Wednesday, August 23, 2017

Sadat, o controvertido

Pedro J. Bondaczuk

A região do Oriente Médio, que desde o gesto histórico de Anuar El Sadat, em novembro de 1977, de descer em Jerusalém para apertar a mão do seu maior adversário – o primeiro-ministro israelense Menachen Begin – estava relativamente calma, voltou, repentinamente a se agitar. Um atentado, há muito previsto pelos observadores políticos, mas jamais cogitado pela população mundial, matou aqu8ele controvertido líder egípcio, que gerou tanta esperança e tanto ódio, tanta admiração e tanta repulsa, nessa explosiva área do Planeta. Esperança de paz para a humanidade com o gesto simbólico – que inclusive valeu a esse “felah”, filho de camponeses, junto com o ex-guerrilheiro Begin, o Prêmio Nobel da Paz de 1978 – de reaproximação com o tradicional adversário, pondo fim a 30 anos de conflito com seu poderoso vizinho. E ódio – por parte dos palestinos, e por consequência, dos seus aliados mais fieis – que interpretaram o ato de Sadat como sendo mais uma iniciativa interesseira, visando agradar os norte-americanos, de quem esperava dólares para mover a emperrada economia egípcia, do que iniciativa séria e construtiva para estabelecer a paz na região.

Na época da assinatura do Tratado de Camp David – sob os auspícios e patrocínio do ex-presidente Jimmy Carter – os analistas já assinalavam que qualquer acordo viável para aquela explosiva e conturbada área mundial, deveria, necessariamente, levar em conta, não apenas a existência, mas também a autonomia palestina. Não foi o que aconteceu com o criticado, falho e controvertido acordo.

Inimigos poderosos levantaram-se contra o presidente egípcio. Estes foram desde o histriônico e megalomaníaco coronel líbio Muammar Khadafi até o prestigioso e calejado líder da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat. Desde o baatista presidente sírio Hafez Assad, até os fundamentalistas iranianos do aiatolá Ruholah Khomeini. Aliás, do líder religioso do Irã, Sadat já havia despertado a ira quando acolheu o deposto ex-xá Mohammed Rhezza Pahlevi. A partir de então, os iranianos juraram o presidente egípcio de morte.

Anauar El Sadat, com suas atitudes firmes e ousadas – embora quase sempre ineficazes em termos práticos – conquistou simpatias no Ocidente. Principalmente depois de haver rom,pido com Moscou, expulsando do Egito todos os conselheiros militares soviéticos. Mas esta atitude também lhe trouxe profunda repulsa dos vizinhos, que organizaram a Frente de Oposição e Contestação aos Acordos de Camp David.

A forma, as audácia e o local onde ocorreu o atentado que matou o presidente egípcio revelam planejamento e organização. Mostram que havia um plano muito bem urdido para o ataque. A morte de Sadat – que ocorreu num dos momentos de maior tensão política que agita o mundo – pode ter consequências muito mais sérias do que à primeira vista possa parecer.

A zona do Golfo Pérsico enfrenta uma guerra que já dura mais de um ano e que pode envolver outros países da região, além de Iraque e Irã. Existem rumores, por exemplo, de um complô em andamento na Arábia Saudita para depor a dinastia Faiçal e impor um regime semelhante ao iraniano. Aliásd, essa possibilidade (para muitos remota) polarizou as atenções da opinião pública internacional nas últimas semanas, sobretudo após a decisão do presidente norte-americano Ronald Reagan de armar os sauditas, mesmo com o Capitólio em peso tentando barrar essa decisão.

Já o Líbano – o outrora “Jardim do Oriente”, comparado a uma espécie de Suíça da região – está destroçado e dividido por uma guerra civil que já dura seis anos e que lhe valeu uma humilhante ocupação militar estrangeira. Nesse quadro sombrio e assustador, a morte de Sadat pode se transformar no estopim para a explosão desse autêntico barril de pólvora, que é o Oriente Médio. E ele explodindo, a explosão pode afetar toda a humanidade. Deus que nos livre disse!!!!


(Artigo publicado na editoria Opinião do Diário do Povo, em 7 de outubro de 1981).

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