Tuesday, November 10, 2015

Incêndio depende do vento



Pedro J. Bondaczuk


O conflito do Golfo Pérsico, pelas dimensões que vem assumindo, tende a envolver novos países no confronto, como aliás aconteceu na Segunda Guerra Mundial, que começou com poucos oponentes e que no final, se não contou com a totalidade das nações participando, teve representantes de todos os continentes e regiões em armas.

O próximo a entrar na luta deve ser a Turquia, pelo fato de estar cedendo bases às forças aliadas para ataques aéreos ao Iraque. Por serem membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte, os turcos, caso se envolvam, arrastarão consigo os outros parceiros da aliança atlântica que ainda não se engajaram no confronto.

O Japão, ao enviar aviões militares para o Golfo, apesar do seu governo estar garantindo que eles serão utilizados apenas para a remoção de refugiados da zona, tecnicamente está entrando na guerra. O governo iraquiano, através de seu embaixador em Tóquio, comunicou, na quarta-feira, isto às autoridades japonesas.

O Irã, por outro lado, pela sua própria posição geográfica, não conseguirá sustentar por muito tempo sua neutralidade. Esta vem sendo assegurada pelo presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, um moderado pragmático, com postura se não simpática, pelo menos não muito hostil ao Ocidente.

Todavia, os radicais do clero xiita, que são maioria, já apregoam uma “guerra santa” aos ocidentais, em especial aos Estados Unidos e seus clamores se tornaram mais intensos depois que circularam notícias sobre ataques a um santuário onde está o túmulo de Hussein, o mártir da seita, cultuado como uma espécie de santo padroeiro pelos seus seguidores.

A despeito de iranianos e iraquianos terem travado uma longa e sangrenta guerra, de oito anos de duração, que vai deixar ressentimentos por décadas, interesses comuns tendem mais a aproximar os dois países do que as rixas a os separar.

Caso o Irã entre no conflito, bem como a Turquia, a União Soviética ficará exposta. Afinal, a superpotência do Leste tem uma extensíssima, e em geral tensa, fronteira com essas duas nações. Estaria aí completado o cenário trágico tendente a pôr em risco toda a humanidade.

Se esses desdobramentos – mais prováveis do que os políticos e estrategistas admitem, e eles já fizeram e falaram muita bobagem desde o início da crise – realmente se verificarem, o mundo estará tecnicamente envolvido na Terceira Guerra Mundial. O fogo já foi posto no capinzal seco. O tamanho do incêndio passa a depender agora somente da direção dos ventos.


(Artigo publicado na página 18, A Guerra no Golfo, do Correio Popular, em 27 de janeiro de 1991).

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