Friday, August 21, 2015

Providencial milagre do acaso

Pedro J. Bondaczuk

O escritor, filósofo e jesuíta espanhol, Baltasar Gracián y Morales – contemporâneo de William Shakespeare – escreveu, em certa ocasião, que “a perfeição não consiste na quantidade, mas na qualidade. Tudo o que é muito bom foi sempre pouco e raro, enquanto a abundância é pouco apreciada”. Essa observação cabe a caráter na avaliação da obra do bardo inglês, natural da cidadezinha de Stratford-Upon-Avon (quer a dramática, quer a poética), que apesar de não ser relativamente tão extensa quanto a de outros contemporâneos totalmente esquecidos, é consumida, admirada e reverenciada mundo afora pelo teor e pela forma. Destaque-se que muitas das 37 peças que escreveu, por um motivo ou por outro, foram imensos fiascos, de crítica e de público, quando encenadas. Hoje, todavia... arrebatam platéias onde quer que sejam levadas ao palco.

Tenho plena convicção, sem precisar de nenhuma prova, que alguma produção de William Shakespeare está em cartaz, neste exato momento, em algum teatro do mundo, atraindo grandes públicos. Quem sabe se trate até de alguma que se constituiu em contundente fiasco quando encenada em Londres pela primeira vez. Sequer preciso de comprovação para afirmar isso com tanta certeza dada a qualidade das suas peças e a empatia que promovem com os espectadores. Admiração maior, todavia, causa-me a aceitação da obra poética de Shakespeare. Ele publicou (em 1609) um único livro “Sonetos”, com escassas 154 composições do tipo e foi o quanto bastou para se imortalizar. É certo que contou com a ação do acaso para ser protagonista de uma improvável e rara “ressurreição literária”.

Recorde-se que Shakespeare foi completamente esquecido após sua morte, aos 52 anos de idade, e permaneceu assim por mais de um século. Lá um belo dia, não se sabe quando e nem como, algum editor curioso, com larga visão e inegável bom gosto, deve ter topado com um exemplar de “Sonetos”. Poderia não tê-lo lido, o que não seria surpreendente. Poderia, mesmo lendo-o, não ter gostado dele, o que não seria nem mesmo de se estranhar. Afinal, gosto não se discute. Ou, mesmo lendo o livro, e gostado, poderia relutar um publicá-lo, para não correr o risco de ficar com “um mico na mão”. Porém, contrariando toda a lógica, principalmente a comercial, tal editor leu, gostou, entusiasmou-se com o conteúdo, aceitou correr riscos e... deu no que deu. Pena que a história não registre quem foi esse sortudo (ou maluco, quem sabe).

Não só não se sabe quem foi esse “milagreiro”, que ressuscitou o poeta Shakespeare, como se desconhece onde ele vivia e quando isso aconteceu. Só se sabe que foi na segunda metade do século XVIII, mais de cem anos após o autor dos “Sonetos” ter morrido, e “duplamente” – fisicamente e mediante esquecimento de que sequer existiu. Hoje... esse livro solitário já teve milhares de traduções. Só nos países de fala alemã, por exemplo, elas ascendem a mais de uma centena. Não há nenhuma língua importante no mundo, incluindo latim, turco, japonês e esperanto, em que os sonetos de Shakespeare não tenham sido traduzidos. Encontram-se versões deles até em algumas centenas de dialetos. E pensar que se tratou de um único e solitário livro!!!

Destaque-se que “Sonetos”, na época de sua publicação, não chegou, propriamente, a ser unanimidade e muito menos um sucesso. Encontrou, isso sim, inúmeras resistências por parte da crítica e do público, tanto pela forma como foi escrito, quanto pelo conteúdo. No primeiro caso, as restrições se deveram ao fato das suas composições não seguirem o modelo tradicional desse tipo de poesia, o “petrarquiano”. No segundo, pela forma com que tratou o amor. Discorreu sobre ele não como sendo coisa sublime, divina e pura, como os demais poetas do seu tempo tratavam o tema, mas enfatizou seu aspecto animal, nu e cru, quase que explicitamente sexual, sobretudo nos 27 sonetos que dedicou a uma misteriosa “Dark Lady”. Houve quem o considerasse, por isso, pornográfico, cínico, tarado, pervertido e coisas assim. Como eram hipócritas nossos remotos ancestrais! Tudo isso era hipocrisia pura, deslavada e escrachada! Mas... deixa pra lá...

O fato é que este único e solitário livro de poesias de Shakespeare é, hoje, clássico dos clássicos de literatura inglesa. Nesse preciso instante, provavelmente, em alguma escola secundária qualquer dos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália etc., algum professor aplicado deve estar analisando com aplicação, com seus alunos, algum dos 154 sonetos que Shakespeare publicou no remotíssimo ano de 1609. Pensando em tudo isso, não posso deixar de dar razão ao pensador português, Agostinho Silva, quando observou que muitas vezes “são os defeitos que fazem as boas obras, e são as qualidades as que muitas vezes as abatem”.

O que havia de supostamente defeituoso nos sonetos shakespearianos, tanto na sua forma quanto no seu conteúdo, supostamente pornográfico (mas na verdade erótico) é o que os torna brilhantes e atrativos para os leitores de várias gerações, já a partir de meados do século XVIII, quando de sua “ressurreição”, até os dias de hoje. O filósofo e diplomata francês, Henri Bergson, estava coberto de razão quando assegurou: “A qualidade é a quantidade de amanhã”. E não é?!!!


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