desse espetáculo são, por exemplo, quando Alcione canta "Edital", com o acompanhamento de um conjunto que fez com ela o recente (e bem sucedido) giro pelo Japão: o Banda do Sol. O programa tem a produção de Antonio Carlos Rebesco e conta com a sonoplastia de Armindo Ferreira. Não perca.

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 22, editoria Tevê, do Correio Popular, em 8 de fevereiro de 1984).




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Alegria e humor

Pedro J. Bondaczuk


O escritor – notadamente o contemporâneo, mas também o do passado, inclusive os tidos e havidos como “clássicos” – imita o jornalista (embora o preceda em milênios, já que jornalismo é uma atividade de no máximo dois séculos) e enfatiza, em 90% ou mais de sua produção, o negativo. Contos, novelas e romances destacam personagens problemáticos, tarados, homicidas, exsudando maldade por todos os poros (os seus invariáveis vilões), em detrimento do positivo, do bom, do alegre, do construtivo, enfim. Vocês já notaram como os “heróis” da história são sempre chatos? Da maneira como são descritos, chegam a ser inverossímeis. O escritor passa, com isso, a impressão de que “tudo” no mundo é e sempre foi negativo, trágico, corrupto e que a maioria das pessoas tende mais a ser vilã e que assim sempre será. Será?

Perguntei, várias vezes, a colegas escritores a razão desse tipo de opção. “Ora, se eu escrever sobre o positivo, o bonzinho, o alegre, estarei produzindo obras adocicadas, ‘água com açúcar’, que não atrairão nenhum leitor”. Não deixa de ter razão. Somos condicionados, mesmo, desde crianças, a atentar mais para o mal, até para podermos nos prevenir, do que para o bem. Há livros que, de tão negativos, chegam a doer, a nos causar mal-estar durante a leitura. São verossímeis? São! São válidos? Também são! Mas não há nenhuma regra que determine que um escritor, a pretexto de ser “realista”, extrapole a realidade, carregue nas tintas e escreva “apenas” textos negativos.

Para não parecerem histórias “água com açúcar”, a tentativa de abordar personagens e temas positivos, alegres e construtivos é tarefa de gigantes, destinada a gênios. É difícil, eu sei. E como sei! O sujeito para fazer isso e ainda assim despertar o interesse do leitor tem que ter muito talento, ser muito bom no que faz, praticamente um gênio. Há vários que fizeram isso e se deram bem. Oportunamente, mencionarei vasta relação dos que lograram essa façanha. Mas, por hoje, não.

A vida das grandes metrópoles, nesta época especial da História, já é, por si só, caracterizada pela angústia. Torna-se cada vez mais raro surpreender-se alguém com um sorriso de genuína satisfação nos lábios. O cotidiano é composto por correrias, preocupações com contas, com luta por uma posição melhor, por verdadeira batalha por esse lema, extremamente vago e de sentido ambíguo, que se denomina “vencer na vida”.

Para cada pessoa, isto tem um significado diferente. Os meios de comunicação, por outro lado, entre os quais incluo os livros e, por conseqüência seus produtores, os escritores, a pretexto de pintarem o quadro do que se convencionou classificar de realidade, passam, na verdade, mensagens negativas ou surreais. Entendem, certos profissionais (e certos homens de letras), que a comunidade está ávida somente por notícias ruins; por enredos repletos de ações violentas com muitos socos e tiros e mortes, por crimes, escândalos, aberrações sexuais e outras tantas distorções de comportamento do animal homem. Só o negativo é manchete. Só o negativo compõe enredos de romances, contos, novelas, peças teatrais e roteiros cinematográficos. Por quê?

Dificilmente alguém conseguirá explicar isto de maneira plausível e minimamente lógica, a não ser que esse tipo de texto (e de uns tempos para cá, principalmente de imagens), atrai o público, desperta interesse e é vendável. Olhando a questão apenas pelo aspecto comercial, quem se utiliza dessa argumentação, tem razão. Mas não se dá conta que com isso dissemina o medo, a desconfiança, a angústia, as neuroses etc.etc.etc.

Embora, amiúde, me utilize de temáticas de cunho negativo, confesso que, no fundo, no fundo, não a aprecio. Aliás, detesto-a, abomino-a, tenho horror dela. Ela me faz mal. Deixa-me mau-humorado, pessimista e tenso, e torna a leitura, que sempre me foi algo sumamente prazeroso, uma tortura, dependendo, óbvio, do texto que estiver lendo. Quanto a filmes... minha preferência, disparado, é para os que me fazem rir.

Cresci deliciando-me com as trapalhadas do “Gordo e Magro”, de Carlitos, dos Irmãos Marx e de tantos outros que me desopilaram o fígado e provavelmente, apenas pelo fato de me fazerem rir, me proporcionaram alguns anos a mais de vida. Por que os escritores não conseguem essa façanha? Por que são tão poucos os que me fazem rir (já que gargalhar, até hoje, ninguém conseguiu)? Certamente não é por incompetência. Talvez seja por preguiça ou por medo de tentar.

Anatole France constatou, em determinado trecho do romance “O manequim de vime: ” ... Todas as nossas misérias verdadeiras são íntimas e causadas por nós mesmos. Acreditamos erradamente que elas vêm de fora, mas formamo-las dentro de nós, da nossa própria substância”. Como essas coisas ruins formam-se em nosso interior, não podemos e não devemos atuar como agentes de contágio, disseminando a “doença” do pessimismo, da descrença, da tristeza, do rancor e do derrotismo.

O poeta William Butler Yeats recomenda: "Unifique seus pensamentos a marteladas..." É isto... Agimos, em geral, sem pensar em profundidade em nossos atos e suas conseqüências. Não pensamos de maneira unitária. Nossas idéias são dispersas, vagas, contraditórias. Temos que unificá-las...Mesmo que a "marteladas"... Os verdadeiros prazeres, aqueles que justificam uma existência, são simples e gratuitos. Estão ao alcance das mãos de qualquer um que os queira usufruir. No entanto, complicamos tanto a nossa vida! No entanto, nos afligimos por tão pouco! No entanto, tentamos, na maior parte do nosso tempo, agarrar sombras! Não agimos assim, é evidente, por masoquismo, pelo prazer de sofrer ou então por maldade. Achamos, até mesmo, e com sinceridade, que estamos agindo certo. Mas não estamos. Principalmente quando passamos adiante nossos temores, nossas tristezas, nossas misérias e nossos demônios interiores.

Devemos viver com alegria e otimismo cada dia da nossa vida, mesmo (ou principalmente) aqueles momentos de aflição e de dor, que todos temos em nosso caminho quando menos esperamos. Mas temos que ser coerentes e contagiar milhares, milhões, o maior número possível de pessoas, com idéias e aspirações positivas, alegres e construtivas, eivadas de esperança e, com a força do nosso talento, tornar textos com essas características atrativos de sorte a fazer de nossos livros best-sellers.

Recorro, novamente, a Anatole France, que definiu com rara precisão qual é, de fato, a grande missão do escritor. Escreveu: “O artista deve gostar da vida e mostrar-nos que ela é bonita. Se não fosse ele, duvidaríamos disso”. Aliás, “também” por causa dele, hoje, duvidamos disso. Todavia, mesmo que você não creia, uma postura alegre e positiva torna mais suave a travessia até dos instantes muito ruins que eventualmente nos atormentem e que, como tudo na vida, também são passageiros.

Não conheço uma única pessoa, por mais amarga e infeliz que seja, que não defenda, pelo menos da boca para fora, a alegria. A diferença é que tais indivíduos consideram que essa condição é para os “outros”, não para eles. Ou seja, não vivem o que pregam. São dos que deixam implícito o célebre “faça o que falo, não o que faço”. Daí serem tão amargos, tão mal-humorados e tão negativos. Apostam na infelicidade e, por conseqüência, são, de fato infelizes. Artur da Távola indaga, com pertinência, a propósito: “Do que adiantará um discurso sobre a alegria se o professor for um triste?”. Sim, de que vai adiantar?!

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Sunday, October 30, 2011










Como toda a arte, a poesia acompanhou os novos tempos e as mudanças de comportamento das pessoas, influenciadas pelo tempo e pelo meio em que vivem. Esta é uma época de angústias, de incertezas, de perigos de toda sorte face à violência urbana que campeia por aí e, sobretudo, (e paradoxalmente diante da superpopulação mundial), de solidão. A perplexidade substitui o encantamento. A mulher deixou de ser aquela figura frágil e diáfana, romantizada pelos poetas de um passado não muito remoto. E os padrões de beleza, válidos no século XIX e boa parte do século XX, por exemplo, hoje soam como coisas pueris e piegas. Mas, ainda assim, o poeta encontra beleza no meio do caos. Em vez de fixar os olhos nas águas podres do pântano, prefere contemplar a lua, que se reflete nelas.

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Presente de Natal


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Direito torna-se utopia

Pedro J. Bondaczuk

A Organização das Nações Unidas propõe, ainda para este ano que já está chegando ao fim, uma ação conjunta internacional para algo que ainda não passa de utopia (e que provavelmente sempre será), embora seja um dos direitos fundamentais do homem, consagrados em sua Carta Constitutiva firmada pela totalidade de seus Estados-membros: a erradicação da pobreza no mundo.
Indicadores de várias agências da ONU e de outros órgãos particulares, no entanto, revelam que a situação de miséria de bilhões de pessoas – mais precisamente, de dois terços dos habitantes do Planeta – se torna uma questão cada vez mais urgente. Em vez de sofrer redução, aumenta de maneira contínua, dramática e perigosa.
De tanto a solução dos problemas ser adiada para um tempo que não se sabe quando vai chegar (se chegar) e para uma geração de um futuro vago e bastante remoto, estes continuam se acumulando, se agravando, ganhando dimensões monstruosas. Já atingiram o ponto da intolerabilidade.
Há, hoje, "quatro mundos", aceitos quase que consensualmente e citados a todo o instante por estudiosos do comportamento, separados entre si por abismos que se alargam e que ameaçam se tornar intransponíveis, por compartimentos estanques. No topo, há cada vez menos pessoas, de número decrescente de países. Na base? Está o resto da humanidade.
A tecnologia agrícola e a engenharia genética (que melhorou as linhagens de grãos e de animais utilizados como alimento) permitem uma produção crescente de comida, suficiente para alimentar todos os habitantes da Terra e com sobras. No entanto, estimativas conservadoras são de que em torno de 800 milhões de indivíduos são afetados na atualidade pela fome.
Este, de acordo com documento divulgado pela comissão pontifícia Cor Unum, do Vaticano – a organização que coordena as ajudas econômicas da Santa Sé – é o maior "escândalo" dos nossos tempos, marcados, convenhamos, por fatos escandalosos, escabrosos, tenebrosos e terríveis em profusão. É o maior desafio que o homem tem à sua frente e que precisa se dispor a vencer, antes de aspirar ao objetivo maior, de erradicar a pobreza.
Não existe ninguém mais pobre do que aquele que não tem sequer o que comer. E os que vegetam nestas condições não são um, dois, dez, cem, mil. Ascendem a milhões. No Brasil, com o advento do Plano Real, de repente, o assunto deixou a mídia, que freqüentou por certo tempo.
É como se ocorresse um súbito "milagre", que tornasse a mesa do brasileiro – de todos e de cada um deles – senão farta, pelo menos suficiente para satisfazer suas necessidades vitais. Não foi, certamente, o que aconteceu.
Até há dois anos, faziam-se campanhas por todo o País para arrecadar alimentos para os famintos. Dizia-se então que havia 35 milhões deles. Outros contestavam essa cifra como exagerada e afirmavam que o número não passava de 15 milhões. Mas a quantidade é o que menos importa. Um único ser humano que morra de inanição já se constitui em escândalo para a sociedade que permitiu que isso ocorresse. A questão não é quantitativa, mas ética.
Como "milagres" não ocorrem a toda a hora (e com tamanha profusão), o que certamente aconteceu foi que o tema fome, de tanto ser repetido, "cansou". Deixou de ser original e, portanto, de dar manchetes. Perdeu a preferência dos políticos, que passaram a procurar assuntos que estivessem mais na moda.
Foi de fato o que ocorreu? Ou todos os quase 158 milhões de brasileiros passaram a ter o que comer? Certamente que não! É até provável que, a despeito de se apregoar que o Plano Real teve efeitos milagrosos, o número de famintos (que ninguém sabe quantos são) tenha aumentado. É caso para se conferir.
O documento do Vaticano, de 75 páginas, intitulado "A fome no mundo. Um desafio para todos: o desenvolvimento solidário", foi divulgado a propósito da Reunião de Cúpula Mundial da Alimentação, convocada pela ONU para Roma, prevista para ser realizada de 13 a 17 de novembro próximo.
Nesse encontro, chefes de Estado e de governo prometem assumir um compromisso (mais um?) para erradicar em longo prazo esse flagelo que acompanha o homem desde o seu surgimento sobre a Terra. Em quanto tempo? Um milênio? Dois? Dez? O ideal é que fosse ainda neste ano, pois há condições para isso. O que falta? Todos sabem... é redundante repetir.
O citado relatório enfatiza que a fome mundial é causada não por algum eventual esgotamento dos recursos do Planeta que, mesmo tão judiado, continua correspondendo às necessidades dos seus habitantes (de todos eles, tanto os já existentes quanto os que virão).
Aponta uma série de causas, desde as estruturais (como a dívida externa e programas de ajuste que os países devedores são obrigados a adotar e que se refletem somente nos humildes e desprotegidos, a maioria) às morais, envolvendo egoísmo, omissão, corrupção, etc.
O documento destaca que acabar com a fome é um desafio para toda a humanidade e não somente de ordem econômica e técnica (de facílima solução), mas principalmente ética, espiritual e política. Nesse último caso, aponta distorções, tão nossas conhecidas, como a explosão populacional (dada a paternidade irresponsável), concentração de recursos financeiros em pouquíssimas mãos e a reforma agrária.
Só por isso, o objetivo da ONU, proposto para 1996 – eleito para ser o Ano Internacional para a Erradicação da Pobreza – é utópico. Não no sentido de que não seja factível, mas no de que, com certeza, não será realizado, por não empolgar a presente geração (não, pelo menos, os que têm poder e capacidade de decisão).
Mário Donato, no ensaio "Utopias e o sonho azul da Colônia Cecília", publicado em abril de 1983 no suplemento "Leitura", do "Diário Oficial do Estado", pergunta: "Utopia? Que é uma utopia no consenso atual?". E apressa-se a responder: "Algo de paradisíaco e de inefável. Tão bom que se faz inexequível". Este, no entanto, é o sentido moderno conferido ao termo.
As utopias são realizáveis, desde que haja vontade e empenho. É perfeitamente possível, por exemplo, evitar a morte de 50 crianças por minuto (conforme estimativas) de fome, subnutrição ou doenças causadas por esta. São vidas preciosas que se perdem, talvez Beethovens, Leonardos da Vinci, Alberts Schweitzer, Alberts Sabin ou São Franciscos de Assis em profusão.
Não será com congressos, com conferências, com palestras ou com reuniões de cúpula que o problema vai ser solucionado. Tais eventos só vão servir de palanques aos políticos, para que exponham, em âmbito bastante amplo, suas vaidades e aspirações pessoais mesquinhas. Há providências simples que podem e devem ser tomadas e não são.
Embargos de alimentos são criminosamente usados como forma de punição a povos inteiros, como são os casos de Cuba e do Iraque, quando não deveriam ser. Determinadas políticas recessivas perversas são crescentemente implantadas, apenas para atender interesses de minorias.
Há condições para a instituição de um fundo internacional de alimentos, de um estoque de segurança, que poderia e deveria ser distribuído nas regiões críticas. Os custos seriam ínfimos, se comparados ao que se gasta na produção e comércio de armas. Mas isto não interessa aos que assumem a postura de "donos do mundo"
Para que tal medida desse certo, seria preciso que não houvesse corrupção, o que é outra utopia. Ela existe... E nem ganância... E nem a busca a qualquer custo pelo poder e por sua conservação... Para eliminar esses desvios de caráter e de comportamento seria preciso que se criasse um novo homem que fosse, de fato, o "Homo Sapiens" que se apregoa e não este arremedo de ser racional que habita atualmente o Planeta.

(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio Popular, em 25 de outubro de 1996)

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Preferido de Obama

Pedro J. Bondaczuk

O escritor irlandês, Joseph O’Neil, está na crista da onda. Em recente entrevista à imprensa (em abril de 2011), o presidente norte-americano, Barack Obama, confidenciou que ele está entre os seus autores prediletos. Convenhamos, trata-se de enorme divulgação e não apenas nos Estados Unidos. Certamente, após essa revelação presidencial, muita gente, mundo afora, certamente está curiosa para saber porque o homem mais poderoso do mundo aprecia esse romancista, que até tem certa ligação, indireta, com o Brasil. Afinal, aprendeu o nosso idioma, o português, quando tinha, apenas, três anos de idade. Deve expressar-se muito bem, portanto, em nossa bela e expressiva língua.
Bem, é verdade que não a aprendeu em nosso país, onde nunca esteve. Nunca esteve, todavia, em breve estará entre nós, pois foi convidado (e aceitou o convite) para comparecer à próxima Bienal do Livro no Rio de Janeiro, onde com certeza será a principal ou uma das principais atrações. Mas o país em que Joseph O’Neil aprendeu português foi em Moçambique, com pronúncia, por sinal, bem diferente da nossa. Contudo, não deixa de ser o mesmo idioma nosso, com suas naturais variantes.
Esse aprendizado ocorreu em tenra idade. O escritor irlandês, diga-se de passagem, foi uma espécie de cigano, de “globe trotter” desde pequenininho. Se não, vejamos. Nasceu na Irlanda, em 1964 (tem, portanto, 47 anos, com “muita lenha para queimar”), como eu já disse. Foi, todavia, educado na Holanda. Mas não foi só. Registra, também, passagens pela África do Sul, por Moçambique, pelo Irã, Turquia, Inglaterra (viveu em Londres) e finalmente Estados Unidos, tendo fixado residência na Nova York pós-11 de setembro, onde vive e trabalha, em 1998. Como se vê, não exagero quando o comparo a um cigano.
Sobre como começou a falar nosso idioma – que, convenhamos, não é lá muito fácil de aprender, principalmente para as pessoas de fala inglesa, mas para todos os outros também – O’Neil explica como isso aconteceu: “Quando era criança, com dois ou três anos, vivia em Moçambique. Minha primeira piada foi em português. Minha mãe me colocou na cama, apagou a luz e disse que era hora de dormir. Eu disse ‘muito obrigado’. Foi minha primeira piada. Não é muito engraçada, mas é curiosa”. Aliás, convenhamos, não tem a mínima graça mesmo. Mas... deixa pra lá.
Uma das características mais mencionadas, pelos que o conhecem, da sua personalidade e de seu modo de ser, é o seu bom humor. Pontos para ele. Pessoas ranzinzas e mal humoradas são chatas de doer, por maior que seja sua eventual genialidade. Da minha parte, fujo de gente desse tipo. Acredito que vocês também fujam. Quem não fugiria? Mas o sortudo irlandês esbanja bom humor.
O livro de Joseph O’Neil que fascinou o presidente norte-americano é o romance “Terras baixas”, que está sendo lançado no Brasil. Com divulgação adequada, certamente fará, aqui, o mesmo sucesso que vem fazendo nos Estados Unidos. Ainda mais com uma recomendação como esta, ou seja, do próprio Barack Obama. Aliás, na terra de Tio Sam o interesse por essa história é tão grande, que ela já está sendo adaptada para o cinema por Sam Mendes. Era mais do que previsível que isso viesse a ocorrer.
E o que esse romance tem de tão especial para chamar a atenção, até, de um presidente norte-americano, uma pessoa tão ocupada com tantas e tamanhas responsabilidades? De acordo com os críticos (dos Estados Unidos e daqui), o livro de O’Neil “capta o espírito do tempo da Nova York pós-ataque de 11 de setembro de 2001”.
A história aborda a trajetória de dois imigrantes nesta que é uma das metrópoles mais complexas e cosmopolitas do mundo. Estes dois personagens, contudo, são absolutamente diferentes um do outro, e em tudo: um é branco, rico, de procedência européia e o outro é pobre e, conforme foi ressaltado por um crítico, “escuro como coca-cola”. Essa diferença racional e a forma com que o romancista lida com ela provavelmente foi uma das coisas que atraíram a atenção de Obama (embora eu não possa garantir, claro).
O romance é considerado, quase que consensualmente (e consenso, nestes assuntos, é praticamente impossível), um dos melhores tratando das reações e comportamentos dos novaiorquinos e dos que vivem nessa metrópole, vindos de todas as partes do mundo, no período pós-11 de setembro. Os que conhecem bem a cidade e sua gente garantem que eles são muito diferentes de antes da destruição das torres gêmeas do World Trade Center. É bom que se diga que praticamente todos os demais livros que trataram do tema se constituíram em fracassos editoriais. Por que? Sabe-se lá!
Mas o romance “Terras baixas” já nasceu para brilhar. Além de best-seller, conquistou um dos mais importantes e cobiçados prêmios literários dos Estados Unidos, o “PEN/Faulkner Award” de 2009. Não me surpreenderei nem um pouco se ganhar o Pulitzer nos próximos anos.
Agora, adaptado para o cinema, e ainda mais contando com essa espécie de aval do próprio presidente norte-americano, salvo engano, o potencial de sucesso de Joseph O’Neil e seu romance parece não ter limites. Quem me dera que a presidenta Dilma Roussef conhecesse os meus livros, os lesse e os apreciasse, manifestando, publicamente, essa apreciação. Sonhar, afinal de contas, não paga imposto (ainda). Êta irlandês sortudo que é este sujeito! Sortudo e talentoso, é claro.

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Saturday, October 29, 2011










"A função do poeta é dar às palavras o seu valor harmônico e criar de novo, com o auxílio delas, associando-as, substituindo-as, surpreendendo-as em posições inéditas, o ar de mistério de que originariamente se cercavam". Estas observações foram feitas, há mais de sessenta anos, por André Maurois, no livro "Vozes da França", a propósito de Paul Valéry. São, no entanto, mais do que válidas e atuais nos dias que correm. Trata-se de uma das raras (e mais lúcidas) definições sobre o papel desse tipo de escritor, um tanto confuso na cabeça dos leigos. Mas a definição melhor é a da norte-americana Edith Sitwell, quando constata: "Como Moisés, o poeta vê Deus na sarça ardente, quando o olho físico, míope ou mal aberto, só vê um jardineiro queimando folhas". Trata-se, pois, de um mago que, com o frágil instrumento da palavra, cria mundos de beleza e de emoção.

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Presente de Natal

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Frágil

Pedro J. Bondaczuk

Frágil:
a fragilidade
é característica
dos sonhos,
dos ideais,
da nossa lida,
das convicções,
da vida...

Frágil
como delicada
taça de cristal
que se rompe
a um toque
desastrado.

Frágil
como a pétala
de uma flor
arrancada
da corola,
como borboleta
guardada
como troféu,
como beija-flor,
como amizades
como o amor.

Frágil
qual recém-nascido
abandonado
ao próprio
destino.

Frágeis
são nossas
crenças,
mutantes,
incertas,
volúveis,
cessantes.

Frágeis
são nossos
sonhos
à mercê
das circunstâncias.

Frágeis
são os ideais
de igualdade
fraternidade
e solidariedade
adstritos
às ambições.

Frágeis
são meus
versos loucos
dependentes
de emoções
voláteis.

Frágil
é minha tristeza
minha alegria
minha certeza,
minha agonia,
pois frágil mesmo
é minha poesia.

Frágeis
os amores
unilaterais
estéreis e sem
correspondência.

Frágil,
criatura querida,
é esta estrutura
metamorfoseada,
ora jovem,
ora envelhecida,
porquanto
fragílima
é nossa vida.

Frágil é tudo:
o universo,
as estrelas,
o tempo
e o vento,
pois, creia,
a fragilidade
é a característica
dos sonhos,
da realidade,
da mentira,
da verdade,
dos ideais,
das artes,
da ciência
da filosofia
de tudo, enfim
da existência.


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Maldição ou privilégio?

Pedro J. Bondaczuk


A questão da importância do talento para se ter sucesso em qualquer atividade é muito controversa e polêmica. Há os que juram que sem ele é até impossível sequer cogitar, mesmo que remotamente, em êxito no que estivermos fazendo, seja lá o que for. Uns dizem que nascemos com essas aptidões naturais e que basta aplicá-las na atividade para a qual formos vocacionados para atingirmos a excelência em nossas obras. Outros, todavia, discordam, Garantem que sem aprimoramento, sem treino constante e diligente, o talento estaciona, estiola, murcha e morre.

Mas a questão que mais me intriga, notadamente em alguns escritores (e vários deles bem sucedidos), é o fato de muitos considerarem a vocação de que são dotados de “maldição”. Seria mesmo? Seria uma coisa tão ruim e nefasta e, pior, da qual a pessoa não poderia se livrar quando não mais a satisfizesse e quando melhor a aprouvesse? Discordo enfaticamente dessa posição. Considero o gosto pela literatura, e mais do que isso, o talento para exercê-la bem, com competência e proficiência, enorme privilégio. A maioria das pessoas não só não sabe tratar das grandes questões, como é incapaz até mesmo de se comunicar minimamente por escrito. Essa ignorância, sim, deve ser deplorada.

O escritor Thomas Mann, um dos clássicos da literatura alemã, escreveu no livro “Tonio Krueger – A morte em Veneza” (Boa Leitura Editora): “A literatura não é profissão alguma, e sim uma maldição...” Caso tenha se referido ao retorno econômico dessa atividade, não deixa de ter lá certa dose de razão. Há outras tantas muito mais rentáveis e menos exigentes do que o trato das letras, posto que nem sempre fascinantes. Não, pelo menos, mais do que essa maravilhosa aptidão de comunicar pensamentos e sentimentos, de relatar fatos, de gerar fantasias, de difundir conhecimentos etc. com este instrumento frágil e volátil, que é a palavra.

Ademais, ninguém obriga ninguém a fazer da literatura seu meio de vida. Quem abraça essa atividade fá-lo por amor, por convicção, por opção pessoal e nunca por obrigação. É fato que algumas pessoas nascem com talento maior para determinadas coisas do que outras. No entanto, se não desenvolvê-lo, se não estudar, não treinar, não exercitar essa aptidão, não forem aplicadas e autodisciplinadas, esta não surtirá nenhum efeito.

O artista, em especial o poeta, desenvolve com anos de exercício a capacidade de explorar sutilmente o subconsciente à cata de emoções que lhe sirvam de matéria-prima para maravilhosas obras de arte. Sons, imagens, odores, sensações agradáveis ditadas pelos cinco sentidos, são transformados por esses criadores (que valorizam e dão nobreza à vida humana) em melodias, telas, esculturas, palavras que formam metáforas bem ajustadas e harmoniosas. Com o talento de que são dotados, nos transmitem suas emoções, às quais agregamos as nossas, ditadas por nossa própria experiência pessoal. Mas isso apenas será verdadeiro se vier a desenvolvê-lo. Reitero, se burilá-lo através do estudo, desenvolvê-lo, pelo treinamento e consolidá-lo, pelo exercício.

Uma das mais belas e profundas parábolas de Cristo fala justamente sobre a distribuição de talentos – no caso específico, o nome de uma moeda da época, mas que, em sentido metafórico, simboliza as aptidões naturais com que somos dotados (ou deixamos de ser). Quem recebeu a maior quantidade, o primeiro dos servidores, aplicou-a e dobrou-a. O segundo servo, que ganhou uma quantia mediana, igualmente fez bom uso desse capital e o multiplicou. Todavia, justo quem foi menos aquinhoado, não soube o que fazer com o patrimônio.

Enterrou seu talento e teve que devolver essa única moeda recebida, ficando sem nada. E ainda foi repreendido por sua falta de iniciativa. O mesmo ocorre no mundo. Os mais talentosos, em geral, têm autodisciplina para desenvolver novas habilidades. Os tacanhos preferem encolher-se e ficar reclamando das injustiças. E acabam por sumir, sem deixar pegadas. São esses que consideram sua vocação, posto que pequena, como maldição. Por que? Porque não sabem o que fazer com ela. Ou porque não entendem bem sua natureza e alcance, superestimam-na e, claro, se frustram.

O homem pode criar arte até com o próprio corpo, com sua vida, com sua experiência pessoal, embora esta pareça fútil, trivial e sem importância. Quem sugere esse caminho é Jorge Luís Borges. "Devemos fazer com que as circunstâncias miseráveis de nossa vida se tornem coisas eternas ou em vias de eternidade". Caso apliquemos na devida medida nosso talento nessa empreitada, encontramos satisfação que dinheiro algum paga. Nossas experiências pessoais, por mais corriqueiras que pareçam, podem ter grande importância para nossos companheiros "de aventura", para as pessoas do nosso tempo e, principalmente, para as gerações futuras. As mesmas fraquezas que detectamos em nós e que buscamos esconder dos outros, para não deslustrar a nossa "imagem", são as dos que nos rodeiam, que igualmente as escondem.

Só a arte tem o condão de nos revelar a genuína grandeza do ser humano (em termos potenciais), a transcendência da vida e a beleza em toda sua majestade e magnitude. Por meio dela, com a sua linguagem simbólica, realçada pelo talento, é que expressamos, sem enganos, dissimulações ou temores, os grandiosos ideais, individuais, e coletivos (os da humanidade), esquecidos no dia-a-dia. Aqueles mesmos que nos empolgaram um dia, na juventude, mas que, na luta feroz do cotidiano, pelo pão nosso de cada dia, na batalha inglória pela sobrevivência, deixamos, pouco a pouco, se esvair e se perder no meio do caminho.

Uma citação pitoresca, acerca do talento, notadamente para as artes, foi escrita por William Faulkner e enseja inúmeras interpretações. O romancista norte-americano escreveu: “Um artista é uma criatura guiada por demônios. Não sabe porque esses demônios o escolheram e geralmente está muito ocupado para indagar a respeito”. Prefiro esta outra constatação, a de John Irving, no livro “A prayer for Owen Meany”: “Se você tiver a sorte de encontrar um meio de vida de que goste, precisará ter a coragem para vivê-la”. É isso que entendo que seja a aplicação dos talentos, da parábola de Cristo, que tende a fazê-los render, se não economicamente, em outra instância, a que mais nos importa: em satisfação! O que é, afinal, a vocação para as artes (ou para qualquer outra atividade)? É maldição ou privilégio? Ora, ora, ora...






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Friday, October 28, 2011










A grandeza do ideal de servir o próximo, de maneira altruísta e espontânea, foi definida, com rara maestria, no poema "Esquema", de Moacyr Félix. Ah!, os poetas! Estes seres clarividentes, que enxergam muito além das aparências, mediante o filtro da sensibilidade! Dizem os citados versos: "Contemplar é o trabalho dos deuses./Os homens: fazem./Os homens domam a natureza,/esforçam-se para dialogar com as várias fomes/e caçam os animais e também caçam os sonhos --- e morrem". Existe uma definição mais sucinta, e simultaneamente mais lírica, da nossa missão no mundo, do que esta? Se existir, desconheço.

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Anos dourados, mas nem tanto...


Pedro J. Bondaczuk


A década de 1950, como qualquer outra deste violento século XX, foi marcada por acontecimentos que, analisados em conjunto, podem ser considerados até rotineiros na vida dos povos. Teve, como as demais, suas guerras, revoluções, ações terroristas, heróis e vilões. Conheceu as primeiras conquistas espaciais, com os históricos vôos dos Sputniks, um deles levando a bordo a cadelinha Laika. Conviveu com tragédias e despertou angústias e fobias nas pessoas. Guardadas as devidas proporções, foi tudo, mais ou menos, como é hoje.

O período, obviamente, também marcou diversas alegrias, pessoais ou coletivas, não importa. No primeiro caso, cada um tem a sua para recordar. No coletivo, por exemplo, tivemos a primeira conquista de uma Copa do Mundo, por parte do Brasil, nos gramados da Suécia, despertando a euforia nacional. A própria vida, no final das contas, é assim. Temperada de ansiedades e decepções e de ilusórios sucessos. No final das contas, admitindo ou não, consciente ou inconscientemente, todos acabamos chegando à mesma conclusão de Salomão. A de que tudo no mundo não passa de um elenco de vaidades.

Entretanto, os dez anos mágicos da década de 50, onde a "guerra fria" muitas vezes chegou a esquentar os ânimos dos líderes das nações, levando o mundo a perigosos impasses (que por muito pouco, em dadas ocasiões, não fizeram com que tudo acabasse voando pelos ares, numa única e gigantesca explosão nuclear), foram convencionadamente chamados de "dourados" por algumas pessoas. Certamente porque elas misturam ideais irrealizados e fantasias insepultas com fatos, projetando tudo isso, ligado entre si por uma indisfarçável saudade de si próprias, no plano do presente.

Pois foram esses anos que a Rede Globo começou a mostrar, no correr desta semana, numa minissérie escrita por Gilberto Braga. O que importa nessa apresentação não é tanto o enredo, mas o clima em que a história se desenvolve. E este foi habilmente captado, passando para o telespectador de qualquer idade o modo de ser desse período, despertando diferentes lembranças em cada um. Nos velhos, a nostalgia do tempo perdido, que só a memória pode recuperar e assim mesmo, apenas fragmentos.

Nos quarentões de hoje, a rebeldia que os impulsionava e que muitas vezes reprovam agora em seus filhos. E os jovens da atualidade, que nem sequer haviam nascido então, podem identificar, nitidamente, através desse poderoso recurso audiovisual que é a TV, como eram de fato os seus pais. Certamente eles estão concluindo que pouca coisa mudou nestes trinta anos, no que diz respeito ao essencial. Os acontecimentos, é óbvio, foram diferentes, mas as carências (materiais e afetivas) e as contradições conservaram-se no tempo.

Mas como cada geração tem seu espaço e como os avanços tecnológicos propiciam que estas mais recentes possam recordar, com nostalgia, os fatos que mais as marcaram, é natural que os jovens da década de 50 (quarentões na de 80) reservem esse período para si e o considerem muito especial. Para estes, o tempo tratado na minissérie merece ser chamado de "anos dourados".

Foi a época dos bailinhos de sábado, onde os moços buscavam se auto-afirmar, conquistando as recatadas moçoilas, que ao contrário de hoje, precisavam, por força das convenções, assumir uma atitude passiva nesse aspecto. Foi também o período dos pesadões (mas confortáveis) carrões importados, símbolos de grande "status" e de prosperidade (o Brasil ainda não possuía a sua indústria automobilística). Das noites de namoro no cinema, cujas estrelas eram mitos e viravam a cabeça da rapaziada, despertando inconfessáveis sonhos eróticos. De Marylin Monroe, Brigitte Bardot, Gina Lolobrigida, Grace Kelly e Sophia Loren, entre outras das tantas "deusas" das fantasias juvenis. De James Dean e a "Juventude Transviada", gerando emulações nos modos de falar, de se vestir, de se pentear, de andar e de se comportar. De Elvis Presley, Bill Halley, Chubi Checker, Paul Anka e tantos outros, que bradavam, num ritmo alucinante, o grito de liberdade da juventude.

Não há dúvida que a Globo está conseguindo passar por inteiro esse clima da época para o telespectador. Quer nos trajes, quer no linguajar, no penteado, na forma de agir. Tudo na minissérie lembra os anos 50, com os sonhos que despertou, as angústias e aborrecimentos que trouxe. Méritos, principalmente, à direção de Roberto Talma e a um elenco excelente, onde despontam as atuações seguras de alguns jovens como Isabela Garcia, Malu Mader, Rodolfo Bottino e Felipe Camargo e veteranos do porte de Betty Faria, Milton Moraes e Nívea Maria. Destaque, sobretudo, à figurinista Helena Gastal, que reviveu com fidelidade a complexa moda daquele tempo.

A minissérie possui todos os ingredientes para ser a melhor produção no gênero de 1986. Fala de uma época relativamente recente, que a maioria de nós viveu, aborda comportamentos que conhecemos e principalmente, desperta lembranças inolvidáveis e divagações fantasiosas em nós, os telespectadores. Enfim, nos compromete, acumplicia, envolve na história. E acaba por nos convencer que aqueles foram de fato "anos dourados" deste século da violência.

(Artigo publicado na página 10, Arte & Variedades do Correio Popular, em 10 de maio de 1986)




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Livros em série

Pedro J. Bondaczuk

Há escritores que se especializaram (e se consagraram) em escrever livros em série, com histórias diferentes, mas envolvendo sempre um mesmo personagem central. Claro que essa “figura” tem que ser, digamos, “carismática” e, principalmente, cair no gosto do leitor. Parece fácil, não é verdade? Contudo não é. Houvesse a facilidade que alguns supõem que haja, muitos romancistas, presumo que a maioria, optaria por esse procedimento.
É verdade que não são poucos os escritores que adotaram (e ainda adotam) essa linha temática, esse fio condutor. Posso citar, por exemplo, o caso de Sir Conan Doyle, com sua dupla tão conhecida (há quem ache, inclusive, que se tratem de personagens de carne e osso e não inventados pelo autor), Sherlock Holmes e Doutor Watson. Querem mais um, ou melhor, no caso mais uma? A grande dama dos contos policiais e de mistério, Agatha Christie, é exemplo característico disso, com o enigmático, baixinho, feioso, careca, mas eficiente detetive Hercule Poirot. Aliás, ela escreveu diversas séries e criou, portanto, vários personagens que “estrelaram” mais de uma aventura.
Seriam só esses dois a se valerem desse recurso. Longe disso. Citaria, nesse caso, um outro britânico, como os dois mencionados, que foi Ian Fleming, com seu dinâmico, elétrico e que muitas vezes descamba para o mágico (e até inverossímil) Agente 007. Limito-me a estes três, por serem, disparado, os mais conhecidos dos escritores que recorreram, com sucesso, a esse expediente, criando personagens que se tornaram “cults” e que engordaram, logicamente, suas respectivas contas bancárias.
Claro, se forçarmos a memória, lembraremos centenas de outros autores (provavelmente muito mais) que optaram por esse exercício e se deram bem. Para que o sucesso que alcançaram fosse viável, era indispensável que seus livros anteriores esgotassem várias edições. Se fossem fiascos, evidentemente, inviabilizariam a sequência. Sem o sucesso comercial, seria impossível não só transformar a história inicial em série, mas, provavelmente, publicar qualquer outra obra. Afinal, para o desgosto dos puristas, editar livros é um negócio (do ponto de vista de vendas) como outro qualquer. Requer rentabilidade e retorno do investimento. Ou não?!
No Brasil, o caso mais característico de enredos seriados foi o de Monteiro Lobato. E ele não criou apenas um personagem forte para viver “n” aventuras, mas vários, como Dona Benta, Tia Anastácia, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Marquês de Rabicó e, principalmente, sua grande estrela, a bonequinha de pano, falante (e põe falante nisso!) e cheia de artimanhas, que foi a Emília. Escreveu para crianças, mas conquistou todos os tipos de público. Pudera! Era um gênio literário.
Esse procedimento, ou seja, o de utilizar um (ou vários) personagens “fortes” em diversas histórias, implica em inúmeros riscos e requer, por conseqüência, toda a sorte de cautelas. O autor, por exemplo, tem que cuidar para não se contradizer. Ou seja, para não descrever, num livro, o tal personagem como sendo alto e em outro, como baixo. Ou loiro em um volume e mulato no outro. E vai por aí afora. E não só isso. Tem que cuidar para não se repetir.
Os livros em série mais em evidência, atualmente, são os da hiper, super, mega bem sucedida escritora britânica J. R. Rowling, com seu incrível e notável Harry Potter. Há já bom tempo essa coletânea de histórias se tornou obsessão, mania, febre , loucura virtualmente mundial, quer nas livrarias, quer nas telas do cinema.
A série da também inglesa, Stephenie Mayer, com seu séquito de vampiros, lobisomens e quetais, igualmente conquistou multidões, e também nos cinemas. O que acho desse tipo de literatura? Como entretenimento, aprovo-o plenamente. Divirto-me com livros com essas características. Já como fonte de idéias que me suscitem reflexões.... Bem, deixa pra lá!
Uma das estrelas em evidência dessa forma de ficção é uma norte-americana. Trata-se de Sara Shepard, que a exemplo dos outros escritores que mencionei, vem esgotando edições após edições com sua série “Pretty Little Liars” , vagamente centrada em sua experiência de vida, notadamente da sua juventude na Filadélfia. Os enredos centram-se nas aventuras de quatro adolescentes, que têm que driblar misteriosa perseguidora, conhecida como “A”. De fato, ela não ameaça a vida dos quatro jovens. Sua ameaça é a de revelar seus segredos mais sombrios que, se revelados, arruinariam suas reputações.
Dos dez livros da série, apenas os quatro primeiros já chegaram ao Brasil, ou seja “Maldosas”, “Impecáveis”, “Perfeitas” e “Inacreditáveis”. Curiosamente, como vocês certamente notaram, é que todos os títulos, de cada um dos quatro volumes, são constituídos por uma única palavra. E não somente os desses que foram traduzidos para o português, mas também os dos outros seis, que ainda não foram: “Wicked”, “”Killer”, Hearthless”, “Wanted”, “Twisted” e “Ruthless”.
Sara Shepard prepara-se para capitalizar, ainda mais, seu sucesso editorial, mas agora na televisão. No entanto, para isso, não irá adaptar sua tão bem sucedida série “Pretty Little Liars” para a telinha. Ela já prepara uma nova, intitulada “The lying game”. Seu plano é que esse seriado seja composto por apenas quatro volumes, mas todos a serem adaptados para a TV.
O enredo vai centrar-se em duas irmãs gêmeas, separadas na maternidade logo após o nascimento. O primeiro desses livros já está pronto e a história completa, em capítulos, será exibida pela Rede ABC. A estréia, inclusive, já tem data marcada: 15 de agosto de 2011. Será sucesso na certa. Isso é que é saber promover livros, o resto é conversa pra boi dormir.
A TV, certamente, divulgará ainda mais não apenas a série mostrada na telinha, mas também a anterior, “Pretty Little Liars”. E Sara está errada em proceder assim e fazer tamanho estardalhaço? Não, não e não! Claro que não! Afinal, quem foi que determinou que é proibido um escritor ganhar dinheiro (e, no caso, muito dinheiro) com o fruto do seu talento, do seu trabalho e da sua imaginação?!

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Thursday, October 27, 2011










Uma das minhas escritoras favoritas na literatura brasileira é Cecília Meirelles, cuja obra caracteriza-se pela coerência, pela linearidade e pela uniformidade. Três constantes podem ser observadas em todas as suas poesias: o oceano, o espaço e a solidão. Seus versos (salvo raras exceções), são curtos, leves, com um ritmo suave e musical, onde as imagens, com uma riqueza luxuriante, tornam-nos extremamente acessíveis e claros, conduzindo o leitor a uma visualização imediata daquilo que a autora pretendeu transmitir. Mas melhor definição para a passagem dessa fantástica poeta entre nós é ela própria que dá, nos versos finais do poema “Memória”: “Vejo as asas, sinto os passos/de meus anjos e palhaços,/numa ambígua trajetória/de que sou o espelho e a história./Murmuro para mim mesma:/”É tudo imaginação!”/Mas sei que tudo é memória...” Lindo, não é mesmo?

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Boca Quente



SÃO SILVESTRE

A equipe de esportes da Globo, assídua freqüentadora desta coluna no ano passado, parece destinada a repetir a dose em 1985. As três "mancadas" que observamos na semana passada foram da emissora. A primeira ocorreu durante o especial "A Noite dos Campeões", enfocando a 60ª Corrida de São Silvestre. O apresentador Leo Batista, num cochilo provavelmente do redator, deu a nota destoante desse excelente programa. Ele até que vinha bem, falando das conquistas do atletismo e ressaltando que muitos corredores já conseguiram baixar a marca dos 10 segundos para os cem metros rasos. O comentário que fez a seguir é que foi um primor. Disse: "Sabem o que é isso? Correr cada metro em menos de um segundo?". Só que cometeu um erro de cálculo. Ele queria dizer: "correr cada metro em menos de um décimo de segundo". Um metro em um segundo, qualquer amante de "cooper", ou corredor de fim de semana, consegue fazer.
A segunda "mancada" viria do "pai da matéria", Osmar Santos, durante a transmissão da São Silvestre, quando disse que a vencedora, entre as mulheres, foi "Rosa Motta, portuguesa de Portugal". Essa foi de doer!!!
Finalmente, já abrindo o ano, uma "brincadeirinha" do diretor de imagem da emissora viria estragar um interessante e sucinto documentário sobre o Campeonato Mundial de Fórmula Um, no "Globo Esporte", que fazia um retrospecto dos principais fatos esportivos de 1984. De repente, ele aumentou a velocidade de projeção das cenas mostradas, que ganharam características de um filme do Carlitos, ou qualquer outro pastelão da década de 20, menos o de uma reportagem séria. Pelo jeito, a equipe de esportes da Globo ainda vai freqüentar por muito tempo este espaço. Ou não?

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 22, editoria de TEVÊ, do Correio Popular, em 9 de janeiro de 1985).

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Traduzir poesia é como recompor

Pedro J. Bondaczuk

A cidade de Campinas, que em 14 de julho de 2011 completou 237 anos de fundação, tem consolidada tradição cultural, notadamente artística, e envolvendo todas as artes, como música, pintura, escultura, literatura etc. Essa característica vem de longe, praticamente do seu surgimento neste Planalto Paulista (ou quase). Nela nasceram, também, notáveis escritores, além de outros tantos terem-na eleg ido como lugar ideal para viver, trabalhar, produzir, criar etc. É uma cidade não apenas acolhedora, mas inspiradora.

Entre os mais notáveis homens e mulheres de letras campineiros, todavia, destaca-se (e sem nenhum demérito aos demais) a figura majestosa, imponente e venerável de Guilherme de Almeida Tratei, dia desses, desse prolífico poeta, reproduzindo trechos de preleção que fiz sobre ele na Academia Campinense de Letras. Peço licença, agora, para voltar ao assunto – o que julgo para lá de oportuno por ocasião deste aniversário da cidade. Desta vez, no entanto, tratarei de outra faceta de Guilherme de Almeida – tão importante quanto a de escritor, de poeta – que é a de tradutor.

Traduzir qualquer obra literária de um idioma para outro é tarefa titânica, muito mais complexa do que possa parecer à primeira vista, em especial aos mais desavisados, não afeitos a esse exercício. Não basta a quem se proponha a realizar a tarefa que conheça a fundo as duas línguas com as quais terá que lidar, embora isso seja o mínimo que se espere dele. É desejável que seja, também, escritor, capaz, portanto, de detectar, captar e transcrever algumas (na verdade todas) nuances que normalmente escapam ao olhar desatento do leigo.

Se traduzir um romance, um conto, uma novela ou mesmo um ensaio já se constitui numa façanha, em magnífica empreitada, imaginem a complexidade, (que se multiplica por um milhão) na tradução de poemas. A linguagem poética tem características próprias, peculiares, muito diferentes das formas de expressão usuais. As palavras têm um peso diferente, muito maior, e cada uma delas, cada qual em seu idioma. Um equívoco, por mínimo (ou ínfimo) que seja, na versão de qualquer delas, não raro arruína todo o poema. E essa tradução “arruinada” às vezes finda, até, por expressar exatamente o oposto do que o autor expressou.

Defendo, pois, que para traduzir poesia não há ninguém mais habilitado, e qualificado, do que um poeta. E os nossos mais consagrados – Manuel Bandeira, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade, apenas para citar os de maior renome – foram, também, exímios tradutores, assim como foi José Paulo Paes. Todos eles, porém, não se limitaram a verter as palavras do idioma original para o português. Daí o valor dos seus trabalhos. Virtualmente “recompuseram” os poemas traduzidos, como se os estivessem compondo, mantendo, todavia, rigorosamente intacto o sentido, o espírito da composição original, a emoção de um momento, posto que em outros termos, de outra língua.

Guilherme de Almeida foi primoroso tradutor, notadamente das obras de poetas franceses (mas não só delas). Todo esse falatório deste editor tomado pela emoção, por esta data tão relevante para a cidade que há 51 anos o adotou, é para registrar o lançamento (eu diria, relançamento) de uma obra imperdível aos amantes da boa poesia. Refiro-me ao livro “Poetas de França”, cujo lançamento original ocorreu em 1936, e que acaba de ser relançado pela Babel Editora. São 224 páginas preciosas, “ouro puro”, com seleção e tradução de Guilherme de Almeida de poemas escolhidos a dedo de 31 dos mais notáveis e inspirados poetas franceses.

Lá estão versos imortais de clássicos como François Villon (o “poeta-bandido” medieval, mas gênio na arte de poetar), de Paul Valéry, Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine, Pierre Charles Baudelaire e tantos outros, que ao longo dos anos, atravessando gerações, fizeram, e fazem a delícia dos amantes da poesia. Reitero a característica peculiar desse tradutor de mão cheia. Virtualmente, Guilherme de Almeida “recompôs”, um a um, cada poema incluído no livro. E, para que não pairassem dúvidas a propósito, a edição é bilíngüe, com a publicação de poemas em francês, de um lado, e a correspondente tradução para o português do outro.

Trata-se, pois, de coletânea que, reitero, cada página é “ouro puro” e de 24 quilates, Mais do que mero livro, é uma preciosidade bibliográfica, obrigatória para constar na estante de todo leitor culto, sensível e, sobretudo, de bom gosto. Não vou, todavia, privá-los de pelo menos fazerem uma ligeira “degustação” desse banquete de sensibilidade, que é a coletânea “Poetas de França” na tradução (e reitero, “recomposição”) magnífica de Guilherme de Almeida. Selecionei a esmo (porquanto o livro tem unidade qualitativa absolutamente impecável) o poema abaixo, de Pierre Charles Baudelaire, para o seu deleite (e o meu também, não tenham dúvidas).

O gosto do nada

Pierre Charles Baudelaire

“Morno espírito, antigamente afeito à luta,
a Esperança que te esporeava outrora o ardor,
não te cavalga mais! Deita-se sem pudor,
cavalo que tropeça em tudo e em vão reluta.

Dorme, ó meu coração; desiste, ó massa bruta!

Espírito vencido, em ti, velho impostor,
já não tem gosto o amor, nem o tem a disputa;
não mais a voz do cobre ou da flauta se escuta!
Deixa esta alma sombria, o Prazer tentador!

Perdeu a Primavera o seu cheiro de flor.

E o tempo me devora em marcha resoluta,
como a ampla neve um corpo rijo de torpor;
contemplo do alto o globo túmido e incolor;
e nele nem procuro o abrigo de uma gruta!
Vais levar-me, avalancha, em tua queda abrupta?”.



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Wednesday, October 26, 2011










Carl Sagan, na sua obra “O mundo assombrado pelos demônios”, que data de 1996, constata: “Se somos apenas céticos, as novas idéias não conseguem penetrar em nossa mente. Nunca aprendemos nada. Se somos tão abertos a ponto de ser crédulos, não podemos distinguir as idéias promissoras das que pouco valem. Aceitar acriticamente toda noção, idéia e hipótese professada equivale a não conhecer nada. As idéias se contradizem umas às outras; somente pelo exame cético podemos decidir entre elas”. Ou seja, a recomendação é a de que “pensemos”. É a de que exerçamos, integralmente, sempre, todos os dias, em todas as horas, e em cada circunstância, esta que é a principal característica humana: o raciocínio, o “ato espiritual”, no seu sentido mais grandioso e profundo que torna esse ser minúsculo na “imagem e semelhança de Deus”, neste complexo e misterioso mundo da matéria.

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À beira-mar

Pedro J. Bondaczuk


Sentado à beira mar.
Rocha estática.
Espumas molhando os pés.
Deus primitivo.

Vento ululante,
a sibilar, raivoso.
Sentado à beira mar,
olhando o mar,
sem, contudo, vê-lo,
era rocha estática,
protótipo de firmeza.

Passou o vento.
Passaram ondas.
Passaram horas.
Passaram dias,
meses, anos,
séculos, milênios,
mas nada mudou
na rocha imóvel.

O tempo, com seu
buril de escultor,
desgastando o fluido
e a matéria concreta,
com sua fúria insana
de destruição e caos,
poupou a rocha imóvel.

Sentado à beira mar,
com minhas tristezas
e sonhos falidos,
rocha estática,
eu era estátua
de pedra e sal
de um deus primitivo.


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Ainda sobre perguntas

Pedro J. Bondaczuk

Tratei, recentemente, do tema que se refere a questionamentos. Ou seja, do método socrático de se chegar à verdade, de se aprender qualquer coisa e de se resolver problemas, aparentemente complexos, mas que após solucionados mostram que “o bicho não era tão feio” quanto pensávamos, mediante perguntas. Minha abordagem na ocasião foi genérica. Não se centrou em nenhuma atividade específica, embora eu tenha enfatizado a importância do ato de perguntar em especial para nós, jornalistas e, mais especificamente, para os repórteres, e por razões óbvias.
De passagem, todavia, mencionei que o método socrático é, também, sumamente útil (se não indispensável) no planejamento e concretização de um livro. Nesse aspecto, contudo, fui questionado por um leitor, o que me deixou bastante satisfeito. Primeiro, por me comprovar que, ao contrário do que chego a pensar em alguns dias, não estou “pregando no deserto”. Há quem leia estas reflexões diárias e com a devida atenção que espero. A segunda é que, para esclarecer suas dúvidas, se utilizou exatamente do método que propus em meu texto. Ou seja, o de perguntar.
Antes de demonstrar quanto os questionamentos importam, são úteis e são essenciais, peço licença para fazer três citações a propósito, pinçadas do excelente livro “Pense melhor”, de Tim Hurson (DVS Editora) – que torno a recomendar e sobre o qual tive oportunidade de tecer comentários – pela relevância do seu conteúdo. A primeira é do filósofo inglês, Francis Bacon, que escreveu: “Uma pergunta prudente é metade da sabedoria”. A razão dessa constatação é óbvia. Até porque, salvo em raras ocasiões, a prudência é e sempre será muito bem vinda.
A segunda citação que reproduzo é do dramaturgo Eugene Ionesco (sobre o qual também tive a oportunidade de escrever), que afirmou: “Não é a resposta que ilumina, mas a pergunta”. E ele sabe o que diz. Essa afirmação aproxima-se mais um pouco do assunto que vou tratar, ou seja, o da importância do questionamento no planejamento e produção de um livro.
Finalmente, a terceira citação é até mais específica ao leitor que me questionou. Ele iniciou seu e-mail da seguinte forma: “Desculpe-me se minha pergunta for tola...”. Fique tranqüilo, não é. Contudo, mesmo que fosse, seria válida. Aliás, teria a validade até multiplicada. Isso, pelo menos a julgar pela declaração de Alfred North Whitehead. Ele defendeu que “a pergunta tola é o primeiro indício de algum avanço totalmente novo”. No seu entender (e também no meu) o questionamento aparentemente (ou de fato) despropositado, enseja a busca e a solução inusitados de determinado problema.
Um escritor, tão logo tem aquele lampejo, eufemisticamente conhecido como “inspiração”, ou seja, quando conclui que determinado tema, se bem explorado, pode gerar um livro, quem sabe um best-seller, se questiona: “Isso dá um romance ou uma novela? Quem sabe, seja apropriado a um poema. Ou, talvez, seja melhor tratado num ensaio”. Ou seja, pergunta-se: “Como escrever?”. O “o que” adveio da inspiração.
Decidido o gênero, surgem outros tantos questionamentos essenciais. Um deles é: “o que eu conheço do assunto?”. Mas a pergunta mais importante é: “o que desconheço?”. A resposta suscita outras tantas indagações, como “onde posso obter informações a respeito? Com quem? O que fazer para ter sucesso na pesquisa?”, e vai por aí afora.
Durante a redação, muitas outras perguntas, certamente, irão surgir, e serão as respostas a elas que irão dar alguma forma à matéria original, a tal da inspiração, que é como uma pedra de granito em bruto para um escultor, que se pergunta o que poderia esculpir naquele material.
Mas os questionamentos não param por aí. Chega a fase da revisão, do acabamento final, da forma definitiva que aquela vaga idéia inicial terá, ou seja, como, finalmente, chegará às mãos do leitor, seu legítimo e essencial destinatário. Revisar, quase sempre, é um processo de corte. E a primeira pergunta que surge é: o que cortar? E o que melhorar? O que está obscuro? O que é supérfluo no texto? E assim as coisas vão.
Sei que muito escritor dirá que não faz nada disso. Será capaz de jurar sobre a Bíblia que escreve diretamente, num só sopro e que, mesmo quando corta algumas palavras, ou parágrafos, ou trechos, ou até mesmo capítulos inteiros, o faz sem recorrer a esses e a nenhum outro questionamento. Mas se questiona. Pode ser que não verbalize essas perguntas. Pode até ser que nem tenha consciência desse auto-interrogatório. Contudo, até subconscientemente, faz, sim, estas (e outras tantas) perguntas. Não há como não fazê-las.
Concluído o livro, lá vem outro extenso rol de dúvidas. Por exemplo, como publicar o que se escreveu. Um escritor, afinal de contas, não escreve para si ou só para a sua família ou, no máximo, para um punhado de amigos. Fá-lo para o público e quanto mais amplo e numeroso este for, melhor. Portanto, a primeira pergunta que se impõe é: “Como publicar?”. Essa suscita uma outra: “Em que editora?” E os questionamentos sucedem-se e se multiplicam “ad náusea”, referentes à distribuição, à divulgação (entre as quais se faz ou não noite ou tarde de autógrafos), não raro à crítica etc.etc.etc.
Espero, com estas canhestras considerações, não ter frustrado o amável leitor que me questionou. Se não consegui convencê-lo (e espero tê-lo convencido), esteja certo que a falha não está na sua pergunta. Não, amigo, ela está longe de ser tola. O erro (se houver) está, obviamente, na resposta que lhe dei. Se achar oportuno, torne a me questionar, e quantas vezes quiser. Porquanto, é de exercícios dialéticos, como este, que emerge o conhecimento, a sabedoria e a verdade.


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Tuesday, October 25, 2011










Compartilho com você este provocativo texto, de autoria do escritor argentino Jorge Luís Borges, que diz: “Não há geração sem quatro homens retos, que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor. Um desses varões teria sido o juiz mais idôneo. Mas, onde encontrá-los, se andam perdidos e anônimos pelo mundo, e não se reconhecem quando se vêem, e nem eles mesmos sabem do alto ministério que cumprem?” É esse “reconhecimento”, essa identificação, essa integração dos “varões justos” desta geração que nos compete fazer, e valorizar, e juntar-se a eles para melhorar o mundo e torná-lo mais justo, mais humano e mais solidário. Quem sabe você não é uma dessas quatro pessoas retas? Afinal, discordo de Borges quando os nomeia como “varões” e não simplesmente como “pessoas”, sem discriminação de sexo.

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Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). –
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Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

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