Saturday, May 31, 2014

Os que não crêem em milagres são céticos, apenas, porque não atentam para a natureza. A cada fração de segundo, a vida se renova, de forma fantástica e miraculosa, e se manifesta onde jamais supúnhamos fosse possível. Basta atentar para o que ocorre ao nosso redor. A própria existência da Terra, com a distância ideal do Sol, nem próxima demais para ser tórrida, como Mercúrio e Vênus, e nem distante em demasia, para ser gélida, como ocorre com Marte, é magnífico milagre. Ou não é? O poeta italiano, Salvatore Quasimodo, diz isso com graça e beleza, neste poema “Águas e terras”:

“E eis que do tronco
rompem-se os brotos:
um verde mais novo da relva
que o coração acalma:
o tronco parecia já morto,
vergado no barranco.
E tudo me sabe a milagres,
e eu sou aquela água de nuvens
que hoje reflete nas poças
mais azul seu pedaço de céu,
aquele verde que se racha da casca
e que tampouco ontem à noite existia”.


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Piracicaba consolida-se como a capital do humor


Pedro J. Bondaczuk


A cidade de Piracicaba mantém, há muito, a hegemonia nacional em termos de promoções de salões de humor. Nesse aspecto, pode-se afirmar, não tem competidores. Nem São Paulo, nem Rio de Janeiro ou qualquer outra metrópole brasileira conseguem lhe fazer sombra.

Há mais de 20 anos, a prefeitura piracicabana promove consagrado evento do tipo, reunindo os maiores humoristas do mundo, o que já se tornou presença obrigatória no calendário cultural do País. Trata-se, portanto, de sucesso incontestável.

Agora, a cidade parte para a formação de futuros astros dessa difícil arte de fazer rir através de charges, cartuns e desenhos. A Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) promove, de 16 de maio próximo a 3 de junho, o “4º Salão Universitário do Humor”.

Este ano, o concurso vai contar com uma atração a mais – além, é claro, dos prêmios para os vencedores e do prestígio que uma vitória em uma promoção do gênero representa: o júri será presidido por Ziraldo, cartunista consagrado e que dispensa apresentações.

O fato de chegar à quarta edição, mostra que, a exemplo do Salão Internacional do Humor, e guardadas as devidas proporções, o da Unimep também já é um sucesso. Neste ano, aliás, há um ingrediente a mais para os interessados neste gênero de arte.

Haverá um concurso voltado exclusivamente para aqueles que, de alguma forma ou de outra, o apreciam, mas não o criam, necessariamente. Ou seja, para os estudiosos, os críticos e os pesquisadores. Trata-se do “1º Concurso Nacional de Monografias sobre o Humor”.

A prática comprovou que não há crítica – política, econômica ou social, ou seja, de que natureza for – mais eficaz do que a que provoca o riso. Essa espécie de apreciação de um fato ou de uma pessoa conhecidos, age através do mecanismo da sugestão.

Critica-se promovendo a interação entre o crítico e o público. Não é por acaso que o homem chegou a ser definido como “o animal que ri”. O humor é uma forma inteligente de condenação ou de cobrança, por isso é eficaz. Daí a razão de ter tamanho público.

Finalmente, como terceira novidade, haverá o “1º Ciclo de Estudos sobre o Humor”. O acervo existente sobre o gênero é tão extenso e a produção – nacional e internacional – é tão intensa, que há um vasto campo para o pesquisador, com ramificações por outras disciplinas, como sociologia, antropologia, ciência política etc. 

(Artigo publicado na página 2, do caderno Metropolitano, do Correio Popular, em 16 de março de 1995)


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As aparências enganam

Pedro J. Bondaczuk

As aparências enganam”, diz conhecido dito popular. É certo que não devemos generalizar. Afinal, como diria Nelson Rodrigues, “toda generalização é burra”. Há coisas que realmente são o que aparentam. Mas há uma infinidade delas que não são e que conduzem incautos e desinformados a equívocos imensos. Quem se deixa levar “apenas” pelas aparências, não raro se engana e muitos destes enganos não têm conserto. Ou seja, são irremediáveis. Nem sempre o que parece de fato é o que aparenta. E isso vale tanto para o aspecto material do mundo, quanto para o lado espiritual das pessoas.

Vamos fazer uma experiência e raciocinar juntos? Convido-os a se dirigirem para o quintal de suas casas para observarem o céu. Não sei como ele está no lugar em que vocês residem, caríssimos leitores, mas aqui, na minha cidade, está azul, azul, sem nenhuma reles nuvem, neste dia de um verão inusitadamente quente, numa cidade interiorana deste nosso país tropical. Ou seja, num território que nesta época do ano está voltado diretamente para o Sol. Este, por sua vez, aparenta estar bem na vizinhança, principalmente por causa do intenso calor que emite. Não está. Está longe, muito longe, a vários milhões de quilômetros de distância. Imaginem se estivesse mais próximo. Seria, certamente, nosso fim.

Querem outra aparência enganadora? O ar. Parece coisa abstrata, porquanto é invisível, não é mesmo?. Não o vemos. Todavia, existe. Trata-se de mistura de vários gases, rigorosamente exata para garantir a vida, e em proporções bem definidas de oxigênio (21%), nitrogênio (78%), além de gás carbônico, vapor de água e alguns outros (1%). É certo que o homem, com suas atividades, desequilibra essa composição, com as chaminés de suas fábricas e com automóveis de seus escapamentos lançando, por segundo, toneladas e mais toneladas de outros tantos produtos, todos nocivos aos seres vivos, não somente ao homem, na atmosfera. Como se vê, a aparência engana. O ar não é abstrato, como parece,  mas concretíssimo.

Embora não pareça, e a humanidade tenha, por milênios, duvidado disso, o Planeta é uma espécie de “aquário”, posto que repleto não só de água, mas, principalmente, dessa mistura apropriada de gases que nós respiramos. E estes, mesmo que invisíveis, têm peso. E pesam muito. Pesam alguns milhões de toneladas. E por que não sentimos esse peso todo? Por que ele não nos esmaga como esmagamos alguns insetos incômodos sempre que os conseguimos apanhar? Por outro providencial capricho da natureza. Por termos, no interior dos nossos corpos, esses mesmos gases. A pressão externa exercida pelo ar é compensada por outra igualzinha, do nosso corpo para o exterior. Assim, essas duas forças se igualam e se anulam. Não fosse isso.... Seríamos mais achatados do que gilete. Não haveria a mínima chance de estarmos aqui, vivos, fazendo esse elementar exercício de raciocínio.  Viram como as aparências enganam? Convenhamos, não dá para criticar nossos antepassados, e muito menos para rir deles, por não acreditarem em nada disso. Afinal, aqueles seres tão primitivos, acreditavam nas aparências. Porém... elas muitas vezes enganam.

Querem outro equívoco, que até o século XV, se não me falha a memória, era muito comum? Aproveitemos que estamos no quintal e olhemos ao redor. Não parece tudo plano? Mas não é. Estamos todos sobre uma esfera (que sequer é regular, já que o Pólo Norte tem formato de uma pêra e o Pólo Sul é achatado). E por que não despencamos no espaço, no abismo, no vácuo? Hoje, qualquer criança com informações elementares sabe que é por causa da tal “força de gravidade”, em que corpos maiores atraem os menores para o seu centro. Como querer, porém, que o homem primitivo cresse nisso? Eles baseavam-se no que viam, mas as aparências... às vezes enganam.

Quando olhamos para o céu, estamos convictos de olharmos para o alto. Será, então, que as pessoas que vivem em países em posição oposta à nossa, digamos, no Japão, olham para baixo? Nós achamos que sim. Eles acham que não. Entendem que nós é que olhamos para baixo. O mesmo vale para quem está nas laterais dessa bola irregular que é a Terra. No espaço, não há altura e nem profundidade. Depende da posição em que as pessoas estão, nesta esfera irregular, para terem essa impressão. É o que aparenta. Mas... é aparência que engana.

Poderíamos citar muitos, e muitos e muitos outros exemplos, mas isso fica como desafio para você, paciente leitor, lembrar. Creio que se trate de bom exercício de reflexão. Hermann Hesse coloca, na boca de um dos seus personagens, esta verdade, que também contradiz as aparências: “O macio é mais forte do que o duro. A água mais forte do que a rocha. O amor mais forte que a violência”. E essa força maior, dos elementos citados, não é apenas figura de linguagem, mas pura realidade. Analisemos: o macio verga, mas não quebra, ao contrário do que é duro, que se rompe facilmente. A água é a que gera a maior parte da energia elétrica que se consome mundo afora, e não a rocha. Já a violência, destrói, não raro, não apenas a vítima dela, mas também seu agente. O amor, porém, redime a ambos. Por isso, não nos deixemos levar, jamais, por meras aparências.

Permita-me, paciente leitor, que lhe faça só mais uma e última pergunta. Estas reflexões caracterizam, ou não, um texto literário? Por quais parâmetros você irá medi-lo, para concluir se tem ou não essa característica? Dependendo do qual você escolher, a resposta, possivelmente, será “não”. Este texto não tem características de Literatura ou pelo menos aparenta não ter. Todavia, você tem certeza? A aparência destas reflexões talvez o conduza no sentido de não considerar que se trate de produção literária. Mas... as aparências enganam...


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Friday, May 30, 2014

Como as futuras gerações irão nos julgar? Vão compreender nossas limitações e ignorância e nos perdoar por lhes legarmos um mundo tão imperfeito e cheio de contradições, injustiças, violências e rancores, a despeito da refinada tecnologia e dos avanços científicos que lhes legamos? Podem chamar-me de visionário, mas acredito numa época em que o homem será amigo do homem. Em que o egoísmo será banido e substituído pela solidariedade e na qual reinará, soberana, a paz e a harmonia entre os povos, irmanados numa só nação, a Terra. Claro que isso levará tempo. Por isso, faço minhas as palavras de Bertolt Brecht, nos versos de encerramento do poema “Aos que virão depois de nós”:

“Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão”.


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Liberdade é assunto de todos


Pedro J. Bondaczuk

O escritor Ellie Wiesel, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1986, escreveu num de seus trabalhos: “Quando um grupo é perseguido, a humanidade inteira é atingida”. E é isto o que vem ocorrendo na China, com a intensa perseguição, por parte das autoridades do país, aos participantes do movimento pró-democracia, selvagemente reprimido, a poder de balas e de tanques, nos dias 3 e 4 de junho passado, num massacre que vai ficar na história, não somente por sua brutalidade, mas, principalmente, em razão do cinismo de ser ainda “justificado”.

Esses incidentes, ao contrário do que muitos pensam, não afetaram, e nem estão afetando, apenas os chineses. Todos nós estamos sendo atingidos por essa demonstração de prepotência, mesmo com esses acontecimentos ocorrendo do outro lado do mundo.

Para ressaltar isso e para que possamos manifestar o nosso repúdio a esse tipo de comportamento, o Grupo de Campinas, da Anistia Internacional, promove, amanhã, às 20 horas, no teatro de arena do Centro de Convivência, o manifesto “SOS China”. Seu objetivo é denunciar as violações dos direitos humanos nesse país asiático e ele constará de abaixo-assinados a serem remetidos às autoridades chinesas e performances.

Pede-se aos participantes que levem uma vela, símbolo do movimento, que será acesa durante cinco minutos de silêncio. Quem comparecer (e esperamos que um número muito grande de campineiros compareça), também poderá levar manifestações pessoais, por escrito e abertas, que serão anexadas ao documento com as assinaturas.

Muitos poderão perguntar: “O que eu tenho a ver com os acontecimentos na China, se no meu país as coisas andam tão complicadas?”. Acontece que acima das barreiras nacionais, de raças, povos e línguas, está uma coisa que nos une a todos: a nossa humanidade.

Os maus exemplos, desgraçadamente, costumam frutificar muito mais do que os bons. Por isso, reproduzimos, abaixo, o que Berthold Brecht disse a esse propósito (que já mencionamos tempos atrás num comentário, mas que sempre é oportuno repetir, pelo fundo de verdade que contém):

“Primeiro, levaram os comunistas,/mas a mim não importa,/porque não sou comunista.//Em seguida, levaram uns trabalhadores,/mas a mim não importa,/porque não sou trabalhador.//Depois, detiveram a uns sindicalistas,/mas a mim não importa,/porque não sou sindicalista.//Logo, prenderam uns sacerdotes,/mas como eu não sou religioso,/tampouco me importa.//Agora, estão me levando,/mas já é tarde”. Cuidemos, pois, que não sejamos um dia penalizados pela nossa omissão quando deveríamos ter agido.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 5 de julho de 1989).


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Salva pela Literatura

Pedro J. Bondaczuk

A Literatura tem importância variável para as pessoas, dependendo de como elas encaram a arte e, sobretudo, a vida. Para uns, é uma atividade como outra qualquer, embora com suas regras e técnicas específicas. Para outros, não passa de mero hobby, tanto na qualidade de leitores, quanto (e nem sempre) de escritores. Para terceiros, é uma inutilidade em termos práticos, no caso, para os que não apreciam a leitura e não têm o mínimo talento para se expressarem razoavelmente bem por escrito. E há várias outras formas de encarar a Literatura.

Mas há os que têm nela muito mais do que uma atividade profissional. Os que não a consideram um hobby, mesmo que prazeroso e muitíssimo menos a têm como uma “inutilidade” da qual se possa prescindir. Esse grupo seleto faz da Literatura algo como religião. É sua paixão e opção de vida, à qual se dedicam de corpo e alma. Modestamente, incluo-me neste último caso, embora não tenha certeza que a exerça com competência e perícia desejáveis. Exerço-a, todavia, com plenitude e convicção, jamais considerando o meramente bom como suficiente. Persigo, sem nunca alcançar, a excelência, ou seja, a perfeição. Esse também sempre foi o caso da poetisa norte-americana Maya Angelou, que faleceu neste 28 de maio de 2014, na cidade de Winston-Salem, na Carolina do Norte onde residia, aos 86 anos de idade. Não foi revelada a causa da sua morte.

Embora para mim, o interesse por sua vida esteja ligado à sua atividade literária, essa mulher notável, negra, destacou-se em tudo o que fez. Batalhou muito para que isso acontecesse, é verdade.  Foi, por exemplo, além de escritora, cantora, dançarina, atriz, dramaturga e compositora. Nas letras, destacou-se, notadamente, por fazer da sua vida, de sua vasta e não raro dramática experiência pessoal, tema central da maior parte do que escreveu. Sua autobiografia, em sete volumes, é considerada obra-prima do gênero. E como poetisa, foi uma das primeiras mulheres negras a se tornar best-seller nacional. Aliás, foram inúmeros os feitos pioneiros em sua relativamente longa vida. Um deles foi o fato de haver sido a primeira motorista de ônibus do sexo feminino, e negra, na cidade de San Francisco. Foi mulher determinada, idealista, batalhadora. Não por acaso, assessorou dois presidentes (Gerald Ford e Jimmy Carter) e foi condecorada por outros dois (Bill Clinton e Barak Obama). Aliás, este último sempre demonstrou mais do que respeito por ela: reverenciou-a.

A comunidade negra norte-americana considera-a um ícone, um símbolo, uma fonte de inspiração e  por dupla razão. A primeira, óbvio, por ser a talentosa e bem sucedida escritora que foi. E a segunda, mais importante para essa faixa da população, por suas ações como ativista dos direitos civis. Trabalhou, por exemplo, com Martin Luther King e com Malcolm X, numa época em que lutar pela igualdade racial era não apenas temeridade, mas “loucura”, pelos iminentes riscos de vida que impunha. Como cantora e compositora, Maya sempre foi admirada no meio musical. Influenciou, decisivamente, vários cantores, como Steven Tyler, Fiona Apple e Kanye West, entre tantos outros. Uma de suas mais comentadas aparições públicas dos últimos anos foi em 2009, no funeral de Michael Jackson. Na oportunidade, rendeu derradeira homenagem ao astro pop, de quem era amiga, lendo o poema de sua autoria “We had him”.

Maya Angelou, frise-se, não era seu nome verdadeiro. Era um pseudônimo, adotado no início dos anos 50, com o qual se consagrou. Chamava-se Marguerite Ann Johnson. Nasceu em Saint Louis, no Estado do Missouri, em 4 de abril de 1928. Passou a infância, além da cidade natal, na Califórnia e em Arkansas. Quando tinha apenas oito anos de idade, passou por uma experiência traumática, que mudou por completo os rumos da sua vida. Foi estuprada pelo namorado de sua mãe. O choque dessa covarde violência sexual foi tão grande, que a menina perdeu a voz. Permaneceu por muitos anos sem conseguir falar, situação que superou, apenas, com a ajuda de uma compreensiva e providencial vizinha. E como se deu tal superação? Aí é que entra a questão da paixão. Maya foi “apresentada” por sua benfeitora à Literatura. E apaixonou-se completamente pela atividade.

Inicialmente, comunicou-se com o mundo, através de textos, em prosa. Mas não tardou a fazê-lo, sobretudo, em poesia. E quando recuperou a fala, não deixou de escrever. Muito pelo contrário. Poemas e mais poemas seguiram brotando de sua inspirada pena. E letras e mais letras de canções que se tornaram sucessos. E peças e mais peças teatrais, algumas adaptadas para as telas em Hollywood. E essa paixão culminou com a copiosa e maravilhosa autobiografia, redigida com a perícia de uma escritora que tinha algo mais, muito mais, do que o mero traquejo, o indispensável domínio do idioma e da técnica de escrever. Era irremediavelmente apaixonada pela Literatura, pela qual, confessou, em diversas ocasiões, que “foi salva”.

Dois dias antes da morte, em 26 de maio, Maya Angelou parecia bem, embora postasse, em seu perfil no Facebook, que enfrentava um “problema de saúde”. Mas não revelou qual era. Escreveu (conforme informa o portal G1): “Uma inesperada emergência médica me causou grande desapontamento por ter de cancelar minha visita ao jogo comemorativo pelos Direitos Civis da Major League Baseball. Estou muito orgulhosa de ter sido escolhida como homenageada. No entanto, os médicos me disseram que não seria aconselhável viajar naquele momento. Meu obrigado a Robin Roberts por falar por mim e obrigado a vocês por todas as suasd orações. Estou melhor a cada dia”.

Todavia, não estava melhorando como pensava. Tanto que, dois dias depois, deixou a vida para entrar na história. Junto-me, humildemente, aos milhares de jornalistas e escritores norte-americanos que nos últimos dois dias têm escrito comovidas crônicas e inúmeros necrológios em jornais de costa a costa sobre Maya Angelou. Embora cheio de imperfeições (para meu desconsolo), este é um simples, posto que comovido e sincero, tributo de um apaixonado por Literatura por alguém que nutriu da mesma paixão e que, ademais, foi “salva por ela”.


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Thursday, May 29, 2014

Tudo o que se faz na vida gera algum efeito. Nada, absolutamente nada passa incólume. Às vezes, é verdade, os atos são imperceptíveis e ficam assim para sempre. O efeito gerado é ínfimo e quem os praticou se conforma em não ser identificado. Às vezes, as ações tardam a ser percebidas e o autor, igualmente, permanece incógnito. Às vezes, a percepção é imediata, mas as conseqüências é que são imperceptíveis. E às vezes, os atos (bons ou ruins) são percebidos de imediato e premiados ou punidos, de acordo com sua natureza, sem tardança. São os rastros, as marcas, os vestígios de nossa existência que deixamos nos caminhos do tempo. Cecília Meirelles ilustra essa situação com estes versos que encerram o poema “4º motivo da rosa”:

“Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe o vento, o vento vai falando de mim/

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim”.


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Marcas, difíceis de apagar, da tirania


Pedro J. Bondaczuk


O papa João Paulo II, no seu atual giro sul-americano, certamente vai ter a oportunidade de ver, sentir e tirar conclusões das terríveis conseqüências que uma tirania traz para os povos tiranizados, que persistem mesmo após o seu término.

Na missa campalque rezou, ontem, na Esplanada das Três Cruzes, em Montevidéu, certamente não pôde deixar de notar os cartazes empunhados por parentes de “desaparecidos” do Uruguai, Chile e Argentina, justamente os três países que se propôs a visitar.

Dois conseguiram, bem ou mal, uma relativa conciliação de suas respectivas sociedades, que no entanto não conseguem esconder as marcas do “furacão” devastador que se abateu sobre elas. O terceiro ainda vive, sabe Deus até quando, esse drama das pessoas sentirem-se prisioneiras até dentro das próprias casas.

Apesar da visita do Papa ao Chile não ter nenhuma conotação de caráter político, seus olhos, certamente, irão perceber a angústia que toma parte de boa parte de sua população, que se apega teimosamente às derradeiras esperanças, de que, como acontece com todas as coisas boas e ruins na vida de todas as pessoas, essa situação dramática, um dia, também vai passar.

João Paulo II vai ter um encontro com o futuro desse país, a sua juventude, e ironicamente, ele vai ocorrer num dos locais de mais triste lembrança desse povo: o Estádio Nacional, em Santiago, palco de tantos dramas solitários, de tanta agressão aos direitos mais sagrados dos indivíduos, de tantos sofrimentos e mortes.

O Papa, que vai ao Chile na condição de “defensor da vida” (que ficou ainda mais ressaltada com a emissão de um documento recente de intensa sabedoria e profundidade, condenando a sua manipulação), terá sempre presente, em cada lugar por onde passar, sombras, fantasmas, lembranças dos que não aceitaram sobreviver sem liberdade e preferiram o caminho do sacrifício pessoal.

Que ninguém espere, no entanto, que ele vá às praças públicas pregar uma sublevação armada. Esse, aliás, nem é o seu papel. Que não se cobre dele nenhum pronunciamento contundente, pois ele sabe que se agisse dessa forma, traria mais prejuízos do que benefícios aos oprimidos para os quais foi levar consolo.

Mas que não se pense que João Paulo II vai ficar omisso diante daquilo que seus olhos puderem ver, seus ouvidos ouvir e seu coração sentir. O simples fato dele ter decidido ir a um país que vive sob um regime ditatorial já foi um ato de coragem, daquele que vem de uma postura moral exemplar para o mundo de hoje, onde posições claras e coerentes não abundam, e a perfídia e a dissimulação são práticas rotineiras no comportamento dos líderes mundiais.

O Papa esteve, no passado, em outras terras que viviam oprimidas e que hoje respiram democracia. Como as Filipinas, de Ferdinand Marcos. Como o Haiti, de Baby Doc. E como vários outros países por onde passou em suas 33 andanças anteriores. Portanto, conhece o que é uma ditadura.

Quem sabe a sua presença no Chile abra os olhos das partes em conflito e as faça entender que, embora por caminhos diferentes, ambos os lados querem a mesma coisa, ou seja, a segurança, a prosperidade e a grandeza da pátria. Quem sabe uma súbita luz mostre aos dois extremos que suas atitudes radicais só prejudicam a maioria, que eles garantem defender e em nome da qual juram estar agindo.

Quem sabe surja a consciência de que, através da violência, da prepotência e do crime, o que estão conseguindo, atualmente, é apenas ferir a própria nacionalidade e enfraquecer o país perante a comunidade internacional. Quem sabe. Isto tardou um pouco, mas aconteceu, nas Filipinas de Ferdinand Marcos. Demorou um pouco mais, mas se verificou, no Haiti dos Duvaliers. Pode tardar ainda um certo tempo, mas certamente irá ocorrer no Chile de Pinochet.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 2 de abril de 1987).


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Caminho da sabedoria

Pedro J. Bondaczuk

A dúvida é o princípio da sabedoria”. Essa constatação, aparentemente simples, foi feita há muito tempo, na Grécia antiga, por um homem hoje reconhecido, quase que consensualmente, como “sábio” Na verdade, ele não se considerava como tal. Refiro-me ao filósofo Aristóteles, cujas idéias são tão valiosas que, mesmo passados milênios da sua morte, ainda constituem o fundamento e principal arcabouço do “edifício” da Filosofia contemporânea. Não é atitude sábia, convenhamos, aceitar o que quer que seja aprioristicamente, apenas porque alguém o “disse”, ou escreveu, sem duvidar, em momento algum, dessa afirmação, ou constatação, ou conclusão, quando não mera especulação. Esta, no entanto, é nossa tendência, até por questão de comodismo.

É mister que não se confunda sabedoria com acúmulo de informação, com cultura, com assimilação de conhecimentos, digamos, “enciclopédicos”, quer por leitura, quer por se freqüentar bancos escolares nos mais diversos níveis. Para ser sábio, não é necessário que o indivíduo seja sequer letrado. Aliás, há muitos que nem mesmo sabem ler e escrever e, ainda assim, ostentam essa condição. É necessário enxergar além das aparências, ter raciocínio lógico e disposição para testar todo o conhecimento estatuído. E, para isso, se faz indispensável utilizar o “instrumento” deflagrador do processo de raciocínio proposto por Aristóteles: a dúvida.

Certamente não conseguiremos eliminar todos os pontos obscuros, intrigantes e duvidosos com que toparmos, os transformando, num passe de mágica, em convicções, em coisas comprovadas, em certezas. Ninguém jamais conseguiu essa façanha. Duvido que alguém o consiga. Por que? Pela complexidade deste mistério que é a vida. Em virtude do mistério de tudo o que nos cerca, principalmente de nós mesmos, neste universo indimensionável, possivelmente infinito, em que um dia fomos lançados, sem sabermos sequer com que finalidade, se é que exista alguma.      

“Quer dizer, então, que a sabedoria nos é inacessível?”, pode perguntar o aflito leitor. Não foi  o que eu escrevi.Todos nós temos, em algum momento da vida, súbito “lampejo” dela. E esse inesperado raio de luz varia, em intensidade e duração, de pessoa para pessoa. Alguns se esmeram em buscar detalhes dessa centelha divina. Desenvolvem, por exemplo, o hábito da meditação. Questionam, estudam, pesquisam, perquirem e lêem (caso saibam ler). E... se tornam sábios, ou se aproximam dessa condição.

A maioria, porém, fica comodamente à espera de novos lampejos. Às vezes eles se repetem mesmo, porém são raras e incertas essas repetições. Na maioria das vezes, eles acabam por não se manifestar jamais. Dessa forma, por comodismo, preguiça, incúria, entre outras coisas, essas pessoas perdem a oportunidade, para elas única, de chegar à fonte da sabedoria. Ressalte-se, reitero, que saber não implica, necessariamente, em conhecer, embora seja o princípio do conhecimento. Trata-se da informação bruta sobre um fato, conceito ou  coisa, sem o devido detalhamento.

Só o estudo, a meditação, o raciocínio e a leitura (desejável, mas não indispensável) nos levam à plenitude do conhecimento, em princípio acessível a todos, mas que poucos, pouquíssimos conseguem obter. O marco inicial do longuíssimo caminho que, se trilhado, nos levará à sabedoria, está em nós mesmos, no autoconhecimento. Como Sócrates acentuou, através de Platão, que foi seu porta-voz, “sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”. Quantos são os que conhecem? E mesmo que conheçam intuitivamente, quantos os admitem? Essa relutância, ou mesmo resistência na admissão tende a ter várias causas, entre as quais a mais comum e freqüente é a vaidade. Mas como poderemos saber alguma coisa se não admitirmos que a desconhecemos? Se acharmos que temos o domínio de algo que na verdade não temos?

Não raro, nos apegamos fanaticamente a dogmas, que colhemos alhures, agindo como se fossem verdades inquestionáveis. E se não forem? Quase nunca são. Deixamos de exercer o princípio elementar, proposto por Aristóteles, para termos ao menos alguma chance, por mínima que seja, de ao menos nos aproximarmos da sabedoria: a dúvida. Relutamos em questionar. Tememos os questionamentos por receio de descobrir coisas a nosso respeito que nos desagradarão e decepcionarão. Mas são justamente elas que deveríamos nos empenhar em detectar. Só é possível tratar de alguma doença se esta for identificada, mediante diagnóstico preciso e inquestionável. Da mesma forma, somente podemos começar a eliminar nossa ignorância se nos dispusermos a delimitá-la, para só então procurar eliminá-la.  


O ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, um dos meus preferidos pela profundidade de suas reflexões, observou, num dos seus mais famosos ensaios, constantes do livro “Desobedecendo”: “A sabedoria não chega aos espíritos em detalhes; ela viaja nos lampejos da luz celeste”. O que essas centelhas podem nos fornecer e que, de vez em quando, nos fornecem, são meras “pistas” do longuíssimo caminho que poderemos trilhar caso aspiremos ser, de fato, sábios. Antes de segui-las, porém, cabe-nos delimitar a extensão da nossa ignorância e utilizarmos com perícia e precisão a ferramenta da dúvida, sugerida por Aristóteles

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Wednesday, May 28, 2014

Devemos dar mais ouvidos à intuição, essa espécie de sexto sentido que antecede nossas ações. Raramente ela falha. A maioria dos melhores textos que produzi, por exemplo, nasceram dessa voz inaudível que me cochichou no ouvido o que, como e para quem deveria escrever. Não raro, ela nos indica a hora certa de agir e de que forma. Às vezes teimamos em não lhe atender os alertas, em não respeitar esse “sinal vermelho”, e nos damos mal. Há ocasiões em que tentamos concretizar projetos que, aparentemente, têm tudo para dar certo, mas que a mera intuição nos adverte que há armadilhas escondidas, que não conseguimos vislumbrar. Se teimarmos em levar a empreitada adiante, à revelia desse sexto sentido, podemos ser surpreendidos pelo inesperado e fracassar. Afinal, como Immanuel Kant nos lembra: “Todo o conhecimento humano começou com intuições, passou daí aos conceitos e terminou com idéias”

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

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Raul Alfonsin revela-se um estadista


Pedro J. Bondaczuk


O presidente argentino, Raul Alfonsin, mostrou, com sua atuação serena e equilibrada durante as duas recentes crises militares que a Argentina viveu, desde a última quinta-feira, porque é uma figura tão respeitada no âmbito internacional.

Com uma invejável habilidade política e uma serenidade digna do estadista que mostrou ser, soube como pôr fim às rebeliões verificadas em Córdoba e no Campo de Maio e acabou colhendo os frutos preciosos, em termos de apoio, à sua ação à frente da Presidência, inclusive (e principalmente) na oposição peronista, através da poderosa Confederação Geral dos Trabalhadores, de Saul Ubaldini.

Ao mesmo tempo, não cedeu aos revoltosos, não fazendo qualquer espécie de barganha para que estes depusessem as armas, determinando que eles fossem punidos de conformidade com o código militar a que estão sujeitos e a cujo regulamento infringiram.

Fez isso, porém, sem causar divisões nas Forças Armadas, ao retardar uma retomada, mediante o uso da violência, da unidade rebelada, que poderia ter sido sangrenta e que a longo prazo tenderia a trazer seqüelas, tais como ressentimentos, que fatalmente iriam desembocar em novas confrontações.

Há quem argumente que o fato do presidente ter aceitado a renúncia do comandante do Exército, general Hector Rios Erenu, foi uma concessão aos amotinados, já que essa era uma das principais exigências que eles estavam fazendo.

Mas essa demissão não deve ser encarada por este prisma. O oficial em questão, após o episódio, ficou desmoralizado perante os seus pares. Afinal, o ato de insubordinação ocorreu em sua Arma e ele não conseguiu contornar a situação sem que o caso viesse à luz da opinião pública e despertasse a repulsa popular que despertou.

Não foi capaz, portanto, de impor a sua autoridade, mostrando que já não contava com o respaldo de seus próprios comandados. Numa circunstância dessas, o melhor que poderia fazer seria aquilo que de fato fez. Ou seja, deixar o comando para evitar males ainda maiores.

Por outro lado, a admiração que o povo argentino sentia por seu presidente deve ter aumentado bastante, face ao seu ato de coragem, ao se deslocar para o Campo de Maio para intimar, pessoalmente, os rebeldes à rendição.

É verdade que o líder do motim, tenente-coronel Aldo Rico, deixou bem claro que o movimento que encabeçou não visava à deposição do governo legalmente constituído e, o que é mais importante, escolhido livre e soberanamente, em eleições diretas, caracterizadas pela lisura e pela transparência.

Garantiu que o seu gesto tinha um caráter interno, castrense, envolvendo questões puramente militares. Nada impedia, porém, que ao se ver perdido, tentasse, por exemplo, alguma ação desesperada, como a acontecida na Bolívia em junho de 1985, quando o presidente Siles Zuazo foi seqüestrado. Ou como a verificada em fevereiro passado, ocasião em que o equatoriano Leon Febres Cordero, além de ser mantido refém durante horas por militares rebelados, chegou a ser agredido e ameaçado de morte.

Alfonsin, entretanto, não se atemorizou com uma possibilidade desse tipo, se é que ela chegou a lhe passar pela cabeça. Com a mente limpa e o coração aberto, dirigiu-se para o Campo de Maio disposto a evitar o pior. Ou seja, um inútil derramamento de sangue entre os militares de seu país, cuja grandeza e respeitabilidade sempre desejou restaurar, ao livrar a corporação daqueles que não souberam honrar a gloriosa farda que vestiam, ao se excederem em atos que contrariam a qualquer lógica (eles existem para defender a população do país e não para atentar contra ela, como fizeram no período da ditadura) e a qualquer foro de humanidade e até de civilização.

Como presidente, Alfonsin não seria tolo de desejar o enfraquecimento ou o desprestígio, ou mesmo a divisão, das Forças Armadas, das quais é, constitucionalmente, o chefe maior. Sabe o quanto a classe é importante para a defesa da pátria e da manutenção da sua unidade.

Que os rebeldes sejam punidos, é até uma exigência da própria função que exercem, que se baseia na disciplina e no respeito à hierarquia. Mas a punição, certamente, não haverá de ser política ou ter qualquer conotação de revanche. Será um ato castrense normal, indolor e rotineiro em situações dessa natureza.

A Argentina, e os demais Estados que com ela se relacionam, sabem, agora, sem sombras de dúvidas, que o país dispõe de um líder que merece a designação, sereno, comedido, mas de pulso firme. E mais do que isso: Alfonsin mostrou, da forma com que equacionou essa perigosa crise, que é um dos raros estadistas que a América Latina já teve em seus menos de 200 anos de vida independente. Até que enfim a democracia sobrepujou o obscurantismo e o arbítrio neste nosso conturbado continente!

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 21 de abril de 1987).


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O bom texto

Pedro J. Bondaczuk

O bom texto – e não importa se ele for jornalístico ou literário – não é, apenas, o redigido com clareza e correção gramatical. Isso, aliás, é obrigação primária, elementar, de qualquer redator que se preze. Não se concebe que alguém se proponha a divulgar por escrito uma informação, uma opinião ou uma idéia, seja lá sobre o que for, com uma escrita relaxada, eivada de erros de toda a sorte. Melhor será que não escreva nada, pelo menos enquanto não aprender a escrever de fato. Mas não é, somente, a correção vocabular e gramatical que caracteriza um bom texto, o que merece perdurar e servir de parâmetro a todo e qualquer redator, embora ela seja imprescindível. É, principalmente, o conteúdo, e exposto com clareza e exatidão, sem ambigüidades, vacilações e, insisto, sem erros de nenhuma espécie.

Presume-se que quem se propõe a informar algo por escrito, ou a emitir alguma opinião, ou a expor determinada idéia, tenha domínio sobre o que está tratando. Saiba, mesmo, a respeito do que está escrevendo e não tenha apenas pálida e remota noção a propósito. Afinal, o redator nunca tem noção sobre em que mãos seu texto irá parar, nem como, e nem quando. Portanto, desconhece as conseqüências potenciais que aquilo que  escreveu talvez venha a gerar. Pode ser que não gere nenhuma e se perca para sempre, sem que ninguém o leia. Pode ocorrer que quem eventualmente o ler não lhe dê a menor importância e se esqueça dele na sequência. Todavia, pode também ser que mude os rumos de uma vida para sempre, para o bem ou para o mal e, em casos extremos, e dependendo do teor e do poder de convencimento do texto, pode, até, levar algum sensível leitor,(ou vários leitores), ao suicídio. Exagero? Claro que não.

Portanto, o mínimo que se exige do redator, seja ele quem for, é que, além de escrever sobre o que conheça e domine, e sempre com correção, que tenha profundo senso de responsabilidade. Vocês acham que “todos” têm? Ou que a maioria tenha? Ou que mesmo expressiva minoria seja responsável na escolha e na forma de exposição do que escreve? Ora, ora, ora... É óbvio que não. Basta ler as mensagens postadas nas redes sociais, no Facebook, Orkut, Twitter ou seja lá na que for.

Muitas pessoas, por exemplo, tentam incutir em outras idéias que não dominam e das quais têm apenas vaga, vaguíssima noção, sobre política, economia, filosofia, comportamento e vai por aí afora. Se a tentativa de influenciar alguém for por via oral, já é condenável, mas é possível que não faça tanto estrago. Imaginem, porém, se for por escrito!!! E, pior, se o que se escrever, sem o devido conhecimento de causa e sem a necessária responsabilidade, for lançado nesse “oceano” informativo caótico e não seletivo, que é a internet!! O efeito pode ser nulo, ínfimo, ou nenhum, é verdade, o que considero, todavia, improvável. Mas pode, também, ser bombástico e até letal.

Leio, a todo o momento, a exposição de princípios em que percebo que os redatores apenas “ouviram falar” de passagem e que nunca testaram em suas vidas, mas que expõem com uma convicção tal que mesmo se os dominarmos integralmente, chegaremos, talvez, a “balançar” em nossas convicções. Mas os que não os dominam, podem aceitá-los como rigorosas expressões da verdade e serem, certamente, induzidos ao erro. É aí que mora o perigo. Há, também, os que buscam fazer proselitismo para religiões que, de fato, não professam e que julgam conhecer a fundo, mas não conhecem. Quem age assim, mesmo que com a melhor das intenções, reitero, faz um mal tremendo a seu semelhante, se transmitir tudo isso oralmente. Caso o faça por texto, então... o estrago tende a ser imprevisível, imenso e, sobretudo, irreparável.

Melhor seria se, quem não dominasse integralmente tais princípios, ficasse calado e não se metesse na vida alheia a não ser para esclarecer, orientar e ajudar, se puder. Isso se souber, mesmo, como fazê-lo. A atitude, de tentar incutir nos outros o que não se tem convicção e pleno conhecimento, é como uma luz incerta e tênue, na base do pisca-pisca, em meio à escuridão de uma caverna da qual se busque a saída, sem encontrá-la. Em vez de iluminar o caminho e, portanto, orientar, serve, somente, para confundir, criando indistintas e distorcidas sombras. O revolucionário russo, Mikhail Bakunin, escreveu a respeito: “É melhor a ausência de luz do que uma luz trêmula e incerta, servindo, apenas, para extraviar aqueles que a seguem”. E, de fato, é.

Há escritores que têm o dom natural, inato de “cativar” leitores. São sedutores na exposição de idéias, por saberem fazê-lo com habilidade, com simplicidade, com correção e com empatia. São admiráveis por contarem com essas virtudes. São exatamente estes, todavia, que têm maior responsabilidade na hora de escrever. O escritor francês, Antoine de Saint-Exupéry, definiu, no livro “O Pequeno Príncipe”, o que é ser cativante. Escreveu: “ – O que quer dizer cativar? – É uma coisa muito esquecida... Significa criar laços”. Advertiu, no entanto: “Tornamo-nos eternamente responsáveis pelo que cativamos”. Ou, mais explicitamente: “por quem cativamos”. Pense nisso antes de ler o que talvez venha a considerar um “bom texto”.


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