Tuesday, January 06, 2015

Europa ganha três novos países



Pedro J. Bondaczuk


A Europa ganha três novos países independentes, Lituânia, Letônia e Estônia, que haviam perdido sua autonomia em conseqüência do escuso, imoral e no entanto durável pacto Molotov-Ribbentrop, feito entre a União Soviética de Joseph Stalin e a Alemanha de Adolf Hitler, partilhando um continente que sequer estava conquistado.

Há, ainda, a possibilidade do novo mapa político europeu sofrer o acréscimo de novos Estados, notadamente a Geórgia e a Moldávia, igualmente anexadas ao império comunista durante a Segunda Guerra Mundial; e a Croácia e Eslovênia, desmembradas da Iugoslávia.

Há quem preveja outras alterações ainda mais dramáticas. Objetivamente, contudo, o separatismo deverá parar por aí, por uma série de motivos, entre os quais o principal é a inviabilidade econômica de outras sociedades nacionais da região que sonham com a autonomia.

Os povos bálticos vão iniciar uma nova vida tendo pela frente problemas de imensa magnitude. Primeiro, terão que se adaptar à nova situação de não mais dependerem dos outros para tomar as decisões que os afetam. Precisarão desarmar os espíritos, pacificar a população e evitar um problema típico de casos como esse: o revanchismo.

Se lituanos, letões e estonianos iniciarem uma "caça às bruxas" aos seus cidadãos que foram leais à União Soviética enquanto os agora três novos países eram meras Repúblicas do gigantesco império comunista, será um mau começo.

O primeiro passo, fundamental e indispensável para enfrentar os desafios da autonomia, é a coesão nacional. É a união de todas as correntes, de todas as ideologias, de todas as forças, num único objetivo. E este, certamente, é a construção de uma sociedade justa, ordeira, humana e próspera.

Outro ponto a ser encarado é o da formação de lideranças. Durante os 51 anos de sujeição, poucos líderes emergiram e os povos bálticos não podem e nem devem incorrer no mesmo erro dos africanos da era pós-colonial. Os mentores da independência da África transformaram-se, em pouquíssimo tempo, de heróis da nacionalidade em perversos caudilhos.

O poder corrompe, principalmente quando é absoluto. É indispensável que os novos Estados surjam com instituições sólidas e sempre sob o amparo das leis. As urnas, em eleições freqüentes, livres e soberanas, precisam ser os grandes juizes da vontade popular e jamais conchavos de gabinete e compadrismos políticos, uma tentação da qual poucos países conseguem escapar, devem ser sequer tolerados.

O fundamental, sobretudo, é um bom relacionamento com a URSS. Que ninguém se equivoque sobre o que está ocorrendo na União Soviética, achando que ela irá se desagregar e perder todo seu peso político e sobretudo militar na Europa e no mundo.

Quem raciocinar dessa maneira estará demonstrando sequer conhecer geografia. Basta alguém pegar qualquer mapa e verificará, facilmente, que, sob qualquer prisma --- inclusive o econômico, desde que haja uma administração sensata --- a Rússia sozinha é e sempre será potência.

O sociólogo e historiador francês, Emmanuel Todd, alertou: "As pessoas enterram a Rússia como se enterra o comunismo. Mas se o comunismo é uma ideologia, um modo de organização econômica que está falindo, a Rússia continua sendo um grande país. Se contarmos o coração eslavo, da URSS --- Rússia, Ucrânia e Bielorrússia --- teremos um total de 210 milhões de habitantes. Não se pode, portanto, conceber a política mundial e européia como se o peso russo não existisse mais".

Aliás, os bálticos terão que resolver uma série de pendências com Moscou, agora que são independentes. São questões que vão desde os arsenais nucleares soviéticos à delimitação de fronteiras. Claro que com "duas pedras nas mãos", tais casos não serão resolvidos sem conflitos.

Será necessária boa vontade de ambas as partes e possivelmente um arbitramento internacional, provavelmente das Nações Unidas. Para o mundo, a independência da Lituânia, Letônia e Estônia foi um fato positivo. Acabou com uma situação de ilegalidade, que perdurou por meio século.

(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 4 de setembro de 1991).


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