Wednesday, August 05, 2015

Estados terroristas e líderes desajustados


Pedro J. Bondaczuk


O presidente norte-americano Ronald Reagan, discorrendo a propósito da maneira com que iria tratar o terrorismo, especialmente o de Estado, afirmou, em julho do ano passado, após o término do seqüestro do Boeing da empresa TWA: "Não vamos tolerar ataques de países proscritos, governados pela mais estranha coleção de desajustados, lunáticos e criminosos comuns". Referia-se, na ocasião, a uma possível colaboração iraniana no ato extremista que lhe havia causado essa irritação. Suas palavras foram, durante muitos dias, objetos de duras críticas, vindas de diversos setores.

Alguns acharam um gesto deselegante do presidente classificar chefes de Estado daquela forma (como se praticar ataques terroristas fosse um primor de elegância). Outros, como Fidel Castro, não mediram as palavras e partiram logo para a agressão verbal direta. O ditador cubano disse, na oportunidade: "Reagan é um imbecil, o pior terrorista da humanidade".

Exageros a parte, há muito de verdadeiro nas palavras do presidente norte-americano. Hoje, como no passado, diversos países são conduzidos por desajustados, lunáticos e até criminosos comuns. Isso, todavia, ocorre à revelia dos povos, que têm a infelicidade de cair sob a sua tutela. Tivemos o capricho de fazer um levantamento sobre quantas sociedades têm liberdade para escolher seus governantes através de eleições sem partidos únicos e nem candidatos eternos. E a conclusão é das mais deprimentes, o que explica, até certo ponto, o por quê do atraso tão acentuado de determinados povos, em relação a outros.

Dos 168 países independentes que formam a comunidade internacional no dia de hoje, apenas 78 podem ser classificados como democracias. Assim mesmo, com muitas restrições. Os demais 90 ou não possuem partidos políticos, ou dispõem de um único ou são monarquias onde os negócios de Estado ficam em família, sem muitas (ou literalmente nenhuma) explicações à sociedade.

O continente africano, neste aspecto, bate todos os recordes. Ali, apenas um ou dois países constituem-se em honrosas exceções. Os demais estão submetidos a mandos e desmandos de pessoas que se julgam predestinadas ou que se auto-intitulam líderes carismáticos. Mas não é bem carisma o que eles dispõem, mas sim um aparato repressivo espetacular, pronto a perpetrar as maiores arbitrariedades a um simples aceno seu.

O que é de se estranhar é que o presidente norte-americano, que tanto desprezo demonstrou por essa "estranha coleção de desajustados, lunáticos e criminosos comuns", mantenha relações até amistosas com vários desses monstros. E que o seu país, reconhecidamente um modelo de democracia, tenha dado condições (quando não os impôs à força) para que esses "gorilas" ascendessem ao poder.

É necessário ter critério para julgar indivíduos. Um assassino não se torna um santo da noite para o dia, apenas por trabalhar para nós. Se o contratarmos para realizar alguma operação criminosa, nós é que nos degradamos ao seu nível, nos tornando co-autores de seu delito e não é ele que se regenera.

Aliás, por falar em maluco, é oportuno mencionar que o mundo está repleto deles. Um estudo, realizado em 1981, demonstrou que 30% dos habitantes deste planeta revelavam alguma espécie de distúrbio psíquico. Mas o mais grave, é que entre 10 e 15%, demonstravam possuir problemas realmente sérios.

Não é nada notável, portanto, a existência de tantos casos de paranóia e de sua manifestação mais ostensiva, a mania de grandeza, ou megalomania, como é chamada pelos especialistas. Por baixo, segundo o referido estudo, a humanidade dispõe de 450 milhões de malucos. Não é de se estranhar, pois, o poder e a credibilidade dos Khadafys, Khomeinis e Duvaliers da vida. Ou é?

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 8 de janeiro de 1986)


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