Sunday, November 30, 2008

REFLEXÃO DO DIA


O êxtase do amor altera nossos parâmetros de medida do tempo e do espaço. Faz com que nos sintamos, enquanto dura, eternos e infinitos, a despeito da nossa real pequenez e efemeridade. Trata-se de sensação mágica, única, indescritível, que os mais competentes poetas não conseguem dar a mais pálida e aproximada idéia de como de fato é. Para sabermos o que se sente nessa circunstância é imprescindível viver essa experiência. Mas se quisermos descrever como foi, nossas palavras soarão pequenas e indigentes. Florbela Espanca, nos dois tercetos com que encerra o soneto “Versos de orgulho”, nos dá pálida idéia, posto que com extrema beleza e lirismo, de como é essa sensação: “O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor?/ O jardim dos meus versos todo em flor.../A seara dos teus beijos, pão bendito...//Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços.../--- São os teus braços dentro dos meus braços,/Via Láctea fechando o infinito”.

DIRETO DO ARQUIVO


“Doença” da corrupção


Pedro J. Bondaczuk


A corrupção é classificada, pelo povo de Gana, como o principal problema do país, talvez mais do que a deficiente distribuição de renda e o analfabetismo, cuja taxa é de 70%. Subornos, desfalques e escândalos financeiros são, freqüentemente, noticiados por sua imprensa e os casos de “kalabule” (como ela é chamada pelos ganeses) atingiu tais proporções, que o regime militar, do tenente da reserva, Jerry Rawlings, decidiu punir essa espécie de crime com a morte. O castigo é o pelotão de fuzilamento!
Outra característica dessa República africana, de 238.538 quilômetros quadrados e 12,5 milhões de habitantes, é a sua instabilidade institucional. Em apenas 28 anos de vida independente, Gana já teve 5 golpes de Estado desfechados por militares. E as tentativas ascendem a pelo menos o dobro disso.
Esse procedimento é um dos fatores que afastam os investimentos externos do país que, em determinados períodos, conta com apenas 20% de suas indústrias em funcionamento. O restante, permanece parado, por falta de peças de reposição.
O tenente Jerry Rawlings é uma espécie de tutor da pátria. Foi ele que, em 1978, derrubou o general Iganatius Kutu Acheampong, acusado, como não poderia deixar de ser, de corrupção. Naquela oportunidade, convocou eleições, que levaram o civil Hilla Limann ao poder. Mas, por pouco tempo.
Três anos depois, lá estava o inflexível nacionalista Rawlings na porta do palácio, exigindo, armas em punho, que o presidente “renunciasse” ao cargo. O motivo? A célebre “kalabule”, ou seja, a corrupção.
Aliás, houve, até, na curta história independente de Gana, um caso pitoresco, ocorrido em 1969. Foi o do tenente-general Josep Ankrah, que chegou a admitir, publicamente, ter recebido suborno de empresas estrangeiras para as favorecer em termos fiscais.
É claro que após essa admissão, não teve outro recurso, senão renunciar. E fez isso correndo, antes que o Exército o obrigasse. Até porque, muitos ganeses (inclusive seus colegas de farda) não lhe perdoaram, jamais, o fato de ter derrubado o autêntico pai da independência nacional, Kwame Nkrumah, quando este se encontrava em visita oficial à China, em 1966.
Esse líder, até hoje lembrado, não apenas pelo povo de Gana, mas por todos os que estudam a descolonização africana, voltou à pátria apenas em 1972. E em um caixão de defunto, procedente da Guiné, para ser sepultado na terra em que nasceu e que ajudou a ficar independente.
Jerry Rawlings, que em 4 de junho de 1979 criou um Conselho Revolucionário, que está acima da própria Constituição, em julho daquele ano teve uma atitude inédita (pelo menos que se conheça), em termos de golpe. Mandou fuzilar, de uma só vez, três ex-presidentes, Akuasi Afrifa, Ignatius Kutu Acheampong e Fred Akufo.
Embora seus adversários jurem que o todo-poderoso tenente estava era querendo se livrar dos opositores mais diretos, ele garante, até hoje, que mandou os ex-governantes para o paredão por um motivo muito familiar em Gana: a corrupção.
Só que nesse caso, para se garantir, acrescentou mais dois delitos às desditosas vítimas: especulação e abuso do poder. Mas nem tudo em Gana, que até 1922 foi parte da colônia alemã da Costa de Ouro, sendo, neste ano, transferido para o domínio inglês, é sombrio.
A inflação ganesa é de causar inveja aa qualquer povo latino-americano. Atinge, em média, 12,7% ao ano. Sua dívida externa é de US$ 1,3 bilhão, mas seu Produto Nacional Bruto vem registrando crescimento anual de 10%.
É, pois, um país bastante viável da África, desde que consiga extinguir com a “kalabule”. E, mais do que isso, com uma doença tipicamente de Terceiro Mundo: a irresistível vocação para o golpismo.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 25 de maio de 1985).

Saturday, November 29, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Será que amamos mais, e melhor, à medida que o tempo passa e que nos tornamos mais maduros, experientes e vividos? Às vezes busco acalentar essa ilusão, em defesa até do amor próprio. Gostaria, claro, que as coisas fossem assim. Objetivamente, contudo, não creio que o tempo tenha algo a ver com a intensidade e a qualidade desse ou de qualquer outro sentimento. Temo que ocorra contrário. Caso não se saiba cultivar o amor, a tendência é que ele fique inicialmente morno e depois esfrie progressivamente até morrer, atropelado pela rotina. Mas faz bem ao ego pensar que o tempo, sozinho, interfira na intensidade e qualidade do que sentimos. É o que Affonso Romano de Sant’Anna diz, com graça e beleza, neste poema “Gaia ciência”: “Gosto de me iludir/pensando/que hoje amo/melhor que ontem amei.//Assim, desculpo/ o jovem afoito/que, em mim, me antecedeu/e, generoso, encho de esperanças/o velho sábio/que amará melhor que eu”.

Sinfonia bárbara


Pedro J. Bondaczuk

Sons plangentes, difusos
perfuram tímpanos profanos.
Trombetas de Jericó.

Violinos mágicos gritam
notas estridentes, agudas.
estiletes sonoros
rasgando cortinas
esgarçadas, rotas
do vasto silêncio.

Notas rombudas
de esguios trompetes
esbofeteiam ouvidos
obturados ou moucos.

Harmonias e dissonâncias
duelam, se confundem
no afã de compor
sinfonias bárbaras.

Dançam saudades
avoengas. Bailados
insanos, confusos
contrapassos trôpegos.

Lembranças ardem.
Fogueiras crescentes.
Cinzas de sucessos.
Ideais carbonizados.

Chamas crepitam.
Murmúrios enfáticos.
Consomem amores
decrépitos, ressequidos.

Trombetas, violinos.
Trompetes, címbalos.
Harmonias e dissonâncias:
sinfonia bárbara.

(Poema composto em Campinas, em 20 de setembro de 1965).

Friday, November 28, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Algumas pessoas, em momentos de extrema aflição pelos quais todos passamos, julgam terem perdido tudo o que tinham, quer no plano material, quer no espiritual, inclusive a esperança. Estão enganadas! Desconhecem o momento seguinte, o próximo segundo, em que, à sua revelia, tudo pode mudar para melhor. A vida é assim: constituída de imprevistos. Ademais, é essa imprevisibilidade que lhe dá encanto. A esperança, mesmo que não acreditemos, nunca nos deixa. Às vezes esconde-se, como uma garotinha travessa, à espera de ser encontrada. Mas está sempre ali, presente, nos cutucando as costas e nos forçando a agir. É fidelíssima. O poeta salvadorenho, Carlos Enrique Ungo, escreveu o seguinte poema a respeito, cujo título, obviamente, é “A esperança”: “Ela sempre esteve aí/encolhida entre nós/escondida e em silêncio/ como menina travessa/tão somente à espreita/e ansiosa para ser descoberta”.

Dor nas coisas


Pedro J. Bondaczuk

A felicidade não deve (e não pode) ser colocada por nós como remota meta a ser atingida eventualmente, como hipotética e sempre distante possibilidade ou, mesmo, como eventual prêmio por bom-comportamento, condicionada, portanto, a pessoas, coisas e/ou situações. Tem que ser encarada, isso sim, como objetivo factível e mais: como nossa principal obrigação. Por isso, precisa ser nossa prioridade e a número um. E tem que ser buscada incansavelmente, sem adiamentos e nem esmorecimento, dia a dia, hora a hora, segundo a segundo.
Essa condição tão ambígua tem, convenhamos, significados bem diferentes (e, não raro, antagônicos), de uma pessoa para outra. O que me faz feliz, por exemplo, não será, necessariamente, a mesma coisa que satisfará a você, caro leitor, e vice-versa. O que considero o suprassumo dos prazeres pode se constituir, para outros, em intolerável obrigação e, portanto, fonte de sofrimentos e não de venturas. A arte, no meu caso, me satisfaz. As amizades me são fundamentais. Sobretudo, a faculdade de amar, de preferência sendo plenamente correspondido (posto que não necessariamente) me é essencial. Sem elas, dificilmente me sentirei feliz e realizado.
Para alguns, no entanto, a completa satisfação, que os leva ao êxtase, ao interior do Paraíso, advém do sucesso. Para outros, vem da fama. Para terceiros, da fortuna. Para alguns outros, da paz de espírito. E assim por diante. Todavia, sempre existe alguém (ou alguma coisa) que tem o condão de nos fazer felizes (o oposto também, e, frise-se, com maior facilidade).
Essas observações podem parecer um tanto retóricas, mas, creia, não são. Concordo com o escritor e filósofo norte-americano, George Santayana, quando constata: “A felicidade é a única razão de viver; quando a felicidade falha, a existência torna-se uma louca e lamentável experiência”. E não é? Ademais, ela não tem tempo para ser conquistada e nem limite de duração.
Podemos obter felicidade na mais remota infância e conservá-la pela vida afora, como também podemos chegar a ela apenas na velhice. Ou, o que é trágico, não conquistá-la nunca ou, se conquistada, perdê-la a seguir, ao longo do caminho (sem que sequer venhamos a nos dar conta) – por imprudência ou excesso de cautela; por cobiça ou por ausência de objetivos e por tantas e tantas outras razões, que costumo denominar, genericamente, de “circunstâncias”.
Não devemos, porém, esperar a perfeição. William Saroyan adverte: “Sempre haverá dor nas coisas”. Contudo, pondera: “Mas não é por saber disso que um homem deve se desesperar. O homem bom procurará tirar a dor das coisas. O homem tolo nem mesmo a notará, a não ser em si próprio. E o homem mau aumentará a dor nas coisas e a espalhará aonde quer que vá”.
Saroyan, para quem não se lembra (ou não o conhece), se consagrou como exímio contista. Filho de imigrantes armênios, nasceu em Fresno, na Califórnia, em 31 de agosto de 1908. Se estivesse vivo, portanto, teria completado cem anos de idade em agosto de 2008. Valia-se da experiência pessoal para fundamentar suas narrativas, boa parte das quais de caráter autobiográfico.
É verdade que esse escritor, tido e havido como marco da moderna literatura norte-americana, se notabilizou mesmo por peças teatrais, como “O tempo de sua vida”, com a qual conquistou o Prêmio Pulitzer de 1939, e, sobretudo, pelo romance “Comédia Humana”, adaptado para o cinema, com o qual obteve um Oscar de melhor enredo da Academia de Cinema de Hollywood.
Pessoalmente, prefiro o Saroyan contista, autor de livros do gênero como “O ousado rapaz no trapézio voador”, “Inalar e exalar”, “Criancinhas”, “Amor aqui está meu chapéu”, “A confusão com os tigres”, “Meu nome é Aram” e “Depois dos trinta anos”, entre outros. Guardadas as devidas proporções, adotei essa mesma linha na elaboração dos meus contos, baseados, quase todos, em episódios que vivi. Esse caráter autobiográfico dá credibilidade e verossimilhança às histórias.
Saroyan conheceu de sobejo a “dor das coisas”. Ficou órfão aos dois anos de idade e foi criado num orfanato da Califórnia com seus três irmãos. Mas foi dessa experiência amarga que nasceram seus melhores contos. Soube fazer, portanto, do “limão azedo” que a vida lhe atirou, “deliciosa e refrescante limonada”. À sua maneira, encontrou o que o fazia feliz.
Saroyan acentua: “... Cada homem não tem culpa (de ser o que é), pois o homem mau não menos que o homem tolo e o homem bom, não pediu para vir aqui e não veio sozinho, do nada, e sim de muitos mundos e muitas multidões. Os maus não sabem que são maus, e são, portanto, inocentes. O homem mau deve ser perdoado todos os dias. Deve ser amado porque alguma coisa de cada um de nós está no pior homem do mundo e alguma coisa dele em cada um de nós. Ele é nosso e nós somos dele. Nenhum de nós é separado de qualquer outro. A prece do camponês é minha prece, o crime do assassino é meu crime”.
Devemos evitar, contudo, de sermos o homem mau, aquele que aumenta “a dor das coisas” e a espalha por onde quer que vá. E também o tolo, que sequer a nota. Compete-nos sermos bons, na medida em que isso nos seja possível, sem buscar qualquer recompensa que não seja o prazer que essa condição nos confere. E, para justificar esse status, compete-nos procurar tirar, incansavelmente, “a dor das coisas”, não apenas para nosso benefício, mas para um número máximo de pessoas com as quais viermos a conviver. Agindo assim, é provável (embora não seja certo) que obteremos a tão desejável felicidade (essa certeza nunca ninguém a tem) e perceberemos que ela jamais esteve tão distante (como poderíamos supor) que não a pudéssemos alcançar sem excessivo esforço.

Thursday, November 27, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Nunca deixemos as portas da alma entreabertas, ou seja, nem abertas por completo e nem fechadas de vez. Esse é o caminho das meias-verdades – que são piores que as mentiras explícitas por causa da verossimilhança – e da insensatez, que nos conduz ao erro e à infelicidade. Escancaremos, sim, as portas do nosso entendimento à verdade, à felicidade, ao amor, às amizades, à alegria e ao bom-humor, entre outros tantos sentimentos bons. E tranquemo-las a sete chaves – se possível com o reforço de um ferrolho – à inveja, intriga, rancor, violência, egoísmo e aos demais venenos da alma. Mas nunca as deixemos apenas entreabertas. Este é o sentido do pequeno (na extensão) grande (no significado) poema de Flora Figueiredo, intitulado “A pedidos”, que diz: ”Não deixe portas entreabertas./Escancare-as/ou bata-as de vez./Pelos vãos, brechas e fendas/passam apenas semiventos, meias verdades/e muita insensatez”.

O maior mendigo


Pedro J. Bondaczuk

O homem, quando se guia só pelos instintos e se deixa levar por seu latente egoísmo, é, de todos os animais, o mais feroz e o mais cruel. Não fosse assim, não haveria extremos, em termos de posses. Não existiriam fortunas pessoais absurdas, de tão grandes que são, maiores do que a de países inteiros e, no outro extremo, pessoas sem teto, esfarrapadas, sujas e mendigando um reles prato de comida ou, na pior das hipóteses, uma dose de bebida alcoólica para tapear uma fome crônica e insaciável. Há, todavia, milhões destas criaturas, mundo afora, encaradas com indiferença tanto pelas autoridades, às quais compete lhes dar assistência e proteção, quanto pela população.
Numericamente, há muito mais carentes, que não têm sequer certeza de obter o almoço de cada dia (por frugal que seja) do que os que não precisam se preocupar com as incertezas da existência. E a cada dia, novos contingentes vêm se juntar a essa multidão de zumbis, de indivíduos sem esperanças e sem futuro, carentes de tudo e de todos, que buscam a mera sobrevivência física, assim mesmo na base do puro instinto. O homem é, pois, ou não é o mais feroz, o mais cruel e o mais insensível dos animais?
Milhões, mundo afora, têm apenas as ruas das cidades como lar. Indigentes não faltam, portanto, cada qual mais desvalido do que o outro numa surreal competição pelo troféu de miserável dos miseráveis. E, no entanto, essas pessoas são dotadas de inteligência, sentimentos, sonhos e esperanças. Ou, pelo menos, um dia foram. São, como nós, feitas “à imagem e semelhança de Deus”. Comete, pois, sacrilégio quem, por ação ou omissão (não importa) permite que alguém se degrade a esse ponto e permaneça em degradação.
Onde estão os que apregoam por aí o desejável (ou meramente hipotético?) “reino do céu”, mas que se omitem diante das necessidades mínimas, porém inadiáveis e prementes, de tantos dos seus semelhantes? Onde o senso, já não digo de justiça (pois deste o homem não pode se vangloriar de ter, pois não tem), mas de caridade e de fraternidade, pregado há mais de dois mil anos por Jesus Cristo (traído e morto por aqueles a que pretendia despertar a voz da razão)? O homem é, pois, ou não é o mais feroz, o mais cruel e o mais insensível dos animais?
Qual seria o maior dos miseráveis, o desprovido de absolutamente tudo, principalmente da motivação para sobreviver? Conheci, anos atrás, em Barão Geraldo, uma pessoa que se estivesse viva seria séria candidata a esse deprimente título. Nunca a vi sóbria uma vez que fosse. Perambulava, trôpega e anestesiada, pelos bares do distrito a implorar por uma dose de cachaça e algum salgadinho para matar a fome. Nunca deixava de conseguir. Sempre aparecia alguém que, para se livrar do seu assédio, lhe pagava a tal bebida, se julgando, certamente, por isso, o supra-sumo da generosidade.
Vários moradores davam-lhe restos de comida, como se alimentassem algum cão vadio, e assim nosso personagem ia sobrevivendo. Dormia onde suas pernas o levassem. Às vezes, em casas em construção, outras, na soleira dos estabelecimentos comerciais, de onde era, invariavelmente, enxotado, como animal pestilento, pelo dono, quando, de manhã, abria as portas para o público. Cheirava mal à distância. Pudera! Há tempos que não sabia o que era um banho.
Não sei que fim esse indigente levou. O fato é que, lá um belo dia, ninguém mais o viu. Certamente, morreu à míngua e foi sepultado, anonimamente, em alguma cova rasa sem identificação ou teve o corpo doado à Faculdade de Medicina, quem sabe. Soube, depois, que esse farrapo humano havia sido famoso jogador de futebol (reservo-me o direito de não o identificar, para preservar, pelo menos, sua memória). Ninguém jamais soube explicar as razões de uma queda tão grande e abrupta, para que chegasse a esse ponto.
Onde estavam os seus parentes? Onde os dirigentes dos clubes em que jogou? Onde os que se confessavam seus “amigos” e os tantos que se diziam seus admiradores? Por que deixaram esse ser humano, “à imagem e semelhança de Deus”, chegar a tal ponto de degradação? Onde as autoridades que não o recolheram a uma instituição do Estado, para lhe assegurar um mínimo de dignidade? Onde os líderes religiosos?
Escrevo estas linhas rilhando os dentes, decepcionado e amargurado com a minha, com a nossa condição humana. E a trajetória desse indigente, infelizmente, não é nenhuma exceção, mas a regra. O homem é, pois, ou não é o mais feroz, o mais cruel e o mais insensível dos animais?
Volto à pergunta: qual seria o maior dos miseráveis? É o poeta Rabindranath Tagore que responde: “O homem que precisa mendigar amor é o mais mísero de todos os mendigos”. Ocorre que todos nós praticamos este ato de mendicância. “Compramos” afeto e raramente o conquistamos. Reflita sobre essa afirmação e responda: Tagore tem, ou não, razão? Não seríamos todos nós, incapazes de nos doar, minimamente, ao próximo, sem que essa auto-doação envolva algum interesse, os mais míseros dos mendigos? Desconfio que sim!

Wednesday, November 26, 2008

REFLEXÃO DO DIA


É possível tratarmos da felicidade e cultivá-la, como uma planta delicada, para que sempre permaneça viçosa e florida? Entendo que sim! Não só podemos, como devemos cultivá-la, tratá-la, adubá-la com o adubo do afeto, do amor e das amizades e borrifá-la com o defensivo da fé, da esperança e da alegria, para que as ervas daninhas da inveja, do rancor, do desespero e de tantos e tantos outros nefastos, mas evitáveis, parasitas, não a sufoquem. Vinicius de Moraes, nos versos finais do clássico “A felicidade”, trilha sonora do filme “Orfeu no Carnaval”, diz o seguinte: “A felicidade é uma coisa boa/e tão delicada também,/tem flores e amores/de todas as cores,/tem ninhos de passarinhos/tudo de bom ela tem/e é por ela ser assim tão delicada/que eu trato dela sempre muito bem”. Até porque, o início dessa canção soa como advertência: “Tristeza não tem fim/felicidade sim”. Evitemos, pois, que ela se acabe.

Do sociológico ao psicológico


Pedro J. Bondaczuk

O escritor e dramaturgo austríaco, Hugo Laurenz August Hofmann, que assinava suas obras com o pseudônimo de Hugo von Hofmannsthal, um dos expoentes da brilhante geração de artistas do seu país em fins do século XIX e que, entre outras coisas, foi amigo pessoal, parceiro e colaborador do compositor alemão Richard Strauss, escreveu, em um de seus ensaios: “Os males que afligiam a humanidade tenderam a se deslocar do domínio público e sociológico para o privado e psicológico”.
Concordo, mas apenas em parte, com essa observação. Não houve nenhum deslocamento na natureza dos problemas que afetam o homem neste raiar de novo milênio. Isso poderia, até, ter acontecido, e por curtíssimo período, na época em que o escritor fez essa afirmação. Hoje, o que ocorre é um acúmulo de males. Ou seja, os de domínio público não foram sanados e, por isso, se agravaram e, a eles, vieram se juntar os desajustes individuais, privados e psicológicos.
Creio que sequer preciso fundamentar em provas essa constatação, tão óbvia ela é para pessoas minimamente informadas e com capacidade mediana de observação. Quando Hofmannsthal escreveu seu ensaio, a humanidade não havia, ainda, conhecido os horrores das duas guerras mundiais, que deixaram, somadas, um número estimado de mais de 50 milhões de mortos, pelo menos o triplo dessa cifra de feridos e prejuízos materiais tão grandes, que nunca puderam ser quantificados (sequer aproximadamente).
Não havia ocorrido o maior massacre da história, com o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, que, literalmente, incineraram, em questão de minutos, edifícios, monumentos, praças, casas etc. e cerca de 200 mil pessoas. Foi, até hoje, o ataque mais pavoroso, o ato de maior insânia e insensibilidade praticado pelo homem contra seus semelhantes.
As duas guerras mundiais deixaram a Europa, berço da civilização, em frangalhos, em escombros, em dantescas ruínas, tanto política, quanto econômica, social e até moralmente. A economia do continente se recuperou em pouco tempo, é verdade, graças ao famoso Plano Marshal. Mas o que se perdeu, material e espiritualmente... Foi irreversível e irrecuperável. Hoje, esses recursos, desperdiçados nesses dois surtos de horror e insânia, fazem muita falta à humanidade.
Concordem ou não comigo, o fato é que a recuperação européia se deu quase que exclusivamente às custas dos países miseráveis – da África, da Ásia e, sobretudo, da América Latina – de onde foram drenadas riquezas, sobretudo as naturais, para que os europeus pudessem se ressarcir dos danos causados por sua própria falta de juízo, de duas guerras selvagens, estúpidas e sem senso. Os problemas econômicos que afligiam a humanidade naquele tempo, que agravaram os de caráter sociológico a ponto de os tornar virtualmente insolúveis, não foram, portanto, resolvidos. Estão aí, para quem quiser ver, e cada vez mais graves.
É verdade que o século XIX esteve longe de ser pacífico. Muito sangue foi derramado, principalmente em solo europeu, com as guerras napoleônicas, os vários conflitos na Rússia, as múltiplas insurreições populares como a Comuna de Paris, o confronto franco-prussiano, e vai por aí afora. A China viveu um período de instabilidade e caos, oportunidade em que Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia procederam a uma sistemática e continuada pilhagem nesta que é, sem dúvida, uma das mais antigas civilizações remanescentes, com cerca de cinco milênios de existência. As potências da Europa apoderaram-se das comunidades africanas como se tivessem direito a elas, drenando para seus países os por si sós escassíssimos recursos desse sofrido continente.
Como se vê, no tempo de Hofmannsthal o que não faltavam eram problemas: políticos, econômicos, militares e sociológicos. Além do que, começaram a emergir os de ordem privada, de caráter psicológico, que hoje competem palmo a palmo com os primeiros.
A Revolução Bolchevique de 1917, já em pleno século XX, foi uma esperança, uma alternativa para, senão a eliminação, pelo menos a redução das desigualdades sociais, principalmente na Rússia. Se funcionasse ali, certamente seria abraçada por outros povos. Não funcionou.
Não tardou para que essa utopia de uma sociedade sem classes, com a abolição total da propriedade privada, frustrasse os idealistas. O que na sua concepção original era para ser uma coisa, se transformou em outra, muito diferente, que nada tinha a ver com os ideais de igualdade e fraternidade dos seus mentores. Tornou-se uma férrea ditadura do Estado sobre o indivíduo, e muito mais intolerável do que o liberalismo cínico do “laissez faire” e seu selvagem sistema capitalista. Não durou (como não poderia durar) sequer um século.
Quanto aos problemas psicológicos (que um amigo muito chegado classifica, de forma irreverente e até um tanto escatológica de “frescuras de riquinhos desocupados”), vêm crescendo, de forma exponencial. Milhões de pessoas mundo afora, no afã de fugir de seus fantasmas e demônios interiores, recorrem ao álcool, às drogas e a tantos outros expedientes de fuga, inutilmente. Multidões superlotam os consultórios dos especialistas (quando não gabinetes de gurus e de charlatães), em busca de auxílio.
É certo que quem é afetado por esses males quase nunca é o desvalido, o pobre, o miserável ou o indigente. Estes já têm aflições de sobra para garantir pelo menos a refeição do dia. As estatísticas comprovam, por exemplo, que os mais altos índices de suicídio são registrados em países ricos – notadamente Suécia, Estados Unidos e Japão – cujo estilo e, principalmente, qualidade de vida são invejados por todos os povos. O problema do pobre é, aparentemente, mais simples: comida num primeiro instante. E, claro, moradia decente, educação, saúde, segurança etc.etc.etc.
Uma coisa é certa: as sociedades que aí estão são um fracasso, a despeito da sofisticada tecnologia de que dispõem. Injustas, excludentes e preconceituosas, não asseguram relacionamentos sequer minimamente civilizados entre as nações e, muito menos mesmo que um arremedo de felicidade para a imensa maioria da população mundial. Urge, pois, que se encontre (e se concretize) uma nova utopia, de igualdade, fraternidade e, sobretudo, de solidariedade neste violento, poluído, judiado e sumamente depredado Planeta. Seremos competentes para isso?

Tuesday, November 25, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Os que não crêem em milagres são céticos, apenas, porque não atentam para a natureza. A cada fração de segundo, a vida se renova, de forma fantástica e miraculosa, e se manifesta onde jamais supúnhamos fosse possível. Basta atentar para o que ocorre ao nosso redor. A própria existência da Terra, com a distância ideal do Sol, nem próxima demais para ser tórrida, como Mercúrio e Vênus, e nem distante em demasia, para ser gélida, como ocorre com Marte, é magnífico milagre. Ou não é? O poeta italiano, Salvatore Quasimodo, diz isso com graça e beleza, neste poema “Águas e terras”: “E eis que do tronco/rompem-se os brotos: um verde mais novo da relva/que o coração acalma: o tronco parecia já morto, vergado no barranco. E tudo me sabe a milagres,/e eu sou aquela água de nuvens/que hoje reflete nas poças/mais azul seu pedaço de céu,/aquele verde que se racha da casca/e que tampouco ontem à noite existia”.

Ser excelente


Pedro J. Bondaczuk

A vida, ao contrário do que muita gente pensa, não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida para uma aventura em que poderemos nos tornar heróis ou covardes, santos ou o suprassumo do mal, criadores ou destruidores, amados ou odiados etc.etc.etc. O resultado dessa empreitada depende apenas de nós. Para uns, a tarefa de se constituir em vencedor é mais fácil, dadas as condições de nascimento. Para outros, muito mais árdua e, aparentemente impossível, pelas mesmas razões (ou outras quaisquer). Não importa. Todos, independente do sexo, cor, origem ou condição econômica ou social, têm condições de alcançar essa vitória.
O simples fato de nascermos já é uma conquista fabulosa que raramente (ou literalmente nunca) valorizamos. Somos aquele espermatozóide que venceu a corrida com vários bilhões de outros, para fertilizar um único e específico óvulo, dando origem ao que somos. Matematicamente, qual a probabilidade disso acontecer? Ínfima, reduzidíssima, irrisória, quase nula. No entanto... aconteceu. Já entramos, portanto, num mundo, estranho, imenso (infinito?) e misterioso, como vencedores.
Para muitos, todavia, esta é a única vitória, até que esgotem o seu tempo (que para cada pessoa é específico e exclusivo e que ninguém sabe com antecedência qual é) e se tornem, pelo menos materialmente, em pó. Desconhecemos se essa fase material é a única que temos ou apenas uma etapa, para outro tipo de vida, imaterial, energético ou, como os místicos e religiosos preferem, espiritual. Podemos até acreditar que seja assim. Mas, certeza, certeza mesmo, ninguém tem, embora muitos apregoem como sendo a suprema realidade. Não é. É um mistério e é bom que seja assim.
A partir do nascimento – que, reitero e enfatizo, é, por si só, maiúscula vitória – todos, sem exceção, temos diante de nós enorme desafio: o de fazermos a diferença no mundo e justificarmos nossa passagem pela Terra. Por algum motivo viemos para cá. Qual? E quanto piores forem nossas condições ao nascermos, quanto mais graves forem nossas deficiências, maior valor terá nosso sucesso, se conseguirmos marcar nossa passagem com atos, e fatos e feitos de grandeza, transcendência e amor. E, sobretudo, com obras (materiais ou imateriais, não importa).
O parâmetro que devemos estabelecer, para nortear nossos passos, é o da excelência, nunca menos do que isso. E mesmo que, por alguma razão, não venhamos a atingir essa meta (pouquíssimos a atingem), certamente chegaremos bem próximos dela se a perseguirmos de forma incansável e ininterrupta. Conquistaremos um lugar cativo na memória dos povos e nos corações de gerações após gerações.
E o que vem a ser um indivíduo excelente? Para definir essa qualidade, prefiro dar voz a um especialista no assunto. Trata-se do mexicano Miguel Angel Cornejo y Rosado, um dos líderes latino-americanos mais ouvidos, em âmbito mundial, considerado o iniciador da “cultura da excelência”. É, sem dúvida, uma autoridade no assunto. Afinal, entre outras tantas realizações, já fez em torno de quatro mil conferências nas Américas, Ásia e Europa. Se tanta gente se dispôs a ouvi-lo, é porque, certamente tem o que dizer. Sua principal mensagem é a de que “a melhor forma de viver é estar plenamente apaixonado por tudo o que o rodeia”.
Para Rosado, “ser excelente é fazer as coisas e não buscar razões para demonstrar que não podem ser feitas. Ser excelente é compreender que a vida não é algo que se receba pronto, mas, sim, que temos de produzir as oportunidades para se alcançar o êxito. Ser excelente é compreender que, com base numa férrea disciplina, é possível forjar o caráter dos triunfadores”.
Claro que não se trata apenas disso. Mas sem essa compreensão, sem essa fé nas próprias potencialidades e, principalmente sem uma ação ininterrupta e construtiva, ninguém pode sequer sonhar com a excelência. E Miguel Angel Cornejo y Rosado prossegue: “Ser excelente é traçar um plano e alcançar os objetivos desejados, apesar de todas as circunstâncias. Ser excelente é saber dizer: equivoquei-me e se propor a não cometer mais o mesmo erro. Ser excelente é levantar cada vez que se fracassa, com um espírito de superação e de aprendizagem”.
Como se vê, a excelência não exige uma pessoa perfeita (ninguém é), que nunca tenha dúvidas, que não cometa erros e que jamais fracasse. Ao contrário, é uma condição que qualquer um pode alcançar, independente de sexo, cor, etnia ou condição econômico-social, desde que tenha determinação. O segredo dessa busca é a persistência. Mais do que isso, é saber persistir na persistência!
Mas a excelência não admite a preguiça, a inércia, o desânimo e a omissão. O omisso, então, jamais conseguirá ser sequer bom (nem mesmo medianamente), quanto mais excelente. Nem aquele que nunca assume a responsabilidade por seus atos, erros e fraquezas, atribuindo-os, invariavelmente, a alguma circunstância ou a alguém.
Rosado conclui, com estas sábias palavras, sua memorável explanação: “Ser excelente é reclamar consigo mesmo para o desenvolvimento pleno das próprias potencialidades buscando incansavelmente a realização. Ser excelente é entender que, através do privilégio diário do nosso trabalho, podemos alcançar a realização. Ser excelente é exercer a nossa liberdade e sermos responsáveis por cada uma das nossas ações. Ser excelente é sentir-se ofendido e lançar-se à ação contra a pobreza, a calúnia e a injustiça. Ser excelente é transcender o nosso tempo deixando, para as gerações futuras, um mundo melhor”.
Esta é a vitória final, que complementa e justifica aquela inicial, a do nosso nascimento, e que nos compete buscar sem descanso ou desânimo. Você tem 20 anos de idade e ainda é analfabeto? Não importa! Comece a estudar, hoje mesmo, que você será um doutor (se de fato quiser, claro). Impossível?! Não! Conheço inúmeros casos de pessoas que empreenderam esse tipo de reação e hoje são profissionais respeitados e vitoriosos.
Você não tem emprego, salário e nem um cantinho para esconder a cabeça? Não importa! Você está vivo e, portanto, todas as possibilidades lhe estão abertas! Mas lute, se esforce, aja e não espere que ninguém lhe faça o que lhe compete exclusivamente fazer. Não lamente. Busque alternativas. Não culpe ninguém pela sua situação. Busque soluções. Seja excelente! Seja um HOMEM!

Monday, November 24, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Como as futuras gerações irão nos julgar? Vão compreender nossas limitações e ignorância e nos perdoar por lhes legarmos um mundo tão imperfeito e cheio de contradições, injustiças, violências e rancores, a despeito da refinada tecnologia e dos avanços científicos que lhes legamos? Podem chamar-me de visionário, mas acredito numa época em que o homem será amigo do homem. Em que o egoísmo será banido e substituído pela solidariedade e na qual reinará, soberana, a paz e a harmonia entre os povos, irmanados numa só nação, a Terra. Claro que isso levará tempo. Por isso, faço minhas as palavras de Bertolt Brecht, nos versos de encerramento do poema “Aos que virão depois de nós”: “Infelizmente, nós,/que queríamos preparar o caminho para a/amizade,/não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos./Mas vocês, quando chegar o tempo/em que o homem seja amigo do homem,/pensem em nós/com um pouco de compreensão”.

A invenção da vida


Pedro J. Bondaczuk

“A vida é uma grande invenção!”. Quem disse isso foi Ferreira Gullar, num documentário sobre Vinicius de Moraes, exibido pelo Canal Brasil em 16 de outubro de 2008, produção que, desde a concepção, até a realização final, merece todos os elogios possíveis e imagináveis. Mas meu objetivo não é comentar o programa, cuja avaliação pode ser resumida numa única palavra: “excelente!”. Isso basta (pelo menos por enquanto, pois não resisto à tentação de voltar, oportunamente, ao assunto).
O que ficou martelando, insistentemente, em meu cérebro, foi essa declaração de um poeta, falando sobre outro. Refleti muito sobre o assunto e concluí que Gullar foi de extrema felicidade ao fazer essa enfática afirmação. Aliás, escrevi páginas e mais páginas sobre o assunto (o leitor é testemunha), embora, óbvio, sem o poder de síntese que só um poeta desta envergadura tem.
Pois é, a vida é, de fato, uma grande invenção. Cada qual, com seu esforço, talento, imaginação (e, como diria Ortega y Gasset, “circunstâncias”) elabora o próprio enredo, com a participação ou não de coadjuvantes. Uns (temo que a maioria) optam por tornar essas histórias autênticos filmes “noir”, repletos de melancolias, tédio e horror. E depois dizem “odiar” a vida. Pudera! Mesmo estes, porém, desconfio, odeiam-na somente da boca para fora. Caso não fosse assim, não se mostrariam tão apavorados quando a “niveladora dos homens” surge para os levar à presença do “barqueiro de Caronte”, para a travessia (sem volta) do Aqueronte.
Há os que vão mais longe, em sua psicose, e transformam suas vidas num assustador filme de terror. Esses, ai, ai, ai... Outros tantos, fazem-na um western, daqueles com muitos tiros e uma infinidade de socos e pontapés, em que o mocinho sempre vence no final e finda por se casar com a mocinha, com a qual vive feliz para sempre. Só que, tolos que são, reservam, para si, o papel do bandido. Que estúpidos!
Há, por outro lado, os masoquistas, os que adoram sofrer, mesmo sem motivos para sofrimentos (que, também, inventam). Estes têm prazer mórbido em narrar suas desventuras, fracassos e dores (estas, na maior parte, claro, inventadas). São os que vivem se queixando, da manhã até a noite, achando que são as pessoas mais infelizes e sofredoras do mundo. E de tanto quererem isso, de fato se tornam nisso. Tratam-se daqueles chatos que fazem de uma reles dorzinha de cabeça, doença potencialmente letal.
Basta que, na roda em que entram, para participar de uma conversa informal qualquer – sobre mulher (tema predileto e recorrente), por exemplo, ou futebol, ou simplesmente para fofocar – alguém mencione, mesmo que de passagem, alguma moléstia. Pra quê! Incontinenti, assumem o centro do palco. Nesses momentos, tomam a palavra, sem a menor cerimônia e nenhum convite, e desfiam intermináveis rosários de achaques, apresentados em detalhes e que, se de fato tivessem, estariam a sete palmos abaixo da terra e não enchendo o saco de quem pretende, apenas, espairecer. São os tais dos “espalha-rodinhas”. Conheço inúmeras pessoas assim. Estou certo que o leitor também conhece, não é mesmo?
Por que não inventar enredos em que sejamos sempre alegres, mesmo sem motivos para alegria, bonitos (mesmo que sejamos reflexos de Frankenstein) e vencedores? Por que levar as coisas tão a sério, se o nosso tempo de vida é tão curto e não temos a mínima noção se haverá um depois? E, se houver, como será? E se não sabemos sequer se no minuto seguinte estaremos, ou não, vivos? Por que não aproveitar o presente, enquanto presente, sem deixar de planejar o futuro, contudo sem nenhuma grande ilusão, pois poderemos sequer ter algum?
Por que esta obsessão de juntar, juntar e juntar, dinheiro, imóveis, bugigangas, bobagens tidas e havidas como riquezas se, no íntimo, o indivíduo já sabe que, mal o seu corpo esfrie e comece a se decompor, antes mesmo de ser sepultado, seus filhos já estarão se pegando a tapas para dividir tudo o que juntou? E, provavelmente, irão esbanjar e perder em poucos anos (se não dias) o que gastou uma vida inteira para acumular. Ou, pior, a pessoa que lhe jurava amor eterno, em questão de semanas, após sua morte, poderá se juntar com um pilantra qualquer (a probabilidade não pode ser descartada), que talvez torre todas essas economias, feitas com absurdos sacrifícios, zombando de quem as juntou.
Por que não amar as mulheres que o acaso lhe oferece de bandeja? Por que não se divertir com os amigos que as circunstâncias juntam? Por que não visitar os lugares que tanto deseja? Por que não sorrir, não agradar os sentidos, não cantar, não dançar, não amar? Sim, apontem uma razão, uma única, para não fazer tudo isso.
Quem não quer (ou não sabe) usufruir disso tudo, merece o sofrimento que tem. É uma pessoa tacanha, mesquinha, estúpida, totalmente despida de imaginação. Não sabe inventar uma vida que preste! E que se danem os moralistas de plantão e os onipresentes “idiotas da objetividade” que quiserem brandir seu dedo acusador diante do meu nariz por causa das minhas observações.

Sunday, November 23, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Há palavras que devemos evitar, por trazerem embutidas promessas que não temos condições de cumprir e previsões que não dependem de nós para se concretizar. As três principais são: nunca, sempre e jamais. Dizemo-las impensadamente, sem refletir sobre seu significado. Afirmar à amada que “sempre” a iremos amar pode expressar boa-intenção, mas não possibilidade. Garantir que “jamais” as injustiças serão banidas do mundo é desconfiar da determinação das futuras gerações. Ou dizer que “nunca” um vencido haverá de se recuperar é uma afirmação irresponsável e tola. Bertolt Brecht diz o seguinte nos versos com que encerra o poema “Elogio da dialética”: “Quem se atreve a dizer: jamais?/De quem depende a continuação desse domínio?/De quem depende a sua destruição?/Igualmente de nós./Quem reconhece a situação como pode calar-se?/Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã./E o ‘hoje’ nascerá do ‘jamais’".

DIRETO DO ARQUIVO


É preciso derrubar todas as Bastilhas


Pedro J. Bondaczuk


O estopim da Revolução Francesa de 1789 foi aceso no dia 14 de julho desse ano, quando a população de Paris, revoltada com os desmandos da realeza e o cinismo da nobreza, invadiu as masmorras da terrível prisão da cidade, que era a Bastilha, e libertou a todos os que lá estavam.
Nessas escuras e sombrias celas conviviam marginais, assassinos, prostitutas e notórios bandidos, com cidadãos de bem, muitas vezes colhidos por intrigas palacianas e encarcerados por não disporem de dinheiro para pagar um bom advogado.
Justiça era algo risível naqueles tempos duros e, reivindica-la, equivalia a um ato de subversão. No entanto, nos dias que correm, há inúmeras Bastilhas a serem conquistadas, para que a Declaração Universal dos Direitos Humanos saia, finalmente, do papel e passe a exercer efeitos práticos.
O grande mal do presente século é a massificação de idéias, que leva o homem a ser educado para a sujeição e o conformismo. Por isso, em termos de conquistas sociais, o mundo está tão atrasado, pelo menos em relação aos incríveis avanços tecnológicos que possibilitaram, inclusive, que o único animal racional da natureza saísse de seu domo cósmico e pudesse passear na Lua.
Mas não são todos, é claro, que se recusam a pensar. Há muita gente que já entendeu que uma revolução autêntica, um movimento redentor genuíno, não se faz com armas e com barricadas. Não se muda uma estrutura injusta e violenta com novas injustiças e violências. As grandes transformações são feitas com idéias. Matá-las, nem as armas mais mortíferas conseguem.
Nós recebemos, dia desses, na redação, um trabalho elaborado por um peruano de 72 anos (que assina sob o pseudônimo de Inkari) intitulado “Um trabalhador, um capital”. No estudo, o autor propõe que o operário deixe de ser considerado nessa simples condição.
Sugere que perca sua condição de impersonalidade, de mero produtor de determinada quantidade de serviços, como se fosse máquina. Prevê que participe dos resultados do seu trabalho e seja visto, acima de tudo, como homem.
Muitos dirão que a proposta é utópica. Afinal, Inkari propõe que o trabalhador seja considerado como um capital (e o mais precioso deles) da empresa. No entanto, a simples elaboração dessa idéia, sem entrar no seu mérito, muito bem exposta, demonstra que há pessoas que ainda se preocupam com os autênticos direitos humanos.
Há cidadãos, como este, dispostos a invadir, e a derrubar, todas as aberrantes Bastilhas que há, em profusão, por aí. Afinal, nada é mais verdadeiro do que aquilo que William Shakespeare constatou, ao escrever: “Que grande obra é o homem! Como é nobre em razão! Como é infinito em faculdade! Em forma e movimento, como é expressivo! Em ação, como lembra um anjo! Em percepção, como lembra um deus!”. Só que há homens e homens. É aos bons, certamente, que este texto se refere.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 14 de julho de 1989)

Saturday, November 22, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Tudo o que se faz na vida gera algum efeito. Nada, absolutamente nada passa incólume. Às vezes, é verdade, os atos são imperceptíveis e ficam assim para sempre. O efeito gerado é ínfimo e quem os praticou se conforma em não ser identificado. Às vezes, as ações tardam a ser percebidas e o autor, igualmente, permanece incógnito. Às vezes, a percepção é imediata, mas as conseqüências é que são imperceptíveis. E às vezes, os atos (bons ou ruins) são percebidos de imediato e premiados ou punidos, de acordo com sua natureza, sem tardança. São os rastros, as marcas, os vestígios de nossa existência que deixamos nos caminhos do tempo. Cecília Meirelles ilustra essa situação com estes versos que encerram o poema “4º motivo da rosa”: “Eu deixo aroma até nos meus espinhos/ ao longe o vento, o vento vai falando de mim// E por perder-me é que vão me lembrando,/por desfolhar-me é que não tenho fim”.

Antecipação


Pedro J. Bondaczuk

Ouve, doce amada, minha voz
no diapasão do silêncio,
no sussurro suave da brisa,
nos indistintos sons noturnos.

Ouve e sente a incontida angústia,
incontrolável frustração,
sensação ingrata, dolorosa
que me causa sua ausência.

Sinta, doce amada, meus lábios
ávidos à procura dos seios
com aroma embriagador
de nardos, miosótis e jasmins.

Sinta minha língua ágil,
cobra sem peçonha
a acariciar os biquinhos
róseos, rígidos e túrgidos,
gloriosos mananciais
de leite, mel e desejos
na tensíssima antecipação do coito.

Sinta minhas mãos fortes, mas trêmulas,
a passearem, tensas, por seu corpo,
rijo, posto que com a maciez
do mais macio, delicado veludo,
a esquadrinharem, afoitas,
secretos e recônditos
recantos, para desvendar
segredos dessa fonte de delícias.

(Poema composto em Campinas, em 27 de setembro de 2008).

Friday, November 21, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Devemos dar mais ouvidos à intuição, essa espécie de sexto sentido que antecede nossas ações. Raramente ela falha. A maioria dos melhores textos que produzi, por exemplo, nasceram dessa voz inaudível que me cochichou no ouvido o que, como e para quem deveria escrever. Não raro, ela nos indica a hora certa de agir e de que forma. Às vezes teimamos em não lhe atender os alertas, em não respeitar esse “sinal vermelho”, e nos damos mal. Há ocasiões em que tentamos concretizar projetos que, aparentemente, têm tudo para dar certo, mas que a mera intuição nos adverte que há armadilhas escondidas, que não conseguimos vislumbrar. Se teimarmos em levar a empreitada adiante, à revelia desse sexto sentido, podemos ser surpreendidos pelo inesperado e fracassar. Afinal, como Immanuel Kant nos lembra: “Todo o conhecimento humano começou com intuições, passou daí aos conceitos e terminou com idéias”.

É possível nova utopia?


Pedro J. Bondaczuk

A civilização atual – que já nem pode mais ser denominada de “Judaico-cristã” e que também não é exclusivamente ocidental, dado o processo de globalização – batizada pelos historiadores de “Tecnológica”, por ter seu fulcro no desenvolvimento da alta tecnologia, está em acelerado processo de decadência. E apresenta, para a humanidade, duas alternativas: extinção ou mudança.
Abordei o assunto em dois recentes textos, em que assinalei as principais razões da inviabilidade da manutenção do atual estado de coisas. Destaquei, entre outras graves deficiências, a depredação acelerada do meio ambiente, que coloca em sério risco a própria sobrevivência humana (e a dos demais seres vivos) e as injustas e perversas relações entre povos e nações, sobretudo na distribuição das riquezas geradas pela população mundial.
Estamos chegando a um momento de impasse, em que a alternativa é mudar ou desaparecer. Temo que as mudanças não serão pacíficas, pois os privilegiados da Terra são os que detêm o poder político, econômico e, sobretudo, militar. E, com certeza, não irão “largar o osso”, sem mais e nem menos, assim, de mão beijada.
Para que fique claro, considero “civilização” sob o mesmo enfoque do ilustre sociólogo e historiador alemão, Oswald Spengler. Ou seja, como o “estado de decadência” de determinada cultura e não seu apogeu, seu mais importante estágio, como o leigo via de regra entende. É, na verdade, a fase em que ela perde sua força criadora, seu dinamismo e sua vitalidade e está prestes a ruir. Ou seja, ou está em vias de ser absorvida por uma outra cultura que tenha muito mais energia do que ela, ou, simplesmente, está ameaçada de desaparecer.
É o que ocorre com a atual civilização tecnológica. Entre os fatores principais que a inviabilizam estão o excesso de consumo e a quase exaustão das matérias-primas para a produção de bens, o que alimenta essa roda-viva. E, claro, a geração absurda e crescente de resíduos industriais, de gases pestilentos e letais, de detritos que degradam e contaminam o solo e poluem o bem mais precioso e indispensável com que contamos (logicamente, a água) o que agride a biosfera e, conseqüentemente, tende (se o processo de poluição não for detido) a ameaçar a vida.
O jornalista e escritor português, Afonso Cautela, escreveu, com muita propriedade, no texto intitulado “Recuar um passo para avançar vinte”, publicado em 22 de maio de 1971 pelo “O Século Ilustrado”, de Lisboa: “Se os excessos de consumo conduzem o presente a hipóteses de futuro bem pouco aliciantes – e várias ameaças estão pendentes sobre o pescoço da passiva humanidade – é dialeticamente irreversível a realidade nascente dos que se opõem à total destruição e pretendem, precisamente, preservar a civilização, quando, aparentemente, a estão negando, contestando, contrariando, pelo regresso a fases ditas não-civilizadas de comportamento”.
É verdade que essa reação é bastante discreta, pífia, quase imperceptível, face à realidade mundial e possivelmente já tardia. E está em mãos de pessoas muito jovens e que, por isso, não são levadas a sério. Não se vêem, por exemplo, multidões saindo às ruas, organizadas, com cartazes e slogans, para exigir que os predadores parem de destruir o Planeta. Ademais, os poucos que se preocupam, seriamente, com o atual estado de coisas, são condenados, desqualificados e ridicularizados pela maioria – acomodada, alienada e néscia –, chamados de “arruaceiros” ou rotulados com epítetos desabonadores, como o de “ecochatos”, entre tantos outros.
Cautela prossegue: “ ‘O regresso à natureza’, as comunidades rurais, os hábitos alimentares novamente frugais e simples, as relações humanas sem preconceitos e sem erotismo, uma simplificação dos atos vitais da existência e um cotidiano recuperado, são as características de uma juventude a quem o mundo urbano se tornou insuportável e intolerável e a quem o futuro está entregue, mas que o recusa reconstruir da mesma e única maneira como até agora as gerações transatas o construíram”.
E é possível a construção dessa nova utopia? Se as pessoas pensassem minimamente com lógica, se tivessem mesmo que uma consciência primária do que são e porque estão no mundo, isso não apenas estaria no terreno das possibilidades, mas ascenderia ao patamar das probabilidades. E essa nova cultura, de respeito irrestrito às leis da natureza e de um relacionamento sadio e justo, sem preconceitos ou exceções (para o bem ou para o mal) entre indivíduos, povos e nações estaria sendo implantada. Obviamente, não está!
Eu acredito, todavia, na preponderância da razão sobre os instintos. Creio que Eros irá sobrepujar, um dia (não sei quando), a tirania de Tanatos. Tenho fé na grandeza e na transcendência do homem. Confio na sua inteligência, sagacidade e capacidade de criar. são as características de uma juventude a quem o mundo urbano se tornou insuportável e intolerável e a quem o futuro está entregue, mas que o recusa reconstruir da mesma e única maneira como até agora as gerações transatas o construíram”.
E é possível a construção dessa nova utopia? Se as pessoas pensassem minimamente com lógica, se tivessem mesmo que uma consciência primária do que são e porque estão no mundo, isso não apenas estaria no terreno das possibilidades, mas ascenderia ao patamar das probabilidades. E essa nova cultura, de respeito irrestrito às leis da natureza e de um relacionamento sadio e justo, sem preconceitos ou exceções (para o bem ou para o mal) entre indivíduos, povos e nações estaria sendo implantada. Obviamente, não está!
Eu acredito, todavia, na preponderância da razão sobre os instintos. Creio que Eros irá sobrepujar, um dia (não sei quando), a tirania de Tanatos. Tenho fé na grandeza e na transcendência do homem. Confio na sua inteligência, sagacidade e capacidade de criar. Acho possível, e mais do que isso, provável, essa nova utopia salvadora, esse “recuo de um passo para avançar vinte”, nem que isso leve gerações. Só me resta, todavia, uma dúvida, uma única e sumamente inquietadora: haverá tempo para essa transformação?

Thursday, November 20, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A vida é a arte do encontro. Precisamos sempre de alguém, do nascimento à morte, para nos proteger, ensinar, conviver, amar etc. O homem, ao nascer, é um dos seres mais frágeis e desprotegidos da natureza. A quase totalidade dos animais, por exemplo, consegue ficar de pé, sozinho, minutos após o nascimento. Nós, não! Levamos, por exemplo, pelo menos quatro meses para sentar, mais dois para engatinhar e quase um ano para andar tropegamente. Se um bebê for deixado à própria sorte, digamos, por uma semana, sem alguém que o alimente, o vista, o limpe, o banhe e lhe dê afeto, dificilmente sobreviverá. Precisamos, uns dos outros, pois, do nascimento à morte. Raramente, porém, nos damos conta dessa fragilidade. O filósofo, escritor e pedagogo Martin Buber escreveu a respeito dessa dependência: “O ser humano se torna eu pela relação com o você. À medida que me torno eu, digo você. Todo viver é real encontro”.

Momento crítico da História


Pedro J. Bondaczuk


O momento atual – quando ainda sequer se completou a primeira década do terceiro milênio da Era Cristã –, é, com certeza, o ponto crítico da História. Por qualquer aspecto que se encare o futuro, este se apresenta nebuloso, sombrio e obscuro, com perspectivas catastróficas para a humanidade, embora esta, na sua absoluta maioria, em incompreensível e estúpida alienação, não se dê conta do perigo iminente que a ameaça.
A atual civilização tecnológica (ou seria financeira?), que tentam nos vender como panacéia para todos os males, como a maravilha das maravilhas, como a única possível de assegurar vida digna e racional à maioria dos habitantes da Terra, sem qualquer alternativa melhor, fracassou.
E nem poderia dar certo, se levarmos em conta, por exemplo, que o patrimônio pessoal de somente 358 pessoas é maior que a renda anual de 45% da população mundial! Absurdo dos absurdos! E não inventei esses dados. Eles constam do Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento divulgado em 2004. Notem bem, não me refiro a três bilhões de pessoas, ou a três milhões ou até a 300 mil, mas a reles “358”! Como pode subsistir um sistema assim?! Não pode!
Tem mais. Como esperar que uma “civilização”, em que as 200 maiores corporações, que representam um terço da atividade econômica mundial, empregam, somente, 0,75% (menos de 1%) da mão de obra disponível do Planeta, possa prosperar e se consolidar?! E o que dizer da forma como esses 0,75% de privilegiados são tratados pelos patrões?!
O matemático, filósofo e ativista político inglês, Sir Bertrand Russell (que não tinha papas na língua), fez a seguinte observação, acerca desse tratamento, por parte dos que buscam manter, a ferro e fogo, esta civilização tecnológica, em que o todo-poderoso mercado foi alçado à condição de deus: “O liberalismo acha perfeitamente normal o patrão dizer ao empregado: ‘morrerás à míngua!’. Mas não concorda se o subordinado responder: ‘morrerás antes à bala’”. Como esperar que algo assim prospere e dê certo?! Claro que não é possível!
Existem alternativas? Existem, e muitas. Ocorre que nada de prático vem sendo feito para a substituição do que aí está por algo melhor. E a tendência é a de piorar e de até se chegar a um impasse que, provavelmente, acabará decidido pelas armas, pela violência cega e irracional. E quem garante que nessas circunstâncias os vastos arsenais termonucleares das potências atômicas não venham a ser utilizados? Aliás, nem é necessária nenhuma insana decisão da sua utilização. Um acidente (que por maiores que sejam as precauções, sempre é possível de acontecer), a qualquer momento pode mandar tudo pelos ares. E ninguém se dá conta, ninguém se preocupa, ninguém sai às ruas para protestar contra essa insanidade.
Pelo contrário, as pessoas continuam, doce e passivamente, consumindo, consumindo e consumindo. E a indústria segue produzindo, produzindo e produzindo. E a população mundial (o um terço dela de privilegiados que tem acesso ao consumo, claro) prossegue desperdiçando, desperdiçando e desperdiçando.
Ocorre que as principais matérias-primas, que sustentam todo esse sistema econômico perverso e predatório, não são renováveis e nem abundantes. Estão ficando cada vez mais escassas nos países que as utilizam. Qual a alternativa? Avançar sobre as reservas dos países miseráveis e fracos que, além de tudo, são indefesos.
Alguém acredita, bem no íntimo, em sã consciência, que a invasão norte-americana ao Iraque foi, apenas, para derrubar Saddam Hussein e restabelecer a democracia? Que a decisão foi tomada para punir quem de alguma forma teve responsabilidade na destruição das torres-gêmeas do World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001? Santa ingenuidade!
Quem crê nisso, deveria ler esta declaração, feita pelo ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, ainda nos anos 80: “Os países industrializados precisam ter, à sua disposição, os recursos naturais não-renováveis do Planeta. Para isso, terão de montar sistemas mais requintados e eficientes de pressão e constrangimentos que garantam a realização dos seus objetivos”. Só faltou dizer, claramente, portanto, que as potências devem pilhar os bens dos que os têm. Mas isso está dito pelo menos nas entrelinhas.
Kissinger, no entanto, limitou-se somente a reforçar a tese defendida por outro secretário de Estado norte-americano, John Forster Dulles, que em meados dos anos 50 havia declarado: “Há duas maneiras de se conquistar um país: pelas armas ou pelas finanças”. As potências recorrem às duas.
É esta “democracia” que você, leitor amigo, quer para os seus filhos e netos? É esta a civilização que se pretende a ideal para a humanidade? É isto o que tantos e tantos querem que dure?! É preciso ser muito inteligente para deduzir que tudo isso está com os dias contados? Acredito que não!
Sonho com o período em que os meus netos vão achar isto que aí está, que alguns consideram o suprassumo de civilização, como grotesca e patética barbárie. Em que o homem aprenderá a conviver com a natureza e, principalmente, será justo, solidário e altruísta em relação aos semelhantes (a todos, e não apenas a parcos privilegiados).
Afinal, como o laureado escritor francês Anatole France escreveu, no início do século passado: “O que os homens chamam de civilização é o estado atual dos seus costumes e o que chamam de barbárie são os estados anteriores. Os costumes serão chamados bárbaros quando forem costumes passados”. Serão, de fato. Isto, se os homens não destruírem o mundo antes!

Wednesday, November 19, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Muitas vezes, no amor, o silêncio é muito mais importante do que qualquer palavra que os amantes possam dizer um ao outro. Os olhos, o rosto, o sorriso, as mãos e todo o corpo são mais enfáticos e expressam com muito maior fidelidade as emoções que ambos sentem. Trata-se da única situação em que duas almas dialogam, sem intermediários, prescindindo de qualquer outro som, a não ser o dos suspiros de prazer e de paixão. Affonso Romano de Sant’Anna escreveu belíssimo poema a respeito, intitulado “Silêncio amoroso”, que diz: “Preciso do teu silêncio/cúmplice sobre minhas falhas./Não fale./Um sopro, a menor vogal pode me desamparar./E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.//O silêncio, aprendo, pode construir./É um modo/denso/tenso de coexistir./Calar, às vezes, é fina forma de amar”. Ademais, por que falar, se o corpo é tão enfático e expressa o que palavra alguma pode declarar?

Civilização e barbárie


Pedro J. Bondaczuk

A atual civilização tecnológica, originalmente ocidental, mas que, com o processo de globalização, se alastra, progressivamente pelo Oriente – inicialmente, Japão; depois, os chamados “Tigres Asiáticos” e agora, de forma avassaladora, o país mais populoso do mundo, a China, com seus mais de 1,4 bilhão de habitantes e o segundo mais povoado, a Índia, com mais de 1,1 bilhão – está com seus dias contados. Pode prevalecer por mais um par de anos ou, quando muito, por uma ou duas décadas. Mas fatalmente irá ruir, como tantas outras na história da humanidade já ruíram, sem deixar nenhuma saudade e, provavelmente, sequer vestígios.
Não se trata, aqui, de nenhuma profecia apocalíptica – até porque nunca tive vocação para profeta e minha educação, extremamente cartesiana, não me induz a arroubos místicos – mas, apenas, de raciocinar com lógica, baseado, exclusivamente em fatos. E estes me permitem extrapolações, com 80% ou mais de probabilidades de acerto, exercício que não é exclusivamente meu: qualquer pessoa bem-informada pode fazer sem grandes esforços.
A pergunta que não quer calar se refere ao que virá depois. Haverá algum? A humanidade conseguirá encontrar alternativas para eventual recomeço ou retroagirá à barbárie? Ou nem esse retrocesso lhe será possível e se destruirá, numa hecatombe termonuclear voluntária ou acidental, ou sufocada pelos gases que gerou (e continua gerando sem-cessar)? Ou esturricada pelo crescente calor gerado pelo progressivo efeito-estufa, em lenta e dolorosa agonia? A vida, inteligente ou não, será extinta, afinal, deste Planeta? Muitos acreditam que sim. Outros tantos (poucos) crêem, ainda, numa saída. A maioria esmagadora, no entanto, permanece passiva, sem sequer se dar conta da catástrofe que já está em andamento, prestes a se configurar.
A esse propósito, li, recentemente, revelador artigo de Afonso Cautela, intitulado “Recuar um passo para avançar vinte”, publicado em 22 de maio de 1971 na coluna “Futuro”, da publicação “O Século Ilustrado” de Lisboa. O articulista, sem negar a realidade (que na época em que escreveu o texto nem era tão dramática como agora), manifesta crença na capacidade humana de alterar paradigmas e de encontrar, portanto, saídas, mesmo à beira do abismo (crença com a qual comungo).
Inicia suas considerações assim: “Supõem alguns que falar do futuro é (apenas) prever, até às últimas conseqüências, o que vai ser esta civilização tecnológica (à qual por acaso pertencemos e é uma entre muitas das civilizações possíveis) e que nenhuma alternativa se apresenta, portanto, para substituir ou contrariar a lógica onde estamos embarcados, a ordem a que devemos obediência, a estrutura de que somos um mísero e intransponível parafuso. Como parafusos, nada nos pode tirar de onde estamos e há que seguir, na engrenagem, até à consumação dos anos, e – dizem os pessimistas – dos séculos”.
Não há exagero e nem generalização nessas colocações. Toda lógica indica nessa direção. Mas Cautela pondera: “Isto é acreditar que a Humanidade se resume à civilização tecnológica, a qual (afirma-se) dominará exclusivamente em todo o universo e por todos os séculos dos séculos vindouros. É acreditar também que nenhuma outra sociedade, diferente, surgiu ou surgirá e que se esta morrer às suas próprias mãos, tudo – através das galáxias – terminará com ela”.
Seria, assim, de fato? Nossa geração seria a última dessa aventura que, em termos cósmicos, é curtíssima, mas que pelos padrões humanos já é bastante vasta? A espécie estaria irremediavelmente condenada à autodestruição, sem nenhuma chance ou alternativa, e em curtíssimo prazo? Há indícios e mais indícios apontando, de fato, para essa aterradora perspectiva. O articulista, porém, rebate essa certeza que, para ele (e para mim também) não é tão certa assim.
Escreve: “Diga-se, no entanto, que uma tal crença é, além de pretensiosa, um tanto ridícula e abusiva. Pois não só está provado que todas as civilizações são mortais (teoria, como se sabe, eruditamente demonstrada por Arnold Toynbee) como virão sempre outras substituir as que morrem (ou suicidam? ). E que, se tudo indica estar a civilização dita ocidental no estertor, a caminho de um apocalipse termonuclear ou de uma asfixia por contaminação da biosfera, ou da loucura coletiva pelo congestionamento de estímulos, dados e signos que bombardeiam as meninges, muito provavelmente e mesmo ao nosso lado já estará a nascer outra civilização para substituir a ilustre moribunda”.
E estaria, mesmo, nascendo esse outro tipo de sociedade? Estaria, de fato, sendo moldada nova humanidade, consciente, sobretudo, da necessidade de respeito irrestrito às leis da natureza e com novos paradigmas, justos e solidários, de relacionamento entre pessoas e, por extensão, entre povos e nações? Se estiver, isso ocorre muito na surdina, sem alardes, divulgação e, principalmente, sem grandes indícios de que, de fato, esteja ocorrendo.
Cautela assinala: “Por isso é que se alguns esperam um apocalipse, outros esperam também uma nova utopia. Se muitos acreditam num fim, também já há muitos que estão trabalhando para um novo começo. Se há os que contestam e colocam em questão a civilização herdada, outros estão realizando a reviravolta pacífica para um outro padrão de existência, outro tipo de relações humanas, para uma cultura, enfim, radicalmente diversa da vigente que hoje vigora”.
A propósito, um dos meus livros de maior sucesso intitula-se “Por uma nova utopia”. Portanto, acredito nessa reviravolta. Mas para que ela se concretize, se imponha e nos salve a todos da barbárie ou, pior, da autodestruição, é indispensável que saia do mero terreno das idéias, das teorias e cogitações e comece a se impor, na forma de ação.
A atual crise econômica que afeta os Estados Unidos, cujas conseqüências são, ainda, imprevisíveis, é enfático sinal de alerta (mais um) de que as coisas estão erradas, erradíssimas, equivocadas, equivocadíssimas e de que, se os atuais rumos não forem dramaticamente mudados para melhor, a humanidade, que já está às portas do Apocalipse, se desintegrará, sem dúvida e perecerá, inexoravelmente. Basta, somente, definir de que forma se dará essa extinção. Se abruptamente, mediante uma hecatombe termonuclear. Ou se em lenta e dolorosa agonia. A decisão de reverter essa expectativa (ainda) está em nossas mãos. Mas até quando?

Tuesday, November 18, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Temos o hábito de fazer juízo de tudo e de todos, mesmo do que não compreendemos. Se tivermos o cuidado de buscar esclarecimento do que desconhecemos, ou que temos incompletas noções, e mudarmos nosso julgamento, não haverá problema. Estaremos corrigindo uma injustiça cometida pela pressa de julgar. Mas, via de regra, não é o que ocorre. Por isso, somos tão injustos em relação ao próximo, embora nos rebelemos quando alguém comete algum tipo de injustiça conosco. Se guardarmos apenas para nós os juízos equivocados, o mal será menor (embora não desapareça). Não estaremos induzindo ninguém ao erro. A ação mais comum, porém, não é esta. A tendência é externarmos juízos, mesmo os nitidamente equivocados, e não termos a humildade de nos corrigir quando descobrimos a injustiça cometida. O poeta italiano, Ludovico Ariosto, fez este desabafo, na boca de um personagem: “Como é comum que o juízo humano se engane!”.

A maior tentação


Pedro J. Bondaczuk

A tentação sempre foi algo que me intrigou, afligiu, mas fascinou. Há anos que reflito a respeito, embora nunca antes tenha escrito nenhum texto a propósito, quer do ponto de vista religioso, quer do filosófico e do comportamental. De acordo com o relato bíblico, foi por se deixar levar por ela que o casal original, Adão e Eva, perdeu a inocência e acabou expulso do Éden, por haver desobedecido a uma expressa e peremptória ordem divina.
O cristianismo praticamente esgotou o tema, apontando várias maneiras de resistência quando nos virmos tentados a praticar o mal. Jesus Cristo, antes de iniciar sua missão na Terra, foi tentado, por quarenta dias consecutivos, no deserto e resistiu à tentação. Mostrou, pois, que a resistência não apenas é possível, como se constitui no suprassumo da virtude. É escusado, no entanto, ressaltar a dificuldade de resistir aos apelos da necessidade e, sobretudo, da cobiça.
Creio que você, leitor amigo, já passou por inúmeras situações em que foi compelido a fazer – não importa o motivo – o que não deveria. É provável que tenha resistido a esses apelos íntimos várias vezes, não importa o por quê: se por medo das conseqüências ou por ser virtuoso ou por outra razão qualquer. Mas é tão certo quanto dois mais dois são quatro que, em outras tantas ocasiões (quem sabe, diariamente), não teve como resistir. E se deixou induzir, por sua própria mente, ao erro.
Ao refletir sobre o assunto, quase sempre sou tentado a concordar com George Bernard Shaw, quando diz: “A virtude não passa de tentação insuficiente”. Pelo menos é o que concluo das minhas próprias atitudes, quando minhas fraquezas me levam a infringir alguma norma legal ou, sobretudo, moral.. Afinal, não tenho como julgar o que se passa no íntimo das outras pessoas, embora intua que a maioria não é nem um pouco melhor do que eu, nesse aspecto. E talvez até seja, mesmo, pior, sei lá.
Uma das melhores (pelo menos mais claras) definições de tentação foi a que encontrei na enciclopédia virtual Wikipédia, que a caracteriza como “o sentimento que alguém tem quando deseja tomar uma atitude que contraria seus valores e crenças”. Os dicionários definem-na como “atração por coisa proibida; movimento íntimo que incita ao mal; desejo veemente; disposição, impulso para a prática de ações condenáveis”.
Engraçado que ninguém é tentado a fazer o bem. Ninguém é compelido irresistivelmente pela consciência a ajudar quem necessite, a consolar os aflitos, a orientar os desencaminhados, a ensinar os néscios, a conduzir os sem-rumo nos caminhos do bem e da justiça, a salvar quem quer que seja etc. etc.etc. Confúcio já dizia a propósito, alguns séculos antes do nascimento de Cristo: “O ser humano tem a perversa tendência de transformar o que lhe é proibido em tentação”. Ou seja, em objeto de desejo.
Nesse aspecto, é bastante reveladora a letra da canção, popularizada nos anos 60 por Roberto Carlos, que em certo trecho diz: “porque tudo aquilo que é bom/é ilegal,/imoral/ou engorda”. Ou seja, nos é interdito. Desperta-nos, não raro, irresistível tentação que, a rigor, em si, não encerra mal algum. O lado perverso é quando nos deixamos levar por ela e fazemos o que não deveríamos ter feito. Se a resistirmos, daremos prova de grande virtude. Portanto, intrinsecamente, trata-se de uma oportunidade que temos de sermos virtuosos e não moralmente tíbios.
Claro que o melhor que pode nos acontecer é nunca sermos tentados. Pergunto, contudo: isto é possível? Há alguém que possa se ver a salvo, mesmo que por um reles e escasso dia, desse “desejo veemente”, “desse impulso para a prática de ações condenáveis”? Claro que não! Jesus Cristo recomendou-nos, como oração ideal, o “Pai Nosso”. E o ponto central dessa prece é o que diz: “não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal”. Portanto, esse impulso é tão forte, que só com a ajuda divina podemos nos livrar dele. Isso, claro, se nosso apelo for atendido. Caso não o seja....
Antonio Vieira, em uma de suas cartas, reunidas em um precioso volume, faz essa reflexão a respeito: “Não sei qual a maior tentação, se a necessidade, se a cobiça”. No caso da alegoria bíblica de Adão e Eva, foi o segundo fator. O casal primitivo teve a tola presunção de se tornar onisciente. Daí ter se arriscado a desobedecer o Criador, comendo justo o único fruto que lhe fora proibido: o da árvore da “ciência do bem e do mal”. Com isso, perdeu a inocência e o Paraíso.
Claro que a necessidade é poderosa e constante fonte de tentação. Mas a partir do momento em que nos vemos tentados a se apossar de um bem alheio, por exemplo, não é ela que fala mais alto. Até porque, sempre temos algum recurso, que não a burla das normas legais e/ou morais, para suprir nossas carências. A partir do momento que escolhemos o caminho que nos parece o mais fácil (e que nunca é), o que nos move é, de fato a cobiça. Ou estou enganado?

Monday, November 17, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Nenhum sentimento é tão intenso e afeta a totalidade do nosso ser – ou seja, coração, corpo e alma – quanto o verdadeiro amor, quando correspondido e levado às últimas conseqüências. Promove o máximo do contato psíquico (o que nenhum psiquiatra consegue fazer) e o maior dos prazeres físicos, de forma inigualável. Nem a fé, nem a esperança, nem o medo, nem o ódio nem qualquer outra emoção, positiva ou negativa, conseguem essa simultaneidade e totalidade de sensações e reações. Daí ser estranhável o fato de muitas pessoas fugirem do amor. Por esse delírio, por essa magia, por esse encantamento valem quaisquer riscos, empenhos e sacrifícios. O célebre psicanalista francês, Didier Anzieu, escreveu a respeito, no livro “O Eu-pele” (cuja leitura recomendo): “O amor apresenta esse paradoxo de trazer ao mesmo tempo, com o mesmo ser, o contato psíquico mais profundo e o melhor contato epidérmico”. Bendito paradoxo!

Grandeza e dignidade


Pedro J. Bondaczuk

As pessoas que fazem de suas vidas uma obra de arte e que pautam pensamentos e atos por dignidade e grandeza, merecem reverência muito especial. Mais do que isso, são dignas de imitação. São os grandes paradigmas de conduta para as gerações mais jovens. Por isso, o que foram, e o que fizeram, deveria ser ensinado em todas as escolas do mundo. Infelizmente, raramente são.
Rabindranath Tagore é uma dessas figuras ímpares que sempre me fascinaram. E não apenas pelos seus memoráveis poemas (que, para mim, têm significado particular, já que sou poeta) que lhe valeram o Prêmio Nobel de Literatura de 1913, mas pelo seu caráter, idealismo, fidelidade aos princípios que o norteavam e nacionalismo.
Descobri seus mágicos textos há, relativamente, pouco tempo, em 1992, quando fui eleito para a Academia Campinense de Letras. Desde então, todavia, li muito do que escreveu e do que foi escrito a seu respeito. E à medida que o tempo passa, cresce, mais e mais, minha admiração por este paradigma de competência e coragem.
Tagore nasceu em Calcutá, no Estado indiano de Bengala, em 6 de maio de 1861 e morreu nessa mesma cidade, aos 80 anos, em 7 de agosto de 1941 (quase um ano e meio antes do meu nascimento). Estudou Direito na Inglaterra, mas logo manifestou inequívoca vocação para as artes (foi, também, músico) e para a Filosofia (chegou a criar, em 1901, uma escola filosófica em seu país).
Legou-nos cerca de três mil poemas em língua bengali, o idioma de sua etnia, nem todos traduzidos para o inglês (e muito menos para o português). Não se limitou, contudo, à poesia. Tagore escreveu oito novelas, 50 ensaios e uma grande quantidade de contos. Sua produção musical, igualmente, foi admirável: compôs por volta de duas mil canções!
Com toda essa atividade artística, o notável poeta ainda encontrou tempo para se integrar ao movimento nacionalista indiano, lutando pela independência da Índia, que não chegou a ver concretizada. Morreu seis anos antes. Foi amigo pessoal do Mahatma Gandhi, que lhe tinha grande afeto e por quem nutria irrestrita admiração. Pudera!
Entre suas ousadas ações, para chamar a atenção do mundo para a opressão britânica à sua pátria, destacou-se sua renúncia, em 1919, ao Prêmio Nobel de Literatura, como forma de protesto contra a política inglesa em relação ao Punjab e, mais especificamente, contra o massacre dos sikhs no Templo Dourado de Amritsar. Na mesma oportunidade, abriu mão do título de “Sir”, que lhe havia sido outorgado pela Coroa Britânica em 1915. Quantas pessoas agiriam assim? Poucas, senão, nenhuma!
Um exemplo da musicalidade e lirismo da sua absorvente e emocionante poesia, é este poema, intitulado “Flor de lótus”:

“No dia em que a flor de lótus desabrochou
a minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
de um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
E eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim.
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
tinha desabrochado no fundo do meu coração”.

A admiração de Gandhi por Tagore era tão grande, que o aclamou, publicamente, como “O Grande Mestre”. E, quando da independência da Índia, em 1947, exaltou o amigo morto, pela sua contribuição para que isso se tornasse possível. Ambos foram homens especiais, dignos de reverência e de imitação pela posteridade.
A melhor forma, todavia, que encontrei, de reverenciar essa figura sábia, mística e sensível, é concluir estas linhas espontâneas com o que o próprio poeta escreveu certa feita: “Neste palco de formas infinitas, que é o mundo, desempenhei o meu papel”. E desempenhou mesmo, como ninguém: com grandeza e, sobretudo, com dignidade!

Sunday, November 16, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Raríssimos são os que nunca fracassaram no amor. Alguns fracassam logo de cara, na conquista. Isso pode ocorrer ou porque escolheram a pessoa errada, que não tem a mínima condição de lhes corresponder; ou por uma abordagem infeliz ou por tantos outros motivos. O mais comum é o fracasso vir no curso do relacionamento. Há quem ache que o amor seja eterno. Até pode ser, caso seja preservado. Poderá durar a vida toda se os parceiros mantiverem o mesmo interesse, atenção e carinho do início do relacionamento. O amor, porém, se não tratado com os devidos cuidados, esfria, esmorece e morre. Se a “morte” for recíproca, tudo bem, o sofrimento é menor. Trágico é quando um dos parceiros deixa de amar e o outro não. Erich Fromm constata: “Dificilmente haverá qualquer atividade, qualquer empreendimento que comece com tão tremendas esperanças e expectativas e que, contudo, fracasse com tanta regularidade, quanto o amor”.

DIRETO DO ARQUIVO


Próspera “ilha da fantasia”


Pedro J. Bondaczuk


A morte do presidente Chiang Ching-Kuo, de Formosa, ocorrida ontem, traz de novo à baila a questão do status desse país. Durante muito tempo ele foi o pomo da discórdia entre o Ocidente e a China continental, então dirigida por Mao Tse-Tung, e chegou-se ao extremo do irrealismo quando a Organização das Nações Unidas conseguiu ignorar, por longos 22 anos, a maior concentração humana do Planeta, que não era membro da ONU até 1971, quando essa situação surrealista foi reparada em tempo.

A partir de então, de quando os formosinos foram expulsos do organismo mundial para a admissão dos chineses, houve um rompimento de relações em cadeia com Taipé. Hoje, poucos países reconhecem esse pequeno arquipélago como uma sociedade nacional independente.

Nem mesmo os Estados Unidos, que nos piores momentos garantiram a sobrevivência de Formosa, mantêm uma legação diplomática oficial ali. Legalmente, portanto, esse país sequer existe. É uma parte rebelada da China, que teima em manter essa situação de rebeldia indefinidamente.

Aliás, os próprios formosinos alimentam essa tese. Não se consideram como tendo outra nacionalidade. Dizem que são chineses. Suas autoridades garantem que são o governo no exílio, legitimamente constituído, da grande potência asiática, com sua milenar cultura.

São 19,6 milhões de pessoas acreditando que vão conseguir um dia, não se sabe por força de que magia, subjugar e se impor diante de 1,1 bilhão de chineses continentais. É claro que isso não passa dded utopia.

O líder chinês, Deng Xiaoping, por seu turno, mais realista, e lutando para reconquistar territórios perdidos no passado, por vias diplomáticas, vem propondo a Taipé a sua reintegração territorial. Oferece, para tanto, o mesmo status especial que Hong Kong e Macau vão gozar quando retornarem à soberania da China, nos últimos anos deste século.

Os empreendedores e ricos formosinos vão poder manter seus empreendimentos e sua forma de viver. Terão, caso aceitem a reunificação, inclusive o direito de escolha de seus próprios governantes, que estariam subordinados ao poder central somente no que fosse essencial.

Até aqui, contudo, Formosa não quis sequer considerar essas propostas. Seus líderes continuam acalentando a fantasia de um retorno triunfal a Pequim, para restaurar o regime derrubado em 1949 por Mao Tsé-Tung.

A morte de Ching-Kuo, a princípio, não deverá mudar muita coisa nessa posição. Mas seu sucessor, Lee Teng-Hui, não faz parte da leva que fugiu do continente em 1949. É o primeiro presidente nascido na própria ilha em 39 anos de existência desse país fantasma. E ao que se sabe, os residentes do arquipélago nunca morreram de amores pelos invasores.

A sua vinda modificou a vida local. Em muitos aspectos para melhor, é verdade. No fundamental, todavia, ficou uma situação estranha: qual a sua verdadeira nacionalidade? É chinesa ou formosina? É uma interrogação que ainda permanece no ar.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 14 de janeiro de 1988).

Saturday, November 15, 2008

REFLEXÃO DO DIA


Três condições espirituais são indispensáveis para a manutenção da nossa saúde psíquica e física: fé, esperança e amor. Sem elas, estaremos perdidos num mar tempestuoso de dúvidas, medos e de ódio, que têm que ser vencidos se pretendermos conservar a sanidade. Sem uma crença transcendental, nossa vida não terá nenhum sentido. Quem não espera nada, por sua vez, e não acredita que possa alcançar o que deseja, carece de metas e todos os seus esforços se tornam inúteis e vãos. E aquele que não ama, tem a alma repleta de sentimentos negativos que, invariavelmente se refletem no corpo, o fazendo adoecer. O filósofo Will Durant, com base em pesquisas científicas sérias, constatou, em seu livro “Filosofia da Vida”: “A fé, a esperança e o amor parecem expandir-se em cada célula do nosso corpo; a dúvida, o medo e o ódio contraem-nos os tecidos, como se fossem venenos – e, fisicamente, são venenos”.

Desafios


Pedro J. Bondaczuk

Fazer da vida sinfonia heróica.
Calar a voz irada do instinto.
Dar harmonia a ásperas dissonâncias.
Criar beleza das sucatas do Tempo.

Desafios. A batalha é solitária.
Drama ensandecido de zumbis,
num palco composto por miragens.
Silêncio! Um anjo agoniza
em copiosa hemorragia de luz!

Figuras soturnas, sombrias,
vagam, ensimesmadas, mudas,
por vielas escuras, fétidas,
perdidas nos meandros do vício.

Multidões desorientadas, em fúria,
vociferam slogans sanguinários,
mantras homicidas de violência:
rebelião de marionetes sem cabeça.

Fornalha que consome ilusões,
reduz a cinzas esperanças,
princípios, ética e tradições.

Fazer da vida sinfonia heróica.
Calar a voz irada do instinto.
Dar harmonia a ásperas dissonâncias.
Desafios...Tarefas de uma vida...

(Poema composto em Campinas, em 23 de setembro de 1995).

Friday, November 14, 2008

REFLEXÃO DO DIA


A palavra felicidade, junto com outros tantos conceitos ambíguos, como amor, esperança, fé etc.etc.etc. é uma das mais abordadas por poetas, romancistas, dramaturgos, psicólogos e filósofos de todos os tempos e das menos compreendidas. Há pessoas que são absolutamente felizes por nada e outras, por seu turno, têm tudo o que alguém possa aspirar e são “poços” de infelicidade. Por que? Antoine de Saint-Exupéry, por exemplo, considera que a felicidade seja “recompensa” e não “fim”. Discordo. Entendo que ela seja uma predisposição, uma condição espiritual favorável, um estado de satisfação íntima que não depende de nada e ninguém para se instalar em nossas vidas. Para sermos felizes, temos de “querer” sê-lo, mas com a máxima intensidade, de coração e alma abertos, sem atentar para o que somos, o que temos e com quem estamos. Não podemos, e não devemos, condicionar esse estado a nada e ninguém.

Importante é sonhar


Pedro J. Bondaczuk

O sonho é a grande matéria-prima do escritor. Não são fatos, como alguns supõem, e muito menos idéias os componentes fundamentais das suas obras. Os primeiros, nus e crus, sem qualquer acréscimo (se é que isso seja possível) são da competência dos jornalistas. Os segundos, são melhor desenvolvidos pelos filósofos. Mas os que lidam com ficção... Estes têm que sonhar, e muito.
Claro que, quando falo de sonhos, não me refiro àquele estado de inconsciência que temos durante o sono, àquela espécie de “descarga” do subconsciente (ou inconsciente, sei lá), que independe da nossa vontade. Refiro-me à fantasia, à imaginação, à criatividade desse artífice (ou artesão?) das palavras.
“O escritor, então, não pode lidar com fatos?”, perguntaria alguém que goste das coisas explicadas tim-tim por tim-tim e tenha a mania de procurar pêlo em ovo (há muitos, desse tipo, por aí). Claro que pode! E não somente pode, como deve. Mas apenas para dar caráter de verossimilhança aos seus sonhos.
Não lhe compete reproduzir acontecimentos exatamente como ocorreram. Afinal, não foi treinado, como o jornalista, para essa tarefa. É por isso que suas histórias são de ficção. Ou seja, nunca aconteceram (embora pudessem ter acontecido). E quanto mais realista for sua descrição, melhor. Só que, contos, novelas, romances e peças teatrais são “mentiras” consentidas e bem-contadas (quando o são, óbvio). São frutos do “sonho”, da fantasia, da criatividade dos seus autores e não das circunstâncias ou do acaso.
O desafio do escritor é tornar sua narrativa a mais próxima possível do real. Por isso, não raro, invade, também, e sem nenhum escrúpulo, o campo que teoricamente seria restrito ao filósofo: o das idéias. Mas não as detalha e nem busca explicar sua origem e motivos.
E o fantástico, o fantasioso, o aparentemente inverossímil, estão interditos ao escritor? Claro que não! Esses fatores, aliás, integram o que denomino de “sonhos”. São, portanto, a matéria-prima por excelência de romancistas, contistas, novelistas e autores teatrais. Até porque, nada tem maior aparência de irreal do que a realidade, por paradoxal que isso possa parecer.
Acontecem coisas no cotidiano, em nosso dia a dia, ao nosso redor e mundo afora, que nem o mais imaginoso dos escritores, nem a mente mais fértil e criativa, conseguiria imaginar. Basta acompanhar os noticiários, cada vez mais fartos e detalhados, nesta era dita da “comunicação total”.
Convenhamos que, no que se refere a sonhos, quem sonha mais é o poeta. E reveste-os de metáforas, de signos, de símbolos de toda a sorte, compondo versos que pretende sejam imortais. Tanto que Fernando Pessoa constatou, com muita perspicácia, que os bons poemas de amor são exatamente os que se referem a amadas fictícias, meramente idealizadas ou “conceituais”. Via de regra, quando tentamos fazer poesia tendo por personagem a pessoa que de fato amamos, as palavras soam ocas, vazias, superficiais, inverossímeis.
É certo que poetas tidos e havidos como imortais (refiro-me, óbvio, àquela “imortalidade” que caracteriza Homero, Virgílio, Píndaro, Horácio e tantos outros. Ou seja, não a física, que é impossível, mas a das obras), não raro calcaram suas obras em fatos. Mas fantasiaram tanto esses acontecimentos, que chegamos a duvidar que tenham, mesmo, ocorrido.
A guerra de Tróia, reportada por Homero na “Ilíada”, por exemplo, de fato aconteceu. Arqueólogos desenterraram essa cidade e há inúmeras provas da existência dela e de que foi destruída por um incêndio. Hoje, as pessoas bem-informadas não têm porque duvidar dessa realidade.
Mas os heróis descritos pelo poeta não foram tão heróicos assim. E nem manipulados, como meros marionetes, por deuses que eram, em seus comportamentos e paixões, mais humanos do que os homens. Essa imortal epopéia, portanto, é fruto do talento e, sobretudo, do sonho de Homero. E como sonhou!
Para resumir o que gastei tantas linhas para tentar explicar (e temo que tenha sido obscuro em minhas explicações), recorro (como sempre faço quando me vejo encalacrado para definir questões que envolvam literatura), ao meu constante guru, Jorge Luiz Borges, que escreveu a propósito: “Há escritores que pensam que, à força de variar os adjetivos, de dizer as metáforas eternas de um modo novo, podem obter algum escrito. Isto é falso. O importante é sonhar e ser sincero com o sonho quando se escreve. Ou seja, somente contar fábulas nas quais se acredita. Isto viria a ser a sinceridade literária e o único dever do escritor: ser fiel aos seus sonhos, não às meras e cambiantes circunstâncias”.
Mais claro do que isso é impossível! É certo que quem pretenda se aventurar neste complicado, pantanoso e não raro frustrante campo de atividade, tem que contar com sólida cultura. Precisa, sobretudo, saber manejar com perícia as ferramentas do seu ofício, ou seja, as palavras. Deve ser bastante informado, ter disposição para o trabalho, ser paciente e auto-disciplinado e, sobretudo, observador. Mas nada disso terá valor se não souber fantasiar, elucubrar, dar asas à imaginação. Porquanto, para o escritor, o importante mesmo é sonhar! O resto?