Wednesday, May 31, 2017

VIVEMOS “MASCARADOS” EM SOCIEDADE
O cotidiano árduo e surpreendente, a vida em sociedade caracterizada por feroz competição em que a solidariedade se torna comportamento infelizmente raro, nos forçam a permanente dissimulação. Temos que viver “camuflados”. Raramente podemos revelar, publicamente, nosso verdadeiro eu. Temos que recorrer (e recorremos) a máscaras, as mais diversas, de acordo com as circunstâncias. Máscara de cidadão, mas que exerce a cidadania apenas até onde lhe permitem (quando permitem). Máscara de profissional zeloso, mas que produz sem tesão, de olho, apenas, no dinheiro, para garantir o sustento. Máscara do arauto das más novas, que é o que nós jornalistas somos. Mascarado, nenhum desses tipos é o meu real. Tempo, tempo, tempo... Existe bem mais precioso para um ser tão frágil e efêmero quanto somos? E, no entanto, quando o temos, não raro o esbanjamos, o desperdiçamos, reclamamos do tédio e deixamos que se escoe pelo ralo, sem se dar conta de que os dias, horas, minutos e segundos perdidos são rigorosamente irrecuperáveis. Se me fosse dado o privilégio de fazer um pedido, um único, mas na certeza de ser atendido, pediria nada mais do que tempo. Mas tempo que fosse só meu, com o qual eu pudesse fazer o que bem quisesse.


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Separatismo beneficia só russos


Pedro J. Bondaczuk


As Repúblicas separatistas na União Soviética, neste período de exacerbação nacionalista em decorrência da frustrada tentativa de golpe contra o presidente Mikhail Gorbachev, ainda não se deram conta da sua não viabilidade, pelo menos a médio prazo, como sociedades nacionais independentes.

Mesmo a Ucrânia, com área de 603.700 quilômetros quadrados e uma população de 51,7 milhões de habitantes, a despeito de ser uma espécie de celeiro alimentar do país, é carente de muitíssimas coisas. Unidos numa federação, tais Estados beneficiam-se da riqueza da Rússia. A rigor, fazendo-se uma análise criteriosa dos números disponíveis, os russos seriam os únicos beneficiados com a extinção da URSS.

Guardadas as devidas proporções, esse Estado soviético tem o papel que São Paulo representa em termos brasileiros. É o principal pilar de sustentação da nação em todo e qualquer aspecto, político, econômico, cultural, esportivo e militar. Pode-se afirmar, sem riscos de descambar para o exagero, que a Federação Russa, com seus 17,1 quilômetros quadrados (duas vezes o território do Brasil) e seus 147 milhões de habitantes, sustenta a União Soviética às custas do bem estar de seu próprio povo.

Ali são produzidos, por exemplo, 91% do petróleo do país, que é o maior produtor do mundo. Na atualidade, o produto é simplesmente transferido para as outras Repúblicas, de graça, sem nenhum pagamento. E quando os separatistas tiverem que pagar pela matéria-prima, em dólares, aos preços de mercado? Onde arranjarão recursos?

Uma coisa ficou claríssima nesse movimento secessionista. Os líderes nacionalistas estão seguros de que o Ocidente irá despejar toneladas de dólares em suas economias. Afinal, raciocinam, para quem interessa a desagregação do império soviético senão às ricas potências ocidentais? Nada, porém, é mais equivocado do que isso. Eles deveriam olhar e tomar como exemplo o que ocorre atualmente bem na sua vizinhança.

Os países do Leste europeu, notadamente Polônia, Hungria, Checoslováquia e Bulgária, abandonaram o comunismo e aderiram ao mercado livre. Todavia, não se sabe de nenhuma grande corrida dos grandes capitalistas estrangeiros para investirem ali. Muito pelo contrário.

Ressalte-se que, mesmo enquanto comunistas, as economias dessas nações eram muito mais saudáveis e equilibradas do que a soviética. Os separatistas lembram o caso daqueles filhos adolescentes rebeldes, que embora sustentados pelos pais, não querem se submeter à sua autoridade.

Sem preparo profissional para enfrentar a vida, resolvem sair de casa e sofrem o diabo. Os secessionistas, sem que percebam, não estão lançando base alguma para o futuro. Estão implantando o terceiromundismo em plena Europa. Enquanto no restante do continente a tendência é a de aglutinação em blocos, como é o caso da Comunidade Européia, no Leste ocorre o inverso, a fragmentação, que também se verifica, e de forma mais dramática, posto que sangrenta, na Iugoslávia.

Outro problema grave, que terá de ser equacionado se a desagregação soviética se concretizar, o que, por mais paradoxal que pareça diante dos últimos acontecimentos, é improvável, é quanto à reação dos russos étnicos que vivem em outras Repúblicas.

Tais pessoas estariam dispostas a embarcar nessa aventura? Elas são, hoje, mais de 16 milhões, distribuídas da seguinte maneira: 21,1% na Ucrânia; 11,9% na Bielorrússia; 10,8% no Uzbequistão; 36% no Kazaquistão; 7,4% na Geórgia; 7,9% no Azerbaijão; 8,6% na Lituânia; 12,8% na Moldávia; 32,8% na Letônia; 22% na Kirghizia; 10,4% no Tadjiquistão; 11,6% no Turkmenistão e 27,9% na Estônia.

Caso não precise sustentar o restante do país, a Rússia, certamente, assumirá sua vocação para superpotência. Perderá somente 10% do Produto Nacional Bruto com a desagregação, mas deixará de ter de alimentar quase 140 milhões de bocas, elevando, vertiginosamente, sua renda per capita e herdando, de quebra, 27 mil ogivas nucleares das 30 mil da União Soviética. Por isso, talvez Bóris Yeltsin não esteja se empenhando para preservar a federação.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 30 de agosto de 1991).



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Ambiente claustrofóbico

Pedro J. Bondaczuk

A atividade de escritor é sumamente fascinante, mas, ao mesmo tempo, perigosa e não raro frustrante. Ademais, implica em uma responsabilidade que quem não é do ramo sequer desconfia. Não posso sair por aí escrevendo, a torto e a direito, tudo o que me vem à cabeça, sem atentar para o que, como e para quem escrevo. Quem age dessa maneira não chega a lugar algum e, não raro, se mete em imensas encrencas. Na melhor das hipóteses, dependendo do que escreveu, cai em ridículo. Portanto, todo o cuidado é pouco.

Apesar do advento do computador, ainda assim é válida a afirmação popular de que o papel aceita qualquer coisa. Todavia, o leitor raramente é tão flexível. E não sabemos de antemão em que mãos nosso texto irá cair, nem como e nem quando. Tanto pode passar batido e se perder no tempo, sem que mereça uma única e reles leitura, como pode nos meter em terríveis encrencas, dependendo do teor do que escrevemos.

Escrever é uma atividade terrivelmente solitária. Quando você estiver diante da tela em branco do computador (ou de uma folha de papel, caso use o meio antigo de produção de textos), passa a contar somente com você mesmo: com sua memória, com seus conhecimentos, com seu domínio do vocabulário e da gramática e com o seu estilo característico de narrar.

Caso tenha um súbito “apagão mental”, se esqueça de algum detalhe pertinente ao texto que estiver produzindo, esqueça de pedir socorro. Não terá ninguém a quem recorrer e com o qual possa contar. Se isso ocorrer, manda a prudência, não escreva. Adie para outro dia, em que estiver mais concentrado e disposto, o que pretendia escrever. Se já tiver iniciado o texto, aborte-o de imediato.

Esse exercício de criação é caprichoso. Às vezes você passa dias com um assunto na cabeça. Mentalmente, já está com o esqueleto do texto perfeitamente formado, bastando, apenas, revesti-lo de palavras. Mas na hora de descarregá-lo na telinha do computador (supondo que você seja um redator prático e moderno), sai tudo diferente do que projetou. Às vezes, é verdade, a coisa sai melhor do que a encomenda. O produto final se revela com muito mais qualidade do que você achava antes de iniciar a redação.

No curso da narrativa, por exemplo, vêm-lhe à mente, como num lampejo, idéias sobre as quais você sequer cogitava a princípio. E você finda por produzir, para sua satisfação e surpresa, sua obra-prima. Alguns chamam isso de “inspiração”. Prefiro classificá-lo de “indução”. Ou seja, um raciocínio induz outro, que por sua vez remete a um terceiro e, assim, sucessivamente. E, quando percebemos, a narrativa mudou completamente de rumo e é bem diversa daquela originalmente planejada. Quando isso ocorre para melhor, é uma bênção, um achado.

Mas nem sempre é o que se verifica. Em boa parte das vezes, essa alteração de rumo nos conduz a impasses, a beiras de abismos e, quando isso ocorre, o mais prudente é abortar a narrativa e partir para outra. Se teimarmos, poderemos nos dar mal (e, via de regra, nos damos mesmo).

A maioria dos escritores sente compulsão para escrever. Às vezes nem está disposta, o corpo pede repouso ou distrações, mas uma determinada idéia permanece sufocada, com falta de ar, querendo vir a lume para poder “respirar”. O romancista inglês Ian McEwan (ganhador do Book Prize de 1998), explicou assim a razão desse “incômodo”: “A mente do narrador está sempre envolvida em um ambiente claustrofóbico”.

Idéias existem para serem transmitidas. Sufocadas, elas morrem no fundo da nossa mente e nos envenenam o espírito com seus restos mortais. Precisam de luz para sobreviver. Requerem ar, muito ar para respirar. São astutas, capciosas, ardilosas e ditatoriais e nos escravizam aos seus propósitos.

Há escritores que consideram sua atividade (ou, pelo menos, a comparam dessa maneira) um ato de exorcismo. É quando eles exorcizam seus demônios interiores e sentem-se relaxados, até que haja novo surto de imposições de idéias. Os que conseguem conviver com esse estado de perpétua tensão, produzem obras marcantes, imortais e notáveis e até sentem prazer em escrever. Seria masoquismo? Talvez.

Nem todos, no entanto, são assim. Muitos, por despreparo técnico, ou psicológico ou por falta de autodisciplina, sucumbem. São envenenados pelos restos mortais de idéias que não sobreviveram por falta de luz e de ar. Tornam-se amargos, arredios e não raro recorrem ao álcool ou às drogas, para aplacar os demônios interiores. São esmagados pelo talento, que se recusam a utilizar com responsabilidade e sabedoria.


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Tuesday, May 30, 2017

POR QUE TER TEMPO É MEU MAIOR DESEJO?
Por que ter tempo é o meu maior desejo? Para poder ser “eu”, do jeitinho exato que sou. Na correria do cotidiano, isso é quase impossível. Os poetas entendem o que quero dizer. Como poderia esquecer quem escreveu versos como estes, do poema intitulado “Transpus”? Como poderia esquecer Mauro Sampaio? E o título do poema não lhes diz nada? Pois leiam o que este íntimo das Musas escreveu:
Transpus a minha alma
e embarquei em minha vontade.
Hoje apenas farei a minha vontade.
Não alimentarei esperanças do abstrato.
Minha vontade apenas.
Riscarei em mim o amor com suas obrigações.
Riscarei a honra e o nome.
Hoje apenas eu. Serei o meu dono,
e me levarei por onde minha vontade der.
Sei que tenho realmente mil imagens.
E hoje todas serão expostas.
Que causem enjoos, vômitos e pena.
Que cada um se enoje e se assuste.
Que cada um se afaste definitivamente.
Hoje não trairei as minhas imagens”.
Agora vocês entenderam por que eu pediria apenas tempo, tempo e tempo se pudesse fazer três pedidos com a certeza de que seriam atendidos? Mas que fosse todinho meu. Caso esse desejo se realizasse, da forma exata como quero, eu seria apenas “eu”, sem essa mistura de máscaras que preciso amarrar no rosto para encarar o cotidiano.

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Foco potencial de frustração



Pedro J. Bondaczuk



A atuação da Assembleia Nacional Constituinte, e o fato dela não ser exclusiva, foram os dois geradores de tensões políticas no corrente ano, caracterizado por crises de toda a sorte, que foram desde a econômica – que nos acompanha a partir do grande naufrágio de setembro de 1982, quando o País constatou, perplexo, que estava virtualmente falido – até a de credibilidade dos homens públicos.

A má assessoria prestada ao presidente José Sarney conseguiu, em pouco tempo, não somente causar erosão em sua popularidade – conquistada na vigência do Plano Cruzado – mas, pior: tornou o governante um dos mais impopulares da história republicana brasileira. Não que esteja cometendo erros sobre erros. Ocorre que a falta de sintonia entre seus colaboradores o deixa, virtualmente, de mãos atadas, impedindo-o de governar de fato.

Quanto à Constituinte, intransigência tem se mostrado a palavra-chave. Os vários grupos que compõem a Assembleia de notáveis não vêm conseguindo se entender (ou não querem chegar ao entendimento, o que nos parece mais provável). Essas desavenças causam grande atraso na conclusão da nova Constituição.

A sociedade, por seu turno, mostra-se assustada com algumas propostas, que revelam, no mínimo, falta de compreensão, por parte dos parlamentares, do seu relevante papel. Se desconhecem, de fato, o que devem fazer, o País se encontra em uma grande enrascada, sem dúvida.

Há deputados querendo inserir de tudo na nova Carta Magna. Esquecem-se que a excelência de um texto constitucional não está na extensão e nem na minuciosidade, mas no conteúdo. Por outro lado, quando defendemos, antes das eleições de 15 de novembro de 1986, que a Constituinte deveria ser exclusiva, independente do Congresso, recebemos inúmeras críticas.

O argumento dos que se opunham à nossa tese era o de que, um país pobre, como o Brasil, não poderia se dar o luxo de sustentar duas assembleias simultâneas. No entanto, com o vencimento do prazo previsto para a conclusão da Constituição (e sequer se sabe quando ela estará pronta para ser promulgada, já que os parlamentares, quando entraram em recesso, não haviam chegado a um entendimento sequer a respeito do regimento), os custos já são muito maiores dos que seriam caso houvesse uma Constituinte exclusiva, independente do Congresso Nacional.

Enquanto isso, os trabalhos legislativos normais estão paralisados. Uma série de leis ordinárias, muitas delas urgentes, aguardam a disposição de deputados e senadores para serem analisadas e votadas, paralisando o Legislativo e deixando o País, virtualmente, com apenas dois poderes atuando: o Executivo e o Judiciário. E essa é uma nítida aberração institucional.

É verdade que uma comissão mista do Congresso tem, periodicamente, desobstruído a pauta, mediante simples voto das lideranças partidárias. Mas isso vem ocorrendo de afogadilho. Os projetos não são sequer analisados. Quem perde somos todos nós, que pagamos os custos de uma decisão equivocada e que corremos o risco de estarmos submetidos a leis defeituosas e inadequadas.

Há, por outro lado, um grande temor na sociedade de que a nova Constituição venha a se constituir em uma das maiores frustrações nacionais da nossa história. A expectativas despertada na população, pela elaboração dessa Carta Magna, são imensas. Falta, contudo, um esclarecimento adequado do real significado de uma Constituição para um determinado país, no caso o Brasil.

Políticos demagogos vêm dando a entender que o novo texto constitucional será panacéia para todos os males nacionais. Claro que não será! Deu-se a entender, por exemplo, na campanha eleitoral do ano passado, que a Constituinte iria acabar com a miséria, que afeta 80% da população brasileira, como que em um passe de mágica. Que acabaria com a corrupção, com a prepotência, com a irresponsabilidade administrativa e que, da noite para o dia, o Brasil se transformaria quase que num paraíso.

Todavia, não se mente, de forma impune, para o povo. Está chegando a hora da verdade, quando os véus de falsidade e de demagogia certamente vão cair. Não há como sustentar por muito tempo tamanha farsa. E, ao que tudo indica, o País terá, ao invés de uma Constituição que sobreviva a séculos, um texto constitucional que sequer deverá alcançar uma década de vigência. E isso é sumamente lamentável, se não leviano e até criminoso.

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 25 de dezembro de 1987. Observação: o texto em questão foi publicado na Coluna do Castelo e com o crédito errado, dado, indevidamente, ao colunista Carlos Castello Branco. O artigo, porém, foi escrito por mim).



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Fera saciada


Pedro J. Bondaczuk

A humanidade, possivelmente, está à beira de uma catástrofe de proporções imprevisíveis e parece que ninguém vem se dando conta de tamanho perigo. E a ameaça não vem do espaço. Está aqui mesmo, na Terra, se desenhando sinistramente no horizonte, sem que se tomem as mínimas providências para se evitar o pior.

Não me refiro, como destaquei, a nenhuma colisão de cometa, ou de meteorito, com o Planeta, o que também é possível, mas não tão provável. Também não se trata, por exemplo, de súbita e simultânea atividade vulcânica, de todos os milhares de vulcões espalhados mundo afora, o que, se ocorresse, mataria milhões e milhões de pessoas sufocadas por gases e incineradas pelo calor e provocaria nova era glacial, já que as cinzas dessas magníficas fornalhas naturais impediriam que a luz do sol chegasse ao solo por anos e mais anos.

Todos esses riscos são possíveis, mas pelo menos não são iminentes. A catástrofe potencial que pressinto e temo (aliás, essa idéia me apavora) refere-se à produção de alimentos, cada vez menor, em virtude dos caprichos climáticos (secas devastadoras em algumas regiões produtoras e enchentes anormais em outras). Isso mesmo! O perigo que está no ar, e nos ameaça a todos, é o de uma fome mundial como nunca antes se viu.

Não se trata de ressuscitar as previsões, feitas no século XIX, pelo britânico Thomas Robert Malthus, ridicularizadas pela maioria dos economistas, políticos e administradores, mas sempre lógicas. Para os que não se lembram do que se trata, refresco a memória dos esquecidos. Esse sacerdote anglicano lembrou, em memorável e citadíssimo ensaio, que, enquanto a produção de alimentos no mundo cresce em progressão aritmética, a população do Planeta aumenta em progressão geométrica.

Não é necessário ser nenhum gênio para concluir que, em dado momento dessa trajetória, faltará comida para todos. Seus críticos interpretaram que Malthus previa essa catástrofe para o seu tempo ou para os anos vindouros. Todavia, ele não estipulou prazo para que isso ocorresse. Tanto poderia acontecer em anos, quanto em séculos ou até milênios. Mas a lógica inflexível e matemática é uma só. E é facílimo de concluir qual é.

Tenho, agora, em mãos, a revista “IstoÉ”, de nº 2014, de 11 de junho de 2008 e o editorial dessa publicação, redigido pelo seu então Diretor Editorial, Carlos José Marques (não sei se ele ainda é), começa assim: “A fome no mundo chegou a níveis críticos”. Pois é, não se trata mais de concordar ou discordar de Malthus, mas de constatar um fato. E o ilustre jornalista não é nenhum catastrofista ou alguém ávido por sensacionalismo. Baseou seu texto em números, em dados concretos, no caso, as conclusões do Fundo para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) na conferência que promoveu em Roma na primeira semana de junho de 2008.

O alerta foi feito a quem de direito. Ou seja, a autoridades de 180 países, presentes ao encontro. Estas, no entanto, em vez de apontarem soluções práticas e emergenciais, por mínimas que fossem, perderam precioso tempo discutindo, apenas, aspectos políticos da questão da escassez: o uso de alimentos como arma para constranger governos não-afinados com os interesses das potências; o embargo a Cuba; o protecionismo comercial dos países ricos e outras tantas picuinhas.

O documento final da reunião adverte que “se algo não for feito urgentemente o aumento de preços e a escassez de produtos vão se alastrar de uma forma descontrolada”. Já estão se alastrando. É verdade que o Brasil (bendito Brasil!) acabara de emplacar uma safra agrícola recorde. Mas vários e vários países produtores colheram metade ou menos do que colhem usualmente. Vai daí...

Vejam em que enrascada a humanidade está metida (e a maioria nem se dá conta disso). Um relatório da mesma FAO, divulgado em 2004, dava conta que 75% das espécies vegetais utilizadas na alimentação humana já se perderam, irremediavelmente. Ou seja, estão extintas. Ressalta que apenas três tipos de sementes (arroz, trigo e milho) respondem por dois terços da energia dietética consumida pelo mundo.

E tem mais. A FAO constatou que em vinte anos, o setor agrícola e de pesca despencou de 22% para 12%, ou seja, quase à metade. E a população, enquanto isso... Nos países pobres, eufemisticamente chamados de “em desenvolvimento”, essa queda foi ainda mais abrupta. Precipitou-se dos 30% para 15%!

Sabem o que mais a FAO informou? Que na oportunidade, 41% das terras do Planeta já eram desertos ou estavam em acelerado processo de desertificação. A cada ano, desaparecem 40 mil quilômetros de florestas tropicais, que se transformam em cinza e carvão. Nesse ritmo (e na verdade a devastação está aumentando e não diminuindo), até 2028, pelo menos 15% da biodiversidade do Planeta terá desaparecido.

Enquanto isso, a ganância, o egoísmo, a ambição desmedida e a burrice campeiam. Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, também de 2004, informava, naquela oportunidade, que o patrimônio de apenas 358 pessoas era maior que a renda anual de 45% da população da Terra (que então era de 6,7 bilhões de habitantes e que hoje é de 7,6 bilhões).

Em treze anos, essa absurda concentração de recursos, não tenham dúvidas, aumentou de forma ainda mais escandalosa. As 200 maiores corporações, que representavam, então, um terço das atividades econômicas mundiais, empregavam, na oportunidade, somente 0,75% (menos de 1%, portanto) da mão de obra disponível no Planeta. Hoje, esse número de empregos é muito menor.

Uma das coisas que nunca consegui entender, desde criança, é o fato de haver tantas pessoas famintas, sem sequer um pedaço de pão duro e amanhecido para tapear a fome, em um mundo que não faz muito ostentava tanta abundância. E num período de escassez mundial, quem o leitor acha que será penalizado e condenado a morrer de inanição? O rico e poderoso? Quem pensar assim é o ingênuo dos ingênuos.

Enquanto houver esse tipo de contradição, jamais poderemos considerar o homem como “civilizado”, a despeito dos seus avanços nos mais diversos campos do conhecimento, como os da ciência, tecnologia, artes, filosofia etc. O escritor russo Máximo Gorki, no conto “O avô e o netinho”, dá a sua explicação para esse comportamento egoísta e maldoso que ainda impera mundo afora. Colocou, na boca de um personagem, esta dura constatação: “O homem de barriga cheia é uma fera e nunca tem pena do que está faminto. O farto e o apenas saciado são inimigos – sempre um é uma felpa no olho do outro, por isso nem um, nem o outro pode sentir piedade pelo que é seu inimigo”.

Infelizmente, o que ainda se vê no mundo (e que se teme que venha a piorar muitíssimo), é o homem como inimigo do homem, em vez de seu aliado para o bem comum. Ainda assim, conservo, contra todas as evidências, uma pontinha de otimismo (sempre fui incorrigível otimista). Mas esta torna-se crescentemente menor em vista do que constato, leio, vejo e ouço a respeito dessa iminente catástrofe, sem que ninguém mova uma palha sequer para evitar. Afinal, otimismo não é e nem deve ser sinônimo de alienação.


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Monday, May 29, 2017

MEU PEDIDO PRIORITÁRIO
Perguntaram-me, de chofre, outro dia: “Pedrão, se você pudesse fazer, sem pensar, um pedido, um único, na certeza de que seria atendido, o que pediria?”. Trata-se, como se vê, de questionamento capcioso, já que são tantos e tantos e tantos desejos, necessidades e carências, que ter atendido um único não iria resolver muito a minha situação. Como parte da pergunta vem acompanhada de uma condição – a de não pensar – mais na base do emocional do que do racional, eu pediria tempo. Tempo para viver com doçura. Tempo para fazer o que quero e gosto, sem esse monte de obrigações do cotidiano. Tempo que fosse só meu, sem a menor interferência de quem quer que fosse. Tempo para ler e escrever poesia. Não que eu não faça isso atualmente. Até porque, isso já se incorporou à minha vida e se tornou, literalmente, necessidade física, anímica, vital, imprescindível e indispensável, como comer, beber, dormir, respirar etc. Mas faço isso sem condições de “saborear” poema algum (nem os que escrevo e nem os de meus poetas preferidos, como Drummond, Quintana, Bandeira, Cecília Meirelles, Neruda, Adélia Prado, Flora Figueiredo, Núbia Nonato etc.etc.etc.). E, sem esquecer, logicamente, do saudoso e magnífico Mauro Sampaio, cuja amizade era, por si só, estupendo poema vivo. Tempo é o que tanto preciso e pediria, sem pestanejar, além de saúde, afeto, amizade e paz... se me fosse feita uma concessão e eu pudesse fazer mais de um pedido..


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Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.
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Plano é sóbrio, equilibrado e factível


Pedro J. Bondaczuk


O primeiro pronunciamento do presidente Itamar Franco à Nação --- agora já efetivado no cargo e sem as limitações impostas por sua interinidade --- e, sobretudo, as linhas gerais da política econômica a ser adotada daqui para a frente, com enfoque para a retomada do crescimento, embora despido de "charme" e dos arroubos demagógicos que caracterizavam Fernando Collor, parece ter agradado a gregos e troianos. Afinal, todos já estão fartos de figuras pré-fabricadas e de mestres em retórica, peritos em sofismas, "milagres" e mágicas, mas que não resolvem coisa alguma.

O plano, elaborado com o concurso de representantes dos mais diversos partidos e setores da sociedade, coordenado pelo ministro interino da Fazenda (prestes a ser efetivado), Paulo Haddad, parece, à primeira vista, sóbrio, equilibrado, factível e, sobretudo, realista. Apesar de privilegiar o social, não lembra em nada a deprimente estratégia paternalista do ex-presidente José Sarney.

Como Itamar frisou bem em seu pronunciamento, é preciso não confundir "modernidade" com perversidade. E isso caracterizava a política econômica imposta por Collor. Além de ineficiente --- ao longo de seu catastrófico governo, o Produto Interno Bruto caiu 10% --- a estratégia do ex-presidente foi perversa. Produziu desemprego em massa, sucateou a rede de saúde pública, gerou monumental capacidade ociosa no parque fabril brasileiro, sem que a inflação (o propalado objetivo do desastrado programa costurado às pressas sem que se medissem suas possíveis conseqüências) recuasse a um patamar dito civilizado. O principal mérito do plano de Itamar é a garantia de estabilidade nas regras do jogo.

Doravante, será possível aos empresários estabelecerem um planejamento que ultrapasse ao dia seguinte. O programa, e mais do que isso, o compromisso assumido pelo presidente perante seus ministros, os congressistas, os moços e moças e todos os brasileiros, é o da previsibilidade.

Parece que finalmente o País vai se livrar das surpresas desagradáveis de um político instável e inapto, que se preocupava mais com o culto à própria personalidade do que em governar, de fato, o Brasil.

(Artigo publicado na página 5, Economia, do Correio Popular, em 31 de dezembro de 1992).



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Ócio muito trabalhoso


Pedro J. Bondaczuk


A escrita é, sem dúvida, uma das atividades mais nobres que existem. Requer, de quem queira exercitá-la bem, uma série de aptidões, sem as quais não terá desempenho sequer aceitável. O redator precisará, antes de tudo, óbvio, “saber escrever”. Mais de um bilhão de pessoas, mundo afora, não sabem, pois são analfabetas.

É indispensável, a quem precise (ou queira) se expressar por escrito, que conheça as normas essenciais do idioma em que se expressa. Assim, tem que conhecer a grafia correta das palavras, além das regras gramaticais básicas da sua língua. Mas, caso queira se aprofundar, mesmo que não se trate de um escritor, será desejável que crie, desenvolva e consolide estilo próprio de escrever.

Esse é o be-a-bá da escrita. É o elementar, quer para o redator profissional (não importa em que especialidade, se jornalista, advogado, juiz ou escriturário), quer para as pessoas de cultura razoável se expressarem, sem passarem vergonha, no dia a dia. Serve, por exemplo, para redigir um bilhete sem erros à esposa, ou um e-mail para os amigos, ou uma mensagem no facebook e em tantos outros sítios de relacionamentos da internet etc.

De quem vive da escrita, exigem-se outras aptidões, claro. Por exemplo, bom nível de informação, cultura acima da média e, sobretudo, criatividade, entre outras tantas características. Todavia, para quem não é profissional, ou seja, não sobreviva de texto, escrever não se constitui em necessidade. Dá para se sobreviver sem isso (bilhões sobrevivem). Contudo, mesmo que não se exercite a redação para se ganhar o pão nosso de cada dia, é desejável (se não fundamental) esse conhecimento.

Escrever, porém, para quem não tenha isso como obrigação profissional, convenhamos, é um ócio, mesmo para escritores (a menos que tenham contrato com alguma editora que contenha cláusula que os obrigue, por exemplo, a redigir um livro a cada seis meses ou a cada ano).

Quando escrevo, por exemplo, um romance (ou conto, novela, poema, ensaio etc.) ninguém me obriga a fazê-lo (a menos que haja a obrigação contratual já referida). A iniciativa é exclusivamente minha. Se não a tomar, ninguém irá reclamar, cobrar ou me acionar judicialmente. A rigor, portanto, é um ócio.

Não me refiro, óbvio, à importância da literatura e nem seria irresponsável de fazê-lo, pois considero-a importantíssima, até por coerência, porque também sou escritor. Não iria, pois, desmerecer o que faço. Tecnicamente, todavia, trata-se de ócio.

Isso não quer dizer, reitero, que não seja importante. E nem que seja algo fácil, que qualquer imbecil, que não tenha o que dizer e nada acrescentar ao mundo, faça ou possa fazer. Há ócio e ócio e este, como ressalta o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe “é muito trabalhoso”. E como!

Já imaginaram o mundo sem escritores?! Consequentemente, sem livros? A civilização, tal como a conhecemos hoje, se extinguiria. A humanidade, em pouquíssimo tempo, talvez no espaço de uma única geração, retroagiria à barbárie. Seria o caos.

Até Johann Guttenberg descobrir os tipos fixos, o que permitiu a reprodução impressa de textos em quantidades virtualmente infinitas, o livro era um objeto raríssimo. As edições restringiam-se a uns poucos e míseros exemplares que chegavam às mãos de raros privilegiados. Dependiam de copistas, em geral monges, para serem produzidos. O processo de produção era lento e nem um pouco seguro.

Os originais eram copiados exemplar por exemplar e raramente as cópias eram rigorosamente fiéis aos originais. A quantidade dos que sabiam ler, por seu turno, era ínfima, irrisória, pequeníssima. Os escritores, igualmente, eram para lá de escassos.

As ideias de fraternidade, solidariedade e justiça, entre outras tantas que fundamentam as sociedades contemporâneas, portanto, não circulavam, ensejando, além de pavorosas tiranias, a superstição, o dogmatismo (e seu “filho predileto”, o fanatismo) e a ignorância. Não por acaso, o progresso dos povos (material, cultural, artístico, mas, sobretudo, espiritual) se materializou somente após ampla difusão do livro, ensejada pela invenção de Guttenberg.

Escrever, portanto, (salvo as exceções apontadas), não deixa (pelo menos tecnicamente) de ser mesmo um ócio. Ninguém, mas ninguém mesmo, salvo a sua consciência, obriga o escritor a fazê-lo. Isso, todavia, em vez de desmerecê-lo, apenas engrandece-o e torna magnífica sua ação.

É um ato de suprema generosidade em relação à espécie. É uma generosíssima partilha de informações, sentimentos, ideias, concepções etc. com a humanidade. É algo trabalhoso, sim, como ressaltou Goethe. Mas é, sobretudo, o tal do “otio cum dignitate” (ócio com dignidade) apregoado pelo romano Cícero.


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