Planeta
Água
Pedro J. Bondaczuk
O compositor popular brasileiro Guilherme Arantes,
muito antes da ecologia virar tema da moda, constatou, no título de uma das
suas inspiradas canções, uma verdade que, embora óbvia, tem escapado ao alcance
da maioria. Definiu a Terra como sendo o “Planeta Água”. Afinal, no Sistema
Solar, cujo estudo está ao alcance do homem, somente ela possui esse precioso
líquido, indispensável à vida e em proporções majoritárias.
Dois terços da superfície terrestre são compostos
desse produto resultante de uma reação química de dois gases existentes
isoladamente em grande quantidade no Universo: o oxigênio e o hidrogênio.
Todavia, a despeito de sua preciosidade, apesar dela ser indispensável à
sobrevivência humana e de todas as espécies vivas, vegetais ou animais, essa
substância abundante não vem sendo preservada por ninguém, talvez por causa da
sua ilusória abundância.
O Planeta, de uma brilhante e fantástica coloração
azul, visto do espaço, corre o risco de ficar, a médio prazo, sem água pura. Em
várias partes do mundo os mananciais vêm diminuindo, dramaticamente, em
especial na África. Além disso, a poluição – tanto a representada pelo
lançamento de dejetos humanos através de esgotos, quanto de caráter industrial
– está transformando rios e lagos em depósitos de líquido viscoso, putrefato,
nauseabundo e, logicamente, pernicioso à saúde.
Os mares, tidos e havidos como a derradeira
fronteira alimentar da humanidade, estão se tornando imensas cloacas a céu
aberto. Recebem, de todas as partes, toda espécie imaginável de lixo e de
porcaria.
A tentativa de preservação da substância que
caracteriza o próprio Planeta e o distingue dos demais conhecidos, será um dos
temas debatidos na Rio-92, a maior conferência sobre o meio ambiente já promovida
em todos os tempos, que vai começar na próxima quarta-feira (3 de junho), se
estendendo até o dia 14.
Os 25 chefes de Estado e de governo que se farão
presentes discutirão outros assuntos, tão prementes ou mais do que a
preservação das águas. Estarão em debate, por exemplo, sugestões para limpar a
atmosfera dos gases nocivos nela lançados: o banimento do clorofluorcarbono, o
nefasto CFC, que afeta a camada de ozônio responsável pela filtragem dos raios
ultravioletas do sol, perniciosos à vida; a proteção do que ainda resta das
florestas; as formas de se evitar a desertificação; a fiscalização sobre as
indústrias poluidoras; o controle das usinas nucleares para evitar desastres
como o de Chernobyll ou outros piores; a difusão de novas tecnologias, mais baratas
e não-poluidoras, e como promover o desenvolvimento sem destruir.
Na pauta, como o assunto mais importante, estará um
plano do secretário-geral da Rio-92, Maurice Strong, que propõe a criação de um
fundo contra a miséria. De todas as espécies em risco de extinção, a que mais
carece de proteção é a humana.
O que se espera, todavia, é que a conferência não
descambe para um mero “braço-de-ferro” entre os poderosos, em disputa pela
ampliação de suas esferas de influência política. O objetivo do inusitado e
inédito evento não é, evidentemente, este. Não se trata de decidir que país vai
exercer o papel de “gendarme do mundo”. Nem de saber que sistema econômico vai
preponderar e em que bases.
Não é, por outro lado, um mero show, tendo por
assunto a ecologia que, tão logo termine, não produza qualquer efeito prático
como muitos pretendem ou temem que seja. Trata-se decidir se o homem quer ou
não que a civilização sobreviva e evolua e a espécie humana (e com ela a vida)
não termine no curto, médio ou longo prazos no Planeta.
A realização da Rio-92 foi um grande passo, não há
dúvida, mas não significa a caminhada toda. Atrás dela devem vir providências
práticas, efetivas, honestas e, sobretudo, urgentes.
(Artigo publicado na página 3, Opinião, do Correio
Popular, em 31 de maio de 1992)
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