Monday, February 25, 2008

Realidade e idealismo


Pedro J. Bondaczuk


A vida, por maiores que sejam as racionalizações a seu respeito, é, em todos os sentidos, um mistério. Os cientistas, que anunciaram, recentemente, a decifração do genoma humano, certos de que iriam, com isso, explicar esse maravilhoso fenômeno, não explicaram coisa nenhuma. Pelo contrário. Penetraram mais fundo no misterioso labirinto de dúvidas e de incertezas. Não esclareceram: confundiram. O extraordinário feito suscitou novas e múltiplas indagações, com raríssimas respostas aceitáveis.

Concluíram, entre outras coisas, que o número de genes do homem é muito menor do que se supunha, em torno de apenas 30 mil (só 300 a mais do que um camundongo, por exemplo). Outra conclusão foi a de que a diferença existente entre as bilhões de pessoas que já passaram por este planeta, não importando sua origem ou raça, é mínima. Noventa e nove vírgula nove por cento delas são intrínseca e absolutamente iguais. As características particulares, que distinguem uma pessoa da outra, são representadas por algo em torno de 0,1% de todo o código genético. Uma ninharia, convenhamos. Uma decepção, certamente, para os racistas.

Os decifradores do genoma concluíram, ainda, que um homem tem apenas o dobro dos genes de uma minhoca, por exemplo. E estes, tomados de forma isolada, são indistingüíveis nas duas espécies. O que, pois, torna esses seres tão diferentes? E por que há a diferença? A ciência não consegue explicar. Se a origem e natureza da vida são tão misteriosos, mais ainda é a sua finalidade. Por que nascemos? Há um fim predeterminado? Qual é? Quem o determina e por que? Podemos apenas especular a respeito. Jamais conseguiremos chegar a uma conclusão absoluta, definitiva, consensual e inquestionável.

Há, no mundo, dois grandes grupos de pessoas, com suas múltiplas, quiçá infinitas variantes: o dos que se dizem "realistas" e o daqueles que se consideram "idealistas". Ambos os conceitos, destaque-se, são ambíguos. Ninguém se enquadra, de forma absoluta, em nenhuma das duas classificações. Todos temos, em proporções diversas, uma mescla de idealismo e de realismo. Afinal, o que é a realidade? As coisas são, mesmo, o que aparentam ser? Não somos iludidos pela precariedade dos nossos sentidos e pela nossa pequenez, em um universo de dimensões aparentemente infinitas? Certamente que sim!

O poeta T. S. Elliot chega a afirmar que "o gênero humano são suporta a realidade" (supondo, é claro, que seja mesmo possível chegar a ela). Precisamos de sonhos, de fantasias, de ideais para dar sentido e razão à nossa vida. A propósito de idealismo, um dos seus mais ferrenhos e argutos defensores foi o psiquiatra e professor de Psicologia Experimental argentino José Ingenieros, considerado o último representante do Positivismo na Argentina, e que morreu em 1925.

Encontrei, não faz muito, numa estante, perdida entre algumas centenas de livros da minha caótica biblioteca, uma brochura muito antiga e judiada, que deve ter passado por milhares de mãos até chegar às minhas, desse moralista, que acreditava que o progresso é inviável sem ser fundamentado em ideais. Nesse precioso volume em espanhol, edição original, intitulado "El Hombre Medíocre", resume, em dois parágrafos, tudo o que venho tentando expressar, sobre idealismo, em algumas centenas de textos, ao longo de um quarto de século.

O interessante é que o livro está em meu poder há quase trinta anos, sem que eu me desse ao trabalho de o ler. Ganhei-o de um amigo, que garantia que, guardadas as devidas proporções, eu tinha idéias e posições parecidas com as de José Ingenieros. Li-o, num único sopro, no mês passado. E peço licença ao leitor para transcrever um trecho (na minha canhestra tradução do castelhano) que diz:

"O homem sem ideais faz da arte um ofício, da ciência um comércio, da filosofia um instrumento, da virtude uma empresa, da caridade uma festa, do prazer um sensualismo. A vulgaridade transforma o amor da vida em pusilanimidade, a prudência em covardia, o orgulho em vaidade, o respeito em servilismo. Leva à ostentação, à avareza, à falsidade, à avidez, à simulação; atrás do homem medíocre assoma o antepassado selvagem que conspira em seu interior, acossado pela fome de atávicos instintos e sem outra aspiração senão a saciedade.

Nessas crises, enquanto a mediocridade torna-se atrevida e militante, os idealistas vivem desorbitados, esperando outro clima. Ensinam a purificar a conduta no filtro de um ideal; impõem seu respeito aos que não podem concebê-lo. No culto dos gênios, dos santos e dos heróis, têm sua arma, despertando-o, assinalando exemplos às inteligências e corações; podem diminuir a onipotência da vulgaridade, porque em toda larva existe, acaso, uma mariposa.

Os homens que viveram em perpétuo florescimento de virtude revelam com seus exemplos que a vida pode ser intensa e conservar-se digna; dirigir-se ao cume, sem encharcar-se em lodaçais tortuosos; encrespar-se de paixão, tempestuosamente, como oceano, sem que a vulgaridade turve as águas cristalinas da onda, sem que o brilho de suas fontes se torne opaco pelo limo".

Há perfil mais detalhado e preciso do homem medíocre e, em oposição, do idealista, do que este? Basta observar o comportamento de ambos, o que, convenhamos, é tarefa das mais fáceis, dada a imensa quantidade desses que o poeta Affonso Romano de Sant'Anna classificou, com muita propriedade, de "idiotas da objetividade".

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