Wednesday, December 31, 2014

O homem contemporâneo é tão, ou na verdade muito mais brutal, do que nossos mais remotos ancestrais, inclusive os primitivos habitantes das cavernas. Teoricamente, a educação e o crescente acesso às informações, ditados pela fantástica evolução da tecnologia, deveriam reduzir, se não eliminar, todo e qualquer tipo de brutalidade. Não é, porém, infelizmente, o que acontece. Muito pelo contrário. A História registra guerras e mais guerras, ferocíssimas e sanguinárias, desde a invenção da escrita. Mas nenhuma das atrocidades de um Átila, de um Alarico, de um Genserico ou de tantos e tantos outros ferozes matadores sequer se compara, por exemplo, nem de longe, ao Holocausto, da Segunda Guerra Mundial, ou aos massacres ocorridos ainda recentemente na Bósnia, em Kosovo, na Chechênia no Iraque, no Afeganistão, na Líbia no Egito e na Síria. Por isso, não tenho como deixar de dar razão ao escritor peruano (e Prêmio Nobel de Literatura), Mário Vargas Llosa, que constatou: “A brutalidade constitui uma das mais constantes heranças humanas, que o desenvolvimento absolutamente não elimina”. E aduziria, desolado: “infelizmente”.


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Crises e messianismo


Pedro J. Bondaczuk


A fulminante ascensão política do candidato independente à presidência do Peru, Alberto Fujimori, veio mostrar um dos lados mais perversos gerados por uma crise econômica em determinado país: o messianismo. Situações desesperadoras tendem a abrir um vácuo no poder, geralmente preenchido por aventureiros, com propostas vagas, que não resistem à mínima análise quando não sem nenhuma. As pessoas se deixam levar por suas esperanças e perdem contato com a realidade. Passam a acreditar em soluções miraculosas, enunciadas pomposamente nos palanques, sem atentar para o fato de que, se as coisas fossem tão fáceis como esses demagogos querem dar a entender, alguém já teria lançado mão de tais medidas "salvadoras" para se perpetuar na história.

Adolf Hitler, na Alemanha, foi um fruto típico da hiperinflação germânica da década de 1920. E nem é preciso pesquisar muito para se encontrar uma fartura de exemplos semelhantes. Parece que o Peru está para embarcar nesta onda. O eleitorado está em vias de deixar de lado uma proposta consistente, lógica e factível, apresentada à sociedade pelo escritor Mário Vargas Llosa, para ir atrás de vagas promessas de alguém que até ontem era desconhecido. Tudo ía muito bem com a campanha do candidato centro-direitista, que parecia prestes a colher uma das vitórias mais amplas, expressivas e sobretudo fáceis, já obtidas em eleições presidenciais no Peru, prescindindo até mesmo de um segundo turno, até que o consagrado romancista começasse a detalhar seu futuro programa de governo. Bastou somente que ele levantasse a hipótese da implantação de um plano de austeridade, semelhante ao do Brasil, para que o eleitorado vacilasse.

Compreende-se o temor dos peruanos, que empobreceram muito durante a decepcionante gestão de Alan Garcia, cansados de tantas privações e sofrimentos. Nestes momentos, porém, é que se precisa usar mais a cabeça. É em tais ocasiões que não se pode deixar levar "pelo canto da sereia", que costuma ser aliciador e doce, mas extremamente perigoso. Fujimori pode até ser um fenômeno de comunicação, mas objetivamente nâo expôs qualquer solução para os problemas que afligem a população do seu país. Não apresentou nenhum projeto consistente para debelar uma inflação que se aproxima dos 3.000% anuais, para acabar com um desemprego ao redor de 16% da mão-de-obra ativa ou pôr fim à violência guerrilheira, que em somente dez anos ceifou ao redor de 16 mil vidas.

Ainda há tempo dos eleitores refletirem sobre o futuro. No segundo turno, os programas tenderão a ficar mais claros, já que a disputa vai se restringir a somente dois candidatos, e não mais a nove, como ocorreu no primeiro. É importante, no instante do voto, que cada eleitor seja, sobretudo, realista e não se deixe enganar por palavras bonitas, mas despidas de qualquer conteúdo prático.


(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 24 de abril de 1990)

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Recepcionando 2015

Pedro J. Bondaczuk

O ano de 2014, que em nossa mente parece recém-começado, está prestes a se ir de vez, sob o espocar de fogos (costume dos mais estúpidos e chatos), estouros de champanhas, abraços, beijos, votos de felicidade para o nascente 2015 e muitas esperanças das pessoas (de algumas), de que as coisas vão melhorar. Uns dirão: "Já vai tarde". Outros, mesmo 2014 não tendo acabado, já sentem saudades das coisas boas que lhes aconteceram. Outros, ainda, estarão tão bêbados na entrada do novo ano que não pensarão em nada. Ou, quem sabe, em meio ao torpor produzido pelos vapores etílicos, vão elucubrar se devem ou não tomar mais um copo. É a ronda inexorável e inflexível do tempo, que encerra mais um capítulo em nossas biografias, que não poderá mais ser retificado e muito menos refeito, de um número que não sabemos quantos serão.

Com a entrada do novo ano, nos aproximamos de outro evento esportivo, a exemplo da Copa do Mundo de futebol deste ano, que foi enorme sucesso fora de campo (e contundente vexame nos gramados, com a humilhante goleada que a Alemanha aplicou à Seleção Brasileira). Claro, refiro-me àqueles fatídicos 7 a 1 do Mineirão. A nova oportunidade de recepcionar atletas e torcedores de várias partes do mundo será a disputa das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Espera-se que o País brilhe não apenas no que diz respeito à organização e ao legado que o evento possa deixar, mas também no terreno esportivo. A probabilidade, porém... não é nada animadora.

Lembro-me que, quando criança, o ano 2000 parecia ser um período remotíssimo, algo tão distante que não chegaria nunca e que a maioria achava que jamais testemunharia. Muitos não testemunharam mesmo. No entanto... já se passaram catorze anos, e entraremos no décimo-quinto, de um novo século (o XXI) e de outro milênio, o terceiro da Era Cristã e nada de tão especial aconteceu. Inúmeras fantasias, que nos meus tempos de menino – e de adolescente também, por que não? – eram divulgadas em relação a essa data, em um estéril e inútil exercício de futurologia, provaram-se ser o que sempre foram: fantasias, tolices, bobagens.

As previsões eram tão absurdas, que raiavam ao delírio. E o pior é que milhões e milhões de pessoas mundo afora acreditavam sem vacilar nelas e as difundiam, não sem alguns acréscimos próprios, pessoais.   Falava-se – pensando no aspecto otimista – que as viagens interplanetárias seriam rotina, por exemplo. Não são! Que as máquinas governariam o mundo e fariam todo o trabalho do homem e que este poderia gastar todo o tempo que tivesse apenas para o prazer e para as artes. Nada disso aconteceu! E diziam-se (e escreviam-se) outras tantas bobagens do tipo, como a construção de imensas cidades nos oceanos, a comunicação interpessoal por via telepática e vários e vários outros disparates do gênero.

Os pessimistas também não se faziam de rogados. Para eles, a humanidade jamais chegaria ao ano 2000, que seria o limite do "fim do mundo". A rigor, essa hecatombe ainda pode acontecer, independente de data, pelos mais diversos meios. Sempre pôde, dada a fragilidade deste pequeno planeta azul. Basta lembrar o que “teria” acontecido com os dinossauros há 65 milhões de anos, muito antes do surgimento do homem. Se aconteceu de fato, ou não, fica por conta da imaginação de cada um. No entanto... Pouca coisa mudou em relação aos anos 40 ou 50, por exemplo. Ou à primeira década do ano 2000, que veio, passou e nenhuma das previsões feitas em torno dele, boas ou más, se concretizou.

A Terra ficou mais povoada e poluída, é verdade. Agora, somos mais de 7,2 bilhões de tripulantes nesta cada vez mais apertada e suja nave cósmica. Algumas engenhocas tecnológicas tornaram a vida de alguns mais fácil, mas complicaram as de muitos outros, suprimindo-lhes empregos. As mazelas políticas, econômicas e sociais continuam as mesmíssimas, assim como as guerras, a criminalidade, o tráfico e consumo de drogas, o fanatismo religioso ou ideológico etc. Tudo isso aumentou apenas em quantidade. Pudera! A população do Planeta mais que dobrou em escassas quatro décadas.

Muitos podem achar que esta não seja reflexão oportuna, ou apropriada, para véspera de virada de ano. Essa é ocasião em que as pessoas planejam o futuro, embriagadas de esperança, achando que nada pode dar errado em suas vidas e no mundo. Mas esse planejamento é necessário? É útil para alguma coisa? É, pelo menos, viável ou possível? Não sabemos sequer se iremos sobreviver a esta noite! Além disso, é a imprevisibilidade que torna a vida esta aventura fascinante que de fato é.

Santo Agostinho deixou registrada uma reflexão muito sensata, e exata, sobre o tempo, esta sim oportuníssima para esta ocasião. Escreveu: "Se nada passasse, não haveria passado, se nada adviesse, não haveria futuro e, se não fosse, não haveria presente. Nem o passado nem o futuro existem de fato. Daí ser impróprio se falar em três tempos. A rigor o correto seria falar no presente do passado, no presente do presente e no presente do futuro. Os três modos estão em nosso espírito. O presente das coisas passadas é a memória, o presente das coisas presentes é a visão direta, o presente das coisas futuras é a espera". E não é? Já fiz essa mesma citação em outro texto alusivo à passagem de ano, mas ela continua oportuna como sempre foi e não faz mal algum repeti-la e reiterá-la; 

O sociólogo Roberto da Matta tem outra colocação para este caso. Acentua: "Tal é o tempo que corre, como lágrimas e sangue por dentro do espaço da casa. Casa que passa pelo tempo que tudo destrói, menos a vida contida pela teia de relações que constituem o nosso mundo social. Esses elos, que apesar do nosso individualismo e cosmopolitismo, ainda nos dobram e nos obrigam a fazer e a dizer coisas que não queremos e sabemos". Daí a conclusão lógica de que o mais racional e inteligente é viver cada momento com a máxima intensidade, já que pode ser o último.

O mais sábio é aproveitar cada oportunidade que surgir para acrescentar algum episódio marcante à nossa biografia e, principalmente, para fazer com que ela seja digna de ser escrita. Nem sempre, ou nem todas o são. Compete-nos nos empenhar para produzir obras e obras e mais obras consistentes, materiais ou no terreno das idéias, que evitem nossa segunda morte, esta sim definitiva: a do esquecimento. Que os próximos 365 dias sejam  feliz ronda no tempo, não grotesca ou penosa, mas repleta de episódios marcantes e inesquecíveis. Que sejam, sobretudo, o tempo do encontro da felicidade, a principal das nossas obrigações enquanto seres racionais. Feliz ano novo (antecipado) para todos!


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Tuesday, December 30, 2014

O presente é sumamente ambíguo. Sua duração é tão ínfima, que chega a se constituir em mera metáfora, em simples símbolo, em verdadeira abstração. Para se ter idéia da sua fugacidade, basta dizer que é mais veloz, até, do que a luz, cuja velocidade é de 300 mil quilômetros por segundo. Mal pronunciamos a primeira sílaba da palavra que o caracteriza, “pre”, e ele já é, há alguns centésimos de segundo, passado. Trata-se, por isso, de fração do tempo absolutamente indimensionável. Ninguém nunca a mediu e jamais conseguirá medir. Antônio Vieira, neste trecho do “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”, deixa clara sua ambigüidade, embora quase nunca venhamos a nos dar conta dela: “Olhai para o passado e para o futuro e vereis o presente. A razão ou conseqüência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”. Ambíguo, não é verdade? Ambíguo e fascinante.


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Sandinistas na berlinda


Pedro J. Bondaczuk


A derrubada de um avião particular norte-americano, do tipo C-123, em território nicaragüense, ocorrida no início deste mês, começa a produzir os esperados e naturais desdobramentos políticos nos Estados Unidos, quando falta menos de um mês para as importantes eleições legislativas nesse país.

Hábeis parlamentares democratas procuram explorar a questão em seu favor e a demonstrar que o governo do presidente Ronald Reagan, através da Agência Central de Inteligência (CIA), de funcionários governamentais e de entidades particulares está violando uma determinação legal, que proíbe a Casa Branca de prestar assistência direta aos anti-sandinistas.

Os dois mais conceituados jornais norte-americanos, o “The New York Times” e o “The Washington Post”, publicaram, ontem, extensas matérias a propósito, fundamentando as acusações do senador John Kerry a esse respeito. Essa aventura, precipitada e até mesmo desastrada, pode, portanto, ter um preço muito alto para os republicanos, nas urnas, no próximo mês e tornar bem mais difíceis os dois derradeiros anos de gestão de Reagan.

Da próxima eleição, com certeza, irão emergir os prováveis postulantes à Casa Branca em 1988. Os democratas, há tempos afastados do poder, sabem que terão que fazer, doravante, uma campanha muito mais agressiva e prematura do que a desenvolvida pelo seu candidato presidencial em 1984, Walter Mondale, que além de tudo tinha, contra ele, o ônus da participação na desastrada administração de Jimmy Carter.

A partir de agora, tudo o que eles acharem de errado, ou de irregular, no atual governo, certamente vão explorar até as últimas conseqüências. E nenhum tema, hoje em dia, presta-se melhor para exploração contra Reagan do que a maneira com que ele vem conduzindo a crise centro-americana. 

A oposição está batendo, há tempos, na tecla de que, a prosseguir na atual marcha, mais dia menos dia vão colocar os Estados Unidos numa outra guerra, a exemplo da do Vietnã, só que desta feita bem no fundo do seu quintal. Insiste em afirmar que a intervenção direta de tropas norte-americanas na Nicarágua é apenas uma questão de tempo, principalmente em virtude da manifesta incompetência dos mercenários somozistas, financiados pela Casa Branca, em exercerem pressão efetiva sobre os sandinistas. 

O que o observador estranha é que, mesmo se dizendo contrários a essa escalada militar na América Central, os democratas tenham cedido, em duas oportunidades neste ano, sobre a questão e aprovado a ajuda militar solicitada por Reagan aos rebeldes nicaragüenses, no valor de US$ 100 milhões. Houve, aí, no mínimo, uma dissintonia entre o discurso e a prática.

De qualquer maneira, não tenham dúvidas, essa será a principal temática a ser explorada, já a partir de julho de 1987. A tese não-intervencionista conta com relativo respaldo entre o eleitorado norte-americano. A prova disso foi o sucesso da turnê do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, no primeiro semestre deste ano, por várias cidades dos Estados Unidos. E, a menos que ele cometa outra imperdoável gafe, como a inoportuna visita que fez ao Cremlin, em maio de 1984, certamente terá a pressão sobre o seu regime diminuída já a partir do próximo ano.

Basta, somente, que saiba ganhar tempo, com muita astúcia e cautela, para conseguir sobreviver politicamente e até servir de cabo eleitoral para eleger um próximo presidente norte-americano. Do Partido Democrata, naturalmente.

(Artigo publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 16 de outubro de 1986).


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Reversão de expectativas

Pedro J. Bondaczuk

As perspectivas para o ano de 2015, que vai começar na próxima quinta-feira, a julgar pelas previsões e projeções de especialistas nas mais diversas áreas de atividades, não são das melhores. As pessoas estão aflitas e assustadas, e com certa dose de razão. Mas não toda. Temos que considerar que os que fazem extrapolações ou tentam adivinhar o que não aconteceu e pode nunca acontecer são, por costume ou por vício, ou sabe-se lá por qual razão, renitentes pessimistas. Alguns vão mais longe: são catastrofistas. A sorte deles é que ninguém confere, no final do ano, suas previsões, projeções ou adivinhações. Salvo engano, erram quase todas.

Prevê-se, por exemplo, a persistência da instabilidade política na arena internacional. É provável, por exemplo, que persistam os atos de hostilidade na Ucrânia, confrontando separatistas pró-Rússia e nacionalistas. As instabilidades na Ásia tendem a se manter, principalmente no caótico Afeganistão. Isso sem falar no permanentemente instável Oriente Médio, onde o Estado Islâmico, entre Síria e Iraque, é o atual fator de desestabilização, com a indefectível presença norte-americana. Cá para nós: como esses caras gostam de uma encrenca! O panorama econômico, por seu turno, não é igualmente dos mais tranqüilizadores, em especial no nosso País, fragilizado pelos efeitos da prolongada crise econômica mundial. É verdade que os Estados Unidos dão sinais animadores de recuperação. Mas os outros países do chamado Primeiro Mundo... parece que continuam a patinar.

O pífio crescimento do PIB brasileiro (projetado em menos de 1%), a ameaça onipresente da inflação, o escândalo da Petrobrás e outras tantas e tantas “nuvens escuras” de tempestade são as principais ameaças ao primeiro ano do segundo mandato da presidente Dilma Roussef. Como se vê, há dificuldades, dificuldades e mais dificuldades à nossa frente, comprometendo nosso planejamento para um futuro que se afigura cada vez mais sombrio e afetando nosso humor e, por conseqüência, nossa saúde. Se me fosse dada a tarefa de lhe dar um conselho, caro leitor, eu diria somente: “não esquenta”!

Há motivos concretos para se desesperar? Essa situação de crise generalizada e de violência desabrida é irreversível e sem conserto? Depende. O homem tem a capacidade de mudar qualquer situação, por pior que seja, desde que tenha, claro, vontade e aja nesse sentido. Sabem de uma coisa? Não ficarei nem um pouco surpreso se, ao cabo de 2015, nenhuma das previsões catastróficas, ou pelo menos a maioria delas, não se concretize e se o País e o mundo retomarem a trilha da paz, da tranqüilidade e do progresso.

Este será, por exemplo, no futebol, o ano em que teremos duas Copas América, uma das quais nos Estados Unidos, comemorativa de qualquer coisa que não tenho certeza qual é. Serão, pois, duas oportunidades para a Seleção Brasileira tentar se redimir, pelo menos em parte, daqueles absurdos 7 a 1 que levou nas costas, da Alemanha, no jogo que eu, pelo menos, gostaria de esquecer, válido pelas semifinais da segunda, e bifracassada Copa do Mundo disputada no Brasil. Desta vez o vexame foi daqueles para nenhum masoquista com complexo de viralatas botar defeito. Pudera!. O torcedor brasileiro está cabisbaixo, apreensivo e compreensivelmente ressabiado, duvidando da nossa seleção agora comandada (de novo) pelo polêmico e brigão Dunga, apostando em novo e catastrófico vexame. Bobagem.

Já vi o nosso futebol sair lá do fundo do abismo da mediocridade e da desorganização (como em 1966, por exemplo, ou em 1990) para conquistar vitórias surpreendentes e memoráveis. Não há porque o fato não se repetir. As Copas são competições, cheias de nuanças imprevisíveis, onde ninguém é campeão, ou derrotado, de véspera. As coisas se decidem, mesmo, é no gramado, e não nas críticas e previsões derrotistas de críticos e comentaristas, que não são e nem vão ser jamais os donos da verdade.

Eles já cometeram erros grotescos de avaliação no passado, em inúmeras ocasiões, como nas Copas de 1958, de 1970 e 1994, por exemplo, só que têm memória curta. Tenho a intuição que, mais uma vez, vão queimar a língua. Tomara que sim. Acho uma tremenda bobagem ficar se autoflagelando pela eternidade por causa do fatídico placar de 7 a 1 deste ano. Devem-se extrair lições desse desastre, óbvio, e tocar a bola para frente. Sei lá... pode ser que no ano que vem, ou no próximo, ou daqui uma década, ou sabe-se lá quando, o Brasil devolva a humilhação sofrida no Mineirão e faça os germânicos dançarem, na marra, miudinho, um samba bem ritmado.  

Como sempre acontece, os meios de comunicação, salvo uma ou outra honrosa exceção, provavelmente vão ser usados para confundir a cabeça do cidadão, com mensagens favoráveis (duvido) ou contrárias (com certeza) ao governo. E daí? Onde a novidade? E porventura eles são donos da verdade? De que verdade? O cidadão consciente é que deve se precaver contra a manipulação de informações, para não fazer o papel de idiota. Precisa, antes de tudo, buscar estar bem informado e usar seu senso crítico ou, quem sabe, a intuição (confio mais nela).

No mais, é trabalhar, trabalhar e trabalhar. Não se vai a lugar algum sem trabalho. E nunca se omitir da vida pública. O caminho mais curto e direto para a catástrofe é o da omissão. "Não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe". Ajamos de forma tal que venhamos a calar, no final de 2015, a voz das cassandras de mau agouro, que tanto nos assustam e incomodam.

O notável bardo inglês, William Shakespeare, constatou, em uma de suas geniais produções, com a sabedoria que o caracterizou e que por isso vem resistindo aos séculos: "A vida do homem é uma trama tecida de bons e maus fios". Confiemos no lado positivo das pessoas e não nos omitamos jamais de dar nossa constante e permanente contribuição positiva, para mudar o panorama sombrio que aí está. Façamos de 2015 um dos melhores e mais vitoriosos anos de nossas vidas. Nós podemos! Duvidam? Pois tentem!!! É o desafio que temos diante de nós. Só tentando saberemos se as perspectivas negativas são reversíveis ou não. Não há outro jeito!


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Sunday, December 28, 2014

O tempo sempre foi, é e continuará sendo, enquanto eu viver, o foco central das minhas reflexões e o tema predileto do que escrevo. Não quanto à sua passagem, óbvio, pois sobre esta não tenho como interferir, mas quanto à sua natureza e como agir para aproveitá-lo da melhor maneira. Já escrevi centenas de textos a respeito e sempre encontro ângulos novos a abordar. Como este, sugerido por Antônio Vieira, no magnífico “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”, proferido há mais de trezentos anos e que é mais atual do que nunca: “Ponde estes dois espelhos um defronte do outro, e assim como os raios do ocaso ferem o oriente e os do oriente o ocaso, assim, por reverberação natural e recíproca, achareis que no espelho do passado se vê o que há de ser, e no do futuro o que foi. Se quereis ver o futuro, lede as histórias e olhai para o passado; se quereis ver o passado, lede as profecias e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente, para onde há de olhar?” Bela pergunta!


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Guerra que não pode ser perdida


Pedro J. Bondaczuk


O presidente norte-americano, George Bush, durante sua campanha presidencial do ano passado, estabeleceu o combate às drogas como uma de suas prioridades em nível interno. O problema, nos Estados Unidos, já extrapola o caráter de meramente grave, para invadir a classificação de "gravíssimo".

Com a popularização do "crack", uma forma barata de cocaína, usada para fumar, o vício entrou na ordem do dia. Os esforços empreendidos nos derradeiros anos ou foram insuficientes, ou acabaram sendo dispersivos. O fato é que nunca se consumiu tanta droga, em tamanha profusão, nos Estados Unidos, quanto agora. Isto, logicamente, teria que ter um preço social, além do pessoal que é pago pelos viciados.

Para estes, principalmente os que não têm força (ou ajuda) para se livrar do maldito vício, as esperanças são mínimas, virtualmente nulas. Resta-lhes a opção de uma morte ou através de "overdose", ou mediante a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, a terribilíssima Aids, contraída através de agulha contaminada. Morte social, fatalmente, tais pessoas já tiveram. Dificilmente conseguirão recuperar os amigos não viciados que tinham antes de dar esse perigoso, senão fatal passo.

Mas a sociedade norte-americana também paga um altíssimo preço com o problema. Em primeiro lugar, o país perde o seu maior capital humano, a juventude, que ao invés de se empenhar nos estudos, nas pesquisas, nos esportes e nos campos em que os Estados Unidos detêm hegemonia, exatamente por causa do vigor e do talento dos seus jovens, passa a viver num mundo artificial, de delírios, que podem até parecer coloridos sonhos no início, mas que se revelam tétricos pesadelos no final.

A criminalidade, por outro lado, cresce assustadoramente. Está aí Washington, batendo recordes e mais recordes de violência. E as causas são óbvias, já que o consumo de drogas na capital norte-americana é assustador.

Não é por acaso que o presidente George Bush está destinando, no audacioso programa que anunciou ontem, verbas de US$ 1,5 bilhão para a construção de presídios. O programa "Fantástico", da Rede Globo, mostrou, no domingo, que há 10 milhões de foragidos da Justiça nesse país, à espera de vagas. E boa parte desses criminosos é constituída de traficantes ou de pessoas que cometeram seus delitos sob os efeitos do narcótico ou para obter dinheiro para sustentar o vício. Por isso, os quase US$ 8 bilhões que vão ser gastos nesta guerra da sociedade norte-americana contra as drogas, se forem usados com juízo, serão otimamente empregados. Pode haver dúvidas a esse respeito?

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 6 de setembro de 1989).


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Do zero ao infinito

Pedro J. Bondaczuk

A vida de George Orwell (ou melhor, de Eric Arthur Blair, seu nome de batismo), foi sofrida, penosa e acidentada em sua maior parte. Muito disso deveu-se a decisões equivocadas que tomou. Todos nós cometemos falhas, escolhendo, muitas vezes, caminhos inadequados e pagamos por isso. Todavia, a maior parte de suas desventuras deveu-se ás circunstâncias adversas com que teve que se haver. O que me chama a atenção, ao ler alguma de suas tantas biografias, é a forma determinada e corajosa com que enfrentou as adversidades, que considero exemplar. Foi um homem de quem se pode dizer, sem nenhum exagero, que ascendeu “do zero ao infinito”. Tentarei demonstrar por que.

Orwell nunca se entregou quando tudo parecia perdido. Não se rendeu nem mesmo à doença, quando esta se revelou incurável e, portanto, terminal. Tanto que, num esforço sobre-humano, conseguiu escrever o livro que há tempos tinha na cabeça e, contrariando as evidências, conseguiu concluí-lo, ao preço da própria vida, quando tudo indicava que isso seria impossível. Poucos têm dúvidas que seu empenho para escrever “1984” apressou sua morte. Provavelmente, Orwell tinha consciência desse risco. Todavia... não desistiu: perseverou e conseguiu. A imensa maioria das pessoas teria desistido da empreitada. Aliás, naquelas condições em que ele estava, com a saúde precaríssima e deteriorada, provavelmente nem começaria. No seu caso, porém, o idealismo falou mais alto do que a prudência.

Orwell nasceu na Índia, então colônia do Império Britânico. Ainda muito criança, seus pais mudaram-se para a Inglaterra, onde recebeu educação esmerada. Afinal, cursou uma escola de elite, privilégio que pouquíssimos jovens da sua idade tinham (e ainda têm). Estudou no Eton College. Essa é uma instituição de ensino tradicionalíssima, fundada em 1440 pelo rei Henrique VI. Foi conhecida por muito tempo com o nome de “King’s College of Our Lady of Eton Beside Windsor”. Era (e ainda é) freqüentada pela nobreza britânica. Orwell tinha, portanto, tudo para uma carreira acadêmica brilhante e para ostentar posição social de destaque na Inglaterra. Mas aí tomou a primeira (de tantas outras) decisão equivocada.

Em vez de matricular-se em uma universidade de elite, do mesmo nível do Eton College, por exemplo, (como Oxford), atendendo às expectativas de seus pais, o jovem rebelde (mas idealista) decidiu outra coisa. Resolveu entrar para a Polícia Imperial e voltar para a Índia. Sensível e humano, como sempre foi, não tardou, porém, para escandalizar-se com a forma com que os gendarmes da sua corporação tratavam os indianos. Destaque-se que ele tinha tudo para ser promovido e fazer brilhante carreira no que escolheu fazer. Mas... Tomou outra atitude desastrada, que a família e os amigos nunca compreenderam. Largou a farda e voltou para a Inglaterra. Todavia, não tinha qualquer formação específica e nenhuma profissão que lhe garantisse o sustento.

O que ele fez? Foi buscar situação melhor, voltando aos estudos, como seria o mais racional a fazer? Infelizmente, para ele, não! Em vez disso, entregou-se a uma vida boêmia, perambulando entre Londres e Paris. Lógico que para tanto precisaria ter dinheiro para sustentar essa loucura. Mas Orwell não tinha. Consequência? Chegou a cair na indigência, sem fonte de recursos e nem mesmo lugar para morar. Tornou-se, literalmente, mendigo. Todavia, além de idealismo, tinha talento inato para as letras e invulgar determinação. Em situação semelhante, a maioria das pessoas jamais conseguiria sair do “lodaçal”. Orwell, porém, conseguiu.

Minha proposta, observo, não é a de biografá-lo, mas de trazer à baila alguns dos obstáculos que o escritor teve que superar para se tornar o mito literário em que se tornou. Para tanto, em vez de recorrer a algum dos seus biógrafos, prefiro o excelente ensaio do editor do semanário inglês “The Observer”, Robert McCrum, intitulado “1984, o livro que matou George Orwell” (cuja versão em português foi publicada pela Revista Bula, com tradução de Amanda Górski). O jornalista destacou que, quando o escritor decidiu ir para a remota e inóspita ilha de Jura, na Escócia, para escrever a obra que lhe daria a “imortalidade”, seus problemas não se limitavam à saúde precaríssima (o que, por si só, já não recomendaria que assumisse o desafio que se auto-impôs). Antes, bem antes, ele havia adotado Richard, o que implicava em despesas naturais para sustentar um filho. Em março de 1945, enquanto atuava como correspondente de guerra do “The Observer”, sofreu o que, talvez, foi o pior golpe de sua vida. Recebeu a notícia de que sua mulher, Eilleen, havia morrido, por causa da anestesia de uma cirurgia corriqueira.

McCrum relata como Orwell estava, e se sentia, quando resolveu seguir para a ilha de Jura: “De repente, ficara viúvo e pai solteiro, ganhando a vida com muita dificuldade nos alojamentos de Islington e trabalhando incessantemente para esquecer o fluxo de remorso e dor causados pela morte da esposa”. Ao aceitar a tarefa de escrever o novo livro, o escritor tinha, além de tudo, uma pressão extra a administrar: o sucesso de sua obra anterior, “A revolução dos bichos”, que havia se tornado grande fenômeno de vendas. Não se esperava dele, portanto, nada minimamente inferior a esse best-seller. McCrum relata, assim, o embarque do autor de “1984” para Jura: “Em 1946, ainda juntando os cacos de sua vida, pegou o trem para a longa e árdua jornada... Ele disse a seu amigo Arthur Koestler que isso era quase ‘como pegar um navio lotado para o Ártico’”. Levou para lá o filho adotivo, Richard Blair, por não ter com quem deixar o garoto.

Não vou repetir a odisséia de Orwell, doente, febril, quase agonizante, para concluir seu livro. Isso pode ser lido em qualquer das suas biografias. Reproduzo, porém, a descrição de Robert McCrum dos últimos dias de vida do escritor: “Assim que a primavera chegou, ele começou a cuspir sangue, e sentia-se ‘desconfortável na maior parte do tempo’, mas ainda era capaz de envolver-se nos rituais de pré-publicação do romance, registrando ‘boas notícias’ com satisfação. Ele brincava com Astor que não o surpreenderia se ele ‘tivesse que trocar aquele perfil por um obituário’. ‘1984’ foi publicado em 8 de junho de 1949 (cinco dias depois nos EUA) e foi quase que universalmente reconhecido como uma obra-prima, até mesmo por Winston Churchill, que disse a seu médico ter lido duas vezes. A saúde de Orwell continuava a decair. Nas poucas horas de 21 de janeiro, sofreu uma hemorragia massiva no hospital e morreu sozinho”.

E o jornalista do “The Observer” aduz: “As notícias foram transmitidas ao mundo pela BBC, na manhã seguinte. Avril Blair (a segunda esposa) e Richard, ainda em Jura, ouviram a notícia pelo rádio à bateria em Barnhill. Richard Blair não se lembra se o dia estava claro ou frio, mas lembra do choque da notícia: seu pai estava morto, com 46 anos. David Astor arranjou tudo para o funeral de Orwell nos jardins na igreja de Sutton Courtenay, Oxfordshire. Ele jaz lá agora, como Eric Blair, entre HH Asquith e uma família nativa de Gypsies”.

Ser bem-sucedido em qualquer atividade é fácil, quando as circunstâncias são favoráveis. Difícil (dificílimo) e para a maioria impossível, é chegar ao sucesso com tudo, absolutamente tudo contrário. E essa façanha George Orwell conseguiu. Por isso, toda a reverência que lhe é tributada ainda é ínfima face o esforço que fez para alcançar seus objetivos. Reitero, pois, o que escrevi acima: ele foi um homem que ascendeu do “zero” (a indigência) ao “infinito” (a glória), com garra, ousadia e talento.


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Saturday, December 27, 2014

Os mais jovens, se preconceituosos e néscios (nem todos são), quando querem desmerecer alguém mais idoso, com mais de trinta anos, dizem, torcendo o nariz: “Você é ultrapassado! É do século passado! Melhor, é do milênio passado!”. E nós, que temos mais de trinta (aliás, na verdade, mais de catorze, abrangendo, portanto, esses jovens), de fato somos. E daí? Não fomos nós que construímos esse mundo, que bem ou mal, ainda está de pé. Eduardo Galeano escreveu o seguinte a respeito, no livro “Um convite ao voo”: “Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta-vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério”. E concluiu:.“Temos uma única certeza: no século XXI, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, do milênio passado”. E não somos?


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

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Marcha para o abismo


Pedro J. Bondaczuk


A violência, que há 12 anos toma conta do Líbano, vem transformando essa sociedade nacional, que já chegou a ser chamada de a Suíça do Oriente Médio, pelo seu alto grau de politização e pela sua grande prosperidade, em um amontoado caótico de interesses contrariados. Tornou-se um câncer pavoroso a corroer as entranhas nacionais. Provocou um número incontável de cenas dantescas, que se tornaram símbolos de toda uma década, com explosões de carros-bombas em escolas, em supermercados e em conjuntos residenciais.

Hoje, os tiroteios, os seqüestros e os assassinatos transformaram-se numa espécie de vício, numa prática que, de tão usada, desgraçadamente virou rotineira, aceita por todos como algo absolutamente normal.

Ontem, a violência sectária, o fanatismo e a estupidez desregrada atingiras as raias da loucura, ceifando um dos poucos homens públicos desse país que ainda mantinha a compostura, em meio à sangria desatada e à rápida deterioração econômica que tomaram conta do Líbano em todo este longo e trágico período da sua história (que foi, outrora, das mais exemplares).

Das atuais figuras de projeção nessa sociedade nacional destroçada, Rashid Karami era a única que não tinha nenhuma milícia particular para ditar a sua vontade à força. Não dispunha de nenhum bando armado, nenhuma guerrilha, nenhum grupo de assassinos a soldo, como é o caso dos chamados senhores da guerra, cuja intransigência está destruindo o país.

O primeiro-ministro assassinado também não tinha vínculos com nenhuma das facções em conflito. É verdade que sempre procurou preservar a integridade física dos irmãos de fé, a seita muçulmana sunita. Mas jamais pregou o confronto suicida, multiplicador de ódios e de vinganças destruidoras.

Seu argumento era outro. Era a palavra fluente e sensata de alguém acostumado aos embates parlamentares, das idéias e dos debates. Era o da inteligência, da perspicácia, do diálogo e da negociação. Não foi por acaso que procurou seguir os passos do pai, que havia sido um dos primeiros chefes de governo de um Líbano independente e onde comunidades heterogêneas davam magníficos exemplos de convivência e de fraternidade.

Por isso, por entender que apenas através da permanente prática da negociação o país continuaria sendo a sociedade exemplar que sempre foi, Karami dedicou 36, dos seus 65 anos de vida, à política. Foi primeiro-ministro por dez vezes. E sempre em situações difíceis, às vezes até desesperadoras, da vida nacional.

Por essa razão, chegou a se transformar numa espécie de símbolo do Líbano. Sempre que estouravam crises (aparentemente insolúveis), todas as vezes que as paixões afloravam e que determinadas pessoas ou certos grupos buscavam sobrepor interesses pessoais aos da população, os libaneses não perdiam a tranqüilidade. Bastava que se convocasse esse hábil homem público e, em pouco tempo, lá estava um novo ministério composto, de maneira rápida e competente, agradando a gregos e troianos.

Por esta razão, tem um certo laivo de injustiça a observação, feita ontem, pelo chanceler israelense, Shimon Peres, sobre a morte do primeiro-ministro libanês. Ou seja, a de que ele teria sido colhido pelas forças do obscurantismo que estimulou. Muito pelo contrário!

Karami quedou vencido pelo inimigo que tanto procurou manietar e que acabou sendo impotente de cumprir essa tarefa. Que o assassinato desse homem público abra os olhos de cada cidadão, de cada político, de cada chefe de milícia no Líbano, para que eles vejam o despenhadeiro para o qual o país caminha. Que, em sua memória, se tente, finalmente, estabelecer aquele diálogo nacional tantas vezes anunciado, mas jamais empreendido com seriedade e determinação.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 2 de junho de 1987).

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Por que 1984?

Pedro J. Bondaczuk

O título de um livro, por estranho que possa parecer, é tema polêmico entre escritores, editores e todos os que orbitam pelo mundo editorial. Uns consideram-no mera formalidade, uma espécie de “embrulho” de determinada mercadoria a que não damos a mínima importância. O que importa, para estes, é o produto que foi embrulhado e não o que o embrulhou. Outros, no entanto, consideram-no essencial, como irresistível chamariz para induzir o potencial leitor do livro a comprá-lo nas livrarias. Estou neste caso. Talvez isso se deva, admito, à profissão que exerço, a de jornalista, mais especificamente, a de editor de jornal, que sabe da importância do título das matérias que edite para torná-las atrativas.

A esse propósito, lembro-me de uma anedota, envolvendo Samuel Clemens – nome verdadeiro de Mark Twain – tido e havido como um sujeito bem-humorado e brincalhão, sempre com uma piada engatilhada para cada situação. Diz-se que o veterano escritor, certa feita, foi abordado por um jovem que havia concluído seu primeiro livro e não sabia que título lhe dar. O velho escriba, imediatamente, se propôs a ajudar o trêmulo “aprendiz de feiticeiro”. Diz-se que nunca se recusou a prestar esse tipo de ajuda a quem lhe solicitasse. Twain indagou ao moço: “Seu livro tem tambores?”. Este respondeu: “Não”. Voltou a carga e inquiriu; “Tem bandeira?”. “Também não”, respondeu o rapaz. “Pois aí está o título: ‘Sem tambores e sem bandeira’”. Só não se sabe se o jovem escritor acatou a sugestão. Suponho que sim.

Bem, tudo isso vem a propósito do título que George Orwell deu ao seu livro “1984”. Em texto anterior, especulei, embora sem ter nenhuma certeza, que ele se limitou a inverter o ano da conclusão da obra, que foi 1948. Na sequência, pesquisando em várias fontes, notei que diversas pessoas tiveram a mesma convicção. A enciclopédia eletrônica Wikipédia informa a respeito: “Um dos títulos originais do romance era ‘O Último Homem da Europa’ (The Last Man in Europe), mas em uma carta para o editor Frederic Warburg, datada de 22 de outubro de 1948 (oito meses antes do livro ser publicado), Orwell declarou que estava ‘hesitando’ entre este título e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, apesar de Bernard Crick, biógrafo de Orwell, afirmar que foi Warburg quem sugeriu que o título fosse mudado para algo mais vendável”.

O verdadeiro motivo do escritor haver decidido intitular sua obra da maneira que intitulou é tema de interminável discussão. Entendo que pode, apenas, ser especulado, mas não definido com exatidão. Orwell nunca explicitou a razão. Para alguns, ele poderia, por exemplo, simplesmente estar pensando no centenário da Sociedade Fabiana, organização socialista fundada em 1884. Faz sentido. Mas... Outros especulam que Orwell teria se inspirado no romance distópico “Iron Heel”, de Jack London, em que um movimento político chega ao poder exatamente em 1984. Coincidência? Pode ser que sim, pode ser que não. Há outras possibilidades, mencionadas pela Wikipédia, e nenhuma delas pode ser liminarmente descartada. E nem confirmada.

Uma é a que diz que Orwell tinha em mente o livro “O Napoleão de Nothing Hill”, de G. K. Chesterton, cuja história se passa em 1984. Outra, é a de que quis homenagear sua primeira esposa, Eileen O’Shaughnessy. Ela era poetisa e um de seus poemas mais expressivos tinha o título, justamente, de “End of the century, 1984” ou, traduzindo, “Fim do século, 1984”. Eu, se estivesse no lugar de Orwell, optaria por fazer esse tipo de homenagem a uma pessoa tão importante para ele, com quem partilhou boa parte da vida. Se foi ou não este o motivo, não sei dizer e creio que ninguém saiba. O escritor nunca confirmou (e nem desmentiu) esta e nenhuma outra versão.

Peço licença para transcrever uma informação da Wikipédia, que nada tem a ver com o título do livro, mas que considero importante, por desfazer uma avaliação equivocada que tanto defensores quanto adversários do escritor frequentemente fazem. Diz: “Um dos maiores equívocos em relação à obra de Orwell é de que se trata de uma desilusão com as ideias socialistas. Em uma carta a Francis A. Henson, membro do sindicato estadunidense United Auto Workers, datada de 16 de junho de 1949 (sete meses antes de sua morte), que foi reproduzida na revista Life (edição de 25 de julho de 1949) e no The New York Times Book Review (31 de julho de 1949), Orwell declarou o seguinte:

‘Meu romance recente [Nineteen Eighty-Four] NÃO foi concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista Britânico (do qual sou um entusiasta), mas como uma mostra das perversões… que já foram parcialmente realizadas pelo comunismo e fascismo. O cenário do livro é definido na Grã-Bretanha, a fim de enfatizar que as raças que falam inglês não são, intrinsecamente, melhores do que nenhuma outra, e que o totalitarismo, se não for combatido, pode triunfar em qualquer lugar’”. E não pode? Infelizmente, sim. Pelo menos, volta e meia triunfa: na África, na Ásia e na nossa sofrida América Latina.


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