Sunday, November 30, 2014

A imaginação exerce papel preponderante – diria, decisivo – na definição do conceito de beleza. Como diligente escultora, desbasta as imperfeições das formas de pessoas e coisas, tornando-as simétricas, bem-proporcionadas e com aparência de perfeitas, quando de fato não o são. Há certa confusão entre o que é belo ou, simplesmente, bonito, elegante, suntuoso, gracioso e atraente. Não se tratam de palavras sinônimas, mas de nomeações de conceitos bem diferentes entre si, embora possam parecer iguais. O artista, todavia, sabe fazer bem essa distinção. Vive correndo a vida toda atrás dessa coisa arredia e sutil, que é a beleza, para perpetuá-la em versos, imagens ou sons. O filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson constatou o seguinte, a esse propósito: “As coisas podem ser bonitas, elegantes, suntuosas, graciosas, atraentes, mas enquanto não falam à imaginação não são belas”. E não são mesmo

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Presente de Natal

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Mediação requer total isenção



Pedro J. Bondaczuk


As tropas do Exército da Síria, cumprindo um mandado da Liga Árabe, de 1976, para evitar massacres de refugiados palestinos em vários acampamentos no Sul de Beirute, como os ocorridos nesse período em Tal Al-Zhatar e, em 1982, em Sabra e Shatila, entraram no Líbano com a missão específica de pacificar essa comunidade nacional. Na pior das hipóteses, a sua tarefa seria a de evitar o agravamento dos confrontos entre as diversas milícias, que travam, entre si, um desgastante e sangrento conflito há 14 anos.

Subentende-se, portanto, que no seu papel de mediadoras, tais forças alienígenas tivessem absoluta e irrestrita neutralidade, não protegendo e nem respaldando nenhuma das facções. Nem mesmo as muçulmanas, até porque há várias delas no país.

No entanto, não é isso o que está sendo observado agora, em Beirute, na nova fase da guerra civil libanesa, cuja escalada teve início em 13 de março passado, com a decisão do comandante cristão do Exército local, general Michel Aoun, de lutar pela expulsão dos sírios da sua nação. Eles não somente passaram a emprestar decisivo apoio aos seus simpatizantes dentro do Líbano, como a participar ativamente dos combates, levando a luta a um grau de paroxismo poucas vezes visto nos últimos anos, em algum lugar.

Barragens de artilharia são disparadas, diariamente, contra outrora populosos bairros residenciais, zonas comerciais, legações diplomáticas, logradouros públicos e tudo o quanto é local, transformando essa extraordinária cidade em pouco mais do que um monte de ruínas. Tornando-a uma pilha fumegante de escombros, onde teimosos moradores resistem à insânia que se apossa dos chefões das poderosas milícias.

Nessa onda de mortes e destruição, que a cada dia que passa vai se tornando virtualmente incontrolável, a ética passa a ser a última coisa a contar. Todo e qualquer sentimento humanitário é deixado de lado, no afã da conquista de palmos de terreno arrasado das mãos dos adversários.

Os habitantes de Beirute, que não puderam, ou não quiseram, deixar a capital, chegam a passar 15 ou mais horas seguidas em precários abrigos, com explosões e incêndios por todos os lados, ouvindo, como pano de fundo, essa tétrica "sinfonia" de insanidade e rancor da detonação de mísseis e do matraquear de metralhadoras. Nem tempo para adquirir alimentos eles têm.

Além do medo permanente e da incerteza da sobrevivência, podendo ser colhidos a qualquer instante por um projétil assassino, são assolados agora pela fome. Falta luz na cidade, já que navios tanques não conseguem descarregar, em seus reservatórios, o óleo para movimentar as termelétricas. Há carência de água e de todos os serviços públicos essenciais. E tudo isso por quê? Porque quem recebeu a missão de pacificar o Líbano fracassou e resolveu tomar partido, entrando na luta. E a comunidade internacional? Não vai fazer nada a respeito, a não ser emitir inócuos comentários e ineficazes recriminações?!

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 15 de agosto de 1989).


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Eufemismos e estereótipos

Pedro J. Bondaczuk


Os homens que ocupam o poder, em qualquer de suas instâncias, seja em que parte do mundo (ou em que época) for, via de regra, salvo raras exceções, lançam mão, em seus contatos com as pessoas sobre as quais exercem domínio – caracterizadas genericamente como "povo" –, de eufemismos e de estereótipos para "explicar", ou no mais das vezes "justificar", ações (ou omissões). Acabam, por conseqüência, não explicando e nem justificando nada. Certamente não é essa sua verdadeira intenção.

Alguns jargões utilizados já se tornaram até motivos de anedota entre os politicamente esclarecidos (minoria em termos mundiais e também no Brasil), de tão cínicos que são. Tal manifestação de esperteza seria, de fato, risível, não fosse lamentável, por se tratar de forma de burla, de fuga à responsabilidade da prestação de contas àqueles que esses poderosos (teoricamente) representam.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define assim o termo "eufemismo", em seu popular dicionário da língua portuguesa: "sm. Ato de suavizar a expressão duma idéia substituindo a palavra própria por outra mais polida". Já estereótipo é uma expressão emprestada das artes gráficas e usada como metáfora para clichê, para chavão, para a maneira geralmente distorcida e inalterável de caracterizar pessoas, grupos, objetos, conceitos etc.

Estereotipia, de acordo com o dicionarista, é o "processo pelo qual se duplica uma composição tipográfica, transformando-a em fôrma compacta, mediante moldagem de uma matriz sobre a qual se vaza metal-tipo".  O jornalista Jânio de Freitas, em artigo publicado na "Folha de S. Paulo" no dia 23 de novembro de 1998, intitulado "País Submergente", alinhou alguns eufemismos muito comuns, utilizados, sem nenhuma parcimônia, especialmente por economistas e sociólogos.

O articulista citou, por exemplo, que a caracterização (até pouco tempo atrás muito em voga) para país pobre, atrasado e/ou mal administrado, ou seja, "subdesenvolvido", foi substituída  pelo termo "emergente". Mas o Brasil ainda não "emergiu" do buraco onde está metido há quase cinco séculos. Destaque-se que está nessa situação não por ausência de recursos naturais e de material humano, mas por falta de verdadeira consciência social, que não privilegie pessoas ou grupos, mas proporcione oportunidades relativamente iguais para todos.

O conceito de cidadania no Brasil está muito longe do real significado. Não passa de retórica, face à realidade cruel com a qual convivemos da infância à velhice e que por isso já nos acostumamos. Se "país emergente" é eufemismo, o mito do "brasileiro cordial" é estereótipo. Nenhum dos dois condiz com a realidade dos fatos.

O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, em discurso que proferiu em 20 de outubro de 1990 no Saint Anthony's  College, em Oxford, Inglaterra, na cerimônia de entrega do Prêmio Toynbee (texto inserido em seu livro "Após 1989 – Moral, Revolução e Sociedade Civil"), destacou: "...A cidadania visa a dar a pessoas que são diferentes em idade e sexo, em suas crenças e na cor de sua pele, em seus interesses sociais e em suas preferências políticas, os mesmos direitos básicos. Esses direitos incluem o que veio a ser denominado de direitos humanos, como a integridade da pessoa e a liberdade de expressão; eles incluem também os direitos civis de participação na comunidade política, no mercado de trabalho, na sociedade, incluindo também o direito de seguir as próprias preferências culturais".

Por essa conceituação, se pode dizer, mesmo "forçando a barra", que a maioria dos brasileiros exerce minimamente a cidadania? Claro que não! E as esperanças de mudança estão se exaurindo. O "passaporte" para a liberdade – a educação – ainda é muito precário no Brasil (uma parcela considerável da população não tem acesso a ele) e requer ajustes. Verdade seja dita que, nesse aspecto, houve grande evolução nos dois mandatos de Luís Inácio Lula da Silva e no de Dilma Roussef. Mas há ainda longo, longuíssimo caminho, de se perder de vista, a percorrer.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) classificou o ensino brasileiro como um dos mais deficientes do mundo. E ele já foi pior, conforme frisei! O progresso, no entanto, foi relativamente pequeno, diria irrisório, face nossas necessidades e o tempo que já foi perdido.

A Unesco constatou, tempos atrás (mais especificamente, em 1998), que o analfabetismo no Brasil atingia 19,6% das pessoas acima dos sete anos; que 20 milhões de indivíduos com mais de 14 anos eram analfabetos; que 50 milhões de adultos não haviam passado da 1ª série do 1º grau, sendo classificados como analfabetos funcionais; que dez milhões de crianças entre três e seis anos – num universo de 14 milhões – não freqüentavam a pré-escola e, de cada cem crianças matriculadas no 1º grau, só 33 concluíam a oitava série. Essas cifras mudaram, nos últimos dezesseis anos, mas não como seria de se esperar. As melhorias foram anuladas pelo crescimento da população.  Agora pergunto: esse contingente de indivíduos despreparados, ou mal-preparados, tem a mínima condição de competir no mercado de trabalho e de conquistar a ascensão social? Ora, ora, ora.  

Mas o subdesenvolvimento brasileiro, ao contrário da maioria dos outros povos da África, Ásia e América Latina, não decorre de falta de riquezas naturais ou das geradas com o trabalho da população. O País ostenta a sétima (já foi a sexta) maior economia do mundo, o que, convenhamos, não é pouco. No papel, a renda per capita anual (crescente) é superior a US$ 6 mil, nada desprezível se, na realidade, se aproximasse de fato dessa quantia. Estes, no entanto, são números mentirosos. Oitenta por cento dos mais de 200 milhões de brasileiros – que ou não têm nenhum rendimento, ou sobrevivem (ou vegetam) com entre meio e um salário mínimo mensal –, só podem rir desse dado estatístico, longe de condizer com sua verdadeira condição de quase indigência. E olhem que o País evoluiu muito nesse aspecto. Imaginem como era, digamos, há duas décadas.

O pecado do Brasil reside não no tamanho do bolo, mas na sua repartição, prometida por sucessivos governos, quer ditatoriais, quer os livremente eleitos pelo voto, que seria feita com justiça, mas cuja promessa jamais foi cumprida. Nesse aspecto, o da distribuição de renda, estatísticas precisas, de entidades internacionais confiáveis, demonstram, de sobejo, que ainda somos uma das sociedades nacionais mais injustas do Planeta, a despeito de vários programas sociais, que reduziram bastante essa desigualdade. E o fosso que divide ricos de miseráveis, em vez de se estreitar, mantém-se praticamente constante...

O Brasil, portanto, não “emergiu”. Talvez esteja em processo de emersão. Tomara que sim! Outro eufemismo muito difundido é o de caracterizar o "retrocesso econômico" ocorrido há alguns anos como "crescimento negativo", evidente paradoxo, gritante contradição até semântica. "Favela" mudou de nome e é freqüentemente denominada pela tecnoburocracia de plantão de "assentamento urbano de baixa renda", como se a elegância da expressão apagasse, ou pelo menos atenuasse, a miserabilidade dessa forma subumana de "morar" (ou de se "esconder").

Em política, "infidelidade" para com partidos, aliados e principalmente com eleitores; "oportunismo" e "egoísmo" transformaram-se em "fisiologismo". O miserável e excluído, vítima do "apartheid" social que atinge a dois terços dos mais de sete bilhões de habitantes do Planeta, é chamado de "carente" (e põe carência nisso!). "Mão de obra ociosa" é o conjunto dos "desempregados".

O diplomata Josué de Castro, no livro "Geografia da Fome", advertiu que "dois terços da humanidade não comem e um terço não dorme com medo da revolta daqueles que não comem", que é fatal, mera questão de tempo e do grau de desespero desses famintos. A todo o instante, nos discursos e declarações de políticos, ou nos artigos e ensaios de economistas, cientistas políticos e sociólogos, topamos com desnecessários e cínicos eufemismos e estereótipos. São tantos que se torna redundante, e portanto supérfluo, relacionar e repetir sequer os mais comuns.

Um deles, além do que diz respeito à suposta "cordialidade" do brasileiro (desmentida pelos crescentes e assustadores índices de violência e criminalidade), é o do "país do futuro" (infelizmente "deitado eternamente em berço esplêndido"). Outro desses estereótipos é o da "alegria" espontânea do povo. Outro, ainda, é a afirmação de que o Brasil "fatalmente se tornará superpotência" um dia. Neste último caso, até pode ser, já que dispõe de potencial para isso. Mas quando?

Para acontecer, será necessário vencer desafios imensos, nos campos da educação, da saúde pública, da habitação, do bem-estar social e da distribuição de renda, entre outros. Não serão eufemismos e estereótipos que irão mudar a situação do brasileiro. O saudoso presidente eleito (e nunca empossado) Tancredo Neves destacou, em discurso proferido em 1985, que "enquanto houver nesse país um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda a prosperidade será falsa". Quanto tempo ainda vai levar para que haja uma consciência consensual sobre essa cristalina realidade? Um ano? Cinco anos? Dez? Cinqüenta? Cem? Nunca?



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Saturday, November 29, 2014

A beleza é um conceito bastante controvertido e em raros aspectos é consensual. Apresenta-se, basicamente, de duas formas: virtual e conceitual. A primeira é aquela efêmera, fugaz, passageira, que se transforma com o tempo e perde o seu encanto e viço. É o caso da beleza física, de uma pessoa, uma flor, um animal, não importa. Dura por somente alguns anos, quando não dias ou meras horas, e depois se decompõe, se corrompe, envelhece, murcha e desaparece. Já a conceitual, embora difícil de definir, tem o caráter de permanência. Impregna-se em nosso espírito e basta fecharmos os olhos para podermos vislumbrar seus reflexos. Mas é esquiva, caprichosa e escorregadia. Honoré de Balzac escreveu o seguinte sobre ela, no conto “Obra-prima ignorada”: “A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la, enlaça-la firmemente para obrigá-la a render-se”.


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Presente de Natal

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Aiatolás pecam pela retórica


Pedro J. Bondaczuk


A retórica dos aiatolás que dirigem o Irã, prometendo vinganças e retaliações contra todas as potências, a torto e a direito, dependendo do incidente em que o país se envolve, tem feito um grande estrago para a imagem iraniana, em nível de opinião pública mundial.

Mas se alguém se detiver para fazer uma análise serena das ações do governo, nestes quase nove anos de Revolução Islâmica, verá que, à exceção da guerra do Golfo Pérsico, onde, é lógico, o país precisa se defender e se empenhar para vencer o conflito (já dizia um pensador antigo, “ai dos vencidos”), os demais atos extremos, atribuídos a eles, não correspondem à realidade dos fatos. Eles têm sido mais vítimas de ações radicais dos outros do que possíveis agressores.

Por exemplo, além da morte dos 290 passageiros do Airbus A-300, abatido, insensatamente, no domingo, pelo cruzador “USS Vincennes”, os iranianos tiveram a lamentar, ainda, em julho do ano passado, aa perda de mais de 400 peregrinos, que foram a Meca, cumprir suas obrigações religiosas.

Até se admite que eles pudessem ter errado e provocado tumulto na cidade, naquela oportunidade. Mas o que nos parece ter sido excessivo, pelo trágico resultado, foi o modo de reprimir esses atos de caráter político. Para arruaceiros existem prisões.

Se a moda de matar quem se exalte, ou se exceda em manifestar sua opinião, pegar, o mundo estará perdido. Vão faltar sepulturas para tanta gente que será vitimada. Ademais, observe-se o seguinte detalhe: os iranianos retiveram, por 444 dias, 52 reféns norte-americanos. É óbvio que o ato de seqüestrar pessoas não pode ser justificado em nenhuma circunstância.

Mas ao longo de todo esse período (extenuando, é verdade, do ponto de vista psicológico), nenhum dos cativos morreu. Pelo contrário, todos foram repatriados, no dia da posse de Ronald Reagan na presidência dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 1981, sãos e salvos.

Houve relatos de ex-prisioneiros que se internaram em hospitais, com problemas psíquicos e outros chiliques de quem sempre teve tudo o que quis e que não suporta período algum de privações. Mas ninguém perdeu a vida por causa disso.

O Irã foi acusado de ser mentor de seqüestros de aviões e de cidadãos depois disso. De estar por trás do ataque suicida contra o quartel das forças norte-americanas em Beirute, que redundou na morte de mais de 200 soldados. E de outras tantas atrocidades, sem que ninguém jamais provasse a sua participação nesses atos.

Mas, em momento algum sua polícia trucidou quatro centenas de estrangeiros, como ocorreu na Arábia Saudita. E nem sua artilharia abateu qualquer avião comercial de passageiros, nem do seu mais radical inimigo, o Iraque. Os aiatolás, portanto, que nunca mostraram radicalismo exacerbado nas suas ações, precisam aprender, com urgência, a policiar aquilo que dizem.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 7 de julho de 1988).


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Internet e a arte da redação

Pedro J. Bondaczuk

De uns tempos a esta parte, acendeu-se a discussão sobre o destino de livros, jornais e revistas com o advento da era eletrônica, das chamadas "rodovias mundiais de informação" do tipo Internet, através dos computadores. Os escritores vão acabar? Não teremos mais grandes poetas, como Drummond, Bandeira, Quintana, Cecília Meireles, Keats, Poe, Whitman, Hugo, etc.? Ou novelistas, romancistas, contistas e autores de peças teatrais? Ou notáveis jornalistas? Não acredito. Claude Weil prevê: "Houve um tempo das pirâmides e um tempo das catedrais. Passaram. Quem sabe passou também a idade de ouro dos livros?". Será? Prefiro acreditar que não.

Neste caso, comungo da opinião de Umberto Eco, que diz: "Falar de uma guerra entre o visual e a escrita é totalmente ultrapassado. Nada de maniqueísmo; a escrita é o bem e a imagem é o mal. O século XX nos propõe o convívio entre a imagem e a palavra oral. O computador não exclui a caneta. O público tem fome de narrativa e a procura nos jornais, na televisão, no cinema, nos livros". Prefiro acreditar que estamos entrando na era da comunicação total, onde todos os recursos serão utilizados ao máximo, de forma integrada.

Poemas, novelas, contos e romances, até aqui acessíveis a poucas pessoas, ganharão (já estão ganhando) abrangência mundial. Eu mesmo tenho divulgado crônicas em sites de língua portuguesa do exterior. E olhem que não sou dos cronistas mais conhecidos, apesar de mais de quatro décadas de estrada. O público leitor será ampliado de forma exponencial, principalmente quando for superada a barreira lingüística, através da tradução instantânea dos textos, por computador, para qualquer das línguas hoje mais faladas no mundo (inglês, francês, espanhol, alemão, português, chinês e russo, entre outras). Prefiro acreditar que será assim. Contudo, compartilho de uma outra preocupação, também expressada por Umberto Eco.

O escritor italiano confessa: "Todo pensador, todo escritor se coloca essa questão essencial: como fazer face à eternidade? Estou aterrorizado com a idéia de que os livros surgidos em papel celulose desde o século XIX estão inclinados a desaparecer de tão frágeis. Média de vida: 70 anos. Quando pego um Gallimard dos anos 50, tenho a impressão de ter nas mãos uma hóstia que se despedaça". Minha sensação, ao manipular as preciosidades da minha biblioteca, é semelhante. É como se segurasse uma fragílima, antiquíssima, única e rica taça de cristal, que pudesse se estilhaçar ao toque mais desastrado. O mesmo ocorre com páginas de jornais e de revistas dos anos 30, em meu arquivo pessoal.

Toda a novidade desperta temores. O que está ocorrendo, atualmente, em relação à eletrônica, é o mesmo que ocorreu no século XIX com o avanço da tipografia, que significou um salto notável na indústria gráfica, popularizando o livro e ensejando o surgimento da imprensa diária. Victor Hugo descreveu da seguinte forma o que se pensava na época: "Trata-se, antes de mais nada, de um pensamento de padre. Do assombro do sacerdote diante de um novo agente, a tipografia. Do espanto e do deslumbramento do homem do santuário diante da imprensa de Guttenberg. Foi o encontro entre o púlpito e o manuscrito, a palavra falada e a palavra escrita, alarmando-se com a palavra impressa; algo comparável ao estupor de um passarinho que visse o anjo legião abrir suas seis milhões de asas. Foi o grito do profeta que ouve já zurrar e pulular a humanidade emancipada, que vê no futuro a inteligência minar a fé, a opinião destronar a crença, o mundo livrar-se de Roma". Evidentemente, isto não aconteceu. Como a tecnologia, seca e fria, jamais matará  a arte e a criatividade. Não passam de terrores insanos em relação ao o que é novo.

A era da informática abre-nos horizontes sem limites. Utilizemos a modernidade, entre outras coisas, também, para preservar a tradição. Neste caso específico, não há porque o conflito entre os dois conceitos. O recurso eletrônico é o meio que a tecnologia nos proporciona. Cabe-nos proporcionar, em troca, a mensagem. Em termos de instrumental, há que se admitir, já avançamos muito, nesta uma década e meia do século XXI. Temos, porém, que ousar. Que dar muitos outros passos adiante, como produtores de arte e de pensamentos para prestar contas à sociedade sobre a nossa existência, os nossos ideais, as nossas vitórias e, sobretudo, nossas idéias. Podemos fazer isso! Estou seguro de que o faremos!  

Partilho, por hoje, com você, precioso e inteligente leitor, esta pérola de Carlos Drummond de Andrade, instigante e provocativo poema do mestre, intitulado “Eterno”, que vem a caráter para expressar, de forma inteligente e criativa, o que procurei dizer (possivelmente em vão, dadas minhas limitações)  ao longo destes dois últimos dias. Diz o poeta de Itabira:

“E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.

Eternalidade eternité eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo

A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
[força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
[esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo”.


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Friday, November 28, 2014

Se houvesse a mínima possibilidade de renascer, mas exatamente como sou, e de viver de novo, posto que sob circunstâncias diversas, o tanto que já vivi, mas sem perder os conhecimentos e a experiência que já tenho, eu daria, antes de tudo, maior valor aos relacionamentos: às amizades e, sobretudo, ao amor. Em contrapartida, não me preocuparia tanto com realizações pessoais, preocupação que, às vezes, até se torna obsessão. Buscaria amar, mais e mais, a vida, em cada uma das suas manifestações, e não perderia tanto tempo com vaidades, ostentações, futilidades e picuinhas.. Provavelmente, viveria como o poeta norte-americano Philip Levine descreve, nestes magníficos versos:

“Deixe-me recomeçar como um grãozinho
de poeira apanhado nos ventos noturnos
deslizando para o mar...
Uma pequenina criança sábia que desta vez vai amar
sua vida, porque ela é diferente de todas as outras”.


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Presente de Natal

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Sucateamento é questão política


Pedro J. Bondaczuk


O "3º Conai", realizado no Palácio das Convenções do Parque do Anhembi, em São Paulo, que se encerra hoje, comprovou, mais uma vez, que se o parque industrial brasileiro está enfrentando um risco de sucateamento, isto não se deve, em absoluto, à falta de oferta de bens e serviços do setor de automação. A questão prende-se a um modelo econômico equivocado, que privilegia as atividades especulativas, que enriquecem apenas uns poucos que nada têm a oferecer à sociedade, em detrimento das categorias produtivas. Nos últimos cinco anos, o que se verificou no Brasil foi um "desenvestimento", com muitas unidades sendo fechadas ou desativadas, para que o produto arrecadado pudesse ser investido no "open" ou em outras aplicações.

Nossa indústria não se modernizou, portanto, não por falta de oferta de tecnologia. Os produtos mostrados no "Conai" comprovam isso. Quem quiser conferir melhor, basta que dê uma simples olhada no catálogo da Associação Brasileira de Processos de Automação Industrial de 1987. Ali, vai constatar a existência de pelo menos 100 empresas produzindo praticamente todo o espectro de máquinas para a modernização da indústria. Tais companhias geram mais de 10 mil empregos diretos, sendo 30% de nível superior. Efetuaram, no ano passado, vendas da ordem de US$ 300 milhões. Com isso, passaram a controlar os processos de investimentos industriais de US$ 6 bilhões, que acabaram não sendo feitos. O "open" não deixou.

A correção desse desvio econômico no Brasil terá que seguir duas vertentes. Uma é a conscientização de que a especulação não é um "moto perpétuo". É auto-esgotável. Haverá de chegar o momento em que não existirá com o que especular, se a sociedade andar para trás e se empobrecer. A outra é a adoção de uma política privilegiando os competentes, os eficientes e os produtivos, dando-lhes condições para lucros crescentes.

Como ressaltou o editorial do boletim da ABCPAI, numa de suas edições recentes: "Automação é ferramenta, é meio. E como meio de produzir ela é cultura. E cultura não se importa ou se compra. Se adquire através de processos educacionais e de aprendizado necessariamente lentos e penosos. Daí o valor do nosso mercado e de nosso parque industrial". E está falado.

(Artigo publicado na página 14, Informática, do Correio Popular, sob o pseudônimo de Alex H. Bentley, em 23 de setembro de 1988)


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Tradição e modernidade

Pedro J. Bondaczuk

O cientista social Walter Benjamin definiu da seguinte forma a tarefa dos intelectuais do seu século, o XIX (aí incluídos, claro, os escritores): “Desbravar regiões, nas quais até agora vicejava a loucura. Avançar com o machado afiado da razão, sem olhar para a direita e nem para a esquerda, para não ser vítima do horror que atrai do fundo da mata virgem. Todo chão teve que ser desbravado alguma vez pela razão. Limpo do emaranhado, da ilusão e do mito. Esta é a nossa tarefa para o chão do século XIX”.

E a nossa tarefa, neste século XXI, é diferente? Afinal, qual é? O século XX foi, como destacou o escritor russo Aleksandr Soljenytsin, caracterizado pela busca frenética do “novo”. Não importou muito se para instalar as novidades, valores eternos tiveram que ser postos de lado. A procura por mudanças foi, e ainda é, maníaca. Transformou-se em obsessão!

Através dos tempos, as várias civilizações sempre procuraram encontrar a dosagem ideal entre tradição e modernidade para nortear seu rumo. A dose podia variar, mas os dois conceitos sempre estavam presentes, quer na vida cultural, quer no procedimento político e social.

Hoje, a coisa já não é bem assim, embora não se possa (e nem se deva) generalizar. O pseudomodernismo domina a maior parte das cabeças pensantes. Surgiram a metalinguagem, o concretismo, o surrealismo e outros tantos rótulos para designar coisas que são, na verdade, velhas, muito velhas. Velhíssimas!

Depois de 13 mil anos de civilização, é virtualmente impossível alguém ser original, em termos de idéias e de ações. Tudo o que pensamos ou fazemos, alguém já pensou ou fez, embora a linguagem utilizada e a mensagem transmitida tivessem aspectos diferentes, nuances próprias. Isso mesmo, apenas nuances!

O cineasta Hector Babenco acentuou, certa feita, em entrevista: “Querer ser moderno já é uma atitude velha”. Aquilo que hoje recebe esse rótulo, amanhã, certamente, estará envelhecido, defasado, ultrapassado, se o fator tradição se fizer ausente.

O filósofo francês, Jean Baudrillard, observou: “A idéia de universalização do mundo está esgotada. O Planeta está tomado, então, por uma tendência ao revisionismo, por uma renúncia às formas da modernidade, por um arrependimento. Não é por acaso que os conflitos étnicos, as guerras religiosas, a fragmentação estão retornando. A modernidade se torna insuportável. Mas nada disso é solução”.

A tarefa dos intelectuais (e, por conseqüência, dos escritores)  para este século, portanto, será redobrada. Eles terão que reconstruir, primeiro, o que foi destruído, com o abandono da tradição. Depois, retomar o que Walter Benjamin previa para o seu tempo e para a sua geração. Ou seja, “desbravar regiões, nas quais até agora a loucura viceja”.

Baudrillard sustenta: “Para mim, o mundo, a natureza, o cosmos, não importa como você preferir chamar, está em metamorfose, em regulação. Mas essa regulação não é jurídica, contratual, abstrata. Há elementos irredutíveis na natureza que não podem ser simbolizados em contrato. É uma paranóia achar que o homem vai ajudar o mundo a sobreviver. O homem destruiu, mas não sabe, nem pode, reconstruir”. Poderíamos, pelo menos, preservar as conquistas da arte e da cultura, notadamente das letras, em nossa cidade? É um desafio que se impõe a todos nós.

A cultura é, em geral, mal-interpretada, até pelos que se alimentam e vivem dela. Trata-se do conjunto de criações, vivências e conhecimentos, em todas as áreas de atividades,  frutos da experiência e da racionalidade, precioso patrimônio dos povos, que se acumula, e é aumentado, com o passar dos anos, através das sucessivas gerações. É a herança maior que recebemos dos antepassados, ampliamos (ou temos o dever moral de ampliar), dando a nossa contribuição para o avanço da civilização, e transmitimos aos nossos descendentes, que por sua parte deverão agir de idêntica forma.

O escritor George Simenon, em carta escrita em 9 de novembro de 1976 ao cineasta italiano Federico Fellini (reproduzida no caderno "Mais!" do jornal "Folha de S. Paulo" em 14 de fevereiro de 1999), constatou: "Nós somos um pouco como as esponjas que sugam a vida sem o saber e a devolvem em seguida, transformada, sem conhecer o trabalho de alquimia que se produziu em nós".

A cultura, portanto, é o "suco", a essência, a alma, a parte nobre da vida. Daí a importância da ação de pessoas e/ou instituições que atuem no sentido da sua ampliação ou, na pior das hipóteses, da sua preservação. Por isso, a relevância e o significado da ação das várias academias, de letras, de ciências, de cinema, etc.etc.etc. Elas são (ou deveriam ser) as legítimas guardiãs da tradição das respectivas atividades.

O poeta português Fernando Pessoa, em lúcido texto publicado na década de 1920, intitulado "Presença da cultura grega", assim se manifestou: "Tem duas formas, ou modos, o que chamamos cultura. Não é a cultura senão o aperfeiçoamento subjetivo da vida. Esse aperfeiçoamento é direto ou indireto. Ao primeiro se chama arte, ciência ao segundo. Pela arte nos aperfeiçoamos a nós, pela ciência aperfeiçoamos em nós o conceito ou ilusão do mundo". E as academias, reitero, são lídimas guardiãs das tradições das suas respectivas atividades.

Porém, se temos por missão sermos tradicionais, em termos de idéias e preservação daqueles valores testados e aprovados pelo tempo, podemos e devemos ser ousados quanto aos meios empregados para a consecução dos nossos objetivos. O objetivo, óbvio, de todo escritor é o de ser lido e pelo número máximo de pessoas que o seu texto possa atingir. E, por conseqüência, o nosso, claro, também é este. Mas temos o dever de oferecer-lhes o melhor, da forma mais acessível e universal possível. Pense nisso. Voltarei ao tema.


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Thursday, November 27, 2014

Conversei com vários marginais – tidos e havidos como bandidos irrecuperáveis, sanguinárias e impiedosas feras humanas – e senti, em todos eles, sem nenhuma exceção (posto que em intensidades diversas) que seu sonho na vida (para eles fantasioso e irrealizável) era o de serem amados e admirados por alguém (não importa quem), embora nenhum admitisse culpa por seus atos horrendos e criminosos. John Steinbeck escreveu: “Na incerteza, estou convencido de que, por baixo de suas camadas superiores de fragilidade, os homens querem ser bons e querem ser amados. Na verdade, a maioria dos vícios é uma tentativa de atalho para o amor. Quando um homem morre, não importa qual tenha sido seu talento, influência e gênio, sua vida foi um fracasso se morreu sem amor; sua morte é um frio horror”. Também estou convicto disso, pelas observações que pude fazer. São exatas? Não tenho a menor condição de assegurar, pois minhas conclusões baseiam-se só na intuição.


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País. 

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Sucessor de Gandhi tem boas chances


Pedro J. Bondaczuk


O Partido do Congresso, que governou a Índia por 40 dos 44 anos de vida independente do país, está voltando ao poder, depois de um breve hiato de 18 meses, numa situação muito mais difícil do que em ocasiões anteriores. Esta será a primeira vez que terá de governar um Estado complexo, populoso, pobre e sumamente violento, contando com minoria no Parlamento.

Ademais, seu novo líder, que substituiu o assassinado ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi, Narasimha Rao, não tem, evidentemente, o carisma, a ascendência partidária e a projeção internacional dos membros do clã de Jawaharlal Nehru. Trata-se de um político negociador, ideal para governar interinamente, enquanto as paixões ainda estão à flor da pele, após a mais sangrenta campanha eleitoral da história contemporânea indiana. Mas não para exercer um mandato integral de cinco anos.

O Partido do Congresso precisa urgentemente passar por uma profunda reciclagem diante dessa nova realidade. Sua tarefa fundamental será a de conter os movimentos separatistas que se disseminam pela Índia, mas não através da violência, pois se agir dessa maneira, fatalmente irá mergulhar a nação num banho de sangue, porquanto os ânimos ficam cada vez mais exaltados, à medida em que o tempo passa e os atentados, seqüestros e distúrbios étnicos e religiosos se sucedem no Punjab, em Tamil Nadu, em Uttar Pradesh, na Cachemira e em Assam, que são os Estados mais tensos e problemáticos.

Nos últimos tempos, os membros da agremiação não têm sido muito felizes em pacificar os indianos. A mais recente gafe política que o grupo cometeu, ainda durante a gestão de Rajiv, foi a tentativa de oficializar o hindi como idioma único, num país com mais de mil etnias diferentes, com línguas ou dialetos próprios.

Um parlamentar "iluminado", na falta de um projeto melhor a apresentar, pretendeu acabar com o inglês como o recurso alternativo, inclusive como elo de união entre os mais variados povos que compõem essa colcha de retalhos de 850 milhões de seres humanos.

Aliás, esta foi uma das razões do partido não ter conseguido a maioria absoluta no Parlamento, tendo lhe faltado 15 míseras cadeiras para não depender de ninguém na formação de um governo verdadeiramente estável. Nota-se, portanto, que a agremiação carece de um melhor senso de pragmatismo, de objetivos menos pueris.

Quanto a Rao, um dos obstáculos para uma boa e longa gestão é a sua precária saúde. Aos 69 anos de idade, ele já se submeteu a uma cirurgia para a implantação de ponte de safena e sequer concorreu no pleito recém findo. Por isso, cumprindo a exigência constitucional, terá de se submeter, dentro de seis meses, a uma votação suplementar.

Seu perfil político, todavia, é favorável. O novo líder do Partido do Congresso sempre teve estreitas ligações com a família Gandhi, à qual serviu em dois gabinetes --- como ministro de Relações Exteriores de Indira e como assessor de seu filho, Rajiv, após o brutal assassinato da ex-primeira-ministra em 1984 --- revelando-se um leal servidor.

Outro ponto a seu favor é o fato de virtualmente não contar com inimigos, o que lhe confere livre trânsito em parte considerável da oposição. Se sua saúde resistir, portanto, Narasimha Rao tem tudo para fazer um bom governo, mesmo tendo em vista a dramática deterioração da economia indiana e o conseqüente agravamento das tensões sociais. E, principalmente, tendo de andar numa instável corda-bamba, que é o fato de não contar com maioria parlamentar para a aprovação de seus projetos.

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 22 de junho de 1991).


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