Friday, December 31, 2010







A vida é um milagre. Nossas pequenas vitórias diárias sobre os instintos e sobre as deficiências (todos temos as nossas) o são. O suceder das gerações... Os ciclos da natureza... As quatro estações... A correspondência no amor... As oportunidades... A aquisição de conhecimentos... As artes... Tudo isso é um milagre! Mas nós não nos satisfazemos com o que julgamos ser tão pouco. Queremos mais, muito mais. Aspiramos o poder. Nos trucidamos por bens cuja posse será apenas transitória, no espaço relativamente curto da nossa existência. Colocamos a "miragem" da propriedade como dogma sagrado, sem admitir contestações. E achamos que somos civilizados.

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O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). –
Preço: R$ 23,90.

Lance fatal
(contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. –
Preço: R$ 20,90.

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Sempre há o que dizer

Pedro J. Bondaczuk

A crônica tornou-se, há já um bom tempo, o meu gênero literário (e o tipo de texto jornalístico, diga-se de passagem) predileto. Sempre tenho um assunto engatilhado na ponta da língua e dificilmente repito temas. E mesmo quando o faço, tenho certeza de não ser maçante e nem repetitivo. Como sei? Antigamente sabia pelo número de cartas que recebia dos leitores. Hoje essa interação tornou-se mais prática, imediata e direta, mediante o recurso dos e-mails.
Minha caixa de correspondência vive sempre superlotada, o que se constitui no melhor IBOPE que existe. É verdade que não respondo todos. Nem poderia. Se o fizesse, passaria (sem exagero) vinte quatro horas no computador. Está bem, digamos, oito horas. Ficou melhor assim?
Nem sempre fui cronista. Não tinha tempo para isso. E não se trata de desculpa de quem tenha um amendoim seco substituindo o cérebro. Ocorre que, durante quinze exaustivos anos, fui comentarista político do 11° maior jornal do País (conforme ranking da Revista Exame), o Correio Popular de Campinas. Fosse sábado, domingo ou feriado, fizesse sol ou chuva, estivesse disposto ou adoentado, tinha a obrigação de produzir um artigo por dia.
Além disso, a direção da empresa exigia textos de qualidade que fossem, simultaneamente, atuais e atrativos. Ocorre que nem todos gostam de política (da minha parte, estou “enfarado” dela, de tanto que trabalhei com o tema). Nem em minhas férias ficava livre dessa obrigação. Nesse período, redigia logo cedo o artigo diário, encaminhava-o ao jornal, para ter, pelo menos, a maior parte do dia à minha disposição.
Tenho certeza de que me saí bem da empreitada. Como sei? Muito simples. Raciocinem comigo: há algum dono de jornal que aceite que sejam publicadas “abobrinhas” num espaço tão precioso, que poderia ser vendido aos anunciantes por um bom preço? Claro que não! Se escrevesse mal, não duraria uma semana na empresa, quanto mais quinze anos consecutivos. Querem uma lógica mais irretorquível do que esta? Ademais, o jornal, entre tantas vantagens, tem mais uma coisa de bom (ao contrário do rádio, minha primeira profissão): é (obviamente) impresso.
Como sou um cara obsessivamente organizado quando se trata da minha produção, guardei a totalidade dos artigos que publiquei em uma década e meia (uma montanha de papel que vocês nem fazem idéia de que tamanho é). Se houvesse, pois, quem duvidasse da qualidade dos meus comentários políticos (não sei se há, mas essa é uma possibilidade que não posso descartar liminarmente) bastaria digitá-los (ou escaneá-los) e remetê-los a esse implacável juiz por e-mail.
Confesso que esse tipo de redação não me dava prazer (o que não ocorre com crônicas, que escrevo como se estivesse andando, falando, respirando ou comendo, ou seja, com naturalidade). Meu drama diário era a escolha dos temas. É verdade que atos de corrupção, decisões malucas, controvérsias, guerras, golpes de Estado, “revoluções redentoras” e outras tantas coisas que compõem a atividade política nunca faltavam (e ademais não faltam e jamais faltarão).
Ocorre que meus artigos não poderiam ser sambas de uma nota só, sob pena de serem ignorados. E se o fossem, eu estaria no olho da rua (acho interessante essa expressão). Tinham que ter variedade, para que pudesse atrair a atenção do exigente e volúvel leitor. E crises políticas costumam ser como aquela propaganda de determinada lâmina de barbear: “intermináveis”! Algumas, arrastam-se por semanas, outras chegam a durar décadas. É certo que meu campo de interesse era amplo, era o mundo. Mas todas as manhãs havia o drama da escolha sobre o que e como escrever.
Com a crônica, todavia, nunca falta assunto. Vou dormir sem ter que pensar no que irei redigir no dia seguinte (ao contrário do que ocorria quando era comentarista político). Ao despertar, tão logo ligo o meu computador, olho pela janela do meu gabinete de trabalho e, de imediato, o tema se impõe.
Vejo, por exemplo, meninazinhas bonitas brincando de pular corda e decido escrever a respeito. Ou tenho minha atenção despertada pela molecada jogando bola na rua, vibrando com os dribles e gols, sonhando em ser um Zico, um Romário, (os mais ambiciosos pretendo ser um Pelé) ou, para ser mais atual, um Messi, um Ganso ou um Neymar.
Quanta coisa se pode dizer sobre tudo isso! E espontaneamente, sem forçar a barra e nem temer de dizer coisas que possam gerar processos de políticos venais que se julgam donos do mundo e do Judiciário principalmente (que nunca dão em nada, mas que enchem muito o saco) contra o jornal e, por extensão, contra o articulista.
Já escrevi sobre um montão de coisas, aparentemente banais, mas que se revelaram até serem transcendentais. A crônica tem a vantagem de ser intemporal (ou atemporal?). Se bem escritas, mantêm a atualidade passadas décadas (desconfio que também séculos e até milênios).
Escrevi, não faz muito, por exemplo, sobre o curió do meu vizinho da esquerda. Essa crônica, inclusive, foi premiada em recente concurso que participei (embora deteste esse tipo de competição, por não acreditar na lisura dos promotores). Abordei, também, o caso do sujeito que recitava poemas de Horácio, e em latim, para o seu cão da raça fox-terrier. Era meu vizinho também, mas da direita. Tratava-se de um conhecido advogado do fórum de Campinas, aposentado. Como fosse viúvo, e sozinho, partilhava seus gostos e desgostos, idéias e preferências, com seu maior e mais constante amigo
Viram como é fácil arranjar assunto não só para uma crônica, mas para dezenas, centenas, milhares delas? Basta viver e não se limitar, apenas, a sobreviver. É só manter os olhos, os ouvidos e o cérebro bastante atentos, que os temas se impõem por si sós. E, sobretudo, escrever mais com o coração (ou seja, com emoção e sentimento) do que com o intelecto. Receita bastante simples, não é verdade?

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Thursday, December 30, 2010







Parcela considerável de pessoas não crê em milagres. Mas quantos deles não se verificam cotidianamente! Claro que se trata, na maioria das vezes, dos pequenos, daqueles que sequer percebemos. Mas estão presentes. E todos os dias. O simples fato de acordarmos vivos a cada manhã é milagroso. A Terra é tão frágil e exposta a tantos perigos e o homem tão pequeno, que essa sobrevivência chega a ser excepcional. Mas optamos pelo exercício covarde e inútil das lamúrias, queixas e recriminações. Escolhemos objetivos errados e construímos somente a infelicidade. Experimente, a título de teste, cumprimentar, agora, qualquer pessoa. Pergunte-lhe o de praxe: "como vai?". A resposta vai variar muito pouco, só na ênfase. "Mais ou menos", dirão alguns. "Mal", responderá secamente o sujeito sisudo e eternamente mau-humorado. "Vou indo", afirmará vagamente outro. É, como se vê, a aposta da maioria é no negativo. E por que?

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Pior que Anne Frank

Pedro J. Bondaczuk

A Segunda Guerra Mundial terminou há 65 anos, pelo menos em território europeu – na Ásia só acabou em 16 de agosto de 1945, com a rendição japonesa, após as explosões das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki –, mas os relatos feitos por sobreviventes dos campos de concentração nazistas continuam despertando interesse nas gerações atuais.
É verdade que o distanciamento dos fatos faz com que as narrativas soem como ficção. Virou moda, hoje em dia, irresponsáveis afirmarem, a despeito da profusão de documentos, fotos e filmes comprobatórios daquele dramático e infernal período, que o Holocausto “não teria acontecido” e que não passaria de “farsa”.
São, todavia, afirmações desonestas, estúpidas e descabidas, feitas por boçais, que se recusam a se ater aos fatos e procuram “apagar” a própria História, como se ela não houvesse acontecido. Desgraçadamente, aconteceu. E resultou, entre outras coisas, no bárbaro e metódico extermínio de seis milhões de judeus, além de uma quantidade jamais determinada, mas imensa, de ciganos, de pessoas de origem eslava, de deficientes físicos, de doentes mentais etc.etc.etc.
Tenho comigo um livro, na verdade um roteiro cinematográfico do filme “Shoah”, com centenas de fotografias que marcam para sempre quem tem a oportunidade de vê-las. Não são recomendadas a pessoas sensíveis, que sejam verdadeiramente “humanas”, na mais lídima expressão do termo. Os autores dessas atrocidades, dessa matança metódica, continuada e em massa, seguida da queima como que “industrial” dos milhões de cadáveres nos fornos crematórios dos vários campos de concentração, não podem ser considerados nossos iguais, da nossa espécie (embora fossem).
É como se seres extraterrestres, sumamente cruéis, insensíveis e sanguinários, tivessem vindo do espaço com a missão específica de eliminar os que fossem verdadeiramente dotados de humanidade. Sua crueldade foi tamanha, que chega a gerar dúvidas no espírito dos que nasceram pós-1945 que tenha sido real.
Em 31 de março de 2010 morreu, em Paris, aos 80 anos de idade, Ana Novac, uma das poucas sobreviventes daqueles campos da morte instituídos pelos nazistas e que foi, simultaneamente, protagonista e testemunha daqueles tempos de horror.
E o que essa anciã tem de especial para que se a mencione? Ela foi a autora de um dos livros mais pungentes e dolorosos já escritos “em” e “sobre” campos de concentração. Por ser judia, aos onze anos de idade foi aprisionada com a família na Romênia, onde eles viviam, e enviada, inicialmente, para Auschwitz. Ali, presenciou, em desespero, a morte dos pais na câmara de gás, impotente para tentar fazer qualquer coisa para salvá-los. Escapou de idêntico destino por milagre. Permaneceu encarcerada nesse local por um bom período, sendo transferida, com o desenrolar da guerra, para outros campos, como o de Plaszow.
Ana, todavia, ainda menininha, tinha uma paixão: escrever. E a escrita foi sua tábua de salvação, o que manteve sua sanidade mental, esperança e fé de que sobreviveria. A exemplo da sua ilustre “xará”, Anne Frank, também redigiu um diário. Só que começou onde a primeira terminou. Ou seja, em um campo de extermínio.
O relato de Anne Frank tem como cenário o esconderijo em que estava, com a família, no afã de evitar a prisão e posterior deportação. Após inúmeras peripécias e golpes de sorte, porém, acabou presa e finalmente executada.
Ana Novac, todavia, fez seu relato das próprias prisões para as quais foi enviada. O incrível foi como conseguiu esconder seu diário dos meticulosos e cruéis guardas nazistas e preservá-lo até ganhar a liberdade. Afinal, cada dia, naquele inferno, ameaçava ser seu último de vida.
Ana Novac, contudo, não só conseguiu sobreviver, como logrou, também, preservar seu intenso, dramático e pungente relato. Seu diário foi publicado, em forma de livro, 21 anos após a libertação, em 1966, primeiro na Hungria, então “satélite” ideológico da extinta União Soviética. Posteriormente, foi lançado, em seqüência, na Alemanha Ocidental (1967), na França (1968) e, posteriormente, na Itália, Bélgica, Holanda e nos Estados Unidos.
Somente agora, no entanto, o livro ganhou versão espanhola e chegou às livrarias de Madri, praticamente coincidindo com sua morte. O despacho da Agência EFE, noticiando o lançamento, enfatiza: “Além de reflexões de uma menina sobre o que significa morrer e sobreviver, o texto tem um estilo direto, limpo, de grande carga emocional e indubitável valor literário”.
Só não entendo o título dado à versão espanhola: “Aquellos maravillosos dias de mi juventud (Destino)”. Como “maravilhosos”?!!! Afinal, Ana Novac estava no inferno, driblando, a cada minuto, a morte, num incrível (e bem-sucedido) exercício de sobrevivência que acabou, como se observa, em final feliz.
Ela escreveu, em determinado trecho do diário: “Por mais estúpido e feio que isso possa resultar, não me vejo sem ela (a vida) nem ela sem mim. Inclusive, se houvesse outra vida melhor, voltaria a esta”.
Os nazistas não puderam com ela, nem torturas, fome e sofrimentos. Seu valente coração, contudo, fraquejou. Findou por traí-la, quando nada e ninguém a ameaçavam. Ana Novac morreu, de ataque cardíaco, em Paris, “cidade que sempre sonhou em viver e onde se estabeleceu em 1968, após uma escala de três anos em Berlim, depois de escapar da Europa do Leste”, como informou a Agência EFE.

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Wednesday, December 29, 2010







Os banidos do processo de produção e consumo preferem uma vida de párias, de mendigos, de subcidadãos nas megalópoles, a um estado, senão de opulência, pelo menos de relativa tranqüilidade, e com dignidade, no campo. Este é um dos fatores da crescente violência urbana que afeta dois terços da humanidade. Gustavo Corção, no artigo “Problema Social ontem e hoje”, publicado no Suplemento Literário de “O Estado de São Paulo”, em 19 de maio de 1962, observou: “O problema social consiste no fato bruto que poderíamos definir com uma expressão vulgar: uma parte imensa da nossa população é formada de homens que não têm vez. E é nessa exclusão, nessa excomunhão social que está toda a gravidade moral e física do problema”. É esse o “vírus” que, se não combatido e não vencido, é mais letal do que o da Aids: o do egoísmo. O resto...é pomposa retórica.

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Múltipla escolha

Pedro J. Bondaczuk

A gaúcha, de descendência germânica, Lya Luft é, sem dúvida, uma escritora madura, no melhor sentido de maturidade. Aos 71 anos de idade (completará 72 em 15 de setembro), guarda, ainda, a ousadia e o intenso vigor intelectual da juventude, mas agora alia a essa característica um fator decisivo no campo das idéias e reflexões: a experiência. Conta, pois, com uma dobradinha que é irresistível.
Essa escritora, que consegue nos encantar mesmo quando trata de temas complexos e/ou dramáticos, começou sua brilhante – diria fulgurante – carreira literária como tradutora de livros. Domina, como poucos, além da língua pátria, o alemão e o inglês.
Descendente de alemães, o idioma de Goethe e de Schiller sempre lhe foi sumamente familiar. Afinal, nasceu e se criou em uma região do Rio Grande do Sul (em Santa Cruz do Sul) de colonização germânica. Essa era, pois, a língua falada em casa, com os pais, com os amigos, na rua, no mercado, na igreja etc. e, principalmente, na escola.
Com onze anos de idade, por exemplo, já mantinha estreitos vínculos emocionais com os melhores entre os melhores. Ou seja, decorava, e declamava, poemas de Goethe, de Schiller e de tantos e tantos outros relevantes poetas alemães e, o que é mais importante, no idioma original em que foram escritos.
Gosto de Lya Luft, tanto em verso, quanto em prosa. Encanta-me sua forma de escrever e, notadamente, a temática que aborda. Aprecio sua poesia vigorosa e seus contos, romances e crônicas precisos, inteligentes, intelectualmente estimulantes e altamente reflexivos.
A propósito do seu estilo, ela mesma afirmou, certa feita, até para desfazer possíveis equívocos: “Não existe essa de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade”. E não existe mesmo. Esse é um estereótipo, bastante difundido, mas que não condiz com a verdade.
Afinal, o personagem Frankenstein é criação de uma escritora, a inglesa Mary Shelley. Os melhores e mais instigantes romances de mistério e de suspense saíram da inspirada pena de Agatha Christie, que nos legou mais de 80 livros do gênero, contando histórias dos mais ardilosos e cruéis assassinos e mais astutos e competentes investigadores. Linguagem feminina? Uma ova!
Lya completou, a propósito de supostos textos “adocicados” das mulheres: “Puta que pariu, não é assim! Isso não existe! É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher, faço tudo de mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isto de homem com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem”.
Lya Luft começou sua vitoriosa carreira literária publicando poesias. Em 1964, por exemplo, lançou “Canções no limiar”. Em 1972, foi a vez de “Flauta doce”. Embora sendo poetisa vigorosa e original, ganhou destaque mesmo na ficção. Em 1978, lançou seu primeiro livro de contos, “Matéria do cotidiano” e a seguir, o primeiro volume de crônicas, “As parceiras”. Muitas outras obras vieram na seqüência.
Escrevi tudo isso, apenas para destacar o mais recente lançamento de Lya Luft, o livro de ensaio “Múltipla escolha” (Editora Record), em que a autora apresenta a vida como um cenário de teatro de marionetes, com muitas portas, que estavam ali, ou que nós desenhamos.
Algumas, se abrem. Outras, se fecham. Outras, ainda, se escancaram sobre o abismo do nada. Não falarei mais nada sobre esta obra, para não lhes tirar o prazer da leitura e da descoberta. Ou melhor, deixarei que a própria Lya encerre estas considerações, pois sabe, e faz isto, muito melhor do que eu.
Minha conterrânea afirma, na página 91 de “Múltipla escolha”: “A humanidade, capaz de coisas grandiosas no campo da artes, das descobertas científicas e da tecnologia, no campo emocional se enreda e confunde. A irracionalidade toma conta, os mitos reclamam sua parte, está feita a confusão nessa situação fundadora: competição, inveja, ressentimento e imaturidade de todos os envolvidos”. E não é o que acontece?

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Tuesday, December 28, 2010







A sensação de segurança que as primitivas cidades davam aos seus moradores se transformou (e o processo continua em evolução) no seu oposto: em perigo onipresente, em casa, na rua, no trabalho, nos locais de lazer e em absolutamente todos os lugares destas cada vez mais gigantescas Babéis. O risco à vida e ao patrimônio, agora, não vem mais de fora, de predadores externos. Está no interior das cidades. Situa-se nas cercanias das nossas casas, em nossa vizinhança, bem próximo de nós, quando não no recesso do nosso próprio lar. As causas? Passam pela crescente ruptura social em todo o Planeta, acentuadamente no chamado Terceiro Mundo, e que se propaga com essa balela que se convencionou chamar de “globalização”, alargando o abismo, hoje praticamente instransponível, entre cidadãos e excluídos da cidadania; entre privilegiados e miseráveis; entre instruídos e os que não têm e jamais terão acesso à instrução.

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Partido Populista Futebol Clube


Pedro J. Bondaczuk

O futebol, no Brasil, há tempos tem servido de trampolim para políticos oportunistas, de diversos partidos e tendências, que surfam nas ondas da sua popularidade. Em termos de Seleção Brasileira, parece que tudo começou em 1958, quando uma geração brilhante de atletas conquistou, contra todos os prognósticos e expectativas, nossa primeira Copa do Mundo, nos gramados da Suécia, após fiascos anteriores, notadamente os de 1954, na Suíça e, principalmente, o de 1950, no Rio de Janeiro.
A arte de Pelé, Didi, Garrincha, Vavá, Newton Santos e Zito, entre outros, levou o País, na ocasião, ao delírio. Nosso decantado pessimismo, que o jornalista Nelson Rodrigues tão bem caracterizou de “complexo de vira-lata”, cedeu lugar à euforia, à exacerbada autoconfiança e à exaltação nacional.
E isso criou um clima dos mais favoráveis à política desenvolvimentista do então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, que pretendia resgatar 50 anos de atraso brasileiro em apenas cinco anos, que até então vinha sofrendo ferrenha oposição de grupos conservadores, ligados à ultradireitista União Democrática Nacional (UDN), liderados pelo controvertido jornalista Carlos Lacerda.
Recorde-se que ele quase foi impedido de tomar posse. Primeiro, seus adversários argumentaram que foi eleito com menos da metade dos votos do eleitorado (30%, se não me engano), mesmo contrariando a Constituição, que não previa limite algum para caracterizar vitória eleitoral válida. Posteriormente, ocorreram duas revoltas da Aeronáutica, em Aragarças e Jacareacanga, objetivando um golpe de Estado que fracassou por falta de adesões. Não fosse, porém, o marechal Henrique Teixeira Lott, que seria derrotado por Jânio Quadros nas eleições presidenciais de 1960, Juscelino jamais teria tomado posse. E o País continuaria no seu vexatório atraso. Dificilmente teria sido industrializado e Brasília, certamente, não existiria.
Diga-se de passagem, em favor de JK, que ele nada fez de concreto que caracterizasse a exploração da conquista da Seleção nos gramados da Suécia em seu favor. Jamais afirmou que esse fosse um feito seu (e ademais não foi) ou que tivesse qualquer influência pessoal nele. O que fez, somente, foi aproveitar (aliás, com muito senso político) a predisposição nacional ao otimismo, na ocasião, em decorrência do sucesso dos nossos craques, para a aceitação do seu projeto de nação.
Desde então, futebol e política têm andado de mãos dadas. Athiê Jorge Cury, ex-goleiro do Santos Futebol Clube no primeiro título regional santista (o de 1935), que presidiu esse clube quando ele se tornou a maior “máquina” de jogar bola da história (na era Pelé), foi, durante muito tempo, deputado. O mesmo ocorreu com o folclórico ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, João Mendonça Falcão, que rivalizou com o ex-presidente do Corinthians, Vicente Matheus, em termos de gafes em público.
Outros tantos presidentes de times se valeram do mesmo expediente. Foram os casos de Márcio Braga, Zezé Perrela, Eurico Miranda etc.etc.etc. Vários jogadores de futebol, por outro lado, como João Leite, Wilson Piazza, Zé Maria, Biro-Biro e, mais recentemente, Ademir da Guia, lograram se eleger para diversos cargos eletivos, em Câmaras Municipais, Assembléias Legislativas e Câmara de Deputados. Nenhum, a rigor, se destacou em nada. Mas vários se elegeram mesmo sem ter plataforma, propostas, idéias, nada, só com seus “nomes” e seus feitos nos gramados.
É incrível, por exemplo, o número de políticos que se confessam corintianos, ou flamenguistas, por motivos óbvios. No entanto, a maioria não entende absolutamente nada de futebol e talvez nem saiba que a bola utilizada na modalidade seja redonda. E os clubes, que servem de trampolim para esses políticos, a quantas andam? De mal a pior.
Os que ainda não “venderam” seus departamentos de futebol a parceiros, estão falidos, de calças na mão, forçados a negociar, a preço de banana, seus melhores craques. Muitos têm rendas penhoradas ainda na boca das bilheterias, para pagamentos a credores e salários atrasados a ex-jogadores, que ganham, invariavelmente, seus passes na justiça por falta de cumprimento das obrigações trabalhistas. E a grande paixão nacional, dessa forma, corre sérios riscos de até desaparecer, no longo prazo, por obra e graça exclusiva dos que fazem dela mero trampolim para a (má) política. Lamentável!

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Monday, December 27, 2010







As primeiras cidades surgiram, nos primórdios do que se convencionou chamar de “civilização”, basicamente com o objetivo de proporcionar conforto e segurança aos moradores. Tinham função de proteger pessoas, em geral de um mesmo clã, que se dedicavam às então incipientes atividades da agricultura e da pecuária. Protegiam-nas, com suas muralhas quase inexpugnáveis. Defendiam-nas, com os embriões do que viria a se transformar na instituição do “exército” – e posteriormente da “polícia” (de “pólis” = cidade). Repeliam investidas de grupos nômades, bandoleiros sem regras, que viviam da força bruta e da rapina. As primeiras cidades abrigavam umas poucas dezenas de moradores e eram como uma única e gigantesca casa, cujas demais moradias faziam o papel de amplos cômodos e eram interligadas num único bloco. Hoje, algumas são tão grandes, que têm populações equivalentes às de alguns países! Daí serem tão inseguras e violentas.

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Imersos em símbolos

Pedro J. Bondaczuk

A inteligência “humana” (e coloco a distinção entre aspas, por entender que outros animais também a tenham, posto que em estágio primaríssimo), considerada em seu sentido lato, ou seja, o da capacidade de “entender” o que se passa quer no interior da própria mente, quer ao redor e alhures, é toda baseada em símbolos.
Por outro lado, os relacionamentos entre todas as pessoas e a totalidade das estruturas sociais têm por fundamento convenções universais. Se ambos não existissem, provavelmente nós também não. Quando digo ambos, refiro-me aos símbolos e às convenções. Ou se existíssemos, seríamos guiados exclusivamente pelos instintos, dos quais os dois básicos são, inclusive, antagônicos, ou seja, o erótico, de preservação individual e da espécie, e o tânico, de destruição do que seja interpretado pelo inconsciente como ameaça e perigo (mesmo que não o seja).
Sem os símbolos, não conseguiríamos nem mesmo nos comunicar. Não haveria, por exemplo, a linguagem (e, por conseqüência, os idiomas, estimados, atualmente, em por volta de vinte mil, quando considerados os dialetos). É por causa da convenção que, quando emitimos com o nosso aparelho fonador determinado som, as pessoas ao nosso redor entendem de imediato o que queremos expressar. Afinal, o que são as palavras, se não símbolos adredemente convencionados? E sequer me refiro à escrita. Esta é para lá de óbvio que compõe um conjunto de intrincada simbologia.
As letras de qualquer alfabeto o que vêm a ser? E os números? E essa ciência rigorosa e exata, que é uma das maiores manifestações de inteligência do bicho homem, a matemática, o que é? A resposta é óbvia: símbolos... meros símbolos. E as artes? E as filosofias? E a literatura, objeto primordial da nossa preocupação (e paixão)? São todos símbolos, assim como a política, a economia, a administração, a religião e vai por aí afora.
E essa simbologia toda e a infinidade de convenções que a consubstancia e a torna universalmente entendida é passada, de geração a geração, por esse processo bastante amplo e complexo, muito falado e pouco compreendido, que é a educação (interpretada, equivocadamente, por muitos, como mera instrução), impedindo que o homem, enquanto espécie, retroaja à barbárie e à sua original animalidade.
Exemplifiquemos o conceito de convenção, para facilitar o entendimento. Tomemos a palavra de origem latina “rosa”. Ao mencioná-la, o que virá de imediato à mente das pessoas que se utilizam de idiomas neolatinos? Evidentemente, uma determinada flor, e só aquela. Claro que há nuances que devem ser acrescentadas para esclarecer a que rosa se está referindo. Afinal, ela pode ser de várias cores, vermelha, amarela e até da tonalidade que tem esse nome exatamente por causa da flor, ou seja, a cor-de-rosa (parece que alguém conseguiu a façanha de, através da manipulação genética, produzir uma que é de coloração azul).
Por que essa palavra nos remete de imediato e automaticamente àquela planta? Porque se “convencionou” que fosse assim. Ao falarmos a palavra rosa, não imaginamos (ou seja, não formamos a “imagem” na nossa mente) um elefante, um besouro, uma tartaruga ou uma cadeira. A idéia imediata que se forma é a dessa flor, e só dela, e também não da dália, do crisântemo, da margarida, do dente de leão ou de outra qualquer. Não ficou claro? Sem dúvida que sim!
E o que são as regras (literárias ou esportivas, não importa), as normas, as leis, os códigos, os dogmas, a Bíblia, o Alcorão, a Torá e vai por aí afora? São, obviamente, todos convenções. E, antes e acima de tudo, são símbolos. Estamos todos, pois, imersos, ininterruptamente, do nascimento à morte, num oceano infinito de simbologia. E é ela, exclusivamente ela, que nos tornou estes seres inteligentes, racionais, criativos e especiais. Enfim... humanos!

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Sunday, December 26, 2010







As decantadas "mudanças", quer estejam ocorrendo no Leste europeu, quer na Ásia, na África ou na América Latina, por enquanto não mostraram resultados que fossem de entusiasmar, ou que pelo menos trouxessem um pouquinho mais de esperanças para os dois terços miseráveis da humanidade, que sustentam os luxos e desperdícios do um terço abonado. Movimentos separatistas estraçalham antigas sociedades nacionais. Trinta milhões de africanos estão morrendo de fome, ou vítimas da Aids, situados nos limites da miséria. A dívida externa asfixia regiões inteiras que, como caranguejos, estão andando para trás. A melhor definição para essa utopia da imbecilização que caracteriza estes tempos está nos versos de Junqueira Freire que dizem: "Iludimo-nos todos! Concebemos/um paraíso eterno:/e quando nele sôfregos tocamos,/achamos um inferno".

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O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). –
Preço: R$ 23,90.

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Direitos humanos são concretos

Pedro J. Bondaczuk

O primeiro-ministro da China, Li Peng, em longa entrevista, de duas horas de duração, dada, ontem, em Pequim, qualificou os direitos humanos de um “conceito abstrato”, como que tentando justificar o seu desrespeito.

Abstração muito maior, no entanto, é o elenco ideológico que norteia o regime que o premier dirige, que prega, implicitamente, que o homem não passa de simples engrenagem de uma gigantesca máquina denominada “Estado”. Que os interesses deste último devem estar sempre acima dos individuais, que não passariam de meras “distorções”.

É o caso de se perguntar: “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. Só que neste caso, o ser humano precedeu aos sistemas, organizações e entidades, que foram criações suas e que, portanto, deveriam ter, por objetivo primordial, a promoção da sua felicidade e do seu bem estar pessoal.

Nada é mais concreto do que o elenco dos direitos fundamentais que o Homo Sapiens tem. Como o da vida, por exemplo, desde o instante da sua concepção no ventre materno, até que o tempo o consuma. Ou o da liberdade de dispor do seu talento e da sua pessoa como lhe aprouver (desde que não entre na esfera de atuação do seu semelhante). Ou o de uma existência digna e produtiva, com possibilidades de acesso à educação e ao patrimônio cultural comum do povo que integra.

Como se vê, não há nenhuma abstração nisso. Absurdo, isto sim, é o conceito que outorga a um determinado indivíduo, mortal como todos os demais, sem nada de especial em relação aos seus semelhantes, o poder de decidir sobre a vida e a morte deles, como se fosse uma divindade na Terra.

Mais do que isso, é aberrativo! Se consubstanciado em lei, trata-se de uma perversão jurídica e, portanto, tal preceito é digno apenas de desprezo, por sua iniqüidade. Aliás, toda a organização de um Estado fundamenta-se sobre abstrações. O exercício correto dessas normas é que as torna concretas, pelo seu resultado.

Daí o empenho que todos devemos ter pelo sistema democrático. A democracia não deixa de ser um conceito, também, abstrato. Sua aplicação sem distorções é que a torna desejável, e até indispensável. Ela é a recíproca daquela tese que diz que todo o cidadão, assim que nasce, cede “espontaneamente”uma parcela de seus direitos individuais em favor do grupo, da sociedade, do todo (como se fosse possível a um bebê proceder a qualquer tipo de opção).

Essa cessão, compulsória, frise-se, tem que ser por alguma coisa. E esta é o que se chama “garantia dos direitos humanos”. Cabe ao Estado protege-la e assegurá-la. Quando não o faz, está rompendo o tácito contrato feito com o indivíduo, tão logo ele vem à luz da existência.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 4 de abril de 1989).

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Polêmico, mas fascinante

Pedro J. Bondaczuk

O único escritor de língua portuguesa a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura (ganhou o de 1998, depois de haver conquistado o Prêmio Cervantes), José Saramago, foi um sujeito polêmico por natureza. Mas não foi dos que se limitavam a fazer “tipo”. Ele foi, mesmo, assim. Seu estilo e, principalmente, os temas que abordava (e a maneira como o fazia) dividem opiniões mundo afora, entre os que discordam (até com veemência maior que a necessária) da sua postura e os que a aprovam sem restrições.
Uma coisa, porém, é certa: ninguém que o lê fica indiferente às suas colocações, porque Saramago consegue ser original (e por isso, fascinante) em meio à mesmice que caracteriza boa parte das cabeças pensantes da atualidade. Ateu empedernido, comunista convicto (foi membro do Partido Comunista Português) e iberista, desperta repulsa e adoração, com a mesma intensidade.
Há quem faça da polêmica sua forma favorita de ação, mas apenas pelo prazer da controvérsia. Faz mero tipo de polemista. Não sabe como “esgrimir” com habilidade essa arma eficaz da retórica. Polemiza por polemizar e, sem se dar conta, despenca no abismo do ridículo. Creiam-me, há gente assim. Não foi o caso, todavia do autor de “A jangada de pedra”.
Confesso que meu primeiro contato com Saramago foi, digamos, conflituoso. Ao cabo da leitura do primeiro livro dele que me caiu nas mãos, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, não cheguei a fazer juízo de valor sobre o mesmo, o que me é raro. Oscilava entre gostar e fazer severas restrições a essa obra. Após a releitura, no entanto, as coisas me ficaram claras. Minha opinião sobre ele mudou por completo.
Passei a achá-lo não somente criativo e original, como sapequei-lhe um baita adjetivo qualificativo, este altamente favorável e que, creio, lhe assenta muito bem e principalmente lhe faz justiça: genial.
Comprei outros dos seus livros, como “O homem duplicado”, “Ensaio sobre a cegueira”, “As intermitências da morte” e a minha nova opinião apenas ganhou força. Por isso, aguardo com ansiedade o lançamento no Brasil da sua biografia, intitulada “José Saramago. A Consistência dos Sonhos. Cronobiografia”, escrita pelo espanhol Fernando Gómez Aguilera.
Essa obra que, de acordo com o autor, mostra as diferentes facetas, como se fora um levantamento topográfico, do biografado, foi lançada em 8 de maio de 2010 na Feira do Livro de Sevilha. Convenhamos que biografar um escritor que põe a escrita em seu devido lugar e afirma amiúde que “escrever é um trabalho como outro qualquer” é um desafio que não é para qualquer um.
A tarefa consumiu quatro exaustivos anos do paciente biógrafo. Aliás, o material que Aguilera colheu nesse período sequer se destinava, originalmente, à redação desse livro. Era, na verdade, para uma exposição, intitulada “A consistência dos sonhos”, que foi realizada, com sucesso, tanto na Espanha quanto em Portugal. De acordo com o biógrafo, naquela ocasião ele teve acesso a “um contingente de materiais que correspondem ao que poderia chamar de arqueologia literária de Saramago: há teatro, poesia e romances inacabados”.
De posse de tantas informações, Aguilera se questionou: “Por que não escrever uma biografia?”. E foi o que fez. Se bem ou mal, se com originalidade digna do biografado ou não, é o que vamos conferir quando o livro chegar ao Brasil.
Todavia, a julgar pelo “cartel” de Aguilera, só podemos esperar boas coisas. Afinal, ele é o diretor da prestigiosa Fundação César Manrique, que promoveu, com tanto êxito, a exposição sobre Saramago. É, também, poeta, ensaísta e filólogo de formação. Tem seis livros de poesias publicados e bastante festejados, além de inúmeros textos de crítica literária.
Ressalte-se que ler o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 exige muita concentração e alta dose de paciência (e persistência) do leitor. E não só por suas idéias fora dos padrões convencionais, mas por seu jeito peculiar de escrever.
Saramago utiliza, por exemplo, frases e períodos longuíssimos e pontuação absolutamente particular, muito diferente das ditadas pelas normas convencionais. Os diálogos dos personagens aparecem nos próprios parágrafos que os antecedem. Não existem, pois, travessões em seus romances.
Outra característica desse escritor é que, muitas de suas orações chegam a ocupar mais de uma página, não raro duas dos seus livros e, além disso, usa vírgulas onde a maioria dos escritores utilizaria pontos finais.
Como se vê, é um estilo complicadíssimo, mas que vale a pena. Saramago, portanto, foi, queiram ou não, um feixe de polêmicas ambulante. Contudo, foi, ao mesmo tempo, um dos homens de letras mais fascinantes e revolucionários de que já tive conhecimento.

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Saturday, December 25, 2010







Você já observou que de duas décadas para cá não surgiu nenhum movimento cultural consistente em nenhuma parte do mundo, nem nas artes plásticas, nem na literatura, no teatro, no cinema, na música popular ou em qualquer campo importante de atividades? Parece que os avanços extraordinários da tecnologia estão inibindo as pessoas de pensar. Aceita-se, hoje em dia, com a maior facilidade, tudo o que a mídia – em especial a eletrônica – impinge como sendo cultura. Alain Finkielkraut observou a propósito: "Vivemos hoje a utopia da cretinização. É uma loucura, pois as pessoas pensam que hoje, ao inventarmos máquinas geniais, estamos mais inteligentes. Acho que é exatamente o contrário. Quanto mais a sociedade se preocupa com a performance técnica, mais fabrica imbecis". Infelizmente, não há como discordar.

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Presente de Natal

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Soneto à doce amada-CI

Pedro J. Bondaczuk

À noite tive um sonho tão estranho,
cuja história era um tanto complicada!
eu sonhei que encontrei aquela amada
que estava procurando desde antanho.

Com ternura, ela me tomou a mão,
olhando-me, com amor, e a sorrir
e dizia estar disposta a me ouvir
com paciência e muita compreensão.

Mas foi um sonho estranho, bem se vê,
enredo de novela da tevê
com um “happy end”, com final feliz.

Lembrei-me do que você sempre diz,
de que hoje me quer e sempre quis:
Concluí ter sonhado com você!

(Soneto composto em Campinas, em 11 de outubro de 1965).

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Os gigantes caem

Pedro J. Bondaczuk

A literatura não é composta, apenas, de livros de ficção, ou de poesia, ou de ensaios contendo múltiplas reflexões sobre a vida. Obras de auto-ajuda, por exemplo, compõem, hoje, cerca de 30% dos catálogos das editoras e fazem muito sucesso. Igualmente as de cunho técnico são muito procuradas, versando sobre informática, Tecnologia da Informação, economia, finanças e vida empresarial. E é exatamente sobre este tema que faço, hoje, algumas considerações, mais especificamente, sobre o novo livro do badalado (com todos os méritos) consultor norte-americano, Jim Colins.
As empresas e corporações têm “vidas” relativamente curtas, via de regra, de apenas duas gerações ou até menos. Raras são as que conseguem completar um centenário por maior que seja seu capital, organização e mercado.
Qual é o motivo disso acontecer? Na verdade, não há um único e solitário. Existem vários e variam de empresa para empresa. É o que o livro “Como as gigantes caem”, de Jim Colins (lançamento da Editora Campus) trata. O autor busca detectar e, sobretudo, explicar quais são as causas dessa derrocada e fornece dicas para evitar que isso ocorra.
Como tudo na vida, as empresas e corporações passam, também, por fases. Nascem, crescem, se desenvolvem, declinam e... morrem. Algumas após décadas, outras, sequer chegam a completar o primeiro aniversário. Poucas, pouquíssimas mundo afora logram a façanha de fazer cem anos ou mais.
A primeira fase de uma empresa ou corporação, a mais difícil, é, obviamente a da criação, ou implantação. Levantamento recente, divulgado pela Junta Comercial do Estado de São Paulo dá conta que são raros os empreendimentos (comerciais ou industriais, não importa) que conseguem sobreviver aos dois primeiros anos de fundação. Isso ocorre tanto no Brasil quanto (presumo) em qualquer parte do mundo. Quantos negócios abertos com entusiasmo e vigor não fracassam com apenas seis meses! São muitos e muitos, podem crer.
Superada essa primeira etapa (para os que conseguem essa façanha, claro), vem o período da expansão. Depois que os negócios engrenam, e os lucros (grandes motores de qualquer empreendimento) crescem, os empresários descobrem que poderiam ganhar muito mais caso expandissem suas empresas. Alguns fazem-no com capitais próprios e outros recorrem a empréstimos bancários, ou lançamento de ações nas bolsas, para esse fim. Para divulgar seus produtos (ou serviços) lançam sólidas campanhas publicitárias. Além disso, ampliam instalações, expandem mercados e, em boa parte dos casos, abrem novas filiais.
Passado um tempo, que nunca é igual para todos, vem a etapa da consolidação. A marca fixa-se na cabeça do consumidor. As vendas podem ou não crescer. Todavia, não declinam. As empresas adquirem estabilidade no mercado.
Aí, chega-se ao ponto crítico. Das decisões tomadas nessa etapa vão depender os rumos que os empreendimentos irão tomar. Uns optam por promover novas expansões, não raro para o exterior. Outros, no entanto, marcam passo, acomodam-se e findam por abrir brechas para a concorrência, que abocanha preciosas fatias da sua clientela que os administradores julgavam cativas, garantidas, intocáveis.
Para muitas empresas e corporações, nessas circunstâncias, pode surgir o que muitos temem, mas que não se previnem para evitar: o declínio. Há as que optam por fusões com outras companhias similares e saem, pelo menos por algum tempo, fortalecidas. Outros, todavia, preferem remar sozinhos, mesmo que contra a correnteza. E, invariavelmente, se dão mal.
A esse propósito, o livro de Colins traz elementos muito importantes para reflexão. Há perguntas essenciais que se impõem, como: “há como perceber o início dessa derrocada? Quais são os principais sinais indicativos dela? Há como evitar esse declínio? De que forma? Até que ponto determinada empresa tem a possibilidade de errar? Quais medidas, principalmente financeiras, seria preciso adotar para salvar o empreendimento do fracasso e da falência?”
Colins avalia tudo isso à luz de dados concretos. Esboça um panorama pouco comum em obras desse tipo, ao apresentar uma série de exemplos de empresas que fracassaram e não das que saíram mais fortes e competitivas dessas crises. Enfatiza, e comprova, que esses fracassos foram motivados pelo fato dos seus “comandantes” não terem percebido a tempo o “sinal vermelho” indicando perigo, o declínio, a queda da lucratividade e, por conseqüência, não haverem adotado medidas saneadoras que poderiam evitar a derrocada.
Ressalto, para quem não o conhece, a relevância do autor de “Como os gigantes caem”. Jim Colins é, na atualidade, um dos pensadores do mundo dos negócios mais acatados e respeitados, quer nos Estados Unidos, quer no cenário internacional. É autor de livros clássicos do gênero, como “Feitas para durar e empresas feitas para vencer”, entre tantas outras. Muitos consideram-no, até, o legítimo sucessor do já lendário Peter Drucker, tido e havido como o maior teórico dos negócios em todos os tempos.
Casado com uma atleta de triatlo, mudou-se, no início dos anos 90, para a cidadezinha de Boulder, no Colorado, onde presta assessoria empresarial. E escreve livros, claro, colecionando best-sellers um atrás do outro.
Uma das constatações de Colins, que deveria servir de alerta para todos os administradores, é a de que “empresas poderosas não entram em declínio porque se acomodam. Elas se tornam tão arrogantes que acreditam que todas suas iniciativas serão infalíveis”. E não serão, evidentemente.
E qual a principal conclusão do livro? Bem, ela pode (e deve), principalmente, alertar empreendedores e administradores, seu público-alvo: é a de que, não importa quanto uma empresa ou corporação seja bem-sucedida, ela sempre pode cair (e as razões dessa queda podem ser inúmeras) e até desaparecer (o que, infelizmente, é muito mais comum do que se pensa).

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Friday, December 24, 2010







Mudanças são partes indissociáveis da vida. Tudo muda permanentemente. As pessoas ficam velhas, conceitos tornam-se ultrapassados, novos objetivos são propostos, nada é igual hoje ao que foi ontem, embora quase nunca os homens se dêem conta disso. A verdadeira cultura cede lugar aos "flashes" da TV. Atualmente, o Ocidente festeja a morte do comunismo no Leste europeu e atribui esse óbito às excelências do capitalismo, o que está muito distante da verdade. A humanidade troca uma utopia por outra e sob o pretexto de combater a alienação, aliena-se mais e mais, escondendo os fatos sob o disfarce nada sutil dos estereótipos.

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Visões do inferno

Pedro J. Bondaczuk

As ditaduras na América Latina, notadamente na nossa bela e tão sofrida América do Sul, constituíram-se em um dos períodos mais difíceis, sofridos, dramáticos e de triste memória da História contemporânea dos povos. Houve tempo, que não vai tão longe assim, em que somente Venezuela e Colômbia (que anos antes conseguiram se livrar de seus ditadores) tinham governos que emergiram das urnas. É verdade que suas democracias eram cheias de defeitos. Mas eram infinitamente melhores do que as ferozes ditaduras do restante do continente, de países como Argentina, Uruguai, Chile, Brasil, Paraguai etc.
Torturas, assassinatos políticos, “desaparecimentos” de pessoas (inclusive de crianças) tornaram-se práticas comuns no continente e não tardou para que virassem rotina. Todos sabiam, em qualquer parte do mundo, o que ocorria nesses países, mas ninguém movia uma só palha em seu socorro. Pelo contrário. As populações locais (salvo honrosas exceções) submetiam-se docilmente a esses regimes. Argumentavam que não queriam “se meter em política”.
A imprensa, censurada, publicava, apenas, o que os ditadores permitiam. Havia, contudo, jornalistas (que hoje posam de democratas fanáticos e de arautos do combate à corrupção) que, espontaneamente, faziam a apologia dessas ditaduras, classificando-as de “redentoras” e de “revoluções democráticas”. Em todas as épocas e lugares, sempre há covardes, oportunistas e bajuladores e nesse período, eles também não faltaram.
O mundo vivia, então, o auge do que se convencionou chamar de “Guerra Fria”. Os vários continentes, subitamente, foram transformados em autênticos tabuleiros de xadrez ideológicos, em que as superpotências travavam mortal partida, indiferentes à sorte de multidões. Valia tudo nesse confronto, de parte a parte. E a América do Sul foi transformada – à revelia dos seus povos – em ponta de lança dos Estados Unidos, em seu obsessivo empenho pela derrocada do comunismo.
Em todo o continente, portanto, o pretexto para essa insanidade, esse espezinhamento da liberdade e da democracia, era, invariavelmente, um único e mesmo: impedir que os comunistas – pintados como “ateus empedernidos” e “demônios sanguinários e cruéis” – chegassem ao poder. E isso até em países em que não tinham a mais remota chance de sucesso.
Os Estados Unidos buscavam impedir, a ferro e fogo, que surgissem novos Fidel Castros, principalmente após o fiasco em que se constituiu a tentativa de invasão na Baía dos Porcos, em Cuba. E os povos ao sul do equador submetiam-se (salvo exceções, reitero) docilmente aos ditames de Washington que, a pretexto de “defesa da liberdade e da democracia”, suprimia, impunemente, tanto uma, quanto a outra.
Em toda a América do Sul, a camada lúcida e esclarecida da sociedade, ou seja, escritores, professores, jornalistas, artistas, estudantes etc., foi a que mais sofreu. Intelectuais foram perseguidos, demitidos do serviço público, caçados como bandidos, presos, torturados, mortos sob tortura e sumamente humilhados, tendo seus direitos mais comezinhos desrespeitados e suprimidos.
Foram muitos e muitos os que morreram nas prisões, sempre abarrotadas de opositores desses regimes. Outros, permanecem, até hoje, profundamente traumatizados e marcados física, mental, psicológica e afetivamente. Mas, embora tivessem descido às profundezas do inferno – muito mais terrível do que o descrito pelo poeta Dante Aligheri em sua “Divina Comédia” – pelo menos lograram sobreviver.
Diversos escritores, a despeito de tamanho sofrimento e tantas privações, mesmo no cárcere, não pararam de produzir. As ditaduras suprimiram-lhes a liberdade, a dignidade, a reputação e o conforto, mas não conseguiram matar sua criatividade.
Um dos que permaneceram ativos, escrevendo regularmente, posto que na prisão, foi o romancista uruguaio Carlos Liscano. Ele ficou preso por treze longos, angustiantes e intermináveis anos, por sua militância no grupo guerrilheiro Tupamaros, que pegou em armas para enfrentar os militares uruguaios.
Embora também torturado, teve mais sorte que boa parte dos companheiros de infortúnio. Para fugir do tédio da rotina da prisão, Liscano fez o que mais sabia e gostava de fazer: escreveu. Produziu cerca de 500 páginas manuscritas, descrevendo o que via, ouvia, sentia, vivia e testemunhava.
Ao ser libertado, há 25 anos, o romancista – que atualmente dirige a Biblioteca Nacional do Uruguai – levou consigo aqueles textos, mas guardou-os a sete chaves, sem publicar nenhum. Aquelas páginas despertavam-lhe angústia e dor. Lembravam todo o sofrimento e horror pelos quais passou por treze anos. Não as destruiu, mas também sequer as releu.
Não todas, no entanto. Utilizou algumas daquelas anotações, as mais “suaves”, como embriões de romances como “El furgon de los locos” e “Ejercício de impunidad”. Agora, contudo, Liscano mudou de idéia. Decidiu publicar a totalidade daquelas 500 páginas que produziu na prisão. Foi convencido a agir dessa forma pela pesquisadora francesa, Fatiha Idmhand.
Entendo que a decisão foi correta, das mais acertadas e até se impunha. É uma forma, inclusive, de reverenciar a memória de tantos outros escritores, não somente uruguaios, mas argentinos, brasileiros, chilenos, paraguaios, bolivianos etc., que não resistiram às torturas e morreram nesses cárceres imundos, verdadeiras sucursais, se não matrizes do inferno.
Aguardo, pois, o livro, certamente doloroso e pungente, de Carlos Liscano, para lê-lo com atenção e comentá-lo objetivamente, com isenção. As ditaduras, que desgraçaram, atrasaram e empobreceram esta nossa América do Sul, não podem ser, simplesmente, ignoradas e, muito menos, esquecidas. Têm que ser trazidas, a todo o momento, à baila, não por uma questão de revanchismo, que não leva a lugar algum, mas para que jamais voltem a se repetir.

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Thursday, December 23, 2010







As transformações políticas, pelas quais o mundo vem atravessando, com uma velocidade tão vertiginosa que nem está permitindo uma análise cuidadosa sobre as suas conseqüências, exigem das pessoas um grau de informação que nem sempre elas estão preparadas para ter. Notícias, geradas em grande profusão, são absorvidas e logo esquecidas. Regiões mal estudadas em geografia ganham manchetes e logo são esquecidas. Nessa pressa, os fatos acabam sendo hierarquizados de forma equivocada. Episódios que certamente cairão na vala comum do esquecimento têm sido encarados como autênticas "revoluções" e as verdadeiras transformações, que irão durar, passam quase imperceptíveis.

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Sobre entrevistas

Pedro J. Bondaczuk

Entrevistas com escritores, geralmente, são fascinantes e bastante proveitosas. Gosto não somente de lê-las como, principalmente, de fazê-las. Já fiz inúmeras, tanto para jornais e sites da internet, quanto, e principalmente, para a emissora de rádio em que trabalhava. Tive sorte, pois nenhuma me decepcionou. Provavelmente o segredo esteja na forma de perguntar. Perguntas inteligentes ensejam, por conseqüência, respostas do mesmo teor. Há exceções (claro). Sempre as há. Nunca tive, todavia, o dissabor de topar com algum entrevistado monossilábico, desses que a gente não consegue arrancar informações interessantes nem a fórceps. Isso, com referência a escritores.
Já entrevistei muitos políticos que transformaram a entrevista em mera propaganda pessoal. Por mais que fizesse para arrancar deles o que pretendia, eles me escapavam, lisos como enguias, por entre os dedos, como peixes na água ou sabonete molhado. Por isso, detesto entrevistá-los. Dessa tarefa, estou fora.
Da minha parte, já estive, também, do outro lado, ou seja, não como entrevistador, mas na condição de entrevistado. E, na maioria das oportunidades, foi para falar sobre literatura (minha ostensiva paixão) ou sobre minha vida pessoal (esta, desinteressante e banal, mas que ainda assim desperta interesse de alguns). Há gosto para tudo.
Já concedi, por exemplo, entrevistas para todos os canais de televisão aqui de Campinas. Uma delas chegou a durar uma hora! Apenas umas três vezes, fui solicitado a falar sobre política, e internacional, na verdade. Ocorre que fui, durante muitos anos, editor dessa área. Estudioso como sempre gostei de ser, tinha na ponta da língua todos os principais problemas envolvendo países e situações os mais diversos. Embora considerado um dos melhores editores internacionais fora dos grandes centros, não gostei de falar a respeito. Creio, todavia, que me saí bem, pois voltei a tocar no assunto.
Embora jornalista mais ligado a jornais e revistas do que a meios eletrônicos, pitorescamente, nunca tive nenhuma entrevista publicada em letra de forma. Nem mesmo quando lancei meu livro “Por uma nova utopia” e houve muita badalação em torno desse lançamento. Foram feitas, na oportunidade, várias resenhas a respeito e um colunista amigo até escreveu uma crônica sobre essa minha obra, mas ninguém se propôs a me entrevistar. E eu não poderia me oferecer, não é mesmo?
Por que resolvi escrever a esse propósito hoje? Juro que não é por falta de assunto. Tenho pautada uma relação bastante extensa sobre temas a abordar nestas nossas conversas diárias, informais e descomprometidas. Toquei no assunto, por causa de uma solicitação (gentilíssima, por sinal), feita por e-mail por nossa colunista (e pessoa da minha mais alta estima e admiração, embora não a conheça pessoalmente), a doutora Mara Narciso.
Ela me indaga quando irei publicar a “minha” entrevista, ou seja, eu na qualidade de entrevistado, aqui neste espaço. Farei isso com satisfação, desde que alguém faça um texto de apresentação a meu respeito. Caso eu próprio o fizesse, certamente, seria sumamente capcioso. Se estivesse num dia de azedume, faria uma auto-avaliação negativa. O mais provável, porém, é que eu apontasse mais méritos meus do que os que realmente tenho. Não daria certo!
Caso algum colega colunista se sinta “tentado” a escrever a respeito, ou seja, a apresentar, num texto curto, a impressão que tem sobre meus temas e meu estilo, esteja à vontade. Se tiver que fazer críticas, não se acanhe. Eu agüento!
É verdade que poderia pedir isso ao Renato Manjaterra, que convive comigo, diariamente, no trabalho, há quatro anos. Esse, contudo, não vale. É meu amigo do peito e é provável que se desmanchasse em elogios. Não, não daria certo. Pareceria inverossímil. Quem aceita o desafio? Quem aceitar, esteja à vontade. Encaminhe, quando quiser, esse texto que prometo publicá-lo. Mesmo que fale “cobras e lagartos” a meu respeito.
Por falar em entrevistas, as duas mais curiosas e criativas que já li foram feitas pelo escritor mineiro, radicado há décadas em Campinas, Eustáquio Gomes. Publicou-as, há algum tempo, na Revista Metrópole, suplemento dominical do jornal “Correio Popular”. Ele extrapolou em sua criatividade. Vejam só, “entrevistou” o filósofo grego Heráclito e o autor de “Em busca do tempo perdido”, Marcel Proust. “Mas como?”, perguntarão vocês, sabendo que essas duas figuras morreram há séculos (o grego morreu há milênios).
Pois é, ele formulou perguntas pertinentes que se encaixavam como uma luva em citações desses vultos da cultura e da literatura. E fé-lo com tamanha perfeição, que qualquer leitor desavisado pensaria que se tratava, mesmo, de entrevistas. Pena que Eustáquio não poderia fazer o texto introdutório que mencionei. Afinal, foi o prefaciador do meu livro “Por uma nova utopia”. E com sua criatividade, certamente exageraria (embora de maneira deliciosa) minhas supostas virtudes. Pois é, a tarefa sobrou, mesmo, para vocês, colunistas! Quem se habilita?

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