Sunday, November 23, 2008

DIRETO DO ARQUIVO


É preciso derrubar todas as Bastilhas


Pedro J. Bondaczuk


O estopim da Revolução Francesa de 1789 foi aceso no dia 14 de julho desse ano, quando a população de Paris, revoltada com os desmandos da realeza e o cinismo da nobreza, invadiu as masmorras da terrível prisão da cidade, que era a Bastilha, e libertou a todos os que lá estavam.
Nessas escuras e sombrias celas conviviam marginais, assassinos, prostitutas e notórios bandidos, com cidadãos de bem, muitas vezes colhidos por intrigas palacianas e encarcerados por não disporem de dinheiro para pagar um bom advogado.
Justiça era algo risível naqueles tempos duros e, reivindica-la, equivalia a um ato de subversão. No entanto, nos dias que correm, há inúmeras Bastilhas a serem conquistadas, para que a Declaração Universal dos Direitos Humanos saia, finalmente, do papel e passe a exercer efeitos práticos.
O grande mal do presente século é a massificação de idéias, que leva o homem a ser educado para a sujeição e o conformismo. Por isso, em termos de conquistas sociais, o mundo está tão atrasado, pelo menos em relação aos incríveis avanços tecnológicos que possibilitaram, inclusive, que o único animal racional da natureza saísse de seu domo cósmico e pudesse passear na Lua.
Mas não são todos, é claro, que se recusam a pensar. Há muita gente que já entendeu que uma revolução autêntica, um movimento redentor genuíno, não se faz com armas e com barricadas. Não se muda uma estrutura injusta e violenta com novas injustiças e violências. As grandes transformações são feitas com idéias. Matá-las, nem as armas mais mortíferas conseguem.
Nós recebemos, dia desses, na redação, um trabalho elaborado por um peruano de 72 anos (que assina sob o pseudônimo de Inkari) intitulado “Um trabalhador, um capital”. No estudo, o autor propõe que o operário deixe de ser considerado nessa simples condição.
Sugere que perca sua condição de impersonalidade, de mero produtor de determinada quantidade de serviços, como se fosse máquina. Prevê que participe dos resultados do seu trabalho e seja visto, acima de tudo, como homem.
Muitos dirão que a proposta é utópica. Afinal, Inkari propõe que o trabalhador seja considerado como um capital (e o mais precioso deles) da empresa. No entanto, a simples elaboração dessa idéia, sem entrar no seu mérito, muito bem exposta, demonstra que há pessoas que ainda se preocupam com os autênticos direitos humanos.
Há cidadãos, como este, dispostos a invadir, e a derrubar, todas as aberrantes Bastilhas que há, em profusão, por aí. Afinal, nada é mais verdadeiro do que aquilo que William Shakespeare constatou, ao escrever: “Que grande obra é o homem! Como é nobre em razão! Como é infinito em faculdade! Em forma e movimento, como é expressivo! Em ação, como lembra um anjo! Em percepção, como lembra um deus!”. Só que há homens e homens. É aos bons, certamente, que este texto se refere.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 14 de julho de 1989)

No comments: