Friday, July 31, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Não há poesia latente nas coisas, pessoas, paisagens e outros seres vivos e nem no universo. Ela não é como os frutos maduros de uma árvore cujo único trabalho que tenhamos seja o de colhê-los para o nosso deleite e satisfação e dos que queiram, saibam e possam apreciá-la.. Não é assim que as coisas funcionam. Tudo o que nos cerca é o que é, para nós e para qualquer outro. Há poesia (ou não há) somente dentro de nós. Ela nasce (ou não nasce) em nosso íntimo, na maneira como nos encaramos e a tudo o que nos rodeia: pedra ou água, treva ou luz, pessoas ou flores, insetos ou animais. É da nossa sensibilidade e talento que nascem as metáforas, os versos, as rimas, a métrica, enfim, o poema. O poeta é um criador, que do barro imundo molda transcendências. Mauro Sampaio expressa tudo isso neste poema intitulado “Poesia”: “Não há poesia./É apenas o Universo./A árvore é árvore e o pássaro é pássaro./Apenas a poesia da árvore ou do pássaro/em cada um de nós”.

Ponto de vista


Pedro J. Bondaczuk

A visão que temos, das pessoas e das coisas, não raro é enganadora, isso no sentido literal da palavra, ou seja, no biológico. O olho do bicho homem é muitíssimo inferior ao de alguns outros seres vivos, como o lince ou a águia, por exemplo. Ademais, é mister que se lembre que estamos num gigantesco (para nós) recipiente de gases, por onde a luz tem que passar, até chegar aos nossos órgãos de visão, permitindo que possamos identificar as imagens.
O peso que suportamos é colossal. Só não somos esmagados por tamanha pressão em decorrência do mecanismo interno com que a sábia e previdente mãe natureza nos dotou. Ou seja, se é fato que somos terrivelmente pressionados de fora para dentro do nosso organismo, há uma compensação em sentido oposto. Cada milímetro do nosso corpo exerce pressão rigorosamente igual à que sofremos do exterior e isso proporciona o equilíbrio. É como se não estivéssemos nesse recipiente de gases em que, na verdade, estamos.
Mas o que me interessa, particularmente, nestas considerações, é a precariedade da visão humana. Nosso olho depende totalmente da luz do sol para identificar o que vê, não importa se outras pessoas, se objetos ou se paisagens. Mas essa é distorcida pelos gases que nos rodeiam por todos os lados. E não depende somente dela, mas do ângulo que enxergamos o que quer que seja. Refiro-me ao o que é geralmente chamado de ponto de vista.
Se esse aspecto é fundamental no que diz respeito à visão biológica, igualmente o é na “psicológica”, na mental, na do entendimento. Se tivermos informações distorcidas a respeito de um tema, ou escassas, ou incompletas, as conclusões a que chegaremos a respeito serão sumamente enganosas. Podem, até, parecer lógicas, mas, na verdade, não o serão. Serão o que os filósofos denominam de “sofismas”. Ou seja, partiremos de premissas corretas, isoladamente, mas incompatíveis para aquele determinado assunto. A conclusão, por consequência, só pode, mesmo, ser equivocada.
Exemplo? Podemos afirmar que alguns seres aquáticos voam (refiro-me aos peixes que têm o que se parece com asas). Trata-se, como se vê, de afirmação verdadeira. Muitos leitores, certamente, já os viram alguma vez, ou pessoalmente ou em filmes. A segunda premissa é: a baleia é um ser aquático. Quanto a isso, acredito, não resta a mínima dúvida. Ninguém, até hoje, com certeza absoluta, viu algum desses gigantescos cetáceos se locomovendo em terra, ou passeando em alguma avenida.
Como se vê, partimos de duas afirmações rigorosamente verdadeiras. Um sofista concluiria, porém, face a ambas: “logo, as baleias voam”. Todos sabem que isso é o absurdo dos absurdos. Ou seja, é falso. As duas premissas são corretíssimas, mas incompatíveis nesse silogismo específico. Logo... A conclusão é mais falsa do que cédula de quinze reais.
O mesmo tipo de engano cometemos na avaliação de pessoas. Muitas vezes nos empolgamos com informações que recebemos a respeito de determinados “heróis”. Ouvimos falar dos seus admiráveis feitos e não nos damos o trabalho de pesquisar se são verdadeiros ou se não são, pelo menos, exagerados. Fizéssemos uma análise mais acurada e criteriosa, concluiríamos que esses indivíduos, que às vezes idolatramos, não passam de “ídolos com pés de barro”. Ou seja, não se sustentam eretos, por se tratarem de poltrões: corruptos, tiranos, violentos e covardes. A História consagrou uma infinidade desses tipos.
É verdade que o oposto deste comportamento é até muito mais comum. Pessoas notáveis, abnegadas e realizadoras, são, via de regra, vítimas de detratores, em geral gratuitos (que fazem suas intrigas ou por inveja, ou por complexo de inferioridade ou por tantos outros motivos). Raramente tomamos conhecimento dos seus magníficos feitos e nobres motivações. Acreditamos liminarmente no que ouvimos a seu respeito e cometemos, amiúde, terríveis injustiças.
Como no olhar biológico, o psicológico também depende do ponto de vista. Em uma determinada posição “enxergamos” uma coisa, e quando a mudamos, “vemos” outra completamente diferente. Daí ser prudente a atitude de jamais nos precipitarmos nas conclusões. Estas devem ser maduras, refletidas, pesadas e, ainda assim, não estão totalmente isentas da possibilidade de engano.
Li, recentemente, uma afirmação de Friedrich von Hartenberg Novalis que ilustra a caráter essa relatividade de visão (biológica e, principalmente, psicológica). O escritor escreveu o seguinte a respeito: “Quando vemos um gigante, temos primeiro de examinar a posição do sol e observar para termos certeza de que não é a sombra de um pigmeu”. Não é o que acontece? Claro que sim! O sábio, todavia, precavê-se em relação aos pontos de vista com que observa o que quer que seja. Esse, aliás, é um dos segredos (possivelmente o principal) da condição de sabedoria que ostenta.

Thursday, July 30, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Somos sumamente lépidos e constantes no exigir benesses de que nos julguemos merecedores e morosos, quando não omissos, no agradecer os bens recebidos. A gratidão, convenhamos, não é a característica mais constante no homem. Mesmo em nossas orações, pedimos, pedimos e pedimos o necessário e o supérfluo, o benigno e o que nem sempre nos é o melhor, o útil e o inútil. Contudo, quase sempre esquecemos de agradecer pela vida, saúde, disposição, luz do sol, pingos de chuva e tudo o quanto nos garante a vida e a felicidade, dados de graça por Deus. Mauro Sampaio expressa essa atitude no poema “Graças”: “Devo e quero aceitar a graça, a luz/ou a escuridão total./Tudo há de ser dádiva de meu Deus./Se o meu sangue se dilui em água,/e entre rosas eu tenha apenas as raízes/eu devo e quero aceitar,/porque tudo é da mesma fonte,/e a fonte é pura e sábia./Hoje me chega tanta luz e tanta claridade!/Amanhã há de me chegar memória/para dar graças do que já tive”.

Sempre sem razão


Pedro J. Bondaczuk

O ditado que diz que “da discussão, nasce a luz”, é um dos mais furados que conheço. Ainda se dissesse que o esclarecimento de qualquer controvérsia provém de um diálogo lúcido e sereno, entre pessoas do mesmo nível cultural e intelectual, haveria um pouquinho de possibilidade disso ocorrer. Mas não há segurança alguma de que de fato ocorra.
Desconheço quem, em uma conversa, mesmo que descontraída, se curve aos interlocutores e admita que não tenha razão em alguma tese, ou teoria, ou mera afirmação qualquer que defenda ou que tenha enunciado. Da boca para fora, até se pode admitir, para evitar que o papo descambe para a discussão. Mas, interiormente, quem pode jurar que essa pessoa tenha se dado por convencida?
Todos os debates a que assisti – embora eu, no meu íntimo, tenha atribuído a vitória a um dos debatedores – em termos de convencimento, sempre terminaram empatados. Ao cabo das apresentações das teses, das réplicas e das tréplicas, cada um dos contendores se manteve rigorosamente inflexível na sua posição original, sem arredar um mísero milímetro dela.
Ao debaterem projetos, moções e resoluções, no Congresso Nacional, você acredita, de fato, que algum parlamentar da situação (deputado ou senador, não importa) convença, mas convença mesmo, sem que restem dúvidas e senões, seu antagonista da oposição (ou vice-versa)? Se ambos pensassem da mesma forma, seriam do mesmo partido ou facção ideológica. Cada qual puxa a sardinha para a sua brasa e não arreda pé das suas convicções, até por mera vaidade.
Mesmo quando algum projeto é aprovado, a aprovação se dá com uma infinidade de emendas, a maioria redundante e inútil, meros penduricalhos legais, que os oponentes da proposta fazem questão de impor. Raros, raríssimos temas obtêm consenso dos parlamentares.
E isso é ruim? Não sei! Em alguns casos, é saudável, desde que as emendas corrijam omissões do projeto original e sejam, de fato, para melhorar o que foi proposto. Raramente, porém, é. Não passam de manifestações de vaidade, de quem não admite, em circunstância alguma, “dar o braço a torcer” a algum oponente. Esses debates, frise-se, dão-se, via de regra, em um clima “civilizado” (às vezes não), tendo sempre um mediador, no caso quem preside a sessão, para regulá-los.
Imagine, então, uma discussão, mesmo que seja sobre futebol, em que não haja nenhum tipo de arbitramento. Não raro, essas altercações descambam para as vias de fato ou coisa pior, como um conflito generalizado ou até mortes. Como pode nascer a “luz”, ou seja, o entendimento, o consenso ou o esclarecimento, se todos querem ter razão, embora (e principalmente) quando não a tenham?! Acho esse tipo de confronto (mesmo que o fulcro das discussões seja o de idéias), não somente uma inutilidade, uma estúpida perda de tempo, mas, não raro, até uma irresponsabilidade.
Reitero que prefiro o diálogo, sereno, maduro, lúcido, envolvendo iguais. Em caso de desigualdade, será uma covardia. O sábio jamais convencerá o néscio (e vice-versa). Se isso fosse possível, o ignorante perderia essa condição e galgaria degraus e mais degraus, rumo à sabedoria. Não galga.
É possível que ao se dialogar, com serenidade e bom-senso, quem tenha argumentos sólidos consiga convencer, minimamente, quem não o possua. Nunca, todavia, existe uma certeza, nem a esse propósito, nem a respeito de coisa alguma. Aliás, minto. Há uma determinada situação em que o resultado de qualquer debate ou discussão é único e consensual.
O escritor francês, Philippe Destouches, destaca qual é essa circunstância. Afirma, em um de seus tantos textos: “Os ausentes nunca têm razão”. Ou seja, quando se discute determinada tese, apresentada por quem não pode se fazer presente para defendê-la, ela é liminarmente derrotada, mesmo que aos olhos do mundo seja a mais lídima expressão da verdade.
Ademais, a ausência anula qualquer possibilidade de diálogo. Caso haja uma só pessoa falando, haverá, é óbvio, somente um monólogo. E a razão, nem é preciso destacar, estará (pelo menos na cabeça dele) com quem estiver monologando. Portanto, se você tiver qualquer proposta que queira ver aprovada (seja num debate parlamentar, seja numa reunião de condomínio ou em outra assembléia qualquer), não delegue a ninguém, por mais confiança que tenha nesse delegado, a sua defesa. Faça-se presente. Só assim conseguirá impor a razão (mas a sua, claro)!

Wednesday, July 29, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Há pessoas que asseguram pensar em nós, mas seus atos desmentem tal afirmação. Garantem que nos amam, mas seus olhos, gestos e procedimentos mostram exatamente o contrário e não sentimos na pele a existência desse amor. Pensamentos e palavras, via de regra, estão envoltos em falsidade e enganam mesmo os que os têm e as dizem. O que conta são atitudes, gestos, manifestações espontâneas e concretas. O amor não se traduz em palavras, mas em irrestrita entrega, em absoluta cumplicidade, em total fusão de sentimentos e aspirações. Faço minhas as palavras de Mauro Sampaio, neste poema que é um apelo (meu apelo também), intitulado “Se pensares em mim”: “Se pensares em mim, já não o penses!/Que é pensamento vão o pensamento.//Olha! Se me quiseres,/repito, já não penses./Confessa com teus sentidos, confessa/ao meu sentido atento.//Não penses em mim,/que pensamento é falso./É sempre o obscuro momento/de um sonho,/que de sonhar se esquece!”.

Surpresas do presente


Pedro J. Bondaczuk

A vida lhe dá uma infinidade de presentes diários – e quanto mais anos você tem, mais os recebe – e você, além de não agradecer, e sequer se dar conta dessas dádivas, ainda tem o desplante de desfiar imensos rosários de queixas e lamentações, dando a entender que vive sendo punido. Vá ser mal-agradecido lá na Cochinchina!!!
Só o fato de despertar, a cada manhã, vivo, com um dia inteiro ao seu dispor, para preencher com idéias e realizações, já é um imenso privilégio. Muitos sequer despertam. Claro que você não reconhece isso. Acorda azedo e mal-humorado, dando coices em todo o mundo, como um cavalo xucro que ainda não foi domado. Pensa nas inúmeras “chatices” que terá que enfrentar, a escola, o trabalho, as obrigações, com pouquíssimo tempo para diversão.
Esquece-se, todavia, que essas coisas que você considera tão chatas, são um privilégio que muitíssimos, mundo afora, não têm. Como eles ficariam felizes se tivessem! Há mais de um bilhão de desempregados, somando-se todos os países da comunidade internacional, que não têm a menor noção de como farão para se sustentar e garantir o sustento dos que deles dependem. O que essas pessoas não dariam para terem isso que você considera “chatice”?!
Ademais, você trabalha em um escritório confortável, com ar-condicionado, escrivaninhas modernas e computadores de última geração. O esforço que despende é ínfimo, quase uma brincadeira perto de tantos e tantos e tantos outros trabalhadores. A imensa maioria dos que têm emprego exerce tarefas perigosas, insalubres, braçais e com remuneração dezenas de vezes menor do que a sua. Qual o motivo da sua reclamação? Você trocaria sua “chatice” pela dessa gente toda? Duvido!
Você acha chato estudar. Não sabe, todavia, (ou se sabe, é muito mais egoísta e burro do que parece), que há, no mundo, mais de um bilhão de analfabetos. Que futuro essas pessoas podem esperar? Estão condenadas, sem remissão, à miséria, ao “apartheid” econômico e social, à nulidade, ao inferno na Terra.
Faculdade, como a sua? Nem pensar! Esse contingente imenso se daria por extremamente satisfeito se conhecesse, pelo menos, o alfabeto do seu idioma. Se conseguisse juntar as letras e formar as palavras mais simples. Se pudesse ler nem que fossem as placas das ruas ou os nomes e anúncios das lojas. Se lograsse a imensa “façanha” de “desenhar” seus nomes, mesmo que mediante garranchos.
Você se queixa do pouco tempo que dispõe para “diversão”. Mas o que você vê de tão divertido nas baladas que freqüenta, nos estádios de futebol a que comparece, nas conversas vazias e sem nenhum conteúdo com os amigos – que só têm caraminholas na cabeça e dois únicos pares de neurônios no cérebro – e nas outras tantas bobagens que você classifica como sendo “lazer”? Bilhões de pessoas, mundo afora, não têm acesso sequer a isso. E se tivessem o tempo livre que você tem, não o desperdiçariam dessa maneira inconseqüente e tola.
Mas você recebe outros tantos presentes diários da vida e sequer percebe. Os belos dias de sol, por exemplo. Milhões de pessoas no mundo vivem em lugares em que essa luz e esse agradável calor são raridades. E, ainda assim, agradecem por isso. Mesmo os dias de chuva são bênçãos inquestionáveis, embora você não os considere assim. Há regiões, densamente habitadas, do Planeta, em que chove reles dez dias por ano. Que festa os moradores desses locais não fariam se tivessem mais dias como estes dos quais você não raro reclama! Em Lima, por exemplo, não chove há já quatro anos.
Poderia passar horas e mais horas desfiando lista interminável de presentes que a vida lhe dá, todos os dias, mas não o farei. Deixarei a tarefa ao seu cargo, ao seu raciocínio, caso você tenha um mínimo de sensibilidade e inteligência para pensar, nem que seja uma única vez, nisso. Vamos lá, exercite seu par de neurônios!
Mas lhe darei, de graça, sem cobrar coisa alguma (aliás, como a vida o faz com os presentes que dá) alguns conselhos úteis, que você pode ou não seguir. O problema é só seu. Não tenho nada com isso.
Não fique com essa lenga-lenga de se referir, a toda hora, ao passado que, dada sua falta de memória, você acha que foi muito feliz. Provavelmente, nem foi. Mesmo que tenha sido, porém, passou. Jamais você irá recuperar esse tempo.
Não fantasie muito, também, o futuro, pois você nem mesmo sabe se terá um. Seu tempo pode estar se esgotando sem que você tenha a menor suspeita. Viva o presente. Faça, a cada dia, o melhor que puder. Aproveite cada segundo, mas com qualidade, sem queixas, reclamações ou grilos. .
Tempos atrás, li, em uma das colunas que Paulo Coelho publicou no jornal “O Globo”, o seguinte, que o escritor caracterizou como “provérbio do Ciberespaço” (mas que suspeito tenha sido escrito por ele): “O passado é história,/O futuro é mistério./O agora é uma caixa de surpresas./Por isso, nós o chamamos de presente”. Entendeu a mensagem, cara-pálida?!

(Crônica escrita em resposta às queixas de uma pessoa pessimista, que encara a vida como castigo, e não como o privilégio que é).

Tuesday, July 28, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A beleza, assim como a feiúra, não está nas pessoas, paisagens ou coisas. Está no nosso interior. Prende-se aos nossos gostos e critérios de avaliação estética. O que é feio para uns, pode não o ser para outros e vice-versa. Ademais, há quem considere a beleza não somente útil, como essencial e até transcendental. São os artistas, que perseguem o belo ao longo de toda a vida. Há, contudo, quem a considere inútil e banal, por viver em um mundo sombrio e cinzento, repleto de trevas e horror. Mauro Sampaio retrata o sentimento destes, no poema “Beleza inútil”: “A beleza inútil./A imóvel beleza sem reflexo./Tudo parte de dentro,/com a percepção do imponderável./O que é, não é, sendo no momento./O apelo é interior./A necessidade desaparece./O amor é desfigurado e sem memória./Os gestos pararam./O movimento é emprestado./A presença é apenas de objeto./O tédio abre a boca em um bocejo enorme e inútil./Inútil como tudo o mais!”.

Choro incessante


Pedro J. Bondaczuk

“O homem não chora”. Cansei de ouvir, quando criança, essa afirmação, feita por adultos – meus tios, meus pais e outras tantas pessoas – sempre que sofria alguma queda e abria o berreiro, como se estivesse à beira da morte. Ou quando levava alguma chinelada corretiva por ter feito o que não deveria (o que era freqüentíssimo). Após certa idade, porém – seis anos se não me engano –, passei a levar essa bobagem a sério. Queria mostrar aos outros que já era adulto e ostentar masculinidade precoce, como todo o menino que se preze (ou quase todo) faz.
Na escola, por exemplo, quando brigava com alguém (isto é, todos os dias, já que eu era um garoto espevitado e turbulento, embora não necessariamente agressivo), evitava chorar quando levava uns cascudos. Não o fazia, pelo menos, na frente dos colegas. Com isso, granjeei certo respeito da turma. Ademais, nunca apanhava sem dar, também, uns bons bofetes no rival, não importava seu tamanho.
Claro que quando ninguém me via, me debulhava em lágrimas. Mas tinha o cuidado de não aparecer na frente dos colegas com os olhos vermelhos. Não podia deixar que meu prestígio ficasse arranhado. Até hoje, ainda tenho esse comportamento tolo, embora seja um manteiga derretida de primeiríssima. Sou um feixe de emotividade, mas sei disfarçar bem. Pelo menos, acho que sei.
Nem a mulher e nem os filhos, e muito menos amigos e desafetos, podem dizer que já me viram chorando. Certamente, não viram. Por que? Chorar é algum demérito? Em absoluto! Mas evito-o por mero condicionamento de infância. Em certas circunstâncias, o choro é um santo remédio. Alivia tensões e causa uma agradável sensação de descanso, de repouso, de paz.
Quando assisto a algum filme que me emociona (não, evidentemente, os “Sexta-feira 13” da vida e outras tantas porcarias que Hollywood nos impinge), na companhia da mulher, ou dos filhos, às vezes me vejo em palpos de aranha para disfarçar minhas lágrimas. Invariavelmente, recorro ao conhecidíssimo estratagema do “cisco no olho”. Só não tenho certeza se quem me acompanha nessas ocasiões acredita ou não nessa manjada e esfarrapadíssima desculpa. Claro que não haveria mal algum em chorar, mesmo que diante de uma multidão. Reitero, contudo, que não consigo escapar daquele condicionamento de infância que mencionei: “O homem não chora”.
Será que não? Suspeito que ocorra exatamente ao contrário. Talvez não emita lágrimas na maioria dos seus “prantos”, mas todos vivemos a chorar o tempo todo, ou por acharmos que nossos projetos vão dar com os burros n’água, ou de emoção por haverem dado certo ou por “n” outras razões. O choro é a coisa mais constante e comum no mundo todo. E não me refiro ao das mulheres, mas dos marmanjos metidos a “durões”.
Entre os jogadores de futebol e torcedores, por exemplo, até já se consagrou o famoso “chororo”. Ou seja, as reclamações de atletas, técnicos, dirigentes e torcida do time perdedor. Eles atribuem, invariavelmente, (às vezes com razão, outras tantas sem motivo algum) à má atuação dos árbitros as derrotas conseqüentes da sua incompetência em campo. Isso não deixa de ser uma espécie de “choro”. E dos mais tolos e chatos.
Há, até, quem chore de verdade nessas ocasiões (e não são poucos). Principalmente se o fracasso em campo resultar em rebaixamento do seu time para alguma divisão inferior. Quando o Corinthians foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro, foi uma choradeira infernal, de milhares de pessoas, que se sentiram como se houvessem perdido algum ente querido.
No ano passado, o mesmo ocorreu com os torcedores do Vasco da Gama. Houve, até, um maluco que tentou o suicídio, ameaçando se jogar da cobertura do Estádio de São Januário, inconformado com o rebaixamento do seu time.. Felizmente, foi contido a tempo.
“O homem não chora”? Quem foi que disse? Só pode ter sido algum marmanjo e, provavelmente, dos mais chorões. O homem chora, sim, e com muito mais freqüência e bem mais feio do que o choro feminino. O choro das mulheres encanta-me, particularmente, e me comove (não raro até às lágrimas). Acho-o poético, belo, sublime. Não resisto à mulher que chora! Mas o choro de marmanjo..... Tenha a santa paciência!
O escritor francês, François Chateaubriand, escreveu a respeito, mas muita gente não gostou da sua observação. Sua constatação, contudo, é para lá de oportuna e, sobretudo, verdadeira. Afirmou, em um dos seus tantos textos: “A vida obriga-nos incessantemente a chorar, quer por antecipação, quer por recordação”. Ou não é o que acontece?! O homem não chora?! Ora, ora, ora, que mentira mais deslavada!

Monday, July 27, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Tudo, aos nossos olhos, envelhece: pessoas, coisas, cidades, pensamentos, sentimentos etc. Devemos, porém, atentar que tudo, também, se renova, às vezes para melhor, outras para pior, mas fica sempre novo. É a inflexível lei da vida. Não raro, a decadência está, apenas, em nosso interior, por enxergarmos tudo com lentes desfocadas. Temos é que acertar o foco se aspirarmos a felicidade (eu, pelo menos, aspiro). Mauro Sampaio esclarece o que eu quis dizer, neste profundo poema, intitulado “Cidade Velha”: Cidade velha, ou o velho está dentro de mim/a imaginar o fim de tudo/sem, entender que o fim na verdade sou eu?!//Estes sulcos na rua/estes cães tão magros e imundos,/não seriam muito mais meus conhecidos/do que penso que o são?/Estes sulcos, já não os vi no meu espelho?/Estes cães, não os trago na alma?”. Perspectiva. Tudo é, portanto, questão de perspectiva, de ângulo, de foco com que nos encaramos, e ao próximo e a tudo o que nos rodeia.

Aprendizado e compreensão


Pedro J. Bondaczuk

O aprendizado e a compreensão nem sempre (ou quase nunca) andam juntos, de mãos dadas, embora haja quem os considere sinônimos. Evidentemente, não são. Podemos, por exemplo, aprender a operar determinada máquina (um computador, para citar a mais comum), sem que compreendamos, sequer minimamente, a razão do seu funcionamento, ou seja, seu hardware e seu software. O mesmo ocorre em relação a inúmeros outros processos, trabalhos, mecanismos e conceitos, nas mais variadas atividades e na própria vida.
Vivemos aprendendo, aprendendo e aprendendo, diariamente, do berço à tumba, mas, na maioria das vezes, sem compreender significados e necessidades. Caso sejamos bem-educados, por termos nascido em lares sadios e bem-estruturados, em que reinem o amor e a cooperação, ensinam-nos, em tenra idade ainda, que devemos ser corteses, amáveis, justos e respeitadores intransigentes dos direitos alheios.
Aprendemos tudo isso mesmo sem compreender a razão. A compreensão do por que isso é preciso, nos relacionamentos – quer familiares, quer sociais, quer profissionais – só vamos conseguir (e isso quando conseguimos) muitos anos depois. Alguns, por um motivo ou outro, jamais compreendem.
Quando eu era adolescente, tinha, no antigo ginásio, aulas de latim. Achava uma chatice ter que aprender declinações, conjugações de verbos e todas as regras gramaticais de uma língua tida como morta. Aprendia as lições ensinadas até por necessidade (ai se não aprendesse), para não vir a ser reprovado e ter de me explicar para os meus pais.
Depois de um certo tempo, conseguia traduzir, sem muito esforço e praticamente sem erros, textos enormes sobre os sete reis de Roma ou expedições militares de Júlio César, entre outros. Tenho esse conhecimento, óbvio, até hoje.
Não compreendia, na ocasião, porém, a razão dessa matéria constar no currículo. Fui compreender, apenas, anos depois, já maduro, o quão privilegiado fui por ter acesso a esse conhecimento. Quem não o teve, não faz a menor idéia do que perdeu.
O aprendizado do latim possibilitou-me, entre outras coisas, o entendimento da origem de boa parte das palavras deste idioma que tanto amo e que cultuo com interesse e veneração: nossa língua portuguesa. Afinal, elas se originaram dessa antiga e tradicional matriz que, agora sim, começa a morrer de vez. Nem a liturgia da Igreja Católica a utiliza mais.
E o latim, recorde-se, é importante não apenas para se aprender bem o português. Se quiser conhecer razoavelmente suas “irmãs”, o espanhol, o francês e o italiano, que igualmente tive o privilégio de aprender, ele serve de excelente base. E mesmo o inglês, por estranho que possa parecer, já que quase a metade dos termos que constam em seus dicionários proveio dessa raiz.
Como se vê, aquilo que um dia me pareceu um tormento sem fim, se transformou em fonte inesgotável de satisfação. Mas isso aconteceu somente depois que cheguei à compreensão. A baronesa alemã, que foi excelente escritora em língua germânica, Marie von Ebner Eschenbach, constatou, a esse propósito: “Na juventude aprendemos, na maturidade, compreendemos”. Geralmente, é o que, de fato, acontece.
Mas isso não funciona, assim, como regra universal, absoluta e inflexível, como uma espécie de dogma que não possa ser contestado. Há determinadas coisas que somos capazes de compreender na mais tenra infância e há outras que não conseguimos nunca, mesmo que venhamos a viver cem anos ou mais. Não se trata, pois, de questão cronológica, mas de interesse, disciplina, força de vontade, acuidade mental etc.etc.etc..
Ademais, os níveis de compreensão não são uniformes. Ou seja, não são iguais para todo o mundo (assim como os de aprendizado também não são). Há graduações e mais graduações, e em ambos os casos.
Uns aprendem mais facilmente que os outros. Da mesma forma, há os que compreendem até os conceitos mais complexos, das artes, ciências, filosofia etc. com extrema facilidade, enquanto existem outros tantos, muitos outros (provavelmente a maioria) que jamais logram chegar sequer minimamente a essa compreensão.
Claro que o ideal é contarmos com esses dois fatores que sustentam e definem a própria racionalidade desta espécie paradoxal e contraditória, simultaneamente. Aprender qualquer coisa e, ao mesmo tempo, compreender sua essência, mecanismos e utilidades, é uma bênção, que nem sempre nos acontece. E isso independe de qual faixa etária nos situamos ou de quantos anos vivemos.

Sunday, July 26, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Somos todos meros turistas no mundo. Não somos daqui e não viemos para cá para ficar para sempre. Aliás, esta palavra soa absurda, quando aplicada a nós. Alguns, instalam-se por algumas horas somente, se tanto. Outros, vão ficando, ficando e ficam por cem anos ou mais. Mas um dia, como todos, vão embora. Para onde? Não sei! Você sabe? Talvez acredite que sim. Supõe que vá para determinado lugar e passa a crer nessa suposição, baseado na fé. Mas saber, saber de fato, você sabe? Claro que não! O recanto turístico, de uns tempos para cá, está superlotado, depredado, poluído, a cada dia mais quente, a cada dia com ar mais irrespirável, a cada dia mais violento e injusto. Alguns, preocupam-se em repará-lo para os futuros turistas. Outros, gozam de suas delícias e querem se apropriar do que não lhes pertence. Não pertence a ninguém. Um dia, partem como todos e não deixam, sequer, registrado o nome no livro de registros. Afinal, não somos daqui.

DIRETO DO ARQUIVO


Erros e acertos sandinistas

Pedro J. Bondaczuk

A Nicarágua inicia hoje, com a posse de Violeta Chamorro na Presidência, uma nova fase de sua história, toda ela marcada por violência e pelo caudilhismo. O presidente que deixa o poder, Daniel Ortega, pode ter frustrado as esperanças da maioria dos nicaragüenses em relação à revolução sandinista, que derrubou a longa ditadura do clã dos Somozas. Mas é indispensável que a sua gestão seja avaliada por um enfoque absolutamente isento, sem tolos e primários maniqueísmos. Tem-se que considerar que durante a totalidade de sua gestão, ele permaneceu acossado por um severíssimo embargo econômico norte-americano, aliado a um permanente estado de guerra com a guerrilha dos "contras" (treinada e financiada pelos Estados Unidos), e tendo ainda como uma "sombra" sempre presente a ameaça implícita de uma invasão dos "marines" de Tio Sam.

Com tudo isso, Ortega cometeu de fato alguns "arranhões" nas liberdades democráticas em seu país (e a maioria dos seus críticos faria o mesmo, senão pior, em circunstâncias idênticas). Por exemplo, censurou a imprensa, fechando emissoras de rádio e mantendo o jornal "La Prensa", órgão da nova presidenta nicaragüense, por muito tempo fora de circulação. Limitou a atuação dos partidos e andou determinando algumas prisões de opositores por razões puramente políticas. No entanto, o regime sandinista tem um saldo bastante positivo a seu favor, no que diz respeito à educação, por exemplo, reduzindo praticamente pela metade a taxa de analfabetismo no país. Obteve algumas conquistas igualmente expressivas na área de saúde. E tudo isso sem contar praticamente com qualquer recurso financeiro.

Mas, no nosso entender, o principal legado de Ortega foi a redemocratização da Nicarágua. Foi o fato de ter respeitado a "voz das urnas", quando todos esperavam que ele fosse fraudar as eleições de fevereiro passado, para se conservar no poder. No entanto, ao invés de realizar uma pantomima eleitoral, promoveu um dos pleitos mais fiscalizados da história contemporânea da América Central (e talvez do mundo) e submeteu-se à vontade popular.

A responsabilidade de Chamorro fica agora multiplicada. Sua vitória, por exemplo, retira o principal obstáculo que Ortega teve que enfrentar para administrar o país: o embargo econômico norte-americano. Além disso, ela começará seu governo com uma alentada injeção financeira, da ordem de cerca de US$ 300 milhões, determinada pela Casa Branca. No plano político, terá que agir com muito tato, para evitar que ressentimentos de uma guerra civil de dez anos venham à tona, explodindo em violência. Estaria, esta dona de casa, sem grande experiência administrativa, preparada para tanto? Oxalá que sim, para o bem de todos os nicaragüenses.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 25 de abril de 1990)

Saturday, July 25, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A noção do infinito é tão profunda e absurda, para mentes efêmeras e finitas, que não há quem dele tenha a verdadeira compreensão. Pense em alguma coisa – no espaço, por exemplo – que nunca termine. Você avança, avança e avança e sempre há o que avançar. Além de não ter fim, não tem princípio. Você retrocede, retrocede, retrocede e nunca chega ao ponto de partida. Por que? Porque não há um! Só compreende essa noção, e a sua correspondente, ou seja, a da eternidade, quem é Eterno e Infinito e que criou essa imensidão sem fim. Ou seja, Deus. Se essa noção, por si só, já é complexa, Mauro Sampaio coloca nela ainda mais complexidade, nos versos finais do poema “Meditação para o Ano Novo”: “A última hora, a que esmaga o tempo,/renasce no Tempo./Chegado o limite, principia o limite do ilimitado,/E aí sim, o Tempo infinito/só cabe no tempo da aceitação./E este é o milagre:/na última hora do primeiro minuto se resume o infinito!”.

Soneto à doce amada - XXXIII


Pedro J. Bondaczuk

Aos poucos meu sonho de amor mais caro,
minha mais doce e sublime quimera,
meu sentimento, tão terno e tão raro,
mistura-se, assim, nas brumas de outra era.

Um dia triste, cabisbaixo e só,
enfim vencido no embate da vida,
sentindo na garganta rude nó
do pranto contido na alma ferida,

hei de lembrar-me dos doces momentos
em que frases de flor, ricas, sonoras
e coloridas de raro matiz

fugiam de meus lábios nessas horas.
A ti hei de volver meus pensamentos,
pedindo a Deus que sejas feliz!

(Soneto composto em Campinas, em 27 de outubro de 1967).

Friday, July 24, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Nossa maior tarefa no mundo (diria que a única) é a de construir nossa biografia, com pensamentos, sentimentos, atos, fatos e objetivos. É a de amar sem limites (não importa quem), mesmo que o amor nos cause dores (se causar) e frustrações. Ele sempre vale a pena. É sonhar, ter fé, esperança e força de vontade e sair em busca dos nossos sonhos, com coragem, ousadia e determinação, por mais elevados e supostamente irrealizáveis que sejam. É relevar mágoas, dores, iras e fracassos e nos sentirmos felizes a cada momento, já que felicidade é um estado de espírito. Em suma, é exercermos nossa humanidade. Mauro Sampaio resume essa tarefa nestes magníficos versos finais do poema “Esquecer a vida”: O que aconteceu antes/é o que passou na forma e no espaço./O que está, não está, é um constante movimento./O Princípio nasceu de um Sonho./O que se sente da vida, quando se repara nela,/é que só vale pelo sonho que é,/ou pelo sonho que fazemos dela!”.

Melhor é fazer e se arrepender


Pedro J. Bondaczuk

“Ah! Se arrependimento matasse!”. Quem nunca fez, ou pelo menos nunca pensou em fazer, esse tipo de desabafo? Quem jamais se arrependeu de coisa alguma? Alguns, até, podem afirmar que não se arrependem de nenhum ato que praticaram, que se pudessem retroceder no tempo e começar a vida do princípio, fariam tudo o que já fizeram da mesmíssima maneira, sem alterar nada. Estão mentindo, claro. Ou, se não estiverem, sequer se conhecem direito.
Arrependimentos temos, e em profusão, quase que diariamente. Até os santos (claro, se ainda existir algum) arrependem-se de alguma coisa que fizeram ou deixaram de fazer. Porquanto arrependemo-nos tanto de ter feito o que não deveríamos (e que nos trouxe resultados nefastos, quando não desastrosos) quanto de não haver agido em momentos que exigiam ação. Aliás, estes últimos, suspeito, são em muito maior quantidade e mais incômodos.
Por que, por exemplo, não buscamos reconciliação, quando isso ainda era possível, com a pessoa amada, após uma das tantas briguinhas conjugais, tão comuns entre casais que se amam (e que são até mesmo necessárias para esclarecer determinadas pendências), deixando que uma barreira de ressentimentos e mágoas ofuscasse, e depois matasse, o amor?
Trata-se, como se vê, de arrependimento de desastrosa omissão, determinada, quase sempre, por um orgulho tolo e sem sentido, apenas para “não dar o braço a torcer”. Ou seja, apostou-se tanto em tão pouco. E isso, convenhamos, é extremamente comum e corriqueiro. Muitos, muitíssimos já se arrependeram disso. Talvez nunca admitam para ninguém, nem para si mesmos, mas que tiveram esse arrependimento, ah, isso tiveram! A menos que não gostassem, de fato, da pessoa a quem juravam amor. Mas se gostavam...
O que levou, por exemplo, determinada pessoa a reagir violentamente a uma reprimenda do pai, deixando sua casa e nunca mais voltando a falar com ele? Será que quem agiu dessa forma nunca se arrependeu desse tipo de atitude? Nunca sentiu falta dos conselhos e da orientação desse alguém que tanto se importava com seu presente e seu futuro? Nunca pensou em retribuir, mesmo que minimamente, o que esse benfeitor lhe fez? Que benefício sua atitude intempestiva trouxe e para quem? Há casos e mais casos desse tipo, ditados, apenas, e tão somente, por um orgulho tolo e inútil, gerando sofrimento, dor e solidão.
Será que há alguém que nunca se arrependeu de oportunidades perdidas? Que não lamente haver aberto mão de empregos compensadores, apenas por causa de algum chefe chato ou por não querer se enquadrar nas normas de disciplina da empresa? Que não tenha comido o pão que o diabo amassou só por não ser perseverante, autodisciplinado e aplicado no que sabia fazer bem?
Conheço casos e mais casos assim. Sei de carreiras potencialmente brilhantes, interrompidas, abruptamente, em decorrência de atos impensados. Se quem agiu dessa forma se arrependesse em tempo e tentasse consertar a bobagem que fez, é provável que tudo seria esclarecido e a vida seguiria seu curso. Mas não o fez no devido tempo. E quando se arrependeu... já era tarde, muito tarde.
Não há, por outro lado, ninguém que tenha se arrependido de determinada opção, que tinha todas as evidências de fracasso, e que, por teimosia, decidiu, mesmo assim, fazer, à revelia de conselhos, alertas e admoestações, contrariando tudo e todos?
Ninguém nunca se arrependeu, por exemplo, de haver adquirido determinado vício, do qual não consegue se livrar e que transforma sua vida em sucursal do inferno? Ou de haver abraçado certa causa, claramente nociva, apenas para mostrar suicida espírito de rebeldia?
“Ah! Se arrependimento matasse!”. O melhor, óbvio, seria viver de tal sorte, com tamanha prudência, sabedoria e correção, que nunca existisse a menor necessidade de se arrepender do que quer que fosse. Mas isso é possível? Talvez o seja, por um certo tempo. Contudo, por todo o tempo... tenho minhas dúvidas.
Os piores arrependimentos talvez sejam em relação ao que poderíamos ter feito e não fizemos. Não sei se existe alguma escala de excelência nessa questão. Talvez não haja. Todavia, a menos que se tenha cometido algum crime, pelo qual seja necessário pagar o devido preço, concordo com o escritor italiano Giovanni Boccaccio, autor do tão conhecido “Decamerão”, quando afirmou que “mais vale agir na disposição de nos arrependermos do que nos arrependermos de nada termos feito”.
A omissão, ah, a omissão! Que tremendo pecado mortal é esse, em relação ao mundo e a nós mesmos! Esse impõe arrependimentos, mesmo que tardios, “ad aeternum”!! E o pior é que, se arrepender nessas circunstâncias, jamais remediará o pecado de não se ter agido quando se poderia e deveria agir!

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Thursday, July 23, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Assustamo-nos com abismos, principalmente quando caminhamos na direção deles e nos parece que não há outros caminhos. Caso não detenhamos nossos passos, e não busquemos, serenamente, soluções, despencaremos no vazio e esse será o fim da nossa jornada. Será que não há alternativas? Não existem explicações para nossas dúvidas, temores e contradições? Sempre há alguma. E se não houver, se não compreendermos o que nos aflige e atormenta, deixemos tudo por conta da intuição, que nunca falha e do tempo, que tudo cura. O abismo não é o fim do caminho. Para superá-lo, não precisamos nos lançar nele. O sensato, prudente e sábio é contorná-lo, mesmo que a caminhada se torne mais longa. O poeta Mauro Sampaio nos ensina, nos versos do poema “Justificar-me”: “Tanta compreensão que não compreende nada,/que o melhor/é a não explicação de explicação alguma./É sentar-se à beira de um abismo/e vê-lo como o caminho natural para a planície!”.

Dias longos e dias grandes


Pedro J. Bondaczuk

O tempo transcorre, obviamente, sempre com a mesma uniformidade, embora nos pareça, às vezes, notadamente quando passamos dos 60 anos, que se acelerou e passou não mais a fluir lentamente, como ocorria quando éramos crianças, mas a correr loucamente, acelerando, crescentemente, sua passagem.
Quantas vezes já não dissemos, ou não ouvimos outros dizerem: “nossa, como este ano passou depressa!”. Claro que se trata de mera força de expressão. Mas que nos parece ter acelerado, disso não restam dúvidas. Sobretudo, quando nos sentimos felizes, ao lado da pessoa que amamos e que nos corresponda a esse amor..
Apesar dessa impressão de aceleração, todavia, o tempo permanece rigorosamente igual, por exemplo, ao que era nos tempos em que Sócrates orientava seus discípulos, em que Platão registrava em livros seus ensinamentos, em que se deu a ascensão e queda do Império Romano e vai por aí afora. Os anos têm, invariavelmente, 365 dias (ou 366, a cada quatro anos, para compensar resíduos anuais); o dia, 24 horas; a hora, 60 minutos e o minuto, 60 segundos. Nada, absolutamente nada mudou nesse aspecto.
Somos nós que preenchemos o tempo com um acréscimo enorme de atividades (algumas úteis e necessárias e outras tantas frívolas e tolas), o que nos dá essa sensação, muitas vezes desagradável, de aceleração. Certamente não teríamos nada disso se fôssemos imortais, permanentes, imperecíveis. Como não somos...
As pessoas que, por uma razão ou outra, (ou por doença, ou por preguiça, ou por acomodação ou por outro motivo qualquer) não têm a quantidade de atividades das que são ativas, têm sensação diametralmente oposta à delas. Ou seja, para elas, o dia parece ter 72 horas ou mais; as horas, 360 minutos e os minutos alguns milhares de segundos. O tempo parece arrastar-se preguiçosamente, sem nenhuma pressa.
Às vezes, temos essa sensação na infância, por termos pressa de crescer e fazer o que os adultos fazem, que nesse período nos parece o suprassumo do bem. Claro que cedo descobrimos que não é bem assim. Mas... então já é tarde, é muito tarde.
Enfocando a questão, digamos, de um ponto de vista filosófico, não raro confundimos “dias longos” (ou que nos pareçam assim) com “dias grandes” (que é o que aspiramos). Os primeiros, são aqueles já abordados que nos parecem que não irão terminar nunca. Os segundos, são os especiais, em geral escassos, como o encontro da amada, nossa formatura, nosso casamento com a pessoa que temos certeza que se trate da “cara metade” que tanto procurávamos, o nascimento de um filho, o sucesso em alguma empreitada etc.etc.etc.
Tanto um, quanto outro, todavia, podem ser modificados mediante ações. Os dias longos tendem a ser “encurtados” quando os preenchemos de atividades. Melhores ainda serão se estas forem úteis e produtivas e não banais e inúteis, que denominamos, eufemisticamente, de lazer.
Já os dias grandes, em geral bastante raros, podem ser multiplicados se nos aplicarmos e formos assíduos e competentes no que sabemos fazer melhor. Refletir é importante, mas agir é muito mais. Sobretudo quando se age no sentido da prática do bem.
Henri Bérgson afirmou, a propósito: “Quando um homem passa toda a sua vida a procurar a verdade, ele se pergunta se não teria feito melhor em empregar sua existência a praticar o bem”. A resposta é óbvia. Entre a reflexão e a ação, só a segunda é produtiva. Claro que muitas vezes se age em sentido destrutivo, o que é, até, mais fácil, e nessas circunstâncias a inação seria preferível.
Ninguém constrói nada apenas com o pensamento, por mais correto e virtuoso que este seja. Se a virtude não é posta em prática, perde, liminarmente, esta característica. Não adianta você sentir-se bom, justo e caridoso se não praticar essa bondade, essa justiça e essa caridade.
O padre Antonio Vieira afirmou, em um dos seus memoráveis sermões: “O sol pode fazer dias longos; dias grandes só os fazem e podem fazer as ações”. Aja, portanto, você, que se sente traído pelo tempo. Não se preocupe com a velocidade com que este flui, que é apenas aparente e subjetiva. Faça da qualidade o seu objetivo. Transforme, agindo, eventuais dias longos em dias grandes e inesquecíveis, para você e para o mundo. Você pode! Todos podemos!

Wednesday, July 22, 2009

REFLEXÂO DO DIA


O dinheiro, desde que este símbolo para facilitar a troca de mercadorias e serviços entre as pessoas foi criado, na mais remota Antiguidade, se transformou em obsessão para os homens. Alguns colocam-no como objetivo supremo de vida e não como, apenas, uma das suas necessidades (talvez a principal, mas isso é contestável) para assegurar a subsistência no tipo de sociedade em que vivemos. Não nego que ele seja necessário, pois negar essa evidência seria o máximo de alienação, quando não de falsidade. O que contesto é tornar seu acúmulo como o objetivo supremo de vida, ou seja, como um fim em si, e não como mero meio..Jean Paul Getty, magnata norte-americano do petróleo, que nos anos 60 foi considerado o homem mais rico do mundo, definiu bem essa obsessão de muitos (da maioria) por esse símbolo que o próprio ser humano criou: “Quando não se tem dinheiro, pensa-se sempre nele. Quando se tem, pensa-se somente nele”. Infelizmente!

Arrogância e inconsciência


Pedro J. Bondaczuk

Os verdadeiros “descobridores” das coisas que realmente importam são todos anônimos. Nenhum deles “patenteou” sua “invenção”, para explorá-la comercialmente. Contudo, há inúmeros indivíduos alardeando, aos quatro ventos, terem “descoberto a pólvora”, ou seja, inventado o que acham que antes não existia, sem que de fato o tenham feito. O que lhes falta é conhecimento, é consciência, é humildade, é informação.
Quem inventou a roda? Ninguém sabe! Quem foi o primeiro a obter o fogo mediante o atrito de duas pedras, ou por outro meio qualquer? Quem teve, pela primeira vez, a idéia de criar as letras do mais primitivo dos primitivos alfabetos? Quem inventou os números? Quem teve a genialidade de criar o símbolo que representa o nada, a ausência, o “zero”, que deu tamanho impulso à matemática e a todas as demais ciências que têm nela instrumento essencial? Estão vendo? Ninguém sabe!
E o questionamento poderia seguir, linha após linha, preenchendo páginas e mais páginas e sabe-se lá onde poderia parar.. Por que os “inventores” desses objetos e processos, que deflagraram o progresso e a civilização dos povos, nunca os patentearam? “Bem, porque não havia, na ocasião, nenhum órgão de registros e patentes”, dirá o cidadão que adora obviedades. Não havia mesmo, é evidente.
Mas por que o nome desses anônimos “descobridores” não se fixaram na memória de seus descendentes, até chegar a nós? Porque sua intenção, certamente, não era a busca de notoriedade, mas de proporcionar conforto e segurança para eles mesmos e para as comunidades em que viviam. A fama, certamente, nunca os seduziu. E muito menos a intenção de enriquecer com ela. Esta, pelo menos, é a ilação mais lógica que se pode extrair do seu anonimato.
Afinal de contas, o que é a “descoberta”? Esta é uma pergunta que não tem absolutamente nada de original, não é apenas minha, mas que, certamente, já vem sendo feita, com miríades de variações, e repetida, repetida e repetida desde os tempos mais remotos, geração após geração.
Um dos que a fizeram, por exemplo, foi o gênio da Literatura universal, o poeta alemão Johann Wolfgang Goethe, que lhe acrescentou o seguinte: “E quem pode dizer que descobriu isto ou aquilo? Que grande loucura é afinal alardear a prioridade nesta matéria. Porque não querer confessar abertamente o plágio é arrogância e inconsciência”.
Ou seja, por mais criativos que nos achemos, salvo raríssimas exceções (se é que elas existam), somos, na verdade, eminentes plagiadores. Tomamos determinada idéia, que achamos que seja original (mas não é, pois a colhemos alhures), acrescentamos um ou outro detalhe, algum ingrediente provavelmente até supérfluo e pronto. Julgamo-nos um poço de sabedoria e inventividade. Isso, no entender de Goethe (e no meu, evidentemente) é arrogância. E mais: é inconsciência.
Claro que sou tentado a achar que estas minhas reflexões estão revestidas, se não por completo, pelo menos parcialmente, de absoluta originalidade. Mas estariam? O que conheço eu de literatura universal? Qual o escritor uzbeque que já li? Ou bengali? Ou paquistanês? Ou hutu? Ou dos milhares de povos que há, espalhados mundo afora? Como me achar original e inventivo depois de 13 milênios de civilização, com um número incontável de pessoas que já passaram pelo Planeta, que refletiram, estudaram e escreveram páginas que nunca chegaram e nem chegarão ao meu conhecimento?
Nada disso, porém, invalida a filosofia, nem a incessante busca por conhecimentos, nem a pesquisa científica e nem, sobretudo, a Literatura (que, no meu caso, é a minha grande paixão). O que não podemos é ser arrogantes e presunçosos e nos acharmos “geniais”, por contarmos com um “tantinho” de inteligência.
Temos que deixar de lado nossa propalada auto-suficiência e admitir que não passamos de anões e que nos parecemos gigantes, aos que nos observam, apenas por estarmos de pé nos ombros dos que na verdade o foram. Ou seja, dos nossos verdadeiramente inventivos, no entanto anônimos, antepassados.
Se Goethe, reconhecidamente um gênio da Literatura mundial de todos os tempos, negava a mais remota possibilidade de ser “descobridor”, e, portanto, original, quem sou eu, que não conto com o mínimo resquício da sua genialidade, para me sentir minimamente inventivo?! Definitivamente, não sou!

Tuesday, July 21, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Entendo o amor apenas como um sentimento irrestrito, que envolva a totalidade de um homem e uma mulher: corpo, alma, pensamentos, sentimentos, ideais e tudo isso mutua e simultaneamente, sem nenhuma restrição ou pudor. É verdade que a palavra designa muitas outras emoções, a meu ver, de forma equivocada. Quando há, por exemplo, apenas atração sexual entre dois parceiros, eles têm desejo, mas não se amam. Saciada a vontade, resta o vazio, quando não até repulsa entre ambos, até que voltem a se desejar fisicamente (quando voltam). O simples afeto, sem atração carnal, é só amizade. A necessidade irresistível de um pelo outro, mas com a idéia de que o sexo tira a pureza do sentimento, é belo, é poético, mas não é amor. É platonismo. O poeta português, Alexandre O’Neill, escreveu estes versos a propósito: “Na nossa carne estamos/sem destino, sem medo, sem pudor,/e trocamos – somos um? Somos dois? –/espírito e calor!//O amor é o amor – e depois?”

Intérpretes dos pensamentos


Pedro J. Bondaczuk

As palavras são muito mais enganadoras e perigosas do que ousamos admitir. Teoricamente, seriam intérpretes fiéis dos pensamentos. Mas são? Na maioria das vezes, não! E como poderemos saber que aquilo que alguém diz (ou que nós dizemos) expressa com absoluta fidelidade o que pensa? Não podemos. Só nos resta acreditar ou não.
Não raro, sequer há maldade da parte de quem diz (ou, pior, escreve) alguma coisa e pensa outra, diametralmente oposta. Às vezes, quem o faz se utiliza de palavras inadequadas, por desconhecer seu sentido lato ou outra correspondente que seja mais clara. Quer manifestar, por exemplo, apreciação por alguém ou por alguma obras e declara exatamente o contrário (e vice-versa).
É, amigos, as palavras são perigosas. Daí tantos conflitos interpessoais e até entre nações. Neste último caso, é até mais provável algum erro de interpretação, dadas as diferenças de idioma. Existem, entre línguas e dialetos, mais de vinte mil catalogados! O mundo, como se vê, é uma gigantesca Torre de Babel.
Uma tradução desastrada, da declaração de um presidente, ou de um ministro, ou de um general (ou seja lá de quem for), pode desembocar (e não raro desemboca) até numa sangrenta guerra entre dois ou vários países. A História registra uma infinidade de casos em que pensamentos e intenções foram mal-interpretados quando expressados oralmente ou por escrito.
E na atualidade, as coisas parecem, até, mais perigosas do que em tempos ainda recentes. É previsível que assim seja, até pela quantidade maior de pessoas que habitam o Planeta. A humanidade levou mais de um milênio para atingir o primeiro bilhão de habitantes. Levou menos de um século para chegar ao segundo. Mas foram necessárias, apenas, pouco mais de três décadas para chegar aos 6,7 bilhões dos indivíduos atuais.
Quanto mais cabeças pensantes há (e presume-se que todas o sejam), mais pensamentos serão gerados e necessitarão de um meio de serem expressados. E interpretados, claro. Estatisticamente, portanto, a probabilidade de o serem de maneira ambígua são, agora, infinitamente maiores do que eram, digamos, na década de 70 do século XX.
Não por acaso, os conflitos se multiplicam, mundo afora. A violência campeia e boa parte desses atos violentos é gerada por discussões tolas, sem sentido ou lógica, que descambam, via de regra, para agressões verbais e, pior, físicas, não raro letais. Ou seja, ocorrem por causa de palavras mal-interpretadas, possivelmente por serem mal-utilizadas.
Não adianta se argumentar que se disse ou se escreveu determinada coisa com a “melhor das boas intenções”. De bem-intencionados, o inferno está repleto, muito mais povoado do que nosso planetazinha azul neste início do terceiro milênio da Era Cristã.
Já escrevi, em outras oportunidades, a respeito da necessidade de critério e de responsabilidade em relação ao que se diz e o que se escreve. Nunca é demais, todavia, reiterar certas verdades, que as pessoas detestam ouvir (e muito menos ler), mas que têm que ser detectadas e reveladas.
A palavra, mal-utilizada, é uma das piores (se não a pior) armas de ataque que existem. Destrói, sem dó e nem piedade, relacionamentos que tinham tudo para prosperar e se consolidar, como se estes fossem de papel. Fere suscetibilidades e gera a contrapartida, de reações violentas. Acaba com reputações. Arruína vidas. É bomba não raro até de efeito retardado.
O único escritor de língua portuguesa a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, constatou, a respeito, em recente entrevista: “A palavra deixou de ter conteúdo e de ter qualquer coisa dentro. É pronunciada com uma leviandade total”. Claro que se trata de generalização. Nem todos agem, assim, pelo menos não o tempo todo. Mas Saramago não deixa de ter razão.
As palavras, portanto, não são os melhores intérpretes dos pensamentos. Talvez jamais o fossem, embora não se possa afirmar com segurança. Mas há outro meio mais seguro para expressar o que de fato pensamos? Há, porém não estamos habituados a sequer lhe prestar alguma atenção.
E qual é esse veículo que pelo menos não comporta tantas ambigüidades? Deixo a resposta ao irlandês James Joyce, autor do criptográfico “Ulisses”, campo inesgotável de interpretações de toda a sorte (talvez nenhuma condizente com o que pensou ao escrever essa obra), acessível a pouquíssimos leitores, que afirmou: “As ações dos homens são os melhores intérpretes dos seus pensamentos”. Eu ousaria acrescentar: “são os únicos”. Mas quem atenta a elas?

Monday, July 20, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Há uma palavra que designa aquela que deveria ser encarada como uma das maiores (senão a maior) das virtudes humanas e que, no entanto, dado seu uso inadequado e distorcido, chega a causar arrepios, quando não náuseas, em muitas pessoas. Refiro-me ao termo “moral”. Não há como contestar a necessidade desse conceito em qualquer sociedade, seja familiar ou nacional. Trata-se de um conjunto de normas tácitas, implícitas, gerais e universais que, se respeitado, assegura os bons costumes sociais e a própria civilização. Contudo, em nome da moral foram, são e infelizmente serão cometidos os maiores crimes e as mais covardes perseguições, notadamente em tempos de guerra. Esse uso inadequado e distorcido desgastou, sem dúvida, a palavra, embora não deva e nem possa desgastar, e nem negar a necessidade da sua prática. Trata-se do freio indispensável à animalidade humana, aos baixos instintos e à prevalência da força sobre a razão. É, pois, imprescindível.

Regularidade e beleza


Pedro J. Bondaczuk

O artista (não importa de qual arte) tem sensibilidade superior à média, muito mais aguçada que as pessoas comuns. Conta, por exemplo, com raro dom de vislumbrar beleza onde ninguém, que não tenha esse senso estético tão apurado, sequer suspeita que exista.
Enxerga as coisas comuns, aparentemente banais, sob um prisma diferente da maioria, que surpreende os que não têm esse dom. Ouve sons que para os outros é mera algaravia dissonante de ruídos, nos quais detecta harmonia e musicalidade.
Sente, na ponta dos dedos, nuances que tornam asperezas e rusticidades em coisas suaves, refinadas e belas. Distingue olores especiais onde parece haver, somente, cheiro acre e enjoativo de decomposição, quando não de podridão.
Descobre sabores inusitados – mistura exótica de doce, salgado, azedo e amargo – em frutos e alimentos que para a maioria sabem a um gosto, se não desagradável, pelo menos não atrativo. Sim, amigos, a culinária também é arte. E das mais difíceis, porém prazerosas.
Essa sensibilidade acima da média, porém, não se manifesta, apenas, ocasionalmente. Uma vez ou outra, quem não é artista, também a tem. Neste, todavia, ela está incorporada à sua personalidade, faz parte da sua pessoa. Está ali, sempre presente, e ocorre, sobretudo, com regularidade. Esta é a palavra-chave do talento. Sua busca por beleza é permanente, incessante, obsessiva até. E por tanto procurá-la, encontra-a, amiúde, e em profusão, embora, via de regra, sequer se dê conta de que a encontrou. .
O escritor alemão do século XVIII, Georg Phillip Friedrich von Hartenberg, conhecido pelo pseudônimo de Novalis (também chamado de “Profeta do Romantismo”) escreveu, certa feita: “Na verdade, o pintor pinta com a vista. A sua arte é a de ver tudo com regularidade e beleza”.
Claro que esta constatação vale, igualmente, para as demais artes, apenas substituindo os olhos por outros sentidos, como ouvidos, nariz, tato e papilas gustativas, quando for o caso. O comum para todos é o fato do artista utilizar a aguçada sensibilidade que tem com “regularidade e beleza”.
O conceito de belo é subjetivo. O que é bonito para uns, pode não ser para outros e vice-versa. É o artista que lhe confere universalidade e, em determinadas ocasiões, até unanimidade, o que, convenhamos, é bastante raro.
Arte não é algo que se possa fazer ocasionalmente. Da concepção de uma obra, até a sua conclusão, transcorre um tempo imenso, sobretudo esta última parte. Seu executor praticamente nunca se satisfaz com o resultado do que produziu. Encontra, a todo o momento, imperfeições onde o leigo nunca suspeitaria que houvesse.
Batalha, incessantemente, para encontrar o jogo mais apropriado de luz e sombra e a tonalidade mais adequada de cor em sua pintura. Busca, obsessivamente, a nota musical mais expressiva e harmônica na composição musical que produz, cuja diferença, talvez, só ele consiga perceber. Garimpa a palavra mais precisa, que torne clara e sem qualquer ambigüidade cada estrofe de um poema, ou cada parágrafo de um conto, ou cada descrição de um cenário, no caso de se tratar de escritor.
Por mais que o produto final da sua concepção original pareça perfeito aos que o rodeiam, o artista nunca se satisfaz. Não raro, paga preço proibitivo por sua hipersensibilidade. Sofre demais e chega a lamentar por seu talento. Faz arte pela arte e raros conseguem um padrão pelo menos razoável de vida, do ponto de vista material.
Esquece-se de tudo e de todos na sua busca regular por beleza. E empenha-se por perpetuá-la em tintas, em pedra, em metal, em sons, em textos, em perfumes, em sabores etc.etc,etc, Consegue, mesmo que não se convença.
Fosse deixado para impor sua vontade, possivelmente jamais completaria qualquer obra de arte, tamanha a obsessão que tem pela perfeição. Permaneceria, enquanto vivesse, a burilar, a pincelar, a rasurar, a corrigir, incessantemente, “defeitos” que apenas ele vislumbra.
Instado a dar por concluída sua produção, a contragosto, parte para outra obra, mas com a mesmíssima regularidade e com igual relutância em concluí-la, no momento do arremate final. É, pois, previsível, pelo menos nesse aspecto.
Creia-me, amável leitor, sei do que estou falando. Sou tomado a todo o instante por essa incontrolável obsessão, que me faz detestar tudo o quanto escrevo, a despeito da freqüente (provavelmente generosa) apreciação alheia.

Sunday, July 19, 2009

REFLEXÂO DO DIA


As palavras, como os homens que as criaram, em qualquer dos milhares de idiomas existentes, guardam certa hierarquia entre si. Algumas são nobres, respeitáveis e nos inspiram à simples pronúncia, mesmo que isoladas, esparsas ou fora do contexto. Outras, nomeiam vícios, taras, horrores e perversidades. São a ralé dos dicionários. Outras, ainda, chegam a ser interditas pela moral, por soarem ofensivas. São as marginais do idioma. A palavra amor, por exemplo, traz à lembrança o rei dos sentimentos, aquele que, quando temos, no torna semelhantes (jamais iguais) ao Criador. Fé, esperança, caridade, alegria e felicidade são outras que compõem esse séqüito de nobreza. O poeta Alexandre O’Neill (que, a despeito do sobrenome, nasceu em Portugal) foi extremamente feliz ao constatar, nestes versos do poema “Há palavras que nos beijam”: “Há palavras que nos beijam/como se tivessem boca./Palavras de amor, de esperança,/de imenso amor, de esperança louca”.

DIRETO DO ARQUIVO


Agilidade em servir

Pedro J. Bondaczuk

A ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 1979, Madre Teresa de Calcutá, é uma figura impressionante no mundo de hoje. Nem tanto pela sua forma de trajar, bastante pobre e despojada. Nem mesmo por suas palavras, embora estas sejam sensatas e brilhantes, onde se sente uma permanente sinceridade. O que impressiona nessa magnífica freira, independente da religião que se tenha, é o seu dinamismo na hora de servir o próximo. O seu senso prático, que passa por cima de barreiras políticas, ideológicas e de todos os outros tipos, que os povos colocam para dividir irmãos de espécie.

O exemplo mais recente disso é a sua ação junto aos flagelados atingidos pelo devastador terremoto de domingo passado, na região do Himalaia, que matou pelo menos 1.250 pessoas e cujas cifras poderão crescer bastante, na medida em que se for possível chegar aos locais afetados.

Enquanto entidades de socorro internacionais permanecem emaranhadas na selva burocrática do Nepal, para liberar a indispensável ajuda aos desabrigados, Madre Teresa passou por cima de tudo isso. Sem prometer coisa alguma, sem fazer nenhum alarde pela imprensa, eis que essa monja magnífica desembarcou, sem avisar ninguém, sem pedir licença ou liberação, no aeroporto de Katmandu, na noite de anteontem, com um farto carregamento de mantimentos para os atingidos pela catástrofe.

Seu procedimento aberto, abnegado e sobretudo pragmático, já lhe abriu portas que ninguém conseguiu abrir antes. Por exemplo, não faz muito, esteve na União Soviética, um país oficialmente ateu, onde encantou as autoridades e o povo locais. Mesmo após ter falado acerca de um assunto delicadíssimo: da infância abandonada da URSS. Só que os soviéticos perceberam que a sua intenção ao abordar o assunto estava longe de ser a de fazer propaganda contrária ao regime desse país. Madre Teresa nunca se importou com essa pequenez. Pelo contrário, a ágil monja decidiu abrir uma de suas milhares de casas de amparo, espalhadas pelo mundo todo, também em plena Moscou.

Este é o tipo de ativismo que a humanidade precisa. Despido de todo e qualquer tipo de preconceito. Que assiste o ser humano que esteja necessitado quer ele seja branco, preto ou amarelo. Seja católico, budista ou muçulmano. Defenda o marxismo ou o capitalismo. Para ela não importa. São pessoas que precisam dela. Sua missão é somente "servir", sem esperar coisa alguma em troca que não seja o conforto do indivíduo assistido. É por isso que essa monja, com seu hábito surrado e remendado e com seu cajado rústico, entra de cabeça erguida em qualquer ambiente, em palácios de reis e presidentes. É homenageada e glorificada por potentados. E, sobretudo, é amada pelos humildes da Terra, pelos despossuídos, que têm na figura dessa dinâmica freira a única esperança de socorro nos momentos de aflição.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 27 de agosto de 1988)

Saturday, July 18, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A vida pode ser comparada a uma escola, na qual jamais nos graduamos. Quanto mais aprendemos, mais temos a aprender, num aprendizado que nunca tem fim. Nossas primeiras lições – aparentemente triviais, mas indispensáveis à sobrevivência – consistem em aprendermos a nos alimentar, sugando, corretamente, o seio da mãe; a erguer sozinhos a cabeça; a sentar; a engatinhar e, finalmente, a andar. Às vezes, esse aprendizado é traumático e doloroso. Outras tantas, é envolvido em estimulantes prazeres. Mas sempre aprendemos, do berço à tumba. E quando morremos, deixamos infinitas lições para trás. Todavia, o mais importante acontecimento da nossa vida é quando nos conscientizamos do nosso “eu”. É somente a partir daí que começamos a exercitar, de fato, nossa racionalidade. Claro que as conseqüências dessa lição nunca são iguais para todos. Alguns, ficam felizes por adquirirem a capacidade de entender e usufruir da beleza que os cerca. Outros, porém, decepcionam-se com a descoberta de que não passam de animais, posto que racionais. Concordo, pois, com Leon Tolstoi quando afirma: “O mais importante acontecimento da vida de um homem é o momento em que se torna consciente do seu eu; as conseqüências disto podem ser as mais benéficas ou as mais terríveis”.

Soneto à doce amada - XXXII


Pedro J. Bondaczuk

Quando a Alba beijar os teus olhos
e a negra noite, enfim, fenecer,
quando em meio às acácias e abrolhos
da ternura minha alma embeber;

quando a estrela azul do meu sonho,
minha finda ilusão, a mais vã,
quando o canto irreal que componho
se perder pra além de Alderabã;

quando a Aura brincar mansamente,
em sussurros suaves, sem fim,
tendo a lua, serena, dormindo,

partirei sem rancor, de repente...!
Irei triste, só, porém sorrindo
e deixando-te tudo de mim!

(Soneto publicado na "Gazeta do Rio Pardo", em 18 de agosto de 1968).

Friday, July 17, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Há cenas bucólicas, aparentemente banais, em geral bastante simples, que sem que nos apercebamos, ficam gravadas para sempre em nossa memória e que, quando as lembramos, o fazemos com deleite e satisfação. Paisagens, pessoas bonitas e bondosas, atos de nobreza e solidariedade, acontecimentos marcantes dos quais participamos como personagens, ou meros espectadores, formam uma espécie de álbum de imagens, que nos inspiram e consolam em momentos de tristeza e solidão. É um privilégio podermos ler, por exemplo, versos singelos, de uma beleza que chega a doer de tão intensa, como estes dois tercetos do soneto “Recreio”, do poeta português Alberto de Serpa: “Na claridade da manhã primaveril,/ao lado da brancura lavada da escola,/as crianças confraternizam-se com a alegria das aves.//E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis/a mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,/- um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas”.

O que não tem volta


Pedro J. Bondaczuk

O escritor italiano do século XVI, Horácio Riminaldo, escreveu, certa feita: “As coisas que nunca voltam atrás: o tempo depois de passado, a ocasião depois de perdida, a pedra depois de atirada e a palavra depois de proferida”. “Ah, mas isso é o óbvio dos óbvios”, dirá, certamente, aquele sujeito enjoado, que gosta de contradizer tudo e todos. E, de fato, tem razão. Todavia, apesar dessa absoluta obviedade, muitos não se dão disso no seu cotidiano.
Vivemos, por exemplo, tentando resgatar um passado que – como as águas de um rio – não tem a mínima possibilidade de retorno, em detrimento da construção de um presente, se não maravilhoso, pelo menos um tantinho melhor. Essa atitude, ademais, não é exceção, porém regra. Todos, de uma forma ou de outra, variando aqui e ali de intensidade, agimos assim. Isso embora, como diria o sujeito enjoado a que me referi, “seja o óbvio do óbvio”.
Quanto às ocasiões perdidas... quantos não há que lamentam amargamente as oportunidades que deixaram escapar por entre os dedos, por medo, desconfiança ou seja por qual motivo for? Seja sincero, leitor: isso nunca aconteceu com você? Você aproveitou todas, rigorosamente todas as ocasiões que lhe apareceram no caminho para progredir, crescer espiritualmente e, sobretudo, para ser feliz? Duvido!
Há, até, alguns malucos que tentam resgatar pedras que atiram, depois que estas estão no ar. Conheço inúmeros que agem dessa maneira (metaforicamente e até mesmo literalmente). Claro que não conseguem, mesmo que sejam exímios prestidigitadores.
Quanto a palavras proferidas... Dizemos, muitas vezes, o que sequer queríamos, a pessoas que estimamos e às quais jamais deveríamos dizer e, quando surge o resultado (a toda a ação corresponde uma reação), nos arrependemos. Aí já é tarde! A palavra maldita foi proferida e não retornará jamais à nossa boca, como se nunca houvesse sido dita. É quando desabafamos – com algum amigo ou, na maioria das vezes com os próprios botões –: “Se arrependimento matasse!”. Não mata, mas nos torna um pouco mais infelizes.
Como se vê, a judiciosa observação de Riminaldo é, e simultaneamente não é, o “óbvio dos óbvios”. É mister que se esclareça que, embora o passado nunca volte atrás, resgatá-lo nem sempre é um ato insano, inútil e/ou insensato. Não, claro, para revivê-lo, já que a tal “máquina do tempo” existe somente no cinema, mas para fins didáticos. Ou seja, para não repetir os mesmos erros que cometemos e, por outro lado, para reiterar os acertos. Isso não é nenhum exercício fútil e inútil. Trata-se de agir com sabedoria, aprendendo com a mestra das mestras: a vida.
Tenho minha forma simples e pragmática de observar meu passado e extrair dele lições para o presente e, quem sabe, para o futuro. Há mais de duas décadas, adquiri o hábito de escrever um diário. Não falhei, até hoje, um único e reles dia. Claro que esse balanço cotidiano é incompleto. Imaginem o volume que daria detalhar, mesmo que resumidamente, tudo o que fazemos, pensamos, sentimos e queremos do amanhecer ao anoitecer! Haja poder de síntese!
Ninguém consegue resumir 24 horas de vida em irrisórias 25 linhas (que é o tanto que escrevo a cada dia), por mais vazia e monótona que ela seja (e a minha não é). Registro os acontecimentos (e reflexões, por que não?) que considero mais importantes. Não raro essa avaliação é desastradamente errônea. Subestimo alguns fatos, que mais tarde se revelam de enorme importância e, em contrapartida, superestimo outros tantos, que se esvaziam no dia seguinte e não produzem nenhuma conseqüência. Em linhas gerais, porém, tenho mais acertado do que errado.
Lidos isoladamente, de maneira aleatória, sem a devida contextualização, esses registros, não raro, parecem sem sentido. Contudo, no conjunto, mostram-se coerentes e conseqüentes, para a minha íntima satisfação.
É evidente que não terei o mínimo controle sobre esses diários se – enquanto estiver vivo ou quando um dia morrer – caírem, digamos, em “mãos profanas”. Por isso, a despeito de se tratarem de anotações íntimas, procuro ser o mais discreto possível, para que as palavras de hoje não deponham contra mim amanhã. Mas não me limito a não registrar desejos, ações e reflexões secretas, que não gostaria que ninguém soubesse. Evito de tê-los, o que é muito mais seguro, numa permanente e implacável fiscalização sobre meus atos, pensamentos e sentimentos.
Ainda assim, há páginas que contêm tremenda amargura, face a determinadas circunstâncias que na ocasião em que foram escritas me pareciam terríveis, até catastróficas, mas que com o passar dos dias se revelaram brandas e não tão pavorosas assim. Mal chego a me identificar nesses registros amargos e às vezes pessimistas, pois quem de fato me conhece, sabe que não sou assim. Pelo contrário, sou alegre, bem-humorado e incorrigível otimista, um “meninão”, como costuma me caracterizar uma amiga que tanto prezo. .
Há, por outro lado, páginas e mais páginas que nem parecem de um diário, mas que são verdadeiros poemas, sobretudo de amor e de embevecimento face à beleza, que com um retoque aqui e outro ali, bem que caberiam, sem fazer feio, em um livro de poesia. Todavia, esses dois extremos me sugerem que devo ter ainda maior cuidado com o que escrevo. Pois, se a palavra proferida, como observou Riminaldo, jamais haverá de retornar à minha boca, imaginem a escrita, que sequer sei em quais mãos pode parar!

Thursday, July 16, 2009

REFLEXÂO DO DIA


Devemos ter extrema cautela com as informações e, principalmente, com imagens com as quais alimentamos, diariamente, o nosso espírito. Nosso subconsciente não é seletivo, como é o consciente. Não estabelece filtragem de valores, separando o bem do mal. Grava tudo, absolutamente tudo o que vemos, ouvimos e sentimos. Caso, na vida cotidiana, nos fartemos de imagens de atos de degradação e de destruição alheios, através do noticiário, do cinema e da televisão, corremos o risco do nosso subconsciente incrementar nossa instintiva agressividade individual e interferir, para pior, em nossa personalidade. Queiram ou não, as cenas terríveis, mostradas por determinados filmes, se constituem, de fato, numa aprendizagem da crueldade. Subconscientemente, podemos ser incitados à imitação e nos tornarmos, à nossa revelia, pessoas violentas e destrutivas. O sociólogo francês, Philipe Saint-Marc, faz a seguinte advertência a respeito: “Não existe uma substituição da agressividade individual, mas a aprendizagem da crueldade, o incitamento à imitação, à reprodução na vida cotidiana de atos de degradação ou de destruição que excitaram a imaginação do espectador”. Portanto, cautela!

Verdadeira juventude


Pedro J. Bondaczuk

A velhice começa em qual idade? Há não muito, pessoas que mal passavam da faixa dos 50 anos já eram consideradas “velhas”. E assumiam-se como tal. Os progressos da medicina, todavia, bem como a melhor qualidade dos alimentos, da água e dos medicamentos estenderam bastante esse limite. Recentemente vimos, em reportagem da ESPN Brasil, um cidadão do Nordeste que, aos 52 anos, ainda é jogador profissional de futebol.
Romário encerrou a carreira aos 42. O volante Fernando, do Santo André, tem essa mesma idade e ainda continua defendendo o seu time, no Campeonato Brasileiro da Série A, com fôlego de dar inveja a muito garotão que atua nas categorias de base dos clubes.
Hoje, considera-se que aquilo que se convencionou chamar, eufemisticamente, de “Terceira Idade”, tem início quase duas décadas depois. Ou seja, aos 65 anos. E, pelo andar da carruagem, esse teórico limite da maturidade deverá (logo, logo) ser estendido para 80 ou mais aniversários.
Escrevi inúmeras vezes, e reitero aqui, que juventude e velhice não é questão cronológica, de calendário, mas um estado de espírito. Não me canso de repetir que conheço inúmeros “velhos” de 18 anos, desanimados, sem perspectiva e buscando a fuga da realidade no álcool e, não raro, nas drogas, e muitos “jovens” prestes a atingir a idade centenária.
Exagero? De forma alguma! Querem um exemplo? Alguém que não conhecesse Barbosa Lima Sobrinho pessoalmente – que foi por um tempão presidente da Associação Brasileira de Imprensa – e que lesse, com atenção e assiduidade, os textos que escrevia aos cem anos (isso mesmo, em idade centenária) para o Jornal do Brasil do Rio de Janeiro diria, em sã consciência, que se tratava de um “velho”? Duvido! Era tamanha a sua lucidez, tão grande o seu entusiasmo, tão ativa a sua participação na vida do País, que se diria que se tratava de um moço de 20 anos, se tanto.
E esse não é um caso único e nem o mais surpreendente. Conheço inúmeros outros. Meu avô Hilarion Bondaczuk, por exemplo, foi um desses “jovenzinhos” centenários. Com 98 anos completos, beirando os 99, veio, sozinho, de Porto Alegre a Campinas, apenas para conhecer pessoalmente suas novas bisnetas, minhas filhas, que na ocasião tinham dois e um ano, respectivamente. Faleceu, somente, um dia após completar 105 anos, e de morte natural. Ou seja, lúcido e saudável.
Por isso, está mais do que na hora de se pôr fim a esse estúpido preconceito em relação às pessoas que já fizeram, por exemplo, mais do que 65 aniversários. A estupidez desse comportamento preconceituoso fica mais evidente ainda quando se recorda que todos, absolutamente todos (a menos que a morte colha alguém antes, na juventude ou na maturidade, por exemplo), um dia iremos envelhecer. E as idéias que consolidarmos, a respeito das pessoas idosas, se voltarão, então, por inteiro, contra nós. Seremos, considerados inúteis, pesos mortos para a família e a sociedade, com mentalidade de criança ou de uma pessoa insana, mesmo que não sejamos assim. Por que? Porque alimentamos, ou ajudamos a alimentar esse preconceito.
Meu pai sempre dizia, do alto de sua sabedoria de homem simples, mas sensato: “Pedrinho (foi assim que sempre me chamou), lembre-se que você irá dormir na cama que arrumar”. Ou seja, tudo o que fizermos, de bom ou de ruim, um dia nos produzirá conseqüências, boas ou más.
O pai da psicanálise, Sigmund Freud, em entrevista dada a George Silvestre Vierek, para “Glimpses of the great”, em 1930, (reproduzida pelo jornal “Folha de São Paulo”, em 3 de janeiro de 1998), observou a respeito: “Biologicamente, cada ser vivo, por mais forte que arda nele o fogo da vida, tende ao nirvana, deseja que a febre chamada vida chegue ao seu fim. Podemos jogar com a idéia de que a morte nos alcança porque a desejamos. Talvez pudéssemos vencer a morte, se não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós. Assim, poderíamos dizer que toda morte é um suicídio encoberto”.
Ou seja, nós, subconscientemente, é que abrimos mão da vontade de viver. Isso, no meu entender, é o que determina a tal da “velhice”. Pode ocorrer tanto aos dezoito anos, quanto aos cem. Não se trata, pois, como não me canso de reiterar, de questão cronológica, mas de “cabeça”.
Aliás, achei Freud sumamente pessimista nesta entrevista, que oportunamente prometo abordar, para tratar de outros aspectos que o ilustre psicanalista também abordou. Nessa questão específica, porém, concordo plenamente com o que o padre Roque Schneider escreveu: “Ser jovem é ter os olhos molhados de esperança e adormecer com problemas, na certeza de que a solução madrugará no dia seguinte”. E isso nós podemos fazer, se tivermos estrutura espiritual para tanto, quer aos 16, 18 ou 20 anos, quer aos cem.

Wednesday, July 15, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A vida, evento aparentemente raro na vastidão do universo, é farta, abundante e profícua neste nosso planetazinha azul, tão judiado e maltratado pelos insensíveis e insensatos. Há bilhões de espécies de animais, insetos e vegetais (algumas impossíveis de serem vistas a olho nu) já catalogadas. Constantemente, os biólogos descobrem novas, até então desconhecidas (e não raro exóticas) formas de vida. Contudo, todas, sem exceção, estão adstritas às mesmíssimas regras, e a idêntico ciclo, impostos pela natureza: nascimento, desenvolvimento, acasalamento, reprodução e morte. Não precisamos, pois, procurar muito para encontrar vida ao nosso redor. Mesmo quando achamos que estamos sós, há sempre algum ser vivo, animal ou vegetal, nos fazendo companhia, sem que nos venhamos a dar conta. O poeta português, Alberto de Serpa, expressa, nestes versos do poema “Riqueza”, a inutilidade e os riscos dessa procura: “Por parques e praças/ruas e travessas,/tu, meu olhar, caças/a vida. E tropeças.”.

Espanto e surpresa


Pedro J. Bondaczuk

A capacidade de sentir (e de manifestar) espanto face a acontecimentos inusitados ou incompreensíveis e, sobretudo, com o mistério da vida, e surpresa diante de ações e reações (próprias e/ou alheias) é a principal característica das pessoas “inteligentes” (no sentido lato da palavra, ou seja, das que entendem, posto que minimamente, sua condição humana).
Muitos já não a têm. Alguns, nunca a tiveram. É uma lástima! Albert Einstein escreveu, em seu livro “Como vejo o mundo”, que “se alguém não conhece esta sensação, ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram”. Exagero do cientista? Longe disso!
Há quem jamais tenha sequer tentado fazer um exercício mínimo de racionalidade. Estes jamais se questionaram, por exemplo, sobre o que de fato são, qual a posição que ocupam na escala animal e que propósito suas vidas têm. Afinal, queiram ou não, tudo no universo tem algum motivo e objetivo, mesmo que não tenhamos capacidade de discernir quais são.
Há quem viva por viver. Estes são incapazes de raciocinar por si sós e têm que ser “programados” para exercer funções mínimas que os caracterizem como humanos. Argumenta-se, amiúde, com a falta de oportunidades dessas pessoas, o que não deixa de ser real. Para pensar, todavia, sequer é necessária qualquer instrução. Há pessoas analfabetas que, no entanto, são inteligentíssimas e entendem, mesmo que intuitivamente, o que muitos doutores, com inúmeros diplomas acadêmicos, jamais entenderão.
Nosso remoto ancestral, por exemplo, não tinha instrução nenhuma, óbvio. Não sabia ler e nem escrever, porquanto sequer o primeiro e rústico alfabeto havia ainda sido inventado. E, no entanto, soube como sair da caverna primitiva, domar a natureza, adaptar-se às suas forças e leis e lançar os fundamentos da atual civilização. O homem contemporâneo, com toda sua empáfia e arrogância, não passa de pigmeu intelectual. Tudo o que faz e que pensa, não passa, em certa medida, de plágio, posto que com acréscimos pessoais (pudera!) das obras e pensamentos dos remotos ancestrais. Só parece gigante por estar nos ombros deles.
Todos somos dotados desse mecanismo fantástico que nos permite, entre tantas coisas, nos espantarmos e nos surpreendermos. Afinal, todos somos dotados dessa capacidade que nos distingue não só dos demais animais, mas de todos os seres vivos: o raciocínio.
Como não se espantar ao contemplar, por exemplo, numa noite de Lua Cheia, o céu estrelado e ver, até onde nossa vista alcança, milhões, bilhões, quiçá trilhões de pontos de luz, cada um deles um sol, a maioria de dimensões até cinco vezes maiores do que o nosso, muitos dos quais com vários planetas ao redor e (conforme as probabilidades matemáticas) com cerca de 300 mil com o tamanho e as características da Terra? São habitados? Por que (tanto faz se a resposta for positiva ou negativa)? Em caso positivo, por quem? Há vida inteligente alhures? Onde?
Infelizmente, esse mistério não causa a menor emoção em muitos (diria, na maioria), que se julgam “realistas”, objetivos (na verdade não passam do que o jornalista Nelson Rodrigues classificava de “idiotas da objetividade”). A que realidade eles se referem?
Que realismo é esse em que os que se dizem dotados dele sequer intuem (e nem mesmo se questionam) “quem” (ou “o que”) são? Em que não os preocupa saber onde estão? Em que não manifestam a menor curiosidade sobre para que existem, e para onde vão, ao cabo de parcas dezenas de anos (se tanto), se é que há algum destino além deste, material?
Einstein concluiu (e por isso também merece a justa classificação de “gênio”, de um dos raros gigantes da espécie), que essa intensa emoção causada pelo mistério da vida “é o sentimento que sustenta a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência”. Sem ela, estaríamos, todos, ainda, nas cavernas primitivas (se não fôssemos, claro, destruídos antes, o que é mais provável, dada nossa incrível fragilidade física, comparada à força dos demais animais), desorganizados, nos digladiando por comida, apavorados com os fenômenos naturais ao nosso redor, sem contar, sequer, com uma linguagem coerente para nos comunicar, grunhindo como os símios, com os quais temos algumas semelhanças.
Há tanta coisa que nos causa espanto e é mister que seja assim. Mas nossa condição humana exige que busquemos entender o que nos espantou, mesmo que não o consigamos. Temos o instrumental necessário para procurar esse entendimento. É nossa obrigação fazê-lo, até em respeito à nossa descendência.
Outrossim, não podemos deixar morrer em nós a capacidade de nos surpreender, com a beleza, com o horror, com a bondade latente, com a maldade, com a justiça, com a violência, com o bem e o mal etc. E, sobretudo, a de nos espantar, sempre, com os inúmeros mistérios que cercam a vida.

Tuesday, July 14, 2009

REFLEXÂO DO DIA


A paixão, em si, é cega, e, a priori, nem é um bem e nem um mal. Cabe-nos direcioná-la, para que se torne uma força irresistível e benigna que atue a nosso favor. Sem ela, nada do que fizermos atingirá a excelência e a perfeição. A paixão é como um legítimo cavalo puro-sangue. Um animal desse tipo, forte, saudável e veloz, pode nos levar com mais rapidez e segurança a qualquer lugar que queiramos. Para isso, porém, é indispensável que seja domado. Se for xucro, nos derrubará da sela antes que sequer consigamos piscar. Para nos ser útil, é indispensável que estabeleçamos com o animal uma relação de mútua confiança, até mesmo de amizade. A paixão também é assim. É mister que se lembre que ela pode ser definida como um comprometimento irrestrito e absoluto, sem dúvidas ou vacilações, com uma pessoa, uma idéia ou uma causa. Antes de montarmos, portanto, no tal puro-sangue, é indispensável que tenhamos completa certeza da excelência de quem ou do que queremos conquistar. Ou seja, temos que “domá-la”. Estabelecida, porém, essa convicção, nada é mais seguro e rápido do que, no dorso do “cavalo” da paixão, galoparmos, livres e confiantes, rumo ao sucesso e à felicidade. O humanista Daisaku Ikeda, líder budista, nos alerta, contudo, em seu livro “Vida um enigma, uma jóia preciosa”: “Controlar a paixão é como correr num cavalo desembestado. Se as rédeas são relaxadas por um instante, o cavaleiro pode ser jogado fora da sela. O certo é dominar e utilizar as forças e energias, de modo que o cavaleiro e o animal se movam como se fossem um só”.

Campinas: do bonde ao trem de alta velocidade


* Pedro J. Bondaczuk

Na oportunidade em que completa o 235° ano de fundação, Campinas não apenas mantém, como amplia, sua irresistível vocação de pólo irradiador de riquezas e de progresso para todo o País. É, hoje, fundamental entroncamento rodo-ferroviário e conta com um dos aeroportos brasileiros com as melhores condições de visibilidade e segurança – Viracopos –, subutilizado, todavia, em seu imenso potencial. Há, no entanto, projetos de longo-prazo que prevêem não somente sua ampliação e modernização, mas, principalmente, sua ligação, mediante um trem de alta velocidade (nos moldes dos TGVs da França e Alemanha, do trem-bala japonês ou do que faz a ligação entre Dover e Calais através do Eurotúnel, sob o Canal da Mancha, no Mar do Norte) com o Aeroporto de Cumbica, em São Paulo.
A cidade já nasceu com vocação para a modernidade. Aliás, na verdade, surgiu em função dela, como a sinalizar seu brilhante futuro. Destaque-se que o acanhado burgo que a originou surgiu em função de uma “estrada” – na verdade mera picada aberta na densa mata que aqui existia por volta de 1722 – conhecida como “Caminho Geral dos Goiases” ou “Estrada dos Goiases”. A data aceita pela maioria dos historiadores, como a da sua fundação, é 14 de julho de 1774 (há, contudo, quem ainda a situe em 1739), quando da inauguração da tosca capela, coberta de sapé, no local onde hoje se localiza o monumento de Carlos Gomes, no centro da Campinas contemporânea.
Havia, na ocasião, pelo menos quatro pousadas na área, onde os viajantes paravam para descansar, se alimentar e dar comida aos animais, antes de seguirem viagem – de ida, para o Centro Oeste, ou de volta, rumo a São Paulo de Piratininga.
Campinas apresentou, desde a fundação, três grandes ciclos econômicos e sociais em seus 235 anos de existência: o do açúcar (1895 a 1830), o do café (1830 a 1930) e o da industrialização (1930 até os dias atuais). Seu período de maior urbanização ocorreu a partir do final dos anos 70 do século XIX, com a implantação do primeiro serviço regular de transportes coletivos, no caso os bondes a tração animal.
Destaque-se que até 1842, a então vila chamava-se São Carlos. Foi “rebatizada” como Campinas com a elevação à condição de município. Esse era um período de grande prosperidade. O café, que havia predominado no Vale do Paraíba, deslocou seu eixo de produção para cá e se adaptou a caráter ao solo campineiro. Fez, como se sabe, a riqueza dos fazendeiros locais, que apostaram, ousadamente, em sua cultura e se deram bem. O dinheiro corria farto, proporcionando uma série de facilidades e melhoramentos urbanos. A partir de 1912, o bonde se consolidou ainda mais como meio de transporte de massa, com a sua eletrificação.
A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, porém, seguida pela superprodução de café, que redundou em sua crescente desvalorização, arruinou dezenas de produtores da cidade, num processo doloroso e dramático. Em contrapartida, deflagrou-se, nessa mesma ocasião, um processo econômico que perdura até os dias atuais: o da industrialização. A partir do final dos anos 50, com a implantação da indústria automobilística no País, o automóvel passou a reinar soberano, em detrimento dos demais meios de transporte. E o bonde não suportou por muito tempo essa concorrência. O derradeiro deles circulou na cidade em 24 de maio de 1968, tornando-se, desde então, mera peça de museu e pondo fim a um período romântico na cidade.
A industrialização veio para ficar e redundou em uma explosão populacional na cidade. Subitamente, Campinas saltou de uma população pouco superior a duas dezenas de milhar de habitantes para os atuais 1,2 milhão. Todavia, não perdeu, jamais, sua inequívoca vocação de pólo irradiador de riquezas, cultura e progresso. .