Sunday, August 20, 2017

INVENÇÃO DE GUTTENBERG CONTRIBUIU, DE FORMA DECISIVA, PARA REDUZIR DRASTICAMENTE O ANALFABETISMO NO MUNDO

Com base em documentos históricos da época de Johannes Guttenberg, dá para se estimar que 90% da humanidade era composta de analfabetos. Aliás, ler não era considerado importante nem pela realeza. Inúmeros monarcas eram rigorosamente iletrados. E os que sabiam ler e escrever não eram vistos como superiores a ninguém, como às vezes ocorre hoje. O que contava, então, era a perícia no manejo de uma espada, ou a aptidão para montar a cavalo, ou o treinamento na arte de matar, ou seja, para a guerra etc. Queiram ou não, o invento de Guttenberg, de alguma maneira, mudou tudo isso. Hoje, embora alguns países ainda ostentem altas taxas de analfabetismo, pode-se dizer, sem medo de errar, que a maior parte da humanidade sabe ler e escrever (se gosta ou não de fazê-lo ou se o faz bem, é outra história). A rigor, nem na atualidade, nós, escritores, conseguimos com que nossos livros venham a público rigorosamente da forma que os concebemos. É verdade que o computador reduziu a quase zero o número de erros. Temos os corretivos ortográficos, que assinalam em vermelho, por exemplo, quando cometemos falhas de grafias ou de digitação. E marcam em verde os eventuais equívocos de concordância, regência, pontuação etc. Ainda assim... muita coisa escapa, para nosso desespero. Os originais dos nossos livros seguem para as editoras, que contam com equipes de revisores (pelo menos as melhores delas). Estes detectam o que escapou da nossa vista e o advento do e-mail facilitou sobremaneira seu contato com os escritores, para dirimir possíveis dúvidas, em geral estilísticas. Ainda assim... vários erros escapam, para nossa suprema frustração. Imaginem se Guttenberg não houvesse inventado os tipos móveis e estivéssemos, ainda, por conta dos copistas! Seria um Deus nos acuda, não é verdade?!


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Esperança supera o medo



Pedro J. Bondaczuk



O presidente Luís Inácio Lula da Silva, que assume o poder como o terceiro governante eleito pelo voto direto desde o fim da ditadura militar, disse, tão logo tomou conhecimento da sua consagradora vitória nas urnas, ainda na noite de 27 de outubro do ano passado, em discurso que improvisou na Avenida Paulista, em São Paulo –, onde os correligionários festejavam a sua chegada à Presidência da República, após três tentativas anteriores frustradas –, uma frase que caracterizou a caráter não apenas o seu êxito eleitoral, mas todo o transcorrer do surpreendente 2002: “A esperança venceu o medo”.

Claro que sua expressão tinha endereço certo, político, voltado aos adversários, que na reta final da campanha, buscaram atemorizar os eleitores, pintando cenários assustadores, caso ele fosse o escolhido. O recado era voltado, mais especificamente, à atriz Regina Duarte e ao candidato que derrotou, José Serra, que lançou mão desse artifício em desespero de causa, para tentar reverter um quadro que no final das contas provou ser irreversível .

Dias antes, a famosa artista do teatro e da televisão havia expressado (com todas as letras, acentos e pontos), o seu temor diante da possibilidade do fundador do PT, que àquela altura já era iminente, de vencer as eleições (se sincero ou não é impossível de se avaliar, já que aquilo que ela declarou entrava no nebuloso campo dos sentimentos e no das presunções sobre sinceridade ou falta dela). Mas a resposta de Lula valeu, não somente para os adversários, mas para toda a sociedade. E, sobretudo, para caracterizar 2002.

Em todos os campos de atividade, o ano começou entremeado pelo medo e pela esperança, simultaneamente. Em alguns momentos prevalecia um, em outros, o outro. Mas ambos estavam sempre presentes nos pensamentos e nos corações. Por exemplo, a Seleção Brasileira de futebol, que se classificou para a Copa do Mundo (que seria disputada, de forma compartilhada, na Coréia e no Japão), em cima da hora, na chamada “bacia das almas”, estava cercada de unânime descrédito popular.

Era palpável o temor dos torcedores por um àquela altura provável vexame dos nossos craques (então desacreditados, execrados e até ridicularizados) nos campos asiáticos. Mas havia, também, em cada brasileiro, uma tênue “pontinha” de esperança, de que na hora “h”, iria prevalecer a tradição do nosso futebol e ocorrer uma reversão de expectativas, quando não um “milagre”.

E a esperança venceu o medo! Os comandados de Felipão, mesmo jogando somente o trivial, o “feijão com arroz”, superaram todo o descrédito que os acompanhava e conquistaram o quinto título da história para a nossa Seleção. Além disso, ninguém partiu para a Copa mais desacreditado do que Ronaldinho, o “Fenômeno” (que mais do que nunca, justificou, ao longo da competição, esse apelido).

Havia um clamor nacional pela convocação de Romário em seu lugar, com interferência (sutil, é verdade), até do então presidente Fernando Henrique Cardoso nesse sentido. No entanto, o garoto humilde, oriundo do subúrbio de Bento Ribeiro, no Rio, pivô da derrota, quatro anos antes, na França, com o até hoje não explicado episódio das “convulsões”, não somente ajudou a Seleção a ganhar o Mundial como, de quebra, foi o artilheiro dele! Outra vitória, portanto, da esperança sobre o medo.

Dezenas de outros episódios, na política, na economia e na vida, opuseram esses dois sentimentos –, que parecem antagônicos, mas que, no entanto, quase sempre se manifestam de forma simultânea –, no correr de 2002, quer no plano individual, quer coletivamente. Sua menção é até desnecessária. Cada um dos leitores, se forçar um bocadinho só a memória, certamente vai se lembrar de vários casos, pessoais ou coletivos, desse confronto. É certo que a esperança não prevaleceu em todas as circunstâncias. Em algumas, as pessoas deixaram de obter marcantes conquistas, inibidas pelo “medo de tentar”.

A vitória de Lula despertou na população um clima de inusitado otimismo, mesmo com a escalada da inflação, com as incertezas no cenário internacional (econômicas e também políticas, com os rumores sobre a iminência de nova guerra no Golfo Pérsico) e, principalmente, com o alto índice de desemprego no País. Não é por acaso que ele é o presidente eleito com o maior índice de aceitação da História brasileira: 74%, de acordo com o Ibope.

Nota-se um sentimento coletivo diferente, de solidariedade, de abnegação e de consciência social, não apenas por parte das pessoas, mas principalmente das empresas. Inúmeras delas organizaram, no Natal passado, campanhas de coleta de alimentos entre seus funcionários, fornecedores e clientes (e entre estas, que me vêem de imediato à memória, poderia citar a Volkswagen e a Eaton, de Vinhedo), para proporcionar um período de festas sem o “fantasma” da fome” a algumas famílias carentes, que foram beneficiadas.

Que bom seria se “todas” as pessoas necessitadas, por este vasto Brasil, pudessem ser atendidas! No entanto, a abnegada semente, lançada há algum tempo pelo saudoso sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, parece, enfim, ter caído em solo fértil! É, mais uma vez, a esperança vencendo o medo.

Oxalá nos próximos 365 dias, e mais do que isso, nos próximos 365 anos, seja este o resultado desse perpétuo confronto de sentimentos tão díspares no coração humano! Feliz governo, pois, para o operário, para o metalúrgico, para o homem do povo Luiz Inácio Lula da Silva, cujo sucesso vai significar, também, felicidade, progresso e tranqüilidade para todos nós. Não é por acaso que se diz que a profissão por excelência do brasileiro é a esperança. Que Deus o abençoe e ilumine, caro presidente da República! E há de abençoar, estamos certos disso.


(Artigo publicado no Jornal Roteiro, em 27 de dezembro de 2002)


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Os lutadores e os omissos



Pedro J. Bondaczuk


As dificuldades da vida, como a instabilidade política e econômica, a violência urbana, a disseminação da miséria e problemas familiares e existenciais, levam muitas pessoas a se tornarem "catastrofistas". A maioria assume um renitente e amargo pessimismo e chega a perder contato com a realidade, desconfiando de tudo e de todos.

Certos indivíduos perdem seus referenciais, isolam-se, ficam agressivos e cultivam a solidão. Arraigam-se a um individualismo exacerbado, que descamba para o egoísmo. Agem como se apenas eles tivessem problemas e culpam o mundo por suas dificuldades e vulnerabilidades. Não se dão conta, mas estão fechando todas as portas para a felicidade.

O que tais indivíduos não entendem é que são estes obstáculos e desafios que tornam a vida tão fascinante. O mal existe em toda a parte e sempre existiu. Mas este fato não libera ninguém de fazer a sua parte para tornar o mundo melhor. Quando não mediante obras concretas, pelo menos através do exemplo, da autodisciplina, da visão construtiva e da busca do autoconhecimento, para corrigir, e se possível eliminar, as tendências negativas.

Sir Bertrand Russell, filósofo, matemático e ativista de direitos humanos e das teses pacifistas até sua morte, aos 96 anos, constatou: "Talvez eu tenha acreditado que o caminho para um mundo de homens livres e felizes fosse mais curto do que está demonstrando ser, mas não errei ao pensar que tal mundo é possível e que vale a pena viver, enquanto isso, com a intenção de torná-lo mais próximo".

A realidade atual, tal como se nos apresenta, chega, de fato, a ser assustadora. Guerras civis, ou de outra natureza, sucedem-se, como ocorre na Síria e em outras partes do mundo, tão pobres que sequer merecem a atenção da imprensa internacional com todo o desfile de horrores que trazem no seu caudal..

A miséria afeta a dois terços da humanidade, enquanto o um terço restante vive inútil e perdulariamente, aferrado egoisticamente na acumulação e consumo de muito mais bens e recursos do que suas necessidades, conforme tenho afirmado e reiterado, mas isso parece sensibilizar pouquíssimas pessoas, acostumadas com essa injustiça a ponto de considerá-la “normal”. Claro que não é!!!
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Milhares, milhões de jovens se deixam levar pelo consumo de drogas, pela licenciosidade sexual e pela violência (ostensiva ou disfarçada), como se não tivessem perspectivas de um amanhã. Ainda assim, com tanta coisa negativa que nos cerca, se atentarmos bem, perceberemos que o mundo, em alguns aspectos, evoluiu para melhor.

A Guerra Fria, por exemplo, que por cinco décadas manteve a humanidade na perspectiva de destruição, acabou, embora alguns teimem em tentar “ressuscitá-la”. Não podemos deixar que isso aconteça, a despeito de Trump, de Putin e de vários outros líderes com tendências belicosas à revelia de seus liderados. A medicina desenvolveu técnicas e medicamentos para aliviar o sofrimento de milhões, embora esses avanços estejam ao alcance de poucos.
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Mesmo o Brasil, assolado pelo aumento da insegurança pessoal face ao crescimento da criminalidade e por uma profunda crise política, econômica, social e moral, teve alguns progressos, embora não divulgados pelos meios de comunicação, preocupados em botar mais lenha na fogueira da crise, como se esta fosse uma dádiva divina, o que, óbvio, não é . A economia voltou a crescer, embora com riscos de voltar a andar para trás. A inflação – embora temporariamente – está sob relativo controle, mesmo que às custas de juros exorbitantes, que inibem investimentos.


Perspectivas mais alentadoras abrir-se-ão diante dos brasileiros, se souberem detectar ass oportunidades e se respeitarem o contraditório, abrindo mão da “selvageria” que campeia, sobretudo nas redes sociais. Portanto, ainda que o caminho para o "mundo de homens livres e felizes" com que sonhamos seja mais árduo do que pensamos (e, de fato, é), essa obra é factível e vale a pena viver para enfrentar esse desafio. Ora se vale… Eu estou disposto a enfrentá-lo! E você, amável leitor, que me honra com seu prestígio?

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Saturday, August 19, 2017

QUANDO OS MONASTÉRIOS EXERCIAM O PAPEL DE “EDITORAS”


Imaginem, até Johannes Guttenberg desenvolver seu invento, como era a produção de livros nos centros culturalmente mais avançados no mundo. Nos menos avançados, sequer se cogitava desse produto. Cada exemplar era copiado à mão. E dificilmente (só mesmo por acaso) uma cópia saía rigorosamente igual a outra. Entre o original, encaminhado pelo autor, e a versão final, havia infinitas diferenças. Eram palavras trocadas, suprimidas ou acrescentadas em profusão. Isso sem falar nas traduções, nem sempre feitas do texto original, mas de traduções de traduções de traduções. Um horror! O que lemos hoje, do que foi escrito antes da invenção dos tipos móveis, é, pois, mera “aproximação” do que os escritores de fato produziram. Os monastérios de então faziam as vezes de editoras. Dezenas de monges passavam a vida inteira, da mocidade à velhice, empenhados nessa maçante tarefa. Por maior que fosse seu nível de concentração, os erros eram inevitáveis. Vão me enganar que algum desses copistas não se sentia tentado a adulterar (e não adulterava) os originais? O que contrariava aquilo que pensavam, faziam soar o contrário do que o autor concebeu, com o acréscimo ou supressão de meia dúzia de palavras. Ademais, durante o trabalho, sentiam fome, sede, vontade de ir ao banheiro e assim por diante, como todos nós. Tudo isso, convenhamos, eram inevitáveis fatores de distração. E as tiragens? Eram ínfimas. Um livro, com 30 exemplares, podia ser considerado best-seller. É verdade que havia carência de leitores. Mas...

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URV é uma interrogação


Pedro J. Bondaczuk


A iminência da introdução de um indexador único na economia, a Unidade Real de Valor, tendente a acabar com a parafernália de índices existentes hoje e que deve ser o embrião de uma nova moeda forte, gera nos agentes econômicos mais dúvidas do que certezas.

O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, fala com tanta convicção no sucesso dessa conversão que as pessoas procuram entender como ele fará para conseguir o consenso. Afinal, a garantia dada à sociedade foi a de que não haveria imposições. Adere à URV quem quiser.

A principal pergunta que nos fazem na rua é: "E se o empresariado, ou os sindicatos não aderirem ao indexador único? O plano de estabilização estará abortado? O que o novo índice tem de tão atrativo a ponto de gerar tanta certeza no governo de que haverá adesão maciça?"

Na teoria, a sua adoção restituirá ao brasileiro a já perdida noção de valor da economia. Torna-se desnecessário citar exemplos a respeito, pois cada consumidor tem uma experiência própria e os jornais têm feito matérias para comprovar que as pessoas sequer sabem se estão pagando muito, pouco ou o preço justo por algum produto.

Outra pergunta que fica no ar é: "Quem vai pagar esta conta?" O governo garante que ninguém sairá perdendo, embora não justifique a razão de tanta certeza. A verdade é que, tanto os que defendem a URV e juram que vão aderir de imediato a ela quanto os que se opõem a ela --- notadamente os sindicatos, que argumentam com pesadas perdas salariais --- pouco ou nada sabem acerca do novo índice.

As especulações, por outro lado, beneficiam apenas quem tem dinheiro para aplicar ou pode "engordar" os preços impunemente, notadamente os cartéis, os monopólios e os oligopólios. Conviria que o ministro viesse a público, por meio de rede de rádio e televisão, para dar explicações detalhadas sobre o novo indexador, respondendo às perguntas que estão no ar.

Não é novidade para ninguém que parte considerável da inflação brasileira se deve à expectativa. E ela, sim, todos sabem de sobejo a quem prejudica e a quem beneficia. Os beneficiários são os eu têm créditos, de qualquer natureza, e que trabalham com preços superdimensionados. Os perdedores? Está claro, são os assalariados, simultaneamente consumidores e contribuintes. Quem mais?

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 17 de fevereiro de 1994).



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Raízes no irracional

Pedro J. Bondaczuk

O escritor austríaco, Robert de Musil, escreveu, no ensaio “O homem sem qualidades”: “A política, a honra, a guerra, a arte, tudo o que há de mais decisivo na vida, acontece para lá do entendimento. A grandeza humana tem raízes no irracional”. Entre essas tantas coisas que nos engrandecem e nos tornam especiais, mas que não comportam explicações, estão as paixões.

Tanto faz que sejam por determinadas pessoas, causas ou instituições. Desenvolvemo-las à nossa revelia e elas nos acompanham vida afora. O homem contemporâneo tem vários comportamentos bem diferentes (se melhores ou piores é questão para se discutir), em muitos aspectos, daqueles dos seus antepassados. Por exemplo, fez de um simples esporte, inventado pelos ingleses há cerca de dois séculos, catalisador por excelência de suas paixões.

Para muitas pessoas, seu clube de futebol é coisa muito séria, uma espécie de religião. Suas vitórias ou derrotas adquirem a função de catarse, agem como válvula de escape para tensões e frustrações acumuladas no dia a dia. E estas, convenhamos, não faltam a ninguém.

Quando seu time do coração vence, esse apaixonado por ele sente-se também vencedor, mesmo que não tenha feito nada além do que estimular os que o representam no campo de disputa para que o sucesso ocorra. Ou seja, torcer. Quando perde ... sente a mesma dor que qualquer tipo de perda proporciona. Por que isso acontece? Mistério! Mas pouco importa.

Os clubes de futebol, hoje, são, para seus torcedores, muito mais do que meras associações desportivas. Extrapolam seu caráter lúdico ou social. São símbolos do que as pessoas aspiram, sonham e lutam para obter no correr de uma vida, Incluem-se, pois, naquele elenco de entidades enraizadas no irracional, citado por Musil, mas que nos torna grandes e especiais.

Embora intelectual, afeito, portanto, às racionalizações e análises objetivas e frias dos meus desejos, sonhos e compulsões, tenho, como a maioria das pessoas, meu elenco de paixões. Não as racionalizo. Nem poderia! Parte considerável delas tem, de fato, “raízes no irracional”. Mas são elas, e não o raciocínio puro e frio, que me tornam candidato à grandeza.

Entre essas paixões, destaca-se uma que nasceu à minha revelia (como tantas outras), espontaneamente, como todos os sentimentos nobres e bons soem nascer. Evoluiu, ano após ano, tornando-se cada vez mais profunda, avassaladora, intensa e absoluta.

Trata-se do meu inquestionável e irrestrito comprometimento com um clube de futebol, que aprendi a admirar, e mais, a amar sem reservas ou restrições, como se fosse parte integrante da minha pessoa, do meu caráter e da minha personalidade (e, em certo aspecto, de fato é): a Associação Atlética Ponte Preta, desta minha apaixonante Campinas. Fosse racionalizar a questão, teria que admitir que essa paixão é uma imensa bobagem. Afinal o futebol, para quem não o pratica (como é o meu caso), é, no máximo, uma diversão, um passa tempo, um lazer. Nunca me trouxe e certamente jamais trará qualquer vantagem financeira, intelectual e/ou moral. Mas...

Este foco brilhante da minha paixão (no9 caso, o clube) surgiu antes, muito antes que eu sequer viesse ao mundo. Para ser mais preciso, antecedeu-me em 43 anos. E há já mais de um século (quase 117 profícuos anos) empolga gerações. É uma paixão que passa de pai para filho (embora não se trate do meu caso), sempre num crescendo sem limites, formando interminável corrente de amor de infinitos elos. Sou tomado por ela há já cinqüenta e oito anos, quando me fixei, de vez, em Campinas e não abrirei mão dela enquanto viver. Mesmo que quisesse (e não quero), não conseguiria. Faz parte de mim. Está no meu sangue, na minha essência, no meu código genético. Por que? Por mais que queira racionalizar, não consigo.

Talvez a explicação mais lógica seja que a Ponte Preta é, antes e acima de tudo, símbolo de tudo o que admiro e busco incorporar à minha personalidade. Simboliza, por exemplo, constância, persistência e convicção. E mais, representa garra, espírito de luta e força de vontade, sem os quais não se vai a lugar algum. É, também, símbolo de fé e da capacidade de saber se erguer sempre que eventualmente se cai, e recomeçar, quantas vezes forem necessárias, a jornada em busca dos objetivos estabelecidos. “Ah, mas ela nunca foi campeã”, dirão (e dizem a todo o momento) os adversários, em tom de galhofa. É verdade. Contudo… nunca desistiu da luta e sempre com lealdade e respeito às regras estabelecidas;

Sei que eu deveria falar das qualidades técnicas do time, que variam muito de ano para ano, das suas conquistas nos gramados (seis vices paulistas e um da Copa Sul-Americana), da sua apaixonada e fiel torcida (seu maior patrimônio) e das metas que, certamente, haveremos de atingir. Mas isso significaria tentar racionalizar o irracional, explicar o inexplicável e diminuir, por conseqüência, seu significado. Afinal, paixões não se explicam, se sentem.



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Friday, August 18, 2017

INVENÇÃO DE GUTTENBERG, ENTRE OUTRAS COISAS, ECONOMIZOU TEMPO, MUITO TEMPO


 A invenção dos tipos móveis, por parte de Johannes Guttenberg, pode ser comparada à lenda do “ovo de Colombo”. Até ele ousar em experimentar seu método de reprodução de textos, o que fez em 1442, ninguém havia imaginado esse meio. Ou se alguém imaginou, não tentou pôr em prática, talvez duvidando da sua eficácia e do seu valor prático. O inventivo alemão, para comprovar a utilidade da sua ideia, resolveu imprimir as 671 páginas da Bíblia. Começou a tarefa em 1450 e só concluiu-a em 1454. A maior parte do tempo, claro, despendeu na elaboração das respectivas matrizes. Com estas prontas... foi moleza. “Quatro anos para imprimir 671 páginas?!”, perguntarão com certeza, em tom de disfarçada exclamação e até de deboche, pondo em dúvida a praticidade da ideia de Guttenberg, os eternos “do contra”, que veem defeitos em tudo e todos. “É muito tempo!!!”, acrescentarão. De fato, é mesmo. Ocorre que o inventor imprimiu 300 exemplares, dos quais ainda restam 40 em mãos de colecionadores e em alguns museus, e não somente um. Raciocinem comigo e pensem quantos anos os monges copistas precisariam para concluir esse mesmo número de cópias. No mínimo, uns vinte. E por mais atentos e concentrados que fossem, cometeriam, certamente, inúmeros erros. Trocariam algumas palavras, grafariam errado outras, pulariam trechos, assassinariam a concordância e assim por diante. Afinal, eram humanos, e não máquinas precisas e infalíveis.

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Lei eleitoral em debate



Pedro J. Bondaczuk



O Congresso começa a definir, esta semana, as regras que vão nortear as eleições de 1994 e já não é sem tempo. Sabendo da lentidão com que os trabalhos parlamentares se desenvolvem no Brasil, seria desejável que tais questões já estivessem em fase final de votação e não no início dos debates. Até porque, um dos projetos é bastante polêmico e os 11 pequenos partidos com assento na Câmara de Deputados se mobilizam para barrar a sua aprovação.

Trata-se da proposta de João Almeida, do PMDB da Bahia, determinando que só poderá lançar candidato à Presidência da República a organização partidária que tenha obtido pelo menos 5% dos votos nas últimas eleições para essa casa.

O sistema de representação política no Brasil – e nem é preciso ser “expert” na matéria – é não apenas distorcido e inadequado, como chega a descambar para o ridículo. Tudo motivado por uma legislação partidária amorfa e ambígua.

Os partidos transformaram-se (salvo as conhecidas exceções) num amontoado de siglas, muitas das quais de “aluguel”, sem uma linha ideológica definida e nem um eixo programático nítido. Aliás, esta foi uma das causas que permitiram, por exemplo, a eleição de Fernando Collor em 1989, escudada numa campanha bem escorada em dólares, mas baseada em “propaganda enganosa” (como o País pôde constatar depois do fato consumado).

O ex-governador alagoano, que já havia sido anteriormente membro do PDS, o PMDB e de um obscuro PJ, elegeu-se, finalmente, para a Presidência pelo PRN. Essa agremiação política (se é que pode ser chamada dessa maneira), nunca antes havia passado pelo batismo de fogo das urnas.

Não tinha elegido nenhum governador, nem deputado e muito menos senador. Mas serviu de instrumento para que Collor (que não encontrou espaço nos partidos tradicionais) se lançasse na disputa e desse naquilo que deu.

Estão confundindo democracia com anarquia. Em qualquer país com tradição democrática, a formação de partidos é livre. Nos Estados Unidos, na França e na Alemanha, entre outros, é assim. Só que existem regras bem definidas para garantir sua sobrevivência.

Há um índice eleitoral mínimo, que varia de acordo com as respectivas realidades nacionais, que deve ser obtido para que esses grupamentos sejam legitimados. Por isso, nessas sociedades, não há essa parafernália de siglas que temos por aqui. Quem tem cacife, sobrevive. Quem não...desaparece!

Na Alemanha, por exemplo, o Partido Verde, que chegou em certa época a gozar de grande prestígio e força, deixou de existir, na prática, ao não obter o índice mínimo (de 4%) de deputados para o Parlamento. Isso não significou nenhum “golpe”, como os pequenos (alguns até mesmo micros ou até menos do que isso) partidos brasileiros afirmam que é o projeto do deputado baiano João Almeida.

A regulamentação para as próximas eleições, certamente, vai definir (ou pelo menos deve) um ponto muito importante para a lisura da disputa: a questão do financiamento das campanhas. Espera-se que desta vez se permita às pessoas jurídicas que façam, legalmente, o que muitas vinham praticando na ilegalidade. Ou seja, que participem dos fundos para financiar os candidatos de sua preferência.

Mas que isso seja feito às claras, com prestações de contas à sociedade (como ocorre nos Estados Unidos, por exemplo), para que o processo eleitoral não continue manchado pelos vários “esquemas”, do conhecimento de todos, que enodoam a vida política brasileira.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 17 de agosto de 1993).



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O poeta que soube se fazer ETERNO

Pedro J. Bondaczuk

Carlos Drummond de Andrade, nos primeiros versos do poema “Eterno”, desabafa:

E como ficou chato ser moderno
Agora serei eterno”.

Mal o poeta de Itabira sabia que estava sendo profético ao escrever isso. Provavelmente nem desconfiava que sua determinação em se eternizar já era, à altura em que escreveu o citado poema, uma realidade. Sim, Drummond, você é hoje muito mais do que moderno, já que a tal modernidade é efêmera e em pouco tempo se torna, num piscar de olhos, mera antiguidade. Algo carregado de patina, de poeira e de bolor. Transforma-se em coisa arcaica. Você sim, se vivo estivesse, poderia testemunhar que desde então é ETERNO. Eterníssimo! Imortal, com a única imortalidade possível a nós, humanos.

É mais do que oportuno lembrar tudo isso neste 17 de agosto de 2017, quando se completam exatos trinta anos do seu falecimento. Puxa!!! Já?!! Parece que foi ontem que o País chorou sua partida. E mesmo o brasileiro levando a fama de povo sem memória, você, meu poeta de Itabira, nunca foi esquecido. Estou seguro de que jamais o será. Você conquistou nossos corações e mentes com sua poesia. E o que ela tem de tão especial, que as composições de outros tantos poetas não têm. Tudo!!! Tem simplicidade. Tem autenticidade. Tem empatia. Tem genialidade. E olhe que estou sendo modesto em minha caracterização. Poderia dizer mais, muito mais, se tivesse competência para tal. Desconfio que não tenho.

Há poetas, no Brasil e no mundo, com potencial imenso para chegarem ao patamar que você chegou. Contudo, incorrem num erro comum. Entendem que a poesia, para ser boa e encantar, tem que ser mais enfeitada do que uma árvore de Natal. Todavia… não tem. Seus versos, todavia, são mágicos, e encantam, exatamente porque são simples, de imediato entendimento até para pessoas que não apreciam o gênero, algumas das quais são analfabetas de pai e mãe, mas que entendem e assimilam suas mensagens. Como São Francisco de Assis, seus poemas não precisam do último figurino da moda para impressionar. Impressionam mesmo com o surrado hábito semelhante ao do santo, que era amigo dos pássaros e dos animais, aos quais chamava de irmãos.

Para comprovar isso, selecionei algumas composições suas, e não das mais famosas, das milhares que brotaram da sua mágica pena, para partilhar com meus leitores (que são, também, mais seus do que meus). Como este poema intitulado “Cidadezinha qualquer”, em que você diz:

Casas entre bananeiras,
mulheres entre laranjeiras,
pomar, amor, cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar...as janelas olham


Eta vida besta, meu Deus!”.


É a descrição, nua e crua, de milhares de cidades brasileiras, espalhadas por este País-continente, em que tudo caminha devagar, como se parado estivesse. Em algum momento, seus moradores, ou desabafaram (e desabafam), ou pelo menos pensaram (ou pensam): “Eta vida besta”. E não é? Claro que sim!

Em “Vida social”, você pinta com cores precisas o retorno de um poeta à sua cidadezinha natal, após brilhar em outras plagas, o que lhe confere prestígio entre os seus, mesmo que não o mereça. Você escreve:

O trem chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poetas vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da Terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.


Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê,
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.


O poeta entra no elevador,
o poeta sobe,
o poeta fecha-se no quarto.


O poeta está melancólico”.


E não é para ser tomado de melancolia? Quem sabe seu destino não será como o da cigarra, que “canta no sol danado”, mas “que ninguém aplaude”? E como é a vida do político (personagem mais do que em evidência neste Brasil pós-golpe, sobretudo quando cai em desgraça)? É exatamente como você descreve no poema “Política”:


Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que ele sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.


Entrou a tomar porres
violentos, diários
e a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos,
se só os outros poetas eram imitados.


Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à-toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso;
o rio que lá embaixo pouco se importava com ele
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.


E teve vontade de se atirar
(só vontade).


Depois voltou para casa
livre, sem correntes,
muito livre, infinitamente
livre, livre, livre que nem uma besta,
que nem uma coisa”.


Este era um político poeta, já se vê. Os nossos, atuais, envolvidos em mil maracutaias, não têm tempo para poesia. Alguns não podem, nem mesmo, se aproximar do “rio moroso” e seus movimentos são monitorados por tornozeleiras eletrônicas, após serem denunciados a algum juiz com complexo daquele senador norte-americano dos anos 50, da época da caça às bruxas, no auge da Guerra Fria, Joseph Raymond McCarthy.

Poderia transcrever outros tantos e tantos e tantos poemas seus, inclusive os mais conhecidos da população (e esta é minha vontade), mas não o farei, até pela limitação de espaço neste meu canal de comunicação com um punhado (pequeno) de amantes da Literatura. Mas não poderia encerrar esta descompromissada reflexão sem transcrever o poema em que você trata de um sentimento para lá de universal, nestes tempos bicudos que vivemos, ou seja, “O medo”.


Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.


E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadeamos.


Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
doenças galopantes, fomes.


Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia
ventava, fazia frio em São Paulo.


Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.


Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.


Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?


Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas


de homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.


Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.


E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.


O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema, outras vidas.


Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.


Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,


eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo”.



Que falta que você nos faz, poeta, que soube se fazer mais do que moderno, mais do que moderníssimo, mais do que apenas original, mais do que originalíssimo. Você é, saudoso Carlos Drummond de Andrade, com todas as honras e méritos possíveis e imagináveis, simplesmente ETERNO!!!

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