Saturday, May 24, 2014

Quais seriam as intenções?


Pedro J. Bondaczuk


O êxodo que se verifica atualmente, de alemães orientais, fugindo em massa para o Ocidente, utilizando o território da Hungria, permite ao observador tirar uma série de conclusões. A primeira é a de que ainda há sistemas que, não satisfeitos com o repudio que recebem, pretendem se impor à força a toda uma nação, como se fosse possível transformar todo um Estado numa imensa penitenciária.

Os cidadãos, em tais sociedades, sentem-se prisioneiros e reagem como qualquer ser humano que viva encarcerado reagiria. Ou seja, fazem da fuga uma autêntica obsessão. A outra lição que o fato nos ensina é que a chamada "guerra fria", que caracterizou as relações entre o Leste e o Oeste no pós-guerra, está muito longe de ter acabado, embora tenha amainado sobremaneira.

Um lado faz e fará tido para depreciar o outro. Isto parece estar arraigado em toda uma geração, como se fosse uma segunda personalidade dela. A terceira conclusão que se tira é que os refugiados são classificados de acordo com a sua etnia, o que mostra que o racismo, o preconceito estúpido e calhorda que já levou o mundo a duas guerras e pode levar a uma terceira, está mais vivo do que nunca.

Recentemente, as autoridades germânicas ocidentais pediram providências à mesma Alemanha Oriental, cujos cidadãos seu Estado está recebendo agora de "braços abertos" (não se nega aqui o gesto humanitário, o que se discute são as suas motivações) para que não permitisse o enorme fluxo de pessoas procedentes do Oriente Médio para o seu território.

Elas poderiam argumentar, como de fato o fizeram, temer que junto com gente pacífica, terroristas também entrassem no país e causassem problemas. Só que os atos de terrorismo cometidos por imigrantes procedentes dessa região, na Alemanha Ocidental, são possíveis de se contar nos dedos de uma só mão. O que há é preconceito mesmo.

Aliás, por falar nisso, veja o leitor o que está acontecendo com os sofridos refugiados vietnamitas em Hong Kong. Os chamados "boat people", que receberam essa denominação por terem como único bem as fragílimas e insalubres embarcações em que fogem do Vietnã em busca de uma vida melhor (a maioria, embora seja impossível de estimar quantos, morre afogada no mar) são indesejados não apenas nessa colônia britânica, como em qualquer outra parte.

Esse pessoal não é recebido por ninguém com flores, bolos e nem champanhe. É escorraçado e devolvido ao ponto de origem, mesmo depois do heroísmo demonstrado durante a fuga, quando afronta perigos incríveis em busca da tão sonhada liberdade. Mas será que esta ainda existe em alguma parte alhures? Ou esse conceito tão belo não passa de mera expressão retórica, bonita de se usar, mas rara de se praticar?

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 13 de setembro de 1989).


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