Saturday, December 15, 2007

Mansão da saudade


Pedro J. Bondaczuk


Estou cansado. Estou com sono.
Alma sofredora, envelhecida.
Mansão decadente e em ruínas
numa rua deserta, escondida.
É a moradia da Saudade,
da derradeira ilusão perdida.

Há teias de aranha em cada canto,
morcegos pendurados no forro:
abandono...decadência...espanto.
Sinistras, ao embalo do vento,
as venezianas, soltas, se chocam,
ruidosas, num compasso agourento.
O chão está coberto de pó,
há muito mofo por toda a parte,
as paredes estão de dar dó,
ruindo, descascadas, sem arte.
Tudo ao derredor é abandono,
é a decadência duma vida,
a minha alma está envelhecida.
Estou cansado. Estou com sono.

Na sala, cobertos de poeira,
quadros valiosos, bizarros,
revestem uma parede inteira.
São estradas, pessoas e carros,
verdes campinas da minha terra,
paisagens encantadas, bucólicas
dos ipês que colorem a serra.
Tudo ao derredor é abandono,
é a decadência duma vida,
a minha alma está envelhecida.
Estou cansado. Estou com sono.

Muito cansado...com muito sono...
Mansão abandonada, em ruínas,
casa cinzenta, morta, sem dono.
Até os fantasmas já se foram
desse decrépito casarão
que, certamente, por puro hábito,
ainda chamo de coração.
Estou cansado. Estou com sono.
Tudo é pó...é ruína...abandono...

(Poema composto em Campinas, em 18 de março de 1968).

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