Sunday, November 29, 2015

Desarmamento é necessidade óbvia



Pedro J. Bondaczuk


As potências mundiais intensificam movimentos no rumo de um desarmamento global que, se não for concretizado, tende a mergulhar a humanidade numa crescente violência --- maior do que a atual, que já é insuportável --- capaz de chegar ao paroxismo.

Somado ao fato, de como afirmou Sigismund Freud, o homem ser, por si só, por instinto, um animal violento, não falta motivo para que se lance mão de meios destrutivos para dizer um "basta" às injustiças e corrupções. Todavia, qualquer pessoa medianamente inteligente sabe, ou intui, as conseqüências dos atos de força.

Destruir não possui nenhuma ciência. Saddam Hussein e os 42 países que se opuseram a ele na guerra do Golfo Pérsico que o digam. Eles são especialistas em "demolições". Resta saber o quanto há de sinceridade, de verdadeiro e legítimo empenho das grandes potências em desarmar os povos. Afinal, o comércio de armas representa, por baixo, 30% de todas as transações comerciais do Planeta.

Que o mundo precisa se desarmar, e com urgência, é mais do que óbvio. Mas antes de tudo requer-se que se desarmem os espíritos. O norte-americano Paul Kennedy (que não tem nada a ver com o célebre clã de Hiannys Port, do Massachusetts), constatou: "Em 1985, as despesas militares mundiais chegaram a US$ 940 bilhões, muito mais do que a renda da metade mais pobre da população do Planeta. Esse gasto em armas aumenta mais depressa do que a expansão da economia global e da maioria das economias nacionais".

Um ano depois, o mundo passou a investir US$ 1,3 trilhão em armamentos, mais do que a totalidade da dívida externa do Terceiro Mundo, que anda pela casa do US$ 1,1 trilhão. Os recursos, por sinal esgotáveis, da Terra estão sendo desperdiçados, portanto, para a preparação do suicídio coletivo da humanidade. Afinal, as armas tem uma e somente uma única finalidade: matar.

A guerra do Golfo Pérsico, da maneira como foi noticiada, em especial pela mídia televisiva, certamente deve ter provocado uma considerável aceleração na corrida armamentista e, por ironia, justamente entre os povos mais pobres. E portanto compreensivelmente mais propensos à violência.

Em determinados instantes, algumas matérias, em canais de televisão, só faltaram dar aos ditadores no poder (e aos potenciais que o aspiram conquistar mediante golpes) o endereço dos fabricantes dos caças, tanques, mísseis e equipamentos bélicos de todas as espécies.

A pretexto de "ilustrar" as reportagens, eram fornecidas fichas técnicas completas desses armamentos, como se eles fossem a maravilha das maravilhas. Como se neles estivesse a grande solução para os problemas que afligem a humanidade, como a fome, o fanatismo, a ignorância, o analfabetismo, a exploração do homem pelo homem, as agressões absurdas à natureza, as doenças e tantas outras mazelas que tornam tão penosa essa fascinante aventura que é a de viver,

Só se os líderes mundiais, num ataque de esquizofrenia, estiverem pensando em resolver a questão da pobreza matando todos os pobres. O jornalista Eduardo Galeano adverte que só "o orçamento da Força Aérea dos Estados Unidos é maior do que a soma de todos os orçamentos de educação infantil no chamado Terceiro Mundo".

É preciso citar mais algum dado para mostrar que o desarmamento global é hoje, mais do que uma questão de bom senso, o comportamento mais óbvio que se espera desse ser que se diz racional? E por tudo isso, não é difícil entender o poeta Guilhermino César quando desabafa: "A civilização é uma coisa de mau cheiro/orgulhosa de seus pudores mecânicos/de sua baba erudita, de seus crimes/polidamente bem arrotados na Bolsa".

(Artigo publicado na página 15, Internacional, do Correio Popular, em 5 de junho de 1991).


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk   

No comments: