Monday, April 30, 2012

Muitas vezes usamos, como pretexto para justificar maus atos e maus pensamentos, nossa incapacidade para resistir às tentações. Se o mal nos tenta, no entanto, é porque não achamos que ele seja isso. É porque estamos predispostos a ele por acharmos que seja prazeroso. É porque, no íntimo, achamos que se trate de bem e, portanto, fonte legítima de satisfação. Concordo com George Bernard Shaw quando afirma: “Nunca resisto a tentações porque descobri que coisas que são ruins para mim não me tentam”. Não precisamos experimentar o que não presta, o que nos degrada, o que nos traz riscos ou conseqüências danosas, físicas e/ou morais, para saber que se trata de um mal. Quem precisa, pois, fugir de tentações, tem que rever, com urgência, os seus valores e prioridades.

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Chico e Jô devolvem o riso à TV

Pedro J. Bondaczuk

O retorno dos programas humorísticos de Jô Soares e de Chico Anysio e a estréia do show mensal comandado por Chico Buarque de Holanda e Caetano Veloso, na Rede Globo, marcaram as novidades da semana na televisão. Finalmente, após quase quatro meses em que, finda a novela das oito, o telespectador teve que se “empanturrar” de enlatados (quase todos já exibidos pelo menos duas vezes antes pela emissora), o público tem alguma opção a mais ao ligar o seu receptor. Até agora ninguém entendeu a razão desse canal dar essas férias tão prolongadas aos seus maiores astros. Só se for para que as outras redes recuperem um pouquinho de audiência diante da evidente supremacia global nesse aspecto.



A volta de Jô veio acompanhada de novos personagens criados por esse genial humorista, um dos maiores caricaturistas de tipos do cotidiano. E, como sempre, interpretados com enorme talento por esse fabricante de risos, que estava fazendo enorme falta nas noites de segunda-feira (dia em que, por motivos óbvios, sorrir se torna até mesmo necessidade). Das recentes criações, embora tivéssemos apreciado todas, a que, ao nosso ver, tem condições de conseguir maior popularidade é a “Fiscala do Sarney”. Trata-se, sem dúvida, de uma figura, aliás muito parecida com outras reais com as quais todos topamos ultimamente nestes dias de vigência do Plano Cruzado.



Mas se o retorno de Jô Soares nos devolveu o riso solto e desinibido, a volta de Chico Anysio repôs no vídeo a anedota espirituosa, o humor inteligente, a sutil crítica dos nossos costumes e das nossas manias. Não há como negar (e isso já é praticamente unanimidade nacional), ambos são, há tempos, disparados, os dois maiores humoristas surgidos em nossa televisão. Entra ano, sai ano, conseguem sempre manter o interesse e a atenção do público, como se cada nova apresentação fosse uma estréia.



Nosso meio artístico conheceu no passado muitos e bons humoristas. Mas a totalidade deles pecou por um mesmo mal. Após um certo período, toda essa gente acabou cansando o telespectador. Alguns se desgastaram por serem repetitivos. Outros, por tentarem encarnar tipos de fora, norte-americanos ou britânicos, portanto sem nenhuma identidade conosco. E outros, ainda, por exagerarem nas caricaturas, quer sociais, quer políticas, retirando toda a verossimilhança dos tipos que buscavam interpretar.



Com Jô e Chico isso não se verifica. O primeiro sempre esteve nos vídeos, desde os tempos da saudosa “Família Trapo”, na metade da década de 60. Mas, desde então, criou uma infinidade tão grande de caracterizações, que nem mesmo o telespectador de melhor memória consegue enumerar todas. Não que elas não tivessem sido marcantes. Mas porque foram tão variados os tipos criados, que dificilmente deixamos de omitir algum.



Quanto ao Chico Anysio, o humorista lembra muito aquela surrada comparação com o vinho que, embora não seja original, serve bem para exemplificar o que acontece com ele: melhora à medida que envelhece. Afinal, esse cearense criativo está na TV há pelo menos trinta anos. Praticamente a totalidade de seus contemporâneos já se aposentou. Alguns, inclusive, já morreram. E Chico continua mais firme do que nunca, atual, engraçado, inteligente, como na época em que o seu “Coronel Limoeiro” era uma fonte de gírias e de bordões, que circulavam por quase todo o Brasil, embora a Excelsior, canal onde atuava, atingisse apenas o eixo Rio-São Paulo.



Suas caracterizações já passam de uma centena. Contá-las exige quase o mesmo esforço que a gente fazia antigamente em relação ao Pelé, para contabilizar os gols, tão fartos eles eram a cada semana. Os personagens de Chico também são assim. E, o que é mais admirável, é que um não lembra nenhum outro antes personificado. Todos têm personalidades próprias, cacoetes só seus, como se fossem mesmo outras pessoas. O humorista, também nesse aspecto, é um fenômeno que jamais será imitado. Bem que alguns artistas tentaram fazer isso, mas ninguém conseguiu, e nem vai conseguir.



Os retornos de Jô e Chico trazem descontração à semana. E acontecem num momento rico de fatos para serem caricaturados. Afinal, estamos numa época de transformações de costumes, num ano eleitoral, em que teremos que escolher nossos representantes para a Assembléia Nacional Constituinte. É muito salutar, por essa razão, que as principais deficiências dos políticos sejam ironizadas, para servir até de parâmetros para o eleitor no momento de votar.



É hora, também, de tipos como o “Zé da Galera” e o “Coalhada” transformarem-se em vedetes. Afinal, estamos a apenas 35 dias do início da Copa do Mundo do México, sem que tenhamos, ao menos, um time base. Somente na próxima semana, conforme pudemos deduzir, com a chegada dos chamados “italianos”, é que as coisas vão começar a se definir. Essa situação, certamente, será um prato cheio para o “Zé da Galera”. E dificilmente vai escapar do crivo do “Coalhada”, que pode muito bem ser um dos próximos convocados para salvar nossa seleção de um vexame. Agora já temos como desopilar o nosso fígado das besteiras que vemos e ouvimos no dia a dia. Com Jô e Chico tudo volta, outra vez, a ser motivo de riso. E isso é santo remédio contra o pessimismo e outros males.



(Comentário publicado na coluna Vídeo, página 12, editoria de Arte e Variedades do Correio Popular, em 26 de abril de 1986).

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Uma bossa que é eterna


Pedro J. Bondaczuk



O Brasil sempre foi tido e havido, e por muito tempo, como o “país do futuro”. Alguns, ainda, consideram-no como tal. Outros tantos, entusiasmados com o surto de progresso que por aqui se verifica há já mais de uma década, entendem que estas terras descobertas por Cabral já são do “presente”. Acham que o Brasil já é uma sociedade emergente, que caminha, a passos largos, para tornar-se uma das potências do século XXI. Os pessimistas (e são muitos), com base, principalmente, em nossas tantas carências, que ainda não foram supridas, entendem, todavia, que a nossa oportunidade de obter destaque (e até liderança) internacional já passou.



Discordo deles. Fico no meio termo. Não sou nem o alienado ufanista, que enxerga tudo cor de rosa, sem atentar para nossas múltiplas carências e deficiências (sobretudo estas) e nem o alienadíssimo e sempre amargo derrotista, que não reconhece sequer o óbvio e palpável: nossa inegável evolução econômica e social . Vejo com bons olhos nosso futuro. Claro, condiciono-o ao comportamento, tanto dos governos, quanto da população, no sentido de construí-lo. Sou dos que não ficam nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Afinal, como dizem os sábios, “a virtude está no meio”.



Essa classificação de “país do futuro” popularizou-se, principalmente, a partir da primeira metade do século XX, quando o escritor Stefan Zweig – que se apaixonou pelo Brasil, aqui viveu, batalhou, amou e... morreu, cometendo suicídio – publicou seu famoso livro com esse título. Em sua obra, ridicularizada por muitos até nos tempos atuais, levou em conta não apenas nossas decantadas riquezas naturais, mas, principalmente, a cordialidade do nosso povo e nossa alegria de viver. Ademais, naquela época o Brasil caracterizava-se pela juventude, já que então a imensa maioria da população era constituída de crianças e de adolescentes. Hoje... bem, não é mais assim.



Meu tema, todavia, não é bem esse. É, pelo menos na aparência, bem mais prosaico e trivial. Mas... nem tudo o que parece de fato é. Como é de meu costume, não quero introduzir esse assunto de chofre, de repente, sem fazer um tantinho de suspense. Afinal, meu estilo é assim. Raras vezes proponho-me a fazer um ensaio, profundo, erudito, repleto de jargões, supostamente objetivo, característica dos textos da imensa maioria de sisudos intelectuais. Respeito a forma de escrever deles, mas batalho para que respeitem a minha maneira de comunicar idéias. Gosto de transformar esse exercício dialético num bate-papo, caracterizado, sobretudo, pela informalidade. Isso sem menosprezar o conteúdo.



Políticos cooptados, economistas engajados e propagandistas do período de “ufanismo” da década de 70 – que na verdade não ensejava motivos de ufanismo, por ser, como se viu na sequência, na verdade o que passou para a História como os “anos de chumbo” da ditadura militar – não cansavam de repetir, a qualquer pretexto, que éramos o “país do futuro” na trilha do pleno desenvolvimento. A premissa estaria certa, não fosse essa última parte. As múltiplas bobagens, notadamente o escandaloso endividamento externo, cometidas pelos ditadores de plantão iriam resultar não no desejável salto adiante, em termos econômicos e sociais, mas numa perversa (e de triste memória) hiperinflação.



Em 15 de novembro de 1987, a Saldiva & Associados Propaganda divulgou uma pesquisa de opinião que, na época, deu o que falar. A empresa entrevistou na ocasião duas mil pessoas, sendo 1 mil em São Paulo e outro tanto no Rio de Janeiro. Queria medir o nível de otimismo (ou de pessimismo, claro) do brasileiro, em relação ao futuro imediato. Chegou à conclusão que a maioria da população estava nostálgica em relação ao passado e descrente com o que viria à frente.



A tendência era a de supervalorizar lembranças, expurgando-as de tudo o que de negativo pudessem registrar, considerando os anos passados, sobretudo os que antecederam o golpe militar de 1964, como “bons e velhos tempos”. Não fui pesquisado a propósito na ocasião. Se o fosse, todavia, minha resposta seguiria essa mesmíssima tendência, que era a da maioria. Essa hipervalorização do passado prevaleceu em todas as faixas etárias, independente de sexo, e em todas as categorias sociais e de renda.



O pitoresco foi o fato de jovens dos treze aos dezoito anos, que sequer eram nascidos nos tempos de que diziam ter saudades – da segunda metade dos anos 50 à primeira dos 60, cunhada como a época dos “anos dourados” – se constituírem na grande maioria dos saudosistas e dos desencantados com o futuro. Isso refletia bem a crise que o País vivia em 1987, nos primeiros e difíceis anos pós-ditadura militar, que era também (ou sobretudo) de falta de confiança e de credibilidade nos políticos.



Naquela onda de nostalgia, um movimento musical que, quando surgiu, ficou restrito a alguns poucos anos (quinze, se tanto), subitamente voltou à moda. Por pouco tempo, é verdade. Mas voltou. Refiro-me à Bossa Nova, sobre a qual pretendo escrever, com mais detalhes, nos próximos dias, e quantos textos forem necessários para registrar minha visão sobre o que foi e o que significou para a nossa cultura. Quando esse movimento completou, em 2008, o “Jubileu de Ouro”, escrevi a propósito, mas apenas a título de registro. Contudo, dada sua importância, entendo ser oportuno tratar a respeito com mais vagar e detalhes.



A Bossa Nova, embora um tipo de música elitista, e por isso, antipopular, “emplacou”, principalmente no Exterior, quer nos Estados Unidos, quer em quase toda a Europa. Atingiu o público dessas regiões de tal forma que, ao lado do futebol e do café, passou a caracterizar o Brasil mundo afora. Ainda hoje, essas três coisas são uma espécie de símbolos do nosso país fora das nossas fronteiras. Além disso, constituiu-se num dos raros capítulos completos da MPB: teve começo, meio e fim razoavelmente definidos, ao contrário do que em geral ocorre com outros movimentos musicais. Daí merecer minha atenção: por “despertar saudades” até em quem não era nascido na época em que surgiu e que teve seu período áureo.

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Sunday, April 29, 2012

Só não erra nunca quem não faz nada e passa a vida como parasita, explorando o esforço de quem tenta melhorar o mundo, sem contribuir em nada para o bem-estar próprio e da comunidade. A vida não comporta expectadores, mas requer agentes, tanto para praticar os atos mais simples, quanto para as obras mais complexas, que exigem preparo e esforço. George Bernard Shaw escreveu, em uma de suas tantas peças teatrais: ”Uma vida cometendo erros não é mais honrada, mas é mais útil do que uma vida gasta fazendo nada”. Nada é mais condenável do que a preguiça, o comodismo e, principalmente, a omissão. É preferível errar uma, duas, dez, cem, mil vezes, do que nunca cometer erros, por jamais tentar fazer o que quer que seja.

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Promessas perigosas

Pedro J. Bondaczuk



O ano que recém-iniciamos se reveste de uma importância toda especial para os brasileiros, às voltas com uma crise que parece não ter mais fim. Além de marcar a solução dos problemas pendentes em 1993 – como a cassação ou não dos mandatos dos sete “anões” do Orçamento e de seus cúmplices, que ajudaram a furtar os cofres públicos, a serviço das grandes empreiteiras e dos ajustes que se espera sejam feitos na Constituição durante a revisão constitucional – os eleitores terão uma preciosa chance de se redimir da péssima escolha feita nas últimas eleições presidenciais, quando se deixaram levar pelos discursos e jogo de cena de Fernando Collor.

É desnecessário repetir no que deu esse voto dado apenas emocionalmente, sem maiores análises, erro ditado pela vã esperança do surgimento de um “salvador da Pátria”, que livrasse o País da corrupção, da inflação e da miséria. É preciso que os brasileiros se conscientizem que não há milagres. O que existe é trabalho, honestidade, planejamento e, sobretudo, competência. O caminho do sacrifício, da dedicação e da solidariedade é o único que une pessoas fracas e as transforma em forças poderosas e irresistíveis, que forjam nações com destino de potências.

Países que precisam de “salvadores da Pátria” não merecem ser salvos. Estão mortos. Todos sabemos no que deu nosso último “milagre”. Portanto, o eleitor deve ficar mais atento do que nunca nos programas a serem expostos pelos candidatos para a sua análise. Não temos mais o direito de errar.

Em termos econômicos, o País tem à sua frente dois caminhos absolutamente distintos. No primeiro caso, o plano exposto recentemente pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, finalmente obtém êxito e a inflação é controlada. Caso isso ocorra, certamente os capitais externos, de que tanto necessitamos para promover nosso desenvolvimento, afluirão para reabilitar nossa economia e possibilitar novos investimentos, geradores de empregos e, portanto, da ampliação do mercado interno e de geração de riquezas.

No cenário oposto está a perda de controle sobre a inflação, com as taxas galgando, sucessivamente, patamares mais altos, até que a nossa atual superinflação se transforme numa hiper. Este quadro trágico seria desastroso em todos os sentidos, ampliando, em muito, o contingente de 32 milhões de famintos e de outros tantos de sem-teto que perambulam sem destino e sem esperança pelas ruas das grandes cidades.

O desespero gerado por eventual agravamento da crise pode levar o País ao caos social – em cuja vizinhança já se encontra – colocando em risco não apenas a ordem pública, mas as instituições e a própria democracia, reconquistada às duras penas.

Num terreno mais ameno, 1994 é ano de Copa do Mundo, igualmente com dois cenários diametralmente opostos pela frente, na dependência da ação inteligente ou não dos nossos “cartolas”. Futebol o Brasil já mostrou de sobejo que tem para dar e vender. Com um pouquinho que seja de organização por parte da CBF e com uma convocação honesta e, sobretudo, competente, por parte da comissão técnica, o caneco virá para cá pela quartas vez. Caso contrário, será mais uma frustração a amargar.

Como se percebe, em política, economia, esporte ou em qualquer outra atividade, o êxito ou o fracasso estão na dependência exclusiva da nossa ação, autodisciplina e competência. Não há destinos pré-traçados ou determinismos inexoráveis. A única coisa de que não podemos escapar jamais é da morte, cuja chegada, felizmente, não podemos nunca prever. No mais, tudo está em nossas mãos, aguardando que construamos o nosso sucesso como formiguinhas, passo-a-passo, dia-a-dia, com dedicação e constância.


(Artigo publicado na página 2, Opinião, da Folha do Taquaral, em janeiro de 1994)

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Genialidade dissecada

Pedro J. Bondaczuk



O gênio já nasce superdotado de inteligência ou a genialidade pode ser desenvolvida, de acordo com a educação, o treinamento e várias outras circunstâncias favoráveis ao desenvolvimento de uma capacidade superior, acima da média? Esta é uma discussão quase que interminável, com argumentos prós e contras a ambas as teses e todos bem fundamentados. Entendo que, como sempre, a verdade está no meio.



Creio que haja algumas características genéticas que, se devidamente desenvolvidas e estimuladas, produzem a emersão da genialidade. Acredito, porém, que nem todos que tenham esse potencial se tornem gênios. Não creio que manifestem, por si sós, habilidades mentais muitíssimo acima da média e, principalmente, direcionem essa inteligência superior para produzir obras marcantes e únicas. Claro que não sou especialista na matéria. Opino, apenas, com base em observações pessoais e naquilo que ouço e que leio. Posso estar enganado? Claro que sim. Aliás, um eventual equívoco meu, sobretudo numa questão tão complexa e polêmica, não seria nenhuma novidade. Longe disso.



Há quem ache, por exemplo, que os bem-dotados, considerados gênios, contam com algum fator biológico especial. Mas qual ele seria, caso seja isso, realmente, o que determina sua superioridade de inteligência? O tamanho do cérebro teria alguma influência? Em caso positivo, em que medida? Quais os fatores que determinaram a genialidade, por exemplo, de um Albert Einstein, de um Beethoven, de um Salvador Dali ou de um Linus Pauling, entre tantos outros, em suas respectivas atividades? E, afinal, o que vem a ser inteligência?



Sei que já tratei desse assunto, aqui mesmo, neste espaço, e naquela oportunidade cheguei a conclusão semelhante da convicção que nutro atualmente. A de que, mesmo as pessoas que tenham capacidade de inteligência, digamos, “normal”, naquilo que se considera a média da maioria das pessoas bem sucedidas em suas atividades, se contarem com circunstâncias favoráveis e receberem os estímulos adequados, “podem” (e notem bem o verbo que utilizei, que define apenas uma possibilidade e não uma certeza) manifestar genialidade.



Constatei, recentemente, que não estou sozinho nesta minha opinião. Tenho companhia, aliás das mais ilustres. Refiro-me ao jornalista norte-americano David Shenck. Seu mais recente livro lançado no Brasil em 2011 pela Zahar Editora trata exatamente disso. Ele sugere aquilo em que acredito já a partir do título da obra, “O gênio em todos nós”. Pode vibrar, portanto, caro leitor. Você tem potencial para a genialidade. Claro que ela, certamente, não irá se manifestar automaticamente, num passe de mágica. Isso é tão raro que se pode, até, afirmar, que não existe. Ou quase não existe.



Se você quer ser gênio, precisa desenvolver seu potencial. Precisa criar estímulos adequados e, sobretudo, persistir, num constante treinamento mental que, entre tantas coisas, requer férrea autodisciplina. Se você tiver essa capacidade, já andou meio caminho. Persista, não desanime, crie novos interesses, desenvolva novos estímulos mentais e... Talvez (note bem, digo “talvez”) chegue ao objetivo que tanto persegue.



Mas, ao contrário do que muitos abalizados pesquisadores afirmam, ninguém nasce genial. Torna-se assim. Como, ademais, também ninguém vem ao mundo dotado de férrea e inabalável imbecilidade, de renitente cretinice. Igualmente se torna assim, ou se deixa transformar em deficiente mental.



David Schenck, festejado jornalista – foi ou ainda é (não sei) colaborador de prestigiosas publicações, como a “The National Geographic”, “Gourmet”, “Harper’s”, “Slate” e ”The New Yorker”, e autor de vários livros de sucesso, entre os quais “O jogo imortal” – demonstra que, praticamente tudo o que você já leu ou que já ouviu falar a propósito de genética, talento e Quociente de Inteligência, está errado.



O jornalista admite que possa, até, haver certa dependência dos genes. Todavia, após pesquisar manifestações de genialidade em diversas áreas de atividade intelectual, ou seja, de pensamento, nos induz à conclusão que o homem não somente pode, como deve desenvolver e, sobretudo, moldar, as próprias habilidades. Claro que isso não poderá ser feito com preguiça mental. Nenhum ser humano explora mais de 5% da capacidade mental do seu cérebro. Esta é a porcentagem com que os gênios preenchem seus bilhões de neurônios com informações. As pessoas comuns, que se convenciona chamar de “normais”, utilizam, apenas, 2,5%, no máximo, dessas células no transcurso de suas vidas. Notaram que universo de possibilidades está aberto (diria “escancarado”) à nossa frente?



Face ao exposto, creio que a forma mais adequada de concluir estas despretensiosas reflexões é repetindo o que escrevi em meu texto anterior em que abordei a questão, neste espaço. “Talvez a chave da genialidade, ou da maior ou menor inteligência, esteja na postura que se adota face à realidade e não no tamanho da massa cerebral, ou na quantidade maior ou menor de neurônios ou de células gliais.



Talvez seja a consciência do papel que cada um tem a desempenhar no Planeta. Talvez se encontre na satisfação de realizar alguma obra, não importa seu tamanho ou duração, e sempre da melhor maneira que ela puder ser feita. Talvez resida na participação ativa (jamais como mero e indefeso espectador) nos acontecimentos, atuando de modo a modificar, ou pelo menos atenuar, os atos que possam trazer prejuízos aos outros e melhorando, sempre que possível, os que beneficiem à coletividade.



Quem sabe, agindo assim, a maioria de nós não se surpreenderá com o próprio potencial, muitas vezes anestesiado por um frio e insensato pessimismo, quando não por bovina resignação. Talvez até cheguemos a topar com a mesma perplexidade revelada por Albert Einstein, quando constatou: ‘O que há de incompreensível no mundo é ele ser compreensível’”. E não é?!!!

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Saturday, April 28, 2012

Creio que pouca coisa seja mais opressiva e torturante do que a solidão, embora esta seja, muitas vezes, preferível a certas companhias, que nos são sumamente nocivas. O bom é estarmos sempre acompanhados de pessoas que amamos, ou às quais estejamos ligados por fortes laços de amizade (que é uma forma sofisticada de amor) ou daquelas que têm alguma coisa a nos acrescentar (a nos ensinar, ou a aprender conosco) ou as que se mostram dispostas a nos hipotecar solidariedade quando mais precisamos. Estes são os tipos de companhia que buscamos, por nos trazerem segurança e satisfação. Morris West observou, através de um dos personagens do seu romance “A Salamandra”: “O inferno não é mais que um lugar escuro e silencioso. A condenação eterna significa estar trancado nesse lugar...sozinho”. Falta de luz (não só no sentido literal, físico, mas no espiritual) e solidão são, portanto, duas terríveis formas de torturas.

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Indignação

Pedro J. Bondaczuk

Indignado. Santa indignação
com todos déspotas da Terra!

Loba faminta, com gosto
de sangue na boca.
Hiena esquiva e covarde.
Gargalhada sinistra
e cavernosa, na disputa
por carcassas putrefatas.

Indignado. Santa indignação
com os arremedos de justiça!

Multidões escravizadas,
prevalência do mais forte,
as virtudes escamoteadas,
sinistra sombra da morte.

Indignado. Santa indignação
com agiotas e usurários!

Geração após geração,
Planeta que se consome,
desperdício e corrupção,
milhões que morrem de fome.

Indignado com tantos horrores,
com esse engodo quase perfeito,
com a decadência de valores
e a falência do Direito.
Indignado, mas impotente
para a mínima reação,
sinto-me fraco e doente.
Ah! Santa indignação!

(Poema composto em São Caetano do Sul, 16 de novembro de 1962).

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Convívio com as frustrações

Pedro J. Bondaczuk



A primeira lição que um escritor tem que aprender, antes de ser considerado como tal, é a de conviver com frustrações”. Concordam com essa afirmação? Pois eu concordo. Devo esclarecer que não fui eu o autor dessa peremptória declaração. Li-a, dia desses, nas redes sociais. Serei específico, topei com ela no Twitter. Infelizmente, não fui competente o suficiente para anotar quem “twittou” isso (e me perdoem o neologismo que, no meu entender, cabe a caráter aqui).



Bem, não é apenas o escritor que precisa aprender a conviver com frustrações. Todos nos frustramos, amiúde, uns mais, outros menos, de acordo com a personalidade de cada um e, em especial, com suas circunstâncias. E por que, então, especifico essa atividade em particular, e com tamanha ênfase (aliás, reitero, nem fui eu o autor original dessa constatação), como quem deva aprender essa desagradável lição, e com primazia? Por uma série de razões.



O primeiro motivo é que se trata de um dos meus “métiers” (o outro, não menos frustrante, por sinal, é o jornalismo) e, portanto, posso testemunhar a propósito por experiência própria. O segundo é que são poucas as atividades que começam cercadas de tantas esperanças, sonhos e fantasias e que, em confronto com a dura realidade, pouco a pouco se diluem, se desfazem, viram pó e se transformam numa única e imensa frustração. Ademais, ela nem mesmo é reconhecida como profissão. No entanto, para ser bem exercida, exige tanto de quem a abraça, e lhe dá (salvo raríssimas exceções) tão minguado retorno (na maioria dos casos, nem dá algum), que sequer é compensadora.



Por que não escrevi que a primeira lição que o escritor precisa aprender, e muito bem, é a do manejo correto do seu idioma? Porque é o óbvio dos óbvios. Porque para se considerado como tal, a premissa é que saiba escrever. Se não souber, pode ser chamado de qualquer outra coisa, de tudo, menos de escritor. Isso, portanto, fica implícito. Define e determina a própria atividade.



Não há nenhum curso específico que habilite alguém a ser bem sucedido nesse “métier”. Diz-se que o de Letras tem esse papel. Todavia, se o sujeito não tiver vocação para isso, se não contar com talento e não for tomado de inesgotável paixão, pode tirar diploma na mais qualificada faculdade da mais renomada e reconhecida universidade do Planeta que, ainda assim, nunca será escritor. Pode até escrever um ou vários livros. Pode (caso que nem mesmo é tão raro), ser best-seller. Pode ganhar rios de dinheiro e até alguns prêmios literários. Mas... se não tiver talento, se não tiver paixão, se não tiver sangue nos olhos (e me perdoem a metáfora de mau gosto)... nunca será escritor. Não passará de curioso, de garatujador, de escrevinhador (que é como muitas vezes me sinto).



Nem é preciso relacionar muitas frustrações com as quais se têm que conviver. Quem é do ramo conhece-as muito bem Querem um exemplo? Você tem, há anos, esboçado na cabeça, aquele livro que no seu entender fará furor, venderá dezenas de milhões de exemplares, o fará reverenciado pela crítica e pelo público e o credenciará à conquista, quem sabe, do Nobel de Literatura. Quando se dispõe a escrevê-lo, contudo, não encontra as palavras adequadas para expressar com exatidão o que queria.



Ao proceder à necessária pesquisa que fundamente e ressalte o teor do que você se propõe a escrever, não encontra as fontes. E quando as localiza, estas são pífias e confusas. Mais confundem do que esclarecem. Subitamente, aquela sua potencial obra-prima transforma-se num monstrengo que, se você se arriscasse a mostrar para alguém, certamente cairia em ridículo. Seria, em vez de candidato a incontáveis e merecidos elogios, digno de galhofas e de chacotas. Esta não é, claro, a única e sequer a maior das frustrações com as quais tem que aprender a conviver. A pior, no meu julgamento, é a que se refere aos “resultados” do seu labor.



Querem um exemplo desse tipo de frustração? Simples. Digamos que, num determinado dia, bafejado pelos deuses, você redija um texto primoroso, perfeito. Um que seja, simultaneamente, claro, preciso, elegante, inteligente e com conteúdo a salvo de qualquer reparo, desses que nunca você nunca leu em lugar algum, por ser originalíssimo, profundo e atraente. Pois bem, alegre, como um passarinho, você se propõe a publicar essa rara peça literária em jornal, em revista ou mesmo em algum site ou blog da internet.



Porém... Você percebe, dias depois, que ninguém o leu. Ou, o que é pior, que muitos leram, mas não lhe deram a menor importância. A decepção é tão grande, que a sua vontade é a de nunca mais escrever coisíssima alguma, sequer reles bilhete para a mulher ou a empregada. É nessas horas que sonha com uma súbita amnésia que o faça esquecer por completo até o beabá. Que desaprenda, por completo, num piscar de olhos, de ler e de escrever.



Pior é, caso você comente essa frustração com alguém, a interpretação que este alguém lhe dará dela. De imediato, você será considerado imaturo, vaidoso e outros quetais, bem mais desabonadores. Seu crítico gratuito certamente não saberá a diferença entre um mero elogio – via de regra hipócrita quando não oportunista – e o “reconhecimento” de um trabalho, de um talento ou de uma obra.



Qual escritor nunca passou por esse tipo de frustração? Creio que todos passaram. Ocorre que a maioria, temendo ser mal interpretada, sequer se manifesta a propósito. Dá um sorriso amarelo, disfarça, finge que esqueceu ou que nem percebeu o pouco caso com que sua obra-prima foi recebida, e toca o barco. Esses, certamente, aprenderam a primeira e principal lição da sua atividade. Sabem conviver com frustrações e não permitem que elas tolham sua criatividade.



Da minha parte, confesso, não aprendi a agir assim. Não, pelo menos, de todo. Por exemplo, agora estou frustradíssimo por não haver anotado o nome de quem “twittou” a afirmação que suscitou estas reflexões. Como poderia saber, no momento em que a li, que de repente iria escrever a respeito? Deveria saber. Afinal, tudo, absolutamente tudo o que existe, o que pensamos, o que imaginamos, o que vemos, ouvimos e lemos é, potencialmente, assunto tratável em nossos textos. Enfim...

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Friday, April 27, 2012

O principal instrumento de comunicação de que dispomos, a palavra, é mal-utilizado, usado não como ferramenta para se comunicar e promover o entendimento, mas como arma, para ferir e gerar discórdia. É causa de equívocos, de desavenças, de mágoas, de brigas e de inimizades. Raros são os que medem o que dizem (ou o que escrevem). Poucos atentam em como tratam os que os rodeiam, sem qualquer senso de oportunidade. Somos, em geral, econômicos em demasia em reconhecer méritos alheios e em elogiar quem merece elogios e tremendamente perdulários quando se trata de condenar, de caluniar e de criticar atos e pessoas. Morris West coloca na boca de um dos seus personagens, no romance “O Embaixador”, esta verdade: “A palavra é a faculdade que nos dá a qualidade de homens. Por que a usamos tão mal, que às vezes de bom grado preferiríamos ser surdos-mudos?” Sim, por que a usamos tão mal?!

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O que comprar:

 
Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.


Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.



Como comprar:


Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.

Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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Basta enxergar



Pedro J. Bondaczuk



O ano de 1987 pode não ter sido bom para muita gente, mas se há alguém que não pode se queixar dele, é o presidente costarriquenho, o jovem economista Oscar Arias Sanchez. Com muita justiça, foi alvo de inúmeras homenagens, das quais a mais expressiva foi a conquista do Prêmio Nobel da Paz.

Nos pronunciamentos públicos que fez, após a obtenção da láurea, demonstrou, acima de tudo, que se trata de um idealista. Sanchez comprovou que é um homem que acredita na própria capacidade e nas outras pessoas. Mas mostrou, também, que não é desses sujeitos alienados, que enxergam o mundo cor-de-rosa, quando tudo se mostra, na verdade, cinzento. Tem os pés no chão, com plena consciência das suas limitações.

Sublime foi o discurso que o presidente costarriquenho pronunciou em Oslo, na cerimônia de entrega do Nobel. Foi um pronunciamento, sobretudo, lúcido. Teve a coragem, mesmo sendo procedente de uma área do mundo tida e havida como colônia das grandes potências, de apontar, com destemor, o dedo acusador para os poderosos e de exigir que deixem a América Central em paz.

Apelou-lhes que não façam dessa região arena das suas disputas ideológicas, que não passam, na verdade, de intermináveis arengas sobre conceitos que eles próprios não crêem. E Arias tem moral para falar de paz. Está escudado, acima de tudo, na tradição do seu país.

A Costa Rica teve a suprema coragem, num continente marcado pelo caudilhismo e por “gloriosas revoluções salvadoras”, de extinguir, em 1949, suas Forças Armadas. Pode haver maior manifestação de confiança nos vizinhos do que esta?

Sintomaticamente, desde que isso aconteceu, a democracia jamais foi suprimida em solo costarriquenho. O país não teve um único golpe de Estado e nem mesmo ameaça nesse sentido. Claro que esse país não é nenhum paraíso terrestre, perdido nas selvas centro-americanas. Tem problemas, e grandes, como todos os povos abaixo do Rio Grande (o norte-americano, é evidente).

Conflitos e tensões surgem a toda a hora em sua sociedade, como ocorre em qualquer lugar. Mas seus políticos têm jogo de cintura para negociar, ceder e conciliar. E jamais os costarriquenhos tiveram que lançar mão de expedientes violentos e atrabiliários para fazer valer seus direitos e/ou opiniões.

Por isso, nada mais justo que Oscar Arias Sanchez seja escolhido a personalidade do ano na América Latina. E em âmbito mundial, não tenham dúvidas, merece figurar em posição de bastante destaque entre os dez homens que mais contribuíram para a paz em 1987.

Seu aparecimento no cenário global é uma mensagem de fé e de esperança para outros povos latino-americanos, descrentes de seus políticos e enojados com messianismos e arroubos demagógicos dos que os representam e lideram. Há, como se vê, pessoas de valor entre nós! Basta, somente, que as saibamos enxergar!


(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 30 de dezembro de 1987).

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Sua majestade o automóvel!

Pedro J. Bondaczuk



O automóvel, desde que Henry Ford racionalizou sua fabricação, em 1906, criando a primeira linha de montagem em série, deixou de ser objeto de luxo. Transformou-se quase que em bem de primeira necessidade. Para alguns, passou a ser como uma pessoa, como membro muito caro de sua família. Seu advento mudou comportamentos, contribuiu para tornar a vida nas zonas urbanas mais agitada, reduzindo drasticamente o tempo de deslocamento (em especial nas grandes metrópoles). Propiciou, principalmente, profundas transformações no perfil tanto de cidades, quanto de países.



O automóvel sofreu radicais mudanças, tanto na parte aerodinâmica, quanto no desempenho, mais de cem anos depois do início de sua fabricação em série. Ao aumento da velocidade, foram acrescentados itens da maior importância, como segurança, conforto e economia de combustíveis. Pode-se dizer que a produção desse bem revolucionou a própria indústria, no geral.



As linhas de montagem de hoje em nada lembram as de meio século atrás. Milhares de operários tiveram que ceder seus lugares a máquinas, a sofisticados robôs, que hoje executam, com muito maior eficiência e regularidade, o trabalho repetitivo, monótono e perigoso de produção desse bem. Afinal, não se cansam, não perdem o ritmo, não se distraem e nem fazem greves para exigir maiores salários.



Há quem preveja – se não no curto ou sequer no médio, mas no longo prazo – seu declínio, seu ocaso e por uma série de razões. A principal é que, apesar dos avanços para a obtenção de combustíveis “mais limpos”, ou, pelo menos, não tão poluentes, esse veículo segue sendo um dos fatores que mais contribuem para a poluição da atmosfera terrestre, próxima já do limite (isto se ele já não houver sido há muito ultrapassado), agindo decisivamente para acelerar o perigoso processo de aquecimento global, em pleno andamento, e que talvez não haja mais como ser detido, revertido ou mesmo remediado.



Outro fator – e este mais iminente ainda – que pode inviabilizar o futuro de sua majestade, o automóvel, é o esgotamento das reservas mundiais de petróleo. O que a natureza levou alguns milhões, quiçá bilhões de anos para produzir, as últimas oito ou dez gerações de humanos, ávidas, vorazes, imprudentes, exageradas e perdulárias, precisaram, somente, de pouco mais de duzentos anos para esgotar. É certo que as reservas mundiais de óleo cru são suficientes para abastecer o mundo, de combustíveis fósseis, por pouco menos de um século, conforme estimativas confiáveis. Isso, antes de se iniciar a exploração massiva de novas reservas recém descobertas, como a do Pré-sal, no Brasil. A pergunta que se faz, porém, é outra. “A atmosfera terrestre suporta mais cem anos de massiva poluição?” Temo que não suporte não somente tudo isso, mas nem mesmo uma década.



Combustíveis alternativos, como o álcool anidro, muito menos poluentes, vêm sendo desenvolvidos com relativo sucesso. Todavia, embora se trate de energia renovável, esse produto traz outro inconveniente. Requer vastíssimas extensões de terra para o cultivo da cana-de-açúcar e, com isso, há o risco de faltar solo fértil para a produção de alimentos, justo numa época em que a população mundial já passou da cifra de sete bilhões e não pára de crescer.



“Mas, afinal de contas, o que o automóvel tem a ver com literatura, que é a finalidade deste espaço?”, perguntará, com certeza, aquele sujeito ranheta e chato, ávido por encontrar, no que fazemos, pretextos para criticar. Posso dizer: tem muito. Até um movimento literário, que permanece vivíssimo, teve nesse veículo automotivo (e no que ele representou e representa em termos de comportamento) uma de suas fontes de inspiração. Diria que a principal. Refiro-me ao futurismo.



Essa vertente cultural modernista nem mesmo é tão nova. Data do início do século passado, o vigésimo da Era Cristã. Originou-se do “Manifesto Futurista”, escrito pelo poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, que o publicou no jornal francês “Le Figaro”, na edição de 20 de fevereiro de 1909. Esse texto consistia de onze itens. Era, como seria de se esperar, uma proclamação de ruptura com o passado e não somente na forma de fazer e expressar arte (e, claro, literatura), mas no que dizia respeito ao comportamento das pessoas. O principal ponto assinalado nesse documento era uma conclamação para que o homem se identificasse com a máquina, com a velocidade – e aí entra, claro, o automóvel – e, por conseqüência, com o dinamismo do novo século que então nascia.



É fascinante fazer um estudo a respeito, para entender a razão de como se originou nosso atual comportamento compulsivo em relação às máquinas e à mais cobiçada e valorizada delas. Claro que não irei detalhá-lo neste ínfimo espaço de reflexão diária. Apenas menciono-o como sugestão para que você pesquise a respeito. Fontes não faltam para isso. Resta saber se há tempo disponível para avaliá-las e, principalmente, se há interesse para tal.



Reproduzo, abaixo – com a providencialíssima ajuda da enciclopédia eletrônica “Wiquipédia” – os cinco primeiros itens, dos onze, do manifesto de Marinetti:

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.


Viram? Não exagerei quando ressaltei a importância do automóvel na vida moderna. Há pessoas – e vocês, certamente, conhecem muitas assim – que “amam” mais seus veículos motorizados até do que membros da própria família. Há aqueles que, caso você ameace, ou ofenda, sua esposa ou filha ou até a mãe, reagem moderadamente, de maneira até relativamente polida. Mas que, se você ousar encostar um dedo em seu querido automóvel, ou pior, riscar sua pintura, ou muito pior ainda, amassar sua lataria, ficam possessos, possuídos de incontrolável fúria, de inusitado instinto homicida. Não raro, chegam, até mesmo, a matar o incauto que age com tamanha temeridade e imprudência. Estou exagerando? Vocês sabem que não.


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