Saturday, January 31, 2015

Sangue contaminado


Pedro J. Bondaczuk


O sangue, classificado pelos especialistas como “tecido hematopoiético”, tem, talvez, a função mais importante de todas as partes do organismo. São em suas células que estão as defesas do corpo contra invasões de agentes patogênicos externos, ou seja, dos vírus e bactérias, que causam as diversas doenças.

Essa tarefa defensiva é exercida por cinco tipos de glóbulos brancos, cada qual com uma função específica, para garantir a nossa saúde. É através dele, também, das hemoglobinas (glóbulos vermelhos) que os músculos recebem o oxigênio que permite que queimem o açúcar elaborado pelo fígado e movimentem o corpo. E o aparelho circulatório conduz aos pulmões o gás carbônico que deve ser eliminado.

Sua importância é tamanha que se não houver fluxo sangüíneo no cérebro durante cerca de 3 minutos, a pessoa morre, já que o delicadíssimo tecido cerebral virtualmente “apodrece”. No sangue, portanto, reside a função da vida. Pois é nele que ultimamente vem se instalando um terrível, monstruoso e até aqui imbatível agente da morte: o vírus da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, a popular Aids.

Milhares de pessoas em todo o mundo vêm sendo contaminadas mediante transfusões e saem, portanto, dos vários hospitais, mais doentes do que às vezes entraram. As principais vítimas desse processo têm sido os hemofílicos, que necessitam, para sobreviver, de sucessivas renovações desse importante elemento vital.

Não se concebe que algo desse tipo ocorra, mesmo num país como o nosso, onde o respeito ao semelhante e aos seus direitos nunca foi a principal norma. Nos últimos dias choveram, através de noticiários de rádio, jornal e TV, denúncias incríveis sobre os bancos responsáveis pela coleta, guarda e distribuição de sangue humano.

Em alguns estabelecimentos desse tipo, o elemento vital é tratado como um produto qualquer, sem os devidos cuidados e precauções. Geladeiras caseiras, inadequadas para a estocagem, foram mostradas pela televisão em algumas dessas casas. E o que é pior, recipientes vetados pelo Ministério da Saúde, por estarem contaminados, foram exibidos sendo utilizados à vontade. Tudo isso impunemente, como se fosse um simples caso de sonegação de imposto ou uma questão que pudesse ser tratada burocraticamente.

Outra denúncia terrível é a de que no Rio de Janeiro a coleta e distribuição de sangue estariam nas mãos de traficantes de drogas, que estariam lucrando até três vezes mais com esse comércio do que com a venda de cocaína, maconha e sabe-se lá mais o quê.

O pior de tudo é que há pessoas que não podem passar sem esse elemento vital. E a desinformação que parece tomar conta do País está afastando os doadores até daquelas instituições sabidamente sérias, com renome firmado na praça graças a um trabalho honesto e responsável.

Quem tem essa possibilidade de doar, e é sadio, deve continuar fazendo suas doações. Quem doa não corre nenhum risco, desde que em bancos realmente idôneos que a população certamente saberá distinguir quais são.

Mas a opinião pública, por outro lado, deve cobrar, e com insistência, uma punição para esses “vampiros”, que fazem da coleta e distribuição desse elemento vital meramente um comércio. Que arrebanham mendigos, prostitutas e viciados notórios e que em troca de alguns cruzadinhos insignificantes, que “caem do céu” para esses deserdados da sorte, perpetram esse hediondo crime, de retirar deles sangue contaminado, para inocular nas veias de alguém necessitado o agente da morte. Saúde é uma coisa séria e não é questão para estar em mãos de “gangsters”, cujo lugar é a cadeia, com enormes bolas de ferro nos pés. E estamos conversados!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 23 de janeiro de 1988).


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