O
bom texto
Pedro J. Bondaczuk
O bom texto – e não importa se
ele for jornalístico ou literário – não é, apenas, o redigido com clareza e
correção gramatical. Isso, aliás, é obrigação primária, elementar, de qualquer
redator que se preze. Não se concebe que alguém se proponha a divulgar por
escrito uma informação, uma opinião ou uma idéia, seja lá sobre o que for, com
uma escrita relaxada, eivada de erros de toda a sorte. Melhor será que não
escreva nada, pelo menos enquanto não aprender a escrever de fato. Mas não é,
somente, a correção vocabular e gramatical que caracteriza um bom texto, o que
merece perdurar e servir de parâmetro a todo e qualquer redator, embora ela
seja imprescindível. É, principalmente, o conteúdo, e exposto com clareza e
exatidão, sem ambigüidades, vacilações e, insisto, sem erros de nenhuma
espécie.
Presume-se que quem se propõe a
informar algo por escrito, ou a emitir alguma opinião, ou a expor determinada
idéia, tenha domínio sobre o que está tratando. Saiba, mesmo, a respeito do que
está escrevendo e não tenha apenas pálida e remota noção a propósito. Afinal, o
redator nunca tem noção sobre em que mãos seu texto irá parar, nem como, e nem
quando. Portanto, desconhece as conseqüências potenciais que aquilo que escreveu talvez venha a gerar. Pode ser que
não gere nenhuma e se perca para sempre, sem que ninguém o leia. Pode ocorrer
que quem eventualmente o ler não lhe dê a menor importância e se esqueça dele
na sequência. Todavia, pode também ser que mude os rumos de uma vida para
sempre, para o bem ou para o mal e, em casos extremos, e dependendo do teor e
do poder de convencimento do texto, pode, até, levar algum sensível leitor,(ou
vários leitores), ao suicídio. Exagero? Claro que não.
Portanto, o mínimo que se exige
do redator, seja ele quem for, é que, além de escrever sobre o que conheça e
domine, e sempre com correção, que tenha profundo senso de responsabilidade.
Vocês acham que “todos” têm? Ou que a maioria tenha? Ou que mesmo expressiva
minoria seja responsável na escolha e na forma de exposição do que escreve?
Ora, ora, ora... É óbvio que não. Basta ler as mensagens postadas nas redes
sociais, no Facebook, Orkut, Twitter ou seja lá na que for.
Muitas pessoas, por exemplo,
tentam incutir em outras idéias que não dominam e das quais têm apenas vaga,
vaguíssima noção, sobre política, economia, filosofia, comportamento e vai por
aí afora. Se a tentativa de influenciar alguém for por via oral, já é
condenável, mas é possível que não faça tanto estrago. Imaginem, porém, se for
por escrito!!! E, pior, se o que se escrever, sem o devido conhecimento de
causa e sem a necessária responsabilidade, for lançado nesse “oceano”
informativo caótico e não seletivo, que é a internet!! O efeito pode ser nulo,
ínfimo, ou nenhum, é verdade, o que considero, todavia, improvável. Mas pode,
também, ser bombástico e até letal.
Leio, a todo o momento, a
exposição de princípios em que percebo que os redatores apenas “ouviram falar”
de passagem e que nunca testaram em suas vidas, mas que expõem com uma
convicção tal que mesmo se os dominarmos integralmente, chegaremos, talvez, a
“balançar” em nossas convicções. Mas os que não os dominam, podem aceitá-los
como rigorosas expressões da verdade e serem, certamente, induzidos ao erro. É
aí que mora o perigo. Há, também, os que buscam fazer proselitismo para
religiões que, de fato, não professam e que julgam conhecer a fundo, mas não
conhecem. Quem age assim, mesmo que com a melhor das intenções, reitero, faz um
mal tremendo a seu semelhante, se transmitir tudo isso oralmente. Caso o faça por
texto, então... o estrago tende a ser imprevisível, imenso e, sobretudo,
irreparável.
Melhor seria se, quem não
dominasse integralmente tais princípios, ficasse calado e não se metesse na
vida alheia a não ser para esclarecer, orientar e ajudar, se puder. Isso se
souber, mesmo, como fazê-lo. A atitude, de tentar incutir nos outros o que não
se tem convicção e pleno conhecimento, é como uma luz incerta e tênue, na base
do pisca-pisca, em meio à escuridão de uma caverna da qual se busque a saída,
sem encontrá-la. Em vez de iluminar o caminho e, portanto, orientar, serve,
somente, para confundir, criando indistintas e distorcidas sombras. O
revolucionário russo, Mikhail Bakunin, escreveu a respeito: “É melhor a
ausência de luz do que uma luz trêmula e incerta, servindo, apenas, para
extraviar aqueles que a seguem”. E, de fato, é.
Há escritores que têm o dom
natural, inato de “cativar” leitores. São sedutores na exposição de idéias, por
saberem fazê-lo com habilidade, com simplicidade, com correção e com empatia.
São admiráveis por contarem com essas virtudes. São exatamente estes, todavia,
que têm maior responsabilidade na hora de escrever. O escritor francês, Antoine
de Saint-Exupéry, definiu, no livro “O Pequeno Príncipe”, o que é ser
cativante. Escreveu: “ – O que quer dizer cativar? – É uma coisa muito
esquecida... Significa criar laços”. Advertiu, no entanto: “Tornamo-nos
eternamente responsáveis pelo que cativamos”. Ou, mais explicitamente: “por
quem cativamos”. Pense nisso antes de ler o que talvez venha a considerar um
“bom texto”.
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