Saturday, November 28, 2015

Carisma patológico


Pedro J. Bondaczuk


Os estudiosos de psicologia detectaram, num estudo divulgado em 1986, nos Estados Unidos, uma patologia que afeta determinados líderes carismáticos, do tipo do iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini, ou do todo poderoso ditador líbio, Muammar Khadafy, que denominaram de "Complexo de Hubris-Nêmesis".

As recentes atitudes do presidente afastado, Fernando Collor, com as manobras para adiar o seu julgamento por parte do Senado, parecem indicar que o político brasileiro sofre desse desvio comportamental, mais comum do que se pensa.

Afinal, mesmo sem teer nunca justificado sua eleição, com mais de 35 milhões de votos, apesar das provas que se acumulam contra ele de crime de responsabilidade e de todas as evidências de culpabilidade existentes, apega-se ao poder, como se este fosse um "direito divino" que lhe tenha sido concedido.

"Hubris" é a pretensão de alguém de ser igual aos deuses, embora o possuidor desse desvio não admita que o tenha e muitas vezes procure mostrar uma humildade que de fato não possui. Nêmesis, por seu turno, era a deusa mitológica da vingança. Quando os deuses no Olimpo se irritavam com algum mortal que estava excedendo o seu destino, ela podia interferir nos assuntos humanos para restaurar o equilíbrio. Opunha-se, portanto, à Hubris e podia ser devastadora quando um homem manifestava tal pretensão.

Nesta rara patologia, contudo, as duas forças, que em geral se contradizem, se tornam uma única. Tal fusão, conforme os estudiosos da matéria, produz uma impressionante quantidade de energia de ambição. Como é que o complexo governa o comportamento dos seus portadores?

Em intensidades variadas, eles precisam apresentar-se como verdadeiros messias que têm um destino especial no mundo, no sentido de revolucionar a história. Isto não lembra um determinado "caçador de marajás"?

Os líderes atacados pela Hubris-Nêmesis, na maioria das vezes, propõem projetos monumentais e mudanças sociais que parecem construtivas e benevolentes para seus próprios conterrâneos. Abraçam elevados ideais para racionalizar a violência. Aparentam pretender que as metas morais prevaleçam sobre as materiais em seus esquemas. Medram na alta retórica apoteótica, na habilidade de transferir a responsabilidade para outros, na política da polarização. Exigem uma lealdade absoluta e uma atenção constante. E quanto maior for o público, tanto melhor será.

Quem tem esse complexo jamais tolera a possibilidade de ser ignorado ou de permanecer em segundo plano. Concorre até mesmo com os rivais "amigos", mais do que coopera com eles. Considera o compromisso e a acomodação como fraquezas.

O portador da patologia se recusa a ser humilhado por aliados ou inimigos, embora simule humildade para platéias seletas. Tais líderes gostam do desafio das chances ínfimas, de ameaças e de obstáculos. Prosperam os confrontos apenas para confirmar sua invencibilidade. Não são suicidas no sentido comum, mas desafiam a morte.

Pode haver um perfil mais parecido com tudo o que se conhece do presidente afastado, Fernando Collor? Caso ainda falte alguma coisa, pode-se acrescentar uma última característica dos que têm Hubris-Nêmesis: em condições extremas, podem preferir o martírio para não terem de se render ou se humilhar!!!

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 30 de dezembro de 1992).


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