Sunday, May 11, 2014

Dois condores dos Andes

Pedro J. Bondaczuk

Os poetas Gabriela Mistral e Pablo Neruda estão entre os meus preferidos, tanto por razões óbvias – ou seja, pela perfeição técnica de sua poesia e pela emoção que eles transmitiram em seus versos mágicos e emotivos – quanto por motivos puramente sentimentais, ligados diretamente à minha vida. Isso acontece com a maioria das pessoas. Não é raro elegermos determinadas músicas, ou certos filmes, ou mesmo um livro especial como sendo marcantes, por nos remeterem a algum momento inesquecível que vivemos. Aliás, é um procedimento até bastante comum. É o caso desses dois condores dos Andes para mim.

Coincidentemente, fiquei conhecendo a obra de ambos quase que simultaneamente, no auge da juventude, há exatos cinqüenta anos, quando eu era todo paixão. Ganhei livros dos dois, e de uma mesma pessoa, de determinada namoradinha da ocasião, que sabia do meu gosto por poesia e que tinha ciência, sobretudo, de que eu ousava, até, “perpetrar” alguns versos, canhestros, é verdade, mas apaixonados, fotografias de corpo inteiro do meu jeito de ser: impulsivo e exagerado. Mal eu sabia, então, que muitos anos depois, outra ocorrência pessoal iria acentuar-me ainda mais a importância de Pablo Neruda e de Gabriela Mistral em minha vida. Ocorre que ambos eram chilenos e quis o feliz acaso que meu primeiro genro, casado com minha filha mais velha, o Horácio Poblete, fosse dessa nacionalidade. Vai daí...

Uniu-se, o útil ao agradável. Esse parentesco propiciou-me, entre outras coisas boas, contar com maior acesso a livros que eu não conhecia desses dois gênios do verso, multiplicando, exponencialmente, minha veneração por ambos. Ao motivo “técnico”, portanto, ou seja, ao da qualidade da poesia dos dois, veio se somar novo fator sentimental (mais um), ao que já existia há bom tempo.

Meu genro teve a generosidade de presentear-me com o volume “Desolacion”, de Gabriela Mistral, e com “Os versos do capitão”, de Pablo Neruda, este numa caprichada edição bilíngüe da Editora Bertrand Brasil. Creio ser desnecessário informar que ambos se transformaram, desde então, em livros de cabeceira, de consulta praticamente diária, junto com o “História Universal da Infâmia”, do meu guru literário, Jorge Luís Borges. Delicio-me, com rigorosa constância, com os magníficos poemas desses geniais artífices do verso.

Hoje, após a leitura de trechos de livros de ambos, estive pensando em algumas coincidências existentes entre a vida e a carreira literária deles (além da sua nacionalidade comum). Tanto um quanto a outra, por exemplo, foram premiados com o Nobel de Literatura. Ele ganhou-o em 1971. Ela, bem antes, em 1945. Ambos se consagraram com pseudônimos, adotados em homenagem a outros escritores. O nome de batismo de Pablo Neruda era Neftali Ricardo Reyes Basoalto. A forma como ficou conhecido foi adotada para homenagear o poeta, contista e dramaturgo checo Jan Neruda. Já Gabriela Mistral foi batizada como Lucila de Maria Del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga. Seu pseudônimo foi uma fusão dos nomes do italiano Gabriele D’Annunzio e do provençal Fréderic Mistral, aos quais, óbvio, apreciava.

Mas as coincidências não param por aí. Os dois se tornaram conhecidos em seu país após participação em Jogos Florais. Ela venceu os de Santiago, de 1914. Ele, não foi tão bem sucedido. Ficou em terceiro lugar nos Jogos Florais de Maule em 1919. Os dois, em algum momento de suas vidas, exerceram função diplomática, como cônsules. Ele, em Rangum (Birmânia), em Madri e em algumas outras localidades. Ela foi consulesa em várias cidades da Europa. Tanto uma, quanto o outro, cantaram o amor, em todas suas formas de manifestação, com alma, garra e paixão. As coincidências, todavia, param por aí.

A diferença de idade entre os dois era de quinze anos. No exato ano em que Pablo nasceu (1904), Gabriela assumiu sua primeira classe de alunos, como professorinha do interior, que ela sempre se considerou, mesmo depois do Nobel e da consagração. Ela era um tanto tímida, recatada e se sentia intimidada com a fama que obteve. Até morrer, teve em mente apenas a missão de ensinar crianças, embora tenha abandonado, a contragosto, o magistério, para se dedicar a várias outras funções, nas quais, por sinal, se deu bem. Ele, por seu turno, era um ativista político (foi senador), um revolucionário (envolveu-se, entre outras aventuras, na Guerra Civil Espanhola), um comunista convicto e apaixonado até seus últimos dias de vida. Acima de tudo, tinha o dom de mobilizar multidões.

Nesse aspecto, podem ser citados dois episódios, inigualados por qualquer outro escritor, façanha, aliás, rara até mesmo para popularíssimos astros do rock dos tempos atuais. O primeiro ocorreu em 1945. Pablo Neruda mobilizou um público de mais de cem mil pessoas, no Estádio Municipal do Pacaembu, em São Paulo (que nem mesmo na Copa do Mundo de 1950 chegou sequer perto dessa superlotação), quando leu um de seus inflamados poemas em homenagem ao líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes. Anos depois, em 1971, repetiu o feito, desta vez em seu país. É certo que o fez para público menor, mas não muito. A convite de Salvador Allende (em favor do qual abriu mão de sua candidatura à presidência do Chile, cargo para o qual era favorito e certamente seria eleito), leu vários de seus poemas a entusiástica multidão, após o anúncio de que havia conquistado o Nobel de Literatura. Estiveram presentes ao evento mais de 70 mil pessoas, concentradas no tristemente célebre Estádio Nacional de Santiago.

Estes são os poetas que aprendi a admirar, e mais do que isso, a venerar, há já longos cinquenta anos. Gabriela havia morrido quando entrei em contato com sua memorável poesia com o livro presenteado pela tal namoradinha. Pablo, porém, seguiu vivo e produtivo ainda por muitos anos mais. E, claro, fiquei profundamente consternado quando soube, em 23 de setembro de 1973, que ele havia morrido,  vítima de câncer de próstata. Recomendo ao leitor que eventualmente não conheça a obra desses dois gênios das Américas que leiam seus livros. Certamente entenderão porque lhes devoto tamanho apreço e consideração.



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

No comments: