Saturday, January 31, 2015

As palavras, como os homens que as criaram, em qualquer dos milhares de idiomas existentes, guardam certa hierarquia entre si. Algumas são nobres, respeitáveis e nos inspiram à simples pronúncia, mesmo que isoladas, esparsas ou fora do contexto. Outras, nomeiam vícios, taras, horrores e perversidades. São a ralé dos dicionários. Outras, ainda, chegam a ser interditas pela moral, por soarem ofensivas. São as marginais do idioma. A palavra amor, por exemplo, traz à lembrança o rei dos sentimentos, aquele que, quando temos, nos torna semelhantes (jamais iguais) ao Criador. Fé, esperança, caridade, alegria e felicidade são outras que compõem esse séqüito de nobreza. O poeta Alexandre O’Neill (que, a despeito do sobrenome, nasceu em Portugal) foi extremamente feliz ao constatar, nestes versos do poema “Há palavras que nos beijam”:

“Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca”.


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Livros que recomendo:

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Sangue contaminado


Pedro J. Bondaczuk


O sangue, classificado pelos especialistas como “tecido hematopoiético”, tem, talvez, a função mais importante de todas as partes do organismo. São em suas células que estão as defesas do corpo contra invasões de agentes patogênicos externos, ou seja, dos vírus e bactérias, que causam as diversas doenças.

Essa tarefa defensiva é exercida por cinco tipos de glóbulos brancos, cada qual com uma função específica, para garantir a nossa saúde. É através dele, também, das hemoglobinas (glóbulos vermelhos) que os músculos recebem o oxigênio que permite que queimem o açúcar elaborado pelo fígado e movimentem o corpo. E o aparelho circulatório conduz aos pulmões o gás carbônico que deve ser eliminado.

Sua importância é tamanha que se não houver fluxo sangüíneo no cérebro durante cerca de 3 minutos, a pessoa morre, já que o delicadíssimo tecido cerebral virtualmente “apodrece”. No sangue, portanto, reside a função da vida. Pois é nele que ultimamente vem se instalando um terrível, monstruoso e até aqui imbatível agente da morte: o vírus da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, a popular Aids.

Milhares de pessoas em todo o mundo vêm sendo contaminadas mediante transfusões e saem, portanto, dos vários hospitais, mais doentes do que às vezes entraram. As principais vítimas desse processo têm sido os hemofílicos, que necessitam, para sobreviver, de sucessivas renovações desse importante elemento vital.

Não se concebe que algo desse tipo ocorra, mesmo num país como o nosso, onde o respeito ao semelhante e aos seus direitos nunca foi a principal norma. Nos últimos dias choveram, através de noticiários de rádio, jornal e TV, denúncias incríveis sobre os bancos responsáveis pela coleta, guarda e distribuição de sangue humano.

Em alguns estabelecimentos desse tipo, o elemento vital é tratado como um produto qualquer, sem os devidos cuidados e precauções. Geladeiras caseiras, inadequadas para a estocagem, foram mostradas pela televisão em algumas dessas casas. E o que é pior, recipientes vetados pelo Ministério da Saúde, por estarem contaminados, foram exibidos sendo utilizados à vontade. Tudo isso impunemente, como se fosse um simples caso de sonegação de imposto ou uma questão que pudesse ser tratada burocraticamente.

Outra denúncia terrível é a de que no Rio de Janeiro a coleta e distribuição de sangue estariam nas mãos de traficantes de drogas, que estariam lucrando até três vezes mais com esse comércio do que com a venda de cocaína, maconha e sabe-se lá mais o quê.

O pior de tudo é que há pessoas que não podem passar sem esse elemento vital. E a desinformação que parece tomar conta do País está afastando os doadores até daquelas instituições sabidamente sérias, com renome firmado na praça graças a um trabalho honesto e responsável.

Quem tem essa possibilidade de doar, e é sadio, deve continuar fazendo suas doações. Quem doa não corre nenhum risco, desde que em bancos realmente idôneos que a população certamente saberá distinguir quais são.

Mas a opinião pública, por outro lado, deve cobrar, e com insistência, uma punição para esses “vampiros”, que fazem da coleta e distribuição desse elemento vital meramente um comércio. Que arrebanham mendigos, prostitutas e viciados notórios e que em troca de alguns cruzadinhos insignificantes, que “caem do céu” para esses deserdados da sorte, perpetram esse hediondo crime, de retirar deles sangue contaminado, para inocular nas veias de alguém necessitado o agente da morte. Saúde é uma coisa séria e não é questão para estar em mãos de “gangsters”, cujo lugar é a cadeia, com enormes bolas de ferro nos pés. E estamos conversados!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 23 de janeiro de 1988).


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Viver é que é difícil

Pedro J. Bondaczuk

O livro de ficção mais vendido no Brasil, neste início de 2015, é um romance lançado em fins de 2014 (embora nos Estados Unidos seu lançamento tenha ocorrido em 2009) que, a exemplo do que ocorreu na terra de “Tio Sam”, caiu de imediato no gosto tanto do público quanto da crítica. Refiro-me a “Se eu ficar”, da jovem (tem 44 anos de idade) escritora californiana Gayle Forman, que antes de se aventurar pelo incerto mundo da Literatura, atuava como competente jornalista. É mais um dos tantos casos em que o jornalismo contribui com qualidade para a atividade literária.

O livro chega ao Brasil após vitoriosa trajetória em várias partes do mundo. Já foi lançado, por exemplo, em 35 países, com excelente aceitação em todos eles. É, portanto, “tacada certeira” da Editora Novo Conceito, que apostou nesse empreendimento e vem se dando bem. As vendas crescentes atestam esse acerto. A edição brasileira conta com a tradução de Amanda Moura. É um desses romances que a gente não consegue parar de ler enquanto não chegar à última página. Seu ritmo é tão dinâmico, que foi transformado em filme – dirigido por R. J. Cutler, tendo no elenco Chloë Grace Moretz, Mireille Enos, Joshua Leonard, Stacy Keach, Lauren Lee Smith, Liana Liberato e Jamie Blackley, entre outros – que será lançado nos Estados Unidos em agosto e previsto para chegar ao Brasil um mês depois.

“Se eu ficar” narra a história de Mia Hall –  jovem artista, adolescente de 17 anos, amante de música erudita, cujo sonho maior era estudar violoncelo na célebre escola Jilliard, de Nova York – que está em coma na UTI de um hospital, após acidente automobilístico que matou seus pais e seu irmão mais novo Teddy. A garota tem 24 horas decisivas nas quais precisará compreender o que aconteceu e fazer a mais importante escolha de sua vida: ficar neste mundo (e viver) ou morrer. Antes do acidente, também enfrentava um dilema, posto que não tão dramático e decisivo: tinha que escolher entre seguir seus sonhos na escola de música Juilliard ou optar por caminho diferente com o amor de sua vida, seu namorado rebelde, Adam, guitarrista e vocalista da banda Shooting Star, em uma pacata cidade do Estado de Oregon em que vivia com a família.

O enredo transcorre em um único dia. O livro, portanto, não tem capítulos, tem horas. Gayle Forman maneja, com habilidade e muita sensibilidade, presente e passado, alternando o que se passa na mente de Mia enquanto em coma na UTI do hospital com flashes de sua vida antes do acidente. Apesar do ritmo veloz, de tirar o fôlego, da narrativa, habilidade que poucos escritores têm,   a autora traz à baila, sem que nos apercebamos, importantes reflexões sobre vida, morte, escolhas, amor, sonhos etc.etc.etc. Claro que não irei resumir a história e muito menos revelar seu desfecho. Não sou estraga prazeres e não quero acabar com sua surpresa, caro leitor, que certamente planeja adquirir o livro. Se fizer esse “investimento”, asseguro-lhe que não se arrependerá.

Entre os pensamentos que passam pela cabeça de Mia, está este: “Eu não estou certa de que este é um mundo a que pertenço. Não tenho certeza que quero acordar”. Em outro trecho, a adolescente pensa: “Sei que pode ser idiotice de minha parte, mas sempre me perguntei se o papai se sentia frustrado por eu não ter me tornado roqueira. Esta era a minha intenção, também. Até que, na terceira série, me deparei com o violoncelo durante as aulas de música e ele me pareceu mais humano. Parecia que, ao tocá-lo, ele lhe contaria segredos, então não hesitei. Isso já faz dez anos e desde então, nunca parei”.

E Adam, o namorado rebelde, o que pensava de tudo isso? Amava Mia sem restrições ou se tratava de um namoro fortuito, ocasional, passageiro como tantos outros? Sua declaração à amada, que se debatia entre a vida e a morte, responde; “Se você ficar, eu faço o que você quiser. Eu largo a banda, vou com você para Nova York. Mas se você precisar que eu vá embora, eu faço isso também. Eu estava conversando com Liz e ela disse que talvez voltar para sua antiga vida seja doloroso demais, que talvez seja mais fácil você nos apagar. E isso seria uma droga, mas eu faço. Eu posso perder você assim se eu não a perder hoje. Eu deixo-a ir. Se você ficar".

Concordo plenamente com esta observação que li no blog “Livros pra ler e reler”, a propósito deste romance: “Gayle Forman emociona e fala sobre amor, perda, sacrifício e escolha. Principalmente, nos faz refletir sobre os mistérios da vida, da morte e do coma, nos conduzindo a uma reavaliação de nossas vidas e do que é importante para nós, valorizando assim cada segundo de nossa vida, pois nada é para sempre”. E não é mesmo!!! É como Mia Hall conclui à certa altura: “Percebo agora que morrer é fácil. Viver é que é difícil”.


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Friday, January 30, 2015

A vida pode ser comparada a uma escola, na qual jamais nos graduamos. Quanto mais aprendemos, mais temos a aprender, num aprendizado que nunca tem fim. Nossas primeiras lições – aparentemente triviais, mas indispensáveis à sobrevivência – consistem em aprendermos a nos alimentar, sugando, corretamente, o seio da mãe; a erguer sozinhos a cabeça; a sentar; a engatinhar e, finalmente, a andar. Às vezes, esse aprendizado é traumático e doloroso. Outras tantas, é envolvido em estimulantes prazeres. Mas sempre aprendemos, do berço à tumba. E quando morremos, deixamos infinitas lições para trás. Todavia, o mais importante acontecimento da nossa vida é quando nos conscientizamos do nosso “eu”. É somente a partir daí que começamos a exercitar, de fato, nossa racionalidade. Claro que as conseqüências dessa lição nunca são iguais para todos. Alguns, ficam felizes por adquirirem a capacidade de entender e usufruir da beleza que os cerca. Outros, porém, decepcionam-se com a descoberta de que não passam de animais, posto que racionais. Concordo, pois, com Leon Tolstoi quando afirma: “O mais importante acontecimento da vida de um homem é o momento em que se torna consciente do seu eu; as conseqüências disto podem ser as mais benéficas ou as mais terríveis”.


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Desavenças internas


Pedro J. Bondaczuk

O sucesso da reunião de cúpula que o presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o líder soviético, Mikhail Gorbachev, vão realizar, dentro de 26 dias, em Genebra, está seriamente comprometido por antecipação. O fato não se deve, entretanto, a qualquer rigidez na posição dos dois futuros interlocutores, que tanto em caráter público, quanto em conversas reservadas, vêm demonstrando uma grande dose de boa vontade um para com o outro. A ameaça vem dos escalões intermediários. Mais especificamente, dos gabinetes da Casa Branca, onde o secretário de Estado, George Shultz, e o da Defesa, Casper Weinberger, parecem falar linguagens diametralmente opostas, especialmente no que diz respeito ao cumprimento do Tratado ABM entre as superpotências.

Aliás, não é de hoje que divergências desse tipo têm vindo a público, mostrando que a liderança do presidente Ronald Reagan sobre o seu secretariado não é tão pacífica e completa quanto o leigo poderá pensar. Há tempos setores mais radicais do Partido Republicano vêm abrindo um autêntico fogo cruzado, no sentido de um endurecimento ainda maior do governo em relação à União Soviética, como se esse tipo de procedimento não envolvesse qualquer risco. Shultz é o grande elemento moderador no atual secretariado (como de resto também o foi no anterior, desde quando substituiu o general Alexander Haig no cargo, em maio de 1982), o homem do diálogo, da negociação, enfim, do realismo. Afinal, tivessem os incendiários que orbitam em torno do poder, na Casa Branca, o controle da política externa norte-americana, e certamente não haveria reunião de cúpula alguma em Genebra. O clima de guerra fria seria muito mais exacerbado do que já é e as superpotências estariam bem mais próximas da confrontação do que estão.

Isso não quer dizer que o relacionamento Washington-Moscou é dos melhores. Pelo contrário, nunca esteve tão deteriorado, nem mesmo na ocasião do famoso caso dos mísseis em Cuba, em 1961. Tanto Reagan quanto Gorbachev falam seguidamente em frear a corrida armamentista, mas enquanto manifestam, no âmbito da Imprensa, essa intenção, as respectivas indústrias bélicas seguem produzindo, em ritmo frenético, quantidades crescentes de certeiros mísseis dotados das correspondentes mortíferas ogivas nucleares. Desde março passado, quando soviéticos e norte-americanos começaram a negociar o desarmamento em Genebra, os respectivos arsenais foram acrescidos da estonteante quantidade per capita de 300 novas armas atômicas. Esse foi o mais elevado aumento registrado em apenas meio ano em toda a história.

Enquanto George Shultz afirma que o programa "Guerra nas Estrelas" é negociável, que os Estados Unidos irão manter a IDE somente em âmbito de pesquisas e que sua implementação irá ocorrer apenas se Washington perceber má vontade por parte da União Soviética, Casper Weinberger diz exatamente o oposto. Que a instalação dos armamentos estratégicos será mesmo para valer e que o Tratado ABM (que versa sobre armas antimísseis), com perdão do trocadilho, "já foi para o espaço" há muito tempo, rompido que teria sido pelos russos, unilateralmente.

A questão da IDE, todavia, envolve muito mais do que mero poder político. Implica em minar também o espaço (já que em termos de superfície, é capaz que haja silos de mísseis até no jardim de nossa casa), reduzindo perigosamente a margem de erro para a deflagração da guerra final. Mas envolve, sobretudo, dinheiro, muito dinheiro. Mais precisamente, US$ 1,2 trilhão (ou a assombrosa importância de Cr$ 9,4 quatrilhões), que é quanto o sistema "Guerra nas Estrelas" vai custar depois de pronto.

Quem vencerá essa batalha de bastidores na Casa Branca? O realismo de Shultz ou o comprometimento de Weinberger? A serenidade do secretário de Estado que dialoga ou a intempestividade do chefe do Pentágono que ameaça? O homem que ainda crê na negociação ou aquele que apenas acredita na força? Do resultado desse duelo dependerá se Reagan e Gorbachev vão realmente chegar a algum acordo efetivo ou se irão se limitar a trocar insultos ou proferir frases de efeito para a imprensa, nos dias 19 e 20 de novembro, em Genebra. E nas mãos desses dois, provavelmente, estará nessa oportunidade o destino de todos nós.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 24 de outubro de 1985)


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O essencial é invisível aos olhos

Pedro J. Bondaczuk

O livro “O pequeno príncipe” – cujo título original, em francês, é “Le Petit Prince” e que em Portugal é conhecido como “O Principezinho” – de Antoine de Saint-Exupéry, é um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos. Consultando uma dessas tantas relações das obras mais vendidas no País em janeiro de 2015, esta ocupava a quinta colocação. O leitor distraído, ou mal informado, poderá perguntar: “O que há de tão excepcional nisso? Afinal, o livro nem mesmo é o primeiro colocado em vendas!”. Se alguém me fizer uma observação destas, em uma conversa, simplesmente virarei as costas e deixarei o interlocutor falando sozinho. Afinal (desconfio) a burrice pode ser contagiosa.

Informo, para quem não saiba, ou não se lembre, que este livro foi publicado, originalmente (e nos Estados Unidos) em 1943 (ano do meu nascimento). Portanto, já fez, ou então fará nos próximos meses, 72 anos! A rigor, nunca saiu das listas dos mais vendidos. E não somente no Brasil. O fenômeno é mundial. Entre os vários recordes que essa obra acumula está o fato de ser a terceira mais traduzida de todos os tempos (perde, apenas, para a Bíblia e para “O peregrino”). Foi vertida para 160 idiomas. Está respondido, pois, o que “O pequeno príncipe” tem de excepcional. Não conheço obra alguma de ficção (e duvido que exista) com tamanha aceitação no mundo todo. Até 2013, quando foi feito o levantamento, já havia vendido 143 milhões de exemplares em praticamente todos os países. Hoje, essas cifras são bem maiores, pois continua vendendo, e muito, por toda a parte.

Por muito tempo, o livro foi considerado como de “literatura infantil”, voltado para crianças. Seus textos são curtos, de fácil leitura, e fartamente ilustrados, com ilustrações do próprio Antoine de Saint-Exupéry. Li-o quando tinha oito anos de idade e me empolguei com a história. Reli-o dezenas de vezes, pelos mais variados motivos. Um deles, por exemplo, foi para apresentá-lo aos meus quatro filhos, cada um na respectiva idade em que eu achava que iriam entender o enredo e a mensagem que há por trás dele. Com o tempo, percebi que não se tratava de mera peça de literatura infantil (o que, se fosse só isso, não seria demérito algum para a obra e nem para seu autor). “O pequeno príncipe” tem uma carga poética inigualável em livros do gênero. E não é só. Tem profundo conteúdo filosófico e da forma como a filosofia deveria ser sempre ensinada a crianças e a adultos. Ou seja, de forma direta, clara, inteligível, sem os tantos jargões que tornam tão chatas obras dessa fundamental disciplina, que é a “mãe de todas as ciências”.

O curioso é que Antoine de Saint-Exupéry – nascido na cidade francesa de Lyon em 29 de junho de 1900 – nunca sonhou em ser escritor e nem se considerava tal. Sua paixão era a mecânica e, mais tarde, a aviação. Aliás, perdeu a vida em um avião que pilotava, que foi abatido a tiros pelo alemão Horst Ripert, quando realizava missão de observação do movimento das tropas nazistas no território da França. Seu corpo nunca foi encontrado, o que suscitou diversas lendas a propósito do seu desaparecimento, ocorrido em 31 de julho de 1944. Saint-Exupéry não testemunhou, portanto, o estrondoso sucesso do seu livro. Os destroços do aparelho, um P-38 Lightning, foram localizados, apenas, 60 anos depois, em 2004, pondo fim às especulações em torno do caso.

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry era de família nobre, terceiro filho do conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe. Morreu jovem, muito jovem, prematuramente, 32 dias após haver completado 44 anos de idade. Seu livro já esgotou mais de 500 edições e segue sendo reeditado mundo afora e não para de vender. Soube, dia desses, que será transformado em filme por um estúdio de Hollywood.

Sabem o que é curioso? Muitos “pseudo-entendidos” em Literatura consideram o livro “obra menor” e chegam a ridicularizar publicamente não somente este hiper-best-seller, mas, inclusive. quem o aprecia. Insinuam que quem afirma ter extraído preciosas lições de “O pequeno príncipe” não tem “cultura literária” sólida. Ora, ora, ora... Essas pessoas merecem outra resposta que não seja o silêncio?! Eu mesmo fui ridicularizado, numa dessas redes sociais (não quero identificar qual), por haver destacado o mérito poético do livro. Ainda bem que esses comentários sem pé e nem cabeça foram feitos à distância. Já imaginaram se burrice for contagiosa, como tantas doenças?!! Pelo sim, pelo não, não quero contato com quem trata “até” Literatura, tanto obras quanto autores, com menosprezo e preconceito.            

Tenho pena de gente assim. Se esses críticos de ocasião pelo menos lessem “O pequeno príncipe”, talvez entendessem a principal mensagem que Saint-Exupéry transmitiu. A de que devemos nos acautelar com nossos julgamentos, que podem ser sumamente equivocados, com o alerta que esses equívocos tendem a nos levar à solidão e ao afastamento até das pessoas que amamos. Entre as inúmeras mensagens do autor, destaco três, para encerrar estes descomprometidos comentários: “1ª) Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós. 2ª) A perfeição não é alcançada quando não há mais nada a ser incluído, mas sim quando não há mais nada a ser retirado. 3ª) O essencial é invisível aos olhos”.


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Thursday, January 29, 2015

Há cenas bucólicas, aparentemente banais, em geral bastante simples, que sem que nos apercebamos, ficam gravadas para sempre em nossa memória e que, quando as lembramos, o fazemos com deleite e satisfação. Paisagens, pessoas bonitas e bondosas, atos de nobreza e solidariedade, acontecimentos marcantes dos quais participamos como personagens, ou meros espectadores, formam uma espécie de álbum de imagens, que nos inspiram e consolam em momentos de tristeza e solidão. É um privilégio podermos ler, por exemplo, versos singelos, de uma beleza que chega a doer de tão intensa, como estes dois tercetos do soneto “Recreio”, do poeta português Alberto de Serpa:

“Na claridade da manhã primaveril,
ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves.

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
a mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
- um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas”.


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Lua-de-mel efêmera



Pedro J. Bondaczuk


As eleições deste ano – considerados os dois turnos – favoreceram nitidamente o PSDB, embora haja sido o PMDB o partido que mais governos estaduais conquistou, num total de onze, a maioria do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O grande perdedor, ironicamente, foi o aliado dos tucanos, cuja aliança gerou tanta polêmica, o PFL, que conseguiu eleger um único governador (aliás governadora e a primeira na história do País), Roseana Sarney, filha do ex-presidente José Sarney.

Claro que isso ocorreu em seu “feudo”, no Maranhão. E, mesmo assim, a vitória veio num enorme sufoco, por diferença mínima de votos e sob duras acusações do perdedor, Epitácio Cafeteira. A estreita margem atesta que o sucesso deve ser atribuído mais à família da candidata (provavelmente somente a isso) do que ao seu partido.

O eleitor definiu nas urnas que país deseja. Basta saber “ler” qual é esse desejo. Por exemplo, conferiu ao PT a primeira oportunidade de administrar um Estado, além do Distrito Federal, o que é um dado muito positivo, que vai permitir que os petistas adquiram experiência para futuros vôos, bem mais altos, quem sabe.

Dosou, de forma sábia, sem privilegiar nenhuma corrente, esquerda com direita. Mas descarregou mesmo seus votos foi no centro. O PSDB, embora não tenha conseguido a mesma quantidade de governos estaduais que o PMDB, obteve os dos três Estados mais populosos, cujos habitantes, somados, perfazem um total de 54 milhões (população equivalente à da Grã-Bretanha) e que são responsáveis por mais de 60% do Produto Interno Bruto do País. Nada mau.

Além disso, a vitória de Antonio Britto, no Rio Grande do Sul, foi um dado altamente positivo para os tucanos, por causa da identidade de idéias entre o futuro governador gaúcho e o presidente eleito. Ambos foram companheiros de ministério no governo Itamar Franco.

Esse fator vai favorecer o entendimento com uma importante ala peemedebista, que não segue a liderança de Orestes Quércia. O mesmo ocorre em relação a Roseana. O empenho de Fernando Henrique, nos últimos dias de sua campanha, virtualmente garante sua aproximação com o senador José Sarney. É sabido que o ex-presidente lidera outro importante grupo do PMDB.

A base política para o futuro governo, portanto, em princípio bastante ampla, fica, senão definida, pelo menos esboçada. Certamente contatos de bastidores estão sendo realizados todos os dias para a obtenção de uma aliança que garanta ao presidente eleito uma sólida maioria no Congresso, facilitando a aprovação dos seus projetos e, sobretudo, as mudanças que se fazem necessárias na Constituição, para assegurar o sucesso do Plano Real na sua nova e decisiva fase. Mas que Fernando Henrique não se engane com essa aparência de consenso.

A lua-de-mel da sociedade – e principalmente da classe política – com FHC deve durar, apenas, até fins de janeiro, ou meados de fevereiro, no máximo. Sempre foi assim. E desta vez tende a ser até pior, diante da necessidade do futuro governante de adotar algumas medidas urgentes, drásticas e impopulares, para impedir a volta da escalada inflacionária, com o conseqüente fim do real.

O presidente foi guindado ao poder em função, principalmente, do plano de estabilização. Agora, tem a obrigação de provar que estava sendo sincero quando garantiu, nos palanques, que o programa era sério e muito mais do que mero artifício de prestidigitador, para vencer as eleições presidenciais.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 18 de novembro de 1994).


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Desfazendo equívocos

Pedro J. Bondaczuk

A Literatura é atividade de múltiplos caminhos para os que, por vocação e/ou opção, decidem exercê-la plenamente. Apresenta (é verdade) relativamente poucos gêneros para o escritor exercitar sua criatividade e sua imaginação, escorado pelo máximo de informação que possa conseguir a propósito do que pretende escrever, a saber: poesia, crônica, conto, novela, romance (estes três com seus dois derivados, um tão antigo quanto o ato de redigir – no caso, a peça teatral – e o outro decorrente do avanço tecnológico, que é o roteiro de cinema, ambos, todavia, com a finalidade de serem verbalizados por atores), além de ensaio e da crítica literária. Isso não quer dizer que não se possam desenvolver novidades nesse aspecto. Surgem, volta e meia, por exemplo, subgêneros, posto que raros. Mas nada impede que se criem novos gêneros literários, hoje inexistentes, desde que alguém consiga criá-los.

Tentarei ser mais claro e, sobretudo, desfazer alguns equívocos, bastante disseminados, a propósito de Literatura.. Caso eu tenha aptidão para a poesia, nada me impede de escrever, também, contos, novelas, romances etc., desde que tenha essa capacidade e conte com preparo suficiente para tal. Posso até ser conhecido como “poeta”. Mas isso não quer dizer que eu deva, necessariamente, me dedicar “exclusivamente” a esse gênero. Caso tenha aptidão para ser “também” cronista, contista, romancista etc. posso, caso opte atuar nesses campos, fazê-lo e com sucesso, se for bom literato. Por que não?!

Esse preâmbulo destina-se, principalmente, a esclarecer que o rótulo “escritor de ficção científica” a quem se disponha a atuar nessa área, não passa apenas disso: de mera designação genérica, inexpecífica, nem sempre exata ou adequada. Caso alguém que atue nessa área se disponha a escrever poesias, crônicas, ensaios etc., nada o impede (a não ser o fato de ter ou não aptidão para esses gêneros) de fazê-lo. Não existe, pois, o “escritor de ficção científica”, com a idéia de exclusividade. Existe, apenas, o “escritor”, com a prerrogativa de escolher qualquer dos caminhos que a Literatura lhe proporcione, por critérios todos seus.

É certo que alguns se especializam em determinados gêneros e não se dispõem a se aventurar em nenhum outro. Esta, porém, é escolha livre, soberana e exclusivamente pessoal. Há, até, os que decidem seguir uma única linha temática, como por exemplo, as aventuras intergalácticas, em seus enredos. Nada impede que ajam assim. Ninguém, no entanto, lhes impõe essa exclusividade (e, ademais, nenhuma outra). É escolha, reitero, apenas e exclusivamente pessoal. Júlio Verne, por exemplo, não escreveu “só” histórias de ficção científica, embora seus livros mais famosos sejam desse tipo. O mesmo vale para H. G. Wells, George Orwell e Arthur C. Clarcke, entre tantos outros. Foram escritores ecléticos, versáteis e, convenhamos, geniais.

Muitos estranham quando relaciono, entre autores que tenham produzido obras de ficção científica, o nome de Aldous Huxley. Não deveriam. É verdade que a maior parte de seus romances não segue essa linha. Aliás, ele escreveu um pouco de tudo: ensaios, crônicas, poesia (até editou a revista “Oxford Poetry” dedicada a esse gênero), literatura de viagem e até roteiros de cinema. A primeira vez que tomei contato com sua literatura, há 53 anos, foi com a leitura do seu romance “Contraponto”. Encantei-me com sua maneira de escrever (pudera!). Li, na sequência, “Sem olhos em Gaza”, “Também o cisne morre”, “O tempo deve parar” e “A ilha”, com a mesma empolgação. Na época, e nos anos posteriores, sequer me passou pela cabeça que ele escrevesse, também, ficção científica. Na oportunidade, eu ainda não havia lido “Admirável mundo novo”. Aliás, na ocasião, eu até detestava o gênero. Na verdade, estava é mal informado. Desconhecia, por exemplo, a obra de um H. G. Wells, de um Isaac Asimov, de um Arthur C. Clarcke e até mesmo de Júlio Verne. Foi só após a leitura desses “gênios”, e de alguns outros, que mudei radicalmente de opinião a propósito da ficção científica.

“Admirável mundo novo” é um dos livros mais marcantes, chocantes e impactantes que já li. É tão complexo, que para comentá-lo, minimamente bem (o que pretendo fazer), precisarei (provavelmente) de um bom par de dias (quiçá de semanas), tamanha sua complexidade. E não sou o único a achar isso. Li inúmeros ensaios a propósito e, em todos, seus autores manifestam a mesmíssima perplexidade que tenho em relação a essa obra-prima. Aliás, o próprio autor chegou a essa conclusão. Tanto que escreveu, e publicou, um livro de ensaios, intitulado “Retorno ao Admirável Mundo Novo”, em que busca justificar o insólito enredo que criou, demonstrando que muitas das “profecias” do seu romance estavam se concretizando, em decorrência do “progresso” científico no que diz respeito à manipulação genética e, sobretudo, da vontade de seres humanos. Recomendo, caríssimo leitor, que leia as duas obras, para acompanhar o raciocínio da análise que pretendo fazer. Aguarde.


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Wednesday, January 28, 2015

Devemos ter extrema cautela com as informações e, principalmente, com imagens com as quais alimentamos, diariamente, o nosso espírito. Nosso subconsciente não é seletivo, como é o consciente. Não estabelece filtragem de valores, separando o bem do mal. Grava tudo, absolutamente tudo o que vemos, ouvimos e sentimos. Caso, na vida cotidiana, nos fartemos de imagens de atos de degradação e de destruição alheios, através do noticiário, do cinema e da televisão, corremos o risco do nosso subconsciente incrementar nossa instintiva agressividade individual e interferir, para pior, em nossa personalidade. Queiram ou não, as cenas terríveis, mostradas por determinados filmes, se constituem, de fato, numa aprendizagem da crueldade. Subconscientemente, podemos ser incitados à imitação e nos tornarmos, à nossa revelia, pessoas violentas e destrutivas. O sociólogo francês, Philipe Saint-Marc, faz a seguinte advertência a respeito: “Não existe uma substituição da agressividade individual, mas a aprendizagem da crueldade, o incitamento à imitação, à reprodução na vida cotidiana de atos de degradação ou de destruição que excitaram a imaginação do espectador”. Portanto, cautela!


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

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Plano com 3 equívocos


Pedro J. Bondaczuk


O presidente peruano, Alan Garcia Perez, que no início do seu mandato presidencial, em julho de 1985, revelou até uma certa criatividade ao limitar o pagamento do serviço da dívida externa do seu país, de US$ 14 bilhões, a 10% das exportações nacionais, está cometendo um grande equívoco com seu projeto de estatização de dez bancos, seis financeiras e dezessete seguradoras.

Não pelas razões levantadas pelo escritor Mário Vargas Llosa, no maior comício da oposição já realizado contra o atual governo desde que ele assumiu o poder, levado a efeito anteontem à noite, em Lima. O intelectual disse que essas expropriações são “um cavalo de Tróia” para o comunismo no Peru. Exagero, claro. Não se chega a tanto.

O México nacionalizou, no ano passado, o seu sistema bancário e nem por isso o Partido Revolucionário Institucional perdeu qualquer parcela de domínio ou se viu arriscado a perder sua hegemonia pelo PC mexicano. O motivo é muito mais prático do que ideológico e, portanto, mais grave.

Três razões principais se destacam para caracterizar o equívoco do presidente peruano. A primeira é que (e isto até já virou um clichê, de tanto que vem sendo repetido) o Estado é mau patrão. Gere, em geral, de maneira desastrada e equivocada as empresas que controla. Vejam os exemplos da China e mais recentemente da União Soviética, tentando encontrar fórmulas para transformar seus elefantes brancos em companhias modernas e produtivas.

A segunda razão para caracterizar o equívoco do presidente peruano diz respeito ao principal motivo alegado por Alan Garcia para a estatização. O de que, em mãos do governo, as instituições financeiras vão facilitar financiamentos aos que deles necessitem.

Ora, isto é uma bobagem sem tamanho. Os empréstimos feitos por essas entidades obedecem (e continuarão a obedecer) a uma regra fixa, que é a de exigir garantias do tomador do dinheiro emprestado de que ele dispõe de condições de saldar o débito. Isto vale para bancos estatais e particulares. Nenhum deles é Papai Noel, a distribuir benesses aos incompetentes e aos que não têm iniciativa ou a premiar maus pagadores.

A terceira razão para caracterizar o equívoco refere-se às indenizações que o Estado terá que pagar aos expropriados. Por que o governo não usa “esse” dinheiro para emprestar a juros subsidiados a quem precise, sem investir contra o patrimônio alheio? Esse é o caminho das pedras!       

(Artigo publicado na página 21, Internacional, do Correio Popular, em 23 de agosto de 1987).


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Maldade sem limites

Pedro J. Bondaczuk

A maldade tem limites? Em caso afirmativo, quais eles são? Há, ainda, algo de sumamente perverso, feroz e absurdo que um ser humano não tenha praticado contra outro, desde que nossa espécie surgiu no Planeta? Numa rápida reflexão sobre guerras, escravidão, preconceitos e toda e qualquer espécie de violência que caracteriza a história do homem, não reluto em responder: não! Não, não há limites para a maldade. Só não posso garantir que toda ela, em suas múltiplas manifestações, já se esgotou no coração e na mente desse perigoso animal que raciocina. Nunca se sabe.

A data de 27 de janeiro de 1945 é particularmente reveladora no que diz respeito a essa questão. Nela, começou a ser revelado ao mundo – que relutou em crer que fosse verdade (e muitos não crêem até hoje) – um dos mais hediondos, covardes e insanos crimes já cometidos contra a humanidade. Foi num dia como este, há exatos 70 anos, que as tropas soviéticas, do Exército Vermelho, libertaram o campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, localizado na atual Polônia. Foi só então que começou a vir a público o que muitos suspeitavam, mas duvidavam da própria suspeita, tão horrível foi o que se passou ali.

Naquela localidade bucólica foi instalada gigantesca “indústria da morte”. Não se trata de metáfora ou coisa parecida. Foi real. Foi uma coisa tão insana que, se não houvesse provas, seria impossível de se acreditar que tenha existido. Mentes sumamente doentias, degeneradas pelo fanatismo e pelo preconceito, conceberam matança metódica, constante, organizada, como se fosse fábrica de salsichas, ou seja lá do que for. Destinava-se, no entanto, a matar não outros animais (frangos, porcos, reses etc.), mas... pessoas. E mais: em escala industrial, com a subsequente eliminação dos vestígios dessa surreal carnificina. No complexo de Auschwitz-Birkenau foram eliminados, em câmaras de gás construídas para esse fim, por baixo, por baixo, um milhão de seres humanos: adultos, crianças, bebês, velhos e mulheres. Em suma, pessoas! Para se livrar de tantos cadáveres, os monstros que planejaram e executaram essa inacreditável chacina, cremaram esses corpos, em esquema, reitero, metódico, organizado e industrial, e espalharam as cinzas nos arredores, sobretudo em um lago das proximidades.

O auge, do que passou para a história com a denominação de Holocausto foi o ano de 1944. Nessa ocasião, eram assassinadas, metódica e industrialmente, seis mil pessoas por dia, a imensa maioria judeus, mas também ciganos, deficientes físicos e mentais, comunistas e outros tantos indivíduos que desgostavam o regime nazista, que os considerava “inferiores” e, por isso (em suas mentes ensandecidas), deveriam ser eliminadas, em nome de uma pretensa (e absurda) “pureza racial”. E achavam isso justificável e “normal”!!! Confesso que relutei muito em fazer este registro – que faço nu e cru, sem retoques e sem preocupação com estilo – tamanhos são o asco e o horror que essa ação insana me causa só de pensar que aconteceu e que envolveu outros tantos campos de concentração, embora não tão organizados como Auschwitz-Birkenau.

A libertação desse gigantesco e surreal “corredor da morte” tem que ser sempre lembrada, até para que loucura como esta não venha a se repetir. Os meios de comunicação, todavia, omitem-se hoje a propósito. Uma pena! Tenho minhas dúvidas que tamanha insanidade não esteja se repetindo, e quem sabe com carga mais terrível de covardia e crueldade, em alguma parte qualquer do mundo. Afinal, mesmo depois de libertado o campo de Auschwitz e do testemunho de milhares de sobreviventes sobre os horrores que viram, milhões de pessoas relutaram em acreditar que tudo aquilo ocorreu. Certamente deve ter sido muito pior do que consigo relatar. Quem pode jurar que algo semelhante, talvez em proporções menores, mas com o mesmo grau de virulência e de menosprezo à vida, não esteja acontecendo agora, neste instante, em algum dos tantos grotões esquecidos da Terra, na Síria, no Iraque, no Afeganistão ou sabe-se lá onde? Eu não ponho minha mão no fogo.

O fanatismo cega as pessoas e faz com que percam a perspectiva, a ética, a moral e a noção do certo e errado. Foram seres humanos, como cada um de nós, mortais e efêmeros como suas indefesas vítimas, que cometeram estas e tantas outras atrocidades. Nenhum desses monstros era imortal. Ninguém é! Como puderam colocar fantasias de poder, ideologias que não resistem à mínima análise, ambições estúpidas e sem sentido, acima da grandeza e transcendência da vida?!!! Pois é, mas colocaram. E muitos, certamente, colocariam hoje, em circunstâncias e contexto parecidos.

Concordo com Theodore Adorno ao declarar que “após Auschwitz não pode haver poesia”. E não pode mesmo. Nenhum escritor, perito em histórias de crueldade e horror, já conseguiu, consegue ou conseguirá sequer se aproximar remotamente da crueldade disso que de fato aconteceu e que começou a ser revelado para o mundo há exatos setenta anos. Embora não tenha escrito com esse fim, o poema “Tempos sombrios”, de Berthold Brech, cabe razoavelmente neste caso, porquanto diz:         

“Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores”.

Pois é, Brecht tem razão. “Realmente, vivemos tempos sombrios!” Deus que nos livre de novos “Holocaustos”!!!!


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