Saturday, February 28, 2009

REFLEXÃO DO DIA


A maior tortura que temos, provavelmente, na vida é a incerteza, seja lá do que for. Todavia, ela é a grande característica dessa aventura magnífica, que é a possibilidade de viver. Nunca estamos absolutamente certos de quase nada. Não temos certeza de que a profissão que escolhemos é a mais adequada, de que a decisão que tomamos é a correta, de que o amor que dedicamos a alguém é plenamente correspondido (mesmo que as manifestações dessa pessoa, seus atos e reações, dêem essa indicação) e vai por aí afora. No caso dos relacionamentos, a prova de que nunca estamos seguros da plena correspondência é o sentimento do ciúme, que todos temos em algum momento, posto que em intensidades variáveis, de acordo com nossa formação e personalidade. Certeza, mesmo, só tenho duas: a da existência, imanência, transcendência e eternidade de Deus e de que um dia, que não sei quando, vou morrer. No mais... Tudo é incerto e sujeito a especulações e a mutáveis opiniões.

Temporal


Pedro J. Bondaczuk


Sol quente,
crestante,
potente,
constante,
infernal.
Meio-dia!
É sinal:
prenuncia
temporal.

Nuvens de carvão
ou, talvez, quem sabe,
feitas de algodão
(definir não cabe)
embebido em piche,
quase a respingar,
cor de azeviche
abafam o ar.

Guarda-chuva sob o braço,
com olhar distante e baço,
roupa puída e surrada,
sem querer ou pensar nada
cheiro agridoce de terra
(a neblina esconde a serra)
sem que eu pressinta o perigo,
sem nenhuma pressa eu sigo.

Um gigante eriça o pêlo,
reluta, depois se arrisca:
atrita pedras de gelo,
provoca raios, faísca.

O gigante gargalha, então.
Sua gargalhada ressoa,
e no ar opressivo ecoa
em um assustador trovão.

Forte vento agita o arvoredo.
Chorar o gigante resolve.
Causa pasmo, tensão e medo.
Temporal! Assusto-me! Chove...

(Poema composto em Campinas em 12 de março de 1968)

Friday, February 27, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Somos, via de regra, severos demais no julgamento dos atos e obras das outras pessoas. Exigimos delas comportamentos e atitudes que não temos e não admitimos outra coisa nos outros se não a perfeição. Por que essa postura, se somos tão imperfeitos? É verdade que somos julgados da mesma forma e, não raro, nos rebelamos com esses julgamentos. E mesmo quando agimos com justiça, deixamos de lado um ingrediente altamente desejável: a misericórdia. Ou seja, a mesma que queremos para nós e para as nossas fraquezas e contradições. Todos os princípios humanos são imperfeitos e falhos, como a verdade (mal-recompensada para os que a buscam com exemplar dedicação), a justiça (raríssimas vezes “cega” e imparcial), além das características encaradas ostensivamente como deficiências de caráter, como orgulho, ambição e vaidade, entre outros. Por que, pois, exigir dos outros o que não sabemos e não podemos fazer?

Comportamento humano


Pedro J. Bondaczuk

O homem – em sentido genérico, ou seja, eu, você, fulano, sicrano, beltrano e, virtualmente, todos os que vivem, já viveram ou viverão um dia – está longe de se comportar como ser humano. É uma fera que anda sobre os dois pés, raciocina, fala, mas cujos atos são, guardadas as devidas proporções, típicos de qualquer outro animal. É um predador por excelência, com uma característica peculiar: é o único que depreda o meio em que vive.
Essa afirmação sobre o homem pode até parecer paradoxal (não fôssemos um feixe de paradoxos), mas tem lá sua lógica. Nosso comportamento (salvo raras e honrosas exceções), ainda está tão distante do nosso potencial de inteligência, poder e bondade como a Terra está da constelação Alfa Centauro.
Somos, ainda, escravos dos nossos hormônios (aquela nossa parte instintiva e animal, alheia à nossa vontade), em detrimento dos neurônios. Ou seja, a imensa maioria das nossas reações a determinados estímulos prende-se aos instintos e não à razão, que é o que nos distingue (ou deveria nos distinguir) dos demais seres vivos. Agimos, quase sempre, por impulsos (salvo raras exceções) e não sob o comando do raciocínio. Não exercitamos, pois, o livre-arbítrio, que tanto apregoamos. Ainda não sabemos optar entre o bem e o mal. Somos escravos das circunstâncias.
Estudos revelam que utilizamos, no máximo, 5% dos bilhões de neurônios que temos no cérebro ao longo de uma vida, digamos, de 80 anos. Isso, no caso dos gênios, absolutas raridades mundo afora. Há quem utilize, quando muito, 0,5% (se tanto). A média anda por volta dos 2,5%. Ou seja, estamos muito distantes de utilizar plenamente, em todo o seu potencial, o órgão mais poderoso e mais nobre, o que comanda todos os nossos atos, voluntários ou involuntários e que é a sede da vida, de que a natureza nos dotou.
Outro aspecto, que determina nosso comportamento, é o fato de não subordinarmos nossa sabedoria ao nosso conhecimento. Ao contrário do que muitos pensam, tratam-se de coisas distintas. Não somos seletivos quanto ao que deveríamos conhecer. Abarrotamos o cérebro de bugigangas, de quinquilharias, de informações inúteis e até prejudiciais, que não nos servirão nunca para nada ou que irão nos determinar um comportamento doentio, violento e distorcido, em detrimento do que poderia nos elevar, engrandecer e humanizar. Desperdiçamos, pois, os poucos neurônios que utilizamos com “lixo”, em vez de preenchê-los com aquilo que nos confere sabedoria, em sentido lato.
Quando me refiro à “humanização”, estou pensando num homem que realmente seja a imagem e tenha a semelhança com o Criador. Em nosso atual estágio de evolução (e de “civilização”), não somos, sequer, ainda, caricata e ridícula imitação, extremamente mal-feita, da divindade, do suprassumo da perfeição.
Um terceiro (e não menor do que os outros) obstáculo a ser superado é a nossa impossibilidade de conjugar os propósitos que temos ao nosso poder. Claro que me refiro aos positivos, nobres e construtivos e não aos distorcidos, egoísticos e corrompidos. Queremos muito mais do que podemos. E por que não conseguimos essa conjugação, se nosso cérebro é, potencialmente, tão poderoso? Exatamente por não concretizarmos esse potencial. Por sermos incapazes de utilizar mais de 95% dos neurônios de que a natureza nos dotou.
Arrogantes, como somos, achamos que esta geração (não toda, mas ínfima parcela dela) atingiu o ápice da evolução. Apontamos, como “provas”, nossas miraculosas conquistas tecnológicas, que deixariam pasmos e aterrorizados nossos até recentes ancestrais (digamos, do século XIX).
Afinal, dizem os defensores dessa suposta “Idade das Luzes”, já voamos mais rápido do que os pássaros (nos aviões que construímos), nos deslocamos na água com maior velocidade do que os peixes (em nossos navios) e nenhum animal nos supera em rapidez na terra (nos automóveis, motos etc. que construímos). Até fora do nosso Planeta já fomos.
Todavia, em termos de raciocínio, de domínio da razão sobre os instintos, de auto-conhecimento (que é o que importa)... não evoluímos um único milímetro. Temo, até, que tenhamos retrocedido vários metros, se não quilômetros.
Daí tanta ganância, tanta violência, tantas injustiças, horrores, massacres, cinismo e tamanha solidão. Daí tanta fome, mundo afora, em meio à superabundância de alimentos. Daí tanta poluição, tanta destruição, tanto desperdício de recursos, talentos e vidas. Daí tamanha exploração do homem pelo homem.
Daí esse comportamento que nada tem a ver com o verdadeiro ser humano, aquele que ainda não existe, mas que pode existir um dia (se o suposto Homo Sapiens não destruir a Terra e, com isso, desaparecer do universo). Ou seja, o da imagem e semelhança de Deus.
Considerar que o Onipotente, Onisciente, Onipresente e Eterno (cuja existência, glória e poder muitos estúpidos teimam em negar) seja minimamente parecido com esse ser primitivo, néscio, selvagem, e violento, é a máxima das heresias.

Thursday, February 26, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Os tempos atuais, em que os recursos para se obter informações, praticamente de todos os campos da atividade humana, abundam, estabelecem estranho e contundente paradoxo: nunca, na história da humanidade, houve tantas pessoas alienadas, sem consciência sequer de si. Um dos problemas que mais afligem os antropólogos, por exemplo, é o que se refere à individualidade. É possível que ela seja estabelecida e delimitada, numa época em que há tanta gente no mundo (6,7 bilhões de habitantes) e que se está sob tanta influência externa, a dos veículos de comunicação em massa? Em tese, a resposta é sim. Na prática, porém... O homem, no atual estágio de desenvolvimento (salvo exceções), a despeito dos avanços científicos e tecnológicos que obteve, em termos de consciência, ainda é aquele mesmo ser primitivo e rude que habitava as cavernas, com levíssima camada de “verniz” de civilização. Infelizmente.

Frutos de preconceitos


Pedro J. Bondaczuk

“O triste do rebanho humano... é a força dos maus sentimentos e a generalização da estupidez”. Essas palavras de Monteiro Lobato, pinçadas no livro “Serões de Dona Benta”, adquirem plena veracidade e ganham mais força quando analisamos determinados comportamentos das pessoas, sendo que um dos que mais me intrigam é esse nosso hábito, para lá de generalizado, de dizermos “palavrões” quando irritados com algo, ou, principalmente, com alguém.
Outro dia, eu e meus amigos, que nos reunimos, amiúde, em nosso “cenáculo” informal – na verdade um bar aqui da cidade (reuniões estas que já abordei inúmeras vezes, em crônicas anteriores) –, debatemos esse tema e chegamos a algumas conclusões. Analisamos cada uma dessas expressões chulas isoladamente, fora do seu contexto de agressividade, e encontramos, em todas, sem nenhuma exceção, inegável raiz de preconceito.
No Brasil, criou-se um verbo próprio para caracterizar o ato de dizer impropérios (provavelmente proveniente de algum dialeto africano): xingar. E o que se entende como xingamento? Conforme o dicionário, é “a ofensa, o insulto, a injúria ou a zombaria com palavras”. Quem quiser conhecer uma coleção completa deles, basta ir a um estádio de futebol, principalmente em dia em que o árbitro estiver desagradando o time de maior torcida. Quem não os conhecer (se há alguém que não os conheça), aprenderá rapidinho como tirar os outros do sério.
Numa análise rápida e superficial, é fácil demonstrar a tese que levantei, de que os palavrões se originam de preconceitos. Por exemplo, o xingamento dos xingamentos é dizer a alguém que ele é “filho de uma prostituta” (embora a palavra empregada não seja bem esta, mas outra, bem mais curta). A pessoa que se ofende com isso é tão tola quanto a que a xinga. Claro que sua mãe não exerce a profissão tida como a mais antiga do mundo. E se exercesse?
Seria vergonhoso. E por que? Porque os mesmos que exploram sexualmente as mulheres consideram que as que se deixam explorar se tornam menos do que humanas. Viram uma coisa qualquer, menos gente. Preconceito, puro preconceito, como se vê. Outro xingamento equivalente é mandar o desafeto procurar a .... que o pariu. Ou seja, diz a mesma coisa, com outras palavras: que a mãe daquele a quem se deseja ofender é uma rameira.
Um terceiro palavrão, que provoca brigas e mais brigas e, nos casos extremos, redunda até em mortes, é chamar alguém de homossexual, mas substituindo esse termo pelo de um animal gracioso, veloz e cheio de galhos na cabeça. Discordo do homossexualismo, embora respeite a opção alheia. Todavia, considero esse xingamento, tanto quanto o que abordei anteriormente, fruto de preconceito.
A maioria das outras palavras consideradas insultuosas é constituída por expressões escatológicas, como os órgãos sexuais (masculino e feminino), o excremento (com seus sinônimos chulos, evidentemente) e, estranhamente, o uso de animais, como cachorro, cavalo, burro, vaca e vai por aí afora para caracterizar alguém. Creio que o que ofende num xingamento não é ele em si, mas a hostilidade que embute quando é proferido.
Há palavras, até mesmo, que em sua origem não tinham conotação ofensiva e que o povo transformou em ofensa. Exemplo? Vagabundo. O significado original desse termo era o da pessoa que se perdia em seus próprios pensamentos, ou que viajava muito, ou que fosse nômade. Não tardou para que lhe dessem acepção negativa, profundamente pejorativa. Hoje a palavra é, via de regra, utilizada significando “aquele que não possui ocupação, que vive levianamente, errante, que vagueia, andarilho”.
Há não muito, chamar alguém de vagabundo (ou de sua variante, vagamundo), equivalia a considerá-la um poeta, ou um turista, ou alguém que conhecia muitas terras e lugares. Hoje... é uma ofensa que pode dar processo (se o que se considerar injuriado for, digamos, um pouquinho “civilizado”), ou encrenca da grossa se for um sujeito ignorante, de maus bofes e, sobretudo, valentão.
Como se vê, a estupidez é democrática e se generaliza com espantosa rapidez. Todas as palavras consideradas xingamentos têm significados, digamos, neutros, se utilizadas no devido contexto. Foi o preconceito que as transformou em palavrões. Tanto que essas palavras, condenadas pelos moralistas de plantão e que provocam reações tão dramáticas, são chamadas de “baixo calão”. Ou seja, de origem popular.
Agora me respondam o seguinte: é somente o povo que xinga? Aqueles tidos como sendo de “classes superiores” nunca fazem um xingamento, unzinho sequer? Fazem! E como fazem! Por que, então, essa designação de “baixo calão”? É preconceito puro, explícito, escrachado e desabrido contra o chamado “povão”, óbvio! Ou não é?!

Wednesday, February 25, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Se o Paraíso, o bíblico “Jardim do Éden”, existiu, de fato, ou se não passa de alegoria de como era a Terra, antes que o homem, com sua insensatez e burrice, a estragasse e emporcalhasse, é uma discussão sem-fim. Pesquisadores de todas as áreas empenham-se, há séculos, para comprovar (ou desmentir) sua existência ou não, em vão. O que impede, porém, o homem de fazer do mundo todo um paraíso a girar no espaço? Sua insensatez. Sua maldade latente. Seus instintos de fera, mal-dominados pela razão. Seu egoísmo, cupidez e falta de solidariedade. Podemos chamar de tudo este planeta azul, avariado, poluído, semi-destruído, menos de Paraíso. Imaginem o quanto somente de dejeto fecal é gerado, diariamente, mundo afora, por 6,7 bilhões de indivíduos! E quanto se gerou em cerca de 140 mil anos de presença do homem na Terra! Rios, lagos, mares e oceanos estão se transformando em imensos esgotos a céu aberto e nada se faz para impedir tamanha tragédia!

Hora H


Pedro J. Bondaczuk

(Conto)

- Parado aí, vagabundo! Parado, não corra senão atiro! Mãos para cima, rápido! De joelhos, vamos, de joelhos, o que está esperando?!
A primeira reação, até instintiva, de Marcelinho – pego de surpresa no estacionamento do Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, ao final do desfile das escolas de samba paulistanas, já na manhã deste domingo, 14 de fevereiro de 1999 – foi tentar correr. Avaliou suas possibilidades de sucesso e concluiu que eram nulas. Correr, naquelas circunstâncias, não era lá muito prudente, tendo em vista a arma apontada na direção do seu peito. O melhor seria obedecer as ordens. Foi o que o rapaz fez. Virou-se, lentamente, na direção do policial e se ajoelhou, bem devagarinho, antes mostrando as mãos, para comprovar que estava desarmado.
- Deitado! Vamos, deitado de bruços! – tornou a ouvir a ordem, num tom autoritário, firme e chato, de quem não estava absolutamente para brincadeiras. Não teve outro jeito. Deitou-se de bruços, como lhe fora ordenado, com os braços voltados para as costas. O policial algemou seus pulsos e Marcelinho sentiu uma dor alucinante tão logo as algemas se fecharam.
O jovem, aparentando vinte anos de idade se tanto, moreno, cerca de 1,80 de altura, cabelos negros e compridos, olhos castanhos e de boa aparência, ainda tentou argumentar com a autoridade, na vã tentativa de se livrar da prisão:
- Policial, o senhor certamente está enganado! Não fiz nada! Só estava assistindo os desfiles! O senhor me confundiu com outra pessoa.
- Não fez nada uma porra! Há um bom tempo que estou na sua cola e da sua quadrilha de pivetes bandidinhos, seu vagabundo!
- Quadrilha, eu?! Deve haver algum engano! Não tenho quadrilha nenhuma. Sou um cidadão honesto, trabalhador...
- Cala a boca seu filho da puta, se não cubro você de porrada!
Dito isso, o policial jogou Marcelinho, como um saco de batatas, no camburão, estacionado perto de onde havia sido efetuada a prisão. Antes, contudo, revistou, meticulosamente, o suspeito.
Encontrou em seu poder uma verdadeira joalheria. Eram uns 20 relógios, a maioria importada, uma quantidade enorme de correntinhas de ouro e de prata, brincos, anéis, pulseiras, alguns jóias legítimas, outros bijuterias, de todos os tipos e valores. Estavam todos nos dois bolsos, bastante fundos, de suas calças, que iam até um pouco abaixo dos joelhos. Neles, cabia uma quantidade impressionante de objetos, principalmente se pequenos.
Marcelinho não tinha mais como negar. Fora apanhado, como se diz popularmente, com a boca na botija. Como justificar todos aqueles objetos em seu poder? Não havia jeito! Que delegado seria tão burro a ponto de acreditar em qualquer história que viesse a inventar?
Decidiu que a melhor estratégia, a partir de então, seria a de se calar e esperar o que desse. Estava consciente que, doravante, quanto menos falasse, mais seguro estaria e viveria por mais anos, possivelmente. Conhecia perfeitamente a lei tácita do silêncio, que imperava no reino da marginalidade. Se preso, tinha que assumir toda a culpa sozinho. Ai de quem não respeitasse esse código e delatasse os comparsas! Sua vida não valeria um tostão furado. Nos presídios, em todos eles, havia verdadeiros esquadrões de execução para eliminar alcagüetes. Não havia perdão para os delatores.
No fundo do camburão, que seguia rumo a alguma das tantas delegacias paulistanas, Marcelinho dizia, a si próprio, meio que em tom de ironia, o mesmo que costumava dizer às suas vítimas, quando as assaltava e essas não tinham a menor condição de reagir:
- Perdeu! Perdeu! Você perdeu!
E perdera mesmo.

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O desfile das escolas de samba paulistanas, do chamado “Grupo Especial”, foi, neste 13 de fevereiro de 1999, o maior e o mais requisitado da história do Carnaval de São Paulo ou, pelo menos, desde que o Sambódromo, projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer, foi inaugurado, em 1991. O motivo principal foi a presença da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, que entrou na disputa na condição de favorita. É verdade que a tradicional Vai-vai estava de olho no bicampeonato, com chances concretas de repetir a façanha do ano anterior. E fez um desfile impecável, conquistando, se não as arquibancadas, pelo menos boa parte dos jurados.
Os corintianos, a exemplo do que faziam no estádio, com o time de futebol, incentivaram, gritaram, agitaram bandeiras, repetiram coros, cantaram o samba-enredo com inusitado entusiasmo e deram pleno apoio à sua escola. E esta não decepcionou. Não havia como a vitória não ficar entre ela e a tradicionalíssima Vai-vai. Apostas se sucediam sobre quem ficaria com o título desse ano.
Uma das decepções do desfile foi a Unidos do Peruche, da qual muito se esperava, por levar para a avenida o enredo considerado pela imprensa e pelos especialistas o mais moderno e original e o que mais possibilidades visuais dava à escola de todos: “Bill Gates, o cérebro do futuro”, de autoria de Franky Gal. Mas seu desempenho esteve longe do esperado, com vários problemas envolvendo carros-alegóricos e falhas gritantes especialmente no quesito harmonia, o que, certamente, lhe custaria a perda de preciosos pontos.
Outra que decepcionou foi a X-9 Paulistana, longe de repetir a performance do ano em que estreou entre as grandes e abocanhou o título. Já a Camisa Verde e Branco, a Rosas de Ouro e a Mocidade Alegre, apontadas na véspera como sérias concorrentes, fizeram desfiles tecnicamente perfeitos, mas ligeiramente abaixo da Gaviões e da Vai-vai.
Desfilaram, nesse ano, no “Grupo Especial”, doze escolas, e todas numa única noite, o que tornou o espetáculo um tanto monótono e cansativo e prejudicou, principalmente, as últimas a desfilar, já em plena manhã do domingo.
Apresentaram-se, nesse carnaval, no Sambódromo (cujo nome oficial é “Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo”, em homenagem a um dos maiores humoristas e atores de cinema e televisão do País em todos os tempos): Gaviões da Fiel, Vai-vai, Mocidade Alegre, Nenê da Vila Matilde, Camisa Verde e Branco, Rosas de Ouro, Imperador do Ipiranga, X-9 Paulistana, Leandro de Itaquera, Águias de Ouro, Unidos do Peruche e Acadêmicos do Tucuruvi.
Todas essas escolas estavam recheadas, como sempre, de personalidades dos meios artísticos, esportivos e sociais, não apenas da cidade de São Paulo, mas também de várias partes do País. Era um verdadeiro “Butantã” de cobras. Um dos grandes destaques, porém, se não o maior da noite, foi Suzana Alves, conhecida como Tiazinha, cuja característica marcante era seu visual estilo sadomasoquista, atração do “Programa H”, de Luciano Hulk, na Rede Bandeirantes de Televisão.
O Sambódromo paulistano estava superlotado, sem que sobrasse qualquer lugar a eventuais retardatários. Havia tanta gente, que muitas pessoas se aglomeravam até nas laterais da pista de desfile, atrapalhando a evolução das escolas.
Não havia, portanto, local mais propício para a atuação de ladrões, principalmente na “especialidade” de Marcelinho, que era o furto de relógios e jóias, do que essa área em dia de desfile. Seu grupo agia, normalmente, nas ruas, em especial na região da Avenida Faria Lima, na altura dos Jardins. Outro ponto que rendia muito à quadrilha era uma esquina próxima ao Shopping Iguatemi. Quando o rapaz falou aos seus chefes que pretendia ir ao Sambódromo, para ali fazer sua coleta, foi advertido dos riscos. Não deu bola. Sua teimosia e sua desmedida ambição foram a sua perdição.

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Marcelinho ficou órfão aos dez anos de idade. Perdeu os pais num acidente de ônibus, na volta de uma romaria a um santuário de Minas Gerais. Ficara, nesse dia, na casa da Vó Maria, no Jardim Ângela. Só por isso não morreu também. Não tinha outros parentes em São Paulo e por isso, esteve a pique de virar mais um sem-teto na grande cidade.
Vó Maria morava sozinha, numa casinha modesta, e se sustentava com sua parca aposentadoria de professora, que mal lhe dava para comprar os remédios de que necessitava. Ainda assim, acolheu o neto de bom grado, ciente das dificuldades que iriam passar. Para aumentar a renda, e não passarem fome, decidiu fazer as duas coisas que mais sabia, além de lecionar: confeccionar flores artificiais e fazer doces.
Marcelinho era o encarregado de vender as duas mercadorias. Sofreu muito, foi bastante humilhado, resistiu o quanto pôde à tentação para ser aviãozinho de determinado traficante, mas não saiu ileso dessa experiência. Passou a praticar pequenos furtos, o que lhe valeu três internações na FEBEM. É verdade que o máximo de tempo que ficou na instituição foi vinte dias. Era um garoto forte, ágil, esperto demais para a idade e conseguia fugir com a maior facilidade.
Vó Maria ficou horrorizada com a primeira detenção do garoto. Desabafou dizendo que além de azarado – jurava que Marcelinho havia nascido numa sexta-feira 13, em dezembro de 1980, mas na verdade esse dia caíra num sábado – agora dera para ser bandido. O garoto jurava que iria mudar. Não mudou. Passou, porém, a ter mais cuidado. Nunca mais tornou a ser detido.
Sua sorte começou a mudar quando conheceu Alfredo, ex-presidiário, de 25 anos de idade, que chefiava uma quadrilha de pivetes especializada no roubo de relógios importados, notadamente de Rolex. Garantia que esse tipo de delito não envolvia grandes riscos, principalmente se fossem respeitadas determinadas regras de segurança.
Os meninos atuavam em grupos. Um deles, o mais ágil, era o encarregado de surrupiar os relógios dos motoristas incautos. Tinha que ser rápido e bom de drible, para não ser apanhado. Depois de correr uns duzentos metros, passava o objeto a um outro parceiro, que repassava, mais à frente a um terceiro, este a um quarto e este ao quinto e último, que o entregava, finalmente, em segurança, ao Alfredo.
Cada moleque do grupo recebia R$ 20,00 por relógio. Parecia pouco, mas não era. Em dias de boa coleta, Marcelinho chegava a levar para casa até R$ 400,00. A média nunca era inferior a R$ 200,00. O que ninguém da quadrilha podia era se deixar levar pela cobiça. Tempos atrás, determinado garoto até que tentou guardar para si o produto do furto. Não se sabe como, foi descoberto. Nunca mais os colegas o viram. Meses depois, souberam que um corpo de um menino, com todas as características do desaparecido, com visíveis sinais de espancamento, fora encontrado boiando no Rio Tietê, na altura de Pirapora.
Em compensação, tudo o que os membros da quadrilha conseguissem furtar, desde que não fossem relógios, lhes era permitido ficar com os objetos. Eles os repassavam a um receptador conhecido, que morava na Lapa e que lhes pagava em torno de 10% do valor real das correntinhas, braceletes, pulseiras, anéis etc. Para os meninos, valia a pena. Raramente alguém do grupo era detido e encaminhado à FEBEM. E quando isso acontecia, menos de um mês depois, já estava de volta. Eram, porém, transferido de equipe. Alfredo comandava cinco delas, cada qual com cinco integrantes.

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Várias quadrilhas, especializadas no furto de relógios, atuavam em São Paulo. Algumas eram sumamente violentas. Como a que tinha base no município vizinho de Taboão da Serra, por exemplo, que agia, sempre, com o uso de motos. A polícia estava no seu encalço há tempos, mas nunca havia conseguido deter um só dos seus integrantes. Estes aterrorizavam as vítimas, às vezes as espancavam e até as mutilavam.
A que Marcelinho integrava não era, também, tão pacífica. A maioria dos meninos morava no Jardim Ângela e, para convencer as vítimas a lhes entregarem seus pertences, ameaçavam-nas com estiletes ou punhais. Mas jamais feriram nenhuma delas. Não, pelo menos, que Alfredo soubesse. Ele recomendava que os potenciais “doadores” de relógios fossem ameaçados, sim, mas nunca feridos.
Marcelinho, contudo, era “diferente”. Nem, mesmo ameaças fazia. Jamais portara qualquer tipo de arma, nem mesmo uma reles faca enferrujada. Falava maciamente com as vítimas e, não se sabe como, as convencia a entregar os pertences sem nenhuma reação. Talvez o seu tamanho impressionasse por si só e já fosse uma implícita ameaça.
Por causa do seu método, era conhecido nas ruas pelo apelido de “Veludo”. Os colegas, para provocá-lo, davam uma conotação um tanto diferente a esse apodo: a de maricas, ou seja, de efeminado. Sabiam, todavia, que Marcelinho não tinha nada de “mulherzinha”. Viram-no brigando algumas vezes e não queriam estar na pele dos desafetos e muito menos encará-lo. Além de uma força de touro e de uma agilidade impressionante, ele era perito na mais mortal das artes marciais: a capoeira. Quem era lutador dessa modalidade, não precisava de armas. Para quê? Os golpes que conhecia eram, talvez, mais mortais do que balas, estiletes ou punhais.
Para manter a forma e conservar, e até aprimorar, a agilidade, Marcelinho fazia exercícios físicos diários, tão ou mais puxados que o de muitos atletas de alto rendimento. Por todos os seus atributos, não tardou em se tornar a pessoa da mais estrita confiança de Alfredo. Ademais, dos 25 garotos da quadrilha, era o que dava maior rendimento, mesmo nos dias considerados muito ruins.
Há tempos, contudo, a polícia tentava prender o garoto, que se destacava dos demais tanto pelo porte físico avantajado, quanto pela boa aparência. Não tinha, como se dizia entre seus companheiros, “cara de bandido”. Paradoxalmente, era nisso que se distinguia. Podia andar, é verdade, em qualquer hora e lugar, sem preocupações, pois não despertaria suspeitas de quem quer que fosse.
Uma das raras vítimas a registrar boletim de ocorrência por furto de relógio, porém, fizera uma descrição detalhada de Marcelinho. E ela batia direitinho com as imagens feitas pelas câmeras de circuito-fechado de um dos shoppings em que ele estivera. Cópias desse retrato foram distribuídas fartamente aos policiais de várias delegacias da cidade, com a recomendação explícita de que ficassem de olho nesse “elemento” (conforme o jargão usual usado, principalmente, entre investigadores). Estava, portanto, marcado, sem que sequer desconfiasse. Nem ele e muito menos Alfredo, que era sumamente cauteloso em questões de segurança.
Um dos tormentos dos delegados de São Paulo era o fato das vítimas de roubo de relógios não registrarem queixa. Por isso, eram raríssimos os boletins de ocorrência relatando esse delito. As razões desse procedimento eram até óbvias, de tão lógicas. Os proprietários dessas jóias caríssimas eram, na maioria, pessoas de alto poder aquisitivo e de projeção social. Preferiam arcar com os prejuízos, muito altos por sinal, a se expor publicamente e atrair a atenção de bandidos ainda mais perigosos do que esses. Alguns optavam pelo anonimato pelo fato de não conseguirem explicar como adquiriam os relógios. Muitos, compravam-nos de terceiros, por um preço cinco vezes inferior ao do comércio formal, ou traziam-nos de contrabando do Paraguai ou de outros países nas viagens que faziam.

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Marcelinho sabia perfeitamente qual era o destino dos relógios que roubava e dos lucros exorbitantes que essa “indústria” do furto rendia aos verdadeiros bandidos. Os membros das quadrilhas, que arriscavam o pescoço todos os dias, por uma remuneração aparentemente atrativa, não passavam de meros “coletores” da mercadoria, pés-de-chinelo substituíveis e descartáveis. Quem ganhava, de fato, com essa atividade criminosa, eram receptadores endinheirados, à prova de qualquer suspeita (os mais requisitados eram cinco), cujos nomes Alfredo jamais revelou.
Para se ter uma pálida idéia do montante de dinheiro movimentado por esse tipo de delito, basta um só exemplo. Um grupo que atuava na área da Avenida Faria Lima foi preso, em determinada ocasião, pela polícia. Os ladrões tinham em seu poder alguns relógios das marcas Cartier, Montblanc, Victorinox e Breitting. Apenas esse pequeno lote, uma migalha do que é furtado diariamente em São Paulo, foi avaliado, por baixo, em R$ 50 mil. Só Marcelinho entregava a Alfredo, em dias propícios, 20 desses objetos, dessas mesmas quatro marcas e, principalmente, os requisitadíssimos Rolex.
Os receptadores nunca pagam mais de R$ 500,00 por peça. Vendem-nas barato, é verdade, em relação ao preço de loja. Negociam um Rolex, por exemplo, por R$ 2.000,00, ou seja, R$ 8.000,00 a menos do que o custo oficial, que é de R$ 10.000,00, dependendo do tipo.
Outra coisa que Alfredo revelou a Marcelinho foi quanto ao “mercado” em que esses relógios são vendidos. Como eles têm um número de registro, que permite seu reconhecimento, há algum tempo essas preciosidades eram negociadas fora do Brasil, especialmente na Argentina e no Uruguai. Os receptadores, portanto, não corriam nenhum risco.
Eles aprenderam, contudo, a adulterar os números de registros, assim como os que vendem carros roubados adulteram a numeração dos chassis dos automóveis. Dessa forma, hoje atrevem-se a vender os relógios em São Paulo mesmo, entre outros lugares, em diversos locais públicos, como lanchonetes de luxo, boates e shoppings.
Um único e precioso Rolex Oyster Perpetual – do mesmo modelo usado pelo James Bond de Sean Connery, com a única diferença que o do 007 tinha fundo de ouro rosa – nunca sai por menos do que R$ 10.000,00. Mesmo vendendo a R$ 2.000,00, os receptadores têm lucro total, já que não pagam um reles centavo por essa jóia, projetada em Genebra, na Suíça e feita com pulseira de aço.
Esses dados, claro, mexeram com a cabeça de Marcelinho. Ele começou a cogitar, a título de mero exercício de ficção, uma forma de, a cada 15 ou 20 relógios roubados, ficar com pelo menos um para si. Fez os cálculos e concluiu que, em menos de um ano, ficaria milionário. Então, poderia largar de vez a atividade e viver sem jamais voltar a ter problemas financeiros. Difícil seria explicar para Vó Maria de onde viria toda essa dinheirama.
Até aqui, conseguira enganar a velhinha com a fartura de dinheiro que havia, desde que conhecera Alfredo, em casa. Havia meses que Marcelinho faturava até R$ 4.000,00. Para evitar inevitáveis perguntas, que não teria como responder sem mentir, dava-lhe apenas R$ 2.000,00. E ainda assim tinha que convencer Vó Maria que metade provinha da venda de suas flores e doces (ela achava que ele ainda os vendia) e a outra metade era seu salário num emprego que arranjara.
A velhinha, posto que uma vez ou outra ficasse desconfiada, vivia feliz da vida, crente que o neto se regenerara. Não se cansava de elogiá-lo para as amigas e as vizinhas. Sonhava, até, que ele voltasse a estudar, cursasse alguma universidade e conseguisse se estabilizar de vez na vida.
Mal ela sabia que os doces, que fazia com tanto carinho e aplicação, serviam de lanche, diariamente, aos vinte e cinco meninos da quadrilha. E que as flores (algumas) eram usadas como chamariz para atrair a atenção dos motoristas incautos e assim subtrair-lhes seus preciosos Rolex.

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Marcelinho, quando se dirigiu nesse sábado ao Sambódromo, decidiu que seria neste dia que faria a sua independência. Até já sondara um belo sítio, lá para os lados de Itu, que pretendia comprar para lá se fixar com Vó Maria. Se esconderia ali pelo menos até que as coisas esfriassem entre os seus chefes (os receptadores endinheirados) quando descobrissem que ele os roubara. “Vou fazer um favor à sociedade”, pensou com ironia. “Afinal, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, completou.
Já tinha tudo planejado. Nunca atuara em locais de grande aglomeração. Se algo desse errado, seriam enormes as dificuldades para fugir. Achou que estava se preocupando além da conta “Hoje vai ser moleza. Será como tomar doce das mãos de uma criança”, tentou se convencer.
Marcelinho não tinha, contudo, intenções de se regenerar, mesmo com uma fortuna nas mãos. O que pretendia era mudar de ramo. Quem sabe, montar um desmanche de automóveis. Outro dia, encontrou Panqueca por acaso e este o convenceu. Esse cara era, não faz muito, um sujeito duro, que vivia pedindo dinheiro emprestado a todo o mundo. Agora, era capaz de acender cigarro com cédula de R$ 100,00. Há dois anos, trabalhava, em sociedade, num desmanche. Tinha um baita carrão do ano, importado, vestia-se no último figurino da moda e comia as mulheres mais bonitas de São Paulo. “Se esse cara, tão burro, conseguiu, por que eu não iria conseguir?”, pensou.
O primeiro relógio que roubou, no Sambódromo, deu-lhe um frio na barriga. Escapuliu, depressa, antes que a vítima dissesse um “a”. Esperou uns trinta minutos antes de uma segunda investida. Entrou no meio de um grupo de turistas endinheirados, cujos integrantes haviam bebido todas e estavam pra lá de Marrakesh. Foi moleza.
Só ali, “colheu” mais oito relógios, além de umas vinte correntinhas, algumas pulseiras e até um colar, que parecia de pérola legítima. “Quem vem com um objeto desses, para um lugar como o Sambódromo, é porque quer ficar sem ele”, pensou. Cada objeto que surrupiava, ia colocando nos bolsos.
Tivera o cuidado de vestir calças especiais que só usava para missões consideradas difíceis. Eram largas, mas sem exagero, para permitir-lhe liberdade de movimentos, caso precisasse correr. Mandara-as fazer sob encomenda. Especialmente os bolsos, cuja fundura ia até um pouco abaixo dos joelhos, constituindo-se em “sacolas” perfeitas para carregar o que roubasse. Estava calçado com tênis de grife, bastante confortáveis, que facilitavam a corrida, caso precisasse fugir de alguém, vítima ou policial.
Marcelinho tinha a intenção de guardar os objetos furtados no seu Fusca, que estava no estacionamento do Sambódromo, a cada dez colheitas feitas. Antes fizesse isso. Não fez. As coisas estavam tão fáceis, que resolveu continuar. A intenção inicial era a de ir embora antes que começasse a amanhecer. Não foi. Foi ficando, ficando, apanhando um relógio aqui, outro ali, sem atentar para a “hora h”, em que seria seguro bater em retirada.
Esperou os desfiles da Mocidade Alegre, da Rosas de Ouro, da Vai-vai, da Gaviões da Fiel... E no intervalo entre um e outro, surrupiava mais algum relógio, ou alguma corrente, ou mesmo reles pulseira. Quando se deu conta, o dia já ia alto. Dirigiu-se, vagarosamente, com os bolsos pesados, rumo ao estacionamento. Estava feliz. Sua independência estava próxima. Foi quando o mundo desmoronou sobre a sua cabeça....
- Parado aí, vagabundo! Parado, não corra senão atiro! Mãos para cima, rápido! De joelhos, vamos, de joelhos, o que está esperando?!

Tuesday, February 24, 2009

REFLEXÃO DO DIA


A insensatez é a tônica do comportamento humano, o que comprova que ainda temos muito que evoluir para atingirmos um estágio mínimo de lucidez e de sabedoria. Nossa vida, em maior ou menor grau (dependendo da capacidade de entendimento de cada um) é caracterizada (ou porque fomos educados assim ou por mero instinto de imitação), por ilusões, fantasias e sonhos delirantes e irrealizáveis, com um ou outro fragmento de realidade. Abrimos mão da experiência legada pelos ancestrais e achamos que isso seja progresso, avanço, civilização. Não é! Deixamos a vida sadia, pacata e com poucas ou nenhuma tensão do campo, em contato direto com a natureza e a nossa tribo, para construir feéricas e assustadoras cidades, com populações equivalentes (em alguns casos) à de países inteiros, que se constituem em ferozes e insalubres selvas de asfalto e cimento nas quais nos sentimos, paradoxalmente, mais solitários do que nunca. É ou não é imensa insensatez?!

Clotilde viu fantasma?


Pedro J. Bondaczuk


(Conto)


- Mãe, mãe!
- Sossega, menino!
- Mãe, olha, olha!
- Olhar o quê, menino?! Vê se sossega!
- Olha, é o pai!
- Seu pai o quê, menino! Seu pai está trabalhando!
- Não é o Libório. É meu pai de verdade!
- Você está com febre, menino?! Seu pai morreu há dez anos!
- Olha ali!

E Clotilde olhou. Quase caiu de costas. De repente, tudo se pôs a girar à sua frente e teve que reunir todas as forças para não desmaiar. Ajustou o binóculo para enxergar melhor. Não havia dúvida. Via, nitidamente, na pista do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, o grande amor da sua vida, que julgava morto há uma década. Esfregou os olhos – afinal, o dia já vinha raiando e passara a noite inteirinha acompanhando os desfiles das escolas de samba do grupo especial – e tornou a olhar.

Era ele! Não podia haver engano. A mesma ginga malandra, o mesmo estilo de se vestir, o mesmo penteado, a mesma aparência, posto que um tanto envelhecida. Ademais, desfilava na mesmíssima Mangueira, tão cara ao coração de ambos. Era coincidência demais! Se não fosse o Robson, era algum irmão gêmeo, do qual ele nunca falara.

“Mas como é possível?”, pensou, cada vez mais atarantada. “Identifiquei seu cadáver, crivado de balas, no IML!. Se não for o Robson, quem, ou o que é?”, perguntou, atônita, para si mesma, até aceitando a improvável hipótese de se tratar de um fantasma. Não, não estava delirando. Ricardinho também o viu. Tanto que foi o menino que lhe chamou a atenção.

Buscou observar melhor. O tal homem que via, fosse quem fosse (ou o que fosse, na hipótese de se tratar, de fato, de um espectro que se materializasse em plena Marquês de Sapucaí), parecia ter percebido que estava sendo observado. Tanto que virou o rosto para o lado contrário da arquibancada da direita de quem segue rumo à Praça da Apoteose, como que buscando se esconder de olhares indiscretos, apesar da multidão. E não se voltou mais nenhuma vez para onde Clotilde estava sentada, apressando o passo em direção à dispersão, acossado pelos responsáveis pela harmonia do desfile, que faziam de tudo para que a escola não estourasse o tempo e não viesse a perder preciosos pontos dos jurados.

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Clotilde era uma morena vistosa quando chegou ao Rio de Janeiro, proveniente de Guaxupé, no Sul de Minas, em busca de oportunidades e emoções. Contava, então, com 18 anos, recém-completados, e muitos sonhos na cabeça. Gostava de cantar e tinha bela voz, além de noção de ritmo e harmonia, e muita afinação. Queria ser cantora, gravar discos e voltar para a sua terra famosa e realizada.

Não tardou para arranjar emprego de doméstica, no apartamento de uma senhora de classe média alta no Leblon, casada com um médico famoso na cidade, “enquanto não conseguia contatos para assinar o primeiro contrato com alguma gravadora”. Como fosse bastante asseada, tivesse boa aparência (a bem da verdade, tinha uma beleza estonteante, dessas de chamar a atenção geral onde quer que andasse) relativa cultura (havia cursado até a segunda série do ginásio em sua cidade) e, de quebra, soubesse cozinhar como poucas, caiu logo no agrado da patroa, o que nem sempre acontece com pessoas vindas de fora, notadamente do interior, que penam bastante até conseguir se fixar em algum emprego. Muitas dessas moças ingênuas e despreparadas terminam, mesmo, é na zona do Mangue, na profissão mais antiga que se conhece: a prostituição. Este, porém, não foi o destino de Clotilde.

Com seis meses de Rio, já acostumada ao trânsito da cidade e sabendo se locomover por onde quisesse, sem precisar da ajuda de ninguém, decidiu, numa noite de sábado, assistir a um ensaio da Mangueira. Desde menininha, via, todos os anos, pela televisão, os desfiles das escolas de samba, antes mesmo da construção do Sambódromo, e apaixonara-se pela verde e rosa. Fascinava-a essa combinação de cores, não muito usual. Pesquisou tudo o que podia sobre a Mangueira e era capaz de conhecer mais sobre ela do que muitos mangueirenses de nascimento. Sabia dos vários campeonatos conquistados, dos personagens mais populares da escola e chegara a decorar, até, alguns dos sambas-enredos mais vitoriosos.

Não teve dificuldades em encontrar a quadra em que se realizavam os ensaios. Voltou no sábado seguinte, e no outro, e no outro e aos poucos foi se enturmando. Sua beleza estonteante virou a cabeça da rapaziada, que buscava conquistá-la a todo o custo. E ela resistindo. Não que quisesse se fazer de difícil, mas não encontrara ninguém que lhe agradasse ao ponto de querer namorar. Até que um dia...

Foi num sábado, já bastante próximo do Carnaval. Um passista se destacava dos demais pela ginga, pela elegância e pelas acrobacias que fazia, com um pandeiro na mão. Clotilde observou-o demoradamente, a princípio de forma disfarçada e, depois, ostensivamente. Observar era pouco. “Comia-o” com os olhos. Tratava-se de Robson, mais conhecido como “Enguia”, por sua rapidez e pelos dribles desconcertantes que dava nas peladas de que participava. Diziam, no morro, que até já havia recebido convite do Flamengo para fazer um teste. Se não fosse verdade, bem que poderia ser. Robson era um cracaço de bola, dessas jóias raras que surgem nos lugares mais inesperados desse país do futebol.

O que Clotilde não sabia, e só ficou sabendo muito tarde, é que esse apelido de “Enguia”, para a polícia, tinha outra conotação. O malandro, bom de bola, era, há tempos, procurado por suspeita de fazer parte de uma quadrilha de traficantes das redondezas. Já escapara de vários cercos policiais, sob chuvas de balas, sem precisar disparar um único tiro. Sua defesa era, apenas, a extrema agilidade que tinha.

A molecada do morro tinha-o como herói. Robson não era violento, nunca fora visto com uma arma nas mãos e jurava, aos amigos, e aos pais (que eram evangélicos) que não era marginal. Contudo, era incapaz de explicar de onde provinha o dinheiro que lhe garantia roupas de grife, o carro usado, mas muito bem conservado que tinha e outros tantos luxos que um salário era incapaz de sustentar. Ademais, sempre que alguém lhe perguntava onde e no quê trabalhava e o desafiava a mostrar a respectiva carteira profissional, desconversava, mudava de assunto e jamais respondia.

Robson e Clotilde encontraram-se naquela noite. Formavam um casal de encher os olhos, pela beleza de ambos. Conversaram até o amanhecer e até se esqueceram do ensaio. Na despedida, trocaram beijos calorosos e promessas de novos encontros. Nos sábados subseqüentes, não desgrudaram um do outro. Ambos estavam mutuamente fascinados e se entendiam por um simples olhar. Daí para a paixão foi um pulo. Em resumo, Robson e Clotilde começaram a namorar. E do simples namoro para a decisão de morarem juntos, foi só um já esperado e lógico passo, que ambos deram, sem pestanejar.

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Num determinado domingo, logo cedo, Clotilde arrumou suas trouxas, despediu-se de Dona Teresa, que tentou demover (em vão) a moça, por quem se afeiçoara como por uma filha, a não dar esse passo e se mudou, de mala e cuia. Foi para uma casa até razoável, na subida do morro da Mangueira, que Robson garantira pertencer à sua família que (afirmara), a cedera temporariamente, sem cobrar aluguel. Ela acreditou. Não viu motivos para a menor dúvida.

Não tardou para que viessem os filhos. Primeiro, nasceu o Junior. Dois anos depois, veio o Ricardinho. Outros dois anos, nasceu Maria das Graças. A despeito dos três partos, Clotilde não perdeu o viço. Pelo contrário, parece que a maternidade acelerou seu amadurecimento físico. Tornara-se uma mulher ainda mais apetitosa e bela, com roupas de grife, freqüência semanal ao cabeleireiro, unhas tratadas e todos os requintes que embelezam ainda mais qualquer mulher bonita.

Robson tratava-a como rainha. Satisfazia seus menores desejos e mais loucos caprichos, sem discutir ou nem mesmo reclamar. Tinha prazer em servi-la. Chegara, até, em falar em casamento, mas nunca fez nada de prático para que este se concretizasse. Jamais falou sobre o seu trabalho e Clotilde nunca perguntou. Os dois desfilavam, todos os anos, na verde e rosa, e as fantasias da mulher eram cada vez mais luxuosas (e caras).

A Mangueira (convém apresentá-la para quem não mora no Rio) é um bairro-favela, localizada na Zona Norte da cidade, sub-região de São Cristóvão. Situa-se, na verdade, não num único morro, mas em vários. Tem, de uns anos para cá, como uma das grandes atrações (certamente a maior) o chamado Palácio do Samba, onde a escola promove shows, para arrecadar recursos e realiza seus ensaios.

No ano 2000, o bairro-favela contava com 3.738 domicílios, com população de 13.594 pessoas, equivalente à de muitas pequenas cidades país afora. A comunidade é unida e muitos não saem de lá não por necessidade, mas por opção. Gostam de morar no local onde boa parte nasceu e cresceu, formando vínculos familiares e de amizades.

A vida transcorria mansa e suave para o casal, até que um dia, tudo mudou dramaticamente. Em determinada tarde de julho, quando Clotilde voltava do supermercado, no carro de Robson (há dois anos, tirara a carta de motorista), viu uma viatura de polícia estacionada junto ao portão da casa. Pensou, logo, em assalto. Não era nada disso. O policial que a abordou lhe disse, sem nenhum rodeio, que seu amásio se envolvera num tiroteio com a PM e fora morto. Disse-lhe que tinha que ir ao IML para fazer o reconhecimento do corpo.

Clotilde sentiu o mundo desabar sobre sua cabeça. Todos os seus sonhos e planos tiveram fim num simples piscar de olhos, como fumaça que se perde no ar. O que seria da sua vida, sem aquele companheiro gentil e doce, o homem da sua vida?

No IML, conduziram-na até uma gaveta, parecida com essas de arquivo de aço de escritório, só que muito maior, em que havia um corpo desnudo. Estava com o rosto completamente desfigurado, o que era prova de que não havia sido morto em tiroteio coisa nenhuma, mas torturado e barbaramente assassinado. Clotilde olhou de soslaio e pareceu reconhecer os cabelos de Robson, nada mais. O companheiro não tinha nenhuma tatuagem e nem qualquer sinal particular que o caracterizasse. O cadáver à sua frente também não. A mulher findou por dá-lo como sendo do amásio. Isso havia acontecido há dez anos, em 1992.

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Clotilde permaneceu na casa em que viveu seu sonho de amor com Robson, já que ninguém lhe pediu para sair e, ademais, não tinha para onde ir. Contava com economias suficientes para se manter, e aos filhos, com algum aperto, por pelo menos dez meses. Depois... Bem, depois pensava voltar a trabalhar como doméstica. O destino, contudo, não quis que isso acontecesse.

Clotilde conheceu Libório por acaso. Ao passar, determinado manhã, nas proximidades de um ponto de ônibus, viu um senhor, aparentando 28 anos de idade, aflito pela demora do coletivo. Provavelmente, estava perdendo hora para o trabalho. Num impulso, parou o carro e ofereceu-lhe carona. O homem aceitou. No trajeto até o cais do porto, onde essa pessoa trabalhava como estivador, ficou sabendo que o sujeito era solteiro, evangélico e que morava não muito longe dela, mas já na própria favela-bairro.

Nos dias subseqüentes, voltou a repetir o gesto de cortesia. À medida que se conheciam, ambos foram se tornando mais e mais amigos. Na verdade, Clotilde nunca se apaixonou por Libório. Este era totalmente diferente de Robson, quer nos modos, na aparência e na maneira de trajar, quer na gentileza. Era brusco, meio que caladão e não parecia ter lá muitas ambições. Ademais, não fazia, nem forçando muito a barra, o tipo de galã.

Ao contrário de Clotilde, porém, Libório apaixonou-se pela mulher. Em determinado dia, propôs-lhe morarem juntos. Num impulso, sem pensar muito, ela topou. Afinal, seus filhos pequenos precisavam da figura de um pai por perto. E o homem, mesmo não sendo o protótipo de artista, era forte como um touro, saudável e a satisfazia plenamente na cama. Tanto que, na seqüência do relacionamento, vieram mais três filhos, que se juntaram aos outros três, de Robson.

O casal continuou morando na mesma casa que fora do famoso Enguia. Ninguém nunca pediu que ambos saíssem dali e os dois não viam motivos para sair. Libório tratava bem as crianças, não fazia distinção entre nenhuma das seis e era tido e havido como pai exemplar. Só não tratava Clotilde como sua rainha. Criticava, por exemplo, seu sonho de ser cantora, proibiu que ela continuasse desfilando na Mangueira e até tentou convencê-la a freqüentar sua igreja. Ela recusou. Ainda assim, prometeu casar com ela, de papel passado e tudo, “para regularizar a situação das crianças”, dizia, a título de desculpa. Na verdade, porém, era apaixonadíssimo por Clotilde. Só não sabia manifestar essa paixão. Ademais, nunca proibiu a mulher de assistir os desfiles na Marquês de Sapucaí. E esta, claro, não perdeu um só deles.

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A Mangueira fazia um desfile impecável, como há muito não se via. Exibia, no Sambódromo, todo o luxo e grandiosidade, que os turistas tanto apreciam, sem abrir mão, todavia, da tradição. Carros alegóricos, fantasias, alegorias, harmonia... tudo se casava, numa integração que surpreendia os próprios mangueirenses.

O engraçado é que muita gente da escola não botava fé no enredo de Max Lopes, “Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com s é Nação do Nordeste”. Muitos defendiam que a escola trouxesse para esse Carnaval um tema mais local, mais carioca, que empolgasse não só os sambistas, mas a heterogênea platéia. Quem pensava assim, porém, se enganou.

Cada ala disputava com outra quem desfilava melhor. O samba-enredo, de autoria de Lequinho e Amendoim, cresceu muito no vozeirão do onipresente Jamelão, verdadeira lenda na história dos desfiles. Até os mais pessimistas dos pessimistas já acreditavam em mais um título da tradicional verde e rosa. Parece que todos os cerca de cinco mil integrantes da escola acordaram, sem exceção, inspiradíssimos naquele dia.

A previsão dos mais otimistas era que a Mangueira conquistaria não somente esse Carnaval de 2002, mas a maioria dos “Estandartes de Ouro” de “O Globo”, tamanho era o entusiasmo que sua performance despertava. A bateria, com seu ritmo peculiar, punha mais gás ainda nos sambistas, como se isso fosse ainda necessário. Quando a primeira ala chegou à área de dispersão, já se podia ouvir, nas arquibancadas, os primeiros gritos de “já ganhou!”.

“Mangueira encanta
e canta a história que o povo faz, ô, ô, ô, ô,
vem mostrar a nação do valente sertão
de guerras e de sonhos imortais”

Não somente os integrantes da escola, mas toda a arquibancada cantava, com entusiasmo, a plenos pulmões, o samba-enredo. E a voz firme e característica de Jamelão impedia que a Mangueira atravessasse o samba na avenida. Todas as alas e as arquibancadas cantavam exatamente a mesma coisa e no mesmo momento.

Os comentaristas da Rede Globo, até então sisudos e ponderados, esmeravam-se em comentários elogiosos ao desempenho, ora dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, ora da Ala das Baianas, que arrasava com suas fantasias em verde-rosa, ora de um ou outro carro-alegórico mais original, com destaque, óbvio, aos astros globais que participavam do desfile.

O coro de “já ganhou!”, a princípio tímido, se transformou em ovação geral, que tomava todos os setores do Sambódromo, de forma uníssona e ensurdecedora. Ai dos jurados se fizessem besteira na hora de atribuir as notas. Certamente, cairiam em ridículo. Não havia como o resultado ser outro senão a vitória consagradora da Mangueira. Claro que a apuração da quarta-feira poderia trazer surpresas. Sempre trazia. Mas na preferência popular – e a voz do povo é a voz de Deus – a verde-rosa já era a campeã.

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Clotilde demorou um certo tempo para se recuperar, tão logo reconheceu Robson, sambando na avenida, como se não houvesse um amanhã. Beliscou-se, para verificar se não estava sonhando. Não, não estava. A primeira pergunta que lhe veio à mente foi: “como pode?!”. Tinha certeza que Enguia estava morto. Havia reconhecido o seu corpo. É verdade que o rosto estava desfigurado pelos vários disparos de arma. Mas o corpo, os cabelos, o porte... tudo era dele.

A seguir, aceitou, em seu espírito, a hipótese de que, de alguma forma ou de outra, Robson não havia morrido. “Onde ele ficou esse tempo todo? Por que não me procurou? Sofrera amnésia? Arranjara outra mulher?”. Perguntas, perguntas e mais perguntas e nenhuma resposta.

Concluiu que a única maneira de verificar se a tal figura era, mesmo, o amor da sua vida, ou um sósia, era ficando cara a cara com ela. Mas como, no meio daquela multidão? O momento de vacilo foi muito breve. Pediu a Ricardinho que guardasse seu lugar e a esperasse ali, e que não saísse por nada desse mundo, e resolveu se dirigir para a área da dispersão.

A dificuldade para encontrar a saída foi imensa. Uns vinte minutos depois, estava no local desejado, torcendo para que o acaso lhe possibilitasse o encontro que poderia decidir sua vida. “E se for ele? Como fica a minha situação? E o Libório? Já estava, até, providenciando os papéis do casamento”, pensava Clotilde, enquanto procurava, aflita e freneticamente, alguém que pelo menos se parecesse com Robson.

Olhou fixo para um dos lados e... Era ele! Ali, a dois passos, à sua esquerda, de costas para ela. Bateu no ombro da tal pessoa, com mil perguntas engatilhadas, mas, quando esta se voltou... não era Robson.

- O que foi, gata?
- Desculpe, confundi-o com outra pessoa.
- Sem essa de confusão, morena. Vamos celebrar a vitória da verde-rosa.
- Se manca, cara!

Clotilde se desvencilhou do tal sujeito, irritadíssima por haver perdido tanto tempo. Continuou procurando, no meio da multidão. Era como tentar achar uma reles agulha num palheiro. O clima na dispersão era de muita euforia. Repórteres e cinegrafistas acotovelavam-se e trocavam empurrões com os integrantes da escola em busca de personalidades para entrevistar. Era um mar de gente, de carros alegóricos, de alegorias de todos os tipos e tamanhos, numa impressionante Babel.

Clotilde estava prestes a desanimar e já fazia menção de voltar para a arquibancada, onde Ricardinho a esperava, quando o viu, nitidamente, embora a uns 800 metros de distância. Era ele, não havia dúvida, com aquele seu jeitão de galã, confiante e lampeiro. Fez menção de seguir em sua direção, mas era tarde. Robson, ou seu clone, ou seu irmão gêmeo, ou um fantasma, ou seja lá o diabo que fosse, fez um aceno, que ela tinha certeza que lhe era dirigido (poderia ser para qualquer outra pessoa, claro) e se perdeu na multidão.

Nunca mais Clotilde sequer ouviu o que quer que fosse a respeito daquele que foi seu único e grande amor, o homem da sua vida.


Monday, February 23, 2009

REFLEXÃO DO DIA


As decisões mais importantes que afetam a nossa vida e determinam, até, nossa sobrevivência ou extinção, são tomadas, invariavelmente, por outros. Nossa prosperidade ou ruína, alegria ou tristeza, saúde ou doença estão em mãos alheias e nada, ou muito pouco, podemos fazer para nos prevenir dos tão freqüentes e contumazes erros de quem decide. Leis iníquas, por exemplo, em cuja elaboração não temos a mínima participação, modificam, não raro, para muito pior os nossos destinos. Uma decisão tomada por um ser humano rigorosamente igual a nós, mas que detém as rédeas do poder, pode determinar a ascensão ou extinção do país em que vivemos, a vida ou a morte dos nossos parentes (pais, filhos, esposa, netos), amigos e conhecidos, em guerras com as quais não temos nada a ver etc.etc.etc. Considero isso injusto e insensato e mudar essa realidade, para melhor, é um dos meus mais ousados e, aparentemente impossíveis, ideais.

Do milênio passado


Pedro J. Bondaczuk

Os mais jovens, se preconceituosos e néscios (nem todos são), quando querem desmerecer alguém mais idoso, com mais de trinta anos, dizem, torcendo o nariz: “Você é ultrapassado! É do século passado! Melhor, é do milênio passado!”. E nós, que temos mais de trinta (aliás, na verdade, mais de dez, abrangendo, portanto, esses mesmos jovens que dizem essas bobagens), de fato somos.
E daí? Não fomos nós que construímos esse mundo, que bem ou mal, ainda está de pé? O que herdamos daqueles que nos antecederam foi muito pior. Até doze anos antes de se expirar o século XIX, por exemplo, aqui no Brasil, era normal uma pessoa escravizar outra por causa da cor da sua pele. Era, aliás, rotina tratá-la como animal irracional – comprá-la, vendê-la, agredi-la, surrá-la etc. – e tudo isso feito com o beneplácito das leis então vigentes.
Hoje, a despeito de existir escravidão disfarçada em muitos lugares (inclusive em nosso País), a legislação prevê severas punições para quem age assim. É verdade que muitos conseguem subornar autoridades e continuar com sua torpe e covarde exploração, impunes. Mas esta é uma outra história, que fica para uma outra vez.
Nunca, em tempo algum, as pessoas dispuseram de tanto conforto e tantas facilidades, ditados pelo miraculoso avanço da tecnologia, como hoje. Transportes rápidos por terra, mar e ar; telefone celular, computadores, internet, rádio, televisão, alimentos saudáveis assegurando crescente longevidade etc.etc.etc. E quem possibilitou tudo isso? Foi essa geração, tão criticada e achincalhada, do “milênio passado”.
É certo que, a despeito da criação das Nações Unidas, que se propunha a ser um fórum democrático e justo para impedir agressões entre países e povos, guerras e “revoluções salvadoras” continuam pipocando, aqui, ali e acolá, matando milhares de pessoas, em geral inocentes e alheias às controvérsias dos poderosos (como os conflitos posteriores à desagregação da ex-Iugoslávia, as invasões norte-americanas ao Iraque, os ataques ao Afeganistão e por aí vai).
Mas nenhuma dessas insanidades sequer se aproxima dos horrores proporcionados pelas duas guerras mundiais da primeira metade do século XX (do Holocausto, por exemplo), que culminou com a maior chacina de que se tem notícia, que foram as explosões nucleares que pulverizaram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Não foi, porém, esta geração a responsável por tamanha atrocidade.
O mundo é perfeito? Claro que não! Seria uma idiotice afirmar o contrário. Mas uma geração que mal chega à adolescência nesta primeira década do século XXI, não deve nutrir preconceitos contra a que a precedeu. Até porque, ainda nem teve tempo de dizer a que veio. Tomara que não cometa os mesmíssimos erros das que a precederam.
Não me sinto nem um pouco vexado por haver nascido no século passado ou, como queiram, no “milênio passado”. Já houve períodos piores, muito piores, na história da humanidade. O que nos compete cuidar é para que não venhamos a superar, em insânia, ganância e violência, os que hoje (justamente) tanto criticamos e tão enfaticamente condenamos.
Eduardo Galeano escreveu, no livro “Um convite ao voo”: “Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta-vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério”.
Quem nunca ouviu, por exemplo, algum místico de ocasião, mal-informado, afirmar esta imensa bobagem: “A mil chegará, de dois mil não passará” (referindo-se ao mundo), garantindo, com ares de suprema sapiência, que essa sandice está escrita na Bíblia (não está, evidentemente)? No entanto... O novo milênio já está próximo de completar a primeira década e estamos todos aqui, vivinhos da silva.
Eduardo Galeano lembrou, ainda: “Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível”.
É isso o que nos falta: um pouquinho de otimismo, de sonho, de delírio até, mas em sentido positivo. Não adianta, contudo, somente projetar, sonhar, delirar e tentar adivinhar outro mundo possível e melhor. É preciso agir, com sabedoria e bom-senso, para que isso aconteça.
É possível, a esta altura, nutrirmos alguma certeza, qualquer que seja, quanto ao futuro? Temo que não! Tanto a humanidade pode criar juízo e se regenerar, quanto... nem é bom pensar. Daí concordar (mais uma vez) com Eduardo Galeano quando constata: “Temos uma única certeza: no século XXI, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, do milênio passado”. E como estamos (ainda) aqui... é melhor que nos conformemos.

Sunday, February 22, 2009

REFLEXÃO DO DIA


A identidade de pensamentos, sentimentos e crenças é a única forma de tentarmos preservar nossas obras do esquecimento, tão logo venhamos a esgotar nosso tempo sobre a Terra. É imensa tolice, portanto, nadar contra a correnteza e pretender fazer proselitismo. Leio, por exemplo, com maior atenção e gosto, apenas livros de escritores com os quais me identifico, nem que seja minimamente, que pensam como penso e que aprofundam e justificam meu pensamento. Os outros... Não me proponho sequer a refutar o que pensam. Ignoro-os. Quase todas as pessoas agem assim. O mesmo vale em relação às outras artes. Temos a vã ilusão que as obras que deixarmos irão preservar nossa memória através dos séculos e milênios e que não “morrerão” jamais. Muitas, porém, se não todas, caem no completo esquecimento, semanas, quando não meros dias, após nossa morte. Já dizia Salomão: “Vaidade, vaidade, tudo no mundo é vaidade”.

DIRETO DO ARQUIVO


Índia ameaçada


Pedro J. Bondaczuk


A morte da primeira-ministra indiana, Indira Gandhi, traz um sério risco de “implosão” na heterogênea federação de Estados que é a Índia. Caso o povo daquele país tivesse condições de resolver seus problemas estruturais sem interferência alheia, tudo seria muito mais fácil. Mas, certamente, não conseguirá essa façanha, em virtude dos interesses de diversas espécies que a China, os EUA e a União Soviética têm na área.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, norte-americanos e soviéticos praticamente transformaram o mundo num tabuleiro de xadrez estratégico, onde cada peça tem a sua devida importância. Quando Jawaharlal Nehru, pai de Indira e premier do país na época, assustado com o expansionismo chinês, a partir do início da década de 50, buscou uma aliança disfarçada com Moscou, imediatamente Washington passou a apoiar o Paquistão.

Esse país foi desmembrado da antiga colônia britânica da Índia, após imensa luta armada, com um número incalculável (cujas cifras jamais foram reveladas no Ocidente) de mortos e mutilados, principalmente no período de 1946 a meados de 1948.

Em 1951, os chineses invadiram o reino teocrático do Tibete, governado pelo líder supremo do lamanismo, o Dalai Lama, impondo àquele milenar povo do “teto do mundo” a sua recém adquirida ideologia marxista. A Índia, quase que de imediato, deu acolhida (e até ajuda material) aos guerrilheiros tibetanos, contrários, é claro, à ocupação chinesa da sua pátria.

Em represália, Pequim estimulou os anseios separatistas da população de Cachemira, Estado há décadas disputado por indianos e paquistaneses.

Mas o fator que levou o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru a buscar a proteção soviética foi a inexplicável (e impune) agressão da China contra a Índia, ocorrida em 20 de outubro de 1962, quando suas tropas, inclusive, chegaram a invadir parte do território indiano e só de lá se afastaram após duas ameaças partidas de Moscou.

Morta Indira, que nos seus quinze anos de governo foi uma autêntica equilibrista, conseguindo manter o país a salvo de interferências maiores, quer de Moscou quer de Washington, além de estabelecer um relativo estado de coexistência com Pequim, o regime de Nova Delhi cai subitamente nas mãos de um jovem de 40 anos, sem grande experiência política (e que, até mesmo, tem aversão a ela) e nenhuma administrativa.

E isso num momento em que, pelo menos em quatro Estados, movimentos separatistas conquistam terreno, ou seja, no Punjab, em Tripura, em Cachemira e em Uttar Pradesh, por sinal o mais populoso dessa tão populosa sociedade nacional.

Os indianos, por esse motivo, podem esperar dias de muita tensão e uma infinidade de distúrbios nos próximos tempos. Não faltarão, certamente, oportunistas querendo explorar o estado de confusão gerado pelo desaparecimento de uma grande líder. Contestada, é verdade, em muitas das suas atitudes, algumas até excessivamente arbitrárias. Vista por certas correntes como corrupta (teve contra si dois processos dessa natureza) e demagoga (sabia controlar seu povo com atitudes populistas e discursos inflamados).

Mas a sua ausência, a falta de seu pulso forte nesse momento de tantas dificuldades para a Índia, pode ser simplesmente trágica para uma federação com menos de quatro décadas de independência, mas com mais de dez milênios de acúmulo de problemas sociais, econômicos e militares.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 2 de novembro de 1984).

Saturday, February 21, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Queiram ou não os empedernidos egoístas, todos somos obrigados a cooperar uns com os outros, para manter este arremedo de civilização e até para assegurar nossa sobrevivência. Cada qual desempenha um papel, de acordo com suas aptidões: o médico, o pedreiro, o engenheiro, o jornalista, o lixeiro, o padeiro etc. Imaginem se não fosse assim! Seria o caos. Imperaria a lei das selvas. A despeito de todas as imperfeições, desmandos e aberrações, bem ou mal, é esse espírito cooperativo (raramente espontâneo) que mantém coesas as sociedades e lhes confere um toque mínimo de organização. É certo que essa cooperação poderia ser mais ampla, se não absoluta, envolvendo todos os povos. O homem, a despeito do seu imenso potencial de inteligência, porém, ainda tem enorme dificuldade de assimilar as realidades mais simples e óbvias. Por isso, complica, desnecessariamente, sua vida, quando poderia torná-la muito mais fácil e simples.

Território da ira


Pedro J. Bondaczuk

Saudade profunda, pungente,
de ingênuas eras distantes.
O Tempo está tão diferente!
Não tem os encantos de antes.

É severa minha agonia,
meu frenético anseio
pela redenção do belo,
pela inocência perdida,
pela pureza, imaculada,
de um mundo, outrora virgem.

Reconstruo (só na memória),
momentos inolvidáveis,
em oníricos cenários,
com personagens ideais.
E a tristeza, tamanduá
bandeira, que me enlaça,
e oprime as costelas,
dói, por sabê-los sombras,
espectros, fantasmas,
desejos, quimeras,
passado, brumas, saudade,
decrepitude... e nada mais...

Anseio por outro mundo,
que já foi, mas não é mais,
sem este cheiro de morte,
sem esta adaga de sangue
que paira sinistra no ar
como espada de Damocles,
feroz território da ira.
Uma terra sem malícia,
sem violência e sem vício,
sem as fraquezas dos fortes,
sem a hipocrisia dos fracos.

Saudade profunda, pungente,
daquele mundo radioso,
meu paraíso existencial,
onde a beleza era um gozo,
o Amor, absoluto, real,
a esperança, estandarte,
e a bondade, mais do que ideal!

Angustiado, abatido,
nesta negra noite fria,
compartilho da agonia
das Musas, da Poesia,
que, pouco a pouco,
golpe a golpe,
no medíocre dia a dia,
lentamente desertam...

E quando as Musas partirem,
lá para as bandas do Sul,
quando as trevas vadias
expulsarem toda a luz,
quando o último esteta
da beleza desertar,
serei retalho, esperança,
não mais do que vaga
e apagada lembrança,
do Poeta de Alma Azul...

(Poema composto em Campinas, em 14 de julho de 1968).

Friday, February 20, 2009

REFLEXÃO DO DIA


A invenção do zero foi uma das mais revolucionárias, ousadas e úteis criações da fértil mente humana. Produziu resultados impressionantes, que quase nunca (ou nunca mesmo) nos damos conta quando estudamos História. Raramente valorizamos isso e muitos vão até mais longe e, de maneira arrogante e estúpida, torcem o nariz diante dessa constatação. Parece uma coisa extremamente simples, que qualquer um pudesse ter inventado, mas não é. Essa invenção trouxe mudanças fundamentais às ciências e à economia que, sem ela, provavelmente não ocorreriam. Desconhece-se, ironicamente, o inventor desse revolucionário conceito. Uma pena! A simbolização do vazio, do nada, do que é inexistente, como se fosse um valor concreto, possibilitou, sobretudo, a estruturação da matemática, sem a qual não teríamos construções, máquinas, ciências, comércio e praticamente nada. Como se vê, é nas coisas aparentemente ínfimas e triviais que a genialidade humana se manifesta.

Devaneios, nnão ideais


Pedro J. Bondaczuk

As pessoas, em geral, confundem ideais com simples devaneios. Os primeiros são claros, definidos, objetivos e não contêm a mínima ambigüidade. Os segundos são obscuros, genéricos, vagos e sumamente ambíguos.
Afirmar que se deseja “ser útil” pode ser manifestação de boa-intenção, não duvido. Mas essa utilidade pode ser dar de várias formas. Portanto, a afirmação não passa de mero devaneio. O mesmo vale quando nos referimos à humanidade. Generalizamos a questão, sem especificá-la.
Outro conceito genérico, amiúde utilizado pelos pseudo-idealistas, é o que se refere ao “próximo”. Quem é ele? Qual seu grau de proximidade? Próximo de quem, de mim ou de meus parentes e amigos? Devaneios, meros devaneios.
O verdadeiro idealista, não raro, sequer sabe que o é. Não se limita a meras elucubrações e à retórica bombástica, mas via de regra despida de conteúdo. Em vez de falar e de apregoar aos quatro ventos os méritos próprios, ou seus pseudo-sonhos, ou supostos planos, opta por agir: socorre, instrui, orienta, corrige, constrói... E, na maioria das vezes, sequer fica sabendo o resultado da sua atuação. Ademais, isso pouco lhe importa.
Idealista, sem dúvida, foi São Francisco de Assis em sua opção de valorização e defesa da vida, sendo humilde com os humildes, assumindo uma pobreza que não precisava, comungando a tal ponto com a natureza que chegava a entender os animais, os pássaros, as borboletas e os insetos, com os quais dialogava.
Outro, que sacrificou fortuna, fama, posição social etc. foi Albert Schweitzer. Médico, filósofo, teólogo e músico (é considerado, até hoje, um dos melhores, se não o melhor intérprete das composições de Johann Sebastian Bach), no auge do prestígio, abandonou tudo para se embrenhar nas selvas do Gabão, na África, para tratar de pessoas que não dispunham das mínimas condições de acesso a tratamento médico.
Iniciou sua missão – que ninguém lhe impôs – em condições precaríssimas. Seu primeiro “consultório” foi um galinheiro adaptado. Enfrentou obstáculos que desanimariam o mais determinado dos idealistas, como clima hostil, falta de higiene, carência de medicamentos e de instrumentos cirúrgicos, idioma estranho que lhe era, de início, completamente incompreensível etc.etc.etc. Tratava, em média, 40 doentes por dia e fez isso não por semanas ou meses, mas por anos e décadas, dormindo pouco, se alimentando mal e sem receber o mínimo níquel de quem quer que fosse por seu trabalho. A despeito de tudo e de todos, perseverou. E venceu.
Schweitzer encantou e extasiou o mundo com sua perseverança, bondade e dedicação. Em 1952, conquistou o Prêmio Nobel da Paz, o mais justo de todos já atribuídos desde a instituição dessa premiação. E, claro, reverteu a totalidade do que recebeu na construção de um moderno hospital em Lambarené, além da contratação dos melhores médicos e enfermeiras que havia na Europa e no aparelhamento do mesmo.
Idealistas foram Mohandas Karamanchand Gandhi, o poeta Rabindranath Tagore, Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King e tantos outros. Muitos desses indivíduos obcecados pelo bem continuam agindo, injustiçados, espalhados pelo mundo afora, sem que as pessoas que não sejam do seu círculo sequer saibam que existem. Pouco lhes importa.
Muitas vezes nos deparamos com tarefas aparentemente impossíveis de serem realizadas, por se constituírem, supostamente, em desafios superiores às nossas forças, nossos conhecimentos e nossa capacidade mental.
A maioria... claro, desiste da empreitada, sem sequer fazer a mínima tentativa. Perde, desta forma, não raro, oportunidades únicas para evoluir e conquistar o respeito e a admiração gerais quando não os próprios. Estes não podem, jamais, posar de idealistas. Todavia, alguns têm a suprema cara de pau de apregoar que o são. Têm devaneios, não ideais.
Muitos indivíduos, todavia, ousam tentar realizar o aparentemente irrealizável. E surpreendem-se com as próprias forças, com aquela reserva de energia que todos temos, mas que a maior parte das pessoas sequer desconfia que tenha. A ousadia acaba premiada. Esses, sim, são idealistas.
Não se deve desistir, a priori, de nada. Se nosso esforço redundar em fracasso, a tentativa sempre terá valido a pena. Se for bem-sucedido... A escritora Pearl Buck constatou, a respeito: “Até prova em contrário, todas as coisas são possíveis – e mesmo o impossível talvez o seja apenas nesse momento”.
Mas o ideal precisa ser legítimo, claro, objetivo e definido. Caso contrário... O escritor italiano, Giovanni Arpino, fez uma deliciosa constatação a respeito, no livro “A escuridão e o Mel” (Editora Berlendis & Vertechio”). Escreveu: “Ser útil. Humanidade. O próximo. Devaneios de solteirona. Se fosse assim, melhor seria ser cura, no campo. Mas um cura típico, com a barriga, a chácara, o sótão cheio de salames e assim por diante”. Porquanto, convenhamos, ideal está longe de ser algo tão genérico, obscuro, oco e vago.

Thursday, February 19, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Quanto mais intensa for alguma emoção, maiores serão as impossibilidades delas serem expressadas por palavras. Tudo o que dissermos ou escrevermos a respeito não passará de ridícula e distorcida caricatura desses sentimentos. Não se pode racionalizar o irracional. Emoção e razão são dois compartimentos distintos e estanques. Para se expressar um grande amor, de forma minimamente inteligível, só há uma maneira de dar certo: é amando. E, assim mesmo, é indispensável que haja reciprocidade por parte da pessoa alvo desse amor. Caso contrário... As descrições que se fizerem não passarão de palavras ao vento que até podem encantar os basbaques, mas que serão despidas de conteúdo. Mais uma vez, portanto, sou levado a concordar com Fernando Pessoa, quando escreve: “Quando puderes dizer o teu grande amor, deixa o teu grande amor de ser grande”. E deixa mesmo. Qualquer um pode comprovar a veracidade dessa óbvia constatação.

Espelhos do tempo


Pedro J. Bondaczuk

O tempo sempre foi, é e continuará sendo, enquanto eu viver, o foco central das minhas reflexões e o tema predileto do que escrevo. Não quanto à sua passagem, óbvio, pois sobre esta não tenho como interferir, mas quanto à sua natureza e como agir para aproveitá-lo da melhor maneira.
Já escrevi centenas de textos a respeito (e pretendo escrever muitos, ainda), mas sempre encontro ângulos novos a abordar. Como este, sugerido por Antônio Vieira, no magnífico “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”, proferido há mais de trezentos anos e que é mais atual do que nunca.
O eminente sacerdote e um dos maiores estilistas de língua portuguesa, afirmou: “Ponde estes dois espelhos um defronte do outro, e assim como os raios do ocaso ferem o oriente e os do oriente o ocaso, assim, por reverberação natural e recíproca, achareis que no espelho do passado se vê o que há de ser, e no do futuro o que foi. Se quereis ver o futuro, lede as histórias e olhai para o passado; se quereis ver o passado, lede as profecias e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente, para onde há de olhar?” Bela pergunta!
Somos, na verdade, uma espécie de arqueólogos, sempre a escavarmos, continuamente, as ruínas do nosso próprio passado, sepultado sob toneladas de poeira do tempo. Alguns buscam lembranças benignas e deliciosas, que os consolem das agruras do presente. Outros, insensatos e tolos, revivem fracassos e frustrações, que teimam em remoer anos a fio, quando a atitude prudente seria deixá-los intocados, enterrados para sempre. Outros, ainda, fantasiam e se convencem que foram reais episódios que só existem e existiram em suas férteis (ou delirantes?) imaginações.
O passado (como principalmente o presente e, ademais, o próprio tempo) é ambíguo. Mesmo não podendo ser revivido da forma exata que aconteceu, teima em retornar ao presente, de uma forma ou de outra. Quando traz de volta lembranças positivas, não deixa de ser bem-vindo. Quando, ao contrário, nos faz reviver angústias, dores e frustrações, é um veneno que tem que ser evitado, pois não tem antídotos.
E qual é o segmento do tempo que mais nos afeta? Em qual deles tomamos consciência maior, onipresente e aguda, da sua existência e passagem? O presente? Não pode ser. É tão rápido, que pode ser considerado, apenas, mero conceito, simples abstração. O futuro? É desconhecido, pois é impossível conhecer o que ainda não aconteceu. Tudo o que pensarmos sobre ele, portanto, poderá não passar de mera fantasia.
O segmento do tempo que mais nos afeta, e que está permanentemente em nossa memória, é o passado. É certo que, aquilo que passou não pode mais ser modificado. Mas é com os erros que cometemos, e com os acertos que tivemos nele que construímos o roteiro das nossas vidas.
Às vezes, produzimos comédias. Outras tantas (creio que na maioria) tragédias. Os roteiros que determinam nossa história variam. E a variação é tamanha que, quando menos esperamos, conseguimos, até mesmo, compor um “happy end”. O poeta suíço Henri Frédéric Amiel constatou, com perspicácia, certa feita: “O tempo nada mais é do que a distância entre as nossas lembranças”. Vocês conhecem definição melhor?!
O presente, reitero, é sumamente ambíguo. Sua duração é tão ínfima, que chega a se constituir em mera metáfora, em simples símbolo, em verdadeira abstração. Para se ter idéia da sua fugacidade, basta dizer que é mais veloz, até, do que a luz, cuja velocidade é de 300 mil quilômetros por segundo.
Mal pronunciamos a primeira sílaba da palavra que o caracteriza, “pre”, e ele já é, há alguns centésimos de segundo, passado. Trata-se, por isso, de fração do tempo absolutamente indimensionável. Ninguém nunca a mediu e jamais conseguirá medir.
Antônio Vieira, no já citado “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”, deixa clara sua ambigüidade, embora quase nunca venhamos a nos dar conta dela: “Olhai para o passado e para o futuro e vereis o presente. A razão ou conseqüência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”. Ambíguo, não é verdade? Ambíguo e fascinante.

Wednesday, February 18, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Que a Filosofia é a “mãe” de todas as ciências, disso não há a menor dúvida. O próprio significado da palavra, “estudo da vida”, indica isso. Originou-se da curiosidade do homem primitivo, ávido em saber quem era, onde estava e para onde iria. Aliás, estas três questões, ainda hoje, em pleno Século XXI, não foram respondidas de forma cabal, de sorte a não gerarem a mínima dúvida. No princípio, a Filosofia era simples, acessível a todas as pessoas dos vários clãs e não tinha “donos”. Até que alguns espertalhões se apropriaram dela e complicaram tudo. Criaram uma série de mirabolantes teorias, que se conflitavam umas com as outras; incorporaram jargões inteligíveis apenas para uma minoria de “iniciados” e a “mãe de todas as ciências” deixou de ser popular. Todos somos, de certa forma, “filósofos”, mesmo que sequer saibamos ler, na medida em que buscamos, mediante nossa vivência e experiência pessoal, respostas para os inúmeros “por quês” da vida.

Pés no chão


Pedro J. Bondaczuk

Os “pés”, com os quais deveríamos caminhar sobre a Terra e justificar plenamente nossa condição de seres racionais, únicos animais com capacidade de julgamento e entendimento dos nossos atos, são a fé e um profundo senso de valores. Bem ou mal, foram estas as características que permitiram o surgimento desse ainda pálido e caricato arremedo de civilização que, convenhamos, é muito melhor do que a absoluta barbárie.
Nossa crença num ser superior, imanente, transcendente, onipotente, onipresente e eterno, baseada na lógica e não em meras lendas e superstições, é ponto de apoio para um procedimento solidário, amoroso e pacífico em relação a todo o tipo de vida. E, principalmente, para desenvolver, consolidar e praticar valores que nos tornem, de fato, humanos, e não feras perigosas e cruéis. Estes, porém, enfatizo, têm que ser caracterizados por atitudes práticas, por ações e não por meras e subjetivas intenções, ou discursos bem-elaborados e bombásticos. Palavras, desacompanhadas de ações, são mero ruído inútil, por mais nobreza e verdade que encerrem.
Alguns dos valores mais conhecidos e ostentados pelas pessoas são mal-compreendidos e, por isso, efetivamente pouco exercitados. Exemplo? A solidariedade. Sermos solidários com alguém não significa, somente, entendermos seus fracassos e aflições e lhe manifestarmos nosso apoio formal. Isso pode, até, trazer-lhe algum conforto, mas não resolverá sua situação. Seremos, de fato, solidários apenas se fizermos algo prático, se lhe prestarmos o máximo de ajuda que nos for possível, para que esse indivíduo reverta seu insucesso ou se livre do que o aflige.
Outro valor amiúde citado, mas pouco entendido, é a justiça. Pensamos nela somente em termos de punição a alguém que infrinja alguma norma legal e/ou moral. Raramente, todavia, cogitamos em premiar, de alguma forma, os méritos e as ações positivas alheios. Quando agimos assim, óbvio, não estamos sendo justos (mesmo que estejamos convictos que sim).
Outros tantos valores, como liberdade, altruísmo, piedade, ética etc. são amiúde poluídos e distorcidos por discursos maravilhosos e por mera retórica sem conteúdo, deixando de gerar, por conseqüência, os efeitos benéficos que deles se espera. Praticarmos benemerência, por exemplo, acompanhada de farta divulgação do nosso ato, não caracteriza, propriamente, um ato altruístico, mas se constitui em mera propaganda pessoal.
Sentirmos dó de alguma pessoa, por sua fraqueza, ou por suas carências (materiais e/ou espirituais) ou, pior, por sua absoluta indigência, não somente não é o sublime valor da piedade, como descamba para a soberba, que humilha o destinatário dessa atitude e, claro, multiplica seus sofrimentos. Constitui-se em suprema crueldade! Muitos agem assim sem nem mesmo se darem conta e julgam-se virtuosos. Evidentemente, não são!
Não basta, no entanto, nos restringirmos a cultivar valores. Precisamos disseminá-los, popularizá-los, transformá-los em rotina na vida cotidiana não apenas da nossa família, mas de toda a sociedade. Quanto mais pessoas cultivarem-nos e, sobretudo, os praticarem, maior será a evolução social de uma comunidade, de um povo, de uma nação e, por extensão, do mundo.
Temos a obrigação de instruir as novas gerações nesse aspecto. Trata-se da única fórmula que irá garantir a evolução mental e espiritual da espécie e distanciá-la, mais e mais, da sua animalidade latente, aproximando-a, por conseqüência, da divindade.
É com esses “pés” que devemos caminhar sobre a Terra. Esta é a nossa principal missão. Ou seja, a de sermos, em termos de cultivo e de prática de valores, melhores do que as gerações que nos antecederam.
Concordo, pois, plenamente, com o que afirma o humanista Daisaku Ikeda, em seu livro “Vida, um enigma, uma jóia preciosa”: “As fundações da existência humana são a fé e o senso dos valores. Somente participando na construção desses alicerces é que uma vida pode enfrentar os julgamentos a que estão sujeitos os seres humanos e gozar de completa paz e tranqüilidade. Num sentido muito realístico, habitar a Terra significa "ter os pés no chão"“.
Convenhamos, com a cabeça voltada para as três maiores ilusões que existem, glória, poder e fortuna, a humanidade não os tem. Daí o mundo ser este “vale de lágrimas”, com tanto sofrimento, violência, cupidez, aberrações e dor.
Enquanto o homem não aprender a “habitar a Terra”, no sentido lato, não passará de animal, com ligeiro verniz de civilização que lhe é conferido por este instrumento poderoso e nobre (que ele pouco utiliza): a razão.
Caminhemos, portanto, com os “pés” corretos e adequados (os da fé e dos valores) por este miraculoso planeta. Pisemos, hoje e sempre, com confiança o solo de uma nova realidade, a que viermos a construir com nosso talento, habilidade e aquilo que nos faz “semelhantes” (posto que jamais iguais) a Deus: a plena racionalidade.

Tuesday, February 17, 2009

REFLEXÃO DO DIA


Fala-se muito, nos meios políticos (em especial em vésperas de eleições), na necessidade de respeito irrestrito aos direitos dos cidadãos. Concordo, mas apenas parcialmente. Quem tem que ser respeitado de forma irrestrita é o ser humano. Temos direitos naturais que ninguém, a pretexto algum, pode violar. Não podemos ser forçados por quem quer que seja a fazer o que não queremos, em circunstância alguma, desde que, claro, isso não prejudique ninguém. Cada vez mais, o homem é tratado como objeto, robô manipulável, títere e não como ser racional, detentor de necessidades, idéias e direitos próprios. A palavra “liberdade” há muito foi desvirtuada e é interpretada ao gosto e à feição dos detentores do poder. Posso, por exemplo, ser um talentosíssimo artista, poeta, músico, pintor ou sabe-se-lá o quê, e não ser cidadão. Ou seja, viver no isolamento, no campo ou nas montanhas e, ainda assim, minha vontade e meus direitos têm que ser respeitados sempre!

Sob o peso da beleza


Pedro J. Bondaczuk

A poesia, para mim, é sinônimo perfeito de beleza, transcendência, grandeza e sublimidade. Espanta-me, portanto, e, acima de tudo, me inquieta quando leio poemas que, praticamente, exaltam a maldade, a violência, a traição, a morte, a podridão e tudo o quanto o homem e, principalmente, o mundo têm de feio, dramático, perverso e ruim. E nem podem me chamar de alienado por ter essa aversão, face à profissão que exerço: jornalista.
Creio que o poeta que recorre a esses temas o faz como uma espécie de vingança, de represália ou, quem sabe, de auto-agressão (o que é mais verossímil). Trata-se de confissão tácita da sua inabilidade, da sua frustração, da sua impotência para descrever a excelência do lado belo, nobre e desejável da vida, tão magnífico este é. Além do que, o instrumento de que dispõe – a palavra – é muito pobre, indigente, paupérrimo para expressar determinados sentimentos, notadamente o de deslumbramento que a beleza causa nas mentes sensíveis.
Pesquisei, recentemente, três antologias poéticas, uma das quais de autores internacionais, em busca de poemas de exaltação ao amor, à amizade, à ternura e a tudo o que entendo que deva ser objeto da atuação do poeta. Para minha surpresa, todavia, apurei que em torno de 80% dos textos consultados tratavam da morte. Deus que me livre!!
Sou amante apaixonado (e inveterado) da vida. Quanto à cruel e sorrateira niveladora dos homens, prefiro nunca pensar nela. Quando chegar meu momento de ter esse encontro fatal (e certamente chegará, eu sei) que ele aconteça naturalmente, sem dramas e nem ansiedades.
Não vejo a mínima beleza na extinção de qualquer ser vivo. Pelo contrário... Não quero, portanto, focalizar a morte em meus versos. E, por conseqüência, detesto ler a respeito. Que os poetas deixem esse assunto para quem é perito no seu trato: jornalistas, médicos, biólogos, legistas, dramaturgos, romancistas, contistas, novelistas etc.etc.etc.
Outra pesquisa mostrou-me as conseqüências que as pessoas hiper-sensíveis sofrem, literalmente esmagadas sob o peso da beleza, que encontram a toda hora e em todo o lugar e que se sentem impotentes para descrever da forma exata que a enxergam. Esta eu fiz objetivando escrever um novo livro (que se vier a ser escrito, terá o título de “Eros & Thanatos”), em que pretendo abordar a vida de alguns escritores que cometeram suicídio, tentando entender a razão que os levou a tão tresloucado ato.
Para a minha surpresa, a maioria dessa lista pesquisada é composta por poetas, como Antero de Quental, Florbela Espanca, Ingeborg Bachmann, Mário Sá Carneiro, Serguei Iessienin, Sylvia Plath, Torquato Neto e Vladimir Maiakowski, entre tantos outros. Estes levaram sua hiper-sensibilidade ao extremo. Produziram versos belíssimos de amor e de deslumbramento com a vida que, no entanto, não os satisfizeram. Não resistiram à frustração e foram, literalmente, esmagados “sob o peso da beleza”.
Há poesia por toda a parte, até nos lugares mais lúgubres e horríveis, como favelas, bordéis, presídios etc.etc.etc. à espera de quem a colha e transmita com a maior fidelidade. Há casos, até, em que ela prescinde de palavras, nos exigindo, apenas, atenção e sensibilidade. Creio que a maioria (se não a totalidade) prescinde.
Você quer quadro mais poético e belo do que o do casal de velhinhos que mora em minha rua, que soube envelhecer com dignidade e serenidade, multiplicando afetos à medida que os anos passavam, manifestando, sem cessar, comovente desvelo mútuo?!
Há, por acaso, poema mais belo e vivo do que a menininha de quatro anos, que contemplo da minha janela brincando na rua, com os cabelos esvoaçando ao vento, cabecinha cheia de sonhos, um brilho inusitado no olhar, em sua inocência primaveril?! Se houver, desconheço. Este é o desafio para o poeta: reproduzir, em palavras (a despeito da precariedade delas) tamanha beleza, da maneira mais fiel, sensível e empática.
A morte? A traição? O abandono? O ciúme? A maldade? A miséria? A violência? Sai dessa, amigão! Deixe esses temas para os noticiários jornalísticos que, várias vezes ao dia, lançam, bem no meio da nossa sala de jantar, toda essa podridão que há, mundo afora. Sua missão é diferente. É mais nobre. É mais sublime. É um pacto com o belo, mesmo sob o risco de vir a ser, literalmente, esmagado “sob o peso da beleza”.