Reuniões de cúpula têm pouca
valia
Pedro J. Bondaczuk
A
reunião de cúpula, prevista para ser realizada neste ano, em Washington, entre
o presidente norte-americano Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail
Gorbachev, ao que tudo indica, dificilmente irá acontecer. Mesmo a anterior,
desenvolvida a partir de 19 de novembro de 1985, em Genebra, por pouco não foi
por água abaixo.
O
leitor certamente está lembrado que, às vésperas daquele encontro, coisas muito
estranhas começaram a acontecer. Entre elas, apenas para citar um exemplo
concreto, podemos mencionar o estranho caso de deserção de um marinheiro
soviético em determinado porto dos Estados Unidos. Até hoje ninguém conhece com
exatidão o que de fato aconteceu nesse incidente. Se esse cidadão realmente se
arrependeu de seu ato de defecção ou se foi coagido a agir da maneira que agiu.
A
rigor, por outro lado, a reunião de Genebra não acrescentou coisa alguma para a
solução do principal problema entre as superpotências, ou seja, a maluca,
insensata e surrealista corrida armamentista nuclear. Como de nada valeram,
também, as reuniões, que já têm mais de um ano, entre as equipes negociadoras
soviéticas e norte-americanas sobre a mesma questão. Até hoje não se chegou a
um mínimo consenso acerca desse tema.
A única
diferença que se notou, após a cúpula do ano passado, no relacionamento entre
as superpotências, foi uma certa moderação no tom das mútuas ameaças e
acusações. Hoje, Reagan e Gorbachev já não se xingam mais abertamente, como
anteriormente. Fazem-no polidamente, embora a essência do que dizem seja
rigorosamente idêntica ao que diziam antes.
Esse
tratamento mais cortês, envolvendo, inclusive, algumas gentilezas periféricas
(como a mútua permissão para que um líder fale pela televisão do país do outro)
pode, até, nem ser conseqüência direta da reunião de Genebra e se prender à
própria personalidade do novo governante russo. Qualquer pessoa que acompanhe
política internacional certamente já deve ter percebido que o "estilo
Gorbachev" de fazer política não lembra em nada nenhum de seus
antecessores. Quando muito, talvez seja ligeiramente semelhante ao de Lenin.
Seus modos, geralmente, primam pela sobriedade, embora sua determinação na
busca dos objetivos a que se propôs possivelmente seja muito maior do que a de
Stalin, de Kruschev, de Brezhnev, de Andropov e de Chernenko.
Outro
aspecto a considerar é o motivo do encontro de cúpula, previsto para acontecer
em Washington, estar quase condenado à não-realização. Ele decorre da quase
ruptura de um acordo, conseguido a duríssimas penas, e que embora não
ratificado, vinha sendo respeitado até aqui. É o que limita as armas nucleares
estratégicas em ambos os arsenais conhecido como Salt-2 e que o presidente
Ronald Reagan já avisou que vai desrespeitar nos próximos meses com o
lançamento de uma nova geração de mísseis, sem que a anterior seja
desmobilizada.
Certamente,
sobre esse assunto, é muito mais fácil se condenar o armamentismo do que se
fazer algo prático que o detenha. Estamos seguros, por exemplo, que o mais
renitente dos pacifistas, se ocupasse o cargo de Reagan ou de Gorbachev, não
conseguiria erradicar uma única arma. Não reduziria um só dos inúmeros mísseis
dos vastos arsenais atômicos. Não interromperia programa algum, por menos
importante que fosse, de produção acelerada de ogivas e de vetores. As pressões
são insuportáveis.
Os
interesses econômicos envolvidos na questão são grandes demais para deixarem de
ser levados em conta. A
indústria armamentista, por exemplo, emprega na atualidade milhões de pessoas,
direta ou indiretamente. A cifra é impossível até de se estimar. Sua
desmobilização acarretaria um desemprego de tamanhas proporções, que o caos
social daí decorrente seria arrasador e de conseqüências imprevisíveis.
Portanto,
não serão duas, três, dez ou cinqüenta reuniões de cúpula que irão deter a
louca corrida mundial para a morte. Só mesmo um fortuito golpe de sorte ou quem
sabe algum milagre conseguirá deter o processo. E Reagan e Gorbachev sabem
disso, daí não estarem se empenhando com vigor para tal encontro.
(Artigo
publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 5 de junho de
1986)
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