Thursday, December 23, 2010




Sobre entrevistas

Pedro J. Bondaczuk

Entrevistas com escritores, geralmente, são fascinantes e bastante proveitosas. Gosto não somente de lê-las como, principalmente, de fazê-las. Já fiz inúmeras, tanto para jornais e sites da internet, quanto, e principalmente, para a emissora de rádio em que trabalhava. Tive sorte, pois nenhuma me decepcionou. Provavelmente o segredo esteja na forma de perguntar. Perguntas inteligentes ensejam, por conseqüência, respostas do mesmo teor. Há exceções (claro). Sempre as há. Nunca tive, todavia, o dissabor de topar com algum entrevistado monossilábico, desses que a gente não consegue arrancar informações interessantes nem a fórceps. Isso, com referência a escritores.
Já entrevistei muitos políticos que transformaram a entrevista em mera propaganda pessoal. Por mais que fizesse para arrancar deles o que pretendia, eles me escapavam, lisos como enguias, por entre os dedos, como peixes na água ou sabonete molhado. Por isso, detesto entrevistá-los. Dessa tarefa, estou fora.
Da minha parte, já estive, também, do outro lado, ou seja, não como entrevistador, mas na condição de entrevistado. E, na maioria das oportunidades, foi para falar sobre literatura (minha ostensiva paixão) ou sobre minha vida pessoal (esta, desinteressante e banal, mas que ainda assim desperta interesse de alguns). Há gosto para tudo.
Já concedi, por exemplo, entrevistas para todos os canais de televisão aqui de Campinas. Uma delas chegou a durar uma hora! Apenas umas três vezes, fui solicitado a falar sobre política, e internacional, na verdade. Ocorre que fui, durante muitos anos, editor dessa área. Estudioso como sempre gostei de ser, tinha na ponta da língua todos os principais problemas envolvendo países e situações os mais diversos. Embora considerado um dos melhores editores internacionais fora dos grandes centros, não gostei de falar a respeito. Creio, todavia, que me saí bem, pois voltei a tocar no assunto.
Embora jornalista mais ligado a jornais e revistas do que a meios eletrônicos, pitorescamente, nunca tive nenhuma entrevista publicada em letra de forma. Nem mesmo quando lancei meu livro “Por uma nova utopia” e houve muita badalação em torno desse lançamento. Foram feitas, na oportunidade, várias resenhas a respeito e um colunista amigo até escreveu uma crônica sobre essa minha obra, mas ninguém se propôs a me entrevistar. E eu não poderia me oferecer, não é mesmo?
Por que resolvi escrever a esse propósito hoje? Juro que não é por falta de assunto. Tenho pautada uma relação bastante extensa sobre temas a abordar nestas nossas conversas diárias, informais e descomprometidas. Toquei no assunto, por causa de uma solicitação (gentilíssima, por sinal), feita por e-mail por nossa colunista (e pessoa da minha mais alta estima e admiração, embora não a conheça pessoalmente), a doutora Mara Narciso.
Ela me indaga quando irei publicar a “minha” entrevista, ou seja, eu na qualidade de entrevistado, aqui neste espaço. Farei isso com satisfação, desde que alguém faça um texto de apresentação a meu respeito. Caso eu próprio o fizesse, certamente, seria sumamente capcioso. Se estivesse num dia de azedume, faria uma auto-avaliação negativa. O mais provável, porém, é que eu apontasse mais méritos meus do que os que realmente tenho. Não daria certo!
Caso algum colega colunista se sinta “tentado” a escrever a respeito, ou seja, a apresentar, num texto curto, a impressão que tem sobre meus temas e meu estilo, esteja à vontade. Se tiver que fazer críticas, não se acanhe. Eu agüento!
É verdade que poderia pedir isso ao Renato Manjaterra, que convive comigo, diariamente, no trabalho, há quatro anos. Esse, contudo, não vale. É meu amigo do peito e é provável que se desmanchasse em elogios. Não, não daria certo. Pareceria inverossímil. Quem aceita o desafio? Quem aceitar, esteja à vontade. Encaminhe, quando quiser, esse texto que prometo publicá-lo. Mesmo que fale “cobras e lagartos” a meu respeito.
Por falar em entrevistas, as duas mais curiosas e criativas que já li foram feitas pelo escritor mineiro, radicado há décadas em Campinas, Eustáquio Gomes. Publicou-as, há algum tempo, na Revista Metrópole, suplemento dominical do jornal “Correio Popular”. Ele extrapolou em sua criatividade. Vejam só, “entrevistou” o filósofo grego Heráclito e o autor de “Em busca do tempo perdido”, Marcel Proust. “Mas como?”, perguntarão vocês, sabendo que essas duas figuras morreram há séculos (o grego morreu há milênios).
Pois é, ele formulou perguntas pertinentes que se encaixavam como uma luva em citações desses vultos da cultura e da literatura. E fé-lo com tamanha perfeição, que qualquer leitor desavisado pensaria que se tratava, mesmo, de entrevistas. Pena que Eustáquio não poderia fazer o texto introdutório que mencionei. Afinal, foi o prefaciador do meu livro “Por uma nova utopia”. E com sua criatividade, certamente exageraria (embora de maneira deliciosa) minhas supostas virtudes. Pois é, a tarefa sobrou, mesmo, para vocês, colunistas! Quem se habilita?

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