Monday, December 31, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Alguns anos, cuja partida na ocasião festejei, hoje são preciosíssimos em minhas lembranças. E às vezes por causa de um único fato, que na época sequer valorizei. Dos que recordo com mais saudade, destacam-se os de 1958, 1960, 1966, 1970, 1976, 1986, 1991, 1992, 1999 e 2004. Nem ao menos sei explicar objetivamente a razão. No dia seguinte da passagem de ano, no primeiro dia útil do novo período, a maioria das pessoas cairá na real e chegará à conclusão de que nada vai mudar em suas vidas com a mera troca de número no calendário. Perceberá que seus problemas continuam exatamente os mesmos de antes e que a solução nunca cai, prontinha e embrulhada para uso, do céu. Não será, reitero, a simples mudança de data que irá mudar a situação de quem quer que seja. O que precisamos é agir, para construir um 2008 como nós tanto sonhamos e queremos. Vamos conseguir, com a inspiração e a ajuda de Deus! Que a fé e a ação sejam, pois, as características deste novo ano.

O pássaro ainda voa


Pedro J. Bondaczuk


O tempo da nossa vida pode ser comparado a um pássaro em permanente vôo. Leva, em suas asas, alegrias, tristezas, sucessos, fracassos, mágoas e saudades, ditadas pelas nossas circunstâncias. A nós compete, se soubermos viver, determinar o que a ave levará para o futuro.
O pássaro do tempo ora voa em céu tempestuoso, em meio a nuvens cor de chumbo, de tempestades e nevascas, ora num azul sem mácula, em dias plenos de sol e de luz. Os anos se sucedem, as estações passam e tornam a voltar, num ciclo que parece não ter fim. Mas tem.
Um dia o pássaro do tempo partirá rumo ao mistério e ao infinito: o da morte e, possivelmente, da eternidade (ninguém tem essa certeza, destaque-se) ou da minha absoluta extinção. “És pó e ao pó retornarás”, diz, peremptório, o texto bíblico.
Para onde ele vai seguir, dependerá de mim (ou de nós), de meu estado de espírito, crenças, sonhos, otimismo, esperanças e fé. Pois, como diz o poeta Mauro Sampaio, nos versos do poema “Oráculo”:

“Quando o pássaro partir
para o seu vôo de inverno
/há de levar nas asas o pólen da saudade”.

Sempre leva. Por piores que tenham sido os dias passados, sempre haverá um, um único que seja, que irá nos despertar lembranças agradáveis. Podem ser muitos, é verdade, embora nunca possam ser todos. Sempre haverá dores, mágoas, tristezas e tragédias para temperar as coisas.
Estas considerações vêm a propósito de mais um ano que se encerra, com suas vitórias, derrotas, alegrias, tristezas, esperanças frustradas e sonhos realizados. Cada pessoa, certamente, terá sua avaliação particular do período que se fecha, dependendo do que lhe aconteceu, de bom e/ou de ruim. Uns vão considerá-lo positivo. Outros... vão festejar, com um “ufa!!!” de alívio, o seu término.
Da minha parte, o ano que se encerra trouxe vitórias (muitas), fracassos (poucos) e até uma tragédia, que foi a morte do meu pai, com o qual nutria uma amizade ímpar, como nunca tive com nenhuma outra pessoa. Mas ele permanecerá sempre vivo, enquanto eu viver, não apenas na lembrança, mas nos genes que me legou.
Contudo, no cômputo de ganhos e de perdas, prevalecem os primeiros. Afinal, terminei o período gozando de plena saúde, física e mental, o que é uma grande bênção, levando em conta minha já não tão pequena idade. Não perdi um único dia de trabalho por motivo de doença, o que, sem dúvida, é para ser festejado, e muito. Se médicos e farmacêuticos dependessem de mim, no ano que ora se encerra, morreriam à míngua.
Todavia, não consegui lançar um novo livro, como havia planejado. A culpa foi minha. Não me empenhei para isso. Por essa razão, não tenho do que lamentar (e não lamento). Tudo virá no seu devido tempo. Escrevi, e muito. Foram em torno de 520 crônicas redigidas no período o que, apesar do número expressivo, não se constituiu sequer no meu recorde pessoal. Aliás, esteve longe dele. Ademais, dei seqüência ao meu primeiro romance, que estava parado desde 2004, o que foi um fato altamente positivo. Pelo jeito, agora ele sai.
Compus 20 poemas novos, o que considero produção pífia nesse gênero. Fazer o quê? Sou um só e o tempo tem limites, ora se tem. Em compensação, li e reli, incansável e furiosamente, desde os clássicos a inúmeros escritores desconhecidos, que tiveram a gentileza de me enviar suas produções, exigindo minha avaliação. Quem sou eu?! Mas estou com a consciência tranqüila por haver atendido a todos com cortesia e honestidade. Alguns não gostaram dos meus comentários. Ainda bem que não sou expert literário e muito menos dono da verdade. Pelo menos os mal-avaliados têm a esperança de que fui incompetente e não soube apreciar, devidamente, determinadas nuances de suas obras. Tomara que seja isso!
Outra vitória, que me envaidece, no ano que finda, foi o sucesso deste espaço Literário. Atribuo-o, claro, não à minha atuação, mas à qualidade dos colegas jornalistas e estudantes de jornalismo que nos honraram com o seu prestígio. Contudo, tenho orgulho de fazer parte deste vitorioso time.
No campo esportivo, o período foi neutro. Minha Ponte Preta, uma das minhas grandes (e inexplicáveis) paixões, tanto no Campeonato Paulista, quanto no Brasileiro da Série B, nadou, nadou... e morreu na praia. O consolo é que, ao contrário do ano passado, não foi rebaixada. Ufa! Mas foi por pouco!
Agora, só me resta esperar o que o pássaro do tempo irá trazer em suas asas. E, claro, fazer a minha parte para tornar o próximo ano um dos melhores, senão o melhor, da minha vida. Ademais, preciso conservar o otimismo e o bom-humor e me empenhar ao máximo nas tarefas que me couberem. Planos? Tenho muitos (seria insensato se não os tivesse), mas estes prefiro não revelar sequer à minha esposa. Questão de superstição.
Finalmente, embora meus implacáveis críticos condenem citações em crônicas (do que discordo, mas cujo repúdio respeito, como respeito todas as opiniões com as quais não concordo), peço licença aos meus escassos e pacientes leitores para encerrar estas divagações com a reprodução do poema “Esperança”, de um dos meus poetas preferidos, meu conterrâneo Mário Quintana, extraído da “Nova Antologia Poética” (Editora Globo – São Paulo – 1998):

“Lá bem no alto do décimo-segundo andar do Ano
vive uma louca chamada Esperança
e ela pensa que quando todas as sirenas
todas as buzinas
todos os reco-recos tocarem
atira-se
e
--- ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
--- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela dirá
(é preciso dizer-lhes tudo de novo!)
ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
--- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...”

Sunday, December 30, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Felizes dos que, ao cabo de longa existência, podem olhar para trás e constatar que aproveitaram as oportunidades que tiveram. Dos que não têm queixas das circunstâncias que marcaram o tempo que viveram. Dos que nunca viram, por exemplo, morrer qualquer esperança e tiveram a ventura de as ver todas plenamente concretizadas. Dos que não se consideram injustiçados e nem duramente punidos. Convenhamos, esta não é a realidade da maioria das pessoas, que olha para trás com tristeza e decepção e percebe que já nada mais pode ser feito para se sentir ao menos palidamente feliz. O poeta mexicano Amado Nervo descreve, no poema “Em paz”, esse sentimento sereno dos vencedores: “Perto do meu ocaso eu te bendigo, ó Vida,/porque nunca me deste esperança falida/nem trabalhos injustos, nem penas imerecidas”. Oxalá possamos, todos, perto do nosso ocaso, bendizer a vida e só ter motivos para agradecer, jamais para lamentar.

DIRETO DO ARQUIVO


Onze anos de omissão


Pedro J. Bondaczuk


A fome que assola o continente africano, colocando em sério risco a vida de 21 milhões de seres humanos (que podem morrer de inanição em seis meses, caso não ocorra uma mobilização internacional de grande porte em seu favor) tinha condições de ser evitada.
Afinal, são onze anos de seca prolongada, que afeta vastas regiões da África e apenas agora, quando a situação dos famintos é desesperadora, a opinião pública internacional acordou para o problema. E não foi por falta de alerta que isso ocorreu.
Em 1980, quando o papa João Paulo II visitou pela primeira vez o continente, alertou, em Uagadugu, a capital de um dos três países mais indigentes do mundo, o Alto Volta, que a população da área subsaariana do Sahel (pouco abaixo do deserto do Saara), estava morrendo. Que a alimentação da maioria das pessoas consistia de uma rala papa de farinha de mandioca com água, e que mesmo quem “tapeava o estômago” com esta indigesta mistura, poderia se considerar privilegiada. As palavras do Sumo Pontífice caíram no vazio. Bateram em ouvidos moucos.
Durante sua segunda excursão à África, o Papa, nos seis países pelos quais passou, voltou a alertar as sociedades ricas do consumismo e do desperdício para o quadro desolador, dantesco, da miséria que testemunhou. E notem que a Etiópia, na oportunidade, não estava sendo sequer lembrada.
Esse país está localizado no lado oposto do continente onde o problema vinha sendo constatado na ocasião, ou seja, no chamado “Chifre da África”. Se hoje sete milhões de etíopes estão na iminência da morte pela fome, imaginem quantos, da região do Sahel, não estarão passando por idêntico dilema, e cujas condições materiais são tão precárias, ao ponto de nem mesmo poderem alertar o mundo para o seu drama! Quantos não devem ter morrido, anônimos, esquecidos, como bichos, desassistidos e ignorados completamente por seus irmãos de espécie!
A FAO adverte que serão necessárias quatro milhões de toneladas de alimentos, durante um ano, para impedir a ocorrência da maior tragédia que o mundo já teve notícia, sob os olhares, muitas vezes complacentes e omissos, de povos que em passado não muito remoto enriqueceram às custas destas vítimas indefesas.
E pensar que enquanto crianças da Etiópia, Alto Volta, Níger, Mali, Chade, Nigéria e Somália, para citar alguns dos países ameaçados, têm suas vidas precocemente suprimidas por absoluta inanição, milhões de litros de leite são dados aos porcos. Toneladas de aveia alimentam cavalos, galinhas e bois; milhões de sacas de grãos são queimadas para subirem de cotação.
É revoltante! Não que os animais não mereçam atenção, até porque esse tratamento lhes é proporcionado com um sentido exclusivamente utilitário. Para que se tornem gordos e forneçam mais carne para as pessoas que os empanturram também se empanturrarem.
Mas, francamente, por mais insensível que alguém possa ser, ninguém haverá de contestar que uma criança, seja ela de que povo, raça, cor ou nacionalidade for, vale mais do que o mais precioso e útil dos animais. Contradizer isso, equivale a negar a própria condição racional do homem.

(Artigo publicado na página 23, Internacional, do Correio Popular, em 25 de novembro de 1984).

Saturday, December 29, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Nosso foco correto, o objeto de nossas preocupações, tem que ser, sempre, o tempo presente. É somente nele que podemos atuar na realidade e torná-la melhor. O passado é matéria para historiadores e biógrafos. Tem lá sua utilidade, mas como alerta, para não cometermos os mesmos erros que cometemos e persistirmos no caminho que já se mostrou adequado. O futuro é mera abstração, período potencial, que pode ou não acontecer. Já trouxe este tema à baila inúmeras vezes, mas nunca é demais refletir de novo sobre ele. O que conta é o agora, vivido intensa e produtivamente. É esse o tempo para mostrar ao mundo a que viemos. Carlos Drummond de Andrade abre o antológico poema “Mãos dadas” com estes versos inteligentes: “Não serei o poeta de um mundo caduco./Também não cantarei o mundo futuro./Estou preso à vida e olho meus companheiros”. É isto. Viver o presente é estar, de fato, preso à vida, gozando-a em sua plenitude e grandeza.

Labirintos


Pedro J. Bondaczuk

A ciência dos labirintos
está em não percorrê-los.
Deixar que eles passem
por sobre a nossa estrutura
e que eles próprios percam
seus caminhos sobre nós.

Do ato de nada fazer
para achar uma saída,
viajar, inconscientemente,
mas sem me locomover,
ser uma estátua, imóvel,
de sal, ou pedra-sabão,
um revolucionário
da imobilidade dos gestos,
do vazio e do silêncio,
eu faço o meu caminho.

Sessenta e cinco labirintos,
de trezentas e sessenta e cinco passagens,
os meus passos percorreram,
mas sempre voltei ao princípio.
Doravante,
eles que me percorram!!!

(Poema composto em Campinas, em 18 de março de 1971)

Friday, December 28, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Confunde-se, amiúde, generosidade com piedade. Ambas são virtudes dignas de se cultivar. O generoso não se apega a bens (materiais ou intelectuais), que distribui, fartamente, aos que o rodeiam. O piedoso, por seu turno, compadece-se dos sofrimentos alheios, sente compaixão pelo próximo, mas nem sempre esse sentimento vem acompanhado de boas ações. Se vier, torna-se um santo. Caso contrário... o que sente, embora nobre, é estéril e não redunda em bem algum. Esse desapego por bens e idéias torna, quem age assim, leve, solto, alegre e feliz. Sua preocupação é produzir obras (materiais, artísticas ou intelectuais), que faz questão de partilhar com o mundo. Não por acaso, Bertholt Brecht constata, no poema “As boas ações”: “Ser generoso, que bela tentação!/Uma boa palavra brota suavemente/como um suspiro de felicidade”. A generosidade traz mais alegrias e satisfações a quem a pratica até do que aos beneficiários. Sempre vale a pena!

Medida do homem


Pedro J. Bondaczuk


O homem deve ser medido somente pela sua capacidade de servir aos semelhantes. Ou seja, de justificar a razão da sua presença no mundo. Todo e qualquer outro critério, que não se enquadre nesse parâmetro, corre o risco de resultar em gritantes injustiças contra seres humanos brilhantes, de intensa riqueza espiritual e de grande valor moral.
As diversas sociedades através da história, desde tempos remotos, têm lançado mão de estúpidos rótulos para classificar pessoas, como se estas fossem mercadorias nas prateleiras de supermercados. Desde épocas bíblicas, ou anteriores a elas até, quem tinha algum problema de locomoção, ou alguma dificuldade no manejo de uma espada, era considerado uma pessoa inferior. Ganhava o contundente e ofensivo epíteto de “aleijado”, hoje suavizado para “deficiente físico”.
No entanto, muitos desses indivíduos, avaliados por critérios tão tacanhos, foram verdadeiros gigantes das épocas em que viveram. Homero, um dos maiores poetas de todos os tempos era cego. O presidente norte-americano do “New Deal”, a era de recuperação e de prosperidade na hoje maior superpotência do Planeta, Franklin Delano Roosevelt, era paralítico. O sublime compositor da “Nona Sinfonia” e de tantas outras obras magistrais, Ludwig van Beethoven, era surdo.
E, no entanto, suas obras permaneceram. Onde estão, porém, os “atletas”, os “guerreiros”, os modelos de perfeição física dos seus respectivos tempos, que possivelmente escarneceram desses gênios? Quem se lembra dos seus nomes? O que fizeram para justificar sua passagem pelo mundo? Nada! Por isso foram punidos com o castigo maior que pode haver para um ser humano: o eterno esquecimento.
Já escrevi, certa feita, que não há praticamente ninguém que não seja deficiente. Quem não tem problema nos órgãos locomotores, sofre de achaques crônicos do fígado, do estômago, dos pulmões, do coração etc. E mesmo quem vende saúde e disposição, muitas vezes, traz dentro da cabeça algo que é menos do que um amendoim seco.
Por isso, o que as pessoas portadoras de qualquer deficiência devem fazer, em primeiro lugar, é se recusar a aceitar esse rótulo. Isso não implica em dizer que ela não esteja se aceitando como é. Mas o homem se mede da linha do nariz para cima. Ou seja, pela sua capacidade de raciocínio, que é o que o distingue das feras broncas.
E mesmo este critério é um tanto injusto para com muitos que, embora com incríveis dificuldades, têm uma capacidade infinita de servir. Ou são dotados de uma grandeza ímpar de sentimentos. Ou dispõem de qualquer outra virtude maravilhosa, que não souberam descobrir em si, mas que não deixam de ter.
É esta a maior descoberta que devemos tentar fazer, em vez de ficarmos lamentando as nossas fraquezas. Ou seja, o potencial com que a natureza nos dotou e que, muitas vezes, por causa de uma autopiedade vazia e covarde, acabamos por atrofiar.

Thursday, December 27, 2007

REFLEXÃO DO DIA


É consenso medir-se a idade das pessoas pelo número de anos que viveram. Ou seja, por quantas folhinhas suas vidas já passaram. Discordo dessa maneira de medição. Prefiro uma forma mais condizente com a realidade. Minha idade, por exemplo, é a que sinto ter, independente dos anos que vivi. O que importa não é “quanto” se vive, mas “como”. O que conta é a postura, o interesse e o entusiasmo com que se encara o tempo. Há muitos jovens de 80 anos, em pleno vigor mental e intelectual, embora o físico possa estar debilitado. Em contrapartida, temos velhos caquéticos de 18 anos, entediados, lamurientos e preguiçosos, que pensam apenas em descanso, embora sequer tivessem tempo de se cansar. São de Mário Quintana, do seu “Pequeno poema didático”, estes sábios e expressivos versos: “O tempo é indivisível. Dize,/qual o sentido do calendário?/Tombam as folhas e fica a árvore,/contra o vento incerto e vário”.

Limpeza da mente


Pedro J. Bondaczuk


A mais fascinante (e importante) descoberta que um homem pode fazer ao longo da sua vida não se refere a algum princípio científico, ou processo tecnológico, ou localização de planetas ou galáxias desconhecidos. É a da sua própria pessoa. Não nos conhecemos, embora achemos que sim. Não sabemos qual é o nosso verdadeiro potencial e sequer temos noção da quantidade (e qualidade) do acervo de informações, sensações e emoções "estocado" em nosso subconsciente. A forma de realizarmos esta aventura, essa caça ao tesouro, essa busca da pedra filosofal da suprema sabedoria, é uma só: a meditação.

Meditar era prática corriqueira dos grandes místicos, dos guias espirituais que transformaram a humanidade e serão venerados por todos os tempos pelo legado de santidade que nos deixaram. Jesus Cristo, após seu batismo no Rio Jordão, retirou-se para o deserto por quarenta dias para esse fim. Sidarta Gauthama atingiu o estado de "Buda" (iluminação) através desse meio. Maomé teve o encontro com o anjo Gabriel, quando recebeu a revelação, durante um retiro espiritual.

Jiddu Krishnamurti explica a esse respeito: "Meditar é purgar a mente de todas acumulações, é a eliminação do poder de juntar, de identificar, de tornar-se; desistência natural do autocrescimento, do autopreenchimento; meditar é livrar a mente da memória e do tempo". É apenas através do caminho da meditação que chegaremos às grandes verdades transcendentais, à unidade cósmica que é a essência da divindade, à harmonia universal.

E como esse exercício deve ser feito? Existem técnicas, momentos e lugares adequados? Quais os requisitos exigidos? Krishnamurti responde: "A meditação não é consciente, nem requer determinadas posturas. Aquele que medita não tem consciência de que está meditando. Se alguém medita deliberadamente, essa é uma outra forma de desejo". A condição básica, portanto, para a meditação é esse expurgo da mente. É o relaxamento, a serenidade, a respiração lenta, profunda e pausada. Pois como destaca o guru indiano: "Quando a mente está toda vazia, em completo silêncio, ela é capaz de renovar-se inteiramente, sem pressões externas, alheia a circunstâncias. Então ela é clara, cristalina e há nela uma alegria que não é mero prazer".

Wednesday, December 26, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Ligeireza e pressa não são sinônimas, apesar de muitos acharem que sim. A primeira palavra caracteriza a perícia, o pleno domínio das ações e o controle das reações. A pressa, por sua vez, é sempre fruto da ansiedade e da afobação. Paul Valery traça pitoresca alegoria em torno das duas palavras. Compara a ligeireza ao vôo dos pássaros e a pressa, ao cair de uma pena. As aves direcionam o seu vôo e vão para onde querem. As penas, por seu turno, não têm vontade que as comandem e seguem para onde os ventos as levarem. E o poeta conclui: “É preciso ser-se ligeiro como a ave, não como a pena”. Devemos, pois, ter ligeireza nas ações, fruto do domínio do que fazemos e do talento e preparo que temos. Em contrapartida, temos que evitar a pressa que, como bem diz a sabedoria popular, “é inimiga da perfeição”. Compete-nos, pois, ser sempre ligeiros, nunca apressados, no pensar, no agir e no espalhar atos de bondade e amor.

Marés da vida


Pedro J. Bondaczuk


O escritor Jonathan Swift, cujo humor refinado deu brilho à literatura mundial, escreveu que "não há nada constante neste mundo, a não ser a inconstância". Aos mais desavisados pode parecer que se trata de simples jogo de palavras. Mas não é. A sutil constatação está revestida de enorme sabedoria. Nossa vida é como a maré. Tem seus fluxos e refluxos, que se repetem até que sejamos atropelados pela fatalidade e nos afastemos do palco central e, na maioria dos casos, dos seus bastidores. Os sábios sabem administrar essa inconstância e não se desarvoram com os períodos de baixa. Nessas ocasiões, reúnem forças para que a subida seguinte seja mais intensa, mais vigorosa, mais duradoura.

Os que mais sofrem, e findam por se perder, são os vaidosos, os egolatras, os que não admitem que não sejam o centro do universo e das atenções dos que os cercam. São dignos de pena. Têm uma visão distorcida da vida e dos objetivos da existência. São vulneráveis exatamente por sua vaidade. Tratamos, em crônica recente, da questão da fama e dos que não sabem administrar essa notoriedade que tanto procuram. Quando a perdem, tornam-se amargos, frustrados, revoltados e até perigosos. Julgam-se injustiçados, perseguidos, sabotados. Tornam-se paranóicos. Todos conhecemos alguma pessoa assim. São as que, no afã de ser felizes, mas sem competência para conquistar essa situação, mergulham de cabeça na infelicidade.

Tempos atrás, ao escrever matéria sobre os dez anos da explosão do ônibus espacial norte-americano Challenger para o jornal em que trabalho, pude refletir sobre a inconstância em minha profissão. Para redigir o referido texto, tive que recorrer ao arquivo. Utilizei as páginas sobre o mesmo assunto que editei há uma década. Na ocasião, mesmo sem a experiência e o conhecimento que tenho hoje, eu era considerado um "nome" no jornalismo da cidade. Minhas opiniões, publicadas diariamente, eram temas de conversas nas rodas de intelectuais. Vivia assediado para fazer palestras, participar de jantares e tomar parte em outros tantos eventos.

O tempo passou... A maré da vida baixou... Hoje, esse mesmo Pedro, agora melhorado pela vivência e conseqüente experiência, não passa de um funcionário a mais de uma enorme equipe, no exercício de uma função virtualmente burocrática, que não condiz com seu preparo. Claro que essa situação é um golpe para o meu ego. Mas nem por isso devo ficar frustrado. Pelo contrário. Devo executar a tarefa que me foi destinada com empenho e dedicação, como se fosse vital para o jornal e para a comunidade. "Só quem é fiel no pouco, consegue sê-lo no muito", diz um preceito bíblico. E não posso nunca me esquecer que sou dispensável. Felizmente, ninguém é insubstituível neste mundo. É certo que algumas dessas substituições representam retrocesso qualitativo. Mas quem é que liga?! O mundo não pára somente por isso.

Costumo ficar atento no "acaso". Alguns, chamam-no de "destino", outros, de "sorte", mas o nome é o que menos importa. Sua manifestação é que é importante. Sua ação pode nos colocar no centro dos acontecimentos e nos transformar instantaneamente em heróis imortais ou nos suprimir a vida. Sob sua influência podemos nos tornar ricos, poderosos e famosos ou cair na indigência, na humilhação, no ostracismo. Esse fator aleatório é o que propicia ou suprime oportunidades.

Portanto, há imensa sabedoria na observação de Swift, como ademais em tudo o que esse escritor nos legou. A inconstância é rigorosamente constante. Nos convida a sermos prudentes e a tratarmos os que nos rodeiam com bondade e gentileza, sejam eles quem forem. Os que maltratarmos na subida, serão os mesmos que nos pisarão a cabeça quando da descida. Quem sabe o que quer, quem traça um roteiro para a sua vida e é maleável para modificar o rumo quando for necessário, quem tem energia para produzir, talento para criar e autodisciplina para evoluir espiritualmente, não tem o que temer.

Pessoas com esse estofo jamais irão empinar o nariz, achando que são melhores do que as outras. Nunca irão se deixar levar pelos louvaminheiros de plantão. Em circunstância alguma assumirão ares de superioridade diante de quem quer que seja. Saberão colher estrelas-do-mar na areia, quando as marés baixarem. Navegarão com audácia quando elas subirem. Serão, mesmo que os outros não admitam de imediato, vencedoras. Conquistarão um lugar cativo no coração do seu povo.

Tuesday, December 25, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Eça de Queiroz acha que é sacrilégio experimentar satisfação no Natal, sabendo da existência de mazelas, injustiças e carências sociais mundo afora. Discordo! Melhor isso, do que nada. Escreve: "Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão possa aquecer, quando se considere que lá fora há quem regele e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima...que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem milhares de criaturas volta com uma amargura maior... Findas as consoadas, o egoísmo parte em desfilada, ninguém torna a pensar mais nos pobres... e a miséria continua a gemer ao seu canto". Não deixa de ser verdade, mas não precisa ser assim. Só depende de nós, para que o espírito de Natal se manifeste em todos os dias do ano, em todos os anos da nossa vida. Que tal tentar?! Feliz Natal e a toda a sua família!!!

Sentimento e pensamento


Pedro J. Bondaczuk


As tradições natalinas, sejam quais forem suas origens e natureza, sempre me fascinaram, encantaram e comoveram. Estudei várias delas e pesquiso o tema desde que me conheço por gente. Ou, para não ser exagerado, desde que me tornei jornalista e, posteriormente, este projeto de escritor. Gosto de tudo o que se refira a Natal, tanto no seu aspecto religioso, litúrgico, espiritual, quanto no profano, da festa em si, mesmo quando os que festejam se esquecem do aniversariante do dia.
Curiosamente, todavia, festejei poucas vezes a data, se levar em conta a minha já não tão pequena idade. Isso ocorreu, no entanto, não pela causa que meus desafetos e detratores me atribuem. Ou seja, por causa de uma pretensa e arrogante racionalidade da minha parte que, na verdade, sequer possuo. Há, até, quem me considere empedernido ateu. É o cúmulo do julgamento irresponsável! Embora isso não diga respeito a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo, confesso, de público: sou um contrito crente em Deus e na Sua infinita bondade, justiça e misericórdia. À minha maneira, portanto, sou profundamente religioso.
Celebrei poucos Natais em minha vida em decorrência de circunstâncias que sempre fugiram ao meu controle. Quando criança, por exemplo, meus pais, fidelíssimos evangélicos (posso dizer, até, sem nenhum laivo de ofensa a eles, fundamentalistas) nunca festejaram a data.
Achavam – com razão, conforme posterior comprovação histórica – que Nosso Senhor Jesus Cristo não nasceu em 25 de dezembro, conforme diz a tradição, mas em outra ocasião qualquer, embora nas circunstâncias exatas dos relatos bíblicos.
Argumentavam que a data que até hoje celebramos foi estabelecida quando a primitiva igreja cristã se corrompeu, após a conversão do Imperador Constantino, que misturou dogmas da religião então nascente com crenças pagãs, para torná-la, digamos, “palatável” aos romanos.. Uma delas referia-se ao “nascimento” do Sol, adorado, como divindade, desde os primórdios da humanidade por inúmeros povos, e que, no Hemisfério Norte, tem seu solstício de inverno justamente na passagem de 24 para 25 de dezembro.
Até concordo com o argumento dos meus pais. Em termos de História, eles estão corretíssimos! Não há como contestar! Mas não vejo razão para não celebrar tão importante evento sem se importar com datas. Não importa o dia exato em que Cristo nasceu. O fato aconteceu, foi marcante e decisivo para o homem e isso é que é importante. Se a tradição dos povos adotou o Natal como sendo em 25 de dezembro, que seja! Não vejo mal algum nisso.
Ademais, os cristãos contemporâneos (e me incluo entre eles) estão adorando o Deus que se fez homem e não o sol, mesmo que em certa época este é que era adorado nesse período do ano, disfarçadamente, inicialmente em Roma, e depois em outras partes do mundo. O que não concebo é que tão transcendental acontecimento passe (e me perdoem o clichê) “em brancas nuvens”.
Já adulto, e dono do próprio nariz, celebrei poucos Natais em decorrência de responsabilidades profissionais das quais não podia e não deveria abrir mão. Por uma dessas casualidades que jamais consegui explicar, meus plantões, nos jornais em que trabalhei, sempre coincidiam exatamente com esse dia, para a minha frustração pessoal, claro, e, mais tarde (quando casei), da mulher e dos filhos.
De uns tempos para cá, porém, venho recuperando o tempo perdido. Nunca é tarde, enquanto se está vivo, não é verdade? Passei alguns Natais recentes longe da família, mas em casa de pessoas de várias condições sociais, algumas muito pobres, outras com situações financeiras privilegiadas, e todos eles foram inesquecíveis. Os melhores, por mais estranho que possa parecer, foram os festejados em lares humildes, onde faltava tudo, desde gêneros alimentícios básicos, comidas e bebidas, a presentes, mesmo os mais reles, os de R$ 1,99. Mas sobejavam alegria e espontaneidade.
Já festejei a data, algumas vezes, com pessoas absolutamente estranhas, que nunca antes havia visto ou conhecido, sequer de vista. Isso ocorreu em alguns hotéis, distantes da minha cidade, durante imprevistas e inadiáveis viagens a trabalho, por este imenso Brasil afora. Subitamente, no entanto, elas se tornaram íntimas, ao longo da celebração. Com muitas delas, inclusive, mantenho, ainda hoje, estreitas relações de afeto e amizade. A causa? Certamente o tão criticado, mas tão precioso “espírito de Natal”.
Cometemos, amiúde, o crasso erro de misturar sentimentos e pensamentos. Queremos ser racionais quando deveríamos ser sentimentais e vice-versa. Cada um desses comportamentos tem o seu espaço, no seu devido tempo. Há momentos (creio que na maioria do tempo) em que ambos podem e até devem conviver harmoniosamente, sem qualquer conflito. Há outros, porém, em que devemos optar por um ou pelo outro. A esse propósito, o professor e eminente conferencista norte-americano, Brian J. Collins, especializado em palestras de auto-ajuda, observou: “Metade dos nossos erros na vida nasce do fato de sentirmos quando devíamos pensar e pensarmos quando devíamos sentir”.
E não tem razão o mestre? Claro que sim! O Natal, no meu entender, é uma ocasião mais para sentimentos do que para pensamentos. Por isso, contesto os que classificam aqueles que aproveitam a data para dar expansão às suas emoções – que, ao longo do ano, por uma razão ou outra, permanecem esquecidas ou represadas – de “cínicos” e de “hipócritas” e aos seus sentimentos de “piegas”. Acho, pois, lindo – e não cínico como afirmam essas pessoas, elas sim hipocritamente – o tal “espírito natalino”. Por isso, desejo um Feliz Natal a todos conhecidos e/ou desconhecidos, sobretudo aos que me honram, há tempos, com a sua generosa e paciente leitura!

Monday, December 24, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Uma vez por ano, até as pessoas mais céticas, egoístas e empedernidas (ou distraídas) experimentam súbita transformação interior e, mesmo que por algumas horas, assumem o que chamamos de “espírito de Natal”. Claro que nem todos admitem isso. O ideal seria que essa mesma predisposição espiritual ocorresse o ano todo, em todos os seus 365 dias. Ciro dos Anjos, no romance "O Amanuense Belmiro", escreve: "Natal! A humanidade se transfigura de súbito, neste dia extraordinário. Que elemento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha, assim, a apresentar uma face nova e desconhecida, e para que todos os seres ganhem uma expressão especial, quase graciosa, de agitada felicidade? As árvores se fazem mais verdes, e os pardais, como cantam!! Será o poder de criar e de transfigurar, que possui a alma humana, ou será uma efetiva transformação no tecido íntimo das coisas?" Esta é a pergunta que lhe deixo para a sua reflexão. Feliz Natal e a todas as pessoas que você ama!!!

Guiado por uma estrela


Pedro J. Bondaczuk

A casa era das mais pobres do bairro. Seguramente, era, pelo menos, a mais judiada da rua. As paredes externas tinham a pintura descascada em vários pontos, refletindo falta de manutenção. Parte do muro lateral havia desabado, mostrando um quintal surpreendentemente bem-cuidado e limpo, com um pequeno canteiro de flores num lado, uma horta de proporções médias no outro e um mastro, com as figuras dos santos cultuados em junho – Santo Antônio, São João e São Pedro – feitas de tecido, já desbotado em conseqüência da chuva e do sol, ao centro. O portãozinho da frente, de madeira, estava desconjuntado, apodrecido por falta de pintura e ameaçava se decompor nas mãos de quem o tentasse abrir.
Fui recebido na entrada da tosca residência por toda a família em comitiva, vestida de forma simples, porém asseada, com trajes domingueiros, como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo. Fui recepcionado pelo chefe da casa, um senhor precocemente envelhecido pelo trabalho e por privações de toda a sorte – era caminhoneiro e passava a maior parte do ano nas estradas, por este imenso Brasil afora –; por sua esposa, que aparentava uns 70 anos (depois soube que tinha apenas 55) e por suas três filhas.
Os filhos, casados, igualmente caminhoneiros, não puderam vir. Estavam trabalhando. Um, levava uma carga de eletrodomésticos para Brasília. O outro, fora buscar uma partida de arroz no Maranhão. As respectivas esposas foram para as casas dos seus pais.
As filhas formavam uma escadinha. A mais velha, beirava os 25 anos. Tinha problemas mentais e pouco, ou nada, ajudava na casa. A do meio, havia completado 18 anos recentemente, mas não estava namorando. Trabalhava como diarista, mas o que ganhava mal dava para a feira da semana. A caçula faria 13 anos em janeiro e havia arranjado colocação de doméstica numa mansão do bairro, praticamente em troca, apenas, de casa e comida.
Como se vê, era uma família pobre, muito pobre, paupérrima. Seu único patrimônio era o caminhão, cuja manutenção custava caro, os “olhos da cara”. Havia meses que o dono da casa mal conseguia cobrir as despesas do veículo. Por isso, a renda familiar era escassa e nem sempre dava, sequer, para as necessidades mínimas. Soube que estavam com três meses de aluguel atrasados e que o proprietário já ameaçava entrar com ação de despejo.
Apesar da pobreza, todavia, raramente tive a oportunidade de conhecer uma pessoa tão alegre, tão comunicativa e, sobretudo, tão otimista como aquele humilde caminhoneiro. Conhecemo-nos num bar do bairro, cerca de seis meses antes desta minha visita à sua casa. Na ocasião, ele fez questão de pagar-me uma bebida. Conversa vai, conversa vem, soube que eu era gaúcho. Foi o que bastou.
O homem, embora mineiro de nascimento, nutria fascinação, diria fanatismo, pelo meu Estado natal. Até seu sotaque era do Sul. Juraria por todas as juras que era meu conterrâneo. Não era! Depois disso, todas as vezes que viajava para o Rio Grande, ele me trazia um pacote de chimarrão. Eu fazia questão de pagar pela encomenda, apesar dos seus enfáticos protestos. Ocorre que o homem era um exagerado! Eu tinha, em casa, estoque da erva suficiente para pelo menos dez anos! Afinal, no bairro, ninguém mais tomava chimarrão. Os amigos que o experimentaram, detestaram. E para o meu consumo pessoal, um único pacote dava para dois meses ou mais.
Fui surpreendido, na véspera deste episódio, por um convite, feito com a maior cerimônia, pelo meu novo amigo. Ele queria porque queria que eu passasse o Natal com sua família. “É uma casa de pobre, não vai reparar, mas o convite é de coração!”, havia dito, todo cheio de dedos, ansioso para que eu aceitasse. Aceitei, é claro.
Na época, eu morava sozinho. Tinha meus verdes 22 anos, trabalhava numa multinacional francesa de Paulínia, ganhava muito bem e estava me preparando para prestar, em janeiro, vestibular para Medicina. Não podia, pois, me dar o luxo de passar as festas com meus pais, que moravam em São Caetano do Sul. Precisava ralar no estudo. Relutei, fiz-me de difícil, mas finalmente aceitei seu convite. Afinal, nunca fui dado a luxos.
Entrei na modesta habitação, e os sinais de pobreza estavam por toda a parte. O interior estava imaculadamente limpo, é verdade, mas as paredes, com rachaduras em diversos pontos, há anos não viam tinta. O forro, por sua vez, estava negro em alguns pontos, notadamente nos cantos, em decorrência de vazamentos, provavelmente causados por telhas quebradas e não-trocadas. Na sala, onde fui instalado com todo o conforto, havia uma sólida mesa, cadeiras bastante velhas, mas em bom estado de conservação, um aparelho de TV, muito antigo, e uma árvore de Natal, tosca, sem pisca-pisca, que há muito já vira melhores dias.
A ceia foi tranqüila, alegre e sem-cerimônias, de parte a parte. O cardápio era dos mais frugais. Consistia de dois frangos assados, arroz branco, e maionese caseira. Mas nunca, ao que me lembre, comi comida mais gostosa e rica do que essa. A ceia foi aberta com um aperitivo, uma caninha especial, comprada diretamente num alambique caseiro do interior de Minas, que desceu macia e quente. Um vinho de garrafão, adquirido no Rio Grande do Sul, servia de acompanhamento.
Contamos casos e mais casos, histórias sem fim, das nossas respectivas experiências pessoais. E rimos, rimos muito, com espontaneidade e descontração, o tempo todo, mesmo quando não havia motivos para o riso. À certa altura, a pretexto de que precisava estudar para o vestibular (e precisava mesmo), pedi licença para me retirar. Despedi-me com afabilidade e emoção dos donos da casa, agradecido por aqueles momentos ímpares que passei em tão agradável companhia.
Num instante de distração dos anfitriões, num impulso irresistível, puxei da carteira, tirei todo o dinheiro que tinha (que era todo o meu décimo-terceiro, dos mais polpudos) e, sem ninguém perceber, coloquei tudo debaixo de um vaso de vidro, com flores artificiais, que estava sobre a televisão. A importância daria para cobrir o aluguel atrasado e ainda sobrar alguma quirera.
Já fora da casa, olhei para o céu, incrivelmente estrelado daquela noite inusitadamente quente de início de verão. Sentia-me bem como nunca. Segui cantarolando o “White Christmas”, de Irving Berlin, pela rua vazia, rumo à minha residência, tomado de uma gostosa, mas indescritível, emoção, misto de alegria e de nostalgia.
A esta altura, o ar da madrugada estava fresco. Uma suave brisa batia-me no rosto e assanhava meus cabelos. Ao longe, ouvia o sino da Igreja de Santa Isabel, convocando os fiéis para a missa do galo. Subitamente, uma estrela cadente riscou o céu noturno. Seria um presságio? Não sei! Talvez! Só sei que, passados mais de quarenta anos, olhando retrospectivamente todo esse período, hoje tenho absoluta certeza de que aquele foi o melhor dos Natais que já tive em toda a minha vida...

Sunday, December 23, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Existe, de fato, algo que possamos chamar de "espírito de Natal", ou seja, uma suposta predisposição de pensar no próximo, no miserável, no indigente, no solitário ou no sofredor, em contraposição à fartura e à alegria dos privilegiados por ocasião dessa data? Uns mostram otimismo e fé na racionalidade humana (entre os quais me incluo) e certeza de que, um dia, não existirão mais famintos, desabrigados, excluídos ou segregados no mundo. Outros, não escondem seu ceticismo sobre o egoísmo do homem e suas trágicas conseqüências. Mário da Silva Brito destaca, numa crônica: "Pedem-me alegria. Mas como exercê-la sem que pareça uma afronta à infelicidade geral dos homens do mundo?! Só os inconscientes e os desalmados não percebem que a hora é de tristeza”. Não concordo! A hora é, sim, de muita alegria, a despeito de tudo! Temos, contudo, de fazer a nossa parte, para que haja, um dia, um mundo melhor, humano e justo. Feliz Natal a você e a todos os que você ama!!!

O Feijão e o Sonho


Pedro J. Bondaczuk


O livro "O Feijão e o Sonho", de Orígenes Lessa, o mais importante desse escritor, vale já pelo seu próprio título. Simboliza duas espécies diferentes de pessoas: as que vivem com a cabeça nas nuvens, indiferentes às coisas do dia a dia, e as práticas, que mesmo sem perder a prerrogativa de sonhar, conseguem manter os pés bem presos ao chão e se mostram racionais em qualquer circunstância.

O ideal é o indivíduo que reúna, simultaneamente, as duas características. Que sonhe sempre, e muito, compulsivamente até. Mas que não se limite apenas a isto. Que tenha a capacidade de colocar tudo o quanto sonhar em prática, ou pelo menos tentar isso.

O Natal, que se aproxima, é uma festa que assume as duas características. Para uns, é um período de sonhos, principalmente aqueles que os acalentaram na infância. Para outros, é nitidamente a época do feijão. Nesta categoria há os dois extremos: os que comem demais e os que nada têm para comer.

É verdade que este contraste não acontece apenas neste dia. A data simplesmente enfatiza – por ser a do "aniversário" de um Deus, que esteve entre os homens e foi rejeitado por eles, por haver pregado a fórmula que humanizaria a humanidade, a da solidariedade e do altruísmo – estes extremos.

Enquanto dois terços da população mundial não têm o que comer e vivem às voltas com a desnutrição e doenças provenientes da fome, o um terço restante esbanja e desperdiça. Ressalte-se que ambos os grupos são compostos por pessoas absolutamente semelhantes: física, mental e psicologicamente.

Os membros, dos dois lados, são mortais e transitórios. No entanto, uns têm demais, até para jogar fora. Outros...Uns detêm o poder, o dinheiro e a arrogância. Aos outros sobram as frustrações, as privações, a revolta auto-sufocada e a falta de perspectivas.

Neste Natal, enquanto muitos, certamente, terão mesas fartas – e alguns precisarão, como em todos os anos, ser socorridos em prontos-socorros por se excederem na comida e na bebida – milhões não vão ter sequer um pão seco para lhes tapear o estômago.

No Rio de Janeiro, enquanto vivo, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, realizava campanhas para que pelo menos nesse dia nenhuma pessoa passasse fome na cidade. Muitos passavam. Milhares ainda vão passar. Era pouco esse empenho e diminuto o objetivo? Claro que era! Mas era melhor do que nada, convenhamos. Se em toda a parte alguém agisse da mesma maneira, pelo menos no Natal não haveria um único faminto, o que já seria demais. Representaria um dia inteiro sem a vitória do egoísmo e da indiferença sobre a solidariedade.

Aliás, o padre Antônio Vieira tem um sermão magistral a propósito de comer ou não comer intitulado "O fim a que mira o trabalho do homem". O sacerdote constata, nessa brilhante oração: "A maior pensão com que Deus criou o homem é o comer (...) Os pobres dão pelo pão o trabalho, os ricos dão pelo pão a fazenda, os de espírito generoso dão pelo pão a vida, os de espírito baixo dão pelo pão a alma, e nenhum há que não dê pelo pão, e ao pão todo o seu cuidado. Parece-vos que tenho dito muito? Pois ainda não está discorrido tudo. Tirai o pensamento dos homens, e lançai-o por todas as outras coisas do mundo; achareis que todas elas estão servindo a este fim, ou pensão do sustento humano. A este fim nascem as ervas, a este fim crescem as plantas, a este fim florescem as árvores, a este fim produzem e amadurecem os frutos, a este fim trabalham os animais domésticos em casa, a este fim se criam os silvestres nas brenhas, a este fim os do mar e os do rio nadam em suas águas; enfim tudo o que nasce e vive neste mundo, a este fim nasce e vive".

Que tal se neste Natal, pelo menos nele, cada um de nós resolvêssemos fazer nossa campanha particular contra a fome?! Que tal se reuníssemos alguns gêneros alimentícios de primeira necessidade e os doássemos a orfanatos, a creches, a asilos, a famílias carentes que conheçamos etc.! Mas isso teria que ser feito sem propaganda, sem alarde e sem que os beneficiados se sentissem humilhados. Seria a forma ideal de unir o "sonho" (da convivência solidária) ao "feijão" (da subsistência física). Mas há outro tipo de "alimento" que podemos doar, sem que a doação nos custe um único centavo: o do calor humano.

Uma visita às instituições supracitadas, ou a hospitais, para levar compreensão e uma palavra amiga aos que lá estejam internados, teria valor muito maior do que podemos supor. Ou somente para ouvir suas aflições. Que falta muitas vezes nos faz um bom ouvinte! Afinal, como afirmou o norte-americano E. Weilenmann: "Nada no mundo é mais interessante do que o ser humano. E no ser humano o mais interessante é sua vida interior. E na vida interior o mais misterioso é o que se revela nos sonhos".

A ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, foi mais longe e acentuou: "O futuro pertence aos que acreditam na busca daquilo que sonham".

Que o nosso seja o de um mundo justo, onde nunca mais haja os humilhados e os ofendidos. E que façamos tudo o que for necessário para que ele se torne real... A você, meu paciente leitor, desejo, de coração, um abençoado Natal!

Saturday, December 22, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O Natal é, e deve ser, sobretudo, a festa da vida. Recorda o insólito nascimento de um Deus, gerado por uma virgem. Fixa na memória e perpetua através da tradição uma lição de suprema humildade, que atravessou dois milênios, e deve atravessar outros mais, até "o final dos tempos", ao mostrar que o que importa na vida, e que o homem deve buscar de forma incansável, não são glórias, riquezas ou ostentações, mas a conquista de si mesmo. O Natal deve ser um hino em louvor desta magnífica oportunidade que temos de existir, mesmo que por tempo limitado. É época para meditação, mas não de amargas recriminações contra o mundo, ao qual muitos culpam por suas desventuras e incompetência em gerir o próprio destino. A reflexão ideal para a data é a deixada por Theodor Fontane: "Só uma coisa interessa para onde quer que se vá e seja como for que se vá: nós ouvirmos a música da Vida". Ouçamo-la, com atenção e reverência, neste Natal.

Presentes de Natal


Pedro J. Bondaczuk

Rei mago de reino tropical
de luxuriantes florestas, cascatas, flores,
montanhas, vales, praias, rios com jeito de mar,
borboletas, pássaros, micos, onças e araras,
de um tempo rude, no final dos tempos,
segue, diligente, estrela sempre nova
a desafiar dias, meses, séculos, milênios,
na máquina do tempo, em viagem ao passado.

Passos trôpegos, cansado viajante
leva presentes do futuro às priscas eras:
--- celular, Ipod, DVD, um computador
e um coração repleto de esperança –
ao Senhor do Universo, desejado das nações
que se fez homem em corpo de criança.

A estrela gigante, que ponteia no céu
com inusitado brilho que inunda campos de luz
súbito, detém-se. Deve ser engano!
Não aponta para um palácio, de luxo e ostentação,
nem para monumental castelo, de fausto sobre-humano!
A estrela radiosa, visível até de dia,
arauta da glória e poder do rei dos reis,
estacionou sobre humilde estrebaria!

Em rude manjedoura, de palha forrada,
enrolado em tosca manta, tecida de algodão,
dormia o pequenino, de concepção imaculada,
esperança das esperanças de humana redenção.

Tinha o sono velado – suprema humildade! –
por um boi, um burrinho e um carneiro
o Senhor do universo, do cosmo potestade,
das constelações, galáxias, do universal luzeiro.

Contrito, o rei mago de reino tropical,
de um tempo rude, de homens rudes, omissos e ausentes,
humilde e emocionado, com a anuência do casal,
deposita aos pés do infante seus pífios presentes.

(Poema composto em Campinas, em 20 de dezembro de 2007).

Friday, December 21, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O homem, a despeito da sua pequenez, é o marco divisório das unidades máximas de medida de tempo e de espaço, do eterno e do infinito. A mente humana, por mais que nos esforcemos, não consegue apreender a noção da eternidade e da infinitude. Por que? Porque somos minúsculos em demasia e, sobretudo, perecíveis. Conceitos, como estes, do eterno e do infinito, não cabem, portanto, em nossas limitadas e mortais mentes. Fernando Pessoa expressou isso, de forma metafórica, quando escreveu: “Entre o sono e o sonho, entre mim e o que em mim é o que eu me suponho, corre um rio sem fim”. Ou seja, entre o que sonhamos e o que vivemos, entre o que de fato somos e o que supomos ser, estão o infinito e o eterno. Daí a impossibilidade de nos conhecermos e, acima de tudo, de conhecermos de fato os que nos rodeiam. Temos, apenas, pálidas noções a nosso próprio respeito e dos que nos cercam e/ou conosco convivem, nada mais.

Instinto e razão


Pedro J. Bondaczuk


O homem é uma soma de instinto – que o caracteriza como animal – e razão, que o distingue das demais criaturas, faz com que prepondere sobre elas e se assenhore do Planeta. Ao contrário do que alguns apregoam, ambos lhe são indispensáveis e vitais. Há reações instintivas das quais não podemos prescindir, como as destinadas à preservação da nossa vida (medo, fome, sede, etc.), a que objetiva a perpetuação da espécie e outras tantas que são desnecessárias de citar. São automáticas. Funcionam sem que precisem ser acionadas.

O que se requer é equilíbrio, harmonia, ordem entre os dois fatores. E a racionalidade deve preponderar sobre instintos que se tenham tornado dispensáveis e que precisem ser dominados. Quanto maior for a capacidade do indivíduo de dominá-los, mais racional, e por conseqüência civilizado, ele será.

E. L. Thorndike, em seu livro "A Natureza Original do Homem", afirma: "Por instinto nós tememos, não os transmissores da malária ou febre amarela, mas o trovão e o escuro; não lamentamos os homens bem dotados que não recebem educação, mas a chaga saniosa do mendigo; uma grande injustiça nos impressiona menos que um pouco de sangue; sofremos mais com o olhar de desprezo dum garçom que não recebe gorjeta do que com a nossa própria indolência, ignorância ou loucura". Estes são apenas alguns exemplos do quanto a razão se faz necessária, para que tenhamos discernimento para julgar e agir em cada situação.

O filósofo norte-americano Will Durant reflete: "O instinto talvez nos tenha bastado no primitivo estágio de caçadores; é por isso que nossos impulsos naturais nos levam mais à caça do que ao trabalho da terra, e periodicamente sonhamos com o 'retorno à natureza'. Mas desde que a civilização começou, o instinto se faz inadequado e a vida teve que pedir socorro à razão". Não fosse a racionalidade, e o homem talvez já houvesse desaparecido do Planeta. Em termos de força física, é muito inferior a inúmeras espécies de animais, os quais domina pela sua inteligência, que o leva a fabricar armas que o tornam poderoso e com as quais as supera. Além disso, criou leis e códigos morais que impedem que os mais fortes do próprio gênero humano, escravizem, dominem ou eliminem seus semelhantes mais fracos.

Para chegar a esse estágio, gerações e mais gerações juntaram experiências e deram sua contribuição ao direito e à ética. A atividade humana onde mais conflitam instinto e razão é a religião. Instintivamente, por medo, recorremos sempre a um ser superior, de grande poder, que nos proteja de fenômenos que não compreendemos e que nos "ameaçam". O desconhecido sempre atemoriza. Nas religiões mais primitivas, as divindades (são múltiplas) são iracundas, eróticas, vingativas, com as piores características humanas e que se impõem pela força e pelo castigo.

Só indivíduos com a racionalidade desenvolvida entendem que essa sabedoria universal, que criou e rege com leis simples e imutáveis galáxias, estrelas, planetas e tudo o que há (vivente ou não); que fez a matéria e a energia e que mantém tudo funcionando com a precisão de um relógio, é construtiva, positiva, paternal e protetora. É amor e não rancor. É razão e não instinto. Não requer de nós sacrifícios ou pavores.

Albert Einstein, em um de seus livros, observou: "Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, tanto mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, nem pela fé cega, mas pelo esforço por atingir o conhecimento racional. Neste sentido, creio que o sacerdote tem que se tornar professor, se deseja fazer jus à sua sublime missão educativa". O que não se pode é explorar as angústias e a falta de luz de mentes simples para manipular essa gente primitiva.

Quanto mais racionalidade houver na crença religiosa – desprovida de lendas, ídolos e ritos – mais próximos estaremos do Deus verdadeiro, fonte de onde emana a sabedoria, a ciência e a vida, do qual somos a imagem e semelhança. A razão tem avanços e retrocessos, dependendo de como cada geração é educada pela que a precedeu. Alois Gita observa: "Há um processo vital no universo, no mundo, no planeta, nos continentes, nas culturas, nos povos, nas tribos humanas, que se movimenta e enfraquece, que ganha força e atinge seu máximo, para declinar e renascer uma vez mais, infinitamente". A racionalidade também tem esses ciclos. Mas é preciso que nunca decline ao ponto de ser ofuscada pelos instintos. Seria o fim desta ainda precária civilização...

Thursday, December 20, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A marca dos vencedores, dos que, ao cabo de muitos anos de vida, podem olhar para trás e se regozijar com o que fizeram, não é a força, a sabedoria ou mesmo o talento. É a persistência. É claro que a energia, o conhecimento e a aptidão são importantes, mas não são determinantes para a vitória. Quando tivermos convicção de estarmos no caminho certo, não devemos nunca desistir, por maiores e aparentemente intransponíveis que forem os obstáculos. Devemos tentar, tentar e tentar, sempre e incansavelmente. Se Graham Bell, por exemplo, tivesse desistido, após suas primeiras e malogradas experiências científicas, não teríamos, hoje, o telefone. Outras tantas criações foram realizadas porque seus inventores tiveram a determinação de persistir. O reverendo Norman Vincent Peale disse a respeito, num de seus inspirados sermões: “O covarde nunca tenta, o fracassado nunca termina e o vencedor nunca desiste”. Pense nisso.

Potencial de criatividade


Pedro J. Bondaczuk


A palavra é o mais miraculoso engenho que o cérebro humano engendrou para a comunicação com os semelhantes. E a criatividade do único animal racional da natureza extrapolou todos limites ao criar não apenas dez, ou mil, delas, mas bilhões, em centenas de idiomas.
A palavra escrita, então, é o máximo de criatividade e fundamento de toda a evolução humana. Através dela, é possível preservar, indefinidamente, o que cérebros privilegiados pensaram e criaram, geração após geração, como herança dos antepassados à qual os homens de hoje acrescentam sua contribuição para os do futuro. E, apesar de tudo isso, as palavras são tão pobres para definir e descrever alguns pensamentos e sentimentos, como amor, amizade, saudade etc.!
O que é dito ou escrito, todavia, reflete fielmente o que somos. Isto fica evidente à mais ligeira análise do que se disse ou escreveu. Se não formos sábios, por exemplo, de nada vai adiantar o uso de palavreado erudito para revelar suposta sabedoria. Nas entrelinhas, ficará evidente a artificialidade dessas palavras. O mesmo vale para a bondade, a fidelidade, a constância e demais virtudes.
Se não formos otimistas e positivos, será inútil dizer ou escrever palavras de otimismo e positividade, porquanto elas irão soar falsas e vazias. Em vez de nos limitarmos a melhorar nosso linguajar, portanto, o mais sábio e honesto é melhorarmos o que somos. É acumularmos, preservarmos e difundirmos valores testados e comprovados pelo tempo e que se tornaram perpétuos.
Há pessoas que têm potencial imenso de criatividade, mas o desperdiçam por falta de disciplina, método e comprometimento com o que quer que seja. Acham que lhes basta mera “inspiração” para inventarem máquinas, princípios, ideologias ou, até, para comporem simples poema. Estão equivocadas.
A capacidade de criar só pode ser plenamente desenvolvida com disciplina, concentração, estudo e trabalho. Requer, além disso, meticuloso planejamento e rigor na execução do que foi planejado. Para realizarmos obras de valor, sejam de que natureza e dimensão forem, temos que aliar à técnica, à competência e ao raciocínio imensa dose de paixão, no sentido mais elevado do termo.
Precisamos colocar nossa “alma” no empreendimento, quer se trate de elaborar um objeto, quer seja para compor um poema, criar uma filosofia ou instruir uma criança. O poeta Paulo Mendes Campos escreveu, numa de suas crônicas: “O dom do raciocínio quando misturado à dádiva da paixão faz com que as criaturas ponham fogo pelos olhos, como se uma coisa fizesse a outra arder indefinidamente. Lógica e paixão fazem um incêndio na alma. Pascal também devia botar fogo pelos olhos. E Spinoza”.
Eu acrescentaria tantos outros grandes homens, que contribuíram para a evolução da sociedade e o progresso da civilização. Temos que “botar fogo pelos olhos” na execução de nossas tarefas, aliando, sempre, competência à paixão pelo que fazemos!
Nada no ser humano é mais nobre e maior do que a razão. Nada se compara à sua capacidade de raciocinar, de analisar e entender tudo e todos que o cercam e de criar, com a simples força do pensamento, o abstrato, ou seja, o que não existe. Não fora sua racionalidade, e esse animal, fatalmente, já teria desaparecido da Terra.
Sua força física, por exemplo, é muito inferior à de tantas feras, como o tigre. Sua audição nem de longe se aproxima da do morcego. Sua visão é ínfima perto da do lince ou da águia. Mas graças ao raciocínio, este ser, complexo e maravilhoso, e ao mesmo tempo tão terrível e cruel, é o único que tem a capacidade de pensar, de criar, de transformar o ambiente em que vive e de dominar todos os outros animais.
Não me canso de admirar o poder do cérebro humano. Criado como um dos animais mais frágeis da natureza, em termos de força e aptidão dos sentidos, o homem adaptou-se ao mundo hostil em que vive e, mediante a consciência e o raciocínio, operou maravilhas.
Aprendeu a fazer fogo, construiu moradias confortáveis e seguras, inventou a roda, domesticou animais e vegetais que pôs ao seu serviço, criou cidades, Estados, impérios e civilizações. Sondou o íntimo da natureza e colocou a seu serviço forças fenomenais. Foi ao âmago da matéria e descobriu o átomo. Desvendou o segredo da vida. Aprendeu a se locomover com rapidez e conforto e até a voar.
Não conseguiu, todavia, inventar uma fórmula de como viver com alegria, justiça e sabedoria. Afinal isso só se aprende vivendo. Quem sabe aprenda no correr das gerações! Jean-Paul Sartre constatou, a propósito: “Tudo já foi descoberto, exceto como viver”. E não está certo? Há, pois, ainda muito, muitíssimo potencial de criatividade a ser desenvolvido.

Wednesday, December 19, 2007

REFLEXÃO DO DIA


O amor tem que ser vivido, sempre, no superlativo. Quanto mais intenso for, maior devemos tentar fazer com que se torne. Para ele não há e nem pode haver limites. Os poetas criaram, até, estranha metáfora para expressar o absolutismo desse maiúsculo sentimento: morrer de amor. A rigor, convenhamos, ninguém morre dessa causa, claro. E se morresse... seria morte gloriosa. Morre-se, é verdade, de amor não-correspondido, o que é outra coisa. Esse, sim, é um sofrimento que não desejo nem para o pior inimigo. Mas quando há correspondência! Ah!, os amantes conseguem a façanha de transportar o céu para a terra. As pedras e espinhos não lhes ferem os pés, frio e calor não os incomodam e um vê a vida (como incrível magia) nos olhos do outro. É um delírio! Mário Quintana expressa, em magnífico poema, a ventura de se amar e ser amado, ao exclamar: “Tão bom morrer de amor e continuar vivendo!” Não conheço felicidade maior.

Domínio da razão


Pedro J. Bondaczuk


O acúmulo de conhecimentos e informações, ou seja, o mero saber, não implica, necessariamente, em sabedoria. Esta caracteriza-se, entre outras coisas, pelo uso que fazemos desse acervo de dados, acumulado desde os primórdios da civilização, e que é o patrimônio comum de toda a humanidade. O sábio é o que multiplica esse conhecimento e o utiliza de forma a enriquecer a espécie.
Conheço pessoas que sequer sabem ler, mas que são fontes inesgotáveis de bom-senso e de sabedoria. Em contrapartida, sei de inúmeros doutores, com uma infinidade de diplomas, que são arrogantes e obtusos e não enxergam um palmo à frente do nariz no que diz respeito à ciência do bem-viver.
As boas idéias, aquelas que são embriões das grandes obras e que, não raro, até revolucionam o mundo, surgem de repente, quando menos esperamos, como que por acaso. Devemos estar atentos, e, sobretudo, preparados, para não deixar escapar essas preciosas oportunidades, que raramente voltam a aparecer.
Alguns, chamam esses momentos especiais de “inspirações”, que de nada valem, frise-se, se não vierem acompanhados de ações, de esforços, de atos concretos e competentes. Ou seja, de “transpiração”. Somos condicionados, desde crianças, a sermos competitivos, como se a vida fosse um jogo. Não é!
Não raro, testamos nossos limites e tentamos ir além deles, para superar supostos competidores. Colocamos à nossa frente objetivos que, quase sempre, são inalcançáveis, e nos frustramos quando não os atingimos. Queremos ser mais, ter mais, fazer mais do que os outros, quando a vida não é isso. Precisamos é conhecer e desenvolver nossas capacidades e viver, sem nos preocuparmos se o vizinho conquistou ou não mais coisas do que nós.
Todos temos, em determinados momentos de nossas vidas, com intensidades variáveis, “lampejos” de sabedoria. Contudo, por negligência, falta de autoconfiança e/ou até mesmo distração, perdemos a oportunidade de nos tornarmos verdadeiramente sábios e de compartilharmos essa desejável condição com o mundo.
Não raro achamos que o conhecimento das coisas e das pessoas vem sempre completo, acabado, prontinho para ser usufruído. Engano! Compete-nos expandi-los, aperfeiçoá-los, burilá-los, dar-lhes a nossa indispensável contribuição, com a marca da nossa personalidade. Esse detalhamento é o que nos compete fazer, mediante muito estudo, meditação, observação e autodisciplina. O resultado desse esforço, porém, é mais do que compensador.
Há uma lenda, muito antiga, que diz que os primeiros seres humanos tinham asas, a exemplo dos anjos, dos quais seriam uma subespécie. Podiam voar livremente, no céu azul, como os pássaros, cortando, ágeis e graciosos, o espaço. Todavia, ao se corromperem, sofreram profunda metamorfose e se transformaram nos pobres e rústicos bípedes, que hoje são.
No entanto, contamos, ainda, com um instrumento muito mais ágil e perfeito do que as asas primitivas que, supostamente, perdemos. É ele que nos permite nos transportar, em frações de infinitésimos de segundos, para outros mundos, constelações e galáxias, aos confins do universo, onde instrumento humano algum jamais alcançou. E qual é esse miraculoso meio? Claro, é a imaginação!
Temos o poder, através dela, de criar novos mundos, para nós e para os que nos cercam, na impossibilidade de modificar o que aí está. Mas, para que isso valha a pena, é indispensável que sejamos (e que nos sintamos) felizes. Caso contrário, só conseguiremos criar “infernos” de ressentimentos, desesperança, angústias e dores (reais e/ou imaginárias).
A principal característica de quem é dotado de verdadeira grandeza não é, como muitos (erroneamente) pensam, a arrogância, a prepotência e a soberba. É a humildade. É o conhecimento das próprias limitações. É a correta avaliação do real alcance de suas capacidades, sem sobreestimá-las e nem subestimá-las. É o profundo e irrestrito respeito pelos carentes, pelos fracos e pelos néscios, consciente que se tem muito o que aprender com eles. É respeitar idéias e opiniões alheias, sem abrir mão das próprias convicções. É nunca se achar “iluminado”, mesmo que o seja. É compartilhar experiências e conhecimentos com todos os que estiverem dispostos a essa partilha. Ser “grande”, portanto, significa ser íntegro, ser solidário e, sobretudo, saber respeitar todo e qualquer semelhante, sem preconceitos e discriminações.
Entendemos o conceito de “civilização” a partir de pressupostos equivocados. Consideramos “civilizados” os que têm acesso a uma boa moradia (com toda a parafernália que a vida moderna proporciona), a um carro potente e de preferência do ano, a uma boa universidade, às informações fartas e múltiplas etc.
Mesmo que não digamos, somos tentados a achar que quem não conta com essas facilidades é bárbaro, inculto e vive na “idade da pedra lascada”. Mas os verdadeiros princípios de civilização não estão ligados a bens e/ou facilidades materiais. São o respeito irrestrito ao próximo, a solidariedade, a justiça e a bondade, entre outras virtudes.
Não foi sem razão, pois, que o escultor francês Auguste Rodin, criador da célebre escultura “O Pensador”, constatou: “A civilização não é, em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava”. Pelo menos esta, que aí está, é (infelizmente) apenas isso e nada mais. Nosso grande desafio é o de mudar esse simulacro de civilização. Que tal tentar? Quem se habilita?

Tuesday, December 18, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Há pessoas que quando chegam à velhice, olham para trás, com nostalgia e frustração, e constatam que tudo o que sonharam ou fizeram se perdeu. Suas obras, sonhos e realizações tornaram-se cinzas, ou, pelo menos, é o que acham que aconteceu. Não é a atitude mais correta e mais sensata a se tomar, pois ela só traz sofrimentos e mágoas. Defendo que a vida deva ser vivida até o último segundo e com intensidade e interesse. As revisões são inúteis e devem caber às gerações vindouras. Se o que fizemos foi, de fato, consistente, permanecerá para sempre. Se nossas obras não tiverem consistência, ainda teremos oportunidade, até o derradeiro sopro de vida, de corrigi-las, melhorá-las ou até substituí-las. Mas o que importa é a intensidade com que se viveu. Nada mais tem qualquer importância, mesmo que relutemos em admitir. Mário Quintana indaga, a propósito: “Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?”

Religação fundamental


Pedro J. Bondaczuk


O homem, por menor que seja a sua posição social e por mais ínfima que seja a sua condição material, faz parte de um todo grandioso. Integra uma unidade tão grande, que suas dimensões são inconcebíveis para a mente humana: o universo. Os cientistas especulam a respeito. Criam teorias sobre a origem universal. Arriscam-se a previsões acerca do fim desse conjunto descomunal. Tentam, até, definir o seu tamanho. Claro que tudo não passa de mero exercício especulativo. Certeza ninguém tem de nada e nunca poderá ter, dadas as limitações humanas.

Cada homem, e por extensão, cada ser vivente, animal ou vegetal (e quem sabe até mineral, que talvez se constitua em uma forma peculiar de vida) ‚ como se fosse uma célula de um enorme organismo vivo: a Terra. E de fato é. Integra-se num todo, tem sua finalidade e função e é importante para o conjunto. Daí o egoísmo ser, antes de tudo, enorme tolice.

Deus seria a soma de tudo isso. A somatória dos universos (pois é provável que existam inúmeros). Estaria em todos os lugares simultaneamente e em nenhum especificamente. Marcaria presença em tudo e todos. Religião, como a própria palavra sugere (vem de "religare", religar, tornar a juntar), é o retorno, pelo menos espiritual, à origem divina. É a aquisição da consciência da nossa existência e da finalidade do existir.

Daí ser rematada tolice a existência dessa infinidade de seitas. A religação com a divindade é uma só, embora por infinitos caminhos. Cada qual sente essa necessidade (alguns renegam-na) à sua maneira, de conformidade com seu estágio mental. Uns fazem-no de forma evoluída, madura, racional, identificando Deus em cada célula do seu organismo. Outros, precisam de projeções, de estátuas, de ídolos, de visualizações. Quem está certo? Quem está errado? Erra apenas quem não faz qualquer tentativa para se religar.

O escritor Aldous Huxley, em seu livro "Contraponto", ajuda a esclarecer a questão ao escrever: "Deus está em nós, naturalmente, como está em muitos lugares. Mas ele está em nós no mesmo sentido que um pedaço de pão está em nós quando o comemos. Deus está no nosso corpo mesmo, no nosso sangue e nos nossos intestinos, no nosso coração, na nossa pele, nos nossos rins. Deus é a resultante total, espiritual e física, de todo pensamento, de toda ação que signifique vida, de toda relação vital com o mundo".

Monday, December 17, 2007

REFLEXÃO DO DIA


É rematada tolice tentar reproduzir no presente fatos e situações do passado. Na verdade, é atitude inútil, por ser impossível. A vida é dinâmica e altera, a todo o instante, cenários, personagens e circunstâncias. Ademais, temos a oportunidade de construir novas alegrias, até maiores do que as vividas em tempos remotos e de obter vitórias mais saborosas do que as obtidas no passado.. Basta que se saiba aproveitar (isto sim) a experiência adquirida com o que se viveu, que se corrijam os erros que levaram a tropeços e que se aproveitem as oportunidades (se elas voltarem a aparecer) desperdiçadas. Cada dia da nossa vida é uma página em branco, que temos a oportunidade e a obrigação de preencher. Ela não comporta reprises. Requer sabedoria, bom-senso e coragem para superar as limitações físicas impostas pelo tempo. No mais... Mário de Andrade adverte a propósito: “O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir”.

Indivíduo e sociedade


Pedro J. Bondaczuk


O ser humano, individualmente, é um dos animais mais frágeis e desprotegidos, no aspecto físico, entre todos os que existem na natureza. Conta, é verdade, com instintos básicos, de preservação da vida, de perpetuação da espécie e outros tantos, que se desenvolvem, todavia, apenas com um par de anos após seu nascimento. Todos precisamos de alguém, por algum motivo, em todos os estágios da nossa vida, para sobrevivermos.
Nossos sentidos são muito mais frágeis do que os da maioria (para não dizer, totalidade) dos animais. Um cavalo, um bezerro, um leão etc., por exemplo, conseguem ficar de pé, por seus próprios meios, alguns minutos após o nascimento. E dão os primeiros passos logo a seguir, acompanhando a mãe. E nós?
Um bebê precisa de cerca de dois meses somente para se virar de lado, por seus próprios meios, no berço. E assim mesmo é preciso que se fique atento para impedir que ele sufoque. Senta-se aos quatro ou cinco meses e, só a partir daí, começa a engatinhar. Dá os primeiros e vacilantes passos, com o amparo dos pais, entre dez meses e um ano. Se nesse período fosse deixado sozinho, por sua conta e risco... certamente não sobreviveria.
Precisa ser ensinado de tudo, desde comer, a falar; desde como se livrar dos pequenos e grandes perigos, até sobre noções elementares, como o próximo, a família, a escola, a sociedade e o País. É um processo lento, vagaroso, de longo prazo, que exige completa atenção, paciência e amparo dos pais. Portanto, tem dependência absoluta de semelhantes que já se tenham desenvolvido.
Mesmo depois de adulto, o ser humano dificilmente sobreviveria sem a companhia de outros indivíduos da espécie. Precisa, pois, associar-se, pois ninguém é dotado de todos os talentos, de todas as habilidades e de todas as potencialidades que garantam a satisfação de suas necessidades (materiais e espirituais) e, por extensão, sua sobrevivência.
Em qualquer aspecto que se encare, quer físico, quer psicológico, quer emocional, pessoa algum sobreviveria se tivesse que se virar sozinha, só, por sua conta e risco. Santo Tomás de Aquino enquadrou os solitários (e ninguém o é por completo, frise-se) em três categorias: “excellentia naturae”, “corruptio naturae” e “mala fortuna”.
No primeiro caso, estariam os que optam livremente por um retiro, pelo isolamento, pelo afastamento da sociedade para meditação, livrando-se dos desejos materiais para se dedicar às coisas do espírito. Os segundos, seriam aqueles indivíduos tão corrompidos e daninhos, que precisariam ser banidos, para não ameaçar e nem prejudicar os outros. E os terceiros, seriam frutos da má sorte, com capacidade insuficiente para conquistar seu espaço no contexto social e que cairiam na indigência e, por isso, optariam (ou seriam forçados pelas circunstâncias) pelo isolamento.
A vida em sociedade, no entanto (e pensamos numa que seja ideal, justa e solidária, e não na real, nesta que aí está), inibe, quando não sufoca, a individualidade. Os interesses coletivos, que teoricamente ganham prevalência, não raro se chocam com os individuais. Apesar dos grupos haverem instituído regras, preceitos e leis reguladoras, a tão apregoada (e pouco praticada) igualdade de direitos e deveres, constante em todas as Constituições do mundo, é meramente retórica e há muito não passa de utopia.
Somos frutos da educação que recebemos, cujas diretrizes são determinadas pelos detentores do poder. Infelizmente, quer no lar, quer na escola, quer na sociedade, não somos educados para desenvolver e exercer plenamente nossas potencialidades, físicas, mentais e espirituais, mas meramente “adestrados” para determinadas tarefas que uma entidade abstrata, chamada Estado, nos determina.
Mesmo que não venhamos a nos dar conta, somos despersonalizados. Poucos se importam com nossas sensações e emoções pessoais, com nossas carências ou necessidades, e muito menos se sentimos fome, sede, dor, saudade, alegria, tristezas, iras etc. Somos tratados como ferramentas utilitárias de produção de bens e serviços, que podem ser descartadas a qualquer momento, tão logo percam a utilidade ou reduzam a produtividade ou quando os poderosos de plantão assim decidam.
Adam Smith alertou, no livro “A Riqueza das Nações”, que “nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a grande maioria de seus membros for pobre ou miserável”. Poucas, todavia, pouquíssimas (diria, nenhuma), atingem esse grau de excelência. E mesmo as que conseguem se aproximar desse estágio ideal, contam com imensos contingentes de miseráveis, sem lugar para morar, sem roupa adequada para se aquecer, sem alimentos fartos e nutritivos para assegurar a saúde e a força etc.
Embora informalmente, os homens se dividem em castas. Há uma minoria que nada faz e tudo tem, em detrimento de uma imensa maioria, que tudo produz e, contudo, tem que se contentar com meras migalhas do produto do seu trabalho. Impera, na verdade, no mundo, a lei da selva, a do mais forte (e não necessariamente no aspecto físico).
Teoricamente, ao nascermos, todos firmamos um pacto tácito, tendo por procuradores os nossos pais, em que abrimos mão de parcela de nossos direitos individuais, em favor do coletivo. Na teoria isso até que soa bem. Mas na prática...Funciona? Claro que não!
Urge, caso se queira, de fato, fazer justiça (e esse suposto desejo, por enquanto, se limita só a palavras) que a maioria dos pretensos “sócios” (todos nós, sem exceção e nem distinção de sexo, raça, religião, posição social ou crença política) seja, de fato e de direito, integrada à “sociedade”, e tratada como tal, conquistando cidadania plena, pois este é o único caminho real para o desenvolvimento e até para a sobrevivência do que se convencionou chamar de civilização. Pôr isso em prática, todavia, é que são elas. Será que um dia o homem conseguirá?

Sunday, December 16, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Há quem se aferra a determinadas convicções, advindas de leituras apressadas e mal-digeridas, transformadas em dogmas. Seus pensamentos, é mister admitir, são ordenados e até coerentes. Quem age assim não aceita nada que os possa, eventualmente, desorganizar. Finda por se tornar fanático, mesmo que não perceba. Nunca admite esse fanatismo, que o cega e impede que se aproxime da verdade, interdita ao homem, mas que, ainda assim, deve ser buscada incansavelmente. E essas pessoas ainda passam por sábias. Não são. O verdadeiro sábio é o que tudo analisa e tudo questiona, mediante o saudável (quando bem-utilizado) instrumento da dúvida. Sua única idéia inquestionável é a da existência e transcendência de Deus. No mais... tudo lhe é questionável, discutível e passivo de ser posto à prova. Os dogmáticos são avessos à reflexão. Afinal, como Edmond Rostand constata: “Refletir é desarrumar os pensamentos”.

DIRETO DO ARQUIVO


Guerra civil distante do final


Pedro J. Bondaczuk


A guerra civil afegã parece ser desses conflitos que não têm mais fim, como a do Líbano, a de El Salvador, a de Angola, a do Camboja e tantas outras que opõem irmãos contra irmãos. Aliás, em todos estes casos, de uma forma ou de outra, há interferências estrangeiras, mais especificamente das superpotências, apoiando facções contrárias. Em nenhum deles há uma exceção. E esse é o maior obstáculo para a paz.
No Afeganistão, enquanto os soviéticos interferiram diretamente, invadindo o país, os norte-americanos buscam garantir recursos para que a guerrilha não se entregue, continue resistindo e não dê tréguas aos invasores. Se a conciliação nacional já estava muito difícil (quase impossível) até agora, ela se tornou muito mais remota a partir de um fato novo, ocorrido durante este fim de semana: a renúncia do governo títere de Babrak Karmal, que argumentou razões de saúde para se afastar do cargo.
Em seu lugar, os soviéticos impuseram um militar, de linha duríssima, desses que não admitem nenhuma espécie de acordo com a guerrilha a não ser a rendição completa e incondicional como o seu novo testa-de-ferro. No Afeganistão, antes da invasão das tropas soviéticas, o regime marxista, imposto por Hafizullah Amin, já vinha enfrentando sérias resistências. Vários grupos rebeldes, por razões as mais diversas, combatiam nas escarpadas montanhas e vales quase inacessíveis do país, que eles conhecem tão bem.
Alguns desejavam o retorno da monarquia, outros lutavam para impor um regime semelhante ao posteriormente implantado no Irã (antes do aiatolá Ruhollah Khomeini retornar do seu exílio em Paris e do xá Mohammed Rheza Pahlevi abandonar o território iraniano) e assim por diante. Portanto, é incorreto afirmar-se que a guerra civil afegã começou especificamente com a invasão das tropas soviéticas. O que este ato de força conseguiu foi unir, até certo ponto, grupos heterogêneos, para uma tarefa patriótica comum, qual seja, a expulsão do invasor de sua pátria.
Foi nesse ambiente de turbulência que o novo homem-forte do Afeganistão construiu toda a sua carreira. Jovem, fanático pela causa marxista e implacável com os adversários, é um opositor magnífico e temível para os rebeldes. Como ex-chefe da polícia secreta, conhece praticamente todos os refúgios de seus adversários e, quem sabe, dispõe, até mesmo, dos meios para chegar a eles. Por outro lado, a unificação da guerrilha é fato relativamente recente.
Até 1982, cada facção lutava por sua própria conta e risco, com dispersão total de forças e sem nenhum objetivo político definido, a não ser expulsar os soviéticos. Há somente quatro anos foi criada a União Islâmica dos Combatentes do Afeganistão, liderada por Mohammed Abdulrah Rassul Sayaf, unificando todos os grupos. Entretanto, essa unidade foi apenas formal.
Os guerrilheiros do Vale de Panshir, possivelmente aqueles que foram submetidos aos piores assédios do inimigo, que obtiveram os mais expressivos triunfos sobre as experientes tropas da União Soviética (compostas, em sua maioria, por asiáticos, conhecedores, portanto, da psicologia e dos pontos fracos de seus adversários), e que por isso são os mais preparados para a luta, respondem somente ao comando de Ahmed Shah Mahsud. Embora os círculos que apoiam os rebeldes tentem negar, a personalidade forte desses dois comandantes tem causado freqüentes desentendimentos. Comenta-se, até mesmo, que ambos teriam rompido o pacto.
Provavelmente, fiando-se nesse divisionismo, os russos devem ter antevisto a possibilidade de uma vitória completa nesse conflito. E por essa razão, e não pelos apregoados problemas de saúde de Babrak Karmal, devem tê-lo substituído pelo intransigente Mohammed Najibullah. A emenda, porém, pode sair pior do que o soneto.
Quem conhece a conformação geográfica do Afeganistão e a combatividade do seu povo, sabe que uma vitória militar completa de qualquer das partes não passa de utopia. E para a infelicidade dessa pobre gente, que um dia dispôs de uma das nações mais carentes e desamparadas do Planeta, e que hoje nem isso possui, ao menos temporariamente, as portas da negociação foram trancadas de vez. E o banho de sangue deverá continuar, só Deus sabe até quando.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 6 de maio de 1986)

Saturday, December 15, 2007

REFLEXÃO DO DIA


A capacidade de amar sem limites ou restrições é a maior virtude deste animal contraditório, semi-deus e semi-fera, que é o homem. É seu grande distintivo de humanidade. Quem não ama, não vislumbra perspectivas na vida. E, mesmo sem se dar conta, é movido, apenas, por instintos (alguns bastante danosos), o que, não raro, o torna indiferente, cruel e violento. Não tem o que perder e, por isso, torna-se desesperado, agressivo e perigoso. Roque Schneider nos lembra: “O amor é a melhor música na partitura da vida. Sem ele você será um eterno desafinado no imenso coral da humanidade”. Convenhamos, há imensa cacofonia de ruídos desagradáveis, que mais lembram urros, dos milhões que, por uma razão ou outra, não amam no mundo. Daí tamanha desafinação e desarmonia do vasto coral da humanidade. Do que a Terra precisa, pois, não é de ciência, tecnologia, raciocínio ou ideologia. Carece é de uma generalizada revolução de amor.

Mansão da saudade


Pedro J. Bondaczuk


Estou cansado. Estou com sono.
Alma sofredora, envelhecida.
Mansão decadente e em ruínas
numa rua deserta, escondida.
É a moradia da Saudade,
da derradeira ilusão perdida.

Há teias de aranha em cada canto,
morcegos pendurados no forro:
abandono...decadência...espanto.
Sinistras, ao embalo do vento,
as venezianas, soltas, se chocam,
ruidosas, num compasso agourento.
O chão está coberto de pó,
há muito mofo por toda a parte,
as paredes estão de dar dó,
ruindo, descascadas, sem arte.
Tudo ao derredor é abandono,
é a decadência duma vida,
a minha alma está envelhecida.
Estou cansado. Estou com sono.

Na sala, cobertos de poeira,
quadros valiosos, bizarros,
revestem uma parede inteira.
São estradas, pessoas e carros,
verdes campinas da minha terra,
paisagens encantadas, bucólicas
dos ipês que colorem a serra.
Tudo ao derredor é abandono,
é a decadência duma vida,
a minha alma está envelhecida.
Estou cansado. Estou com sono.

Muito cansado...com muito sono...
Mansão abandonada, em ruínas,
casa cinzenta, morta, sem dono.
Até os fantasmas já se foram
desse decrépito casarão
que, certamente, por puro hábito,
ainda chamo de coração.
Estou cansado. Estou com sono.
Tudo é pó...é ruína...abandono...

(Poema composto em Campinas, em 18 de março de 1968).

Friday, December 14, 2007

REFLEXÃO DO DIA


Entre os pensamentos, sentimentos e emoções que temos e sua expressão há um abismo tão grande quanto o diâmetro da Via Láctea. Palavras são frágeis, fragílimas, precárias para expressar a grandeza e a intensidade do que pensamos e sentimos. Atos, nesses casos, são mais eficazes, mas dependem de interpretações alheias, que quase nunca são corretas e justas. Há pessoas que têm o dom da palavra e conseguem manifestar, posto que de forma tosca, pálidos “reflexos” do que sentem e pensam. A maioria, porém, frustra-se diante da impotência de se exprimir de forma inteligível e sem ambigüidades. Estou, pois, em situação idêntica à de Fernando Pessoa, quando escreveu: “Tenho pensamentos que, pudesse eu trazê-los à luz e dar-lhes vida, emprestariam nova leveza às estrelas, nova beleza ao mundo, e maior amor no coração dos homens”. Continuarei, claro, tentando exprimi-los. Isto mesmo forçado a admitir minha incapacidade de atingir e devassar os corações.

Individualismo e razão


Pedro J. Bondaczuk


O valor do ser humano não está em sua força, em sua riqueza, em seu ridículo e limitado poder ou na eventual beleza física que possua, embora sejam estas as suas características mais enfatizadas. Tudo isso é ilusório, passageiro, efêmero, como ele próprio o é.

O que somos, enquanto indivíduos, diante da imensidão universal? Um nada, de ínfimo tamanho, menos, até, do que uma simples célula é em relação ao conjunto do nosso organismo. A observação do último eclipse solar deste milênio a ser visível no País – o próximo vai poder ser visto por aqui apenas em 2046 – suscita uma série de reflexões sobre este mistério que é o universo, e a pequenez do homem, este poço de arrogância e de inconseqüência, que sequer se dá conta da sua finitude. O ser humano apenas adquire grandeza quando empresta à sua vida um sentido altruísta, comunitário, de solidariedade e de integração.

Todavia, há uma característica, passiva de cultivo, que permitiu que o “homo sapiens” deixasse as cavernas, aprendesse a domar a natureza a seu favor (criando a agricultura, por exemplo), adquirisse noção do local em que vive, se aventurasse a entender e explicar a imensidão do cosmos, com sua multiplicidade de mundos e tentasse ampliar seu raio de ação: a razão.

Dela derivaram a ética, as ciências, o senso estético e o direito, entre outros. Este foi o seu grande salto qualitativo, enquanto espécie, em relação aos demais animais. É o que merece ser cultivado e transmitido, geração após geração, numa corrente contínua e sem fim, da qual cada um de nós, enquanto indivíduos, não somos mais do que simples elos.

A corrida desesperada e insensata por bens materiais – que se convencionou chamar de “riqueza” – ou pelo “poder”, que nada pode, já que é incapaz de nos livrar da morte, não resiste à mais simples análise. Trata-se de enorme perda de tempo e de energia.

Desvia-nos do nosso verdadeiro papel na vida: o de agentes da preservação e da evolução da espécie. Nada, portanto, é mais ilógico e irracional do que o egoísmo. Nada é mais sem sentido do que ajuntar bens, que no final das contas não nos pertencem de fato, mas sobre os quais temos somente posse transitória.

O homem depende de forças cósmicas descomunais para viver. A simples colisão de um corpo celeste qualquer (como o cometa Shoemacker-Levy, por exemplo, que se chocou com Júpiter), com a Terra acabaria com a vida, em questão de horas, neste planetazinho turbulento e insignificante.

É a razão que dá grandeza ao ser humano e o aproxima da divindade. O jornalista Mauro Santayana escreveu, a esse propósito, em artigo que publicou no Jornal da Tarde em 19 de março de 1993:

“Ainda em sua primeira manhã cósmica, o homem deve Ter descoberto o vago sentimento de orgulho que um dia se chamaria dignidade, associando-o à força de seus músculos na caça e na delimitação de um território seu e de sua família. Trabalho, propriedade, abrigo, família, são bens indispensáveis àquele sentimento de orgulho de viver, de ser portador do mistério da identidade, de separar-se, com sua carne e sua inteligência, do resto das coisas do mundo...”

O indivíduo somente consegue sua plena realização quando age no sentido de promover a evolução da espécie. Tudo o mais, é mero desperdício de vida.