Monday, August 31, 2015

Determinada escola particular paulista (que prefiro não identificar, por não haver sido autorizado a tal), constatou, tempo atrás, que oitenta por cento dos alunos que haviam se matriculado na 1ª série do colegial eram incapazes de entender sequer as instruções contidas num desses tantos manuais que acompanham os vários aparelhos eletrônicos vendidos no comércio. É verdade que os textos destes não são nenhum primor de clareza. Mas a cifra é elevadíssima para quem estudou nove anos (isso se não repetiu nenhuma vez) e, pelo visto, não aprendeu praticamente nada. Como esperar que essas pessoas entendam complexos conceitos expostos pelos grandes pensadores? Certamente, não entendem. O pior é quando se metem a opinar sobre questões das quais não têm a menor noção. E são inúmeros os que opinam, sem nenhum fundamento, principalmente nas redes sociais.. Infelizmente, muita gente que passa por erudita, com vários títulos acadêmicos e diplomas de pós-graduação, tem nível baixíssimo de compreensão do que lê. Muitos (muitíssimos) não conseguem redigir um texto simples, de apenas uma página, em que se expressem pelo menos com coerência. Não estou considerando, sequer, a correção da linguagem. O que esperar dessa gente? Sei lá!!!

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Ultimatos dos terroristas



Pedro J. Bondaczuk


O grupo terrorista Jihad Islâmica, que no dia 17 passado mandou um duro recado às autoridades norte-americanas e ao emirado do Kuwait, deu, ontem, sua assinatura numa tentativa de morte do xeque kuwaitiano, Jaber al Ahmad al Jaber.

Atrevidamente, após a explosão de uma bomba nesse país do Golfo Pérsico, que feriu, sem muita gravidade, o monarca, esclareceu que o ataque era mero lembrete. Assegurou que se tratava de um complemento prático da ameaça feita na semana passada.

O Kuwait mantém presos 17 terroristas do Jihad, que o grupo deseja soltar a qualquer preço. E na exigência feita pelos extremistas, no dia 17 passado, eles garantiram que a recusa kuwaitiana de soltar os seus asseclas iria resultar em “um inferno para seus conselheiros e embaixadores, em todo o mundo”.

Na oportunidade, a propósito de aviso semelhante feito aos Estados Unidos, nós comentávamos, aqui neste espaço, que, conhecendo os antecedentes e o fanatismo dos guerrilheiros, dificilmente as ameaças se tratavam de blefe. E, como se vê, o grupo não estava, de fato, blefando.

Até hoje as autoridades, que têm de se haver com esse tipo de problema, ainda não sabem como fazer para evitar que extremistas cumpram ameaças desse tipo. A maioria dos governos tem por princípio jamais negociar com terroristas. Isso ficou bem claro, em relação aos Estados Unidos, no discurso que o secretário de Estado, George Shultz, proferiu na Sociedade Americana para a Segurança Industrial, na Virgínia, em janeiro passado.

Ele disse, na oportunidade, que, “quando a intimidação terrorista consegue mudar nossas diretrizes políticas e forçar o fechamento de nossas empresas no Exterior, estamos dando a eles uma vitória. Isso só pode contribuir para o aumento do terrorismo”.

Então, o que fazer? Porque de prático, de realmente efetivo, nada, ainda, foi feito, até hoje, contra grupos que realmente têm expressão. O governo italiano, por exemplo, recusou-se a negociar com as Brigadas Vermelhas em 1978, no caso do seqüestro do primeiro-ministro Aldo Moro, ocorrido em 16 de março daquele ano.

E o que aconteceu? Algum policial localizou os brigadistas e resgatou o premier? Todos sabem que não. Moro acabou sendo encontrado morto, em 9 de maio daquele ano. Valeu a pena o sacrifício de uma vida tão preciosa, quanto era a desse eminente professor de Direito Penal, um dos políticos de maior projeção da Itália? É claro que não! Então, o que deve ser feito?

Apelar para os sentimentos de justiça e de moral dos extremistas, como fez o papa João Paulo II, em Ayacucho, no Peru, no dia 3 de fevereiro deste ano, também é contraproducente. Dirigindo-se aos guerrilheiros do grupo Sendero Luminoso, naquela oportunidade, o Sumo Pontífice advertiu: “O mal jamais é o caminho para se chegar ao bem. Vocês não podem destruir a vida de seus irmãos. Não podem continuar a semear o pânico entre as mães, esposas e filhos. Vocês não podem continuar a intimidar os idosos. A lógica cruel da violência não conduz a parte alguma”.

A resposta do Sendero foi um blecaute em Lima, na hora em que o avião do Papa pousava, colocando a sua vida em perigo. No discurso mencionado acima, de George Shultz, o secretário de Estado deu uma receita, em tese eficaz, para combater o terror. “No correr dos anos, a experiência nos ensinou que um dos melhores fatores de dissuasão do terrorismo é a certeza de que serão adotadas medidas rápidas e seguras contra os que realizam ações terroristas”, afirmou.

Mas é aí que reside o âmago da questão. Até hoje, nenhuma providência foi tomada nesse sentido, nem segura e muito menos rápida. Sentindo-se impunes (e, virtualmente eles estão), os terroristas chegam ao cúmulo do atrevimento de ameaçar até o governo de uma superpotência, como são os Estados Unidos. Imaginem se um dia eles tiverem condições de fazer uma chantagem nuclear! Dá arrepios só de pensar o que pode acontecer!

(Artigo publicado na página 19, Internacional, do Correio Popular, em 26 de maio de 1985).

          

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Biógrafos e biografias

Pedro J. Bondaczuk

As biografias refletem com fidelidade a vida dos biografados? Antes de responder, o leitor atento certamente irá ponderar: depende do biógrafo. Como em tudo o que se faz na vida, há os competentes e os nem tanto. Há os honestos que se apegam ferrenhamente à verdade e a buscam obsessivamente e os que não têm essa preocupação. E vai por aí afora. Da minha parte, eu responderia a essa pergunta com enfático e sonoro “não”!!!

Não se trata de questionar competência e honestidade do biógrafo. Mas a lógica me diz que é impossível relatar, com absoluta fidelidade, uma vida, e que nem precisa ser tão longa, em, digamos, 300 ou 400 páginas. E nem mesmo em milhares delas. Sequer quem redige autobiografias consegue essa façanha, não, pelo menos, com absoluta fidelidade aos fatos. Ora interpreta os episódios mais polêmicos invariavelmente pelo aspecto mais favorável, deixando-se levar pela vaidade. Ora é autocrítico além da conta.

Estas considerações vêm a propósito do livro “Nada como o sol”, do britânico Anthony Burgess. Para ser preciso, devo destacar que não se trata, propriamente, de uma biografia. É um romance, em que o autor de “Laranja mecânica” se propõe a relatar a vida amorosa de William Shakespeare. O autor assegurou que seu relato, romanceado, baseou-se em fontes históricas. Só não convence o crítico sobre quais são tais referências, que nenhum estudioso sério da vida do bardo inglês nunca encontrou e qual sua veracidade e credibilidade. Há quem goste da sua narrativa e até a aceite como lídima expressão da verdade. Eu não!

Não sou o único (longe disso) a acreditar que biografias nunca relatam com fidelidade a vida dos biografados. Há quem reverencie exageradamente a figura sobre a qual escrevem a ponto de santificá-la. Óbvio que ninguém é santo. Todos temos (uns mais e outros menos) nossos “esqueletos no armário”. No outro extremo, há os que a demonize e busque o que há de escabroso e ruim na vida do biografado, os que não têm o menor escrúpulo em destruir sua imagem. Se não encontram nada de desabonador, inventam. Claro que há os ponderados, os equilibrados, os honestos. Mas como distingui-los?

George Bernard Shaw escreveu a propósito: “Ao ler uma biografia, recordai que a verdade nunca se presta a publicação”. Acaso se presta? É sempre o aspecto mais interessante da vida do biografado? É capaz de despertar o interesse e de prender a atenção do leitor, promovendo, destarte, grande venda do livro? Dificilmente. Mas não foi somente Shaw que revelou seu ceticismo a propósito. Outro escritor, que sempre primou pelo humor ácido e implacável, o norte-americano Samuel Clemens, que se consagrou com o pseudônimo Mark Twain, igualmente mostrou-se descrente a respeito desse tipo de literatura. Escreveu: “As biografias são apenas as roupas e os botões da pessoa. A vida da própria pessoa não pode ser escrita”. É exatamente o que penso, afirmo e reitero. Daí não embarcar na onda das várias biografias de William Shakespeare. Prefiro saborear e valorizar sua obra.

Em vez de dar crédito a determinados “biógrafos”, que especulam com uma suposta relação homossexual do bardo inglês, por exemplo, com base, somente, na desastrosa interpretação de um de seus poemas, prefiro deliciar-me com pérolas de sabedoria e de sensibilidade, como esta, do “Soneto 116”:

“De almas sinceras a união sincera.
Nada há que impeça: amor não é amor.
Se quando encontra obstáculos se altera,
ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
eu não sou poeta, e ninguém nunca amou”.

Infelizmente, não consegui apurar quem foi o tradutor dessa maravilha. Quanto ao livro de Burgess, tenho alguns comentários a fazer, o que farei oportunamente. Adianto, porém, que a impressão que ele me deixou dá razão ao humorista peruano Sofocleto (pseudônimo de Luís Felipe Angell), que sentenciou: “Os biógrafos e os abutres alimentam-se de cadáveres”. Para não generalizar, eu acrescentaria: mas há exceções (posto que não muitas). Nada como os humoristas para rasgos de sinceridade. Afinal, é rindo, é em tom de galhofa e de brincadeira, que se dizem as grandes verdades.


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Sunday, August 30, 2015

Não raro, passamos uma vida toda lendo compulsivamente e, no entanto, não aprendemos a ler. Somos incapazes, por exemplo, de captar sutilezas nos textos dos bons autores. Não interpretamos, como eles pretendiam, a fina ironia que utilizaram. Não captamos o que ficou, apenas, inteligentemente nas entrelinhas. Um dos maiores gênios da literatura mundial, o alemão Johann Wolfgang von Goethe, escreveu a esse respeito: “Muitos não sabem quanto tempo e fadiga custa a aprender a ler. Trabalhei nisso 80 anos e não posso dizer que o tenha conseguido”. E isso foi escrito por um dos escritores mais completos, mais sábios e mais argutos que já existiram. Ler, apenas por ler, não basta. É indispensável que a leitura seja acompanhada de estudo, de reflexão, de comparações e de extrapolações. “Mas isso dá muito trabalho”, dirão os acomodados. Todavia, se não agirmos assim, poderemos viver uma centena de anos, dedicar oitenta deles à leitura, ler dez mil livros ou mais e, ainda assim, seremos, no fundo, no fundo, analfabetos funcionais, posto que eruditos.


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Num passo de caranguejo


Pedro J. Bondaczuk


O Brasil foi colocado, ao lado do Chile, Ghana, Jamaica e Peru, como um dos países onde o nível de miséria mais aumentou, no período de 1983 e 1984, num relatório divulgado ontem, pelo Banco Mundial, em que o organismo faz uma análise da economia em nível planetário.

Embora os dados que a instituição possui sejam de 4 anos atrás, a situação não se alterou, em absoluto, para melhor. Pelo contrário (e qualquer brasileiro pode constatar por sua própria vida pessoal), ocorreu uma degradação ainda maior, mormente agora, em 1988.

Vivendo aqui, conhecendo a fertilidade do nosso solo e a laboriosidade da nossa gente, ficamos indagando, com nossos botões: “Por que estamos caminhando para trás, na direção do abismo, quando temos tudo para ser uma sociedade próspera e harmoniosa?”.

Em março do ano passado, o advogado Antonio Cláudio Mariz também demonstrou idêntica perplexidade e igual revolta pelo que está nos acontecendo. Disse, à agência “O Estado”: “A fecundidade da terra, as riquezas minerais que o País possui, a força de trabalho a ser desenvolvida na indústria e nas demais atividades produtivas, tornam inconcebível, inaceitável, vergonhoso e absurdo o estado de carência de significativas parcelas da população”.

O pior de tudo é que alguns “iluminados” de Brasília, vivendo numa autêntica “ilha da fantasia”, desvinculados da realidade, não estão enxergando isto, que no Exterior é patente para todos. Caso não fosse, o número de emigrações (legais ou clandestinas), numa quantidade impressionante, a tal ponto da Casa da Moeda sequer vencer em emitir passaportes, seria um bom indicativo de que algo de podre existe no reino da mamata, parodiando Shakespeare.

É evidente que essa “capital da alienação” citada é o Planalto Central. Ali, fala-se de tudo, menos de como evitar esse estado de miserabilidade, que nos humilha e atormenta a todos, até aos ricos – a riqueza, afinal, não é nenhum pecado. Ser próspero, num país onde a maioria também é, tem um significado. Mas possui outro, bem diferente, num lugar onde a miséria campeia.

No Exterior, essa pessoa, procedente de um país carente, nunca é vista com bons olhos, mesmo não tendo nada a dever a ninguém. Todos, portanto, temos que unir esforços para acabar com essa situação vexatória e angustiante, que está se agravando a cada dia que passa, se transformando numa perigosa bomba de tempo de insatisfação social e que pode trazer conseqüências muito sérias se um dia vier a explodir incontrolavelmente.

O caminho, cabe às lideranças políticas nacionais (tão desprestigiadas) indicar. Antes, elas têm que deixar de lado seu inconseqüente e estúpido carreirismo de hoje e pensar um pouco mais no amanhã. Ou seja, deixar de plantar a couve para o prato de hoje, para plantar o carvalho, para a sombra de amanhã.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 8 de julho de 1988).


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Coragem ou covardia, eis a questão

Pedro J. Bondaczuk

O célebre monólogo criado por William Shakespeare no ato 3, cena 1 da peça “A trágica história de Hamlet, príncipe da Dinamarca”, pode ser interpretado como bilhete de um suicida, embora não seja este, a rigor, o contexto imaginado pelo autor. O principal personagem desse drama cogita claramente dessa saída para seus problemas, o que fica explícito neste trecho da sua fala:

“(...) Pois quem suportaria o açoite
e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado,
as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? (...)”.

Após a leitura desse trecho específico, emerge, automática e instintivamente esta pergunta em nossa mente: “Se o príncipe acha intoleráveis ‘o insulto do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, o amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando e o achincalhe dos inúteis’, por que não recorreu ao expediente que entendeu ser a solução para todos esses males: o punhal?” No enredo, foi por medo, por puro medo. Pelo temor da incerteza do desconhecido. Pela desconfiança de que a morte não seria, ou poderia não ser, o fim de tudo e que ela poderia até mesmo reservar sofrimentos e humilhações muito maiores do que os suportados em vida. É o que o príncipe diz na sequência do monólogo:

“ (...) Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma
coisa após a morte -
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante
nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar males que já temos,
A fugirmos para outros que desconhecemos? (...)”

A conclusão do desesperado príncipe vai contra a do senso comum. Conclui: “E assim a reflexão faz todos nós covardes”. Mas seria, mesmo, covardia buscar soluções menos radicais para os problemas que nos assoberbam, não importa quais e nem sua intensidade ou se trataria de atitude inteligente e de bom senso? A avaliação do mundo, feita pelo personagem, é sumamente pessimista. Ele fala como se todos os males que elenca sejam incontornáveis e se “todos nós” passaríamos por eles em algum momento da vida. Eles podem ocorrer (e ocorrem), sim, mas vez ou outra. Mas raramente vêm de forma simultânea. Dependem das circunstâncias de cada um.

Qual a atitude que poderia ser classificada de covardia: enfrentar os males e vicissitudes, mesmo em desvantagem, ou fugir deles, e da própria vida, ainda mais sem saber se há ou não um “depois” e, se houver, qual ele é? O suicídio é um dos temas mais delicados e mais complicados de se julgar. Alguém só recorre a ele em momentos de extremo desespero. O que a pessoa que cogita dessa atitude precisa não é de críticas, de sermões e muito menos de julgamentos. Requer compreensão e imediata e urgente ajuda. Não raro esta chega (quando chega) muito tarde. Com todo o medo que o suicida possa sentir do desconhecido (e certamente sente), é preciso muita sabedoria, paciência e bom senso para demovê-lo.

Uma das coisas que mais me orgulho na vida é a de haver contribuído para que uma pessoa, no mais absoluto desespero, escapasse de morrer pelas próprias mãos como se preparava para fazer e desistisse, em cima da hora, de optar por esse trágico caminho. Não foi a inteligência que contou nesse dramático episódio. Foi a instintiva sensibilidade que brotou nem sei de onde do meu corpo e “contaminou” o potencial suicida, já que palavras bonitas e pomposas, conselhos óbvios, críticas de quaisquer natureza, reprimendas etc.etc.etc. são rigorosamente inúteis em situações como esta.

Discordo, pois, visceralmente da conclusão final do príncipe, ao cabo de seu desesperado monólogo:

“(...) E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação (...)".

Essa é a típica situação em que não agir é o melhor caminho. E não, especificamente, pelo temor do desconhecido (no caso, da morte), até porque esta fatalmente virá, algum dia, no seu devido tempo, sem aviso e sem ser pelas próprias mãos. Ao contrário da conclusão de Hamlet, viver é que é o supremo ato de coragem, e não o contrário. “Ser” é a audaciosa opção, posto que jamais sabemos até quando será possível. Temos, todos, “prazo de validade”, que desconhecemos qual é. O monólogo comporta outras interpretações, mas creio que estas que trouxe á baila já são suficientes para nos induzir a profundas e sempre proveitosas reflexões. Ou não?!!!


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Saturday, August 29, 2015

O escritor estabelece cumplicidade com seus leitores. Trata-se de afirmação até acaciana, de tão óbvia, mas que muitos não se dão conta. Isso ocorre à sua revelia, pois ele não tem a menor noção de quem irá ler o que escreve e, por conseqüência, por quem irá se identificar com seu teor. É mais correto dizer, pois, que quem lê é que vê naquele que escreve o seu cúmplice, não o vice-versa  Não é o escritor que escolhe o leitor (antes fosse), mas é exatamente o contrário. Da minha parte, escolho os autores que pensam mais ou menos o que penso e que, sobretudo, têm o que me acrescentar, em termos de informações, emoções e reflexões. Essa cumplicidade, esclareça-se, não é física. Raramente escritor e leitores se conhecem pessoalmente. Ela é sentimental, afetiva, diria anímica. E costuma durar para sempre.


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Assuntos não irão faltar


Pedro J. Bondaczuk


Os rumores que circulavam insistentemente há alguns dias, de que ocorreria uma reunião de cúpula entre os presidentes George Bush, dos Estados Unidos, e Mikhail Gorbachev, da União Soviética, ainda no corrente ano, se confirmaram ontem. Ambos vão se encontrar, no próximo mês, a bordo de navios de guerra de seus países, no Mar Mediterrâneo.

Logicamente, os diálogos deverão ocorrer alternadamente, um visitando a embarcação um do outro. Para que não se criem expectativas exageradas em torno desse encontro, a Casa Branca já avisou que ele terá um caráter absolutamente informal. Que a intenção não é a de se obter qualquer acordo, ou se assinar algum eventual tratado.

Para isso, há uma outra cúpula prevista para maio ou junho de 1990, quando algum profundo corte nos arsenais nucleares das superpotências deverá certamente ocorrer.

Bush afirmou, ontem, que a razão desse diálogo imprevisto, ainda no corrente ano, é a de travar conhecimento com seu interlocutor. Certamente o presidente norte-americano tentará sondar o quanto há de sinceridade nas manifestadas intenções de Gorbachev de liberalizar o Leste europeu.

Temas como as reformas políticas e econômicas na Polônia e na Hungria, certamente serão obrigatórios. Na oportunidade, o presidente norte-americano aproveitará para conferir o quanto há de verdade nas notícias procedentes de Moscou de que o Cremlin não se oporia à eventual reunificação das duas Alemanhas e à retirada húngara do Pacto de Varsóvia.

Enfim, quando se trata de uma conversa entre os dois homens mais poderosos do Planeta, chefes de governos dos dois únicos países cujas decisões realmente contam alguma coisa na ordem geral dos acontecimentos, assuntos, certamente, não faltam. Mesmo tratando-se de uma reunião dita informal.

Alguns temas que outrora pontilharam no topo das pautas das cúpulas anteriores, agora perderam sua importância, superados que foram pelos acontecimentos. Um deles era o Afeganistão, que hoje, após a retirada soviética de fevereiro passado, caiu no ostracismo, embora esse país permaneça em guerra.

Aliás, desde que as superpotências começaram a se entender, vários problemas tidos outrora como quase insolúveis foram solucionados, como que num passe de mágica. Outros, se não foram resolvidos, pelo menos não evoluíram negativamente.

Bush certamente está de olho no promissor mercado do Leste europeu. Gorbachev, por seu lado, certamente deseja atrair capitais que financiem a sua “perestroika”. Como se nota, tratam-se de interesses que se completam. Por isso, mesmo sendo uma reunião informal, a cúpula prevista para dentro de 31 dias está fadada a trazer muitas novidades.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 1 de novembro de 1989).


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No devido contexto

Pedro J. Bondaczuk

O célebre monólogo criado por William Shakespeare no ato 3, cena 1 da peça “A trágica história de Hamlet, príncipe da Dinamarca”, tem sido interpretado de formas variadas, porquanto comporta diferentes interpretações. Contudo, um equívoco, bastante comum, tem a ver com (digamos) a continuidade dessa célebre produção. Para que ela seja devidamente entendida (e aproveitada) é indispensável que seja lida (e representada) no devido contexto.  Há, por exemplo, quem situe o famoso dilema "Ser ou não ser" em parte do enredo em que ele, de fato, não está. O monólogo não se dá, como já li muitas vezes, na cena em que Hamlet, no cemitério, segura a caveira de Yorick, o falecido bobo da corte. Situa-se bem antes. Ocorre no momento em que o príncipe da Dinamarca é posto contra a parede, para tomar uma atitude, depois que o fantasma do pai lhe revela a verdadeira circunstância da sua morte, que até então estivera convicto que se dera por causas naturais.

O tal "ser ou não ser" aparece na abertura do terceiro ato, como tenho destacado e reiterado. Foi em um momento em que Hamlet se preparava para consumar a primeira das dolorosas decisões que teria que tomar. Apesar da dúvida manifestada no monólogo, de vingar ou não vingar a morte do pai, em seu íntimo já havia decidido que o faria. Como cheguei a essa conclusão?  Fácil? O tal “ser ou não ser” ocorre exatamente no momento em que o príncipe procura Ofélia para lhe dizer que não a amava. Caso não a amasse mesmo, já seria atitude gravíssima, porquanto iria ferir a suscetibilidade de uma donzela que sempre estivera convicta do seu amor e que lhe dera plena e irrestrita correspondência.

Todavia, a questão era muito mais grave, dolorosa e dramática. Hamlet amava Ofélia como nunca amara nenhuma outra mulher. Por que, pois, dizer-lhe o contrário, desiludi-la e tirar até sua vontade de viver? Sua intenção era das mais nobres: poupar a amada de novos sofrimentos face atitudes que pretendia tomar na sequência para vingar a morte do pai. Portanto, já havia decidido levar a cabo a vingança. Para consumar seu plano, entendia que precisava se afastar de Ofélia, mesmo a amando e tendo convicção da plena correspondência, para não comprometê-la. Por que? Porque ela era filha de Polônio, o primeiro-ministro e este, certamente, se oporia ao relacionamento da filha com o príncipe depois dele atentar contra a  vida do próprio rei, seu tio Cláudio.

Hamlet, portanto, acreditava estar protegendo a amada, rompendo com ela. Claro que não estava. Mas... O príncipe, transtornado, entra na casa de Polônio para cumprir o que havia decidido. É exatamente nesse momento que Shakespeare traz à cena o famoso monólogo (e não no cemitério, tendo a cabeça de Yorick nas mãos). Foi no instante em que aguardava a entrada de Ofélia no recinto. Imagine, caro leitor, o quanto Hamlet estava sofrendo naquela ocasião! Ponha-se em seu lugar e imagine o que sentiria caso tivesse que dizer ao grande amor de sua vida que não a amava e, por causa dessa mentira, perdê-la para sempre!! Poucos, pouquíssimos têm coragem de uma renúncia desse porte, não importa por qual razão. Nesse momento, portanto, Hamlet sofre, e sofre muito. É então que começa a pensar no preço, muito alto, que estava tendo que pagar para vingar a morte do pai. Tal sacrifício valeria a pena? Não haveria  alternativa? Por que pagar preço tão elevado para cumprir o que entendia ser dever filial? "Ser ou não ser?".

Apesar da profunda dúvida, manifestada no dramático monólogo, o príncipe, na sequência da cena, faz o que havia planejado fazer ao chegar à casa de Polônio: nega para Ofélia que a ama. A conseqüência da sua atitude certamente foi mais grave do que supunha. Causou tamanha dor no coração da jovem amada, que ela finda por morrer no decorrer da peça. Claro que a morte de Ofélia multiplica por trilhões a dor de Hamlet. Se essa já era insuportável com a simples separação do amor da sua vida, se torna infinitamente pior depois dela morrer. Shakespeare demonstra, de forma genial, que "Ser" só se torna opção quando somos confrontados com a verdade dos fatos, com a verdade do mundo que nos cerca e, principalmente, com a “nossa” verdade, sobre quem somos de fato.
.
É de se notar a maneira hábil que Shakespeare utilizou para revelar a Hamlet o que realmente havia acontecido em relação à morte do pai. O “fantasma” que lhe faz tal revelação é interligentíssima metáfora, posto que fugindo da realidade (fantasmas não existem), pois tem conotação de algo assustador, que causa medo. A verdade, nua e crua, dependendo a respeito do que, pode ser (e não raro é) amedrontadora. E mais, é pavorosa, horrenda, aterrorizante. Às vezes é mais assustadora do que a mais pavorosa das assombrações que se possa imaginar. Para complicar as coisas, o fantasma do pai não só lhe revelou as verdadeiras circunstâncias da sua morte – pelas mãos do próprio irmão, com a cumplicidade da esposa – como exigiu do jovem e ingênuo príncipe que tomasse uma atitude que mudaria, para sempre, os rumos da sua vida. Ou seja, a verdade “assombrou” Hamlet!! E mais: findou por destruí-lo (afetiva, psicológica e por fim fisicamente)!!!


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Friday, August 28, 2015

Meu grande “guru” literário, Jorge Luís Borges, tem um poema em que explica o fenômeno de cumplicidade entre escritor e leitor. Seu título? O mais óbvio possível: é “O cúmplice”. Descobri-o em um site de Portugal e a tradução é do escritor português Fernando Pinto do Amaral. O referido poema diz o seguinte:

“Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exato do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta”.

Como não gostar de um sujeito tão inteligente e sensível? Como não ser seu cúmplice, em suas aventuras literárias? Infelizmente, não tive o privilégio e nem a mais remota possibilidade de conhecê-lo pessoalmente. Como, também, jamais mantive qualquer tipo de contato pessoal com Adélia Prado, outra das minhas preferências. Com a poetisa mineira, porém, ainda há alguma esperança de algum encontro. Mas com Borges... Infelizmente já morreu. Eu teria altos papos com ambos, caso os encontrasse, sobre a vida, os sentimentos, as amizades, o amor, a felicidade etc.etc.etc. E, sobretudo, sobre essa nossa paixão comum, que nos torna cúmplices desse “crime” inenarrável, que é o de bisbilhotar sentimentos e comportamentos alheios e de divulgá-los aos quatro ventos.


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“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
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Mediocridade marca campanha



Pedro J. Bondaczuk


As campanhas políticas no Brasil, em especial o horário gratuito no rádio e na televisão, têm sido caracterizadas pela monotonia, pela falta de mensagens, pela ausência de novas idéias e até mesmo de imaginação o que, certamente, deve estar deixando o cidadão muito preocupado quanto ao seu futuro.

Em termos de comportamento, até que os candidatos vêm se portando a contento, com menos ataques pessoais e retaliações, inclusive, do que aqueles que ocorrem em países com grande tradição democrática, como os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha e a Itália.

Aqui ou ali, um ou outro dos que se apresentam na telinha mágica ou nos palanques descambam para eventuais excessos. Mas nada de dramático, como ocorreu, por exemplo, durante a campanha presidencial norte-americana de 1988, quando George Bush e Michael Dukakis travaram duras batalhas verbais, que partiram para minúcias pessoais que não tinham absolutamente nada a ver com as eleições.

O que se observa na propaganda gratuita é uma espécie de culto à personalidade dos postulantes ao governo do Estado mais populoso e rico da Federação que, se fosse um país e não tivesse que sustentar co-irmãos paupérrimos, certamente faria parte da elite mundial, do seleto e restrito clube do chamado Primeiro Mundo.

Em termos de programa, mencionam-se itens vagos e óbvios, que fazem parte do cargo de qualquer governador. Ou seja, os candidatos citam suas obrigações, caso sejam eleitos, mas não dizem qual a contribuição que pretendem dar ao desenvolvimento estadual e à solução dos grandes problemas que os paulistas têm.

Tal personalismo, inclusive, ficou demonstrado com o fato dos eleitores, a menos de um mês da votação, desconhecerem os candidatos a vice-governador. Esse detalhe foi revelado por uma pesquisa realizada pela Manager Comunicação, empresa de assessoria de imprensa, que ouviu 300 pessoas na Capital.

O resultado foi surpreendente, não tanto pelo caso em si, mas pelos números. Noventa e nove por cento dos consultados garantiram desconhecer os nomes dos candidatos a vice. O pior não foi isso. Também para o Senado o desconhecimento do eleitorado foi desconcertante, atingindo 56%.

Está aí, pois, a maior prova da mediocridade da atual campanha. Ela não sensibilizou o público. Isto, é claro, não é motivo para ninguém deixar de votar ou para anular seu voto. Afinal, a eleição é muito mais do que um dever. É um direito e, sobretudo, a principal forma de alguém exercer a sua cidadania, impedindo o acesso dos medíocres à vida pública e dando chances de renovação de idéias, em termos administrativos, no País. Mas que a mediocridade é a tônica da atual campanha, não há como esconder. E isto é preocupante..  

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 6 de setembro de 1990)


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