Monday, April 30, 2018

Reflexão do dia


QUAL É A SUPREMA DAS MISÉRIAS? É A IGNORÂNCIA!

A ignorância, ou seja, a incapacidade de entender o que quer que seja, mesmo que o objeto do não entendimento não seja muito complexo (que pode ser relativa ou absoluta), é a suprema das misérias. Nada é mais precioso do que o potencial de compreensão, a facilidade de entender o concreto e o abstrato, que convencionamos denominar de “inteligência”. É mister admitir que todos somos ignorantes de algo, embora em graus variáveis, uns mais, outros menos e outros, ainda, de forma absoluta. Não conheço o gênio que entenda de todas as disciplinas, todas as artes, todas as ciências etc. que seja, em suma, onisciente. Ninguém é. Os sensatos admitem sua ignorância em determinados assuntos e procuram um jeito de entender o que lhes seja ininteligível, desde que necessitem desse entendimento. Quando não, deixam esses temas, para eles obscuros e além do seu alcance de entendimento, para os que são especializados neles. Com isso, evitam, com certeza, no mínimo, de descambar para o ridículo. Já os insensatos... Nem é bom falar!



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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!


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CITAÇÃO DO DIA:


Dono do mundo 

Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu... 

(Renato Russo)



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DIRETO DO ARQUIVO - Uma sede para a Câmara


Uma sede para a Câmara



Pedro J. Bondaczuk


Campinas pode ampliar, já na próxima legislatura, que começa em 2005, o número dos seus vereadores, dos atuais 21, para 33. Trata-se de prerrogativa de cidades com mais de 1 milhão de habitantes, caso deste Município que, de acordo com a mais recente estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, já ultrapassou essa cifra.

Polêmicas à parte, sobre a necessidade ou não dessa ampliação, surge um problema mais imediato e urgente: onde acomodar os 12 parlamentares excedentes que serão eleitos no ano que vem? As atuais acomodações da Câmara Municipal são pobres e acanhadas. Não comportam, sequer, com a racionalidade que seria de se esperar, pela importância da cidade e dessa instituição, o número atual de vereadores.

Mesmo que não haja a ampliação de vagas – e ela deve, de fato, acontecer – portanto, a questão da nova sede se torna urgente e inadiável. Desde o início deste ano, foram trazidas à baila pelo menos duas propostas para a instalação da nova sede do Legislativo. Uma, previa a construção de um novo prédio no atual terminal de ônibus da Avenida Moraes Salles.

Ocorre que esse espaço, há tempos, está reservado para a construção de um centro cultural. Depois de muito diz-que me diz-que, se propôs uma segunda alternativa: a instalação no terminal de ônibus do Mercado Municipal. Desta vez, o obstáculo foi mais grave: o custo do projeto. E assim, tudo voltou à estaca zero. Ou seja, por enquanto, sabe-se lá até quando, a Câmara permanece onde está: nas instalações precárias, inseguras, acanhadas, desconfortáveis e absolutamente inadequadas do Palácio dos Jequitibás.

Várias sugestões têm sido apresentadas, sendo algumas descartadas de imediato, por razões várias, como a da volta do Legislativo Municipal para o prédio do Palácio da Justiça, por exemplo, depois que a tal da Cidade Judiciária ficar pronta. Ocorre que essas instalações já têm destinação. Devem abrigar o Tribunal Regional de Alçada, já que é mais adequada, por razões óbvias, para esse fim.

Outras propostas falam no prédio da CPFL, na Avenida da Saudade, no antigo hospital psiquiátrico Santa Isabel e na seção de arquivos do Lago do Café. Todas elas têm pontos negativos. O principal obstáculo é a dificuldade de acesso da população para os indispensáveis contatos com os vereadores, para levar-lhes suas queixas e reivindicações, já que a Câmara Municipal, em última instância, é (ou deveria ser) a casa do povo..

De qualquer forma, urge que se chegue a uma solução, pois o tempo não espera. Em um piscar de olhos, as eleições estarão aí e, a seguir, vem o dia da posse dos eleitos. E como fazer para acomodar com dignidade os parlamentares eleitos e seus respectivos staffs? A pergunta fica no ar.


(Editorial da Folha do Taquaral de 22 de setembro de 2003).


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CRÔNICA DO DIA - Descoberta e criação


Descoberta e criação

Pedro J. Bondaczuk

A descoberta e a criação são conceitos nitidamente distintos, mas não se sabe fundamentada no quê, muita gente confunde as coisas e entende que ambos sejam sinônimos, ou seja, que têm, rigorosamente, o mesmo significado. Obviamente, não têm. Descobrir é encontrar o que já existia (que provavelmente sempre existiu), cuja existência, porém, todos desconheciam, embora pudessem intuir. Criar, por seu turno, é trazer à existência o que antes não existia. A ciência, pois, é basicamente processo de descobertas. As artes, por seu turno, entre as quais, claro, a literatura, é sempre ato de criação.

A vida, cá para nós, consiste em contínua descoberta. Desde o nascimento até a morte, descobrimos, descobrimos e descobrimos o tempo todo, o que existia antes de nascermos, mas que desconhecíamos. A partir do útero materno, quando nosso sistema nervoso e, por consequência, o cérebro, estão formados, já temos consciência, embora sem possibilidades de externar esse conhecimento, de que existimos e nos encontramos em um ambiente muito bem protegido e acolhedor. Pelo menos é o que dizem os especialistas. Aliás, isto é comprovável, mediante o processo da regressão. Trata-se da primeira descoberta de uma sucessão que cada indivíduo terá no correr de sua existência, de acordo com a sua realidade e sua personalidade. Ao morrer, descobriremos, finalmente, o quanto foram tolos os dogmas e valores aos quais nos aferramos. Mas então já será tarde... Esta, todavia, é outra história que não cabe nestas reflexões.

Uma descoberta, que é complicada quando a fazemos, por ferir nosso amor próprio, é a das nossas limitações. Mas ela é importante. Se quisermos empreender conquistas, é indispensável sabermos onde estamos, o que somos e o que queremos, para que possamos escolher a estratégia e os melhores meios para a nossa evolução. Não é necessário alardear nossas deficiências, claro. Não ganharemos nada com esse alarde.

Mas é indispensável que identifiquemos nossas fraquezas e vulnerabilidades e que nos disponhamos a corrigir o que estiver incorreto. O dramaturgo Auguste Strindberg sintetiza essa postura: "Para mim, a alegria de viver está na dura e cruel luta pela vida. O aprender algo é para mim uma alegria". Aprender é, sempre, um processo de descoberta. Aprendemos o que já existe e neste ato de aprendizado não estamos criando nada. Mas é possível sermos criativos com a admissão pública das nossas vulnerabilidades. Como? Através da arte, notadamente da Literatura, estas, sim, ações criativas.

Tomemos como exemplo, para efeito de raciocínio e argumentação o conhecimento sobre o átomo e suas respectivas subdivisões. Trata-se de um processo de descoberta ou de criação? Claro que cabe, no caso, o primeiro conceito. O ser humano não “criou” o átomo, mas descobriu que ele existia e formava a estrutura de tudo o que nos cerca (embora não tenha feito sempre o melhor uso desse conhecimento). Descobriu, também, e mapeou, os códigos genéticos, responsáveis pelas características de todos os seres. Não os criou, certamente. Claro que tanto no caso dos átomos quanto neste, houve, também, processo de criação? Qual? O da codificação desses processos. A nomeação de cada componente do âmago da matéria, de cada elemento químico que sua combinação forma, de cada fórmula das suas reações quando um está em face do outro, tudo isso é ato de criação. Nenhuma dessas nomenclaturas e fórmulas existia, até que alguém as criasse.

Os verdadeiros “descobridores” das coisas que realmente importam são, por ironia, todos anônimos. Já fiz essa observação em outras reflexões, mas reiterá-la é sempre oportuno. Nenhum dos autores das descobertas essenciais, das que mudaram os rumos da espécie humana e lançaram os fundamentos da civilização, “patenteou” suas descobertas, para explorá-las comercialmente. Contudo, há inúmeros indivíduos alardeando, aos quatro ventos, terem “descoberto a pólvora”, ou seja, inventado o que acham que antes não existia, sem que de fato o tenham feito.

O que lhes falta é conhecimento. É consciência. É humildade. É discernimento. É informação. E tudo isso faz parte do terreno das descobertas, posto que primárias, elementares. Às vezes esse anonimato ocorre, também, com os criadores, os que inventaram e inventam o que não existia. Quem inventou a roda? Ninguém sabe! Quanto aos descobridores, quem foi o primeiro a descobrir como obter o fogo mediante o atrito de duas pedras, ou por outro meio qualquer?

Entre os criadores, algumas omissões são até, digamos, mais contundentes. A escrita, por exemplo, revolucionou o conhecimento humano, possibilitando seu “estocamento” e sua transmissão de uma geração a outra, com os devidos acréscimos. Contudo, pergunto: quem teve, pela primeira vez, a idéia de criar as letras do mais primitivo dos primitivos alfabetos? E dos demais, já que cada uma das cerca de vinte mil línguas e dialetos tem sua própria simbologia, ou seja, sua letra e sinais gráficos característicos? E quem inventou os números? Não vale responder citando o nome de um povo. A pergunta refere-se à “pessoa” específica, autora dessa criação. Você sabe quem foi? Eu não sei!!!

E quem teve a genialidade de criar o símbolo que representa o nada, a ausência, o “zero”, que deu tamanho impulso à matemática e a todas as demais ciências que têm nela instrumento essencial? Estão vendo? Ninguém sabe! E o questionamento poderia seguir, linha após linha, preenchendo páginas e mais páginas e sabe-se lá onde poderia parar.

Já o processo de criação literária e, principalmente, o teor do que é criado, dependem muito de cada escritor. Pegue dois poetas e peça-lhes para comporem um poema sobre o mesmíssimo tema. As diferenças de abordagem serão gritantes, profundas, abissais. Seus respectivos textos poéticos podem até serem rigorosamente idênticos no conteúdo (o que já seria uma façanha), mas jamais na forma, nas metáforas utilizadas, no arranjo das palavras. Podem ser semelhantes, portanto, mas nunca iguais. Por isso, a literatura é “exclusivamente” processo de criação e não de descoberta, embora possa conter (e via de regra contém) elementos desta.

As diferenças formais, de um escritor para outro, têm tudo a ver com os respectivos estilos, com a cultura, a vivência, a autodisciplina, o talento e com os ambientes que cada um frequentou. E também com as pessoas que os dois conheceram, com o grau de observação deles, além do óbvio: com sua técnica, domínio do idioma e visão de vida. Por outro lado, cada gênero (poesia, crônica, ensaio, conto, novela e romance) tem seus próprios macetes, suas peculiaridades e características. E embora todos os escritores sigam, em linhas gerais, as mesmas regras, suas obras serão, rigorosamente, originais, e “sempre”, mesmo que se mostrem parecidas.


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Sunday, April 29, 2018

Reflexão do dia


MINHA RETRIBUIÇÃO À SUA FIDELIDADE

Minhas reflexões diárias, posto que espontâneas e livres – e, portanto, descompromissadas – estas que partilho com quem me é fiel e leal (ou que julgo que o seja), não passam de frágil tentativa da minha parte de retribuir, um pouco, o muito de carinho, de atenção e de incentivo que recebo de todos vocês. Mesmo dos que se mantêm silenciosos e anônimos, como imperceptíveis sombras, e cuja presença percebo, apenas, pelos rastros sutis e inidentificáveis que deixam. Essa fidelidade, porém, impõe-me enorme responsabilidade: a de não decepcionar meus amigos, presenciais e virtuais, sem violentar, todavia, os princípios que norteiam minha conduta. Muito obrigado por sua fidelidade, amigos, que anseio, fervorosamente, que seja genuína. Estou certo que é.


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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!


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CITAÇÃO DO DIA:


Sem autoridade

Só há amor quando não existe nenhuma autoridade.

(Raul Seixas)

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DIRETO DO ARQUIVO - A modernização da Sanasa


A modernização da Sanasa


Pedro J. Bondaczuk


A decisão da Sanasa de privatizar parte de seus serviços vai ao encontro da nova política adotada pelo governo do presidente Fernando Collor de Mello. A modernização da estrutura econômica e de serviços públicos é uma exigência da sociedade, cansada de deparar-se com o descaso dos políticos e governantes que utilizam a máquina administrativa, direta ou indiretamente, para se locupletarem eleitoralmente.

O comportamento corporativista e ideológico de vários segmentos políticos, seja a esquerda, sejam os fisiológicos e clientelistas, manifestam a tentativa de manter a empresa pública como um paquiderme que se alimenta do dinheiro dos impostos sem devolvê-lo em forma de serviços.

A decisão do presidente da Sanasa, José Maria Gotti Alvarenga, é resultado de uma situação evidente demais para ser adiada pela pressão do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação da Água de Campinas e Região, cujo papel é defender os interesses corporativistas da categoria que representa.

A leitura dos hidrômetros sempre foi falha, devido à falta de pessoal e do preparo profissional deste serviço. As reclamações dos consumidores sempre foram grandes. A Sanasa diariamente convive com filas de pessoas que procuram sanar os erros da leitura que, em grande parte, registra um consumo muito acima do normal em suas residências.

O quadro reduzido de leituristas (segundo a direção da Sanasa há 70 deles; de acordo com o sindicato, há apenas 28) para fiscalizar 158 mil hidrômetros revela a má administração de pessoal na empresa que, no entanto, está inchada com uma quantidade excessiva de funcionários: 1.800, conforme dados da presidência.

O mais interessante nesse processo é que a privatização de alguns serviços públicos, como este prestado pela Sanasa, ocorra justamente durante o governo petista. De um lado a administração sabe que não pode continuar esperando o Brasil sair do buraco para aí então começar a trabalhar. De outro, o inchaço da máquina impede que os recursos injetados na Sanasa atinjam seus objetivos e, assim, definam a empresa como pública.

Pagar somente a folha de pessoal com o que é arrecadado tira da Sanasa sua função social a que está destinada, transformando-se num fim em si mesma. É claro que governos anteriores e diretorias de outras administrações são tão responsáveis quanto a atual pela situação vivida pela Sanasa. Mas a chance desse perfil ser redesenhado existe, bastando à direção da empresa encontrar uma saída como a privatização, desde que saiba administrar essa relação no plano político e jurídico.

O espírito de corpo do sindicato da categoria dos empregados na empresa deve ser avaliado dentro de suas proporções sociais e políticas. Isto porque a direção da empresa poderá ver frustrado seu projeto de modernização da Sanasa se submeter-se a essas pressões.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 15 de maio de 1990)

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CRÔNICA DO DIA - Inéditos, porém escritores


Inéditos, porém escritores

Pedro J. Bondaczuk

Quantos livros alguém tem que publicar para poder ser chamado de escritor? “Pelo menos um”, opinam alguns. “Muitos”, garantem outros. “Nenhum”, concluem vários interlocutores. O que caracteriza um escritor, óbvio, é o fato de “escrever”. É condição “sine qua non” para alguém se enquadrar nessa categoria.

Claro que se não publicar o que escreveu, não terá nenhuma visibilidade. Os textos que produzir não irão chegar às mãos do destinatário natural e final, o leitor. Pouquíssima gente saberá da sua aptidão: um ou outro parente, algum amigo mais chegado e talvez (quem sabe) algum colega de trabalho. Nem por isso, porém, essa pessoa deixará de ser escritora.

Gabriela Mistral, notável, porém humilde professorinha do interior do Chile, nunca pensou em publicar um só livro que fosse. Escrevia com o objetivo exclusivo de transmitir lições aos seus alunos. Tinha no magistério a maior (e talvez única) paixão da sua vida.

Seu talento, porém, era tão imenso, que os amigos consideravam seu ineditismo um absurdo desperdício, até uma heresia. Reuniram dezenas de poemas dela – publicados, a maioria, em pequenos jornais do interior do Chile – e compuseram um volume, cuja publicação bancaram do próprio bolso. Resultado? Esse único e solitário livro, fruto do reconhecimento e do carinho dos admiradores, valeu a Gabriela Mistral (pasmem!) um Prêmio Nobel de Literatura!

Inúmeros outros escritores, mundo afora, não têm o mesmo tratamento. Escrevem, escrevem e escrevem, publicam textos e mais textos em jornais – às vezes nos de grande circulação, mas na maioria dos casos em obscuros jornaizinhos de bairro ou em boletins de escolas, empresas, sindicatos ou paróquias – e suas carreiras nunca decolam.

Todos perdem com isso. O escritor, por não ter o talento não somente reconhecido, como sequer revelado. As editoras, que poderiam faturar um bom dinheiro com obras de qualidade superior. A população, que se vê privada de pérolas de pensamento e criatividade. E, principalmente, o leitor, que deixa de se ilustrar melhor.

Há centenas, quiçá milhares de Prêmios Nobel de Literatura em potencial desperdiçados por aí. E essa gente talentosa não deixa de ser escritora, embora permaneça rigorosamente inédita. Há casos e mais casos de escritores que publicam um único e solitário livro e ficam, a exemplo de Gabriela Mistral, para sempre registrados na História da Literatura.

É o caso, a rigor, do mexicano Juan Rulfo, por exemplo. Sempre que se menciona seu nome, logo vem à mente “Pedro Páramo/O Planalto em Chamas” (que são, na verdade, dois livros, reunidos num só volume). Escreveu outras coisas, mas ninguém sequer tomou conhecimento. Nunca mais alcançou a magia da sua única obra conhecida.

Fernando Pessoa publicou, em vida, com o seu próprio nome, só um livro. Hoje, porém, há uma infinidade deles, póstumos, de autoria do magistral poeta português, e outros tantos, certamente, virão, já que os pesquisadores sequer chegaram à metade do quase inesgotável e célebre “baú” repleto de textos inéditos que ele deixou ao morrer.

Há, é verdade, escritores sumamente prolíficos. A obra do jurista Pontes de Miranda, por exemplo, ascende a mais de 150 publicações. E não são, apenas, livros jurídicos, como muitos podem pensar. Legou-nos lúcidos e bem compostos ensaios, repletos de sabedoria e luz, que recomendo a todos que possam ter acesso a eles. Emile Zola foi outro que teve bibliografia das mais copiosas, assim como Honoré Balzac, Camilo Castelo Branco e tantos e tantos outros.

Nem por isso, no entanto, os que publicaram muito foram mais escritores do que os que lançaram um único livro, ou até mesmo nenhum. Vez por outra, topamos, em meio a embolorados, poeirentos e amarelecidos papéis pessoais de determinadas pessoas, descartados como lixo por herdeiros, com originais extraordinários e ficamos pasmos com o que a falta de oportunidades pode ocasionar.

O sucesso, portanto, e não raro a mera visibilidade do escritor dependem (talvez mais do que os que se dedicam a outras tantas atividades) de um aspecto que o filósofo espanhol, José Ortega y Gassett tratou com tanta propriedade em sua obra( e sobre o qual escrevi inúmeros textos): das circunstâncias.


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Saturday, April 28, 2018

Reflexão do dia


DEPENDEMOS DO TRABALHO DE UM NÚMERO INCONTÁVEL DE PESSOAS

As verdadeiras amizades, que duram para sempre e crescem, mais e mais, à medida que o tempo passa, são livres, espontâneas, sem regras nem obrigações. Não impõem deveres nem cobranças de parte a parte. Não restringem ideias e comportamentos e dispensam censuras, elogios ou reprimendas. Existem, belas, simples, livres e soltas, como fenômenos naturais e inexplicáveis. Sequer requerem explicações. Desenvolvem, mutuamente, espontânea gratidão, que nem mesmo exige declaração. Os amigos leem nos olhos uns dos outros esse sentimento, que os aproxima ainda mais. O complicado é identificar tais amizades. É ter certeza que de fato existem e apresentam essas características. Como saber? Nunca se sabe! Albert Einstein escreveu em seu livro “Como vejo o mundo”: "Centenas de vezes por dia lembro a mim mesmo que minha vida interior e exterior depende dos labores de outros homens, vivos e mortos, e que preciso esforçar-me para dar na mesma medida em que tenho recebido e estou recebendo". É a essas pessoas que devemos fidelidade irrestrita, desde que, claro, se mostrem merecedoras dela.



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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!


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CITAÇÃO DO DIA:


Eternos inimigos 

A razão e o amor são eternos inimigos.

(Pierre Corneille)



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DIRETO DO ARQUIVO - Omissão ameaça campineiro


Omissão ameaça campineiro


Pedro J. Bondaczuk


O velho princípio de que prevenir é melhor do que remediar se transformou, em Campinas, pelo menos no que diz respeito à segurança de seus edifícios, em mero velho e surrado clichê. No espaço exato de uma semana, dois grandes incêndios atingiram a área central da cidade, que só não resultaram em tragédias, com grandes perdas de vidas humanas, por fruto do acaso e pela ação competente dos bombeiros.

Não é de hoje que os campineiros vêm sendo ameaçados por desastres desse tipo, perfeitamente evitáveis se regrinhas simples, ditadas pelo bom senso, forem respeitadas.

Sem falar na tragédia do Cine Rinque, a Boate Cangaceiro, o Hipermercado Eldorado, o Eden Bar e as instalações das Casas Bahia pegaram fogo em tempos recentes, apenas para citar alguns casos, e quase todas as ocorrências tiveram elo em comum: a inobservância de normas mínimas de segurança.

Muitos outros prédios estão expostos ao perigo diante da burocracia que existe e de uma legislação inadequada no sentido da interdição dos locais de maiores riscos.

A Comissão de Vistoria e Prevenção contra Incêndio e Pânico, em recente avaliação, apurou, por exemplo, que 10% dos imóveis vistoriados têm as cargas de seus extintores vencidas. Quase todos apresentam fiação elétrica em péssimo estado e, em muitos deles, materiais inflamáveis são guardados em compartimentos de alta tensão, numa omissão criminosa por parte dos seus responsáveis (ou irresponsáveis?).

A segurança, ressalte-se, não compete apenas ao poder público mas, e principalmente, aos administradores desses edifícios. Afinal, o patrimônio é deles e a eles compete zelar pela vida e pela integridade dos seus moradores ou, no caso de se tratar de imóvel comercial, do público que o frequenta.

Tanto abuso, tanta omissão, tanta irresponsabilidade expõem a população a uma autêntica "roleta russa". Pelo andar da carruagem, e Deus queira que isso não ocorra, não está longe o dia em que a cidade vai viver o seu "inferno na torre", ter seu próprio caso Joelma, o edifício paulistano que se incendiou em 1º de fevereiro de 1974 e consumiu 188 vidas humanas, que poderiam ter sido salvas caso autoridades, administradores do prédio, moradores e usuários tivessem a devida preocupação com o óbvio: a própria segurança e a dos seus semelhantes.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 20 de fevereiro de 1994).


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CRÔNICA DO DIA - Otimismo x pessimismo


Otimismo x pessimismo

Pedro J. Bondaczuk

Os significados das palavras otimismo e pessimismo nem sempre são devidamente compreendidos. Ouso dizer que raramente são. As duas expressões têm a ver com o futuro, com o que ainda não aconteceu, mais propriamente, com expectativas. O que cada um desses termos significa já está sugerido, para não dizer explicitado, na sua própria raiz. Otimista é o indivíduo que espera o “ótimo”, o excelente, o muito bom. Por consequência, o pessimista é o oposto. Ou seja, é o que espera, posto que não deseje, o péssimo, o muito ruim, o desastroso.

São palavras que, ao contrário do que se pensa, não avaliam a realidade. Não expressam nenhum juízo a propósito. Refletem, reitero, expectativas. É certo que a realidade tem muito a ver com as posturas dos dois lados. Ela pode ser péssima e, ainda assim, o otimista irá “esperar” que sofra reversão e se torne ótima. E o mesmo ocorre no caso oposto. Ou seja, face uma realidade bastante favorável, o pessimista insiste em manter um pé atrás e esperar o pior. Sofre muito, portanto. Sofre com o que aconteceu de ruim e com o que não aconteceu e pode nunca acontecer, mas que ele acha que acontecerá. E que será ruim. Não consigo ser assim e não entendo quem o seja, quem aposta no negativo, no sofrimento e na infelicidade.

A definição mais exata de pessimismo, a que consta dos melhores dicionários, é: “Estado de espírito dos que pensam que tudo caminha para o pior”. Há várias outras, mas entendo que esta é a mais precisa. Cito uma segunda, cujo significado é o mesmíssimo, posto que com outras palavras “Pessimismo é a disposição de espírito que leva o indivíduo a encarar tudo pelo lado negativo, a esperar de tudo o pior”. Já a definição de otimismo, lógico, é exatamente o contrário, sem tirar e nem pôr. Nos dois casos, porém, a chave é a esperança. O otimista “espera” o ótimo, enquanto o pessimista aguarda o péssimo.

Essa análise semântica, na verdade conceitual, desses dois tipos de comportamento, é pretexto para discordar, posto que com elegância, de alguns leitores, que me questionaram, por e-mail, a propósito especificamente dos dois últimos textos que escrevi, sobre escravidão infantil e sobre minha intuição de que esteja em andamento uma revolução global, posto que não pacífica e nem construtiva. Ambos comentários foram considerados bastante “pessimistas”, o que causou estranheza a esses gentis críticos que têm em mim um escritor otimista. E, de fato, sou.

Esclareço que otimismo não é sinônimo de alienação. Não posso e não devo identificar uma realidade perversa como sendo positiva e ideal, por mais desinformado que seja, poderia ser qualquer coisa, menos otimista. Só que esses leitores não levaram em conta o que é essencial nesses conceitos: o fator “esperança”. Em momento algum declarei que “espero” o “pior”, em ambos os casos. E a expectativa de melhoria fica implícita no próprio fato de eu haver tratado desses temas. Se não acreditasse na possibilidade de uma evolução positiva, por ínfima que fosse, sequer abordaria as questões. Manteria o silêncio a respeito que, ademais, é a atitude da maioria dos intelectuais do nosso tempo. Ou não é?

Não, esclarecido leitor, não sou pessimista, até porque concordo com o psicólogo e filósofo norte-americano William James, que concluiu que “pessimismo é fraqueza e otimismo é poder”. A realidade mundial é a maravilha das maravilhas? Óbvio que não. É fácil de observar que o mais profundo pessimismo permeia as relações humanas. Que raríssimos são os que creem em um mundo melhor, mais justo, equilibrado e humano, sem os enormes contrastes e aberrações econômicos, sociais e comportamentais da atualidade. Mas se ninguém fizer nada para mudar, as coisas ou permanecerão como estão, ou, o que é o mais provável, tenderão a piorar. Como sou otimista, “espero” que muitos se disponham a agir concretamente em sentido positivo. Notaram a diferença? Admito, como qualquer pessimista, que a realidade é ruim, viciosa, dramática e quase insustentável. Mas, ao contrário dele, “espero” o melhor (embora – confesso – minhas esperanças não raro se vejam abaladas face tanta violência, maldade, sofrimento e injustiças).

Portanto, quando eu, na função de jornalista, menciono o desequilíbrio climático, por exemplo, não estou sendo “catastrofista”, como pode parecer aos desavisados, e nem sequer derrotista, que é superlativo de pessimista. Que não me encarem, pois, como um neurótico, ou como alguém fora da realidade, de mal com tudo e c om todos. Essa alienação (das pessoas e não minha) que conta com a aliança dos que devastam o patrimônio da humanidade em proveito próprio, transformando matas seculares em montinhos de carvão, é extremamente perigosa e não sou seu adepto.

Não me incluo, pois, entre esses alienados. O que critico nessa questão é o fato de se levar o desequilíbrio ambiental para o terreno ideológico. Se o sujeito quer viver num mundo limpo, que não se assemelhe às nauseabundas cloacas romanas, é tido por agitador, perturbador da ordem pública e outras coisas, até mesmo mais depreciativas. E essa é, sem dúvida, uma perigosa burrice e não a atitude de denunciar as agressões à natureza. Quem denuncia pode ser confundido com o pessimista?. Não é!. Se o fosse, se limitaria a resmungar, até a se desesperar, mas sem agir para deter, de alguma forma, o desequilíbrio ambiental.

A vida das grandes metrópoles, eu sei porque sinto na carne, é caracterizada pela angústia. Torna-se cada vez mais raro surpreender-se alguém com um sorriso de genuína satisfação nos lábios. O cotidiano é composto por correrias, preocupações com contas, luta por uma posição melhor, verdadeira batalha por esse lema, extremamente vago e de sentido ambíguo, que se denomina “vencer na vida”. Para cada pessoa, isto tem um significado diferente. Os meios de comunicação, por outro lado, a pretexto de pintarem o quadro do que se convencionou classificar de realidade, passam, na verdade, mensagens negativas.

Certos profissionais entendem que a comunidade está ávida somente por notícias ruins; por crimes, escândalos, aberrações sexuais e outras tantas distorções de comportamento do animal homem. Alguns, é verdade, se “deliciam” com isso. Para estes, só o negativo é digno de manchete. Por quê? Dificilmente alguém conseguirá explicar isto de maneira racional e minimamente lógica. É verdade que meus colegas de profissão, os jornalistas cumprem seu papel de retratar a realidade. Fazem-no, porém, de forma apenas parcial. Sonegam o lado positivo da realidade. São, portanto, pessimistas, e fazem apologia do pessimismo (posto que nas entrelinhas), não pelos seus relatos, mas por suas expectativas que, salvo exceções, são quase sempre pelo “pior”. Ficou claro?


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Friday, April 27, 2018

Reflexão do dia


SOMOS UMA SOMA DE “MÚLTIPLAS PARCELAS HUMANAS”

Aquilo em que acreditamos é o roteiro pelo qual pautamos pensamentos, sentimentos e atos. Na vida impera a lei natural da causa e consequência. Tudo o que fizermos, de bom ou de ruim, nos trará resultados de idêntica natureza. Não podemos nos manter fiéis ao que nos prejudique, desvalorize ou, até, mesmo que apenas potencialmente, possa nos matar. Precisamos uns dos outros, é fato. Ninguém é autossuficiente, o que é para lá de óbvio. O cronista Mário da Silva Brito escreveu, em uma crônica de 1961, publicada no Suplemento Literário do jornal "O Estado de São Paulo": "Nunca fui eu só, ou só eu. Mas todos os outros. Os antepassados, os que me rodeiam, os que pertencem ao meu tempo. Os que amo e até os desconhecidos. Estou feito de pedaços. Sou uma soma de múltiplas parcelas humanas. Consigo somar até quantidades heterogêneas". Todos somos assim. Nosso próximo tende a nos enriquecer (ou depreciar), a ampliar (ou estreitar) nossos horizontes e a estimular (ou deprimir) em nós o espírito de competição, sem o qual, desde que sadio, ninguém se sente motivado para qualquer realização (mesmo quando se opõe a nós). Mas pode, como ressaltei, igualmente, nos corromper, desvalorizar, diminuir e até nos matar.


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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!


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CITAÇÃO DO DIA:


Tragédia humana 

Existe uma necessidade absoluta de se sentir desejado e neste círculo do desejo é muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam, o que é uma das grandes tragédias do ser humano.

 (Pedro Almodovar).



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DIRETO DO ARQUIVO - Antes tarde do que nunca


Antes tarde do que nunca



Pedro J. Bondaczuk


A área central de Campinas, com seus prédios outrora imponentes, do início do século passado – , época em que a cidade tinha na produção de café sua grande fonte de renda e rivalizava com São Paulo como próspera e populosa metrópole do Estado –, por uma série de razões, entre as quais um certo desinteresse público na preservação desse importante patrimônio arquitetônico, se deteriorou.

Cartazes, faixas, letreiros e placas, de gosto no mínimo duvidoso – e além de tudo ineficientes para atrair clientes – proliferaram, causando desnecessária (e indesejável) poluição visual, espantando, mais do que atraindo, frequentadores.

Muitos comerciantes, proprietários ou inquilinos dos imóveis, por outro lado, pecaram pela falta de manutenção. Ou demonstraram enorme mau gosto, imensa falta de capricho, nas raras reformas que fizeram, que não passaram de remendos sem nenhum critério, precários e feios, e que só conseguiram descaracterizar, e piorar o aspecto das edificações, que já então não era dos melhores.

De repente, o Centro de Campinas, de bela concepção arquitetônica e estilística, quando os casarões foram construídos, e que durante muitos anos se constituiu em cartão de visita da própria cidade, adquiriu aspecto sombrio, cinzento, de desleixo e de decadência. Chegou a se cogitar, inclusive, em determinada ocasião, da transferência da área central de Campinas para outras regiões, tamanha era a sua decadência.

O bom senso, porém, parece que prevaleceu. A partir de 2000, grupos de lojistas se uniram para elaborar um amplo projeto, em parceria com o Poder Público, para restaurar, revalorizar e revitalizar essa importante região, que havia sido transformada numa espécie de ”cortiço comercial”.

E o processo, posto que ainda moroso, já está em andamento. Começou por iniciativa dos próprios comerciantes da zona, cansados de esperar pela ação, tradicionalmente lenta, do Poder Público. Com a simples retirada de alguns cartazes, faixas, letreiros e marquises, a beleza arquitetônica de alguns imóveis já começa a aparecer, posto que ainda não em todo o seu esplendor, desgastados que estão pela implacável ação do tempo.

O Centro, finalmente, está prestes a ganhar regras claras, rígidas e bem definidas para a colocação, por exemplo, de publicidade em prédios tombados pelo Conselho do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas, pondo fim à poluição visual.

As normas, ainda em fase de elaboração, vão constar de manual, a ser distribuído ainda este ano aos lojistas da área. Espera-se, no entanto, que não se constituam em letras mortas. Para evitar isso, é indispensável que sejam devida e rigorosamente fiscalizadas, para que a área nunca mais volte a se deteriorar.

A cidade quer de volta o seu cartão de visitas. A população exige mais respeito pelo grande símbolo da prosperidade econômica e excelência cultural desta metrópole de um milhão de habitantes, que não quer, e não pode, perder de vista as suas raízes. E todos sairão ganhando, de uma forma ou de outra, com essa revitalização do Centro, que não deve, no entanto, continuar sofrendo protelamentos.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do jornal Roteiro, em 1º de outubro de 2002).


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CRÔNICA DO DIA - O conquistador... de prêmios


O conquistador... de prêmios


Pedro J. Bondaczuk



O romancista norte-americano Philip Roth vem se caracterizando, há já muito tempo, como grande conquistador. Mas não de mulheres e nem de impérios. Suas conquistas restringem-se ao campo da Literatura, o que não é pouca coisa. Até 2011 havia ganhado vinte prêmios, entre os quais o mais conhecido e badalado foi o Pulitzer de 1996, na categoria ficção, com seu livro “Pastoral americana”.
Há mais de uma década, em todos os anos, invariavelmente, esse escritor vem sendo apontado como favorito ao Nobel de Literatura. Que ainda não ganhou, destaque-se. Não tenho dúvidas, contudo, que uma hora irá ganhar, pois reúne todos os méritos para isso. Quando? Nem os jurados dessa premiação, com certeza, têm a menor ideia.
Em 2011, Roth juntou o 20º prêmio literário à sua vastíssima coleção, com a conquista do prestigioso Man Booker International, na Inglaterra. Concorreu com outros onze escritores, todos de grande prestígio e visibilidade, muitos deles campeões de vendas, como, por exemplo, o britânico John Le Carré (popular por suas histórias de espionagem, das quais uma das mais populares é “O espião que veio do frio”). Este prêmio já foi dado, em anos passados, a outros ilustres ficcionistas, como o albanês Ismail Kadaré, o nigeriano Chinus Achebes e a canadense Alice Munro.
Quando se fala, portanto, em literatura contemporânea, notadamente a de ficção, e mais especificamente ainda em romances, seu nome ocupa, necessariamente, lugar de destaque, quer junto ao público, quer em relação à crítica especializada. Roth é, sem dúvida, “figurão” no mundo das letras, em âmbito internacional e com amplos méritos. Ninguém lhe faz qualquer favor ao considerá-lo como tal, mas se limita a reconhecer sua competência e inteligência.
Claro que o escritor, de origem judaica, reúne os dois fatores essenciais (e rigorosamente nessa proporção) que são: transpiração (99%) e inspiração (1%). É a única forma de se vencer nesse competitivo e instável (geralmente frustrante) mundo das letras. Além do que, Roth conta com mais de 50 anos, ou seja, com mais de meio século de experiência literária. E isso, aliado a um inegável talento narrativo inato, conta, e muito.
Pode-se dizer que o romancista norte-americano é um “operário da palavra”, classificação essa que uso não em sentido pejorativo como pode parecer aos desavisados, longe disso, mas para caracterizar sua produtividade e sua assiduidade no mercado editorial. Muito escritor (possivelmente a maioria) se acomoda após um, dois ou, no máximo, cinco livros de sucesso. Não é, óbvio, o caso de Philip Roth.
Há quem ache que ele vem perdendo vigor narrativo e se tornando repetitivo. Discordo. Essa opinião não se sustenta diante do fato de conquistar, há apenas sete anos, o Man Booker International, superando concorrentes de peso. Alguns chegam ao cúmulo de afirmar que após “Complexo de Portnoy” ele não escreveu mais nada que prestasse. Outra bobagem. Afinal, não foi com esse livro que conquistou o Pulitzer, mas com o eletrizante “Pastoral Americana”. Todo escritor está sujeito a toda a sorte de opiniões. Algumas são pertinentes e fundamentadas. Boa parte delas, porém, baseia-se exclusivamente no gosto pessoal, que é variável, quando não volátil e nem sempre quem adota esse critério conta com um mínimo de bom gosto. .
Da minha parte, não há um só livro de Philip Roth ao qual me disponha a colocar qualquer reparo. E olhem que já li vários, como o citado “Complexo de Portnoy”, “Operação Shylock”, “O animal moribundo” e “Pastoral Americana”, dos que me lembro. Admiro, sobretudo, seu senso de humor, um tanto cáustico é verdade, descambando quase sempre para a ironia, mas não a grosseira, porém a elegante e inteligente.
Ademais, ninguém conquista tantos prêmios literários se não escrever bem. Talvez, por um desses acasos da vida, admitamos, ganhe um e, quem sabe, dois, de seus concorrentes forem piores. Mas ganhar 20?! Sem qualidade e sem talento é completamente impossível. Philip Roth criou um personagem que é recorrente, e que se faz presente em vários de seus romances. Trata-se do escritor (que ele inventou) chamado de Nathan Zuckermann.
Há quem o considere uma espécie de “alter ego” do romancista. Coloca na boca desse personagem opiniões pessoais polêmicas, marcando, dessa forma, sua posição de intelectual atento e bem informado. Não posso garantir que assim seja (creio que ninguém, a não ser o próprio autor, pode).
Outra das suas características, presente em praticamente toda a sua obra, é a especulação em torno da natureza do desejo sexual. Ela é perfeitamente identificável pelo menos na maioria dos seus romances. Sua marca registrada, porém, é o monólogo íntimo. É uma tentativa constante de autoconhecimento, desafio muito maior e mais frustrante do que muitos supõem.
Várias das obras de Philip Roth tratam da identidade e da assimilação dos judeus na sociedade dos Estados Unidos, assunto que conhece de sobejo, até em decorrência da sua origem étnica. Há quem entenda que o escritor atingiu a maturidade literária com a Trilogia Americana, composta pelas novelas “Pastoral Americana” (que li, como já citei, e que lhe valeu o Pulitzer), “Casei com um comunista” e “A marcha humana”. Não me surpreenderei nem um pouco se Philip Roth, emérito conquistador de prêmios, ganhar, neste ano, o maior da sua vitoriosa carreira: o Nobel de Literatura.

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