Monday, April 23, 2018

DIRETO DO ARQUIVO - Reconquista da cidade


Reconquista da cidade


Pedro J. Bondaczuk

O número de homicídios na cidade, nos primeiros dias de novembro, já chega a 502, quando faltam, ainda, pouco menos de dois meses para o ano acabar. Em 2000, os casos foram 569. Há, portanto, perspectivas mais do que concretas para que essa cifra --- por si só alarmante e que situa Campinas entre as metrópoles mais violentas do País --- seja superada.

Aliás, nem se trata de uma questão numérica. São vidas humanas sendo suprimidas estupidamente, o que sempre se constitui em tragédia (não somente familiar, para pais, irmãos, tios, etc., além de amigos das vítimas, mas uma catástrofe social), mesmo que se trate de uma única pessoa morta. Há muito, portanto, a situação ultrapassou o limite do tolerável. E não são, somente, homicídios que estão na ascendente. Roubos de veículos, assaltos a mão armada e sequestros, inclusive "relâmpagos", entre outros delitos, apresentam, igualmente, índices crescentes e alarmantes. É preciso, pois, fazer alguma coisa para mudar esse quadro sombrio.

Ninguém defende, é óbvio, que a população, para reagir contra os que a ameaçam, se arme, ou forme brigadas, do tipo das que se veem nos filmes de faroeste, que saiam por aí justiçando bandidos. Até porque, ela não está preparada para isso. E nem é esse o papel que a Constituição lhe destina. A tarefa é das autoridades responsáveis pela segurança pública, que por uma série de motivos, não vêm cumprindo a contento sua função. Os números aí estão para comprovar sua ineficiência.

O cidadão pode, e deve, cooperar no combate à violência e à criminalidade, pois é a sua vida e é o seu patrimônio que estão em jogo. Tem que denunciar suspeitos, adotar atitudes preventivas e cobrar, constante e incansavelmente, do Poder Público, que faça a sua parte. Sua segurança, bem como a da sua família e a de toda a comunidade, é um dos direitos fundamentais que lhe são assegurados pela Constituição. Ao proteger sua pessoa e seus bens, o Estado não lhe estará fazendo nenhum favor. Esta é a sua obrigação constitucional e até moral!

O campineiro já não suporta mais tanta insegurança. Congrega-se em entidades, como a "Reage Campinas" e outras congêneres, disposto a resgatar sua cidade e torná-la um lugar seguro e aprazível para se viver. E tem que se mobilizar mesmo! Tem que protestar, exigir, cooperar com o Poder Público e cobrar ações constantes, permanentes e eficazes dos que têm a responsabilidade e o dever de proteger sua vida e seu patrimônio.

As ruas da "sua" cidade transformaram-se em "terra de ninguém", onde qualquer pessoa está sujeita a sofrer algum tipo de ataque, como roubo, assalto, sequestro relâmpago, etc., que não raro resulta em morte ou lesão corporal de variada gravidade de quem é atacado ou daquele que tem a infelicidade de passar fortuitamente próximo ao local onde as agressões se verificam. E os casos se repetem, com irritante persistência, e se multiplicam, de dia ou à noite, sem hora certa para acontecer. Atingem todo o mundo, indistintamente. Nem policiais escapam dessas ações criminosas, sendo, não raro, caçados por marginais, quando deveriam caçá-los, para que respondessem e pagassem por seus crimes.

Até o prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, não escapou do horror dessa "guerra" (não declarada, mas concreta) entre os que trabalham, estudam, produzem, realizam, pagam seus impostos, dão a sua contribuição para o desenvolvimento e progresso da comunidade, acatando as leis e os princípios sociais e os que consideram o trabalho "coisa de tolos", não respeitam o bem alheio, não temem e nem têm dó de ninguém, vendo em cada cidadão apenas um "pato" em potencial, pronto para ser "depenado", agindo na ilegalidade mesmo sabendo dos riscos que correm, mas posando (invariavelmente) de vítimas, quando têm que pagar por seus delitos. Aí, agem como "coitadinhos", como produtos de uma sociedade egoísta, que os exclui e os lança na marginalidade. As coisas, porém, não são tão simples assim.

Os que assaltam, sequestram, torturam e barbarizam não são famélicos, à beira da inanição, em busca do que comer. Comem bem, e até demais! Recente levantamento, feito em presídios paulistas, revelou que parte considerável dos internos provinha de famílias com bom padrão de vida, muitas da classe média alta. Não se trata, portanto, de miseráveis, que "moram" debaixo de viadutos e se vestem de farrapos.

São, na verdade, traficantes de drogas, em busca de "capital" para financiar seu hediondo "negócio". São viciados, que assaltam para custear o vício. São jovens que tiveram oportunidades de estudar, de trabalhar, de conseguir uma profissão que lhes desse estabilidade e projeção, mas que não as aproveitaram. Consideram o trabalho coisa para pessoas "inferiores" e julgam ter o direito natural de se apropriar daquilo que querem mediante violência. É cinismo, portanto, querer relacionar a criminalidade à longa e crescente crise social que assola o País. Quem estabelece essa relação (e são muitos!), está sendo injusto com os verdadeiros excluídos, que mesmo vítimas de uma sociedade egoísta e desajustada, não assaltam, não sequestram e nem matam ninguém.

Basta de cinismo, portanto, sociólogos de botequim! Chega de impunidade! Parem de inverter os valores e de considerar os agressores como vítimas e estas como as responsáveis pelas agressões que recebem! Reage, Campinas! A cidade tem que voltar a ser polo de cultura, de ciência e de alta tecnologia e nunca mais a "capital do crime organizado", título que tanto humilha e que tanto oprime e apavora sua população!


(Editorial da Folha do Taquaral de 5 de novembro de 2001).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

No comments: