Monday, December 13, 2010




Sucesso que atraiu sucesso

Pedro J. Bondaczuk

Vocês já notaram como o sucesso age como se fosse um imã? Até o fato de você escrever sobre o êxito alheio tende a fazer com que seja bem-sucedido também, em seu texto. Claro, isso se ele for minimamente bom, correto e interessante. O fracassado não interessa a ninguém. A menos que seu fracasso tenha sido monumental, tão grande, a ponto de ser inigualável e por essa razão despertar curiosidade, sobretudo, sobre o que o provocou.
O historiador norte-americano T. J. Stiles sentiu o gostinho de partilhar o sucesso do personagem sobre o qual decidiu escrever. E sua escolha não poderia ter sido mais feliz. Resolveu escrever a biografia de um titã contemporâneo, do homem que revolucionou os transportes nos Estados Unidos e acumulou uma fortuna tão imensa, que mesmo a quarta ou quinta geração da família ainda não conseguiu “torrar” até hoje. Pode-se dizer, até, que foi ele que moldou a economia do país mais rico do mundo, do jeito que ela é atualmente. Refiro-me ao magnata e multimilionário Cornelius Vanderbilt.
Stiles, portanto, não poderia ter escolhido melhor seu protótipo de sucesso. E, com ele, ou melhor, com a biografia que escreveu a seu respeito, conquistou nada menos do que o segundo prêmio literário mais cobiçado do mundo, o Pulitzer. É verdade que a importância da premiação sequer está na quantidade de dinheiro paga ao vencedor. Os dez mil dólares que recebe – equivalentes, mais ou menos, a dezessete mil e quinhentos reais – são merreca se comparados ao o que o Nobel rende. Ninguém fica rico, portanto, apenas com o Pulitzer.
A importância do prêmio está no prestígio que rende ao vencedor. E este não tem preço. Com a consagração literária que vem com sua conquista, vêm contratos e mais contratos de toda a sorte que, estes sim, tendem a enriquecer os felizardos.
Pois é, T. J. Stiles, conhecidíssimo por livros anteriores ficou com o Pulitzer de 2010 na categoria de Biografia. Seu livro que lhe trouxe a esperada consagração tem este título em inglês: “The first tykoon; the epic life of Cornelius Vanderbilt”.
O biografado desperta, e sempre despertará, interesse do público. Afinal, partiu do nada e se tornou multimilionário, uma espécie de Tio Patinhas do século XIX. É o protótipo perfeito do que os norte-americanos chamam de “self made man”, ou seja, do “homem que se faz sozinho”, e de que tanto admiram e procuram imitar (alguns, é claro). Faz parte de um seleto e restrito grupo de pessoas que construiu empresas poderosas e centenárias do “nada”, com as próprias mãos, mas... sem “perder a ternura”, como diria Che Guevara.
Muitos, como Vanderbilt, extrapolam a condição humana e viram lenda. Histórias e mais histórias passam a ser contadas a seu respeito, a maioria frutos da imaginação popular. Não é o caso, todavia, da biografia de Stiles. Daí, por conseqüência lógica, a conquista do precioso Pulitzer. Quem não gostaria de ganhar um? Até eu, que sou mais bobo, gostaria!
A trajetória incrível de Cornelius Vanderbilt é narrada com sabor e verdade por este historiador respeitado, ora travestido de biógrafo (não faz muito, publicou uma polêmica biografia de um dos mais lendários bandidos norte-americanos, Jessé James, e desfez um rosário de mitos sobre esse fascinante personagem).
Como se vê, sucesso pode, também, atrair sucesso (desde que, claro, você tenha um tiquinho de competência e um tantão de talento). O do biografado, pelo menos, possibilitou a consagração do seu (agora) ilustríssimo biógrafo.
Vanderbilt, à semelhança do mítico Rei Midas, era um sujeito que transformava em ouro tudo o que tocava. Ou melhor, em dólares. Mas não merrecas e sim, toneladas e toneladas da ainda cobiçada verdinha. E como esse sujeito juntou-as!
Muito jovem, por exemplo, já conduzia a própria balsa, tosca e rústica, pelas águas do Rio Hudson, em Nova York (naquele tempo não existiam as tantas pontes que há hoje), na travessia “de” e “para” Manhattan. Ganhou fortuna com isso. Lançou as bases, entre outras coisas, da própria e poderosíssima marinha mercante dos Estados Unidos.
Lá um belo dia, resolveu apostar todas as suas fichas num outro tipo de transporte, que ainda não havia conquistado seu espaço no vasto e acidentado território norte-americano: o ferroviário. O “cavalo de ferro” mal iniciava a sua marcha para o oeste, tão bem retratada por Hollywood em inúmeros filmes de cowboys.
Na época, as coisas funcionavam na base do “vale tudo”. Vanderbilt valeu-se, principalmente, de uma estratégia monopolista, fazendo o possível e o impossível, o legal e até o ilegal, para varrer a concorrência. Utilizou-se dos políticos, quando estes lhe poderiam ser úteis, e de pistoleiros, quando outro tipo de estratégia não funcionava. Hoje, sua estátua permanece, firme e forte, na principal estação ferroviária de Nova York, a lembrar seu caráter de pioneiro.
Só por estas palhinhas, dá, certamente, para o leitor depreender de quão fascinante foi a vida desse homem. E T. J. Stiles explorou-a direitinho. Durante décadas, por exemplo, quem pretendesse viajar de Nova York a Boston, teria, necessariamente, que se utilizar de algum dos meios de transporte de propriedade de Cornelius Vanderbilt, quer seus barcos, quer seus trens. Foi assim que pôde amealhar a assombrosa fortuna que até espanta e causa inveja a nove em cada dez norte-americanos (e pessoas de qualquer outra parte do mundo, claro).
Até na aparência, esse gigante dos negócios, capitalista até a medula, impressionava (ou assustava?). Era um sujeito grandão – tinha 1,90 metro de altura e quase 200 quilos de músculos – esse patriarca do clã dos Vanderbilts, conhecido como Comodoro.
E vocês acham que tinha muita (ou pelo menos alguma) cultura? Nada! Era um cara xucro, quase que analfabeto. Parou de estudar com apenas onze anos de idade. Mas justificou-se, certa feita, quando lhe perguntaram a respeito: “se fosse me educar, não teria tempo para mais nada”
Quem de nós não gostaria, pois, de escrever a biografia desse mito, caso tivesse acesso a informações precisas sobre a sua vida? T. J. Stiles quis, pesquisou à beça, redigiu uma história saborosa e verídica e deu no que deu: a consagração. Embarcou no sucesso de Vanderbilt e se deu bem!

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