Friday, February 29, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Queremos sempre, é óbvio, ser bem-sucedidos em nossos empreendimentos, sejam de que natureza forem. Mas para alcançarmos o sucesso, é indispensável que tenhamos objetivos a alcançar. Queremos ser bem-sucedidos no quê? Os objetivos tanto podem ser a conquista de um amor, quanto o cultivo de uma profunda amizade, a ascensão profissional ou social, a glória, o poder, a fortuna e assim por diante. Mas não basta impor metas, se não estivermos preparados para chegar onde queremos. O sucesso requer disciplina, preparo, competência e, sobretudo, persistência. Esses pré-requisitos são válidos para toda e qualquer empreitada. Antes de estabelecermos alguma meta, porém, é necessário que nos avaliemos com rigor, sem nos subestirmarmos e nem superestimarmos, conhecendo bem até onde podemos evoluir (sempre podemos melhorar em alguma coisa). Afinal, o escritor Gustave Flaubert constata que “o sucesso é uma conseqüência e não um objetivo”. E ele está coberto de razão.

Inundação de esperança


Pedro J. Bondaczuk

A esperança é fidelíssima companheira que nunca nos abandona, nem nos piores momentos e circunstâncias. Impede que venhamos a dar qualquer batalha por perdida – quer seja no amor, no esforço pela sobrevivência ou no empenho por um mundo melhor e mais justo – retemperando nossas forças, reacendendo o brilho e o fogo nos olhos e na alma e nos exortando a prosseguir.
Esperamos neste mundo e em outro que, mesmo que não exista no terreno concreto, passa a existir em nosso coração e mente. Abrimos mão de muita coisa, ao longo da vida, premidos pelas circunstâncias, mas jamais nos separamos dessa companheira dileta e leal, que independe de qualquer lógica ou razão, chamada esperança. E fazemos bem em agir dessa maneira.
Há pessoas, porém, tão desencantadas face aos sofrimentos que têm, aos tropeços que experimentam, aos fracassos que vivenciam e às decepções que colecionam, que asseguram não ter mais nenhuma esperança na vida. Estão erradas, claro. No fundo, bem no âmago de seus corações, escondidinhas, estas ainda se fazem presentes. Não há quem não as acalente, mesmo que secretamente, ou de maneira inconsciente.
Até mesmo os moribundos, que vislumbram o espectro da morte ao seu redor, esperam uma miraculosa reação do seu organismo e a recuperação. Sempre que uma esperança morre, face à dureza da realidade (e isso é bastante comum e até corriqueiro), outra nasce de imediato, silenciosa e até despercebida, porém mais forte e vigorosa.
Gustave Flaubert afirmou, pela boca de um dos seus personagens, que “a recordação é a esperança do avesso. Olha-se para o fundo do poço como se olhou para o alto da torre”. E o romancista francês está coberto de razão. Quando temos esperança, olhamos para o alto, na certeza de que, aquilo que tanto queremos, vai, de fato, acontecer, sendo apenas questão de tempo. Às vezes, nunca acontece. Ainda assim, a sensação que nos fica é das mais doces e promissoras.
Quando recordamos, porém, pensamos em algo que já passou, que aconteceu, que foi bom enquanto durou, mas que se acabou, sem chance de retorno. Considero, pois, a recordação muito mais frustrante e amarga do que a esperança. Mesmo que seja agradável, traz, em si, implícito, um sentimento de perda, de algo irrecuperável. A esperança, por seu turno, por mais louca que seja, nos abstrai da realidade, principalmente quando esta é amarga e dura, e sempre nos serve de bem-vindo consolo.
Não raro nos desesperamos por pouca coisa, e achamos que, para nós, nada mais faz sentido. Raros são os que sabem lidar bem com pontuais fracassos e eventuais frustrações. Nada como um dia depois do outro! O que conta, mesmo, é a vida que, apesar dos percalços e dos sofrimentos físicos e morais que eventualmente nos imponha, sempre vale a pena. Basta que atentemos para o seu real sentido e sua sublime transcendência.
Concordo com o que diz Érico Veríssimo, através de um dos seus personagens, no romance “Olhai os lírios do campo”: “Olha as estrelas. Sempre há esperança na vida”. Num universo tão imenso – de uma grandiosidade que a nossa mente até é incapaz de abarcar e entender – e embora não passemos, nele, de infinitésima partícula, temos o privilégio de existir. E de ter noção dessa existência. Por pior que seja a nossa situação, a solução para nossos males pode estar próxima, no segundo seguinte..
Cultivar esperanças, portanto, é um hábito saudável. Mas requer algumas cautelas, sem as quais corremos o risco de descambar para frustrações, amarguras, desilusões e profunda infelicidade. Por exemplo, devemos esperar o que seja possível, realizável, factível e alcançável e sem impor prazos para que isso aconteça.
Mas não podemos e nem devemos nos limitar apenas a esperar. Precisamos agir, com prudência e perseverança, no sentido de conseguirmos o que tanto desejamos, já que nada cai prontinho do céu em nosso colo. E, sobretudo, é conveniente que nos previnamos da possibilidade de que o que tanto esperamos não se concretize nunca, para que não nos frustremos.
Nesse caso, nada impede que substituamos uma esperança por outra, adotando, em relação a ela, as mesmas cautelas e cuidados que adotamos em relação à que não se realizou. Fernando Pessoa exorta e adverte a respeito: “Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas”.
O ser humano, obra-prima da criação, não foi feito, apenas, para viver um cotidiano tedioso e banal, em um mundo repleto de violência, misérias e injustiças. Todavia, para que alcance a grandeza que lhe foi destinada, para que conquiste a nobreza da qual possui pleno potencial, tem que mudar. Precisa evoluir, e muito, mental, espiritual e comportamentalmente. Tem que dominar seus instintos. Deve exercitar, em toda a sua plenitude, com constância e de forma incansável, a capacidade de amar. Precisa cultivar valores, como a bondade, solidariedade, justiça e fé e exercitá-los no dia a dia, transmitindo-os às novas gerações.
O poeta Mauro Sampaio diz isso de forma sábia e bela, nestes versos do seu poema “Esperança”: “Um dia/os montes se abaterão aos nossos pés/e levantaremos do chão as estrelas caídas!”. Compete ao ser humano identificar, valorizar e viver a plena felicidade, que existe, latente, dentro de si. E nunca, em circunstância alguma, guardando as cautelas que realcei acima, abrir mão da esperança. Nunca abra mão da sua, querido leitor!

Thursday, February 28, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Nossa geração é uma das mais sacrificadas da História, em determinados aspectos, mas em outros, é sumamente privilegiada. Levamos vidas cada vez mais intensas, numa correria infernal, em um Planeta superpovoado e competitivo, o que nos causa angústias, sofrimentos e muito estresse. Em contrapartida, contamos com recursos materiais que nenhuma outra contou, que nos conferem conforto, aptidões cada vez maiores e mais longevidade. É a lei de compensação. Will Durant escreveu a esse respeito, no livro “Filosofia da vida”: “Sofremos mais hoje que as gerações passadas porque o estímulo da maquinaria, da multidão, da coisa impressa e do barulho desgastou os tecidos protetores dos nossos nervos. Há compensações: esta sensibilidade em carne viva ergue-nos a uma sutileza de percepção e de coordenação muscular que somos capazes de fazer coisas absolutamente impossíveis aos homens primitivos e mesmo aos medievais”. Exemplo? Os recordes esportivos e as viagens espaciais.

Indefesos aos elogios


Pedro J. Bondaczuk


As circunstâncias da vida, não raro, nos separam das pessoas que mais gostamos: da amada, dos parentes e dos amigos. Com o passar do tempo, chegamos ao ponto de sermos esquecidos pelos que mais carinho nos dedicavam. E não se trata de falsidade. Isso ocorre por causa da atenção que precisam dedicar a uma nova realidade, que irá lhes exigir o máximo de concentração.
Fico pensando, cá com meus botões, quantos dos meus amigos atuais, que tanto apreço e consideração me dedicam, que me criticam, corrigem, orientam, mas também elogiam o que vêem de bom na minha conduta, obra e pessoa, um dia deixarão de manter contato comigo. Serão afetos a menos que me serão dedicados, o que reputo como imensa, senão irreparável perda.
Muitos, talvez, se lembrem eventualmente de mim. Outros, provavelmente, irão me esquecer de vez e quando meu nome for acaso mencionado, farão força, em vão, para se lembrar de quem se trata. Não se lembrarão. A vida é assim mesmo. É feita de encontros e desencontros, de perdas e ganhos, quer materiais, quer espirituais.
Ninguém gosta de ser criticado, ainda mais quando a crítica é impertinente e injusta. Mas gostamos de elogios, mesmo que não-merecidos e partidos de pessoas suspeitas para opinar a nosso respeito, ou seja, nossos amigos. Não raro, porém, nossos críticos, mesmo que tenham a intenção de nos destruir, nos prestam grande favor. Apontam nossas falhas, vulnerabilidades e contradições.
Se seus ataques forem injustos, todos perceberão e se solidarizarão conosco. Se as falhas que apontarem não existirem, servirão de alerta para que não as cometamos. Se forem pertinentes, possibilitarão que façamos correção de rumos e venhamos a nos aperfeiçoar. Já os elogios... são perigosos se não estivermos preparados para recebê-los.
Não há formas de saber se são sinceros ou não. É verdade que algumas bajulações são tão grosseiras e explícitas que até o mais ingênuo dos ingênuos as identifica. Outras, porém, são revestidas de tamanha sutileza que se tornam verossímeis. Nelas é que mora o perigo. Se não estivermos preparados para receber esse tipo de elogio, corremos o risco da acomodação. E, pior, de nos conservarmos em erro e descambarmos para o ridículo, se o que estivermos fazendo for errado ou inadequado. Por isso, não há como discordar de Sigmund Freud, que afirmou: “Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio”.
Buscamos, é fato, e com justiça, reconhecimento por nosso talento, virtudes, obras e boas ações. Trata-se de atitude normal e, sobretudo, humana, desde que não levada a extremos. Alguns, todavia, sofrem quando não são reconhecidos (ou entendem que não o sejam) na devida medida. Tolice. Temos é que confiar em nós e ter consciência do próprio valor, à revelia das opiniões alheias.
Quem pratica suposto ato de bondade, à espera de reconhecimento, ou de qualquer espécie de recompensa, na verdade não está sendo bom. Está, sim, sendo negociante, vendendo talentos e atos. Não devemos, pois, nos deixar cegar pelo orgulho e pela vaidade.
Não há regra fixa que nos garanta o êxito pessoal. O fator primordial para que qualquer empreendimento chegue a bom-termo é justamente o reconhecimento alheio. E esse é muito complicado para ser obtido. Aos nossos próprios olhos podemos ser sábios, valentes, nobres ou virtuosos. Mas isto apenas será verdadeiro, será consensual, será aceito se for reconhecido pelos que nos rodeiam.
Há pessoas que são afetadas por natureza e procuram mostrar, invariavelmente – em conversas e, principalmente, em atos – que são mais do que de fato são. A todo o momento, caem em ridículo, mas não se emendam. Continuam achando que são superiores a tudo e a todos. Quando alertadas a respeito, mostram afetação ainda maior, tornando-se desagradáveis, ou melhor, insuportáveis, e nem se dão conta disso. São o que o vulgo chama de “chatos”. Pedantes, convencidas, essas pessoas assumem ares de oniscientes e irritam o mais calmo dos calmos cidadãos. São dignas de pena, mas não percebem.
Há palavras que salvam, que constroem, que redimem e que consolam, registrando fatos e feitos históricos, expressando idéias, produzindo reflexões, desvendando sentimentos, despertando emoções e criando beleza. Mas há também as que matam, as que ferem, as que corrompem, as que destroem, as que despertam violência e ira e que produzem intensa dor. Depende de quem, quando e como as expressa. Há críticos, por exemplo, que acham que só fazem bem seu trabalho quando criticam, mesmo o que não seja criticável. Alguns sequer entendem o que estão criticando. E não agem assim por maldade, mas por puro hábito, quando não por ignorância.
É verdade, como alertou Sigmund Freud, que somos indefesos a um elogio. Mas nem sempre temos condições de nos defender de um ataque, como ele afirma, especialmente quando este vem de poderosos e de seu séqüito de puxa-sacos. Não nego que as críticas são úteis e necessárias para a nossa correção de rumos e nosso crescimento. Mas, cá pra nós, pouca coisa no mundo é mais agradável e compensadora do que um bom elogio, notadamente quando temos consciência de que somos merecedores dele. Quem é que não gosta de ser elogiado?

Wednesday, February 27, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Somos, do ponto de vista físico, seres bastante frágeis e, nesse aspecto, muito inferiores a tantos outros animais. Contamos, todavia, com um instrumento poderoso, que nos permite sermos senhores do Planeta: a inteligência. Temos capacidade de entender o que somos, onde estamos e para onde queremos ir. Fomos dotados do poder de controlar nossos instintos e direcionar nossos sentimentos. “E por que, então, somos tão miseráveis e vivemos tantos conflitos, acalentamos a maldade, a violência, a cobiça e tantos outros comportamentos, se temos consciência que são errados e nocivos?”, perguntarão alguns. Porque esquecemos de procurar o sentido da vida. Porque não questionamos, com a devida ênfase, a razão de estarmos vivos e de termos a capacidade de raciocínio e o poder de escolha. Temos, ainda, muito que evoluir para merecermos a designação de “humanos”. A poetisa Florbela Espanca garante a respeito: “Se penetrássemos o sentido da vida seríamos menos miseráveis”.

Biblioteca virtual


Pedro J. Bondaczuk


A era da informática tende a contribuir decisivamente para a racionalização da vida urbana, fazendo, por exemplo, sem esforço, aquilo que as autoridades vêm tentando fazer (sem grande sucesso, através dos inconvenientes, mas necessários, rodízios): tirar centenas de milhares de veículos motorizados das ruas, objetivando combater vários tipos de poluição (atmosférica, sonora, visual etc.). Como? Através das chamadas "cidades virtuais".
O cidadão já pode, se quiser, realizar operações do cotidiano, como pagar e receber contas, fazer depósitos e saques em bancos, comprar produtos em supermercados e lojas etc., sem sair de casa. Quando John Naisbitt previu, no livro "Megatendências", a possibilidade das residências se transformarem em extensões das grandes empresas e corporações, muitos viram na previsão novo exercício furado de "futurologia". Hoje, estima-se que pelo menos 200 mil norte-americanos já trabalhem em suas casas, com computadores bancados pelos seus empregadores. No Brasil, o número não é tão grande, mas já é bastante expressivo. Como se vê, o futuro já chegou!
Todavia, a mim, que sou um leitor compulsivo e obsessivo (ambos simultaneamente), o que mais me fascina, nessas “cidades virtuais” que percorro, diariamente, há pelo menos dez anos, são as suas bibliotecas. Obras raras, às quais pensei que jamais teria acesso – o que me causava, sem dúvida, imensa frustração e despeito – estão agora ao meu dispor, sem que eu precise sequer despender um único centavo (a não ser a taxa mensal do Virtua e, claro, a conta de luz). Fora o fato que não tenho que sair de casa para me dar esse prazer intelectual e esse privilégio cultural.
Com toda a despesa que eu possa ter com meu computador, sai, portanto, evidentemente, muito mais barato valer-me das bibliotecas virtuais, do que adquirir esses livros, não importa onde que, ademais, precisaria encontrar em sebos e/ou livrarias. Muitos, no entanto, estão, há anos, esgotados e não foram reimpressos há já décadas.
Em minhas recentes férias, por exemplo, pude ler, nas tantas “bibliotecas virtuais” que visito, cujos links estão entre os meus sites favoritos, os dois únicos romances de Machado de Assis que não possuo: “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”. Procedi, em relação a eles, como tenho feito em relação às outras tantas obras que possuo em minha razoavelmente bem sortida (de mais de quatro mil volumes), mas caótica biblioteca. Ou seja, elaborei as respectivas fichas de leitura (que faço questão de serem manuais, naquela minha letrinha miúda e exótica), anotando os trechos que considero fundamentais dessas obras-primas do “Bruxo do Cosme Velho”, como Machadão chegou a ser chamado na intimidade.
É verdade que a leitura na telinha do computador é mais cansativa do que em papel. Com o tempo, porém, a gente se acostuma. Para quem não se acostumar de maneira alguma, existe o recurso de gastar pacote e meio de sulfite e imprimir os livros que queira ler. Apesar dos pesares, prefiro o método novo. Ou seja, leio-os na tela do computador por achar que me concentro mais e sequer sobrecarrego a memória da máquina.
Quando quiser reler qualquer coisa, basta fazer o link da biblioteca virtual em que o tal livro estiver disponível, de forma rápida e direta, mais cômoda, até, do que ter que me levantar da minha cadeira e procurar determinado volume nas minhas abarrotadas e bagunçadas estantes. Essa procura seria demorada demais. Afinal, não tenho uma bibliotecária que ponha ordem nessa imensa mixórdia.
Nas estantes da minha biblioteca misturam-se, de forma aleatória e ilógica, tratados de filosofia com romances; poesia com livros de antropologia; ensaios com sociologia e o diabo a quatro. Não raro, em minhas pesquisas, chego a gastar um dia inteiro à procura de um determinado volume que, por obra e graça (mais graça, convenhamos) do tinhoso, via de regra está no lugar mais inacessível possível de determinada estante.
Já na biblioteca virtual isso não acontece. Basta acessar o índice dos livros disponíveis, dar um clique no mouse sobre o seu título e imediatamente o texto está sob os meus olhos. Outro livro que li, e com o qual me deliciei, nas férias foi “Brasil, país do futuro”, de Stefan Zweig. Abrindo um parêntese, garanto que não conheço abordagem mais lúcida, de nenhum escritor brasileiro, sobre o nosso povo, a nossa história e nossas potencialidades, do que as desse austríaco que se apaixonou perdidamente por nosso país. Pena que na atual geração poucas pessoas tenham lido essa obra, que recomendo, com entusiasmo, aos meus pacientes leitores.
Uma das maiores invenções de todos os tempos, que nós, pessoas modernas, não valorizamos devidamente, dada a facilidade de a obter (nem sempre foi assim, pelo contrário) é o livro. Ele permite o acúmulo de sabedoria, de experiências e de emoções de indivíduos especiais e possibilita o acesso a elas de gerações e mais gerações, por séculos e mais séculos (às vezes milênios) afora, após a morte destes. Agora, nesta incrível era da informática e, sobretudo, da internet, seu acesso tornou-se mais fácil ainda.
É verdade que o número de livros disponíveis nas várias bibliotecas virtuais que se multiplicam, internet afora, ainda é relativamente pequeno (creio que menos de 1%) em relação à quantidade de títulos lançados anualmente pelas editoras, em todo o Planeta, orçada, de forma bastante conservadora, em torno de 60 milhões. Ainda assim, quem ler “apenas” essas obras, e com a devida atenção e capacidade de apreensão, terá, certamente, cultura acima, muitíssimo acima da média. Que mundo fascinante a informática nos descortina!

Tuesday, February 26, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Não raro, entregamos o comando de nossas vidas a mãos alheias e, ao cabo de alguns anos, olhamos, desolados, para trás e percebemos que fomos um fracasso. Atribuímos, então, nossos insucessos e sofrimentos aos outros, quando os culpados fomos apenas nós. Compete-nos ter um plano de vida, um objetivo a ser alcançado, e batalharmos por sua consecução. Somos os únicos responsáveis por nós mesmos e não devemos entregar o leme do nosso barco a nenhum outro timoneiro. Temos um potencial imenso, que nos compete detectar e desenvolver. E ninguém pode fazer isso por nós. É uma tarefa exclusivamente nossa, pessoal e intransferível. O poeta e herói da unificação da Itália, Gabrielle D’Annunzio, escreveu a esse respeito: “É preciso fazer a própria vida como se faz uma obra de arte. É preciso que a vida de um homem inteligente seja produzida por ele. A verdadeira superioridade não passa disso”. Sejamos, pois, superiores. Assumamos o comando da nossa nau!

Calígrafos e caligrafias


Pedro J. Bondaczuk

“Que letra bonita que você tem, Pedrão!”, exclamou, dia desses, a Madalena, colega de trabalho, a propósito de um bilhete que lhe deixei sobre um determinado serviço pendente. Estranhei o elogio que, a esse propósito, registro, não foi o primeiro. Muitas outras pessoas já elogiaram a minha caligrafia, para o meu espanto. Sim, porque quando ainda criança, na escola primária, tive sérios problemas por causa da minha letra, um montão de garranchos assimétricos e anti-estéticos, não raro incompreensíveis até mesmo para o seu autor (no caso, claro, eu).
Corrigiria, portanto, a Madalena (e outros tantos que elogiaram a minha escrita: não o conteúdo, mas a forma): bonita, não! Exótica, seria a designação mais adequada. É certo que, a partir da 2ª série do antigo curso ginasial, modifiquei a minha forma de escrever. Passei a utilizar-me de letras de forma, miudinhas, o que me causou, na oportunidade, problemas tão grandes, senão maiores do que os que a maneira anterior de escrever vinha causando.
“Escreve direito, menino!”, disse-me, certa feita, meu professor de Português na época. E, por causa da letra, descontou-me dois pontos, em uma prova de gramática, na qual a classe inteira foi mal e em que eu deveria tirar nota 10, já que respondi com correção a todas as perguntas e não errei nenhum dos exercícios. Não tirei. Minha nota, na ocasião, foi um oito, o que me deixou frustrado, a ponto de me queixar à diretoria.
Por pura teimosia, continuei escrevendo daquela mesmíssima forma. “Afinal”, raciocinei, “o que vale é me fazer entendido”. O professor insistiu que aquela maneira de escrever não era a adequada. Chegou a me dar zero noutra prova que, na verdade, fora impecável. Fiquei perturbado, pois passei a correr iminentes riscos de ser reprovado numa matéria que sempre gostei e que sempre também me dei bem, tudo por causa de um simples capricho (meu e do mestre, convenhamos). Mas persisti em redigir daquela forma. Com o tempo, acabei ganhando a parada. Isso foi há exatos 50 anos (meio século, quem diria!), em 1958.
Hoje escrevo exatamente dessa forma que me trouxe aqueles problemas. Claro que se fosse “copista” – profissão de muito valor na antiguidade, antes da invenção de Johann Guttenberg – não seria aceito em nenhum monastério. Eram os monges os editores daquelas remotas eras (não tão remotas assim), assegurando a sobrevivência de textos e mais textos, para o nosso deleite e enriquecimento cultural. Jamais eu seria considerado um calígrafo! Não importa! Hoje sou mais do que mero “copiador”. Sou escritor!
A maneira que meu professor de Português, da 2ª série ginasial, queria que eu escrevesse, era utilizando esses caracteres manuais clássicos, que se aprendem (ou se aprendiam, não sei) nas cartilhas que nos ensinavam as primeiras letras. Qualquer pessoa, razoavelmente alfabetizada, a utiliza. Eu não! Não sei por que artimanha diabólica, nunca consegui escrever dessa forma. E, claro, não consigo ainda hoje.
Lembro-me da verdadeira batalha que minha saudosa professorinha do primeiro ano primário, Dona Helena, travava comigo, nas aulas de caligrafia. Meu caderno dessa matéria, com as respectivas pautas que dimensionavam o tamanho das letras (hoje, nem sei se ainda existem), era um circo dos horrores. Eram garranchos tortos e desproporcionais não somente feios, mas utilizando todos os superlativos conhecidos: horrendos, pavorosos, tétricos etc. etc.etc.
Com o uso, minha letra foi adquirindo forma e personalidade. Até que ficou engraçadinha. Mas bonita? Não! Longe disso! Exótica, isso sim! Minha obra jornalística e literária foi, em pelo menos dois terços, produzida em máquinas de escrever. O terço restante, brotou do computador, com o qual estou tão afeiçoado, que é como se eu tivesse nascido já usando essa utilíssima ferramenta. Mas nunca deixei de escrever a mão. Não textos para consumo externo, é óbvio, mas em minhas anotações e nos recados por escrito que às vezes preciso escrever (a colegas de trabalho, à mulher, aos filhos, à empregada). E não pense o leitor que é pouca coisa.
Olho para a minha biblioteca e vejo, alinhadas, em várias prateleiras, cinqüenta e sete agendas, todas repletas de textos, na minha letra miudinha e inclinada para a esquerda (e não se trata de ideologia, mas ao fato de eu ser canhoto). Trinta e oito delas são anotações esparsas, fichas de livros que li, poemas copiados alhures de livros que não pude adquirir, planejamentos de contos e romances etc. As dezenove restantes são meus diários dos últimos 19 anos, quando cismei que deveria manter o registro dos meus dias para a posteridade, caso me torne famoso e alguém queira escrever a meu respeito. Nunca se sabe, não é verdade? A probabilidade é que um dia esses registros todos irão alimentar uma bela fogueira. Contudo... pelo sim ou pelo não...
Por isso é que gosto tanto de crônica. Um simples elogio, ao acaso, feito por uma colega de trabalho, suscitou estas considerações, que não sei se terão importância ou validade para quem quer que seja. Nunca se sabe, não é verdade? A probabilidade é que o leitor vá torcer o nariz e dizer aos seus botões: “quanta bobagem!”. Ou que venha a postar um comentário furioso e malcriado, quando não ofensivo à minha inteligência, no espaço abaixo. Contudo... pelo sim ou pelo não...

Monday, February 25, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Quase sempre, com raras exceções, nosso maior adversário – aquele que nos impede de conquistar nossos sonhos e de obter a felicidade, que está bem ao alcance das nossas mãos – não são os outros: somos nós mesmos. É nossa dúvida a respeito do nosso potencial que nos inibe de agir. É a falta de esperança em dias melhores e mais risonhos que nos amarra. É nossa desconfiança patológica em tudo e em todos que não permite buscarmos ajuda quando necessária. É a ausência de fé e o comodismo, que nos impedem de fazer o que deve ser feito. Temos que lutar, e muito, contra tudo isso para superar esses obstáculos que, reitero, nós mesmos colocamos em nosso caminho. Precisamos combater o pessimismo, o mau-humor, o derrotismo, o medo e tantas e tantas outras bobagens que, insensatamente, colocamos na cabeça. “Para Carlos Drummond de Andrade (e, para mim também), portanto, “só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”. E este é o único tipo de luta que vale a pena travar!

Realidade e idealismo


Pedro J. Bondaczuk


A vida, por maiores que sejam as racionalizações a seu respeito, é, em todos os sentidos, um mistério. Os cientistas, que anunciaram, recentemente, a decifração do genoma humano, certos de que iriam, com isso, explicar esse maravilhoso fenômeno, não explicaram coisa nenhuma. Pelo contrário. Penetraram mais fundo no misterioso labirinto de dúvidas e de incertezas. Não esclareceram: confundiram. O extraordinário feito suscitou novas e múltiplas indagações, com raríssimas respostas aceitáveis.

Concluíram, entre outras coisas, que o número de genes do homem é muito menor do que se supunha, em torno de apenas 30 mil (só 300 a mais do que um camundongo, por exemplo). Outra conclusão foi a de que a diferença existente entre as bilhões de pessoas que já passaram por este planeta, não importando sua origem ou raça, é mínima. Noventa e nove vírgula nove por cento delas são intrínseca e absolutamente iguais. As características particulares, que distinguem uma pessoa da outra, são representadas por algo em torno de 0,1% de todo o código genético. Uma ninharia, convenhamos. Uma decepção, certamente, para os racistas.

Os decifradores do genoma concluíram, ainda, que um homem tem apenas o dobro dos genes de uma minhoca, por exemplo. E estes, tomados de forma isolada, são indistingüíveis nas duas espécies. O que, pois, torna esses seres tão diferentes? E por que há a diferença? A ciência não consegue explicar. Se a origem e natureza da vida são tão misteriosos, mais ainda é a sua finalidade. Por que nascemos? Há um fim predeterminado? Qual é? Quem o determina e por que? Podemos apenas especular a respeito. Jamais conseguiremos chegar a uma conclusão absoluta, definitiva, consensual e inquestionável.

Há, no mundo, dois grandes grupos de pessoas, com suas múltiplas, quiçá infinitas variantes: o dos que se dizem "realistas" e o daqueles que se consideram "idealistas". Ambos os conceitos, destaque-se, são ambíguos. Ninguém se enquadra, de forma absoluta, em nenhuma das duas classificações. Todos temos, em proporções diversas, uma mescla de idealismo e de realismo. Afinal, o que é a realidade? As coisas são, mesmo, o que aparentam ser? Não somos iludidos pela precariedade dos nossos sentidos e pela nossa pequenez, em um universo de dimensões aparentemente infinitas? Certamente que sim!

O poeta T. S. Elliot chega a afirmar que "o gênero humano são suporta a realidade" (supondo, é claro, que seja mesmo possível chegar a ela). Precisamos de sonhos, de fantasias, de ideais para dar sentido e razão à nossa vida. A propósito de idealismo, um dos seus mais ferrenhos e argutos defensores foi o psiquiatra e professor de Psicologia Experimental argentino José Ingenieros, considerado o último representante do Positivismo na Argentina, e que morreu em 1925.

Encontrei, não faz muito, numa estante, perdida entre algumas centenas de livros da minha caótica biblioteca, uma brochura muito antiga e judiada, que deve ter passado por milhares de mãos até chegar às minhas, desse moralista, que acreditava que o progresso é inviável sem ser fundamentado em ideais. Nesse precioso volume em espanhol, edição original, intitulado "El Hombre Medíocre", resume, em dois parágrafos, tudo o que venho tentando expressar, sobre idealismo, em algumas centenas de textos, ao longo de um quarto de século.

O interessante é que o livro está em meu poder há quase trinta anos, sem que eu me desse ao trabalho de o ler. Ganhei-o de um amigo, que garantia que, guardadas as devidas proporções, eu tinha idéias e posições parecidas com as de José Ingenieros. Li-o, num único sopro, no mês passado. E peço licença ao leitor para transcrever um trecho (na minha canhestra tradução do castelhano) que diz:

"O homem sem ideais faz da arte um ofício, da ciência um comércio, da filosofia um instrumento, da virtude uma empresa, da caridade uma festa, do prazer um sensualismo. A vulgaridade transforma o amor da vida em pusilanimidade, a prudência em covardia, o orgulho em vaidade, o respeito em servilismo. Leva à ostentação, à avareza, à falsidade, à avidez, à simulação; atrás do homem medíocre assoma o antepassado selvagem que conspira em seu interior, acossado pela fome de atávicos instintos e sem outra aspiração senão a saciedade.

Nessas crises, enquanto a mediocridade torna-se atrevida e militante, os idealistas vivem desorbitados, esperando outro clima. Ensinam a purificar a conduta no filtro de um ideal; impõem seu respeito aos que não podem concebê-lo. No culto dos gênios, dos santos e dos heróis, têm sua arma, despertando-o, assinalando exemplos às inteligências e corações; podem diminuir a onipotência da vulgaridade, porque em toda larva existe, acaso, uma mariposa.

Os homens que viveram em perpétuo florescimento de virtude revelam com seus exemplos que a vida pode ser intensa e conservar-se digna; dirigir-se ao cume, sem encharcar-se em lodaçais tortuosos; encrespar-se de paixão, tempestuosamente, como oceano, sem que a vulgaridade turve as águas cristalinas da onda, sem que o brilho de suas fontes se torne opaco pelo limo".

Há perfil mais detalhado e preciso do homem medíocre e, em oposição, do idealista, do que este? Basta observar o comportamento de ambos, o que, convenhamos, é tarefa das mais fáceis, dada a imensa quantidade desses que o poeta Affonso Romano de Sant'Anna classificou, com muita propriedade, de "idiotas da objetividade".

Sunday, February 24, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Há pessoas que nos parecem sempre tristes e que nunca vimos dar expansão a nenhuma espécie de alegria, como se houvessem sido condenadas a eterno sofrimento. O curioso é que a maioria é até privilegiada, sem grandes carências materiais, ou afetivas. Em geral, colocam seus desejos muito acima das possibilidades e se frustram. Isolam-se do mundo, encaram a vida como castigo e são candidatas potenciais a doenças, para as quais estão psicologicamente predispostas. E qual o antídoto para a tristeza? São vários, todos ao alcance de qualquer um de nós. Uma das condições, provavelmente a principal, é preencher a mente com pensamentos positivos e o tempo com atividades que não permitam pensar bobagens. Outra, é valorizar o que se é e o que se tem. É nutrir esperanças e ter fé de que a vida lhe será pródiga em satisfações. O escritor Gustave Flaubert nos adverte a respeito: “Cuidado com a tristeza. Ela é um vício”. De fato, é. Acautelemo-nos dela!

DIRETO DO ARQUIVO


Desenvolvimento deve ter prioridade


Pedro J. Bondaczuk


A República africana de Angola está próxima, bem às portas, de um fato absolutamente inédito em sua história de país independente: ter um período de paz. Essa possibilidade foi aberta ontem, em Gbadolite, no Zaire (a terra natal do presidente zairense, Mobuto Sese Seko), com o anúncio de um cessar-fogo nos combates entre o exército angolano, respaldado por cerca de 20 mil cubanos, e a Unita, guerrilha comandada por Jonas Savimbi e apoiada pelos Estados Unidos.

Pode ser muito pouco ainda, é verdade. Mas não deixa de ser o primeiro passo positivo. Afinal, a população desse país africano, de língua portuguesa, de 9,5 milhões de habitantes, desde 1956 (portanto há 33 anos) não sabe o que é viver pacificamente.

Primeiro foram constituídos três grupos de guerrilheiros para a luta pela independência. Quando esta chegou, no entanto, as facções não conseguiram unir esforços para a construção de uma pátria rica e forte. E sobretudo, livre. Passaram a lutar entre si, de forma dura e encarniçada.

Hoje, a situação de impasse chegou a tal ponto que, militarmente, nenhum dos dois lados têm condições de dar o golpe fatal e decisivo que lhe assegure a vitória. Por essa razão, vários líderes africanos prepararam um plano de paz, apresentado agora numa reunião de cúpula levada a efeito no Zaire.

Caso ele seja bem sucedido, e o primeiro passo foi dado ontem, com o cessar-fogo, vai ser uma grande, imensa e importantíssima vitória da democracia continental. Representará, sobretudo, a maturidade política da África, quando a maioria de suas nações parte para a terceira década de independência e a segunda geração de líderes começa a surgir. E pelo visto, esta tende a ser mais pragmática, menos presa a ideologias e a revanchismos em relação aos antigos colonizadores.

Angola tem tudo para desenvolver-se e contribuir para o desenvolvimento de seus parceiros e vizinhos mais pobres. Mas precisa de estabilidade. Necessita de paz para poder investir recursos, que já não são muitos, em infraestrutura. Principalmente na educação e na saúde.

Neste último aspecto, o que ocorre no país é uma lástima. Por exemplo, uma epidemia de cólera varreu, no ano passado, o seu território, deixando pelo menos cinco mil mortos. A guerra civil espantou seus melhores cérebros. Muita gente preparada e criativa foi viver em Portugal e alguns de seus médicos, professores, engenheiros e pesquisadores vieram parar no Brasil.

É indispensável que essa elite pensante seja atraída de volta, com garantias de que terá liberdade de movimentos e paz para trabalhar. Só assim Angola poderá vir a ser considerada um país viável.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 24 de junho de 1989).

Saturday, February 23, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A tendência à acomodação é um dos maiores (senão o maior) obstáculos ao progresso, seja em que campo de atividade for. Sempre que concebemos algo de novo, e o concretizamos em obra, achamos (até inconscientemente) que chegamos ao limite da novidade. Deixamos, daí para a frente, de nos empenhar por novas criações, a maioria bem ao alcance das nossas mãos, dependendo, apenas, de persistência. Esta é regra geral e válida não apenas para cientistas, escritores, filósofos e artistas, mas para todas as pessoas, não importa qual sua qualificação ou aptidão. Ocorre que a criatividade não tem limites. E quanto mais novidades descobrirmos, mais haverão por serem descobertas. Claro que há exceções. E quem foge dessa regra é, com toda a justiça, classificado de “gênio”. É por isso que pessoas geniais são raridades. O enciclopedista francês, Denis Diderot, constata, a esse propósito: “Só Deus e alguns gênios raros continuam a avançar pelo campo da novidade”.

O mestre da vida


Pedro J. Bondaczuk


O tempo é mestre, inflexível, diligente,
que cria, mas depois destrói, ilusões,
ensina, peremptória e severamente
conduta e toda a sorte de lições.

Grava, a ferro e fogo, seus ensinamentos,
tanto a má conduta, quanto a meritória
(ora com alegrias, ora tormentos)
em nossa carne, gestos, olhos, memória.

Enfatiza a importância do agora,
distingue o supérfluo do profundo,
nos induz a valorizar cada hora
e cada tic-tac de um mísero segundo.

Pouco importam as alegrias passadas,
perdidas em algum instante ou lugar,
e nem as frustrações não equacionadas
e sequer as chances perdidas de amar.

São passado, como páginas já lidas,
folhas escritas de um caderno de rascunho
são emoções já sentidas, exauridas,
bilhetes não enviados de próprio punho.

E sequer importa a aurora do amanhã,
por mais que se planeje ou que se trabalhe,
o futuro desperta esperança vã
pois é embrião de um tempo sem detalhe.

Tão só o presente
é vivo, dinâmico,
(é força atuante)
ativo, mecânico.

Tão só o presente
é vivo, real,
é força atuante
pro bem ou pro mal.

Pois o mestre tempo,
que a todos limita
e traça um destino,
na mente, na carne,
na minha atitude,
nos gestos, nos olhos
e nas emoções
ensina, inflexível,
valiosas lições!


(Poema composto em Campinas, em 9 de novembro de 1974).

Friday, February 22, 2008

REFLEXÃO DO DIA


O noticiário do dia a dia, com seus dramas e contradições, induz-nos a achar que o mundo piorou bastante de uns tempos para cá e que, a cada dia, piora mais. Bobagem. Em certos aspectos, o comportamento humano até que melhorou. Violência, miséria, cobiça, injustiças, guerras e exploração do fraco pelo mais forte sempre existiram. Surgiram com o próprio homem. Ocorre que a população mundial se multiplicou a velocidades vertiginosas e, com isso, os personagens envolvidos nos dramas cotidianos são, hoje, em muito maior número. No século XIX, por exemplo, os jornais estavam recém-engatinhando. Não tínhamos rádio e nem televisão e a internet não existia sequer em sonhos. Os meios de transporte eram morosos e as notícias levavam meses até chegar às pessoas. Hoje... Por isso, concordo com o ensaísta Gilbert Keith Chesterton, quando conclui, num de seus marcantes ensaios: “Não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”.

Túmulo do samba


Pedro J. Bondaczuk

O poetinha Vinícius de Moraes gostava de zoar os paulistas (pelos quais, na verdade, tinha muito carinho e admiração). Ficou célebre a sua afirmação – que sempre que citada é colocada fora de contexto passando a impressão de uma hostilidade que nunca existiu – que São Paulo era o “túmulo do samba”. Claro que o bom boêmio carioca sabia que isso não era verdade. E quanto mais os paulistas se revoltavam com essa afirmação, mais o poetinha se divertia.
Vinícius sempre valorizou os compositores de São Paulo, como Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolin e milhares e milhares de outros, além de seus intérpretes, músicos, maestros, instrumentistas etc. Toda brincadeira só tem graça quando as pessoas com as quais brincamos ficam zangadas com nossas zoadas. E era o que o poetinha fazia. Quanto mais zangados alguns paulistas ficavam, mais ele repetia a sua afirmação.
Contudo, em certo aspecto Vinícius tinha razão, embora, certamente, sequer lhe passasse pela cabeça esse fato. Por burrice, preconceito e abuso do poder de algumas autoridades (as tais “otoridades”, que não enxergam um palmo adiante do nariz), São Paulo transformou-se, de fato, em túmulo de uma das mais belas e autênticas manifestações culturais do Estado (da qual havia, portanto, sido berço): o batuque paulista, ou “umbigada”.
Até há pouco tempo, eu nunca tinha ouvido falar desse tipo de dança, conhecido em fins do século XIX e início do XX como “samba”, do qual, ao que me consta, foi a verdadeira matriz. Informei-me, pela primeira vez, a respeito, no excelente livro “Oito bananas por um tostão”, do jornalista Benedito Barbosa Pupo (de quem tive a honra e orgulho de ser amigo e companheiro de trabalho no Correio Popular).
Trata-se do testemunho de quem viveu aquele período, numa Campinas que renascia das cinzas, após ter quase sido varrida do mapa por um surto de febre amarela. Esse tipo de publicação, pela sua preciosidade, deveria ser bancado pelo Poder Público e distribuído, gratuitamente, a todos os cidadãos campineiros, por se tratar de um dos mais preciosos (e deliciosos) documentos dessa magnífica cidade.
Pupo escreve, na página 137 da referida obra: “No começo do século (XX) e alguns anos depois do seu segundo quartel ainda se dançava o samba de terreiro em Campinas, ou melhor falando o batuque, segundo os estudiosos. O 13 de Maio, o glorioso dia do negro, era então motivo de grandes manifestações e regozijo por parte daqueles que haviam sido libertos pela Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, assinada pela Princesa Isabel, e também pelos remanescentes daqueles que se haviam beneficiado pela lei anterior chamada de ‘Ventre Livre’”.
E meu saudoso amigo prossegue: “Os dois locais me lembro, onde se realizava o samba, como era conhecido naquela época: Palheiro e Aguada da Campinas Velha, o primeiro lá no ‘Fundão’, lá para as bandas do atual Cemitério da Saudade, antes conhecido como ‘Cemitério do Fundão’. O segundo, junto ao córrego que corta a Avenida Moraes Sales, onde existe o trevo viário. Não me lembro de ter visto muitos deles, mas sei que o negócio era na base da pinga e da umbigada”.
O batuque foi trazido para o Brasil e, mais especificamente, para São Paulo, pelos escravos bantos, procedentes de Angola e do Congo. Hoje, restam três únicos e solitários núcleos, compostos apenas por sexagenários, nas cidades de Tietê, Piracicaba e Capivari. Ou seja, a umbigada está em vias de total extinção.
E qual a causa do desaparecimento de tão importante manifestação artística da nossa legítima cultura? O pesquisador Mauro Dias nos revela, nua e cruamente: “De fato, no início dos anos 50, a polícia determinou que o batuque de umbigada era imoral e não podia mais ser realizado. Os participantes foram fotografados, fichados, alguns presos. Acabou porque houve intervenção policial, assassinato cultural”. E Mauro classifica essa atitude estúpida, preconceituosa e ignorante (cujas palavras assino embaixo) de “tragédia que desfaz memória, corta vínculos, interrompe o fluxo da História, cala, cega, ensurdece. Mata”.
A sede desmedida pelo poder corrompe as pessoas, mesmo que elas não se dêem conta. Desvia seu foco dos objetivos que deveriam buscar: a serenidade, a alegria, a amizade e o amor, entre outras metas. Não é o que a maioria ambiciona. Quer, isto sim, ter mais do que o necessário, para se sentir superior aos que não têm tanto; dar ordens, embora não tenha tirocínio e preparo para isso, para se sentir “importante” e ser servida, em vez de servir, que, no seu entender, é símbolo da superioridade que busca. Grande engano!
Somado a isso, há o preconceito racial latente, posto que disfarçado, num país de mestiços, em que isso nunca poderia e nem deveria ocorrer. Mas ocorre. E muito, a despeito de leis, instituições e até da existência de um ministério que objetiva a integração racial. Agora, pergunto: o que, em termos de seres humanos, se entende por "raça"?
A classificação de pessoas por esse parâmetro é, sobretudo, indigna. Animaliza os homens. Estes possuem como identidade o seu poder de raciocínio, o livre-arbítrio, o fato de serem "imagem e semelhança" da divindade, independente da cor da sua pele ou do lugar em que nasceram.
Raça é algo que se aplica somente para seres inferiores, para os animais, jamais para pessoas. Mas é este conceito estúpido e ilógico que ainda prevalece nos dias hoje, a despeito de tanta facilidade de informação e não somente no Brasil, mas na maior parte do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, os conflitos raciais permanecem sempre latentes. Na Rússia, distúrbios étnicos fazem correr rios de sangue. E o racismo se multiplica pela Grã-Bretanha, Itália, França etc., gerando violência, tragédia e dor. Os racistas, desgraçadamente, não aprenderam nada com a História. Que pena!

Thursday, February 21, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A constância, a persistência e a perseverança são fatores indispensáveis para o sucesso e a felicidade. Para alcançarmos nossos objetivos, não são necessários passos de gigante, maiores do que nossas pernas. Devemos, isto sim, subir degrau por degrau, todos os dias, seja para se obter estabilidade financeira, seja para conseguir o que nos torna felizes (objeto, realização ou pessoa). Vivamos um dia por vez. O que não podemos é desanimar, vacilar e, principalmente, desistir. Charles Baudelaire escreveu, em seus “Diários Íntimos”: “Um pouco de trabalho, repetido trezentas e sessenta e cinco vezes, dá trezentas e sessenta e cinco vezes um pouco de dinheiro. Isto é, uma soma enorme. Ao mesmo tempo, a glória está feita. Do mesmo modo, uma porção de pequenos gozos compõe a felicidade”. Não nos privemos, pois, das pequenas satisfações cotidianas, a pretexto de nos empenharmos para as grandes. Usufruamos uma a uma porquanto, somadas, elas se tornarão maiúsculas.

Poder venenoso


Pedro J. Bondaczuk

Nas artes, não existe o poder! O poder é o veneno. (Manuel Puig).

Através dos tempos, as várias civilizações sempre procuraram encontrar a dosagem ideal entre tradição e modernidade para nortear seu rumo. A dose podia variar, mas os dois conceitos sempre estavam presentes, quer na vida cultural, quer no procedimento político e social.

Hoje, a coisa já não é bem assim, embora não se possa (e nem se deva) generalizar. O pseudomodernismo domina a maior parte das cabeças pensantes. Surgiram a metalinguagem, o concretismo, o surrealismo e outros tantos rótulos para designar coisas que são, na verdade, velhas, muito velhas. Velhíssimas!

Depois de 13 mil anos de civilização, é virtualmente impossível alguém ser original, em termos de idéias e de ações. Tudo o que pensamos ou fazemos, alguém já pensou ou fez, embora a linguagem utilizada e a mensagem transmitida tivessem aspectos diferentes, nuances próprias. Isso mesmo, apenas nuances!

A cultura é, em geral, mal-interpretada, até pelos que se alimentam e vivem dela. Trata-se do conjunto de criações, vivências e conhecimentos, em todas as áreas de atividades, frutos da experiência e da racionalidade, precioso patrimônio dos povos, que se acumula, e é aumentado, com o passar dos anos, através das sucessivas gerações. É a herança maior que recebemos dos antepassados, ampliamos (ou temos o dever moral de ampliar), dando a nossa contribuição para o avanço da civilização, e transmitimos aos nossos descendentes, que por sua parte deverão agir de idêntica forma.

A cultura, portanto, é o "suco", a essência, a alma, a parte nobre da vida. Daí a importância da ação de pessoas e/ou instituições que atuem no sentido da sua ampliação ou, na pior das hipóteses, da sua preservação. Por isso, a relevância e o significado da ação da Academia Campinense de Letras para Campinas e a sua comunidade, como legítima guardiã da tradição literária da cidade.

Wednesday, February 20, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A juventude é o período da vida caracterizado, entre outras tantas coisas, por sonhos e fantasias. É nessa fase que cultivamos os mais grandiosos ideais que, com o tempo, na maioria das vezes, se revelam que não passavam de ilusões. O jovem julga-se (e sente-se) forte, invulnerável e indestrutível. Tudo lhe parece possível, quando na verdade muito pouco do que pensa fazer é realizável. Não nos compete, todavia, trazê-lo para a dura realidade. A vida se encarregará disso. Ademais, são essas ilusões, não concretizadas em fatos, que irão compor o acervo das suas melhores lembranças no futuro. Elas são as molas-propulsoras para motivá-lo a estudar, se preparar e tentar realizar o que sonha. Sem elas, o jovem simplesmente se entregaria à inércia e ao desânimo, achando inútil qualquer ação por ela não o conduzir a lugar algum. Por isso o filósofo René Descartes concluiu, cheio de razão: “O alimento da juventude é a ilusão”. Bendita ilusão!

Homens imprescindíveis


Pedro J. Bondaczuk

O escritor alemão, Bertholt Brecht, escreveu, certa ocasião: “Há homens que lutam um dia e são bons. Há homens que lutam um ano e são muito bons. Há homens que lutam muitos anos e são melhores. Mas há os que lutam toda a vida: esses são imprescindíveis”. É isto o que se pode dizer, sem tirar e nem pôr, desse mestre incansável e batalhador; desse intelectual criativo e produtivo; desse historiador meticuloso e preciso; desse amante das letras e das artes; desse emérito semeador de talentos e de ideais, que acaba de nos deixar. Refiro-me ao ilustre acadêmico e companheiro de sonhos e ideais, o professor Odilon Nogueira de Matos.
É tarefa de gigante escrever sobre uma figura de tamanho porte, de tantas e tamanhas realizações, sem omitir nenhuma delas. Afinal, foram 91 anos de uma vida muito bem vivida (faria 92 anos em 5 de maio próximo), de intensa participação cultural em Campinas, no Estado de São Paulo e no Brasil. Para que o leitor tenha uma pálida idéia dessa dificuldade, um ano antes de eu nascer (em 1942), Odilon Nogueira de Matos já iniciava sua profícua carreira no magistério, educando gerações e mais gerações.
Que privilégio, o meu, de poder privar da ilustre companhia desse mestre na Academia Campinense de Letras, nos últimos 16 anos! Quanta lição de vida, quantos exemplos de dedicação e de simplicidade, quantos ensinamentos pude usufruir desse convívio! Leitura alguma, curso nenhum, nenhuma outra experiência poderiam me proporcionar tanto!
Odilon era membro da Academia Paulista de Letras, onde ocupava a cadeira de nº 22, que já foi do campineiro Guilherme de Almeida, o “Príncipe dos Poetas” brasileiros. Integrou, também, a Academia Paulista de História, a Academia Paulista de Educação, a Academia Paulista de Jornalismo, a Academia Campinense de Letras e a Academia Sul-Riograndense de Letras. Legou-nos vastíssima obra, em que se destacam: “Capítulos da História Colonial de Campinas”, “Música e Espiritualidade”, “Evolução urbana de São Paulo” (em colaboração com Raul de Andrada e Silva e Pasquale Petrone) e “Café e Ferrovia”, entre outras.
Eleito para a Academia Campinense de Letras em 22 de outubro de 1973, integrou, desde 1974, quase todas as diretorias da instituição, chegando, inclusive, a presidi-la. E com tantas atividades, sempre foi um membro assíduo, ativo e participante. Em minhas onze preleções como acadêmico, o professor Odilon honrou-me com a sua ilustre presença em absolutamente todas. E como eu ficava orgulhoso ao olhar para a cadeira número 5, da qual ele era o titular, e vê-lo ali, sentado, prestando a máxima atenção às minhas pobres palavras!
Uma de suas maiores realizações, contudo, foi a coordenação e edição, por quase 40 anos consecutivos (o primeiro número circulou em 1969), da publicação “Notícia Bibliográfica e Histórica”. A partir de 1984 (portanto, oito anos antes de eu me tornar membro da Academia), passou a enviar-me, bimestralmente, os exemplares desse rico manancial de pesquisa, sem falhar nenhum número nos últimos 24 anos! Quanta generosidade, quanto carinho, quanta gentileza!
Odilon amava a vida no que ela tem de mais nobre e requintado, como a música, por exemplo. Dizem, seus alunos, que todos os domingos, sem falta, por mais de meio século, ouvia as obras de Johann Sebastian Bach. E, mais admirável ainda, todos os santos dias, logo ao amanhecer, deliciava-se com alguma composição de Mozart. Isso é que é bom gosto e o que os franceses classificam de “savoir vivre”!
Em um brilhante texto, publicado na Antologia da Academia Campinense de Letras (de maio de 2001 a maio de 2006), Odilon escreve: “Certa vez, em que reclamávamos a um colega de outro Estado do pouco que em São Paulo se estuda a história paulista, perguntou-nos ele: para que vocês querem estudar a história de São Paulo se ela é a própria História do Brasil? E o destino histórico vem, de fato, dar razão ao nosso colega, enchendo-nos de orgulho. Mas, antes do orgulho, deve encher-nos de responsabilidade”.
Parodiando as palavras do mestre, nós, acadêmicos, que tivemos a grande honra de privar da sua ilustre companhia por tantos anos, estamos cheios de orgulho por tamanho privilégio. “Mas, antes do orgulho”, isso “deve encher-nos de responsabilidade” de preservar a sua memória. Porquanto, voltando às palavras de Bertholt Brecht, o professor Odilon Nogueira de Matos lutou toda a vida. É, pois, mais que bom e mais que muito bom: é um homem imprescindível, cuja lacuna jamais será preenchida!!!

Tuesday, February 19, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A vida tem que ser encarada com leveza e bom-humor, sem que, com isso, percamos a seriedade e o senso de responsabilidade na execução das nossas tarefas diárias. O riso é uma válvula de escape útil e indispensável para as tensões do cotidiano. Mais do que as vitaminas, nos faz muito bem e é fator que contribui para nossa saúde física e mental. Não se trata de fazer galhofa com as fraquezas e vulnerabilidades alheias, nem de menosprezar a quem quer que seja, mas de dar vazão à alegria e de se divertir com determinadas situações engraçadas do dia a dia. Só pessoas inteligentes e seguras de si não se levam tão a sério e têm a grandeza de rir das próprias trapalhadas. Erasmo de Rotterdam, autor do “Elogio da loucura”, nos lembra: “Rir de tudo é coisa de tantos, mas não rir de nada é coisa de estúpidos”. Seriedade, no sentido construtivo, não é, pois, sinônimo de sisudez e de cara fechada, mas é o empenho e a competência na execução daquilo que precisa ser feito.

Realidade e estereótipos


Pedro J. Bondaczuk


O Brasil, ao longo deste século, vem sendo analisado pelos intelectuais através de estereótipos. Estudos sem fim tentam compreender e explicar a personalidade do brasileiro, como se houvesse uma homogeneidade, um elo comum, um comportamento básico que igualasse todas as pessoas.

O antropólogo Roberto da Matta, em artigo que publicou no Jornal do Brasil em 24 de julho do ano passado, analisou essas tentativas de definir o nosso jeito de ser. Constatou, em determinado trecho: "Em torno de 1900, o Brasil foi lido como um país a ser arianizado; em 1960, foi a nação dos espoliados prestes a realizar sua grande revolução socialista; em 1970, foi a terra do milagre econômico do Delfim e do Médici, hoje, ele é visto como país da violência, da falência moral, do separatismo e da ausência de valores éticos".

Estereótipos. Meros estereótipos. O País está longe de ser homogêneo, quer no comportamento da população, quer nos estágios de desenvolvimento em que se encontra. Há ilhas de prosperidade de fazer inveja a sociedades do Primeiro Mundo, mas existem bolsões de miséria, de enormes proporções, rivalizando com povos mais carentes da África, como Burkina Faso, Somália, Ruanda ou Etiópia.

Há metrópoles modernas e dinâmicas e comunidades mergulhadas num imenso atraso. Há pessoas extremamente competentes, solidárias, com altíssimo senso ético e bandidos cínicos e cruéis, muitos dos quais de colarinho branco, a cometer toda a sorte de crimes.

Há crianças sadias, superdotadas, com potencial para ter um brilhante futuro e meninos de rua como Ricardo da Silva Soares, de 12 anos, que teve o crânio esmagado pelas rodas de um caminhão da Prefeitura de São Paulo, no dia 10 de setembro de 1994, ao ser confundido com um saco de lixo, dentro do qual dormia, numa calçada do Largo do Arouche.

Tudo isso é Brasil. Podemos ser um pouco de Macunaíma, mas também o somos da Irmã Dulce. Podemos ter características de Lampião, mas temos a coragem e o ideal de um Marechal Rondon. Somos múltiplos, heterogêneos, não somos passíveis de receber rotulações.

O próprio da Matta, no mencionado artigo, conclui: "Nenhuma sociedade se esgota nas definições dos seus membros. As imagens variam, o que nos leva a pensar que somos parte de um momento e de uma geração que nos limita. Isso demonstra que ninguém está com a verdade, o que é um alento numa sociedade, na qual cada grupo foi sempre dono de uma verdade absoluta". O Brasil é tão grande que não cabe em estereótipos!

Monday, February 18, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Nenhuma obra verdadeiramente valiosa, que sobreviva ao tempo e ao esquecimento, pode ser produzida se não colocarmos nela alma, talento e, sobretudo, paixão. As grandes realizações são frutos de crença, empenho, vontade, persistência e de tamanha convicção, a ponto de deitarmos “chispas pelos olhos” na sua consecução. Quem teme se expor, por medo de fracasso, frustra-se, invariavelmente, e dessa frustração resulta intenso sofrimento, mental, que tende a se transformar em físico. Da minha parte, prefiro pecar por excesso do que por omissão. Estou disposto, na busca dos meus ideais, a tentar, tentar e tentar, insistente e incansavelmente, até alcançar meu objetivo. Boa parte das pessoas talentosas, todavia, não age assim. O escritor russo, Fedor Dostoievsky, conclui, atônito, a respeito dos omissos: “Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão”. E, convenhamos, trata-se de uma escolha não somente equivocada, mas, sobretudo, desastrada e tola.

Indagações sem respostas


Pedro J. Bondaczuk

A História, da forma como a conhecemos e estudamos na escola, gera na mente das pessoas que raciocinam – aquelas que a tudo questionam e que exigem explicações lógicas para todos os fatos – muito mais perguntas do que respostas. É parcial, fragmentada, com longos hiatos que abrangem séculos, quando não milênios, e é apresentada na versão exclusivamente européia.
Tudo o que se refere, por exemplo, às Américas, antes da chegada de espanhóis e portugueses ao continente – ou dos que os antecederam – permanece envolto numa cortina indevassável de mistério, na bruma do esquecimento, soterrado por toneladas de terra ou coberto por selvas indevassáveis. E isso gera múltiplas especulações, algumas verossímeis e outras, nem tanto.
O tema foi trazido à baila, dia desses, em nosso “cenáculo” informal, em um aconchegante bar da cidade, onde nos reunimos, amiúde, para “salvar o mundo” e jogar conversa fora. Tudo começou quando nosso especialista na matéria, o Marcelo, estudante de História na PUC de Campinas, fez um comentário a propósito de matéria, publicada em 18 de setembro de 2003, pela revista “Science”, cujo recorte levei para esse encontro e li, com ares de sabe-tudo.
O texto falava dos estudos do arqueólogo norte-americano Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, com base em escavações arqueológicas e imagens de satélite de uma área do Norte da Amazônia, que sempre se pensou inabitada e primitiva. O referido especialista, porém, afirmou, com convicção, que essa região, hoje inóspita e vazia, abrigou, entre os anos de 1200 e 1600 da nossa era, florescente civilização.
Disse ter condições de provar – já que ali existem inúmeras ruínas – que naquele “inferno verde”, de se perder de vista, houve sofisticadas redes de cidades e vilarejos. “Viajou””, exclamou Zito (que é sociólogo, mas que trabalha como gerente de banco), expressando, da sua maneira exageradamente enfática, não apenas o seu, mas o ceticismo de boa parte do grupo. “Pô, cara, o sujeito é cientista e não iria se expor à toa se não tivesse a mínima certeza do que está falando”, retrucou Marcão, que é advogado e adora gerar controvérsias. “Mas por que ninguém soube disso até hoje?”, interveio o psicólogo Nelson. “Ora, amigo, veja o tamanho da Amazônia! Sozinha, ela tem as dimensões da parte continental dos Estados Unidos, excluindo o Alasca! Há muita coisa escondida por trás daquela imensidão de árvores!”, opinou o professor João, que é filósofo, mas leciona Matemática em renomada escola particular da cidade.
Hackenberger garante que a região Norte da Amazônia foi densamente povoada antes da chegada de Cristóvão Colombo e dos colonizadores europeus às Américas. Diz que havia cidades de porte razoável, com amplas praças, fossos profundos para a sua proteção, pontes e estradas que as interligavam. Afirma, ainda, que as evidências apontam para a existência de uma sociedade avançada e complexa, que desenvolveu meios de convivência com a floresta, utilizando-se dos seus imensos recursos naturais, sem, contudo, destruí-la.
O conhecido arqueólogo norte-americano diz, na matéria publicada pela “Science”, que numa área em que hoje existem apenas três miseráveis aldeias de índios, com no máximo 400 pessoas cada uma, havia, a centenas de anos, pelo menos 19 cidades e vilarejos, ligados por estradas completamente retas, como se traçadas a régua, que abrigavam entre 2.500 a 50.000 pessoas. Algumas delas eram verdadeiras metrópoles para a época, com cerca de 50 hectares de extensão. Já as vilas estavam, todas, geometricamente dispostas, em distâncias de 3 a 5 quilômetros uma da outra, e de maneira parecida. Revelou, ainda, que as rodovias eram amplas e matematicamente paralelas.
“Era uma sociedade de matemáticos!”, exclamou, entusiasmado, o professor João. “Insisto que o cara viajou na maionese”, gritou Zito, com seu jeitão estabanado, causando muitos risos no grupo. Foi quando Marcelo interveio, dando ares de inteligência à mera conversa de bêbados.
“O que nós sabemos das civilizações pré-colombianas?”, indagou. “Quase nada!”, concluiu..”Só conhecemos um pouco, muito pouco, da sua arrojada arquitetura, dos monumentos maias, incas e aztecas que, milagrosamente, permanecem de pé até hoje. O mais, foi sistematicamente destruído, sem deixar vestígios”, disse. “Dos incas, que não tinham escrita, restaram só lendas, transmitidas de pais para filhos por seus descendentes, nada confiáveis por sinal, diante da fragilidade da memória”, prosseguiu.
“Os maias têm uma história de mais de 3 mil anos. Quando Roma sequer ainda havia sido fundada, seus engenheiros já construíam pirâmides monumentais tão sólidas, ou mais, que as do Egito. Tinham cidades modernas e luxuosas, como Tikal, Uxmal, Palenque, Chicén Itzá, Calakmul, Dos Pilas, Uaxatún, Altun Hu e tantas outras. Enquanto os europeus ainda estavam em cavernas, como bichos, alimentando-se de raízes e folhas e pequenas caças, esse povo destacava-se nas artes, na literatura, na filosofia, na pintura, etc.”, aduziu.
“E o que restou das suas bibliotecas? Afinal, os maias tinham uma escrita que em nada devia à que conhecemos hoje. Era uma combinação de símbolos fonéticos e ideogramas, o único sistema gráfico da América pré-colombiana que podia representar completamente o idioma falado, no mesmo grau de eficiência, que as línguas escritas européias”, acrescentou.
“Onde estão suas múltiplas e abarrotadas bibliotecas? Onde suas crônicas, histórias e manifestações artísticas? Cadê as obras dos seus poetas, dos seus líderes religiosos, dos seus cientistas, dos seus astrônomos? Foi tudo consumido pelo fogo! E por que? Por causa do fanatismo burro e tacanho de padres espanhóis, que consideravam os livros maias como coisas do demônio e ordenaram que fossem todos queimados. Restaram apenas três, de milhões que foram escritos, e as páginas de um quarto. Ainda assim, sua cultura foi tão imensa, que chegou até nós através das chamadas ‘estelas’, que os maias denominavam de ‘tetun’, ou ‘três pedras’. São gigantescos monólitos, como nossos modernos outdoors, que descrevem os governantes da época, sua genealogia, seus feitos de guerra e outros grandes eventos, em caracteres hieroglíficos”, arrematou.
Depois dessa aula gratuita de história, todos emudeceram. O que acrescentar às palavras sensatas, lógicas e bem-fundamentadas do Marcelo? O Zito, para não perder o costume, mudou de assunto e passou a falar do fracasso do novo time do Guarani, para desgosto do Marcão. Nelson preferiu defender o Plano de Aceleração do Crescimento do governo Lula, contestado pelo professor João.
Da minha parte, pedi licença para me retirar e, no caminho de casa, fui meditando na descoberta da extinta civilização da Amazônia e, principalmente, nas observações do Marcelo. Quantas idéias preciosas, quantos relatos fantásticos, quantas descobertas científicas não se perderam, ao longo dos séculos e dos milênios, por causa da ganância de uns, do fanatismo de outros, e da burrice de tantos! E o que irá sobreviver dessa enxurrada de conhecimentos ao nosso dispor neste início do século XXI? Sobreviverá alguma coisa? O mundo sobreviverá? O que pensarão de nós as gerações dos séculos XXII, XXIII, XXV, XXX e assim por diante? Talvez menos do que pensamos das civilizações pré-colombianas das Américas...

Sunday, February 17, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Todo ser humano, por mais miserável e sem importância que pareça, é sumamente importante, pelo potencial de grandeza que tem. A maioria, por circunstâncias várias, não desenvolve suas aptidões e se torna segregada da sociedade. É essa situação que torna o mundo tão violento e cheio de desgraças e maldade. Enquanto o homem não aprender a respeitar a dignidade dos semelhantes e não tiver a generosidade de amparar e proteger o mais fraco, não poderá dizer que seja civilizado. Talvez isso jamais ocorra e a espécie se destrua, em decorrência da falta de visão. Da minha parte, espero que, no correr das gerações, venhamos aprender a valorizar todas as pessoas, sem nos julgarmos superiores a ninguém. Há idealistas que vislumbram grandeza em todos os seres humanos. Estes merecem respeito e reverência. Gilbert Keith Chesterton disse, a respeito desses, em um de seus ensaios: “O grande poeta existe para mostrar ao homem pequeno o quanto ele é grande”. E é mesmo!

DIRETO DO ARQUIVO


O estigma do caudilhismo


Pedro J. Bondaczuk


A democracia, reimplantada na América Latina a partir de 1983, volta a ficar sob ameaça, com a segunda rebelião militar seguida que ocorre na Argentina nas últimas 48 horas e outros acontecimentos do gênero em toda a região. Desta feita, o motim se verifica na Escola de Infantaria do Campo de Maio. E acontece horas depois da rendição, ocorrida anteontem, dos oficiais que haviam se rebelado na quinta-feira, na cidade de Córdoba.

O estigma dessa maldição, que é o caudilhismo, que pesa sobre os povos latino-americanos, volta, portanto, a se manifestar, e desta vez num dos países em que o processo de redemocratização foi dos mais bonitos, posto que mais dramáticos. E naquele, também, (é mister frisar) que mais sofreu com a ditadura, por causa da chamada “guerra suja” ocorrida na década passada, que resultou em dezenas de milhares de pessoas assassinadas, ou dadas, simplesmente (para efeito oficial), como “desaparecidas”.

A população argentina, tomada de surpresa com o motim, cerrou fileiras em torno da liderança do presidente Raul Alfonsin. Governos democráticos, de todo o continente, hipotecaram solidariedade a esse governante. E todos os amantes da liberdade e da democracia vêm mantendo vigília, desde quando a crise começou, no afã de evitar a ocorrência de um novo e possível golpe militar de Estado.

Mas a Argentina não é o único país ameaçado de fechamento político. Parece que a maior parte do continente (senão a sua totalidade), mergulhada nas dificuldades criadas pelos credores internacionais com suas arbitrárias exigências de pagamento da extorsiva dívida externa, além de juros leoninos e descabidos, drenando, para os todopoderosos bancos de países ricos, seus já de per si parcos recursos, está prestes a entrar noutro de seus periódicos ciclos golpistas.

O Equador, por exemplo, viveu, há dois meses, o sobressalto da ameaça às suas instituições, com a rebelião de pára-quedistas de elite, ocorrida numa base aérea, próxima a Guayaquil, e com o seqüestro, por parte dos amotinados, do próprio presidente da República, Leon Febres Cordero, que além de ser desrespeitado como autoridade e como homem, de ser humilhado e agredido, chegou a sofrer sérias ameaças de morte por parte dos seguidores do líder do motim, o general Frank Vargas Pazzos.

Somente o espírito de patriotismo da atual cúpula militar equatoriana impediu que ocorresse o pior naquele país. O Peru, por outro lado, mal saiu de uma perigosa crise, gerada pelo descontentamento com a criação de um Ministério da Defesa, englobando as pastas do Exército, Marinha e Aeronáutica, e já há rumores de fermentação de uma nova crise. E a situação nesse país ainda pode, de fato, ter desdobramentos perigosos para as instituições, apesar da aparência (enganadora) de calma que se procura passar para a população.

Na Bolívia, o presidente Victor Paz Estenssoro, às voltas com outra rodada de confrontos com sindicalistas, está fechando, cada dia mais, o regime, com a suspensão de vários direitos constitucionais. Já se comenta em surdina, inclusive, que o Estado recordista de golpes no mundo está na iminência de sofrer mais um, faltando, tão somente, o estopim para que se concretize. Tomara que não seja verdade.

Até a violenta Colômbia, que apesar da atuação ininterrupta das guerrilhas esquerdistas, conseguiu sair incólume do ciclo de caudilhismo que varreu a América Latina a partir dos anos 60, e do qual a maioria dos países da região mal conseguiu se livrar, está bastante ameaçada, agora, de deixar de ser a louvável exceção que foi até aqui.

Não foi por acaso, e nem por maldade, que o escritor peruano, Mário Vargas Llosa, observou, recentemente, num dos seus artigos, que “o mundo ocidental não acredita na democracia latino-americana”. E nem poderia acreditar!

Na Argentina, por exemplo, nenhum presidente da República eleito pelo voto popular conseguiu cumprir um mandato completo desde 1930. Pretextos, por outro lado, nunca faltaram para a ocorrência de golpes de Estado no continente.

Ora foi o “perigo comunista” apontado como desculpa para a ruptura do estado de Direito, ora foram acusações (quase nunca fundamentadas em provas) de corrupção de governos civis e ora surgiram questões novas para servirem de pretexto, como a atual, na Argentina, que envolve o julgamento dos militares que se excederam em práticas de repressão aos opositores, prendendo arbitrariamente, torturando barbaramente, assassinando covardemente e “sumindo” com pessoas, tachadas como “subversivas”.

Não é por acaso, também, que intelectuais latino-americanos e europeus demonstram imenso desencanto quando analisam as nossas instituições e se reportam à sua fragilidade. É o caso, por exemplo, do intelectual mexicano Octávio Paz, que no seu livro “Labirinto da Solidão”, observa, desgostoso: “A mentira instalou-se em nossos povos quase constitucionalmente. O dano foi incalculável e alcança zonas muito profundas do nosso ser...Daí que a luta contra a mentira oficial e constitucional seja o primeiro passo de toda tentativa séria de reforma”.

Nossos governos não têm respaldo popular (e as forças de segurança emergem também do povo) principalmente por falta de sinceridade. E por causa de uma certa desonestidade, senão de propósitos, pelo menos de métodos para colocar em prática suas propaladas “boas intenções”.

Democracia, na América Latina, passou a soar como uma palavra vazia de conteúdo, desgastada pelo uso inadequado. Nossos regimes civis, por exemplo, via de regra, são comprometidos com grupos minoritários, locais ou externos, as chamadas “elites”, em geral cínicas e retrógradas, e por isso não sensibilizam o povo, não conquistam o seu respeito e muito menos a sua simpatia. E as massas optam, como forma de defesa, por se alienar da política, numa atitude suicida e inconseqüente, mas fartamente justificável.

Contudo este é o momento propício (pelo menos para os argentinos), de civis e militares se irmanarem e decidirem dar um basta aos aventureirismos salvacionistas, aos atos caudilhescos tresloucados e às atitudes que, sob o pretexto de defesa da pátria, só servem para enxovalhar o país no concerto internacional, perante os olhos de sociedades nacionais em estados mais avançados de liberdade, de compreensão e, conseqüentemente, de civilização. Basta de golpes! Basta de guerrilhas! Basta de “revoluções salvadoras”, que nada salvam, na América Latina! Já é hora de se parar de mentir para o povo!

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 19 de abril de 1987).

Saturday, February 16, 2008

REFLEXÃO DO DIA


O egoísta, que se julga o centro do mundo, além de prejudicar sua imagem, se torna nocivo à coletividade em que esteja inserido. A vida civilizada não prescinde de ninguém e todos temos o dever de dar nossa contribuição à comunidade em que vivemos, por ínfima que esta seja ou nos pareça. Afinal, sozinhos não somos ninguém. Todos dependemos uns dos outros para sobreviver. Quando nascemos, contamos com os cuidados indispensáveis dos nossos pais. Em certa idade, freqüentamos a escola, que nos transmite a soma de conhecimentos acumulada desde os primórdios da civilização. Na vida adulta, dependemos do padeiro, de merceeiro, do agricultor, do médico, do dentista, do jornalista etc.etc.etc. E o que daremos em troca? Se não dermos nada, não passaremos de pesos mortos à nossa família, comunidade, município, Estado e país. O escritor português, Almada Negreiros, constata, no livro “Ensaios”: “O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua coletividade”.

Apoteose de amor


Pedro J. Bondaczuk


Quem é a desejável figura
que passa gingando, ligeira,
e sempre meus olhos procura,
sorrindo, coquete e fagueira?

Quem é a mulher fantasia
que me deixa tonto e sem nexo
e provoca tanta agonia,
tamanho desejo de sexo?

Seios redondos, empinados,
com bicos de rosada cor,
carnes fartas, curvas fatais,

e com glúteos arredondados.
Todas formas proporcionais!
É fêmea! Apoteose do amor!


(Soneto composto em São Caetano do Sul, em 12 de outubro de 1963)

Friday, February 15, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A vida é tão variada e surpreendente, que nenhuma situação (boa ou má) que enfrentamos hoje é definitiva. Quando menos esperamos, tudo se modifica, se altera, se embaralha e anula todas as possíveis previsões que tenhamos feito. É esse caráter mutante que mais me fascina nessa magnífica aventura. Por essa razão, os maus momentos não devem nos desanimar e nem levar a entregar os pontos. Quando menos esperarmos, aquilo que nos afligia será superado e não passará de dolorosa lembrança da qual, se formos prudentes, extrairemos as devidas lições. Todavia, não devemos nos acomodar às situações favoráveis, mas continuar nos empenhando para consolidá-la, pois nada nos garante que não irá passar. Estamos constantemente mudando: de idéias, conceitos, valores, amizades e inimizades, mesmo que não venhamos a perceber essas mudanças. Erich Fromm nos lembra a propósito: “Viver é nascer a cada instante”. Acho esses novos nascimentos fascinantes e desafiadores.

Como ver o presente


Pedro J. Bondaczuk


A memória é nosso real patrimônio, a única coisa que nos resta até nosso derradeiro sopro de vida. Tudo o mais se perde, se esfacela, murcha, fenece e desaparece. Generosa, tem uma característica peculiar: é seletiva. Apaga (ou atenua) lembranças dos momentos ruins pelos quais passamos, de perdas, aflições e grandes sofrimentos. Em contrapartida, perpetua episódios felizes, aos quais, além disso, dá um toque todo especial, fazendo com que as alegrias, sucessos e instantes de felicidade nos pareçam maiores e melhores do que de fato foram.
Por isso, a memória constitui-se no cerne da nossa personalidade. Devemos cultivá-la com carinho, constância, mas com muito cuidado, pois será ela que irá nos encantar e consolar em nossos derradeiros dias. Marcamos a passagem do tempo por relógios e calendários, mas o que retemos na mente é ínfima fração do que vivemos. Nossas ações e sentimentos, na maior parte, perdem nas brumas do esquecimento, como se não houvessem existido.
Lembramo-nos de pouquíssimos momentos e circunstâncias, embora estes nos pareçam muitos e infinitos. A memória das pessoas sadias é generosa. Melhora, reitero, na lembrança, circunstâncias que de fato não foram tão boas e atenua as de aflição ou de dor, quando não as apaga.
Muitas vezes, temos esquecimentos que são, de todo, inexplicáveis. Tenho um exemplo pessoal que me deixa muito encucado sempre que penso nele. Até os seis anos de idade, meu único idioma, aquele que aprendi a falar tão logo balbuciei as primeiras palavras, era o russo. Jamais havia ouvido, até então, qualquer coisa em qualquer outra língua, que sequer cogitava que existisse.
Hoje, no entanto, penso e me expresso (oral e graficamente) somente em português. Parece que aquele outro Pedro, que só falava russo, apenas existiu na minha cabeça. Não teve vida real. Mas teve, evidentemente. Lembro-me, nitidamente, de inúmeros episódios, em detalhes ínfimos até, desse período. Mas esqueci, no entanto, por completo, do idioma da minha infância.
Esse conhecimento ficou em algum substrato do meu subconsciente ou, talvez, em um nível até mais profundo, no inconsciente, de onde nunca mais consegui trazer à tona, para o plano da consciência. Vez por outra, lembro-me de uma ou outra palavra isolada nessa língua, para mim hoje tão estranha e bárbara, mas não consigo falar (e muito menos entender) uma única frase completa.
Como se vê, a memória é muitíssimo mais frágil do que podemos supor. Mesmo que pretendamos viver no passado (impossibilidade física), o presente nos convoca e desafia a conquistar o que não conseguimos ainda. A medida de tempo, por relógios e calendários, portanto, nada significa no conjunto das nossas vidas. O referencial deveria ser outro.
A esse propósito, o Padre Antônio Vieira – cujo quarto centenário de nascimento comemoramos neste ano de 2008 – tem uma passagem pitoresca, mas inteligente. Disse, em seu célebre “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”: “Olhai para o passado e para o futuro e vereis o presente. A razão ou conseqüência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”.
As pessoas conscientes e equilibradas, que têm certeza de sempre terem vivido da melhor forma possível, com intensidade, mas com afeto, não precisam temer suas lembranças. Tanto as boas, quanto as más, não lhes causam sofrimento, mágoa ou frustração.
As coisas positivas serão sempre lembradas com alegria, com uma saudade gostosa, mas não opressiva. E mesmo as negativas não incomodam, diante da certeza de que os obstáculos, posto que aflitivos na ocasião, foram superados com fé e determinação; os montes foram galgados e descidos. E, após vencidos, descortinou-se, diante de nós, suave e florida campina. Vivamos de forma tal que as lembranças jamais nos causem sofrimentos, mas nos cientifiquem que cumprimos nosso dever e estamos vivos para realizar muito mais.
Não devemos, contudo, confiar cegamente na memória, que amiúde nos atraiçoa, e nem viver no passado, abrindo mão das perspectivas abertas pelo presente. Vivamos plenamente cada dia, com bom-humor e alegria, buscando sempre fazê-lo melhor e mais feliz do que o anterior.
Claro que não seria tolo de recomendar que se descartem as boas lembranças. Mas não podemos fazer delas uma espécie de panacéia para a felicidade. São passado! Não voltam mais e jamais podem ser reprisadas. Se tentarmos, o resultado, fatalmente, será o da frustração.
A vida não comporta reprises. Acho sábia (por ser verdadeira), esta metáfora criada pelo escritor Austin O’Malley: “A memória é uma velha louca que joga comida fora e guarda trapos coloridos”. O alimento (espiritual, no caso) desperdiçado, são os bons livros, os exemplos edificantes e os relacionamentos elevados que tivemos a oportunidade de vivenciar e que findamos por esquecer. Quanto aos trapos coloridos...

Thursday, February 14, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Marcamos a passagem do tempo por relógios e calendários, mas o que retemos na memória é ínfima fração do que vivemos. A maior parte de nossas ações e sentimentos perde-se nas brumas do esquecimento, como se não houvessem existido. Lembramo-nos de pouquíssimos momentos e circunstâncias, embora estes nos pareçam muitos e infinitos. A memória das pessoas sadias é generosa. Melhora, na lembrança, momentos que de fato não foram tão bons e atenua os de aflição ou de dor, quando não os apaga. Mesmo que pretendamos viver no passado (impossibilidade física), o presente nos convoca e desafia a conquistar o que não conseguimos ainda. A medida de tempo, por relógios e calendários, portanto, nada significa no conjunto das nossas vidas. O referencial deveria ser outro. O escritor suíço, Henri Frédéric Amiel, nos sugere qual, ao afirmar: “O tempo nada mais é do que a distância entre as nossas lembranças”. Elas é que são as verdadeiras medidas do tanto que vivemos.

Busca da verdade


Pedro J. Bondaczuk

A fantasia pode ser ilimitada. Basta que tenhamos disposição e coragem para afrontar essa imensidão. Criar, criar e criar é o desafio que se impõe ao homem. Não objetos, posto que, dada sua limitação física, suas possibilidades de criação nesse campo são mínimas. Mas no plano espiritual elas são infinitas. É apenas com esse exercício criativo, permanente, constante, exaustivo, que o homem exerce, de fato, sua humanidade.
A preservação da vida física não é prerrogativa humana. É resquício do instinto de sobrevivência que todo o ser vivente possui, animal ou vegetal. Ademais, é um exercício inútil, face à realidade da morte. Devemos, sim, buscar nossa sobrevivência, mas em um outro terreno que não o da matéria. É nosso dever registrar que um dia existimos, pensamos, sentimos, tivemos medo, raiva, dor e saudade, mas fizemos dessa traumática "matéria-prima" um universo de sonhos e de fantasia.
O ensaísta Henry David Thoreau constatou que “é preciso duas pessoas para falar a verdade – uma para falar e outra para ouvir”. Ou seja, é necessário que haja testemunha daquilo que foi dito. Ainda assim, não há nenhuma certeza de que o que se disse – e o que se ouviu e se testemunhou – seja rigorosamente verdadeiro. As palavras são pobres, paupérrimas para revelar, sem dúvidas ou ambigüidades fatos, ou nossos pensamentos ou, principalmente, sentimentos.
Onde, porém, está a verdade? Como poderá ser identificada em meio a um emaranhado de versões e de especulações? Por exemplo, o enigma do atentado de Dallas, que custou a vida do presidente norte-americano John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, será algum dia decifrado, sem que paire a mínima sombra de dúvida? Não creio. Chegaremos a conhecer quem foi o assassino (ou, se for o caso, quais foram os assassinos), com absoluta certeza? Tenho minhas dúvidas.
Muitos juram que pautam suas vidas pela verdade. Todavia, quando lhes pedem que a definam, se perdem em ambigüidades e vazios lugares-comuns. Até porque, os maiores mentirosos jamais admitem que o sejam. Pisamos, amiúde, o instável e cediço terreno das aparências. E como é do conhecimento até do mundo mineral, nem tudo o que parece de fato é.
Filósofos, teólogos e escritores afirmam, desde os primórdios da civilização, que sua meta e objetivo são a busca da “verdade”. Apontam-nos caminhos que, ao cabo de algum tempo, a realidade comprova serem equivocados e ruins. Desfiam teorias e mais teorias, que são logo derrubadas e substituídas por outras, que também caem, e assim indefinidamente.
E o que é a tal “verdade”, tão apregoada, mas jamais definida sem ambigüidades e com precisão? Cada qual julga ser seu possuidor. Todavia, ninguém, de fato, chegou sequer perto dela. Da minha parte, considero que a única verdade, que merece, de fato, essa designação, é a da existência, onipotência, transcendência, imanência e eternidade de Deus (e ainda assim há insensatos que tentam desmentir essa evidência). O resto...
Bem, o resto não passa de mero conjunto de teorias, passivas de serem desmontadas, e de especulações, quase nunca comprováveis ou que, quando parece que são, se revelam mero conjunto de aparências e, conseqüentemente, de engodos. Henri Bérgson, citado no livro “Vozes da França”, de André Maurois, traz à baila um dos sofismas mais antigos e interessantes e, no entanto, não-verdadeiro.
Escreve: “Lembrai-vos, por exemplo, das dificuldades propostas por Zenão de Eléia aos filósofos gregos da Antigüidade, às quais ninguém até hoje respondeu... Vamos supor, disse Zenão, que o mais rápido dos seres humanos, Aquiles, procura alcançar o mais moroso dos animais, a tartaruga. Eu digo que, se a tartaruga, ao partir, tem ligeira vantagem, Aquiles ganha o espaço que o separa da tartaruga, esta avança um pouco. Aquiles, portanto, terá de vencer essa nova distância. Enquanto isso, a tartaruga avançará ainda, muito pouco, mas sempre um pouco. E assim por diante. Portanto, Aquiles não alcançará nunca a tartaruga”. Até o mais tolo dos tolos, porém, sabe que na prática não é o que acontece.
Ambigüidade por ambigüidade, prefiro trilhar o terreno da imaginação O mundo da fantasia, aquele do faz-de-conta, o dos nossos sonhos, tem as dimensões exatas dos nossos desejos (pelo menos dos meus). Difere em muito do real, onde temos que lutar pela sobrevivência, sem muito espaço para correr atrás de abstrações.
Preocupações imediatas nos desafiam o tempo todo: como conseguir um teto para nos cobrir a cabeça, o alimento que nos mantenha as forças, o acesso à educação e à cultura para que conservemos nosso tênue verniz de "civilização", o usufruto das conquistas da medicina para manter nossa saúde e prolongar nossa vida etc.
O que desejamos pode ser tanto a mola que nos impulsione às grandes realizações, quanto a fonte de toda a nossa infelicidade. E é muito difícil, senão impossível, filtrar o factível, o concretizável e o realizável do somente desejável. Alguns desejos exigem cumplicidade para que se realizem. Jamais uma única pessoa, de forma isolada, teria condições de realizá-los, dadas sua abrangência e complexidade.
Temos, todos, em maior ou menor medida, uma fome insaciável de saber. Todavia, quase sempre esbarramos em nossas limitações, reais ou (na maioria das vezes) imaginárias, que não nos permitem acesso ao máximo do conhecimento e à tão apregoada, mas provavelmente inacessível “verdade”. Temos, no entanto, uma faculdade ilimitada, que supre, com vantagens, a nossa incapacidade de aprender: a imaginação. Esta não tem limites e compensa, de forma quase sempre vantajosa, essa nossa dificuldade, que tanto nos frustra.
Monteiro Lobato, no livro “Serões da Dona Benta”, observa: “Se a nossa inteligência é limitada e de todos os lados dá de encontro a barreiras, temos o consolo de montar no cavalo da imaginação e galopar pelo infinito”. Maravilhosa possibilidade! Façamos, pois, sempre, sempre e sempre, esse mágico galope, sem receios e nem restrições. Agindo assim, desenvolveremos, certamente, algo muito mais precioso do que o conhecimento e chegaremos a um objetivo mais factível do que o da descoberta da verdade: a criatividade!

Wednesday, February 13, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A inveja é uma das mais terríveis, e mais comuns, doenças da alma. O invejoso sofre demais com o sucesso alheio e a alegria dos outros lhe é motivo de mortificação. Considera-a, até, uma ofensa, um insulto, um motivo de ódio por aquele que é feliz. Esquece de viver a própria vida para se preocupar com a do próximo, torcendo por seu fracasso e sofrimento. É mais digno de pena, do que de rancor. O invejoso não sabe o que perde com o seu doentio comportamento. Caso o invertesse e, em vez de sofrer com o sucesso e a alegria alheios, contribuísse, de alguma forma, para isso, a sensação que teria seria sumamente compensadora. Mesmo que não viesse a dar conta, seria feliz. George Bernanos constata, em uma de suas lúcidas reflexões: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Tão simples e, no entanto, tão pouco praticado! Nossas ações e sentimentos são como molas: voltam para nós com a mesma intensidade com que as fazemos e os sentimos.

Artístico ou tétrico?


Pedro J. Bondaczuk

As artes (qualquer delas) estão entre as atividades mais nobres do único ser racional da natureza. Mostram a vida não somente como ela é, mas, principalmente, como poderia e deveria ser (e que, de fato, poderá se concretizar, caso atuemos positivamente para torná-la ideal). Essa afirmação, convenhamos, é consensual (ou quase). Ao fazê-la, estou longe de ser original ou criativo, eu sei. E sequer tenho a intenção de o ser.
Nem todos, é verdade, têm habilidades artísticas. Mas ninguém é despido de sensibilidade a ponto de não apreciar um belo poema, um quadro pintado com maestria, uma sinfonia harmoniosa e marcante ou uma escultura executada com perícia. O artista valoriza, sobretudo, a beleza que nos rodeia e que dá encanto à vida.
O homem pode criar arte com seu próprio corpo, com sua vida, com sua experiência pessoal, embora esta pareça fútil, trivial e sem importância. Nunca é. Pode evitar que os que a conheçam incorram nos mesmos erros que incorremos. Nossas experiências pessoais, por corriqueiras que pareçam, portanto, podem ter grande importância para nossos companheiros "de aventura", para as pessoas do nosso tempo e, principalmente, para as gerações futuras.
As mesmas fraquezas que detectamos em nós, e que buscamos esconder dos outros, para não deslustrar a nossa "imagem", são as dos que nos rodeiam, que igualmente as escondem. A arte é uma forma, portanto, de catarse, quer do artista, quer dos apreciadores.
Estas considerações vêm a propósito de recente documentário, exibido pelo canal de televisão a cabo “History Chanel”, sobre a “obra” de Gunther von Hagens, mais conhecido, mundialmente, como “Escultor de Cadáveres”, “Salvador Dali do Corpo Humano”, mas, principalmente, como “Doutor Frankenstein”.
E qual a razão dessas designações? O polêmico “artista” alemão (entre aspas mesmo) é chamado dessa forma por causa da matéria-prima que usa para elaborar suas tétricas “esculturas” (também entre aspas). Hagens, que começou suas atividades em 1977 e já esteve várias vezes no Brasil, para dar cursos de anatomia em faculdades de medicina de São Paulo e do Rio de Janeiro, desenvolveu novo método de mumificação de corpos.
Até aí, tudo bem. Sua atividade até que teria lá sua utilidade caso se restringisse, apenas, a estudantes da área médica. Todavia, ele cismou de achar que seu método de conservação de cadáveres era uma forma de fazer “arte”. Como não faltam imbecis, malucos, necrófilos e pessoas mentalmente perturbadas no mundo (aliás, abundam) ganhou adeptos, fez fama e principalmente amealhou fortuna, desrespeitando o ser humano no seu momento mais crítico, quando não tem a mínima possibilidade de defesa: na morte.
Desde 1995, Hagens vem expondo “esculturas”, feitas com pedaços de cadáveres, em mostras denominadas “Body Worlds”, pelo mundo afora. Ganhou rios de dinheiro e, desde então, vem gerando polêmicas de toda a sorte (mas ficando cada vez mais rico, ressalte-se) nos campos não somente das artes, mas do Direito, da religião, da filosofia etc. etc. etc. Sua primeira exposição (a de 1995) foi em Tóquio e atraiu milhares de curiosos. O esperto alemão já expôs suas aberrações em pelo menos dez países. Chamou a atenção de mais de vinte milhões de pessoas que acorreram para ver as suas “peças” e arrecadou, em ingressos, a “bagatela” de R$ 600 milhões.
Nas “Body Worlds” é exposto, por exemplo, um cadáver humano montado em um corpo preservado de cavalo, segurando um cérebro com a mão esticada. E há idiotas que vêem criatividade e “beleza” nessa aberração, que não é, claro, a única. Quem visita esses circos dos horrores tem a oportunidade de ver, também, restos mortais de uma mulher, como que nadando no ar, cortada ao meio, com vísceras à mostra. Mas a peça mais polêmica, entre centenas e centenas exibidas, é uma grávida de oito meses, dissecada, com o feto aparecendo no útero.
A técnica de conservação desenvolvida por Hagens é a “plastinação”. Consiste na substituição de substâncias orgânicas de corpos mortos por materiais plásticos (silicone, resina de epóxi e poliéster), o que permite que os materiais molhados do cadáver adquiram plasticidade e permaneçam secos, maleáveis, inodoros e duráveis indefinidamente. As “peças” retêm seu relevo original e a identidade celular.
Tomei conhecimento da existência desse tétrico “Doutor Frankenstein” contemporâneo – e de sua incrível “façanha” – na revista “Superinteressante” de janeiro de 2004. Desde então, venho ensaiando escrever a respeito, sem encontrar palavras adequadas para expressar todo o meu horror e repulsa por esse tipo de exploração, que contraria todos os meus princípios éticos, jurídicos e estéticos.
Hagens e sua esposa Angelina Whelley, comandam três “fábricas de mortos”, conforme informações da revista alemã “Der Spiegel”. A matriz situa-se em Heidelberg, na Alemanha e as filiais localizam-se em Bishek, na Quirquizia (ex-República da extinta URSS) e em Dalian, na China (esta, a maior de todas, construída em terreno de 30.000 metros quadrados, a um custo de R$ 37 milhões e que conta com 170 empregados). E tudo com autorização das autoridades e sob o olhar complacente e bestificado das populações locais. Ninguém proíbe, ninguém protesta, ninguém se opõe. E múltiplos imbecis consideram isso como sendo “arte”. Valha-me Deus!
De acordo com a “Der Spiegel”, apenas em novembro de 2003, os empregados chineses de Hagens trabalhavam na preparação de mais de 600 defuntos, 3.900 pedaços humanos (como peles, braços, cérebros e órgãos sexuais), além de 180 fetos, embriões e recém-nascidos. Os fornecedores de cadáveres para as “fábricas” da Quirquizia e China são delegacias de policia, asilos de velhos, presídios, hospitais e universidades. Imaginem quantos corpos esses pilantras já profanaram, nos últimos cinco anos, a pretexto de fazerem “arte”?!
Cadáveres humanos são necessários para o ensino de medicina. Até o século XIX, todavia, sua utilização era rigorosamente proibida por praticamente todos os governos. Dizem que Leonardo da Vinci produziu seus magníficos e perfeitos esboços de anatomia dissecando, clandestinamente, defuntos em vários cemitérios. Nunca os utilizou, no entanto, como “obras de arte”. Diz-se o mesmo de Ambroise Paré, que no século XVI revolucionou a ciência médica, com seus tratados sobre cirurgia.
Fui estudante de medicina e participei de várias aulas de anatomia. Estas, invariavelmente, eram precedidas de reverentes orações em memória das pessoas cujos corpos nos serviriam para estudo, embora a faculdade em que estudei fosse secular. Em 2004, entrevistado pela Superinteressante a propósito da matéria sobre Hagens, o Dr. Serafim Cricenti, então vice-presidente da Sociedade Brasileira de Anatomia, assegurou: “Os alunos aprendem a ter um comportamento respeitoso em relação aos cadáveres”. E aprendem mesmo. Pude testemunhar isso.
Para mim, arte não é essa aberração vista nas “Body Worlds” e nas fábricas de mortos. É, sim, manifestação instintiva, natural e selvagem. Mas de respeito, bom-senso e, sobretudo, bom-gosto (sei que muitos vão me contestar, mas não me importo). Trata-se da única forma de sermos autênticos. É a nossa oportunidade de interpretar o mundo, a carta de alforria, a absoluta e irrestrita liberdade.
Ninguém é forçado a ser artista: músico, escritor, pintor, escultor, poeta... É uma escolha pessoal e intransferível, questão de vocação ou de talento. Ou se é ou não se é artista, não existe meio-termo. Fazer arte é o modo de que cada pessoa dispõe para ser livre, para impor a personalidade, para deixar a marca no mundo. A aceitação ou não do que o artista produzir vai depender de critérios subjetivos de apreciação e avaliação dos destinatários.
Mas a arte não comporta ataques e nem desrespeito a quem quer que seja, embora não admita censura. Esta tem que ser a do próprio artista. Sua liberdade de escolha tem que ser sempre respeitada (e, em geral, é). Só a ele cabe decidir sobre o que, quando, como e onde criar.
Mas Hagens não cria. Limita-se a transformar o que a natureza criou. Não é, pois, artista. Considerá-lo como tal é corromper a mais nobre e admirável de todas as atividades humanas. Não passa de mero charlatão, com habilidades é certo, mas tétrico e trágico. A arte, do jeito que a entendo, não é essa aberração. É a nossa carta de alforria. É o nosso "DNA". É o nosso ser. É a nossa vez. É a nossa voz...e única...