Thursday, December 09, 2010




O mágico lúcido

Pedro J. Bondaczuk

O assunto, hoje, é Drummond. E tratar do poeta de Itabira, seja por qual motivo for, é sempre agradável, ainda mais ouvindo Beethoven no Sonora, magnífico serviço prestado pelo portal Terra aos amantes do que é estético, belo, divino e mágico. Aliás, para se deliciar com os versos deste “encantador” (não de serpentes, mas de corações) nem seria necessário tamanho requinte, embora ele somente multiplique ainda mais o prazer.
Todavia, hoje não falarei do poeta das Gerais na função de autor, mas de “personagem”. E do livro de uma escritora que ele apreciava, Marlene de Castro Correia. A obra? Tem título que vem a calhar: “Drummond: a magia lúcida”.
É isso que esse poeta majestoso foi: mágico, sem tirar e nem pôr. Mágico das metáforas. Mágico das emoções. Mágico dos sentimentos. Mágico das idéias. Mágico do que vocês quiserem. E ninguém melhor para falar dele do que essa escritora de quem Drummond declarou, certa feita: “Marlene gosta da minha obra, mostra porque gosta e quer que os outros gostem”. Como deixar de gostar de você, querido poeta?!! Só se o sujeito for bronco, muito burro e absolutamente insensível!
O livro em questão foi lançado há já algum tempo pela Editora Jorge Zahar. Mas o propósito não é fazer nenhuma resenha dele e nem esmiuçá-lo. Compre-o, leia-o e faça você mesmo o seu juízo a propósito. Minha intenção é somente citá-lo, e dizer que gostei muito das colocações de Marlene. E isso basta!
Mas, cá para nós, voltando à questão da magia, só um mágico conseguiria sobreviver na memória e no coração do povo quase vinte e três anos após sua morte. E não me enganei não. Drummond é lido e recitado não apenas por sisudos e doutos intelectuais, mas por pessoas simples, que têm dificuldades para entender até um reles bilhete. Portanto, pelo povo sim. E isso é magia pura. Mas não magia negra, claro. .
Seus versos continuam atuais, vibrantes, originais e vivos. São como se tivessem sido escritos há meros minutos. É ou não é magia?! Concordo com o que Linhares Filho, poeta, crítico e professor da Universidade do Ceará escreveu, no artigo “Vinte anos de atualidade”, publicado no suplemento especial com que o jornal “O Povo”, de Fortaleza brindou seu leitor, em 17 de agosto de 2007, por ocasião do 20° aniversário da morte do poeta:
“Drummond... constitui-se num lírico de aguda percepção da psique humana, apreendendo a tortura e o consolo do amor, enxergando o mundo através de uma ótica realista e cheia de humor, contrabalançando uma ternura austera com o senso do trágico e do absurdo existenciais, porque cultivador do cotidiano, mas transcendendo-o pelo enfoque poético, porque cultivador de um peculiar memorialismo em versos, porque intensamente preocupado com a opressão da sociedade de consumo e com o destino do homem no universo periclitante; porque perqueridor, elaborador do enigma e valorizador da palavra (...)”
Bela análise! Linhares Filho, que também já escreveu um livro sobre o poeta de Itabira (“O amor e outros aspectos em Drummond”) lembra outros estudos da poética drummondiana, como os de Affonso Romano de Sant’Anna, Manuel de Moraes, Gilberto Mendonça Teles, José Guilherme Merquior, Joaquim Francisco Coelho, Oton Moacir Garcia, Silviano Santiago, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Davi Arriguci e Francisco Carvalho.
Leiam este poema de Drummond e digam se não é coisa de mágico, de “magia lúcida”:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

(O Poema de Sete Chaves, do livro Alguma Poesia, 1930)

Como é gostoso escrever sobre Drummond! Tomara que apareçam muitos pretextos, como este, do livro de Marlene de Castro Correa. Mas se não aparecerem... que raios, escreverei sobre ele assim mesmo!!!!




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