Thursday, April 26, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Há algo a esconder


Há algo a esconder


Pedro J. Bondaczuk


A confidência e o sigilo alegados pela administração do PT para acobertar a definição de gastos do crédito especial de Cr$ 7,9 bilhões aprovado pela Câmara Municipal expõe a Prefeitura e a bancada do PT no Legislativo a uma situação no mínimo esdrúxula. Enquanto o secretário municipal das Finanças, Paulo de Tarso Venceslau, afirma que a Prefeitura está gastando muito mais do que arrecada, e expõe em detalhes esses números deficitários, procura esconder como definiu a destinação dos recursos que compõem o crédito especial complementar.

O sigilo é mantido também pela administração sobre o montante de recursos aplicados na rede bancária, fruto da arrecadação desde o início deste ano. Os argumentos sobre o déficit do "fluxo de caixa" na ordem de Cr$ 73 milhões são revelados numa hora em que as várias secretarias municipais e os vereadores brigam por maior fatia dos Cr$ 7,9 bilhões. Ou seja, há evidências de que a Secretaria das Finanças argumenta com a dissimulação na tentativa de ter conseguido aprovar o crédito especial sem qualquer discussão que possa alterar a intenção primária que projeta os gastos desses recursos.

A lamentação do secretário das Finanças não para aí. Ele assegura que a arrecadação de taxas e impostos municipais está aquém do ideal. Isso não é novidade. Mesmo porque, a Prefeitura nunca realizou um cadastramento completo de todos os imóveis (terrenos, residências, imóveis comerciais e industriais) da zona urbana do Município. Quando isso ocorrer, pois depende exclusivamente da eficiência da máquina e efetuar mapa de todos os imóveis, talvez a Prefeitura arrecade além do ideal.

Nota-se nessas idas e vindas discursivas que o sigilo e a confidência são usados para esconder um processo que se torna perene na atual administração. Isto é, tanto o prefeito Jacó Bittar como seus assessores não desvendaram ainda os "segredos de polichinelo" e os mantêm porque parecem ter escolhido os caminhos mais longos e difíceis para administrar a cidade.

No âmbito legal, todo assunto tratado na administração e formalizado em documentos, como ocorre com o crédito especial e a sua destinação, é público. A argumentação do sigilo não passa de frases inconsequentes de quem evita submeter à opinião pública suas contradições e a ineficiência para encaminhar questões administrativas sob a óptica política.

É raro o município brasileiro que registra uma arrecadação suficiente para cobrir todas suas despesas. Principalmente quando numa Prefeitura funcionários públicos existem em excesso, consumindo mais de 50% da arrecadação. Os mecanismos de transferência dos impostos estaduais e federais, mais os financiamentos subsidiados garantiram durante anos --- mesmo com déficit --- a sobrevivência das administrações. A Prefeitura de Campinas se insere nesse contexto, num momento em que se projeta a melhoria da arrecadação dos impostos devido às mudanças no sistema econômico. Porém, de nada adianta lamentar que a arrecadação é menor do que os gastos quando a administração não investe em um cadastramento de imóveis fiel à realidade urbana.

A argumentação do sigilo e da confidência é pura lorota para quem é regido sob o princípio da publicidade dos atos administrativos municipais. E se isso existe, pode-se suspeitar que há algo a esconder por aqueles responsáveis na administração.

(Editorial publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 10 de maio de 1990)



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