Friday, August 31, 2012

Felizes dos que, ao cabo de longa existência, podem olhar para trás e constatar que aproveitaram as oportunidades que tiveram. Dos que não têm queixas das circunstâncias que marcaram o tempo que viveram. Dos que nunca viram, por exemplo, morrer qualquer esperança e tiveram a ventura de as ver todas plenamente concretizadas. Dos que não se consideram injustiçados e nem duramente punidos. Convenhamos, esta não é a realidade da maioria das pessoas, que olha para trás com tristeza e decepção e percebe que já nada mais pode ser feito para se sentir ao menos palidamente feliz. O poeta mexicano Amado Nervo descreve, no poema “Em paz”, esse sentimento sereno dos vencedores:

“Perto do meu ocaso eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança falida
nem trabalhos injustos, nem penas imerecidas”.

Oxalá possamos, todos, perto do nosso ocaso, bendizer a vida e só ter motivos para agradecer, jamais para lamentar.

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À beira da convulsão social

Pedro J. Bondaczuk

O Peru de hoje é um pais empobrecido, dividido por lutas armadas na cidade e no campo, apresentando um alto índice de inflação, um dos maiores contingentes de desempregados e subempregados da América do Sul e, ainda, para complicar tudo, tem que pagar uma dívida externa (que muitos consideram impagável) que gira pela casa dos US$ 13 bilhões, cujo serviço absorve mais da metade das suas exportações.

Quando o general Juan Velasco Alvarado assumiu o poder, em 1968, após um golpe de Estado que depôs o atual presidente, Fernando Belaunde Terry, o endividamento externo peruano era de apenas US$ 788 milhões. Ou seja, perto da cifra atual, praticamente nenhum.

Naquela oportunidade, os militares tentaram implantar um extraordinário programa de reformas, esquerdista, procedendo, principalmente a uma audaciosa reforma agrária, classificada, na ocasião, pelo líder cubano Fidel Castro, como a “mais radical da América Latina, excetuada a de Cuba”.

Quatrocentas mil famílias foram, então, agraciadas com mais de sete milhões de hectares de terras. Foram criadas quase 1.500 cooperativas. Eliminou-se, de vez, a figura, tão comum na América Latina, do “terrateniente”, o 1% da população que detinha 90% do solo do Peru.

A reforma agrária é um bem, diria o leitor. Afinal, pelo menos em tese, é uma terra improdutiva que passa a produzir. Em teoria, seria mesmo. Mas na prática, e no caso específico do Peru, o tiro saiu pela culatra.

Dos cinco milhões de pessoas que viviam da agricultura no país, só uns 1,21 milhão receberam o seu quinhão. E a parte prejudicada, como sempre, foi a população indígena, que representa 50% de todos os habitantes desse país e que nem mesmo fala espanhol, se expressando, apenas, em aymará e quixua. Esse enorme contingente foi o que ficou marginalizado diante dos 10% de descendentes puros de espanhóis. A bem da verdade, essa distorção dos militares esquerdistas peruanos nem mesmo foi intencional.

As terras férteis do país não ocupam mais do que 4% do total do território, espremidas entre os Andes, inóspitos e quase inaproveitáveis e a semivirgem Amazônia, cujo solo não se presta à agricultura. Os resultados da reforma agrária acabaram sendo catastróficos. Só em 1980, para exemplificar, o país teve que importar 50 mil toneladas de açúcar, produto que antes exportava.

Os “terratenientes”, com as indenizações que receberam, investiram o capital na indústria e passaram a agir, na zona urbana, da mesma forma insensível e cínica com que faziam no campo. A conseqüência de tudo isso, e da criação de uma miríade de órgãos estatais para controlar as novas cooperativas, provocou um inchaço na burocracia peruana.

A máquina estatal tornou-se cada vez mais dispendiosa, exigindo crescentes recursos externos para o seu custeio. Com isso, a dívida aumentou desmesuradamente e entre 1977 e 1978, o país esteve na iminência, em várias oportunidades, de se declarar inadimplente diante dos banqueiros internacionais.

Com o endividamento crescente, o Peru foi caindo, cada vez mais, nas mãos do Fundo Monetário Internacional e aceitando, por conseqüência, sua amarga receita recessiva, que tem, como principal seqüela, o achatamento salarial. Apenas num ano, o de 1977, o poder aquisitivo médio dos salários sofreu redução de 40%. Empresas faliram, pessoas ficaram desempregadas e tal situação (e isso não é segr4edo para ninguém) é um caldo de cultura ideal para a fermentação social. E esta não se fez esperar.

Por isso, não é de se estranhar o surgimento de movimentos guerrilheiros e a sucessão de greves que vêm marcando a vida peruana nesta década. É essa enorme armadilha que o próximo presidente, provavelmente o aprista Alan Garcia, terá que desarmar para fazer o Peru voltar a crescer. Caso não logre êxito, é até impensável o tamanho da explosão de violência, de saques e de depredações que poderá ocorrer nesse nosso vizinho populoso e tão problemático.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 14 de abril de 1985).

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Garra e criatividade

Pedro J. Bondaczuk

Para ser escritor no Brasil – e não me refiro, apenas, a escrever livros, mas ao que é essencial para caracterizar alguém nessa condição, ou seja, publicá-los, divulgá-los e vendê-los – o aspirante a isso tem que ter, além, obviamente, de talento, muita paciência, garra e determinação. O que mais ouvirá, com certeza (salvo raríssimas exceções) será uma infinidade de negativas de editoras. E isso se conseguir pelo menos ter acesso a alguma delas. A palavra que mais frequentará sua realidade cotidiana será o terrível “não”, sobre a qual o Padre Antonio Vieira discorreu com imensa sabedoria e talento, em um de seus mais famosos sermões.

Se o aspirante a escritor for daqueles que desistem facilmente, sua carreira acabará no nascedouro. Provavelmente irá buscar outras atividades e se esquecerá dessa história de literatura. Contentar-se-á em manter-se na condição de leitor, o que (acreditem) não é pouca coisa. Mas...

Muitos talentos foram perdidos por essa razão, por falta de disposição e de paciência para ouvir tantas negativas e ainda assim persistir. As coisas já foram piores, é verdade, e essa dura e frustrante realidade não é exclusividade do Brasil. É mais dramática ainda em países culturalmente mais atrasados do que o nosso.

Por isso, tenho imenso respeito pelos escritores novos que conseguem publicar o que escreveram. Quando me caem em mãos livros deles tenho o máximo cuidado em emitir comentários. Se forem bons, faço questão de detectar e exaltar seus principais méritos. Se ruins, limito-me a apontar as falhas diretamente aos escritores, sem citá-las de público. Reitero que não aceito o papel de destruidor de sonhos alheios. Sou criticadíssimo por essa postura, mas nem por isso abro mão dela. Pensem de mim o que quiserem. Até porque, destruir o que quer que seja é a coisa mais fácil do mundo. Qualquer imbecil faz isso com o mínimo de esforço. Construir é que são elas!

Apesar de contar com severa restrição de tempo (gostaria que os dias tivessem 48 horas ou mais e não as 24 que têm), dada minha inquietação intelectual, que me leva a assumir mais compromissos do que consigo dar conta, há uma atividade diária da qual não abro mão: a da leitura de blogs. Faço isso desde o ano 2000, quando havia poucos desses espaços na internet. Isso, na ocasião, ainda não havia virado (saudável) mania. Viciei-me nesse tipo de leitura ao qual dedico uma hora por dia, impreterivelmente, em todos os 365 dias do ano, sem falhar nenhum. Desde 2001, acompanho (sem que ela nem mesmo soubesse e nem saiba ainda), o blog (entre tantos outros) de uma jornalista jovem, que não escondia, em suas postagens, sua pretensão (diria saudável ambição) de se lançar como escritora. Refiro-me à jornalista Fernanda França.

Torcia para que ela saísse à luta e batalhasse pelo seu sonho (mesmo sem saber se já tinha livro escrito e, em caso afirmativo, se era de qualidade, digno de publicação). Vibrei, pois, quando soube que ela havia rompido a barreira imposta aos escritores novos e lançado o romance (que ela classificou de comédia romântica), “Nove minutos com Blanda”. Curioso como sou (na verdade, xereta), adquiri-o, li-o com entusiasmo e... gostei. Cheguei a pautar um comentário a propósito, mas os temas para comentar foram se sucedendo, se atropelando, fazendo com que eu fosse adiando minha apreciação informal desse livro. Tardei tanto em me decidir que o assunto perdeu a atualidade.

Todavia, agora, surgiu um oportuníssimo “gancho” para tratar dessa jovem e promissora escritora, que alia, ao enorme talento narrativo, o que a atividade (pelo menos no Brasil) mais requer: garra, persistência e continuidade. No primeiro trimestre de 2012, Fernanda França lançou seu segundo livro, com as mesmas características do primeiro (que tanto me agradaram), ou seja, além de fluência e criatividade, muito humor. Trata-se de “Malas, Memória e Marshmellow” (originalíssimo até no título). A exemplo do primeiro, este segundo lançamento também foi da Rai Editora. Acabei de lê-lo e, ainda entusiasmado com essa divertida história, decidi escrever, não propriamente sobre o livro (não costumo fazer resenhas), mas sobre a corajosa e persistente autora.

E quem é Fernanda França? É uma jovem jornalista (tem 30 anos de idade), paulistana, mas que reside pertinho de onde eu moro (resido em Campinas), aqui em Mogi Guaçu, onde trabalha na “Gazeta Guaçuana” dessa cidade. Se já é difícil a um escritor que resida nas grandes metrópoles, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília etc. convencer uma editora a publicar seus livros, imaginem o obstáculo para quem mora no interior! Multiplica-se, na melhor das hipóteses, por dez (eu que o diga). Fernanda é pós-graduada em Comunicação Jornalística pela Casper Líbero. E mais, tem curso de especialização pelo Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Nas entrevistas que a jovem escritora deu, publicadas em alguns blogs da internet, ela ressalta o que destaquei no início dessas reflexões. Ou seja, a tremenda batalha para conseguir quem editasse seu primeiro livro. Teve que ouvir tanto “não”, que sequer consegue contabilizar quantos. Todavia, tem talento. E, mais do que isso, tem garra. E, mais ainda, é persistente e não desiste quando tem segurança do que faz. Além de tudo isso, é criativa e não tem medo de se expor (e nem há por que ter) quando se trata de divulgar seus livros.

Um episódio, bastante revelador, dessa coragem e criatividade, sobretudo na divulgação do que publicou (o que é fundamental, ressalte-se), ocorreu em 2010, na Bienal do Livro de São Paulo. Na oportunidade, Fernanda lançava “Nove minutos com Blanda”. E sabem o que ela fez? Em cada dia que durou o evento, ela compareceu ao local de exposições trajando camisetas de cores diferentes e com frases do seu livro. Foi um sucesso. Sem exagero, foi um arraso! Todos os presentes paravam para ver essa promoção tão simples, mas ao mesmo tempo tão oportuna e original. E, na sequência, adquiriam o romance da jornalista. Afinal, grandes problemas requerem soluções diferentes, ou seja, criativas e não convencionais. E foi o que Fernanda fez. Essa ousadia garantiu-lhe excelentes vendas.

Estou certo que novos livros, com o mesmo padrão de qualidade, virão, consolidando uma carreira literária que já começou sob um signo vencedor. Você, aspirante a escritor, já ouviu uma infinidade de “não” das editoras? Ora, ora, ora, não desanime. Faça como Fernanda França: arregace as mangas, seja persistente, use a imaginação e vá à luta. E, se quiser, contate-me na sequência, relatando-me os resultados. Certamente serão, no mínimo, compensadores.

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Thursday, August 30, 2012

Nosso foco correto, o objeto de nossas preocupações, tem que ser, sempre, o tempo presente. É somente nele que podemos atuar na realidade e torná-la melhor. O passado é matéria para historiadores e biógrafos. Tem lá sua utilidade, mas como alerta, para não cometermos os mesmos erros que cometemos e persistirmos no caminho que já se mostrou adequado. O futuro é mera abstração, período potencial, que pode ou não acontecer. Já trouxe este tema à baila inúmeras vezes, mas nunca é demais refletir de novo sobre ele. O que conta é o agora, vivido intensa e produtivamente. É esse o tempo para mostrar ao mundo a que viemos. Carlos Drummond de Andrade abre o antológico poema “Mãos dadas” com estes versos inteligentes: “Não serei o poeta de um mundo caduco./Também não cantarei o mundo futuro./Estou preso à vida e olho meus companheiros”. É isto. Viver o presente é estar, de fato, preso à vida, gozando-a em sua plenitude e grandeza.

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Anote e Confira

FESTIVAL DE PRIMAVERA

A Rede Globo, para comemorar a entrada do mês da Primavera, programou um elenco de filmes dos melhores para esta semana. Hoje, o telespectador vai ter a oportunidade de entrar em contato (isso no caso de quem não conseguiu assistir no cinema) com uma das melhores superproduções de Hollywood, filme premiado com 11 Oscars da Academia: “Bem Hur”. A obra, narrando as dificuldades dos cristãos, nos primórdios do cristianismo, será mostrada em duas partes: uma hoje, às 21h20, e outra amanhã, no mesmo horário. A emissora resolveu fazer isso por causa da extensão do filme. É uma atração imperdível. Rede Globo, canal 12, às 21h20.

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 22, “TEVÊ”, do Correio Popular, em 4 de setembro de 1984).

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Impeachment e ostracismo

Pedro J. Bondaczuk

O expediente do impeachment, para punir homens públicos, notadamente os que ocupam cargos de chefia do Poder Executivo – quer este seja municipal, estadual ou federal – é um mecanismo criado dentro dos sistemas democráticos para se desfazer de figuras que atentam contra as leis e a ética, sem comprometer as instituições.

O Brasil, pela primeira vez em sua história, lançou mão desse recurso, em âmbito federal, quando do afastamento do então presidente Fernando Collor de Mello, sem que ocorressem sobressaltos quanto a eventuais golpes ou retrocessos institucionais. Foi, sem dúvida, um importante avanço democrático do País naquela oportunidade. Depois disso, vários outros chefes do Executivo foram afastados, mas no plano municipal.

Nos Estados Unidos, tal prática também foi cogitada quando do escândalo Watergate, no início da década de 1970. Não foi, todavia, levada a cabo. Não deu tempo. O então presidente norte-americano, Richard Nixon, diante da perspectiva de uma condenação mais do que certa, antecipou-se ao Congresso e apresentou sua renúncia.

O primeiro povo que criou salvaguardas democráticas do tipo foi o ateniense. Em 508 a.C, Clístenes, tão logo assumiu o poder, instituiu o chamado "ostracismo". Em Atenas, a palavra não tinha o significado que tem hoje, de "esquecimento". O termo designava uma espécie de plebiscito.

Os cidadãos livres da cidade-Estado, em número de seis mil, cada um representando uma família, eram chamados a uma votação para decidir se um determinado político, tido como incompetente, ou corrupto, ou nocivo, ou perigoso à segurança coletiva, deveria ou não ser exilado. O período de exílio tinha a duração de dez anos, com possibilidades de renovação, se fosse o caso.

Essas eleições, embora fossem semelhantes às de hoje quanto ao caráter secreto do sufrágio, tinham instrumentos muito diferentes dos atuais, condizentes com os recursos da época. O voto, por exemplo, não era escrito em nenhuma cédula, até porque não havia papel na ocasião, produto desenvolvido pelos chineses, que ainda não tinha chegado à região do Mediterrâneo.

Os cidadãos escreviam "sim" ou "não", a favor ou contra o banimento, nas "ostrakas", conchas, geralmente de ostras. Daí o processo ser denominado "ostracismo".

O escritor Indro Montanelli, em seu livro "História dos Gregos", assim descreve esta prática: "Cada membro da Assembléia Popular, de que faziam parte seis mil pessoas – praticamente todos os chefes de família da cidade – podia escrever o nome de um cidadão que, a seu ver, constituísse ameaça para o Estado. Se tal denúncia anônima fosse aprovada por três mil colegas, o denunciado era exilado por dez anos, sem necessidade de processo que lhe provasse as culpas. Era um princípio injusto e tremendamente perigoso, pois se prestava a toda espécie de abuso. Mas os atenienses praticaram-no com moderação, ainda que nem sempre com pertinência. Nos quase cem anos que esteve em uso, foi aplicado apenas em dez casos. E o cúmulo do bom-senso foi aplicá-lo exatamente a quem o havia inventado". O escritor refere-se, óbvio, ao exílio de Clístenes.

O impeachment é, como se observa, um expediente mais aperfeiçoado, embora menos democrático, pois nele não há consulta direta ao cidadão, mas aos seus representantes, eleitos pelo voto. Em contraposição, exige provas do delito denunciado e confere todas as oportunidades ao acusado para se defender.

Foi o caso do presidente Fernando Collor, que teve as chances e os recursos para desmentir as conclusões da CPI do caso PC Farias que o apontavam como diretamente envolvido no escândalo. Pôde se dar por feliz, portanto, pelo impeachment não ser o ostracismo. Não foi exilado, mas apenas afastado, e temporariamente, da vida pública. Tanto que, cumprido o período constitucional de perda de direitos políticos, retornou à arena, sendo, atualmente, senador por Alagoas, eleito pelos cidadãos daquele Estado. Creio ser sempre oportuna uma reflexão sobre essa e tantas outras práticas que visem ao aperfeiçoamento das instituições democráticas.

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Wednesday, August 29, 2012

Confunde-se, amiúde, generosidade com piedade. Ambas são virtudes dignas de se cultivar. O generoso não se apega a bens (materiais ou intelectuais), que distribui, fartamente, aos que o rodeiam. O piedoso, por seu turno, compadece-se dos sofrimentos alheios, sente compaixão pelo próximo, mas nem sempre esse sentimento vem acompanhado de boas ações. Se vier, torna-se um santo. Caso contrário... o que sente, embora nobre, é estéril e não redunda em bem algum. Esse desapego por bens e idéias torna, quem age assim, leve, solto, alegre e feliz. Sua preocupação é produzir obras (materiais, artísticas ou intelectuais), que faz questão de partilhar com o mundo. Não por acaso, Bertholt Brecht constata, no poema “As boas ações”: “Ser generoso, que bela tentação!/Uma boa palavra brota suavemente/como um suspiro de felicidade”. A generosidade traz mais alegrias e satisfações a quem a pratica até do que aos beneficiários. Sempre vale a pena!

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Inundação

Pedro J. Bondaczuk

Sons sibilantes soavam serenos
em rudes reintrâncias da rocha rude.
De tanta poesia fugir não pude
e hauri-a em sorvos, com pulmões plenos.

Vivi, respirei, apalpei poesia,
fiz da poesia verdadeira norma
mas nunca pude encontrar uma forma
para expressá-la tal qual eu queria.

Desgostoso, voltei à minha lida
não mais alimentando o sonho vão
de tornar real tamanha ilusão.

Porém, por persistir nesta loucura,
eu vislumbrei um pouco de ternura,
e a ternura inundou a minha vida.


(Soneto composto em Campinas, em 10 de novembro de 1965).

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Ficção da ficção

Pedro J. Bondaczuk

O escritor norte-americano Rick Riordan é um dos grandes campeões de vendas da atualidade. Raras são as semanas em que pelo menos um de seus livros não consta entre os dez mais vendidos do país. O sujeito é verdadeira “mina de ouro” para seus editores (e, claro, para si próprio). Cada novo lançamento é aguardado com ansiedade pelos seus milhões de leitores, ávidos pelas aventuras que ele escreve com naturalidade e interesse. É sucesso certo. Gosto dos seus enredos, personagens e do ritmo que imprime nas peripécias dos seus heróis.

Trata-se de um escritor relativamente jovem. Tem 48 anos, o que, para literatura, é praticamente um menino. Richard Russell “Rick” Riordan Junior nasceu na cidade texana de San Antonio, em 5 de junho de 1964. Foi, antes do sucesso, professor de inglês e história em escolas públicas e particulares em São Francisco, na Califórnia, atividade que exerceu por quinze anos. Certamente foi o que lhe deu a familiaridade que demonstra com temas históricos, notadamente com a mitologia, presentes em muitos (diria, em todos) seus enredos. E, claro, conferiu-lhe o domínio que tem sobre seu idioma, o inglês, que faz com que escreva de forma tão saborosa.

Os críticos classificam seus romances, de “literatura fantástica”. Ouso dizer que a classificação mais adequada seria a de “ficção da ficção”. Vocês estranharam a designação? Mas ela se justifica. Rick Riordan cria personagens que têm tudo a ver com deuses e semideuses das mitologias grega e romana. Ou seja, baseia-se em mitos conhecidíssimos e adorados por séculos, se não milênios, pelo mundo civilizado de remotas eras. Tiveram templos, alguns suntuosos, onde eram adorados. Mas... mitologia não passa de ficção. Como Rick Riordan “cria” em cima do que há tempos foi criado, creio que minha classificação se justifica. Faz “ficção da ficção”.

Um de seus livros mais conhecidos no Brasil é “O ladrão de raios”. Vendeu barbaridades! Integrou a série “Percy Jackson e os Olimpianos”. Claro que houve muitos outros, todos com vendas espetaculares, que seguem vendendo muito, como “O último olimpiano”, “A maldição dos titãs”, “A batalha do labirinto” e o “Mar de monstros”, entre outros. Há quem não goste de histórias como as que ele escreve. Eu gosto. Além de divertir-me, e muito mais do que com a maioria dos filmes que há por aí (com a vantagem de poder imaginar os personagens, muito bem de3scritos, e cenários, o que acho uma delícia), refresco na memória tudo o que aprendi das mitologias grega e romana. Uno, pois, o útil ao agradável.

Agora, acaba de ser lançado no Brasil mais um romance, o segundo da nova série de Rick Riordan, “Os heróis do Olimpo”, que sucede à anterior, “Percy Jackson e os Olimpianos”. Trata-se de “O filho de Netuno”, editado pela editora Intrínseca, que mostrou enorme agilidade no caso. Afinal, esse livro chegou às livrarias dos Estados Unidos muito recentemente, em outubro de 2011. São raros os casos em que isso acontece. Há todo um trâmite para que livros lançados no exterior cheguem às mãos do leitor brasileiro com tamanha velocidade, como aquisição de direitos autorais, tradução etc. Parabéns, pois, à Intrínseca pela agilidade. A editora sabe o que está fazendo, em que terreno está pisando.

“O filho de Netuno” é uma espécie de continuação do livro anterior da nova série, “O herói perdido”. A história começa mais ou menos seis meses depois que a outra terminou (na cronologia do enredo, claro). O personagem central é o mesmo de ambos seriados, Percy Jackson. Para quem não leu os livros anteriores, apresento-o resumidamente. Trata-se de um semideus grego, de 16 anos de idade, filho de Netuno (Poseidon para os gregos) que, nesse novo romance, atravessa todo o território dos Estados Unidos até chegar à Califórnia, onde encontra o Acampamento Júpiter. Não se lembra de nada da sua vida, a não ser de duas coisas: do seu nome e de uma garota chamada Annabeth Lupa.

Outro personagem de “O filho de Netuno” é Frank Zhang. Trata-se de um semideus romano (olhem a caracterização da “ficção da ficção”), filho de Marte (Ares para os gregos) o deus da guerra. No final do livro ele descobre que tem uma habilidade única: a de transformar-se em qualquer coisa que quiser.

A protagonista feminina marcante (e qualquer boa história que se preze tem que ter mulher na trama) é Hazel Lavesque. Trata-se de uma semideusa romana, filha de Plutão (Hades para os gregos), o deus dos mortos e da riqueza. Sua característica principal faz lembrar a que o mitológico rei Midas, o tal que transformava em ouro tudo o que tocava, tinha. Quando ela nasceu, sua mãe pediu a Plutão que a filha fosse capaz de lhe dar todas as jóias da terra. O deus atendeu-a. Todavia, isso tornou-se grande maldição. Onde Hazel estava, sempre apareciam jóias. Todavia, elas traziam azar e maldição aos que as tocassem.

Mais não revelo para não lhe estragar o fator surpresa na leitura de mais um instigante livro, que revive seres mitológicos de um passado remotíssimo, lhes concede filhos e filhas, que protagonizam dramas, comédias e tragédias, como seus ancestrais, contudo nos tempos de hoje e nas cidades dos Estados Unidos atuais. Rick Riordan é, portanto (e volto a inovar) “ficcionista ao quadrado”. Daí, certamente, deriva grande parte do seu sucesso.

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Tuesday, August 28, 2012

É consenso medir-se a idade das pessoas pelo número de anos que viveram. Ou seja, por quantas folhinhas suas vidas já passaram. Discordo dessa maneira de medição. Prefiro uma forma mais condizente com a realidade. Minha idade, por exemplo, é a que sinto ter, independente dos anos que vivi. O que importa não é “quanto” se vive, mas “como”. O que conta é a postura, o interesse e o entusiasmo com que se encara o tempo. Há muitos jovens de 80 anos, em pleno vigor mental e intelectual, embora o físico possa estar debilitado. Em contrapartida, temos velhos caquéticos de 18 anos, entediados, lamurientos e preguiçosos, que pensam apenas em descanso, embora sequer tivessem tempo de se cansar. São de Mário Quintana, do seu “Pequeno poema didático”, estes sábios e expressivos versos: “O tempo é indivisível. Dize,/qual o sentido do calendário?/Tombam as folhas e fica a árvore,/contra o vento incerto e vário”.

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Grotesco arremedo de popularidade

Pedro J. Bondaczuk

A capital paraguaia foi palco, ontem, de uma insólita passeata. Doze mil mulheres saíram às ruas para manifestar o seu apoio ao presidente Alfredo Stroessner, que caminha celeremente para igualar, em tempo de duração no poder, a ditadura franquista na Espanha. O estrangeiro que passasse por Assunção e visse essa marcha, e que além de tudo não conhecesse nenhum retrospecto do que ocorre no Paraguai, seria capaz de pensar que o seu governo é extremamente popular. Que conta com a adesão da totalidade da população e que o país é um paraíso democrático, bem no coração da América do Sul. Pelo menos essa foi a impressão que esse ato pretendeu passar.

Entretanto, quem acompanha (por gosto ou por dever de ofício) o panorama político mundial, especialmente o sul-americano, sabe que a coisa não é bem assim. Que existe muito descontentamento entre o povo paraguaio com a forma como a nação vem sendo dirigida. E especialmente com os vários episódios de desrespeito aos direitos humanos, fartamente denunciados por entidades que tratam desse assunto em âmbito internacional.

Por essa razão, o crítico desconfia, logo de início, que deve ter havido algo por trás de tão insólita manifestação. Mesmo o estrangeiro que estivesse em Assunção assistindo a esse ato de apoio, se fosse um pouquinho observador, iria estranhar alguns fatos. Por exemplo, se a popularidade do presidente é tão grande quanto se procurou demonstrar (e a passeata foi devidamente arranjada para consumo externo, com fins propagandísticos), como se explica que ele tivesse a necessidade de contar com tantos guardas de segurança à sua volta no palanque?

Posteriormente, juntando informações esparsas, o quadro todo acabará por se aclarar com a maior facilidade. Inúmeras paraguaias, especialmente funcionárias públicas, denunciaram a existência de pressões para que participassem do desfile. As que se negaram a aderir, foram ameaçadas de ficar sem trabalho.

Essa atitude faz bem o gênero de um presidente que, nos trinta e dois anos de seu governo, vem renovando, religiosamente, a cada três meses, o estado de sítio no país. Fazendo as contas, o leitor chegará, com facilidade, à conclusão que 128 decretos de renovação dessa medida de exceção (ou algo próximo a isso) já foram assinados desde 1954, numa média de quatro por ano.

Esse tipo de pressão contra as mulheres que servem o Estado também se enquadra nas atitudes que se poderiam esperar de alguém que já encarcerou 10% dos paraguaios por motivos políticos. Conforme denúncias da organização norte-americana de direitos humanos America's Watch, trezentas e sessenta mil pessoas no Paraguai, numa população de três milhões, passaram pelas prisões do regime nos últimos 32 anos. Porcentualmente, esse deve ser, seguramente, um recorde mundial de repressão. Ou se não for, deve andar muito próximo dele.

É por esses engodos, manobras e acertos que o monsenhor Mário Melanio Medina não conseguiu se furtar, no mês passado, de um desabafo a respeito do que ocorreu em seu país. Foi, certamente, uma declaração dada muito a contragosto, com dor no coração, pois como bom patriota que é, com certeza ele gostaria que as coisas fossem diferentes. Que a sua gente tivesse, a curto prazo, perspectivas mais animadoras.

Mas as evidências levaram o sacerdote a dizer que "o Paraguai é o país do medo, um país cujo povo foi domesticado". A passeata de ontem veio confirmar, na íntegra, suas afirmações. Apoio e popularidade só se conseguem legitimamente nas urnas, em eleições livres, com a participação plena da oposição.

Nesse aspecto Reagan tem razão quando se refere, por exemplo, à Nicarágua. Mas ele deveria prestar, também, um pouquinho de atenção no Paraguai, para que seu empenho democrático se consolidasse em credibilidade, que o presidente norte-americano conseguiu nos episódios do Haiti e das Filipinas.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 12 de junho de 1986)

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Aparentados pelo coração

Pedro J. Bondaczuk

O saudoso escritor Pedro Nava definiu, certa ocasião, de forma simples e objetiva, e com parcimônia de palavras, o que é ser amigo: é “aparentar-se pelo coração”. E como se dá esse processo de aparentamento? Pelo mútuo conhecimento e, sobretudo, pelo elo da afinidade que duas pessoas descobrem que têm à medida que se conhecem e que desenvolvem na sequência.

Esse tipo de amizade dispensa todas as formalidades, até mesmo a do recíproco contato pessoal. Meus melhores amigos, os que me acompanham a todo o momento, são os que nunca vi, com os quais jamais conversei (alguns até morreram séculos antes que eu nascesse), mas que, pela afinidade de ideias, de sentimentos e de ideais, me são, sempre foram e sempre serão caros e insubstituíveis. Estão, reitero, sempre comigo, onde quer que eu esteja.

Há relativamente pouco tempo, “aparentei-me pelo coração” com uma pessoa que até então não conhecia. À medida que nossos contatos foram se amiudando, se estreitando e se aprofundando, e que fomos nos conhecendo mais e mais, o processo de “aparentamento” pôs-se de imediato em marcha. Mas não parou, como não raro acontece. Evoluiu, teve sequência e findou por se consolidar, mediante o elo inquebrável das afinidades. E estas se revelaram, se depuraram e findaram por se consolidar mediante o mútuo contato com as respectivas obras literárias; Ou seja, com a essência da alma de cada um.

Enviei a essa pessoa meu livro (inédito) de ensaios, “Dimensões infinitas”, a “menina dos olhos” da minha produção, mesmo não publicado. Recebi, em contrapartida, régio presente, que é seu romance psicológico “A passagem dos cometas”. Li-o avidamente. Melhor diria, “devorei-o”, com satisfação e até com gula, detectando, em cada capítulo, parágrafo e sentença, mais e mais afinidades com o autor. Querem saber de quem se trata? Trata-se do poeta e mais, do Escritor (com “e” maiúsculo) Edir Araújo, cujos textos tenho a honra de reproduzir, periodicamente, neste espaço nobre da internet.

Nossas afinidades, recém-descobertas, são tantas, que ele até já se juntou, para minha satisfação e orgulho, a este nosso bando de “Quixotes” que vivem, saboreiam e respiram Literatura todo tempo e que buscam, no limite de suas capacidades, enriquecê-la, engrandecê-la e aperfeiçoá-la, a despeito de tantos e tamanhos obstáculos, dificuldades e incompreensões que temos diante de nós.

Mas, falemos de seu livro, que me suscitou todo esse entusiasmo. Já no título, sugere tratar-se de duas coisas das quais ambos somos afins: cometas e poetas. A obra, densa, consistente e meticulosamente pesquisada, cujo texto é exposto com meridiana clareza e com a objetividade dos mestres da Literatura, consiste, basicamente, de uma série de diálogos entre dois personagens centrais, que atuam como “fios condutores do enredo”. Um, é o editor Rômulo Valentim (cujo nome só ficamos sabendo no surpreendente desfecho do livro, que não revelarei qual é para não estragar o fator surpresa do leitor) e o outro, tratado o tempo todo como poeta-dentista (e que no desfecho do romance ficamos sabendo se tratar de Ganimedes Junior), que na verdade é o protagonista central da trama. Das conversas de ambos ficamos sabendo uma infinidade de detalhes – ora pitorescos, ora curiosos, mas sempre surpreendentes – tanto de poetas célebres (na verdade, também, de escritores de outros gêneros) quanto de cometas, aos quais o autor, hábil e sutilmente, os relaciona.

Reitero, é um livro de tirar o fôlego dos que entendem que a boa leitura é a que proporciona, simultaneamente, entretenimento, informação, conhecimento e reflexão. “A passagem dos cometas” suscita tudo isso e muito mais. É uma obra que recomendo sem titubeio e com a maior satisfação.

Escrevi, reiteradas vezes, e o leitor é testemunha, que gosto dos idealistas, dos lutadores, dos que não se submetem às circunstâncias negativas, que sabem sonhar, mas não se limitam a isso, contudo se empenham ao máximo para a concretização de todos seus sonhos, mesmo os aparentemente impossíveis. Tenho por paradigmas o que os norte-americanos chamam de “self made men”, ou seja, homens que se fazem sozinhos, pelo seu esforço, persistência e talento. E Edir Araujo é um deles.

Esse fluminense, nascido em Piraí, em 14 de junho de 1958, é um autodidata. Lembro que o maior escritor brasileiro de todos os tempos (e que me perdoem os demais), Machado de Assis, jamais freqüentou qualquer escola. Fez-se sozinho. Alfabetizou-se por própria conta e foi o que foi: mestre de todos nós, comprometidos com Literatura. Edir segue a mesma trajetória.

De família numerosa, o mais velho de 9 irmãos, aos 11 anos já era arrimo de família. Terminado o curso secundário, cedo teve que abandonar os estudos devido à sobrecarga de atividades. Mas se não teve acesso a qualquer universidade, empenhou-se, com afinco, na mais importante das escolas, a da vida.

Não repetirei a trajetória que seguiu para chegar onde chegou. Enfatizarei, apenas, que tomou gosto pelas Letras desde tenra idade, compondo versos, escrevendo crônicas e fazendo resenhas de livros e, sobretudo, lendo, lendo e lendo, incansável e compulsivamente. Assim como todos os bons escritores têm sempre uma ideia pré-concebida do que irão escrever, seu primeiro livro “A passagem dos cometas, foi idealizado há 15 anos. E que livro! Valeu a pena tanto esforço, tanta pesquisa e tanto empenho em produzir um texto sobretudo claro, correto e preciso. Outros, muitos outros livros, certamente, virão (aliás o segundo, “Gritos e gemidos”, já veio) é o que indica a minha intuição (que nunca falha), até com base em nossas recém-detectadas afinidades.

Com tantas coisas que temos em comum, cuja principal é nossa evidente paixão recíproca por Literatura e por todos os que a fazem e lhe dão vida, transcendência e grandeza, permita-me, Edir, o atrevimento de chamá-lo de AMIGO, que é como o considero, “aparentados” que somos “pelo coração”, como diria o saudoso Pedro Nava, igualmente levado, de forma trágica (como vários escritores que você cita em seu livro e que deram cabo da vida) “por um cometa” para o além.

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Monday, August 27, 2012

Ligeireza e pressa não são sinônimas, apesar de muitos acharem que sim. A primeira palavra caracteriza a perícia, o pleno domínio das ações e o controle das reações. A pressa, por sua vez, é sempre fruto da ansiedade e da afobação. Paul Valery traça pitoresca alegoria em torno das duas palavras. Compara a ligeireza ao vôo dos pássaros e a pressa, ao cair de uma pena. As aves direcionam o seu vôo e vão para onde querem. As penas, por seu turno, não têm vontade que as comandem e seguem para onde os ventos as levarem. E o poeta conclui: “É preciso ser-se ligeiro como a ave, não como a pena”. Devemos, pois, ter ligeireza nas ações, fruto do domínio do que fazemos e do talento e preparo que temos. Em contrapartida, temos que evitar a pressa que, como bem diz a sabedoria popular, “é inimiga da perfeição”. Compete-nos, pois, ser sempre ligeiros, nunca apressados, no pensar, no agir e no espalhar atos de bondade e amor.

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O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.

Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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Por dentro da TV

"BEM AMADO" É ATRAÇÃO DA SEMANA
A atração do Sexta Super da Globo, nesta semana, é o seriado "O Bem Amado", com o episódia "A Bichoteca". O prefeito Odorico precisa de fundos para a campanha com vistas às próximas eleições para o governo do Estado, mas não sabe de onde tirar o dinheiro. Entretanto, Dirceu Borboleta tem uma brilhante idéia: por que não legalizar o jogo do bicho em Sucupira? Em torno dessa legalização vai se desenrolar uma engraçadíssima história (a qual, é claro, não vamos ser chatos de contar). Só podemos adiantar que a "Bichoteca" vai dar uma confusão danada, principalmente com o "contraventista zoológico" juramentado de Sucupira, o Salim Pipoca.

BENGELL FAZ PLÁSTICA
A atriz Norma Bengell decidiu aderir ao clube dos que se submeteram a uma operação plástica. Mas não é nada de grande porte, não, afinal, ela ainda está bastante em forma (nem é preciso dizer, pois todos a vêem, diariamente, em "Partido Alto"). Norma quer eliminar, preventivamente, algumas ruguinhas, principalmente porque ela não tem o costume de usar maquiagem.

A ENERGIA DO GONZAGÃO
Uma das coisas mais notáveis, que todos comentam, é a tremenda energia de Luiz Gonzaga, o "Lua", principalmente quando se sabe que ele já tem 72 anos de idade. Em várias oportunidades o cantor anunciou a sua despedida da vida artística, mas sempre acabou voltando atrás. Alias, nesse aspecto, ele está empatado com o "Caboclinho Querido", Sílvio Caldas. Agora Luiz Gonzaga promete que vai mesmo encerrar as atividades. Mas antes, pretende fazer shows de despedida em todas as capitais brasileiras. E quer gravar também um novo LP, para cuja gravação dispensa toda a parafernália eletrônica, típica do meio fonográfico. Fazendo as contas, Gonzagão ainda deve cantar, por baixo, muito por baixo, mais uns cinco anos, ou mais, o que é muito bom!

(Coluna escrita por mim, sem assinar, publicada na página 54, editoria TEVÊ, do Correio Popular, em 30 de setembro de 1984).

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Século do quase

Pedro J. Bondaczuk

Dia desses, em um dos tantos papos informais com os amigos que costumo ter (e que, talvez, por causa da informalidade, acabam sendo produtivos e sumamente pródigos em termos de geração de idéias), veio à baila uma espécie de balanço do século XX. Concluiu-se, após horas de conversa, que em vários momentos esquentou e derivou para acaloradas discussões (embora sem consenso no final), que esse período, entre outras características que apresentou, teve uma que se constituiu em causa dos sucessivos conflitos no mundo, que o tornaram o mais violento e dramático da história: o das soluções pela metade.

Raros foram os episódios solucionados a contento, ou mesmo de maneira completa. Pelo contrário. Por isso não estranharia se os historiadores, digamos daqui a cem anos, o batizassem, solenemente, de “o século do quase”: quase justiça social, quase paz, quase prosperidade, quase aniquilação nuclear, quase, quase, quase. Exagero? Pensando bem, não! Adiar um problema, diz a lógica mais reles e comezinha, ou mesmo resolvê-lo parcialmente, não é chegar à sua resolução. É só "quase".

Nenhuma questão realmente importante se resolve por si só. Requer, sobretudo, ação, inteligente, continuada e, se possível, consensual. Para citar apenas os grandes momentos desse período, em que se pecou tanto pela incompetência, se pode mencionar o Tratado de Versalhes, por exemplo, que acabou com a Primeira Guerra Mundial, humilhando a Alemanha, mas não impedindo o surgimento de um Adolf Hitler; a criação de impérios artificiais mediante negociatas secretas e acordos espúrios, sem que fosse respeitada a vontade dos povos envolvidos etc. etc.etc. O resultado todos sabem qual foi. Originou a Segunda Guerra Mundial, de tantos horrores, prejuízos e desperdícios e, sobretudo, de 50 milhões de pessoas mortas.

Alguém lembrou que foi o século das revoluções (Bolchevique, Mexicana, Portuguesa etc.) e também dos meros e reles golpes de Estado, rotulados como tal. Uma e outra, todavia, não satisfizeram as expectativas que geraram. Desvirtuadas, morreram, melancolicamente, de morte natural, sem mudar em nada o mundo para melhor. Poderiam ser apontados, talvez, milhares de episódios caracterizados pela ausência de imaginação e falta de bom senso e, principalmente, de soluções paliativas, que não resolveram nenhum dos conflitos surgidos, apenas empurraram-nos com a barriga. Os citados, todavia, são suficientes para explicar muito do que aconteceu na sequência, está acontecendo agora e provavelmente ainda acontecerá no futuro próximo.

Como, por exemplo, as tensões onipresentes e já rotineiras na zona que é a "jugular do petróleo" do Ocidente, o Golfo Pérsico. Ora era o Iraque o vilão da vez, ora era o Irã dos aiatolás (notadamente do mais radical deles, Ruhollah Khomeini), ora foi (e é) o Yemen, ora é o Irã novamente. Qual será a conseqüência desse estado de permanente tensão, que teima em não se atenuar? Quem poderá saber? A mesma realidade (ou bastante pior, sabe-se lá) envolve o “barril de pólvora” do Oriente Médio, com o interminável conflito, que se arrasta desde 1948, entre israelenses e palestinos. Esse estado de beligerância continuada terá fim algum dia? Quem pode prever? Na base do chutômetro, ouso dizer que não terminará nunca. A menos que... Nem quero pensar. A menos que as duas partes se eliminem.

Outra conseqüência de um serviço incompleto foram os movimentos nacionalistas que estilhaçaram a antiga Iugoslávia, a ex-União Soviética e que ameaçam outras tantas federações artificiais remanescentes, criadas como se, para formar uma nação, bastasse somente que um punhado de burocratas insensíveis e estúpidos traçasse algumas linhas apressadas num mapa qualquer. Essas zonas permanecem em latente tensão, que tende, mais dia menos dia, resultar em mais e mais violência. Nem é preciso ser algum profeta para prever isso. Está na cara!

O ensaísta francês Alain Minc abordou os resultados desse tipo de atitude, ou seja, de “soluções” parciais, que nada solucionam, constatando: "Assistimos hoje (no caso referia-se ao fim do século passado) à conjunção de dois fenômenos. Em primeiro lugar, o fim do equilíbrio do terror, que era nossa melhor arma 'antinacional'. Até então, o mundo estava congelado pela dissuasão nuclear em dois grandes blocos: Leste e Oeste. Vivemos assim por 45 anos: a história estava, por assim dizer, petrificada".

Mais adiante, acentuou: "E depois, com o fim de Yalta, a queda do muro de Berlim, eis que ela (a história) sai bruscamente do congelador. As nações retomam seu lugar e acham-se no estado em que estavam antes da longa noite comunista, atordoadas pelas injustiças dos tratados e dos cortes das duas guerras, frustradas por meio século de opressão, com seus reflexos étnicos, mesmo tribais, suas separações religiosas. E temos hoje o direito de perguntar o que pode acontecer entre húngaros, romenos, búlgaros e gregos, sérvios e croatas?". Coisa boa é que, infelizmente, não se pode esperar.

O ensaísta concluiu seu raciocínio advertindo que "riscos inimagináveis há um ano estão prestes a ressurgir". Isto, sem contar os previsíveis, que não são poucos. Recorde-se que esse ensaio foi publicado, se não me engano, dez anos antes do atentado que resultou na destruição sumária das torres gêmeas do World Trade Center, de Nova York, mudando por completo o cenário estratégico mundial, com a nova postura (ainda mais beligerante do que até então) assumida pelos Estados Unidos. Será que a localização e posterior execução do mega-terrorista saudita, Osama Bin Laden, encerrou de vez esse capítulo da história contemporânea? Tenho minhas dúvidas. Tendo a achar que não, porquanto o século XXI começou como terminou o XX: na base do “quase”.

O norte-americano Edward Bellamy, num arroubo futurista, previu, em 1891, no seu livro "Daqui a cem anos": "Com uma lágrima para o passado sombrio, voltemo-nos para o ofuscante futuro e, velando nossos olhos, sigamos em frente. O longo e extenuante inverno da raça terminou. Começou seu verão. A humanidade rompeu a crisálida. Os céus estão diante dela".

Todavia, o retrospecto do século XX, o mais violento da história, e o destes mais de dez anos do XXI, é bem diferente desse sonho delirante, desse arroubo de otimismo sem fundamento na realidade. O jornalista Antonio Torres, numa crônica publicada no suplemento "Idéias" do "Jornal do Brasil", no início dos anos 90, retratou-a assim: "Nós vivemos num século que foi muito rico, produziu grandes mudanças. Mas a gente está chegando ao fim dele como numa espécie de balão que subiu, subiu, e esvaziou. É um século que se despolarizou, encolheu, chegando ao fim meio aquém de tudo que proporcionou". Ou seja, nada do que se começou foi levado até o fim. A expectativa é que este século XXI não reprise o anterior e não seja uma versão ampliada de um “século do quase”. Mas... as coisas, infelizmente, caminham nessa direção.

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