Tuesday, July 31, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Poucos sabem definir, com razoável grau de verossimilhança, o que vem a ser o progresso. Trata-se de um conceito ambíguo, com um significado próprio para cada pessoa, de conformidade com a sua cultura, condição social e visão de vida. Uma das mais lúcidas definições a respeito, que já tive a oportunidade de ler, foi feita por Jacques Maritain, que afirmou: “Progredir é subir. E subir é passar da ordem material à ordem intelectual e da ordem intelectual à ordem moral. Progredir é espiritualizar”. Como se vê, é um entendimento muito diferente do que ser observa por aí. Para a maioria, progresso está sempre ligado à esfera material e jamais à espiritual. Daí haver tanta gente frustrada no mundo, julgando-se fracassada (e fracassando, de fato) por dar importância excessiva a bugigangas, a objetos, a coisas, em detrimento dos valores do espírito.

Amanhã que nunca chega


Pedro J. Bondaczuk


A vida consciente e civilizada – não a animal e instintiva, que nada analisa e percebe – consiste em saber aquilo que se quer e sair em busca desse objetivo a cada dia, tornando aproveitável o nosso maior capital: o tempo. Cada segundo é importante. E, mais do que isso, é decisivo. Ninguém nos garante que não seja o último.
Tenho reiterado essa afirmação até para que eu mesmo me conscientize dessa verdade e deixe de ser dispersivo, perdulário ou indolente. Não estou recomendando a ninguém que acalente pensamentos e sentimentos mórbidos, ou a idéia fixa de que um dia irá morrer. Mas pensar nessa possibilidade de vez em quando nos repõe na realidade. É, sobretudo, um exercício de humildade que nos impede de acharmos que somos mais do que os outros.
A atitude mais comum da maioria das pessoas é a de adiar seus projetos para um amanhã que nunca chega. Adiam trabalhos, estudos, tratamentos de saúde e até manifestações de sentimentos, positivos ou não. Agem como se tivessem pela frente todo o tempo do mundo, a própria eternidade, quando, obviamente, não têm.
Vivem empurrando soluções com a barriga para um vago depois. Isto vale, também, para governos e instituições. Quem trabalha com planejamento sabe quantos planos, que custaram horas e horas de trabalho de equipes inteiras, acabam ficando esquecidos em arquivos ou gavetas, inúteis, à espera de execução. Quando finalmente alguém se propõe a desengavetá-los, já é tarde. Ficaram defasados quanto à oportunidade. E todo o esforço acaba indo por água abaixo. Resulta em absoluta perda de tempo.
Quantos livros não deixam de ser escritos apenas porque o escritor reluta em começar? Quantos quadros não deixam de ser pintados pela mesma razão? Ou quantas músicas não deixam de ser compostas? Ou quantas soluções não deixam de ser encontradas porque a análise de problemas é adiada para mais tarde, para um amanhã que nunca chega, para a semana, o mês, o ano seguintes, na verdade para o nunca? Somos, estranhamente, educados para adiar o próprio ato de viver.
O escritor Stephen Leacock observa, com propriedade, a esse propósito: "Quão estranha essa procissão da vida! A criança diz: quando eu crescer. Mas que significa isso? Já crescido, o menino diz: quando eu for moço. E depois de moço, diz: quando eu me casar. Mas, afinal de contas, que significa, nesse caso, o matrimônio? A idéia muda para: quando eu me aposentar. E, por fim, quando chega a aposentadoria, ele olha para trás, para o trajeto percorrido; um vento frio parece varrer o terreno; sem saber como, ele o perde de vista e tudo se vai. Muito tarde aprendemos que a vida consiste em viver, na substância de cada dia e de cada hora". Convenhamos, não é o que fazemos.
Chegamos tarde demais a essa conclusão. Ou pensamos que o seja. Ninguém sabe (felizmente) quanto tempo lhe resta. Há quem tente reverter o que deixou de fazer no passado e comece, com 70, 75 ou 80 anos, a perseguir seus sonhos.
Recentemente, um homem de 82 anos formou-se em medicina na Alemanha. Após anos de adiamento desse projeto de ser médico, sob pretextos vários, válidos ou não (se quisermos sempre arranjaremos uma desculpa para tudo), concluiu que não teria nada a perder tentando. E se deu bem. Como qualquer um de nós pode se dar, se quiser de verdade.
A ousadia para fazer o que achamos adequado vale também para os sentimentos. Muitas pessoas são infelizes e solitárias porque temem se expor. Secretamente, acalentam projetos de relacionamento. Mas vão adiando sua execução, na medida do seu medo. Nesse aspecto, não há fórmulas milagrosas e nem respostas definitivas.
Para saber se a convivência com uma companheira vai dar certo ou não, não existe outro caminho senão tentar. E, como tudo na vida, essa tentativa envolve riscos de fracasso. Mas tem, também, possibilidades de êxito.
Há os que temem se expor. Sobre estes, Carol Lewis escreve, em seu livro "Quatro Amores": "Se você quer ter a certeza de conservá-lo intacto, não deve dar seu coração a ninguém, nem mesmo a um animal. Evite quaisquer ligações, encerre-o em segurança no cofre do seu egoísmo. Mas nesse cofre – seguro, escuro, imóvel e sem ar – ele se modificará. Não se partirá; tornar-se-á inquebrantável, impenetrável, irremissível".
É dessa forma que determinadas pessoas agem, sem que sequer se dêem conta. Têm medo de se expor, mas não admitem. Temem tentar conquistar seus sonhos. E para não ter que admitir esse gesto de covardia, adiam tudo para um amanhã, que teima em não chegar. E a morte acaba chegando antes...

Monday, July 30, 2007

TOQUE DE LETRA







Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo e site oficial da Ponte Preta)

LIÇÃO DE CASA BEM FEITA

A Ponte Preta fez, na sexta-feira, e muito bem, a “lição de casa”, ao golear o Ipatinga, no Moisés Lucarelli, por 5 a 1. No jogo anterior, em Curitiba, já havia mostrado muita garra e determinação e a derrota, nos minutos finais da partida, foi, sobretudo, injusta. Além de atuar num campo impraticável, em virtude das chuvas que caíram em Curitiba, o árbitro catarinense teve influência decisiva no resultado. O gol da vitória do adversário foi feito em impedimento (muitos, inclusive pontepretanos, contestam que tenha havido irregularidade no lance, mas, se atentarem bem para as imagens, verão que ele foi, mesmo, irregular). Digamos que eu esteja enganado e o gol tenha sido normal. Ainda assim, a arbitragem em Curitiba foi das mais danosas para a Macaca, invertendo faltas, dando cartões amarelos (errados) em profusão para jogadores da Ponte e poupando os adversários. O 2 a 1, construído nos minutos finais, queiram ou não, foi injusto, sim, e não refletiu de forma alguma o andamento da partida. Já no jogo de sexta-feira, a Macaca não deu a mínima chance para o azar. Com outra atuação soberba de Alex Terra, aproveitou todas as chances que apareceram e liquidou logo a fatura. É verdade que Denis foi chamado a intervir em três lances fundamentais, e fez três defesas espetaculares. Todavia, isso não tira o mérito da goleada. Ao contrário, dá-lhe maior brilho. Afinal, o excelente goleiro faz parte dos onze jogadores da Ponte, não é mesmo? Se cumpriu seu papel, méritos para ele e para o time, claro, cuja camisa veste com raro brilhantismo.

COMPLICOU-SE PORQUE QUIS

O Guarani complicou-se, ontem, porque quis, na derrota por 3 a 2, no Estádio Giulite Coutinho, em Mesquita, Estado do Rio, diante do “catadão” do América. A complicação sequer está no resultado, normal para um jogo fora de casa. Reside no fato do Bugre perder mais da metade do time titular para o jogo decisivo de domingo, diante do Jaguaré, no Brinco de Ouro. Durante a semana, tanto torcedores, quanto a crônica esportiva da cidade, recomendaram insistentemente que o Guarani poupasse seus principais jogadores, notadamente os que vinham de contusão e os que estavam pendurados com dois cartões amarelos. O técnico José Luiz Carbone, porém, não deu ouvidos às recomendações. Resultado? O Guarani vai encarar a partida decisiva de domingo, em que o Jaguaré é que vai jogar pelo empate, sem Buzzetto, Lino, Macaé, Assunção, Lê e Marquinhos. Então a “vaca foi pro brejo?”, perguntará, preocupado, o torcedor bugrino. Claro que não! Até porque, o Jaguaré é um time limitadíssimo e os reservas do Bugre podem, perfeitamente, dar conta do recado, já que são praticamente do mesmo nível dos titulares. Não que o Guarani conte com um plantel magnífico, recheado de craques. Pelo contrário. O grupo, todavia, é homogêneo. Quem sabe o acaso tenha, até, ajudado Carbone nessa empreitada. Afinal, presume-se que, quem vai entrar em campo, irá encarar o jogo como o das suas vidas. Garra, certamente, não irá faltar. E é disso que o Guarani vai precisar, já que técnica esse time não tem mesmo.

DUPLA MATADORA

A torcida pontepretana está empolgada com a dupla Heverton e Alex Terra e não é para menos. Com seis gols cada, ambos são os artilheiros do time e garantem a efetividade do ataque. Aliás, o problema da Ponte não está sendo esse, no Campeonato Brasileiro da Série B. O que preocupa o torcedor é o setor defensivo que, mesmo quando joga bem (como foi o caso da goleada de sexta-feira, sobre o Ipatinga, por 5 a 1), não consegue sair de campo sem ser vazada pelo menos uma vez. Para se ter uma idéia da eficiência dos dois goleadores da Macaca, basta lembrar que ambos fizeram, sozinhos, quase metade dos 25 gols que o time marcou na competição. Claro que o aproveitamento de Alex Terra é o que mais chama a atenção. E só não é maior, porque a equipe (erroneamente) não joga em função dele. O atacante, revelação das categorias de base do Fluminense, é um velocista. Não recebeu, porém, nos quatro jogos que atuou (em que fez seis gols, destaque-se), uma única bola do meio de campo em que pudesse explorar sua principal virtude. E, ainda assim, fez o que fez. Espero que, com a seqüência de jogos, seus companheiros percebam que vêm jogando errado e explorem mais, muito mais, a velocidade desse excelente matador, que já vem chamando a atenção de alguns clubes do exterior. Acabo de ver um site português em que um dirigente de Portugal pede mais informações sobre Alex Terra. Tomara que não ocorra com ele o que já aconteceu, em passado ainda recente, com Harrison, Weldon e Kahê.

CAMPINAS MAIS LONGE DA FINAL

A situação do Campinas, no Campeonato Paulista da Série B, ficou bem mais complicada, após a segunda derrota consecutiva, ocorrida ontem, no Estádio Ulrico Mursa, em Santos, para o Jabaquara, por 1 a 0. O Águia agora está mais distante de uma das duas vagas do seu grupo para a fase final, e decisiva, da competição. Tem que começar a ganhar, urgente, em casa e nos domínios do adversário. Considero o time atual do Campinas até melhor do que o do ano passado, mas precisa mostrar isso em campo. Tem que conquistar pontos, não importa se jogando bem ou mal. Futebol não é, como muitos dão a entender, um espetáculo de malabarismo (para isso, existem os circos), mas é um jogo, uma competição. O que conta, no final dos 90 minutos, é o resultado. O resto é coisa de românticos saudosistas. Nem tudo está perdido. Mas o Campinas tem que começar, urgente, a ganhar os seus jogos. “Arriba”, moçada!!!

COLÍRIO PARA OS OLHOS

A Seleção Brasileira de Futebol Feminino não somente ganhou, com amplíssimos méritos, a medalha de ouro nos recém-encerrados XV Jogos Pan-Americanos, disputados no Rio de Janeiro, como sobrou em todos os aspectos: físico, técnico, emocional etc. Sem contar com nenhuma espécie de apoio, as meninas esbanjaram talento, de deixar muito marmanjo morrendo de inveja. Nossa Seleção 39 gols e não sofreu absolutamente nenhum, além de ter a artilheira da competição, a meia Marta, que não por acaso recebeu da Fifa o prêmio de Melhor Jogadora de Futebol do Mundo. Todavia, ninguém destoou nesse grupo aplicado, homogêneo, sério e, sobretudo, competente. As meninas do Brasil, por isso, foram entusiasticamente aplaudidas, de pé, por um Maracanã lotado com 60 mil espectadores, na goleada por 5 a 0 sobre a badalada Seleção Norte-Americana, no jogo que valia a medalha de ouro. Espera-se, somente, que desta vez a CBF, o Comitê Olímpico e, sobretudo, as empresas invistam no futebol feminino, que encanta (em todos os sentidos) o público amante desse esporte.

CLUBES DE MASSA? QUE MASSA?

O clássico de ontem, no Morumbi, entre Corinthians e Flamengo, foi o retrato de corpo inteiro do atual estágio do futebol brasileiro, arrebentado em decorrência de péssimas administrações dos cartolas e da desastrada “Lei Pelé”, que arrasou com os clubes, para beneficiar empresários espertos. Houve tempos em que o confronto entre esses dois adversários superlotaria qualquer estádio do mundo, com torcedores escapando até pelos ladrões. No jogo de ontem, porém, o Morumbi acolheu não mais do que 5 mil fanáticos, num domingo gelado, convidativo para se ficar em casa. Num passado não muito distante, um clássico, como esse, atrairia, no mínimo, 50 mil torcedores, mesmo que estivesse nevando ou chovendo canivetes. O jogo até que foi interessante, mas fraco, do ponto-de-vista técnico, opondo times fraquíssimos, ambos sérios candidatos ao rebaixamento. Pode-se dizer que ontem se enfrentaram os clubes que, somados, são a preferência de mais de 50% dos brasileiros. Contudo, na atual conjuntura, Flamengo e Corinthians são grandes, apenas, em dívidas e nas bobagens que seus dirigentes cometem. Estiveram, frente a frente, o mais endividado (o rubro-negro carioca) e o segundo colocado nesse desastroso ranking. A continuar nessa toada, não tardará muito para o futebol brasileiro desaparecer. E ninguém faz nada para evitar, o que é pior.

RESPINGOS...

· O Náutico, que faz péssima campanha no Campeonato Brasileiro da Série A, tem, pelo menos, uma façanha em seu currículo neste ano. Derrotou três grandes paulistas (São Paulo, Corinthians e Santos), sendo os dois últimos na casa do adversário. Sábado, o vermelhinho de Recife surpreendeu o Santos, de Wanderley Luxemburgo, derrotando-o por 2 a 1 em plena Vila Belmiro.
· O atual time do São Paulo é um dos piores que o clube montou nos últimos anos. Contudo, como os adversários estão ainda mais fracos, o tricolor vem somando pontos e mais pontos na competição. Com a vitória de ontem, em Natal, por 1 a 0 sobre o América, os comandados de Muricy Ramalho alcançaram o Botafogo na liderança do campeonato.
· O Vasco é o time dos quatro. Ou perde ou ganha por este placar. Sábado foi a vez do Goiás cair de quatro em São Januário. E ainda há quem chame o técnico Celso Roth de “retranqueiro”!
· O Paraná está em fase descendente na tabela. Se não atentar bem, logo, logo vai entrar na zona do rebaixamento. Ontem, perdeu para o Atlético Mineiro, em Curitiba, por 3 a 1.
· Parece que o técnico Alexandre Gallo vem conseguindo dar um jeito no Internacional. O colorado gaúcho foi a Recife e sapecou um 5 a 1 sobre o Sport. E sem a sua principal estrela, Alexandre Pato, de malas prontas para o exterior.

· E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


Só o amor, desprendido e abnegado, pode redimir a humanidade e estabelecer uma interminável corrente de afetos e de solidariedade. Não serão governos, sistemas, Estados e ideologias que irão estabelecer a harmonia e a justiça social de que tanto necessitamos. O poeta Dante Aligheri, no livro “A Divina Comédia” (no Canto XXII, quando trata do “Purgatório”), afirma esta grande verdade: “O amor aceso em nome da virtude, uma vez alteada a sua chama, sempre ateia um outro amor”. Ou seja, é como uma fagulha, num capinzal seco: depois de ateado o fogo, este se torna incontrolável. Ninguém mais consegue apagá-lo. Pena que haja tão pouco desta chama no mundo!

Exercício de bom-senso


Pedro J. Bondaczuk


O tema e a técnica são indissociáveis para a elaboração de um bom texto, destinado a perdurar e não ser simplesmente consumido, como um produto "prêt-à-porter", que se usa e joga fora. Um sem o outro não se realiza plenamente. De nada vale ter um bom assunto, passar mensagens consistentes, mas de forma atabalhoada e incompetente, com linguagem empolada e pedante. Ou eivada de erros gramaticais. Antes de tudo, é preciso o domínio da gramática. O mínimo que se exige de um redator é que ele grafe corretamente as palavras, que seja exímio na concordância, que aplique corretamente a regência verbal, as regras de pontuação, acentuação e todas as normas existentes no idioma. O outro pressuposto básico é que seja claro. Que se faça entendido tanto pelo erudito, quanto pelo cidadão comum das ruas que, embora saiba ler, não tenha preparo intelectual ou disposição para fazer algumas "ginásticas mentais". A regra de ouro de quem vive de escrever (e ademais para qualquer coisa que se faça) é o bom-senso.

E precisa ter o que dizer. É necessário transmitir alguma coisa que valha a pena preservar, que seja uma dessas verdades eternas, incorruptíveis, que não sofram nunca a ação do tempo, mesmo que estritamente pessoais. Faço esse questionamento, comigo mesmo, todos os dias. Indago-me o que tenho a ensinar aos outros que eles não possam aprender com uma pessoa mais apta, ou melhor preparada, ou com mais talento ou mais experiente. Procuro colocar meus textos sempre em forma coloquial, como em uma conversa entre amigos, de maneira fluente e natural, embora muitas vezes não resista à tentação e descambe para o discursivo, o retórico, o bombástico, quando não o dogmático. Raros são os ensaios, crônicas, poemas ou contos que escrevo que me agradam. Procuro manter em dia a autocrítica e só divulgo aquilo que passa antes pelo crivo alheio, em geral de pessoas que me não são ligadas por laços de amizade.

Não basta, contudo, contar com um bom tema e dominar a técnica para se tornar um bom escritor. É necessário contar com um canal de divulgação, que faça chegar ao destinatário, ao consumidor, ao público-alvo, ao leitor, aquilo que é escrito. Trata-se do meio para completar a obra. Este também é necessário para a própria elaboração do que se está escrevendo. O escritor (ou redator de jornal) precisa dispor de fontes de informação e pesquisa acessíveis, confiáveis e seguras, já que é inconcebível que saiba tudo de tudo. Ninguém sabe!!!

A propósito desses recursos, que permitem a elaboração de trabalhos consistentes, com possibilidades de perdurar, Mário de Andrade observou: "O artista de mais nobres intenções sociais, o poeta mais deslumbrado ante o mistério da vida, o romancista mais piedoso ante o drama da sociedade poderão perder até noventa por cento do seu valor próprio se não tiverem meios de realizar suas intenções, suas dores e deslumbramentos. Ou então qualquer contista de semanário religioso seria melhor que Machado de Assis! E os meios de realizar intenções e deslumbramentos só podem vir da técnica e da criação da forma".

Daí minha contestação em relação a certas "estrepolias literárias" cometidas por muitos escritores contemporâneos, que tornam seus textos ininteligíveis. Seus livros até atraem pelos títulos. Quando os adquirimos, nos sentimos roubados. Sequer entendemos o que pretenderam transmitir. Alguns desperdiçam temas excepcionais com a ostensiva falta de perícia no domínio da técnica. Outros, esbanjam tanto tecnicismo, que ofuscam a verdadeira razão do texto, que é a mensagem. Há, por exemplo, os que se auto-rotulam de "pós-modernistas" que devem escrever para malucos, tamanha é a confusão que fazem. O que escrevem, embora em língua portuguesa, acaba por não fazer o mínimo sentido. Há, igualmente, os "desconstrutivistas", que "desconstroem", ou seja, arruinam a linguagem. E por que? Para que? Com que finalidade? Para comunicar idéias, deslumbramentos, dores ou emoções certamente não é.

Quando inseguro, recorro ao bom-senso. Busco seguir o conselho de André Gide, citado no livro "Vozes da França", de André Maurois, que recomenda: "O que qualquer outro poderia fazer tão bem como tu, não o faças; o que qualquer outro poderia dizer tão bem como tu, não o digas, o que poderia escrever tão bem, não escrevas. Só te deixes seduzir em ti pelo que sentires não existir em parte alguma, a não ser dentro de ti mesmo. E faze de ti mesmo, paciente ou impacientemente, o mais insubstituível dos seres".

O que procuro passar para os leitores? Sabedoria? Técnica? Não! Busco transmitir minhas experiências pessoais, patrimônios únicos, pois ninguém é como eu. Procuro registrar em texto minha forma de encarar o mundo e essa experiência fascinante e perigosa, que é a vida. Sou original. Sou único. Há uma infinidade de pessoas melhores. Há outra alguns degraus abaixo. Iguais, certamente, não existem. Este é o bom-senso que aplico em meus textos.

Sunday, July 29, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A verdadeira ciência, despida de teorias exóticas, adstrita, só, à realidade, não contesta, em absoluto, a existência e o poder divinos, antes os comprova e destaca. Uma das mais lúcidas declarações que já li a respeito não é de nenhum teólogo, mas do matemático norte-americano Warren Weaver, que deu esta declaração: “Deus é a admirável mente misteriosa que criou o infinitamente pequeno e as vastas dimensões do universo, inclusive os mistérios integrantes de você mesmo, de mim e das nossas mentes. É Ele que tem colocado em tudo isto ordem e beleza. É Ele que tem mostrado que a verdade, a fé e o amor nos proporcionam a solução para todos os problemas. E, apesar dessas pesadas responsabilidades, Ele tem a inimaginável capacidade de preocupar-se individualmente com você e comigo. Ele nos permite a liberdade de determinarmos os nossos próprios destinos”. Estas lúcidas palavras refletem, com exatidão, a essência do que creio.

Quando se duvida do homem


Pedro J. Bondaczuk


As crianças deste turbulento fim de século, além de sofrerem os problemas decorrentes do abandono a que são relegadas por seus pais (que muitas vezes não têm o preparo suficiente sequer para cuidar de si próprios), estão sendo vítimas de uma prática muito mais cruel, absurda e totalmente despida de qualquer foro de humanidade. Vêm sendo responsabilizadas criminalmente em tribunais de vários países (o que se constitui na mais insana aberração jurídica), encarceradas, torturadas e mortas.

Essas denúncias não são gratuitas e foram feitas no boletim deste mês da Anistia Internacional, que relaciona 18 Estados onde esta prática cruel vem se tornando costumeira. Muitos deles são, até mesmo, tidos e havidos como “democracias”.

Sabendo dessas coisas, até dá para entender o desencanto do poeta argentino Jorge Luís Borges, sempre que se referia a sistemas democráticos, o que gerou, inclusive, alguns males entendidos a respeito de suas confusas posições políticas. Muitos chegaram a achar que ele fosse favorável a ditaduras.

O magistral escritor, numa entrevista concedida à revista “IstoÉ”, em 6 de outubro de 1982, disse: “A democracia, como se sabe, é uma superstição baseada na estatística”. A esse propósito o mexicano Octávio Paz, um dos intelectuais mais lúcidos da América Latina, tem uma posição um pouco mais ponderada.

Afirma: “A democracia, por si só, não constitui uma garantia da ambicionada justiça social. Mas garante também a liberdade de pensar...” Só que diante de aberrações, como as denunciadas pela Anistia Internacional, somos forçados a achar que nem sempre há essa garantia.

De duas, uma. Ou o sistema democrático – que pune crianças com prisões, que as tortura para arrancar confissões dos pais, mata esses menores por causa de seus eventuais delitos, entendendo a pena como “vingança da sociedade contra o infrator” e não como uma reeducação (conforme reza a moderna doutrina jurídica) –, é meramente nominal, ou Borges tinha razão.

Não há como justificar uma arbitrariedade dessa espécie por parte de uma entidade abstrata, no caso o Estado, integrada por seres ditos “humanos”, que deveriam, na pior das hipóteses, Ter ao menos dentro de si o sentimento da piedade.

Como pessoas que agem assim, em nome de uma sociedade (que certamente não avaliza essas selvajarias) podem, ao regressar do trabalho, beijar seus filhos, quando sabem que trucidaram os dos outros? Como indivíduos dessa espécie ousam se prostrar perante seu Deus, tenham a religião que tiverem, com um crime tão hediondo na consciência? A que estado de coisas a humanidade chegou neste século, cantado e decantado como sendo o das luzes e da plena civilização!!!

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 6 de janeiro de 1988).

Saturday, July 28, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Deus está sempre presente em todas as coisas do universo. Rege, com absoluta sabedoria e simultaneidade, os universos extremos: tanto o do micro, quanto o do macro infinito. Tanto o âmago de um átomo, quanto as galáxias. A mente humana não consegue apreender Seu poder, pois é finita e perecível. Não há, portanto, maneira de caber nela o infinito e o eterno. Eça de Queirós, no romance “A Cidade e as Serras”, observa: “Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro – tudo é o mesmo corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frêmito de vida, por menor que seja, passa numa fibra desse sublime corpo, que se não repercuta em todas, até as mais humildes, até as que parecem inertes e invitais”. Trata-se de uma reflexão sempre pertinente, senão indispensável, para que jamais percamos a perspectiva e conservemos a humildade, característica das pessoas verdadeiramente sábias.

Caminho limite


Pedro J. Bondaczuk

Afinal, atinei com a senda incógnita,
caminho misterioso é áspero,
da lendária fonte de Ponce de Leon.
Receptáculo de Pandora, em que o prazer e a dor,
vida e morte, Eros e Tanatos
se misturam, se anulam e se confundem.

Suprema delícia dos deuses,
prazer que ensandece ou deifica,
que conspurca ou que purifica,
que condena ou que justifica,
torna possesso ou pacifica e que
simultaneamente, confunde e explica.

Prazer circunstancial: criador ou fatal.
Fonte de todas as delícias e pecados,
vera origem do bem e do mal;
Nirvana de paz ou o atroz Hades;
princípio e fim, noite e dia,
positivo e negativo, preto e branco,
calidoscópio de contrastes,
simultâneos, mas mutantes,
homem-mulher, luz e trevas,
água e fogo, Ormuz e Harimã.

Caminho das supremas delícias
que os lábios, ansiosos, percorreram,
e os sentidos – alertas, vigilantes, inquiridores –
ensinaram a razão a avaliar.

As mãos, trêmulas, acharam a passagem,
os dedos, ágeis, ensinaram o segredo
para abrir a versátil fechadura.
O corpo (perecível), em êxtase e agonia,
metafisicamente, em cada tecido e célula
intensa e sofregamente fruiu.
O espírito, versátil acumulador de experiências,
dínamo de sensações, gerador de atos,
que fabrica fatos, lucidamente,
consistente, concentrado, racional,
fria, objetiva e analiticamente,
analisou, compreendeu e se ilustrou.

Fonte do Amor, esconderijo da Vida,
manjar dos deuses, banquete dos faunos
e das ninfas, lúbricas e desejáveis.

Amor almado, amor biológico,
amor intelectual, posto selvagem,
amor animal, instintivo, fecundo,
efêmero, contudo transcendental:
Amor total!

No sopé do encantado monte,
teto de um mundo de fantasias,
um perfume, estonteante, de madressilvas
intoxica os sentidos, injeta fogo nas veias.

Os lábios, sedentos, ressequidos,
rachados, ansiosos, feridos,
conduziram à embriaguez desenfreada,
em vinho espumante e capitoso.

Sobreveio incontrolável alucinação.
De alucinógenos cogumelos?
De selvagens cactus mexicanos?
De Marijuana? De haxixe? De mescalina?
Não! Foi uma sensação superlativa
e atóxica, viagem não-viciosa
nas asas do pássaro de fogo.

No mágico itinerário descendente,
rumo ao vale da luz e da vida,
os aromas (sempre os aromas)
dos nardos, petúnias e jacintos
guiaram-se às colinas de látex,
gêmeas homozigóticas, manando leite e mel.
E os lábios, gaviões vorazes,
prenderam, em suas garras mucosas,
famintos, sôfregos, libidinosos,
as minúsculas fontes nutrizes,
entregues ao açoite da língua.

Descendo, lebres velozes,
alces musculosos e enérgicos,
bosquejaram um poço ressequido.
Galgaram o Monte de Vênus,
mas detendo, instantaneamente,
o poderoso ímpeto viril.

Sofrendo a angústia da espera,
dorido exercício de contenção,
anticlímax, nervoso, ansioso,
já antevendo, em delírio,
o repasto animal dos sentidos,
detive-me, em admirada contemplação.

Dopado, com os nervos retesados,
com batidas de tambor nos ouvidos,
areia fina na boca, entre os dentes,
e terremoto devastador no coração,
os sentidos excitados, enlouquecidos,
perderam-se, desorientados,
na densa mata amazônica
que ocultava o vale encantado
onde ela, a incrível fonte
da juventude e dos prazeres
estava receptiva, à espera.

E outra vez os intensos aromas,
agora causando vertigens,
exortaram-me ao avanço.
Embriagadores perfumes...
Narcóticos cheiros, que faziam
a cabeça girar, doidamente,
convidativos chamarizes olfativos,
engodos que atraem, papa-moscas,
hipnotizadores, coatores, imperativos,
anestesiaram todas minhas inibições.

E os lábios, afinal, pousaram
sobre róseos lábios laterais,
macios, mornos, mucosos,
úmidos, receptivos, palpitantes,
trêmulos e ligeiramente salgados.
E a serpente sôfrega, assanhada,
silvando, vibrando, se contorcendo,
tamanduá-bandeira faminto,
penetrou, furiosa, lúbrica,
na caverna encantada dos amores.

E sobreveio o delírio...
Passeava nos jardins da Babilônia,
saboreando os vinhos do deserto
e petiscos no solar de Semiramis.
Nos palácios faustosos dos césares,
nu, em um divã refestelado,
amando brancas ninfas lígias,
intoxiquei de pecados meus sentidos.
Exaurindo minha insaciável virilidade,
eis-me copulando, vezes sem fim,
o sexo ninfomaníaco de Messalina.

Com o cetro imperativo dos deuses,
poderoso, viril, conquistador,
invado a cidadela dos prazeres,
conquisto, me aposso e me multiplico.

Atinjo as cytereas paragens,
alucinado com as luzes do Éden.
os nervos explodem no escroto
e me torno incorpóreo e volátil.

Avanço as barreiras do tempo,
sobrepujo a insignificância,
nas asas do pássaro de fogo
dos desejos e das paixões.
Achei o caminho sem limites,
nas fronteiras do Nirvana de paz
e do Hades aterrador da inquietação.

(Poema composto em Campinas, em 21 de novembro de 1976).

Friday, July 27, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A chave para a satisfação, não só no trabalho, mas principalmente na vida, é o entusiasmo. É ter um objetivo de vida, mesmo que seja fantasioso. É você estabelecer mais do que uma simples meta, mas um roteiro de conduta. É ter inteireza de ação, colocando no que faz – no que opta por fazer, de acordo com seu gosto e talento – toda a sua pessoa: seu conhecimento, sua experiência e suas emoções. Ou seja, o seu entusiasmo. Mas não se deve dar muita importância a eventuais fracassos, pois feio não é cair, mas é permanecer no chão. Em vez de ficar deprimido, de se considerar um inútil e incompetente, porque alguma coisa não deu certo, parta para outro projeto, com o mesmo empenho de antes e a mesmíssima perseverança. E, sobretudo, com o mesmo entusiasmo.

O sucesso e o risco


Pedro J. Bondaczuk


As pessoas – pelo menos as que conheço, pessoalmente ou através dos meios de comunicação, como televisão, rádio, jornais, revistas e livros – tendem a apostar no catastrofismo, no negativismo, no lado obscuro e perverso da alma. Tanto que através dos séculos se espera o "fim do mundo", mediante algum cataclismo determinado por eventual "castigo divino" (como se houvesse um Deus iracundo e vingativo disposto a castigar seus filhos), ou vindo do espaço, ou provocado pelo próprio homem. A história da humanidade é uma sucessão interminável de guerras, tiranias, corrupção e barbárie, como se o ser humano soubesse somente praticar o mal. Mas isso está longe da verdade. Ou pelo menos de toda ela.

Também tivemos, através dos tempos, os santos, os altruístas, os abnegados e os puros de coração. E temo-los ainda no nosso convívio ou ao nosso redor. Estes, porém, não atraem ninguém. Há quem os ache uns "chatos", pois com a simples presença "esfregam" no rosto da maioria suas deficiências, fraquezas, covardias, transgressões e imoralidades. As pessoas, consciente ou inconscientemente, assumem sua maldade latente, daí viverem procurando nos outros o mesmo sentimento.

Mas seria o mundo "valhacouto de canalhas", como somos forçados a crer desde que tomamos consciência da realidade? A vida não teria mesmo sentido? Seria uma experiência aleatória? Estaríamos vivos apenas por acaso, sem nenhum objetivo maior senão o de simplesmente viver, por um prazo nunca conhecido, e depois se extinguir, sem deixar rastros ou vestígios? Recuso-me a crer em tudo isso. Muitas vezes, por ter uma visão positiva da realidade e alimentar e disseminar esperanças, sou criticado como sendo um intelectual alienado. Como se isso fosse ainda possível com tanta sujeira lançada pelos meios de comunicação em nosso colo, todos os dias!

Não há como negar que a vida implica em permanente risco. Não somente os inerentes à nossa fragilidade face ao mundo que nos cerca, mas principalmente os do convívio com nossos semelhantes. Ninguém está a salvo, por exemplo, de ser atacado e morto por algum dos tantos malucos, enrustidos ou ostensivos, a qualquer momento ou em qualquer lugar. Tanto aqueles com os quais cruzamos fortuitamente, quanto alguns que podem até conviver conosco, no trabalho, no lazer, na escola e às vezes até debaixo do nosso teto. Quase que diariamente, podemos ver, ou tomamos ciência, de vários exemplos desse tipo, em que pessoas são assassinadas por acaso, por se envolverem em alguma briga tola ou apenas por estarem perto de algum desequilibrado, que sem esta ou mais aquela, lhes suprime a vida.

Mas se estamos expostos a perigos, temos, também, diante de nós, inúmeras oportunidades à espera que as identifiquemos e nos apropriemos delas. Os pessimistas, na verdade, são os medrosos, os que se recusam a assumir responsabilidades pelo próprio futuro. Esse negativismo é uma forma de lançar a culpa pelos próprios fracassos sobre ombros alheios e de justificar a inércia. Charlotte Joko Beck diz mais ou menos isto, neste trecho do livro "Sempre Zen":

"Quando achamos nossa vida desagradável ou insatisfatória, tentamos nos livrar desse incômodo por meio de vários mecanismos de escape sutis. Com tais tentativas, estamos tratando nossa vida como se houvesse um mim e uma vida fora de mim. Enquanto tratarmos nossa vida dessa forma, faremos com que todos os nossos esforços se dirijam ao encontro de algo ou de alguém que cuide de nossa vida por nós. Podemos procurar amante, um mestre, uma religião, um centro – algum lugar, alguém ou alguma coisa que resolva nossa dificuldade por nós. Enquanto tivermos nossa vida desse modo dualista estaremos nos enganando e acreditando que não é preciso pagar preço algum por uma vida realizada. Todos partilhamos essa desilusão em graus variáveis; e isso só nos leva a uma vida de torturas".

Cansei de receber telefonemas de pessoas fracassadas condenando o meu otimismo com indisfarçável rancor e atribuindo-o a uma suposta existência despreocupada e protegida. Dizem-me que não sei o que é o sofrimento, que devo ser "filhinho de papai" e outras bobagens do tipo. Óbvio que quem tira essas conclusões, baseado apenas no que escrevo, não sabe nada a meu respeito. Tenho cultura, é verdade. Mas tive que pagar um preço altíssimo por ela, abrindo mão de repouso, lazer e de uma série de regalias e satisfações simples, a que o mais humilde dos humildes tem acesso.

Algo que pouca gente sabe é que sou paraplégico e tive que fazer um esforço sobreumano para conseguir simplesmente andar, e de muletas, contrariando todas as previsões médicas. E dá para se imaginar o que espera alguém que tenha qualquer deficiência física neste País, que é a sociedade mais injusta e preconceituosa do mundo, de acordo com estatísticas internacionais confiáveis. As circunstâncias da minha vida, em vez de me tornarem amargo, fazem-me ser um sujeito feliz. Paguei um preço para conquistar alguns dos meus sonhos e me dei bem. E, além disso, se chorar trouxesse alguma vantagem, eu estaria disposto a inundar o Planeta com minhas lágrimas. Como não traz...

Thursday, July 26, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O poeta tem função importante no mundo, bem maior do que as pessoas desacostumadas à leitura costumam lhe atribuir: criar harmonia. Essa afirmação foi feita, em Tóquio, em 28 de maio de 1991, pelo líder religioso, artista e pensador budista Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional, durante encontro com o escritor sul-africano Oswald Mbuyiseni Mtshali, ativista anti-apartheid em seu país. Trata-se de uma das melhores caracterizações que já li desses seres abençoados com a magia de saber criar imagens com as palavras e queimar os corações com os seus versos. Como diligentes abelhas que colhem pólen onde houver flor, estes indivíduos iluminados vislumbram beleza onde quer que haja vida, mesmo nos mais asquerosos pântanos da alma humana. Ao criarem harmonia, encantam, inquietam, fascinam e consolam.

Medo do futuro


A falta de um objetivo definido para a vida, que não seja a mera satisfação dos desejos físicos ou a corrida (sem sentido) em busca da fortuna e do poder, têm conduzido muitas pessoas a um angustiante beco sem saída. Impedem que elas gozem plenamente desta aventura – às vezes perigosa, em alguns casos decepcionante, mas provavelmente única (quem sabe?) – que é simplesmente viver.

Tais considerações vêm a propósito da primeira pesquisa nacional realizada nos Estados Unidos pelo Instituto Gallup em 1991, acerca de suicídio na adolescência. O estudo revelou que 6% dos jovens norte-americanos já tentaram dar cabo da própria vida e 34% confessaram que chegaram a pensar, em determinada ocasião, nessa possibilidade.

Ressalte-se que estas pessoas, ao menos em teoria, estão muito longe de serem consideradas pobres ou infelizes, pelos padrões usualmente adotados sobre riqueza e felicidade. Não têm, portanto, pelo menos aparentemente, razões para um gesto tão tresloucado. São, em geral, provenientes das classes média e alta. Portanto, teoricamente, têm (ou já tiveram) acesso a tudo o que a vida pode proporcionar de melhor.

Quais são, então, as causas desse desencanto tão profundo, ao ponto desses rapazes e moças, que mal completaram a sua formação física e psicológica, optarem por um expediente tão extremo, radical e dramático, como a busca da morte pelas próprias mãos? As razões mais vezes apontadas pelos adolescentes que participaram da pesquisa foram três, na seguinte ordem: 22% temiam converter-se em adultos; 20%, por excesso de consumo de drogas e 16% por pressões sociais.

O conflito entre gerações, tão comum nas décadas de 50 e 60, e que ocupava o topo da relação das causas que mais revoltavam os jovens naquele tempo, atualmente não parece ser tão relevante. Somente 14% dos adolescentes entrevistados apontaram, como razão para a tentativa de suicídio, problemas com seus pais.

Mas seria tão ruim se tornar adulto? Haveria algo de errado em assumir responsabilidades, em dizer ao mundo para o que se veio, com que finalidade estamos neste Planeta, às vezes maravilhoso e às vezes hostil e assustador? Há algo de tão negativo no fato de exibirmos diante dos semelhantes nosso "cacife", os talentos e virtudes com que fomos dotados e que nos credenciam, ao menos em teoria, para sermos "vencedores" nesta corrida de obstáculos, sem regras fixas, ou que são a todo o instante violadas? Antes, se faz necessária a definição do que significa "vitória". E esta é uma tarefa extremamente subjetiva, com "n" alternativas. Cada um tem sua "fórmula" de sucesso, embora sem nenhuma convicção acerca da sua infalibilidade.

Para uns, vencer significa ser "feliz", outro termo ambíguo e genérico, que tem significados muito diversos de uma pessoa para outra. Outros, entendem que sair vitorioso na "batalha" da vida é deixar um nome, uma obra, uma marca da sua passagem por este mundo. E as alternativas se sucedem, de acordo com as crenças e as fantasias de cada um. Todos podem estar certos. Mas todos podem também estar errados.

O que sabemos? Não há quem possa servir de árbitro na questão. A incerteza é idêntica para todo o mundo, assim como a insegurança, embora haja quem queira aparentar uma auto-suficiência, que na verdade não possui, e sabe disso. Cada qual terá de escolher, sozinho, seu próprio caminho. É uma estressante roleta-russa. Ninguém, seja qual for seu grau de conhecimento, ou sua fortuna, está absolutamente a salvo de temores de fazer uma escolha equivocada e fracassar.

Todavia, desde que não seja exacerbado, este e qualquer outro medo são, não somente naturais, como indispensáveis. Trata-se de um saudável e bem vindo mecanismo de auto-proteção. Ajuda o indivíduo a se preservar. A não botar, por exemplo, a mão no fogo, a não ficar na frente de um automóvel em alta velocidade e a não saltar do décimo andar de um edifício, entre outras tantas cautelas. O escritor norte-americano Samuel Clemens, mais conhecido pelo pseudônimo literário que adotou, de Mark Twain, constatou: "A coragem é a resistência ao medo, o domínio do medo e não a ausência do medo".

O absoluto destemor não significa, como se pensa, coragem. É, isto sim, o sintoma mais característico da loucura. É irmão gêmeo da temeridade e da irresponsabilidade. Não devemos procurar "do outro lado" da vida (se é que ele existe) as explicações que não encontramos neste. O poeta Ledo Ivo expressou, nestes sábios e judiciosos versos: "O outro lado da vida é aqui mesmo./O outro lado da vida é onde estamos". Talvez seja. Talvez não. Quem pode afirmar com certeza?!

E a escritora inglesa Virgínia Wolf, cujo cinqüentenário de morte transcorreu em 1991, observou: "A vida não é uma série de lanternas de carruagens arrumada simetricamente; a vida é um halo luminoso, um invólucro semitransparente que nos envolve do começo ao fim da consciência". A propósito, ela deu cabo da sua, cometendo suicídio... Ao fim e ao cabo, portanto, trata-se de um grande mistério. E tudo o que se possa dizer a respeito não passa de vã especulação e nada mais. Afinal, o que sabemos nós, pobres mortais?!

Wednesday, July 25, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O bom-humor e a alegria de viver têm que ser exercitados, diariamente, assim como exercitamos nossos músculos nas academias. Com o exercício, adquiriremos tamanha força interior, que os maiores problemas e tragédias terão pouco (provavelmente nenhum) efeito sobre nós. O poeta Johann Wolfgang Göethe nos deu a “receita” de como proceder para esse fortalecimento moral e estético. Recomendou: “Todos os dias deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas bonitas palavras”. Existe forma mais fácil e agradável de exercitarmos o bom-humor e a alegria? Claro que não! E, no entanto, teimamos em poluir nossa mente com notícias sobre violência e morte; em ouvir sons ensurdecedores e desagradáveis; em observar a miséria (em vez de agirmos para que acabe) e em dizer palavras sarcásticas e ferinas, e ainda queremos ser alegres e felizes! Dessa forma, claro que se trata de missão impossível!

Medo das mudanças


Pedro J. Bondaczuk


As mudanças, quaisquer que sejam, assustam boa parte das pessoas que não se dão conta que elas representam a dinâmica da própria vida. Tudo muda permanentemente no universo, que não é estático, mas se move sem parar. Galáxias, constelações, estrelas, planetas e outros corpos celestes estão em contínuo movimento e constante transformação. É o que os filósofos chamam de "moto perpétuo". O mesmo vale para o âmago da matéria: os átomos e seus componentes. E o dos seres vivos: as células e as substâncias que as constituem. Mudar, portanto, significa, acima de tudo, viver.

Há mudanças e mudanças, é verdade. Consideramos que são bem-vindas quando representam a saída de alguma situação angustiante e penosa em que estejamos envolvidos ou a que nos submeteram. Quando ocorre o contrário, ou seja, quando significam que entramos em alguma enrascada, são uma tragédia. O perigo estimula alguns, mas apavora a maioria. Por isso, nosso empenho deve ser o de interferirmos nas mudanças. De sermos, senão seus arquitetos, pelo menos seus participantes. Para isso, são necessárias competência e disciplina, entre outras coisas.

A escritora norte-americana Rosabeth Moss Kanter define bem esse processo ao constatar: "A mudança é debilitante quando feita para nós, mas animadora quando feita por nós". Daí sua simples necessidade dever nos servir de estímulo e desafio, não de fonte de medo e de preocupação. É possível e necessário fazermos uma contínua revisão de conceitos e comportamentos, para que possamos aferir se, por preguiça, comodismo ou mediocridade, não estamos na contramão social. Se a resposta for positiva, não devemos ter dúvidas: temos que mudar, incontinenti. Preservar somente aqueles valores básicos do ser humano, testados e comprovados pelo tempo, e que são a base da civilização. Há coisas, sem dúvida, que são (ou pelo menos devem ser) imutáveis, como o amor, a amizade, a solidariedade, o respeito etc. O mais...

Há os que se preocupam em demasia com as mudanças físicas. Claro que por uma questão de auto-respeito e de saúde, devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para retardar (já que é impossível deter) o envelhecimento. Mas não se deve fazer disso a única preocupação e sequer a maior delas. É preciso definirmos prioridades e estarmos conscientes da nossa transitoriedade. Ninguém é imortal. O poeta Luiz Vaz de Camões deu a receita, em um poema constante do seu livro "Rimas", publicado pela primeira vez em 1569, que diz: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades./Muda-se o ser, muda-se a confiança;/todo o mundo é composto de mudança,/tomando sempre novas qualidades".

Vocês já imaginaram se tudo fosse sempre absolutamente igual, absolutamente imutável, absolutamente estático? Se permanecêssemos sempre crianças, por exemplo? Alguns, certamente, lembrando-se dos sofrimentos recentes, quando não presentes, dirão, emocionalmente, que gostariam que isso ocorresse. São os que temem a vida e por isso não a usufruem. Não têm o espírito aventureiro para afrontar a perpétua instabilidade que cerca a existência humana. São os que aceitam passivamente que outros comandem seus destinos. Temem as mudanças e acham que as podem evitar. Mas nunca podem. Daí a sua infelicidade.

A certeza de estar fazendo o melhor possível, tendo uma visão social adequada, sem egoísmos e egocentrismos, traz serenidade ao espírito, equilíbrio às emoções, alegria à alma. Com ou sem sofrimento. Com ou sem segurança. Com ou sem medo. André Maurois reproduz, no livro "Vozes da França", a seguinte constatação de Henri Bergson: "Quem está seguro, absolutamente seguro de haver produzido obra viável e durável, pode-se considerar satisfeito. Sente-se acima da glória, porque é criador, porque sabe disso e porque a alegria que experimenta é uma alegria divina". Poderíamos acrescentar que um indivíduo desses não teme as mudanças. Participa delas e as induz. Vive plenamente e não tem medo de viver.

Tuesday, July 24, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O que faríamos se, por exemplo, ao chegarmos aos 80 anos, nos fosse dada a oportunidade de recomeçar a vida e de retornar à infância, mas com a experiência e os conhecimentos que então tivéssemos? Os mais sábios, com certeza, tratariam de reparar seus erros e não voltar a incorrer neles. Claro que haveria insensatos que errariam exatamente nos mesmos pontos, mesmo que em circunstâncias e com personagens diferentes. Da minha parte, creio que agiria da mesma forma que George Bernanos, que afirmou: “Se pudesse recomeçar a vida, eu procuraria fazer meus sonhos ainda mais grandiosos, porque a vida é infinitamente mais bela e maior do que eu pensava, mesmo em sonho”. E de fato é. Porém, obcecados por coisas sem o mínimo valor, mas que valorizamos como se fossem de magna importância, não nos damos conta dessa beleza. E, quando nos apercebemos disso, já é muito tarde. Pense e sonhe grande! A vida é bela!

Morte na alma


Pedro J. Bondaczuk


O saudoso mestre B. Sampaio, na crônica "Pecados da Língua", publicada no Correio Popular há alguns anos e que consta de seu livro (premiado pela Academia Brasileira de Letras), intitulado "O Cosmorama da Cidade", constata: "Diz o ditado que o peixe por sua boca morre. Também pela boca morremos nós, ou vamos morrendo na alma, porque, não contentes de pecar por pensamentos, damos à língua e dizemos mal do nosso semelhante. E como se não bastasse a só intenção silenciosa para tornar-nos réus de grave culpa, soltamos a palavra e lá se vai a maledicência a apregoar a nossa imperfeição".

Há pessoas cuja diversão predileta é falar mal da vida alheia. Ninguém escapa de sua língua ferina, deva ou não, seja ou não merecedor de reprovação por idéias, textos, conduta ou ausência dela. Há críticas que são sempre bem-vindas, por servirem de corretivos de rumos em nossas vidas.

Quando bem fundamentadas, embora arranhem nosso ego e firam nosso amor próprio, alertam-nos para nossas falhas, permitindo que as corrijamos. Estas, contudo, não podem e nem devem ser confundidas com a pura e simples maledicência. Com o rancor patológico que determinadas pessoas costumam sentir e mostrar por seus semelhantes, mesmo contra os que não conhecem pessoalmente.

O leitor, certamente, já teve a oportunidade de se deparar com gente assim, que todos evitam, para escapar de aborrecimentos inúteis. Tais indivíduos, se participam de uma conversa numa roda de amigos, buscam aparentar onisciência. Palpitam sobre tudo, mas sempre destilando veneno.

Se o assunto é sobre determinado cantor de sucesso, de imediato arranjam uma brecha no bate-papo para suas observações em geral inoportunas. "Fulano?! Ora, todos sabem que se trata de um efeminado", logo afirmam, com ares de sabe-tudo.

Ou, quando não questionam a virilidade da figura famosa, recorrem a outros defeitos – geralmente existentes somente em suas cabeças de sociopatas – para criticar, ou afirmando que o artista é viciado em drogas, ou que é mulherengo ou qualquer outra coisa que lhe confira "notoriedade".

Dessas "críticas" não há quem não deseje se livrar. São destrutivas, mesquinhas, covardes, que revelam somente uma personalidade desajustada e sumamente infeliz. Não constróem nada e, se puderem, destroem qualquer um, já que ninguém gosta de ser mal-falado, principalmente quando tem consciência de estar agindo bem.

Os maledicentes... Ah! como são frustrados e amargos os maledicentes! São mais um caso para se ter piedade do que rancor. Todavia, as críticas honestas, fundamentadas, coerentes, são importantíssimas, mesmo quando partidas de alguém que não nos aprecia.

Ruy Barbosa observou, num discurso proferido no Senado: "Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros, nos almejam o bem, e nos trazem o mal". Elogios, em geral, tendem a ser funestos, mesmo quando o elogiado é merecedor deles. Sábia é a observação do saudoso mestre campineiro B. Sampaio. De fato, o maledicente vai morrendo na alma a cada aguilhoada que dá em seus semelhantes.

Monday, July 23, 2007

TOQUE DE LETRA







Pedro J. Bondaczuk

(Fotos: Arquivo, site oficial da Ponte Preta e Daniel Marques do site do Brasiliense)

DESANDOU A MAIONESE

A Ponte Preta, que terminou bem o Campeonato Paulista e iniciou razoavelmente o Campeonato Brasileiro da Série B, começa a patinar na competição. Acumula uma série de maus resultados e, o que é mais preocupante, jogando mal, com um lampejo ou outro de bom futebol. A derrota, sexta-feira, para o Brasiliense, em Taguatinga, por 1 a 0, foi a gota d’água para esgotar a paciência da torcida. O que mais irritou foi a postura nitidamente defensiva da equipe, contra um adversário limitado, mesmo o jogo sendo na casa deste. Nunca vi, por exemplo, time algum ter sucesso numa partida sem meias armadores. E a Ponte não os teve na “Boca do Jacaré”. Com isso, os atacantes recebiam só bolas quadradas na frente, tipo chutão dos zagueiros e volantes, e foram facilmente anulados pela zaga do Brasiliense. Ademais, Wanderley, que vinha evoluindo de uns jogos para cá, e Roger, que há muito está devendo futebol, fizeram uma partida apática, ridícula, sem a mínima inspiração. E o castigo veio a cavalo. A Ponte tomou um gol já nos descontos e voltou para Campinas com mais um fracasso em sua deficiente campanha no Campeonato Brasileiro. Esperava-se uma evolução da equipe, tão logo os novos contratados se entrosassem com os companheiros e a Macaca ganhasse conjunto. Todavia, a maionese desandou. Em vez de entrosamento, o que se observa é um time afoito, desorganizado, sem padrão de jogo, com cada jogador querendo resolver as coisas sozinhos. Como futebol é um esporte coletivo...

VOLTA POR CIMA

Com duas vitórias sobre o time mais fraco da sua chave – uma na quarta-feira, em Juiz de Fora, por 1 a 0 e outra ontem, no Brinco de Ouro, por 3 a 1 – o Guarani reabilitou-se na competição, tirou praticamente todas as chances do Tupi de se classificar e agora depende apenas de si para passar à próxima fase. Claro que a fatura ainda não está liquidada. Ninguém ganha e nem perde de véspera. Mas o Bugre decide a vaga em casa, na última rodada, contra o apenas esforçado Jaguaré. Creio, porém, que, mesmo com a classificação, não é o momento para comemorações. O campeonato é bastante longo e este é somente o primeiro (e teoricamente mais fácil) passo. Que a torcida não se iluda achando que o Bugre é um timão. Não é. As duas vitórias consecutivas sobre o Tupi (importantes, sem dúvida) eram absolutamente previsíveis. Qualquer resultado, que não fosse esse, seria desastroso. O Guarani terá que jogar muito mais do que jogou nas finais da Série A-2 do Campeonato Paulista para retornar à Série B do Campeonato Brasileiro. Recorde-se que até o último jogo daquela competição o Bugre estava na corda-bamba, na dependência não só de suas forças, mas de uma vitória da Portuguesa sobre o Bandeirantes de Birigui, que acabou acontecendo. Que a coletividade bugrina não pense que esse tipo de situação vai sempre dar certo. O time precisa melhorar, e muito, se quiser aspirar uma coisa melhor do que a mera passagem para uma nova fase do campeonato.

QUE SE APOSTE NOS MENINOS

Gostaria de ver um trio de zaga da Ponte Preta formado por dois garotos e um veterano: Peterson (de quem dizem maravilhas), Alexandre Black (que sempre que entrou no time rendeu o suficiente para permanecer como titular) e Emerson, para dar toque de experiência a essa que é a última linha defensiva. Duvido, porém, que o treinador Nelsinho Baptista vá se arriscar a tanto. Uma pena! Pois, apesar de haver evoluído bastante, de uns dois jogos para cá, os zagueiros titulares pontepretanos continuam, invariavelmente, batendo cabeça, fazendo bobagens e entregando o ouro para o bandido. Contra o Criciúma, jogaram 87 minutos brilhantes. Todavia, fizeram besteira no finzinho do jogo e quase o time deixa escapar três pontos importantíssimos, que até então estavam sendo conquistados com maestria. Contra o Brasiliense, a coisa se repetiu. João Paulo, Emerson e Zacarias seguraram as investidas do time de Brasília até os 46 minutos do segundo tempo. Mas de que adiantou se, num único lance, fizeram lambança, e permitiram que Adrianinho fizesse um gol que nunca fez quando vestia a camisa da Ponte Preta? Um vacilo custou um precioso ponto, que estava quase ganho, por irrisórios dois minutos (o árbitro havia dado três de acréscimo). É muito para o torcedor engolir!

CAMPINAS CONTINUA O MESMO

O Campinas não se emenda mesmo. Depois de iniciar a segunda fase do Campeonato Paulista da Série B a todo o vapor, vencendo o Tupã, na casa do adversário, tropeçou, ontem, no Cerecamp (o antigo Estádio do Mogiana), diante do Força Sindical, de Caieiras, para quem perdeu por 1 a 0. O Águia vem deixando, há três ou quatro anos consecutivos, escapar a chance de liquidar a fatura e ascender à Série A-3, invariavelmente, em seus domínios. Não dá para entender o que acontece, se é excesso de confiança, ou nervosismo, ou casualidade, ou seja o que for. Tudo bem que esses fatores influenciem negativamente uma vez ou duas. Mas tantas?! Já era mais do que tempo da direção do Campinas ter resolvido esse problema, para que ele nunca mais se repetisse. O Cerecamp, na verdade, deveria ser um “alçapão”, em que os adversários fossem todos, e invariavelmente, batidos. Em vez disso... atua como um campo de “areia movediça”, onde o Águia afunda e não consegue sair. Que coisa!

NOVÍSSIMA GERAÇÃO TREME E DECEPCIONA

Bastou elogiar a Seleção Brasileira Sub-17, que representava o nosso futebol nos XV Jogos Pan-Americanos, que se disputam no Rio de Janeiro, para que essa fracassasse, de maneira surpreendente e vexatória, e fosse goleada pelo Equador, que, convenhamos, nunca foi uma potência futebolística em nenhuma das categorias. Os garotos perderam, e com direito a vaias de um Maracanã lotado. Bem que mereceram! A CBF terá que rever, urgente, seus conceitos em relação às categorias de base, sob pena de desperdiçar o talento de toda uma geração. A exemplo da Seleção Sub-20, faltou comando a esses garotos, jogados, sem maiores considerações, às feras. A equipe se mostrou desentrosada, mal-treinada, sem estratégia e sem o mínimo padrão de jogo. Eram onze garotos correndo atrás da bola, com cada um tentando decidir a partida por conta própria. E esse tipo de comportamento não dá certo nem em peladas, quanto mais numa competição oficial, como os Jogos Pan-Americanos. A Seleção Sub-17 repetiu os mesmíssimos erros da Sub-20. Enquanto essa dependia dos lampejos de Alexandre Pato, aquela esteve na dependência do talento de Lulinha. Claro que nenhum dos dois jogadores decepcionou. Aliás, ambos foram os únicos que se salvaram em seus respectivos grupos. Mas, como até o mais burro dos burros sabe, “uma única andorinha não faz verão”.

IGUAIS NA INCOMPETÊNCIA

É claro que o “se” não conta, nem na vida e nem no futebol. Todavia, caso o Campeonato Brasileiro da Série A terminasse hoje, as duas maiores torcidas do País amargariam um melancólico rebaixamento dos seus respectivos times. O Flamengo, pelo menos, tem uma desculpa. Por incompetência dos que elaboraram a tabela da competição, tem três jogos a menos do que os demais competidores. O mesmo, todavia, não acontece com o Corinthians, mergulhado em profunda crise administrativa fora de campo e contundente ataque de mediocridade dentro dele. O alvinegro paulistano foi humilhado, ontem, diante da sua torcida, em pleno Morumbi, ao ser goleado pelo lanterna do Campeonato, o fraquíssimo Náutico, por 3 a 0. Perdeu e não ofereceu resistência. E que não se culpe o técnico Paulo César Carpeggiani, que até aqui tirou leite de pedra. O plantel é fraquíssimo e não tem condições de fazer campanha sequer razoável até numa Série C. O Flamengo, pelo menos, está se reforçando, para tentar o que já virou rotina de uns cinco anos para cá. Ou seja, uma heróica recuperação no segundo turno. E o Corinthians? Com esse timinho, dificilmente ganhará de alguém.

RESPINGOS...

· O Botafogo, com um montão de desfalques e jogando uma série de oito partidas fora de casa, vem se sustentando, heroicamente, na liderança. Ontem, empatou, no Recife, com o bom time do Sport (agora comandado por Geninho) por 3 a 3. Imagine como será no segundo turno, quando receber todos esses adversários no Rio! O time treinado por Cuca é candidatíssimo ao título deste ano.
· Quem tem Wanderley Luxemburgo no banco é sempre candidato aos títulos que disputa, mesmo que comece muito mal a competição. Com a vitória, ontem, sobre o Figueirense, por 2 a 1, o Santos saltou, num piscar de olhos, da zona do rebaixamento, para as proximidades dos que se classificam para a Copa Libertadores da América. Olho nele.
· O Palmeiras, nas mãos de Caio Junior, faz o que pode. É verdade que perdeu, ontem, para o Paraná, em Curitiba, por 1 a 0, mas vendeu muito caro a derrota. Tivesse um plantel um pouquinho melhor, e daria samba.
· O São Paulo é um dos raros times que conseguem bons resultados sem que tenha ataque. A defesa, comandada por Rogério Ceni, decide tudo. Além de ser a menos vazada do Campeonato, seus zagueiros e seu genial goleiro fazem os gols que garantem as magérrimas vitórias do tricolor. São magras, mas, com elas, o time é vice-líder da competição.
· Não deu outra. O Atlético Mineiro demitiu o treinador Zetti, após a goleada que levou do Vasco, em São Januário, por 4 a 0. O galo é seriíssimo candidato ao rebaixamento. É outro time de massas que judia sem piedade da sua fanática torcida.

· E fim de papo por hoje. Entre em contato, para críticas e sugestões.


pedrojbk@hotmail.com

REFLEXÃO DO DIA


Quem tem fé, é otimista, até por definição. Por maiores que sejam seus problemas, dúvidas, dores e aflições, sempre acredita que, no final das contas, tudo vai se arranjar, dar certo e se resolver. E, por acreditar, age nessa direção e via de regra acaba conseguindo (embora sempre haja exceções). Que tipo de atitude, pois, é o mais sábio e racional? Crer na vida, na alegria e na felicidade ou se conformar em permanecer passivo nas garras do ceticismo? Cada qual que responda, à sua maneira, essa questão. Da minha parte, opto pela lógica. Prefiro ter fé, mesmo que me falte a compreensão.

Mensagem para o futuro


Pedro J. Bondaczuk


O século XXI começou repleto de incógnitas, perigos e inquietações. Traz consigo a mesma carga de problemas, taras e aberrações dos cem anos anteriores, em que a sobrevivência da humanidade, ou pelo menos desse arremedo de civilização que aí está, se constituiu em extraordinário milagre, diante dos riscos de extinção que, de uma forma ou de outra, acabaram sendo contornados.

O que o futuro nos reserva? Obviamente, aquilo que soubermos construir, com nossos esforços e capacidades! Muita coisa, no entanto, precisa mudar, quer política, quer moral, quer comportalmente, para que o homem não somente consiga sobreviver, e evitar o colapso do Planeta, mas construir uma sociedade que realmente valha a pena, sem as hediondas aberrações de hoje. É desnecessário enfatizar a necessidade, por exemplo, da humanidade banir as guerras, sejam quais forem os motivos ou os meios empregados, e ser mais justa e racional na partilha do patrimônio comum, que são os esgotáveis recursos da Terra, já à beira da exaustão.

Outro ponto óbvio, em que todos precisam se concentrar e agir, é a preservação do meio ambiente. É urgente, e vital, que se detenha a acelerada e criminosa depredação da natureza, acabando com a poluição das fontes de água potável, tratando adequadamente do solo para que continue fértil e produtivo, para alimentar as possíveis (e prováveis) 17 bilhões de bocas que existirão até o final do século XXI. E conservando ao máximo a pureza do ar. E limpando os mares (hoje imensos esgotos putrefatos a céu aberto), sob pena do homem desaparecer. Em termos de justiça social, por outro lado, que hoje não passa de mentiroso e pomposo conceito, inexistente em qualquer lugar, é indispensável a absoluta erradicação da miséria, bomba de tempo armada, de frustrações e de ira, capaz de levar tudo pelos ares, de uma hora para a outra, numa explosão incontrolável de ódio e de destruição.

É certo que a humanidade (a parte privilegiada dela, com acesso ao estudo, aos bens materiais e à informação), desenvolveu, miraculosamente, maravilhas tecnológicas, tornando a vida mais fácil e racional, logicamente para a minoria privilegiada que tem acesso a elas. Contudo, como já advertia François Rabelais, no século XVI, "a ciência sem a consciência é uma calamidade para a alma". E como é! Implica em mais riscos e problemas do que em soluções.

Qualquer previsão, para 31 de dezembro de 2100, no entanto, é um magnífico exercício de inutilidade, vazia ficção, mera fantasia, tantas e tamanhas são as possibilidades, positivas e negativas, que se desenham no horizonte. Pelos padrões de comportamento atuais, não há como encarar os próximos cem anos com um mínimo de otimismo, diante dos riscos reais de potenciais e iminentes catástrofes (naturais ou provocadas pelo homem) que, para complicar, sequer são percebidos pelos atuais detentores do poder.

Esta crônica singela, portanto, não se destina a você, leitor deste século XXI. Pretende ser como aquelas mensagens escritas por pessoas românticas e sonhadoras, colocadas em uma garrafa e lançadas ao mar. Lá um belo dia, alguém, a quem com certeza não estavam destinadas, as recebe e traça em torno delas todo um itinerário de fantasias e elucubrações. Ou simplesmente as ignora. E devolve a "garrafa" ao mar.

Supondo que não se perca no tempo e no espaço, e que haja, é claro, ainda um Planeta habitado, chamado Terra, e um país denominado Brasil, e uma cidade conhecida como Campinas, este texto, estranho e inusual, considerado até meio tolo e infantil pelos contemporâneos, pode ser, para algum possível estudioso de 2101, historiador, sociólogo, etólogo (que estuda a ciência do comportamento) ou até mesmo literato, precioso documento, dando conta do que pensava, e como agia, o selvagem e hipócrita homem comum, de inteligência mediana e de incipiente cultura, de fins do século XX e início do XXI.

Pode ser, no entanto, que contrariando todas as nossas catastróficas expectativas, a Terra volte a ser o edênico "Paraíso" do "princípio dos tempos". E que o ser humano tenha mudado seus procedimentos insensatos e suicidas e amadurecido enfim. Pois, como garante Jean-Paul Sartre, não sem uma dose de sabedoria e razão, o homem ainda "é um projeto inacabado". Quem sabe, então, não estará aperfeiçoado, física, mental, ética e moralmente! Tomara! Mas também pode retroagir à absoluta barbárie, à lei das selvas, a do "salve-se quem puder", com a prevalência, como hoje, dos instintos (dos mais fortes) sobre a razão, só que sem os disfarces pseudocivilizados de hoje. A você, leitor do século XXII, que ainda sequer nasceu, minhas saudações de além-túmulo! Feliz ano de 2101! E perdão por não ter sido mais corajoso, sábio, controlado, determinado e competente para lhe deixar, por herança, um mundo muito melhor e mais saudável do que este inferno que a minha geração lhe deixa!! Perdoe-me, se puder...

Sunday, July 22, 2007

REFLEXÃO DO DIA


John Updike, no romance “O Encontro”, constata que “não há bondade sem fé”. E prossegue: “Sem fé, todos os atos são apenas ocupações. E se não teve fé, no fim da vida saberá então que enterrou todas as suas possibilidades no solo deste mundo e que já nada lhe resta para levar para o outro”. Isto, se acreditar em um outro, no que os céticos não crêem. Por isso, não contam com base para a esperança. Suas vidas são áridas, vazias, sem sentido. Mas o argumento mais sólido para que acreditemos em alguém, ou em algo (mesmo que de forma instintiva), é dado por Will Durant, em seu clássico “Filosofia da Vida”. Num determinado trecho, o filósofo analisa a “naturalidade” e a falta dela das duas posturas. E conclui: “A crença é um fenômeno natural. Vem diretamente das nossas necessidades emotivas – da fome de auto-conservação, da sede de recompensa, de companhia, de segurança e até do pendor pela submissão”.

Corrente de abandono


Pedro J. Bondaczuk


O ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, cujos textos se caracterizam pela profundidade das reflexões que colocava aos leitores, escreveu, em um de seus ensaios: “Os jovens reúnem seus pertences para construir uma ponte até a Lua ou, quem sabe, um palácio ou um templo na Terra. E, finalmente, quando adultos, contentam-se em construir uma cabana com eles”.
Nossas crianças excluídas, quando muito, erguerão, com a matéria-prima dos seus sonhos – quando não delírios, provocados pelas drogas ou pela fome – um barraco desconjuntado numa favela qualquer. É a duríssima realidade que os espera.
O problema do menor abandonado, ressalte-se, não é recente. Vem de longa, longuíssima data. Recordo-me de haver topado com a questão ainda na minha meninice, na década de 50. Muita história rolou desde então no País.
Tivemos o plano desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek, que pretendia realizar, em cinco anos, o que seus antecessores haviam feito em 50. Passamos pelo “milagre” econômico que, hoje sabemos, não foi tão milagroso assim. Mas o problema do menor abandonado ficou sem solução. Por isso, agravou-se.
Tentaram tirar as crianças da rua, confinando-as em abrigos do tipo SAM e Febem. Muito político faturou alto, manipulando verbas, pretensamente destinadas ao amparo à infância. Arroubos demagógicos e gestos grandiloqüentes, mas cínicos, não faltaram. Até quando, meu Deus, a criança continuará tendo tão pouco valor no Brasil?! É a pergunta que se impõe!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 20 de outubro de 1993)

Saturday, July 21, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O caminho do sucesso é estreito e acidentado e quando as pessoas conseguem obtê-lo, às vezes se decepcionam por não se sentirem felizes com os resultados. Aliás, trata-se de um conceito bastante subjetivo, este que se refere ao êxito, com significados diferentes de um indivíduo para outro. É algo que não se obtém por acaso. Precisa ser cuidadosamente planejado e incessantemente buscado. Além disso, não é um certificado de garantia de que quem o obtenha será feliz. O doutor Lair Ribeiro define com precisão: “Sucesso é conseguir o que você quer. Felicidade é querer o que você conseguiu”. Muitos optam pelo primeiro e envelhecem desiludidos e amargos, abreviando suas vidas. Outros, apostam no segundo e terminam seus dias na Terra dando preciosas lições de sabedoria e de amor ao próximo. Viver é, além de uma maravilhosa oportunidade, uma inigualável aventura e um enorme privilégio, sobretudo uma arte.

O enredo da saudade


Pedro J. Bondaczuk

Ah! Como a saudade nos enreda
em suas tramas traiçoeiras!
Máquina do tempo
que somente retrocede
na lembrança, na memória
e nos joga, de repente,
num longínquo passado
que julgávamos sepultado
sob toneladas de escombros.

Rostos queridos,
rostos amigos
que o tempo (sempre o tempo),
taciturno e rabugento,
deformou e consumiu.

Sonhos e anseios
que os fatos
frios e feios,
transformaram em frustrações.

Vozes amigas,
frases antigas,
suaves cantigas,
torpes intrigas
que o vento levou.

Campos floridos,
trigais maduros,
rios esquecidos,
bosques escuros
de tantas andanças
que o tempo tornou
em lembranças.

Noites claras de luar
pastoreando estrelas,
ronda da boitatá
pretendendo devorar,
com apetite, os olhos.

A agonia de Jacob,
que com anjo contendeu
toda uma noite,
no vale de Jaboc
até o raiar da Alba.

Contenda criadora,
luta corpo-a-corpo
com o léxico
para ser abençoado
com uma rima rara,
com um verso rico,
com a pepita dourada
da lavra do bem-querer.

O enlevo nefelibata
contemplando os
lagos místicos
dos olhos da Ludmila
e o êxtase
incomparável
do sorriso precioso
da amorosa Tatiana.

A salamandra prateada,
o encantado
pássaro de fogo
da fanada primavera,
colibri de âmbar,
pomba de marfim,
piano de vidro,
toque de incoerência,
hipocampo corcel
para cavalgar
a minha pressa.
Rede tecida de algas
para acalentar o sono.
Trombeta de chifres
apregoando protestos,
mocho de ébano
soletrando augúrios,
espelho de cristal
que mostra o invisível,
cão de azeviche
que ouve e aprova calado.
Sombras. Fantasmas. Saudades.
Escombros do passado...

(Poema composto em Campinas, em 3 de janeiro de 1978).

Friday, July 20, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Um dos desafios mais árduos e, no entanto, mais compensadores, é o de aprender a lidar com frustrações de toda a sorte em nosso cotidiano e evitar que elas se transformem em crônicos aborrecimentos. Para o bem da nossa saúde física e mental, e para o bem-estar dos que nos cercam e que conosco convivem, devemos manter sempre constante o nosso bom-humor, sem permitir que qualquer incidente, seja de que tamanho ou natureza for, o comprometa e arruíne. Devemos ter em mente a sábia observação do filósofo Ralph Waldo Emerson: “Para cada minuto que você se aborrece perde sessenta segundos de felicidade”. Não parece, mas se trata de perda irreparável. Há pessoas que perdem não apenas um minuto, mas horas sem fim, dias, meses, anos, quando não a vida toda, acalentando mágoas, chateações e desejos de vingança, abdicando da possibilidade de serem felizes. Vale a pena abrir mão de tanto por tão pouco? Claro que não!

Antes que tudo se perca


Pedro J. Bondaczuk

Os pequenos aborrecimentos do dia a dia têm maior relevância para determinadas pessoas (diria, até, que se trata da maioria) do que as grandes conquistas que obtêm, sem que sequer se dêem conta. Ou seja, somos rapidíssimos no gatilho quando se trata de se queixar, e lentos, morosos, a passo de tartaruga (quando não inermes) quando é o caso de se agradecer.
O homem é um eterno insatisfeito. E é bom que seja assim, desde que, claro, não se descambe para o exagero. Até virtude em excesso (caso isso fosse possível) transforma-se em defeito. A moderação é a atitude mais sadia, em toda e qualquer circunstância, é óbvio. Principalmente no que se refere às nossas insatisfações.
Carlinhos Ganso é o tipo de pessoa que não se satisfaz com coisíssima alguma. Nunca o vi sorrir com espontaneidade e seu pessimismo, aqui na redação, onde é nosso colega há já dois anos, se tornou motivo de chacota de todo o pessoal.
Qualquer um que cruze, pela manhã, com ele, nos corredores da empresa, e lhe dirija um casual cumprimento, sabe, de antemão, qual será sua resposta. Hoje, resolvi fazer um teste. Não que tivesse dúvidas do resultado, mas para mostrar ao Otacílio, que está há apenas uma semana entre nós, como estagiário, que a turma não exagera quando comenta sobre a crônica insatisfação, sobre o inarredável mau-humor do nosso Zangado, apelido que, claro, lhe cai como uma luva.
- Bom dia, Carlinhos. Como vai? – cumprimento-o efusivamente, exagerando um pouco no meu entusiasmo, com a mão estendida e um largo sorriso nos lábios.
- Mais ou menos – responde o colega, como que num murmúrio, entre entediado e irritado.
Otacílio não contém uma gargalhada, me olhando, de soslaio e dando maliciosa piscadela. Ocorre que Carlinhos reagiu ao meu cumprimento exatamente como eu havia dito que reagiria, sem tirar e nem pôr.
- Algum problema? – voltei à carga, antevendo a resposta, que já havia antecipado ao colega estagiário qual seria. Ou seja, uma sucessão de lamúrias, de queixas e de reclamações, contra tudo e contra todos. E estas, como havia previsto, não se fizeram esperar:
- Um monte deles! – respondeu Carlinhos, desfiando, a seguir, um rosário de motivos para estar de cara fechada, com raiva da vida, do mundo e de todos os que o habitavam. Falou, falou e falou, sem se importar com a nossa reação. Queixou-se, por exemplo, que havia torcido o pé na academia, onde mantinha a forma física. Lamentou o arranhão no carro zero quilômetro, que ganhou do pai há um mês, num estacionamento da cidade. Deplorou o fato de não ter tirado dez na prova de Direito Civil na faculdade. E, por fim, esbravejou pelo fato de ter sido preterido na promoção na empresa, em favor de um colega muito esforçado, paupérrimo, o chamado “pau para toda a obra”, queridíssimo pelos companheiros.
Claro que seus aborrecimentos, embora pequenos, eram reais, não inventados por sua mente de “infeliz de carteirinha”. Mas analisemos suas queixas e vejamos quantos motivos de regozijo o Carlinhos tem, que anulam ou minimizam ao máximo seus aborrecimentos e que ele parece não se dar conta.
É verdade que uma torção no pé é dolorida. Mas, convenhamos, não é nenhuma tragédia. E a dele foi levíssima, dessas que se curam em três ou quatro dias. Ademais, quantas pessoas, neste país, de tamanhos desníveis sociais e de tanta miséria, têm condições de freqüentar uma academia, e das mais caras da cidade?
Quanto ao carro... É chato sofrer prejuízos, quaisquer que sejam. Mas o arranhão no automóvel do Carlinhos era tão pequeno, que seria preciso encostar o nariz na lataria do veículo para que pudesse ser notado. E quantas são as pessoas que têm condições de ganhar carros zero quilômetro, no valor em torno de R$ 75 mil, dos pais?
Em relação à sua nota na faculdade, não se tratou de nada que não pudesse ser corrigido, com um tantinho que fosse de estudo. E nem é preciso ressaltar que, também nesse aspecto, o garotão sarado é um privilegiado. Afinal, estuda em uma escola superior particular, caríssima, e das de maior prestígio no País.
Finalmente, no que se refere à promoção... Que tal se ele fosse menos esnobe, mais simpático e sociável, mais prestativo, menos egoísta e, sobretudo, mais empenhado no trabalho? Além do que, esse emprego, para ele, é mero bico, nada além disso. Está, na verdade, é ocupando vaga de milhões de outros brasileiros, desempregados há tempos, com famílias para sustentar – mais necessitados, portanto, do que ele – e até melhor preparados.
John Steinbeck, no romance “O Inverno dos Descontentes”, constatou: “Quando uma situação ou um problema se complica muito, o homem se protege não pensando nele. Mas o perigo penetra na alma e se mistura com outros receios que lá já se encontram e o que surge é o descontentamento e perplexidade, culpa e um impulso para obter alguma coisa – qualquer coisa – antes que tudo esteja perdido”.
Carlinhos, contudo, como tantos outros privilegiados que são felizes sem que o saibam, não se protege não pensando nos problemas. Age exatamente ao contrário. Pensa a todo o momento nos seus ínfimos aborrecimentos e quanto mais age assim, mais atrai novos probleminhas.
Lamenta, e lamenta e lamenta e quer obter (sem se esforçar para isso), não qualquer coisa, mas tudo o que de bom a vida possa oferecer, sem se importar quantas pessoas (e quais) vai passar para trás. E se esquece, com essa atitude neurótica e egoísta, de usufruir o muito que já tem, “antes que tudo se perca”.

Thursday, July 19, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Um dos maiores pecados que uma pessoa pode cometer, se não o maior de todos, é o de não ser feliz. É o de alimentar rancores, inveja, cobiça e egoísmo, em detrimento dos sentimentos nobres, das emoções sadias e dos atos de grandeza. A felicidade, ao contrário do que muitos pensam, não consiste na posse de bens materiais e nem na companhia de pessoas que os sirvam e bajulem. Estes até podem contribuir para que sejamos felizes, mas, sozinhos, não nos proporcionam essa desejada bem-aventurança. A felicidade não é nada concreto, visível ou palpável, mas um conceito, uma postura, um comportamento. É, por exemplo, a satisfação com o que se tem. É a alegria com as aparentemente pequenas coisas da vida que, no entanto, são as que realmente contam. É saber se emocionar com o nascer e o pôr-do-sol, o desabrochar de uma flor, o sorriso de uma criança e, sobretudo, nutrir genuína gratidão pelo privilégio de viver.

Filha do tempo


Pedro J. Bondaczuk


“A verdade é filha do tempo e não da autoridade”. (Berthold Brecht).


O ensaísta Henry David Thoreau constatou, em um dos seus tantos e lúcidos ensaios, que “é preciso duas pessoas para falar a verdade – uma para falar e outra para ouvir”. Ou seja, é indispensável que haja testemunha do que foi dito, para que outros acreditem que não se mentiu (ou se inventou, o que vem a dar na mesma). Isso, quando se trata da revelação (e posterior descrição) de fatos do cotidiano. Imagine o leitor o que ocorre quando se trata de apresentar conceitos abstratos, subjetivos, impossíveis de serem comprovados de forma concreta!
Onde está a verdade? O que ela é? Como pode ser identificada em meio a um emaranhado de dezenas, de centenas, não raro de milhares de versões e de especulações? Existe essa possibilidade de identificação? Não acredito! Não se trata de ceticismo, mas de comezinha lógica. Raciocinemos.
Muitos juram que pautam suas vidas pela verdade, notadamente líderes religiosos, filósofos, ideólogos e afins. Todavia, quando lhes pedem que a definam, se perdem em ambigüidades, elucubrações e vazios lugares-comuns. Tentam, isso sim, impor suas “versões” mediante sofismas e jogos de palavras, quando não através da força. Convencem os tíbios, os néscios e os poltrões. Mas, a rigor, nem eles mesmos ficam convencidos do que apregoam com tamanho afã, embora jurem que sim.
A história está repleta de páginas sangrentas, de violências e de opressão, de pessoas e instituições que tentam impor, a ferro e fogo, as suas “verdades”. E tudo por que? Apenas para manifestarem um suposto poder que, de fato, nada pode contra a força das idéias e, principalmente, contra a morte. Nunca houve, não há e jamais haverá um único homem que seja tão poderoso ao ponto de escapar dessa niveladora de todos os seres viventes.
Todo poder é temporário, pífio, mesquinho e não resiste a um par de anos, não importa quantos, quando não a meros meses, semanas, dias ou até mesmo horas. Quando menos quem julga detê-lo espera, uma doença súbita, ou acidente ou, no pleno gozo da saúde, uma repentina parada cardíaca, reduz esse arrogante e prepotente, que julgava tudo poder, a mera massa de carne fria, inanimada, que começa a cheirar mal poucas horas depois do coração parar de pulsar.
Este é o poder humano?! Que pobre e mesquinho! Por isso, concordo com a afirmação de Bertholt Brecht, quando observa que “a verdade é filha do tempo e não da autoridade”. E isso no que diz respeito àquela meramente factual. A subjetiva, nem mesmo a eternidade pode comprovar. Restringe-se ao movediço terreno das mais variadas especulações.
Ademais, se formos analisar bem, só há uma (e única) verdade absoluta. E mesmo esta, alguns insensatos tentam combater e negar: Deus (dêem o nome que Lhe quiserem dar). Até o mais tolo dos tolos, o mais crédulo e estúpido dos ignorantes, percebe (ou intui) que há uma inteligência superior que rege sistemas planetários, estrelas, constelações, galáxias: o universo.
Tudo o mais não passa de teorias, fabulações e aparências. E, convenhamos, nem tudo o que “parece”, de fato é. Não por acaso a sabedoria popular consagrou uma expressão que, de tanto repetida, se tornou surrado clichê. Não há quem não a conheça. Claro, refiro-me à peremptória afirmação que “as aparências enganam”. E como enganam!
A opção pela beleza parece-me a mais sensata, já que, ao contrário da “verdade”, há um certo consenso em torno dela (embora nunca absoluto). E salvo raras exceções (e estas existem em tudo na vida), dificilmente o que de fato é belo, não é, também, muito bom.
O filósofo Will Durant constata, no livro “Filosofia da Vida”: “A verdade parece algo muito pobre diante da beleza”. Depende, claro, a que verdade o pensador se referiu. Se for a esta, dos homens, não há como discordar. Esta não apenas é pobre, nesta comparação, senão paupérrima, e em seu grau mais superlativo. Prefiro esta que é a prerrogativa dos artistas (e das pessoas criativas). Refiro-me à fantasia, que pode ser ilimitada. Basta que tenhamos disposição e coragem para afrontar sua imensidão.
Criar, criar e criar é o desafio que se impõe ao homem. Não só objetos, posto que, dada sua limitação física, suas possibilidades de criação nesse campo sejam mínimas. Mas no plano espiritual, as possibilidades são quase infinitas. É apenas com esse exercício criativo, permanente, constante, exaustivo, que o homem exerce, de fato, sua humanidade. A isso é que chamo de “Arte”.
A preservação da vida física, óbvio, não é prerrogativa humana. É resquício do instinto de sobrevivência que todo o ser vivente possui, animal ou vegetal. Ademais, é um exercício inútil, face à realidade da morte. O que podemos, com muita sorte, é contribuir, com atitudes sensatas e saudáveis, para uma vida um pouco mais longa, e olhem lá!.
Devemos, sim, lutar para sobreviver, mas em um outro terreno, que não o da matéria. E não acredito numa hipotética sobrevivência da alma (ninguém me demonstrou, com fatos concretos, essa suposta “verdade”). É nosso dever registrar, de alguma forma (qual? Não importa!) que um dia existimos, pensamos, sentimos, tivemos medo, raiva, dor e saudade, mas fizemos dessa traumática "matéria-prima" um universo de sonhos e de fantasia. Pois esta é uma das raras verdades que considero inquestionável (mas que jamais tentarei impor a quem quer que seja).

Wednesday, July 18, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Há momentos em que nos sentimos exaustos do nosso labor cotidiano e com razão. Do que mais ansiamos e o que mais buscamos são o descanso e o lazer. Bem dosados, ambos têm, evidentemente, seu espaço e sua necessidade. Mas é indispensável que jamais se erre na medida, para que a vida não venha a ser desperdiçada por causa da falta de ação. O poeta dinamarquês Piet Hein, no poema “Cura para a exaustão”, aborda com propriedade a questão, ao revelar:

“Algumas vezes, exausto
da labuta costumeira,
quisera poder dormir
uma eternidade inteira.
Mas então penso melhor,
esqueço luta e canseira:
muito breve farei isso,
quer eu queira quer não queira”.

Incômoda, mas inquestionável verdade. Para descansar, teremos a eternidade. O prazo que nos foi dado de vida é para agir.

Dilúvio de versos


Pedro J. Bondaczuk

A poesia, embora seja, no meu entender, o mais nobre dos gêneros literários, padece, de uns tempos para cá, de um grande, diria enorme, problema: a crescente e crônica falta de leitores e, por conseqüência, de editores. Poetas de primeiríssima grandeza têm dificuldades cada vez maiores de publicar suas obras. As editoras argumentam que, a menos que se trate, por exemplo, de um Carlos Drummond de Andrade, para citar apenas um dos mais consagrados autores nacionais, seus livros não vendem. Encalham nas prateleiras das livrarias e dão prejuízos. Trata-se, porém, de imenso equívoco. Encalhes existem em todos os gêneros e não se devem à qualidade das obras. As causas são outras, e muitas.
Reclama-se, por exemplo, da falta de renovação dos bons poetas no cenário nacional. Como renovar, porém, se eles encontram tamanha má-vontade por parte das editoras (e de editores dos meios de comunicação)? Como toda obra, a poesia precisa de divulgação para ser conhecida e consumida. Afinal, quem não aparece, se esconde. E, para aparecer, é indispensável que haja espaço para isso. Estranho, sobretudo, essa postura de desdém de inúmeros jornalistas em relação ao gênero, já que poesia e jornalismo guardam estreita relação. Calma, amigo, me explico.
E a explicação que tenho a dar a declinei no prefácio do excelente livro “Romance do Emparedado”, do poeta pernambucano Talis Andrade, que mereceria, pelo seu talento, maior (muito maior) reconhecimento do que recebe. Afirmei, no referido texto (e reitero agora): “A poesia – sabiam bem os gregos – é um instrumento pedagógico por excelência. Pena que não venha sendo utilizada com esse fim. Era através dela que, na Grécia Antiga, conhecimentos, informações e sobretudo tradições, eram transmitidos de uma geração a outra. Ela exercia o papel que cabe, hoje, aos meios de comunicação contemporâneos”.
E prossegui: “Não havia (de início) registros escritos. Os poemas eram compostos e, posteriormente, decorados e assim difundidos através dos anos, de séculos até. E foi graças a essa forma de transmissão que nos chegaram, desse passado tão remoto, as geniais epopéias “Odisséia” e “Ilíada” de Homero, entre outras obras. Pode-se dizer, pois, que o poeta foi o jornalista primitivo, aquele que, de uma certa forma, deu origem a esse profissional tão controvertido e glamourizado dos nossos tempos”.
Concluí o citado prefácio com esta explicação: “Claro que a atuação de ambos difere tanto na linguagem quanto em suas concepções. O poeta, por exemplo, lida com o interior, com a psiquê, com a imaginação e, sobretudo, com os sentimentos, com a alma humana, com a emoção. Sua atuação é de dentro para fora. É, portanto, subjetivo por excelência. Já o jornalista tem na objetividade a sua linha de conduta. Reporta (ou pelo menos deveria fazer assim), tudo o que vê, ouve ou toma conhecimento por qualquer outro meio de informação, como a leitura, por exemplo. Tem, como matéria-prima, os fatos, nus e crus. Não lhe compete fazer juízo de valor. Seu papel é o de retratar a realidade (ou o que entende como tal), com a máxima veracidade e isenção”.
Tenho o hábito não somente de ler (e escrever) poesia, mas de pinçar, de cada poema que leio, determinada metáfora que se destaca, um verso-chave, uma visão original do autor sobre o tema que traz à baila e assim por diante. Coleciono essas maravilhas em uma volumosa pasta, até como exercício de edição. Peço licença ao leitor para reproduzir, abaixo, algumas dessas pérolas, que separei, aleatoriamente, para esse fim:


“Há sol, muito sol, há um dilúvio de sol”.
(Hermes Fontes).

“O teu rosto belo
ó palavra esplende
na curva da noite
que toda me envolve”.
(Carlos Drummond de Andrade).

“Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo,
que eu mesmo sou meu perigo”.
(Luiz Vaz de Camões).

“Ah! Os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão”.
(Augusto Meyer, versos do poema “Canção do Negrinho do Pastoreio”).

“O dia é geográfico
a noite é universal,
mas, se Deus ouvir rádio,
ouvirá o meu grito:
por que a noite nos une
e o dia nos separa?”
(Cassiano Ricardo, versos do poema “Coroa Mural”).

“E eu morrendo! E eu morrendo,
vendo-te e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
a delícia da vida! A delícia da vida!”
(Olavo Bilac, versos do poema “In Extremis”).

“Clamo, e não gemo, avanço, e não rastejo,
e vou de olhos enxutos e alma leve
à galharda conquista do teu beijo”.
(Vicente de Carvalho, terceto final do soneto “Velho Tema-II”).

“Eu também procuro uns olhos,
que nunca me procuraram”.
(Menotti del Pichia, versos do poema “A Serenata”).

“Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
da mesma glória que elevou-me aos astros,
chorando aos pés da cruz hoje padeço”.
(Fagundes Varela, versos do poema “Cântico do Calvário”).

“Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
eu sigo às tontas, cego de luz...”
(Raimundo Correia, versos do poema “Plenilúnio”).

“Quem ama inventa as penas em que vive;
e, em lugar de acalmar as penas, antes
busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando;
que é dos loucos somente e dos amantes
na maior alegria andar chorando”.
(Olavo Bilac, tercetos do soneto “Via Láctea-VI”).

“Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
é sentir todo o seio palpitando...
cheio de amores
e dormir solteiro!”
(Álvares de Azevedo, último terceto de “Soneto”).

“Minh’alma murcha, mas ninguém entende
que a pobrezinha só de amor precisa!”
(Casimiro de Abreu, versos do poema “Minh’alma é triste”).

“Ponte suspensa sobre o grande abismo,
dentro de mim caminho passo a passo.
Há sombras que se agitam quando cismo
em outras dimensões fora do espaço”.
(Paulo Bonfim).

“Estou pregado ao rochedo de Lyso Hora
de todos os lados águias estrangeiras me despedaçam”.
(Ondra Lisohorsky, poeta checo).

“E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada
sempre...
Se meu verso não deu certo,
foi seu ouvido que entortou”.
(Carlos Drummond de Andrade).

Ver a vida passar
significa ver
uma vida
que não é tua
A vida vivida
escoa
em outras ruas
(Talis Andrade, poema “O rio uma rua”, do livro “Romance do emparedado).


Poetas de qualidade, que sabem juntar forma e substância, razão e emoção, paixão e inteligência, há em abundância pelo mundo afora. Do que carecem é de divulgação. Do que precisam é de pessoas que saibam não somente interpretar, mas, sobretudo, “sentir” os poemas. O que requerem é atenção e valorização por parte dos editores e, principalmente, dos leitores.
O poeta, porém, apesar de no fundo se tratar de um sonhador, é, sobretudo, pragmático e de pés no chão: é um lutador. Apela para os mais diversos e engenhosos meios para fazer chegar ao destinatário final da sua obra o fruto do seu talento e inspiração. Essa pequena amostra comprova, de sobejo, o que afirmo (e reafirmo sempre que posso), que quem não “consome” poesia fica privado do privilégio de conhecer de perto a beleza, a transcendência e a grandeza que só esses artesãos da palavra são capazes de trazer à luz. .