Friday, November 14, 2014

Manoel de Barros nos encantou e encantou-se

Pedro J. Bondaczuk

O coração de Manoel de Barros parou, depois de meses sem vontade de viver”. Esta é a criativa manchete com que o jornal “Campo Grande News” (WWW.campograndenews.com.br), da capital do Mato Grosso do Sul, anunciou, em seu site, neste 13 de novembro de 2014, a morte desse mito das letras nacionais e internacionais. Recebo a notícia com profundo pesar, como se algum parente querido houvesse morrido. Aliás, o coração parou de bater, mas ele não morreu. Poetas não morrem: ficam encantados. Pois é, Manoel de Barros encantou-se. Cansou-se de nos encantar. Foi morar em algum incógnito planeta, orbitando estrela alhures. Partiu, depois de cumprir sua missão de criar beleza nesta Terra, cada vez mais violenta, injusta, feia, horrível e depredada. Repito: encantou-se depois de nos encantar. Seu legado poético, porém, para nossa felicidade, continuará nos encantando tempo afora, posto que sem mais acréscimos.

“Campo Grande News” abriu a matéria sobre esta irreparável perda com a mesma originalidade e competência da manchete. Sua autora, Ângela Kempler, escreveu: “Não existe a morte para alguém como Manoel de Barros. Não cabe bem, até por sinal de respeito. O poeta nunca gostou que colocassem data na existência. Então, o dia é de mais uma daquelas inutilezas que a vida inventa e que ele por tantas vezes substantivou”. E não é?! Manoel de Barros, certamente, gostaria dessa abertura. Entendo que seja digna do personagem da matéria. Escrever necrológio convencional para alguém que dispensava – e mais, abominava – convenções, não casa bem. É como se diz no interior: “não orna”.

Manoel de Barros, a crer no testemunho de seus parentes e amigos, “cansou de viver”. Pelo menos de viver neste mundo, que tinha tudo para ser um Paraíso, mas que, graças á insensatez e da burrice do pomposamente designado “Homo Sapiens”, malucos insensíveis e irracionais conseguiram transformar em “sucursal do inferno”. E olhem que, para os padrões humanos, o poeta até que viveu bastante. Completaria, em 19 de dezembro próximo, 98 anos de idade, ele que nasceu em Cuiabá, no Mato Grosso, em 1916. Não se limitou, todavia, em sobreviver. Produziu, e produziu muito (e bem, principalmente). Consegui catalogar 33 livros dele, publicados, inclusive, na França, Alemanha e Espanha, que começou a publicar sua obra aos 19 anos e que terminou essa fase de publicações bem recentemente, em 2013, com o volume “Portas de Pedro Viana”.

Quanto à qualidade da sua poesia, esta é incontestável. Basta ver a premiação que ela lhe valeu. Destaco treze delas, entre as quais dois Jabutis, quatro ou cinco Prêmios Nestlé de Poesias e o cobiçado reconhecimento formal da Academia Brasileira de Letras, que nunca freqüentou, por jamais haver se candidatado. Manoel de Barros é o maior entre os maiores poetas brasileiros. Pode não ser considerado assim pelo grande público, por não viver e não atuar em grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, Recife etc., optando pela atividade de fazendeiro em Mato Grosso do Sul. Todavia, nos círculos literários (nacionais e internacionais), é, praticamente, unanimidade e há muito tempo.

Querem prova? Lá vai uma. Carlos Drummond de Andrade, enquanto vivo e no auge da produção, recusou o título de “maior poeta brasileiro”. Afirmou que essa designação caberia como uma luva a Manoel de Barros. Eu apenas acrescentaria “também”. Há um grupo de poetas tão bons, que nele não se pode afirmar que haja algum “maior” e que os demais sejam “menores”.Todos são excelentes, fantásticos, muito acima da média. São gênios e ponto. Estão, nesse patamar (e provavelmente esquecerei muitos, o que de forma alguma os diminui), Mário Quintana, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meirelles, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade etc.etc.etc. e...óbvio, Manoel de Barros. São gigantes da poesia. São imortais legítimos, posto que naquilo que importa. Ou seja, no que fizeram: na sua poesia, nas metáforas que urdiram, na sensibilidade com que impregnaram dezenas, centenas, milhares de poemas, Na beleza que perpetuaram.


À exceção de Adélia Prado, que para nossa felicidade está vivinha da silva, todos os que mencionei (e vários dos que deixei de mencionar) já nos deixaram. Nos encantaram e... finalmente ficaram encantados. Mas seus espíritos estão, e estarão sempre, vivinhos, onipresentes, vagando por toda a parte. Estão na estante da minha biblioteca, por exemplo, na da sua prezado leitor e certamente na de todas as pessoas servas da beleza, sensíveis, idealistas e de inegável bom gosto.

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